sábado, julho 14, 2012


Uma Tragédia Provinciana




Fernando Pessoa, numa parelha de textos exemplarmente polémicos sobre Portugal e os Portugueses, defendeu que, se quiséssemos, ou, como ele, “quisermos resumir numa síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo”, “igual doença [da qual] enfermam muitos outros países” e que o mesmo “consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela – em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz”.

Todavia, não se pense que o nosso grande poeta e pensador da Portugalidade e da própria existencialidade desassossegada do Homem – e das suas fragmentárias e fragmentadas dimensões ônticas, socio-históricas, civilizacionais e discursivas (talvez todas afinal originariamente decaídas, conquanto não sob uma redutora exegese e categorização do pecado original como alguns teólogos tentam desenhar a traços superficiais…) – se estava referindo somente a uma daquelas chamadas três camadas mentais, organicamente distintas e apenas em parte coincidentes “com a divisão em camadas sociais” em todo e qualquer País, e portanto também em Portugal. – Não! Aquilo que Pessoa diagnostica, caracteriza e classifica como de mais intrínseco ao caso mental português – o Provincianismo – atravessa transversalmente, como agora na gíria vigente é habitual ouvir-se dizer, todos os campos e partículas da vida e da semi-vida portuguesas, aí incluídas naturalmente as esferas políticas e as suas mais incríveis capacidades e talentos para a carambola…

– E depois, dessas camadas, afirmava Fernando Pessoa que as mesmas constituem ou entretecem a respectiva e específica vida mental do nosso país, estando assim estruturadas: “a camada baixa, a que é uso chamar povo; a “camada média, a que não é uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta que vulgarmente se designa por escol, ou traduzindo para estrangeiro, para melhor compreensão, por elite”).

Não sendo aqui o lugar apropriado para muito amplas e aprofundadas explanações críticas sobre a aludida tese pessoana, não consegui deixar de relembrar-me dela, ao ouvir, penosamente e outra vez, esse tal de Relvas, numa comissão parlamentar da República que temos em Lisboa, usando e inglesando provincianamente do termo adviser, para referir-se aos consultores, conselheiros, ou lá o que são da clarividente, estratégica e profética equipa do pai de todos eles e da sua governança, no que mereceu aliás um merecido e linguístico puxão de orelhas por parte de um parlamentar do PCP, pesem embora a reincidência do lusofonamente licenciado e burlesco ministro e a cobertura dos seus lances por parte de outro parlamentar, ao logo de seguida linguajar outros, não menos cosmopolitas, termos do mesmo quilate e quejando vocabulário técnico de yuppies, boys e demais managers da coisa pública que governa Portugal, pela mão férrea e pela calculadora soberana da estrangeira troika!

– Mas, em muitos casos, o uso – supostamente erudito ou especializado, de certos vocábulos, expressões e acrónimos (off-shore, CEO, benchmarking, rating, etc., etc.), se bem que já especialmente legitimado no universo discursivo provindo e reinante nas áreas das jovens ciências e modernos actores da economia política e da gestão da nossa actual falência e subserviência colectiva – também poderia ser detectado noutros campos aonde o seu expedito, provinciano, insólito ou enfatuado debitar ainda anda mais a par do encobrimento do sentido do que da desejável e rigorosa precisão da verdade!

Porém isso ficará para outra Crónica, mais regionalmente (de)cifrada…
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Publicado em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 13.07.2012),
“Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 14.07.2012),
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