sábado, outubro 29, 2011

As Janelas da Lusofonia



À semelhança do que tem acontecido em outras Revistas culturais e literárias portuguesas, no seu último número (1071, de 19.10-1 a 1.11.2011) o Jornal de Letras, Artes e Ideias (JL) dedicou a respectiva capa e parte substancial dessa tiragem à obra do autor de Os Lusíadas, a propósito destacando a anunciada e tão merecidamente aguardada publicação, pela Editorial Caminho, do novo e monumental Dicionário Luís de Camões, obra organizada pelo Prof. Vítor Manuel de Aguiar e Silva (distinto Académico, Investigador e um dos maiores peritos mundiais na área da Teoria e dos Estudos Literários), a quem – também por relembradas ligações familiares comuns à Praia da Vitória, aonde por estes dias tem lugar um Congresso da APEL e uma série de eventos integrados no “Outono Vivo” (http://www.outonovivo.com/) precisamente em VI edição e sob a égide temática da Lusofonia – felicito pela final concretização desse tão acalentado e precioso projecto para o estudo, conhecimento, ensino, cultivo e divulgação universal da Língua e da Cultura Portuguesas.

– Ora, ainda por esse especial ensejo editorial, nas páginas do JL foram publicados alguns apelativos extractos de Verbetes da obra (nomeadamente da nossa estimada colega, professora da Universidade dos Açores e já distinta camoniana, Maria do Céu Fraga); um sucinto Inquérito a diversos escritores e poetas; um ensaio sobre o ensino escolar e universitário de Camões, e bem assim e sobretudo, assinaladamente, uma muita sugestiva e elucidativa Entrevista com Aguiar e Silva, na qual são especificados o conteúdo, a estrutura, os critérios e a metodologia crítica que presidiram à organização do seu Dicionário.

De resto e para além do mais, merecem logo registo as exemplares palavras de evidente fascínio com que o organizador deste actualíssimo épico labor refere aquilo que sempre o atraiu na Lírica, tudo quanto continua a seduzi-lo hoje em Os Lusíadas e na magna obra de quem tão alto cantou tanto as gestas gloriosas como os fatais destinos da Pátria e da lusa Gente:

– “O poema é uma magnificente construção verbal, retórica e estilística, uma deslumbrante tapeçaria de mitos, símbolos e alegorias, uma espantosa apropriação intertextual de motivos, tópicos e estilemas, uma celebração jubilosa da glória das navegações e das conquistas, uma reflexão de surpreendente modernidade sobre os riscos e malefícios dessas mesmas navegações e conquistas e dos seus objectivos imperiais, uma denúncia corajosa e pungente dos abismos em que se afundava Portugal. O fulgor solar da gesta heróica e as sombras da noite que veio, como há de dizer Pessoa. Uma voz contraditória, agónica, sebasticamente utopista e angustiadamente lúcida”.

Todavia, outras e muito pertinentes considerações foram ali retomadas por Aguiar e Silva, no que concerne especialmente às potencialidades e à difusão educativa, histórico-cultural, estético-literária e linguística – com os respectivos e fundamentais modos de presença curricular, didáctico-científica e pedagógica – a privilegiar na obra de Camões, o mesmo podendo dizer-se afinal, em todas as Disciplinas e áreas do Saber, com e nas obras de todos os Clássicos, como Italo Calvino propunha, e tanto mais quanto é de recear, sublinha mesmo o Prof. Vítor Aguiar e Silva, que, no domínio presente, “boa parte dos professores não tenha adquirido no ensino superior a indispensável formação (…) para guiar os alunos a conhecer, a admirar e a amar Camões”…

– Porém, oxalá e progressivamente que tal deixe de acontecer em todos os espaços da Lusofonia e em todos os possíveis horizontes disciplinares, com autores Clássicos e/ou ainda não universalmente consagrados, quando ao menos os lerem, previamente os estudarem, trabalharem e procurarem compreender a fundo e criticamente, com eles convivendo amiúde e assim, madura e competentemente, podendo vir a transmitir a outros um sempre renovado e verdadeiramente fascinante sentido, por pequenino que seja (e aí depois, desse único modo, com métodos e conteúdos sólidos, motivadoramente aplicáveis também às tantas vezes ainda confusas estratégias das interdisciplinaridades insulares…), das grandes e históricas narrativas do Espírito, através da iluminadora visão que simples mas abertas e transparentes janelas (nacionais e regionais) poderiam modernamente ajudar a revelar e inspiradoramente espelhar da Humanidade inteira!
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Em "A União" (Angra do Heroísmo, 29.10.2011): http://www.auniao.com/noticias/ver.php?id=25791;
"Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 30.10.2011);
Outra versão: "Os Destinos de Camões", em "Diário Insular",
Angra do Heroísmo, 28.10.2011: http://www.diarioinsular.com/

sábado, outubro 22, 2011

As Sombras da Revolta


A semana que findou foi sem dúvida marcada pelas anunciadas e temíveis medidas governamentais de austeridade, previsão de cortes salariais e subsídios, penalizações tributárias, potenciação de nefastos efeitos no desemprego, despedimentos e falências, conjecturável recessão económica sistémica, etc., – tudo proposto ou decorrente do próximo Orçamento de Estado/Troika e nele plasmado pelo Governo PSD/CDS como mais um dos ditos frutos amargos das heranças, internas e externas, efectivamente recebidas ou tacticamente invocadas…

As reacções a tal torção do País e – também com algum recurso tardio, mas muito conveniente agora, diga-se… – às suas acrescidas expiações esburacadamente endossadas às Autonomias Regionais, não se fizeram esperar, vindas de quase todos os sectores, formações e classes sociais, e bem assim dos mais diversos agentes, atores, comentadores e analistas, politólogos e economistas (alguns destes, mais próximos dos puros e duros crânios da Escola de Chicago e alheios às determinações e fundamentos filosófico-políticos e ideológicos da Economia como Ciência Social, apenas compulsando cálculos e quantificações redutoramente economicistas e técnico-contabilísticas), sindicalistas desesperados, empresários e patrões aflitos, IPSS e ONG alarmadas, constitucionalistas e juristas divididos, movimentos cívicos indignados, intelectuais, filósofos e cientistas sociais em protesto, cidadãos em pânico, e – doutrinal e evangelicamente – a Igreja Católica!

Todavia, de entre todas as mais notáveis, paradigmáticas e controversas ou consensuais intervenções criticamente assumidas e que os OCS e as Redes Sociais registaram segundo perspectivas radicalmente opostas e/ou coincidentes, julgo merecerem destaque as seguintes:

     - D. Januário Torgal Ferreira (sem meias tintas de sermão ou missa cantada, fustigando os descomedimentos do Poder, do Governo e da Finança);

          - Boaventura Sousa Santos (na constatação da emergência da contestação e da explicitação da necessidade de uma alternativa profunda ao establishment político-constitucional, social e económico-financeiro vigente);

     - Bagão Félix (democrata-cristão, de consabida sensibilidade social, acentuando a injusta desproporcionalidade e falta de equidade nas bitolas fiscais preconizadas);

     - Mira Amaral (apelante abencerragem palavrosa da histórica baronia “social-democrata”, figura recorrentemente tutelar das mais recheadas e conspurcadas garagens de interesses e antigas carroçarias de prebendas bancárias e empresariais que ainda desgraçadamente enlameiam o presente e o futuro de certos expoentes do que resta do partido fundado por Sá Carneiro, e que, não há muito tempo sequer, distinguira-se novamente pela vulgaridade compulsiva do discurso político-partidário com que brindou uma sua companheira e adversária no PSD, a ponderável “velha senhora” Ferreira Leite…);

     - Gomes Canotilho (reconhecendo a possível inconstitucionalidade formal de algumas das excepcionais decretações agora impostas);

     - Bruto da Costa (com a sua objectiva análise, resistente coerência e profética denúncia social e ética dos riscos globais da galopante Pobreza em Portugal);

     - e finalmente (em acentuada e frontal fluência magistral!) o Presidente da República, Cavaco Silva, com o seu corajoso, muito crítico, precaucional e lúcido discurso ao Congresso dos Economistas (disponível em http://www.presidencia.pt/?idc=22&idi=58158), aplicando, específica e coerentemente à praça político-económica e societária lusas, perante a embasbacada e encolhida consciência da turma governamental e das formaturas partidárias que a suportam, aquilo mesmo que há semanas tinha análoga e incisivamente defendido, no Instituto Universitário Europeu de Florença, para a macro-escala económico-política europeia!

– E é assim que da atenta análise de todas essas intervenções e das circunstâncias e acontecimentos que as motivaram, para usarmos as metáforas biomédicas e existenciais tão usuais nestes dias de depressão e náusea nacionais, fica a evidente certeza de que nenhuma cura de nenhum mal poderá ser feita sem diagnóstico diferenciado e terapêutica holística, psicossomaticamente equilibrada e com regulação homeostática…, o que é o mesmo que constatar que a política financeira e a contabilística económica, quando exercidas à revelia da recta e superior ordenação do Bem Comum dos corpos sociais e contra toda a normatividade personalista e ética da Justiça, do Desenvolvimento Integral, da Solidariedade e da Liberdade, mais não suscitam, configuram e potenciam do que a cancerização de todos os tecidos e órgãos comunitários – leia-se sofrimento, injustiça, opressão, miséria, estagnação, ressentimento, violência, criminalidade… – e um crescente, daí resultante e legitimado direito à indignação, à revolta e (quando não até…) à Revolução, como as lições da História mostram e, muitas vezes, exigem mesmo.

Todavia – como acaba de lembrar Eduardo Lourenço, evocando europeias sombras, os riscos e os perigos “dos caos regeneradores, da mitologia do caos wagneriano e da defesa de que o caos regenera” –, não deve a justa indignação ser apenas usada como arma, porquanto ela é mais da ordem e da natureza dos sintomas

– Por isso é que, mais do que apelos à Revolução, o que deve advogar-se é uma outra Democracia, “o mínimo exercício dela” em tudo, a começar certamente também na vontade e no direito dos Povos, Nações e Regiões ao democrático exercício da rejeição daquilo e de quem os domina, explora e impiedosamente acabará por destrui-los!

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Publicado em "A União" (http://www.auniao.com/noticias/ver.php?id=25703) e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 23.10.2011) e "Azores Digital" (http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2160&tipo=col).
Outra e primeira versão em "Diário Insular": http://www.diarioinsular.com/ (Angra do Heroísmo, 22.10.2011).

sábado, outubro 15, 2011

Alegrias e tristezas políticas



A mais ou menos esperada confirmação da não recandidatura de Carlos César à presidência do Governo Regional dos Açores não colheu propriamente ninguém de surpresa, tanto mais quanto apelos a outras airosas saídas ético-politica e juridicamente consentâneas – aceitáveis e até mais do que desejáveis para um PS outro, confiante e consciente de si –, não tiveram acolhimento corajoso, para gáudio imenso, calorosos louvores e aliviados suspiros de insuspeitos adversários e permanentes meninos e meninas de coro e corte…

Todavia, certamente pesados bem interesses pessoais e os do PS, lá se optou por essa solução (conquanto de risco certo!), já brilhando mesmo nas ilhas uma girândola sobre os rumos do líder (mais provisório agora, a prazo definido e curto):

– E é assim que disjuntamente o vislumbram apenas na liderança do PS-A; na cadeira presidencial da ALRAA (conforme os recortes inimagináveis de uma improvável revisão constitucional…); na calha para a corrida presidencial da República (liricamente versejada por Alegre), ou, enfim, na expectativa de protagonismo mais nacional, com um regresso do PS em força à AR, ou a um executivo de bloco central (coisas de puro delírio, após a herança quase criminosamente deixada, e submissa e pateticamente consentida por escusado tempo e por tantos fadistinhas e comparsas da repulsiva figura desse nominal clone menor do sábio e do similar fado da Grécia (que já Eça a químicos papeis de nós tirou, berço antigo e parcial de uma ciclicamente desalmada Europa, a mesma que Soares e agora Cavaco tanto fustigam…) – e da sua vil regência nesta bipolar Nação (cada vez mais em asfixiante estado de choque, sítio societário e sonambulismo explosivo) que o governo de Lisboa, com a miserável ajuda de OCS, irresponsável e paranoicamente cada vez mais vai subliminarmente induzindo à arruaça e à insurreição violenta (e que só a lucidez da CGTP será, talvez, capaz de evitar!).

Mas quanto ao nosso Eça, sempre tão actual em “As Farpas” de Uma Campanha Alegre, onde, como ele diz, não há com efeito senão “uma transbordante alegria”, “um riso que peleja” – “Que peleja por aquilo que eu supunha a Razão. Que peleja contra aquilo que eu supunha a Tolice” –, releia-se, tristemente todavia, o que próprio constatou (já também…) em Janeiro de 1872:

– “Nós estamos num estado comparável somente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país caótico e que pela sua decadência progressiva poderá vis a ser riscado do mapa da Europa – citam-se, a par, Grécia e Portugal. Nós, porém, não possuímos como a Grécia, além de uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal, e o museu humano da beleza da Arte. (…) Como deve ser infeliz um rei inteligente (ou, hoje, qualquer Presidente digno desse nome…), quando, caído em cepticismo e misantropia pela certeza que adquiriu de que está no meio de uma pocilga política…”!

E quanto aos Açores, aos brindes, lágrimas de alegria, hipócritas reverências e inocentes ou quase evangélicas laudes – imagine-se! – pelo cumprimento da palavra, nada disso também é para admirar.

– Porquê, ou à custa de quem, é o que se comprovará depois…

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Publicado em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 16.10.2011), "Azores Digital" (http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2157&tipo=col) e "A União" (http://www.auniao.com/noticias/ver.php?id=25630).
Primeira versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 15.10.2011).




sábado, outubro 08, 2011

O Cardeal e as mãos da Política



Causaram sintomáticas reacções a diferentes níveis e género de vocabulário e discurso, as recentes declarações, em entrevista ao JN, do Cardeal Patriarca de Lisboa sobre a acção política directa tal “como ela é feita hoje”, sendo que, segundo D. José Policarpo, desse preciso contexto e definido campo “ninguém sai com as mãos limpas”!

– De facto e na sequência da manifestação de tal juízo, logo se multiplicou nos OCS e nas redes sociais toda uma série de comentários também bastante preenchidos por considerações provindas de algumas figuras e personalidades nacionais, regionais e locais, mormente da área político-partidária e jornalística...

Ora, como é sabido, a expressão “mãos sujas” (e/ou a antítese “mãos limpas”) tem sido paradigmática e historicamente usada em múltiplos registos e domínios discursivos (v.g. filosóficos, literários, estéticos, jurídicos, religiosos e morais), significando, real ou metaforicamente, toda uma fenomenologia da culpa e/ou uma espécie de violação, consentimento cúmplice ou atitude de transgressão de princípios ou de valores essenciais (nomeadamente os relativos à liberdade, à integridade do carácter, à honestidade na prática de actos, à autenticidade moral, à coerência entre os meios legítimos e a bondade dos fins, à transparência nas palavras e nas acções, à sinceridade, à verdade, etc.), estando ainda a mesma locução presente em obras literárias de pendor existencial reflexivo, como por exemplo no teatro sartriano de As mãos sujas (traduzido há anos para português por António Coimbra Martins) e no Camus de Os justos (também editado entre nós com um belo prefácio de António Quadros).

– E isto para já não falarmos nas conhecidas operações políticas, policiais e judiciais anti-corrupção que, por esse mundo fora, foram crismadas com similar código expressivo (bastando lembrar apenas as efectuadas no Brasil e as muito solicitadas e perdidas em Portugal, ou aquela famosíssima e italiana "Mãos Limpas" ("Mani pulite"), nos anos 90, que tentou sanear as finanças vaticanas das mafiosas golpadas bancárias e ambrosianas da Loja maçónica P2…

Porém, no caso actual, o que parece ter causado muita e maior indignação a alguns dos ditos e feitos (todos?) comentaristas – para além da ainda razoável crítica a uma possível (ou descuidada?) generalização inclusa no seu pronunciamento (o tal “ninguém”…) – foi o facto daquelas afirmações terem sido proferidas por um alto responsável da Igreja, – e vai daí foi um tal desancar na sua pessoa, na Instituição a que pertence e que também superior e responsavelmente representa, chamando-lhe (sem recuo sequer perante interjeições vulgares e ordinarices linguageiras!) de tudo e do pior, evocando-se à mistura velhas e consabidas misérias históricas reais do Catolicismo, discorrendo-se sobre calhas esquadrinhadas no mais serôdio anticlericalismo jacobino e maçónico, e fazendo-se superficial, ignorante e tendenciosa vista grossa ou distorcida sobre o inciso crítico, perfeitamente balizável e situado, que o discurso de D. José Policarpo comprovadamente contém:

– É que esse, de facto e ainda por cima, só se torna adequadamente interpretável por relação ao natural entendimento filosófico e antropológico da natureza ambígua de toda a acção política (e mesmo da pré-política, como o nosso antigo Reitor da UCP teorizava), tal como, aliás, saliento, acontece com toda a acção humana individual e com toda a própria história global da Humanidade e seus actos contingentes (enquanto e precisamente porque elas são formadas “pelas objectivações espácio-temporais da liberdade do homem, de uma liberdade empenhada e comprometida numa dialéctica de graça e pecado”…), como ele filosófica e criticamente elabora, lógica e consequentemente ainda enquanto teólogo e pastor, entre outros, no seu excepcional estudo Sinais dos Tempos (Roma e Lisboa, 1970/71).

Todavia tais pressupostos antropológicos e reservas éticas não podem nem devem implicar, nem solicitam – como também é bom ressalvar – o fomento do desinteresse, a alienação ou o resignado alheamento, pelos cristãos, da vida e da ordem sociopolíticas nas suas mais nobres, integrais e decisivas dimensões, sendo mesmo que, como a Exortação Christifideles Laici salienta, “As acusações de arrivismo, idolatria de poder, egoísmo e corrupção que muitas vezes são dirigidas aos homens do governo, do parlamento, da classe dominante ou partido político, bem como a opinião muito difusa de que a política é um lugar de necessário perigo moral, não justificam minimamente nem o cepticismo nem o absentismo dos cristãos pela coisa pública”…

– É claro que aqui e ali estamos em campos e universos conceptuais e existenciais completamente distintos, e assim o lamentável e fútil desconhecimento – pelos feitos e ditos comentadores – da pessoa, do pensamento e da obra do nosso Cardeal, não devia ter constituído gratuito móbil para tanta aversão anticlerical, parte dela a raiar até estilos de jacobinismo ou marteladas maçónicas de outrora…

E depois, ainda seria curioso (re)vê-los, a esses, noutras tribunas (políticas, jornalísticas e culturais…) menos esconsas ou ficcionais, mas em coerência de intenção radicada e idêntica verve, erguer semelhantes punhos e setas para bater, tão facilmente à distância ou à socapa, num velho académico e purpurado da Igreja em Portugal!

– Mas termino aqui:

Ainda não há muitos anos, na sequência de uma notável, exemplar e qualificada troca epistolar, depois vertida para livro com prefácio de Eduardo Lourenço, sobre o título de Diálogos sobre a Fé, Eduardo Prado Coelho escrevia a D. José Policarpo:

“O Meu Caro Amigo diz que desde sempre sentiu um desejo de pôr o diálogo em prática. Não tenho dúvidas. Se há algo que define a Igreja portuguesa, tem sido este clima relativamente recente como ela se integrou na democracia e como em muitos planos nos deu, a todos nós, verdadeiras lições de espírito aberto e dialogante. É natural que isto de faça de forma diferenciada conforme as personalidades, os lugares, as tradições e as responsabilidades. Mas a verdade é que a grande linha de orientação que neste momento domina é em muitos aspectos marcada por uma capacidade de ser positiva, afirmativa, expansiva – e isso merece de nós um aplauso unânime”.

– Boa ocasião porém e assim para um purificar de mãos, transparência de ideias e tino nas conscienciosas línguas de políticos, jornalistas e comentadores, tão pouco dignos afinal, nas suas cívica, eticamente (in)visíveis e impunes facetas… do Facebook!

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Publicado em: "A União" (08.10.2011): http://www.auniao.com/noticias/ver.php?id=25539,
"Diário dos Açores" (09.10.2011) e Azores Digital (http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2155&tipo=col).
Primeira versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 08.10.2011).

sábado, outubro 01, 2011

A alma e o corpo do PS

                                                            A consciência das dificuldades impede o facilitismo, enquanto
 a consciência das alternativas impede a autoflagelação".
                                                                                                                       BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS

A possibilidade da(s) recandidaturas(s) de Carlos César à(s) liderança(s) do PS-Açores e/ou a um novo mandato como presidente do Governo Regional, como é sabido, continua(m) a constituir motivo de tácitos silêncios externos e debates internos sobre os estados presente e futuro da vida regional, naquele e nos outros partidos, no Executivo açoriano, nos OCS e na opinião pública (aberta ou privadamente manifestada…).

– Porém, e embora uma provável decisão já tenha sido alegadamente tomada pelo próprio – e até mesmo hipoteticamente transmitida a um reduzido e confidente círculo de auditores, agentes, militantes e decisores políticos muito chegados –, talvez que a decorrente resolução final ainda não tenha sido definitivamente pesada, medida e irremediavelmente assumida por ele e por todas as partes, actores e parceiros interessados, muitos deles nem querendo sequer arriscar inequívocas tomadas de posição convincentes, solidárias ou demarcantes, com receio delas poderem vir a condicionar ou, pior, a colidir com o do seu indiscutível líder, – e tanto mais quanto César vai recusando que lhe passem (política e metaforicamente, bem entendido!) “certidão de óbito”, todavia enquanto também, aparentemente, não consente, não fomenta nem incentiva, qualquer sinal ou movimento catalisador da sua esperada reencarnação (como alma aglutinadora, estruturante e dinamizadora…) no corpo bastante desvitalizado, estrategicamente híbrido e fragmentário (sem ele e sem ela…) do próprio PS-Açores!

Ora tudo isto sendo perfeitamente compreensível contabilizando os naturais pressupostos da avaliação partidária, sociopolítica e eleitoral que Carlos César vem desde sempre fazendo, já assim não o será tanto tendo em vista os específicos e legítimos interesses do PS, porquanto, exclusivamente a partir destes, a permanência do seu actual líder, simultaneamente à frente da condução do partido e como recandidato à presidência de um eventual futuro governo açoriano, parece em absoluto potenciadamente necessária, tanto mais quanto os próximos embates regionais se afiguram difíceis e exigentes, a conjuntura (nacional e internacional) problemática e aos presumíveis (alguns somente presumidos!) herdeiros ou sucessores de Carlos César, com todos os seus defeitos e indesmentíveis talentos e qualidades, a uns já não resta tempo para ganhos de maior qualificação estadística e os outros ainda não a possuem… Assim, como é perceptível, os actuais dramas e opções do PS e de Carlos César residem precisamente aqui!

– E as oposições, de corpo e alma, sentindo-o também, impacientemente esperam tirar todas as vantagens de uma sua irreparável claudicação (equivalente a uma isomórfica abdicação sem retorno!), seja ela histórico-política, democrática e constitucionalmente imposta, ou antecipada e voluntariamente infligida como autoflagelação escusada.

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Publicado em "Azores Digital" e "Diário dos Açores" (02.10.2011).
Outra versão em "Diário Insular" (01.10.2011).