terça-feira, outubro 09, 2012

As Lentilhas do Parlamento




Na Assembleia da República, quando da discussão parlamentar da última Moção de Censura ao Governo (apresentada pelo BE e pelo PCP), a deputada e vice-presidente do PSD, Teresa Leal Coelho, a dada altura da sua intervenção, bradou:

– “E para terminar pergunto apenas ao senhor deputado João Semedo [BE] se pode olhar nos olhos dos portugueses e dizer-lhes que este debate está a ser pago, está a ser financiado, não por um Moscovo soviético mas por uma Troika que financia os vencimentos de quem aqui falou” (sic)!

Ora este já famoso grito tribunício, que continua disponível em https://www.youtube.com/watch?v=uDYqjiiNhTQ&feature=player_embedded, sendo logo bem revelador de uma confrangedora emoção discursiva, chega mesmo a atingir as raias de uma inconcebível e intolerável falta de senso patriótico e de pudor político-parlamentar e pessoal (ali exemplarmente documentados e talvez só freudianamente explicáveis de maneira mais consentânea…).

– Todavia, o que acima de tudo e nesse cenário se revelou mais insuportável foi ver-se uma representante nacional – portuguesa! – querer amarrar (cerceando-o com o aceno da dramática e pendente hipoteca que vexativamente impende sobre toda a nossa Nação…) o direito à crítica tal como o BE a entendeu fazer – ou outra que fosse, independentemente até do respectivo conteúdo! –, tentando de seguida travá-la censoriamente, ou pretendendo submetê-la à tutela e – vamos lá, para sermos mais duros… – ao gosto, ou à paga, da ração que lhe(s) cai na malga parlamentar. Ou então, dito de outro modo, querendo fazer afinar as pautas (portuguesas, apesar de tudo), na Assembleia República, pelo tom, ou pela conveniência, da voz de comando dos donos ou dos capatazes (estrangeiros) que, provisoriamente (?), co-governam Portugal a meias com o desastrado Executivo de Passos Coelho e com a conjuntural e já periclitante maioria parlamentar que o suporta!

Na verdade, conforme tem sido salientado, o que está aqui primeiramente em causa, porque é politicamente desonroso para os Portugueses, é exactamente essa espécie de rendição cabisbaixa às imposições (a todas elas, e às vezes mais até do que a elas próprias…), a troco de um suposto merecimento de alguns pratos de lentilhas para a mesa do Parlamento e de mais alguns euro-trocos para o Povo (?) Português…




– E depois, é evidente que na trepidação saída daquele excitadíssimo peito “social-democrata” estava também presente uma outra vertente que – essa, sim – sendo político-ideológica e partidária mas nem sequer estando aqui em discussão, de resto, foi lá metida, conquanto de modo extemporâneo e historicamente abstruso, a primário, invertido e descabido talho de foice e martelo... Porém, nem é sequer tanto por isso que as vibrações e os agachamentos da dita deputada nacional – portuguesa… e logo da bancada do partido tão dignamente fundado por Francisco Sá Carneiro! – deixam de ser menos patéticas.

Todavia, que se há-de fazer, quando são desta qualidade os talentos parlamentares e os supostos e apregoados patriotismos das actuais classes dirigentes alfacinhas e das suas claques políticas europeias que – em Berlim, Bruxelas e Lisboa (ou ainda, recorde-se, lá pelas ruas de Paris, por onde se esgueira sorrateiro e calado, impune e expatriado, o outro nominal troca-tintas do figurão grego …) – tem vindo a reduzir a realidade e a imagem de Portugal, agora sob um novo Ultimato, à triste figura de uma pequena e pobre colónia recheada de caloteiros e agiotas, e que – por isso mesmo – apenas tem merecido ser governada, sem soberania nem crédito, sob um regime de humilhante protectorado, como se fosse um País e um Povo sem História, sem Pensamento, sem Personalidade, sem Cultura, sem Alma e sem Honra!?
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Em: “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 10.10.2012);
“Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 10.10.2012);