sábado, novembro 28, 2009

Das Heranças do Passado aos Desafios do Futuro



Pedidas que me foram algumas breves palavras para testemunho pessoal sobre o 1º de Dezembro – data nobre da História de Portugal e dos Açores –, mais do que descrever agora, à repetição sabida, o narrativo episódico ou o factual provável de uma ou outra cena – cujo enquadramento, de resto, mereceria um demorado aprofundamento analítico –, mas ainda a propósito desta efeméride julgo ser mais útil e necessário pensar dentro da comemoração, recolhendo o que de essencialmente significativo o acontecimento em causa representou ontem, e bem assim aquilo que para nós, hoje, ele pode proveitosamente constituir.

Ontem, isto é, lá por 24 de Março de 1641, na Praia da Vitória, como tombou Ferreira Drumond, nos Anais da Ilha Terceira, a partir de um escrito de Frei Diogo das Chagas que – como aquele salienta – lhe legara “uma exacta relação dos acontecimentos que tiveram lugar nesta ilha”, e sendo que esse mesmo relato lhe pareceu “o escrito mais exacto de quantos [tinha] achado, sobre tal objecto” –, foi deste modo o assunto relatado:

– No dia 24 de Março de 1641, domingo de Ramos, Francisco d’Ornellas da Câmara, Capitão-Mór da então Vila da Praia, fidalgo da casa do Duque de Bragança (entretanto já aclamado Rei de Portugal em Dezembro de 1640, com o título de D. João IV),

”resolveu romper a voz da acclamação; e para isto, ás 10 horas da manhã saiu da egreja matriz de Sancta Cruz a camara municipal, acompanhada da nobreza, e clero secular, e regular da mesma villa, e grande quantidade de povo, em solemne procissão e com muita festa, e ceremonias usadas em similhantes actos, acclamou pelas ruas, e praças mais notaveis a voz d’el-rei D. João IV, em quanto os moradores daquella empregavam todas as demonstrações d’alegria, e completa satisfação, por ouvirem já publica a voz da sua liberdade, por que havia tantos annos suspiravam”.

Em causa estava pois a voz da liberdade, por tantos anos suspirada, e então ali pública e solenemente cerimoniada, aclamada e partilhada por Clero, Nobreza e Povo, sendo tal voz, como o texto identifica, a mesma ou símile da do próprio Rei, ouvida e reproduzida por ruas e praças em demonstrações de alegria e completa satisfação”, mas mais sendo que a rompida voz institucionalizada da Liberdade só ganhou, como sempre, completo e alegre eco e realização ao ser aclamada, quase como coisa sagrada, por um Povo que a ouviu, por ela suspirou e nela acreditou como se e porque de coisa sua e assumida se tratasse…

– Hoje, 368 anos volvidos, que exigentes e inovadoras vozes são aquelas que nos é dado lançar ao tempo ainda adiado de independência cultural e de autonomia integradora, de tanta coisa que ainda falta fazer, proclamar e assumir?

Francisco Ornelas da Câmara também trazia, à mistura com documentos do Rei Filipe, apreensivo com o assédio estrangeiro ou exterior às Ilhas, outra e mais ardilosa e pragmática documentação do recém-aclamado Rei de Portugal...

– E tal documentação, em resumo de argumentos, o que propunha aos já realmente derrotados ocupantes do mais estratégico lugar das Ilhas era uma espécie de cómoda passagem à reforma, com prebendas fartas em títulos e rendas, sendo que essa cedência à vontade expressa de mudança garantiria ao menos alguma paz social e uma quase natural passagem de testemunho “governativo”, ao mesmo tempo que pretendia reintroduzir uma alma regional legítima no corpo mesmo da fortaleza angrense...

A prudência mas também a firmeza e a coragem havidas por Ornelas da Câmara, ou que talvez um pouco mítica e generosamente lhe foram atribuídas por certa linhagem historiográfica…, até à consumação definitiva da justa ruptura e da subsequente movimentação restauradora da mais profunda historicidade dos Açores e de Portugal, sendo paradigmáticas de uma paciência histórica exemplar, de um tacto estratégico notável e de uma oportuna lucidez provada, devem pois valer ainda, nesta particular conjuntura civilizacional e histórica da nossa Pátria e da nossa Região, como sinais e pistas para enfrentarmos as heranças do passado, respondendo positiva e emancipadoramente aos desafios insulares do presente e do futuro, perante os riscos e as promessas de um País, da Europa e de um Mundo em rápida e nem sempre estabilizada nem segura transformação positiva.