sábado, dezembro 08, 2012


As lições de Oscar Niemeyer






De entre todas as pioneiras obras concebidas nos anos 40 e seguintes do século XX por Oscar Niemeyer – o grande arquitecto falecido no passado dia 5 de Dezembro – conta-se o famoso complexo da Pampulha (em Belo Horizonte) que integra a Igreja de São Francisco de Assis (terminada em 1943, mas só canonicamente licenciada e benzida em finais dos anos 50!), uma Casa de Baile, um Iate Clube e um antigo Casino (actual Museu de Arte), – tudo inserido num conjunto arquitectónico concebido e construído em redor de uma límpida lagoa artificial e em harmoniosa convivência com jardins e passeios públicos, pinturas de Cândido Portinari, azulejos de Paulo Werneck e esculturas de Alfredo Ceschiatti, de tal modo que todo aquele projecto, tão modelarmente criativo e inovador, foi mesmo considerado pelo seu autor como inspirador para o posterior e arrojado “início de Brasília” (cidade concebida de raiz pelo urbanista Lúcio Costa e por ele próprio, em 1956, e depois inaugurada, em 1960, pelo presidente Kubitschek, como capital federal do Brasil).

Nascido no Rio de Janeiro (15.12.1907), Oscar Niemeyer, foi indiscutivelmente uma das mais representativas figuras da arquitectura modernista contemporânea, cuja produção estética edificada obedeceu a um geometrismo dinâmico, muito marcado pela predominância monumental de formas arredondadas, pela inserção dos volumes, perspectivas e planos numa envolvência espacial real ou artificiosamente ampla e aberta, pela utilização estilizada e pelo carácter mimético dos motivos geo-ambientais, naturais ou humanos seleccionados.

– Deste modo, todas criações de Niemeyer (também poeta, pensador crítico e etnógrafo…) ficaram marcadas por uma nunca renegada e compósita intencionalidade prática, axiológica, social, ideológica e espiritual, – dialéctica e diversamente assim detectáveis, por exemplo nos traçados do Museu Niemeyer, no Memorial da América Latina, no Palácio da Alvorada, na Sede do Partido Comunista Francês, na Catedral de Brasília, e … em Portugal, no Casino Park Hotel do Funchal, e em três outros projectos ainda engavetados na nossa penúria nacional e no nosso mais do que nominal, afunilado e fatídico subdesenvolvimento crónico: o algarvio Empreendimento Turístico de Pena Furada (1965), a nova sede da fundação Luso-Brasileira, ma Quinta dos Alfinetes (1991) e, enfim, o arrojadamente sonhado (por Berta Cabral, honra lhe seja feita!) Museu de Arte Contemporânea de Ponta Delgada (2010), projecto este talvez justificadamente protelado, porém tão incrivelmente incompreendido, ignorado ou esquecido por cá e no País…, até nos mesmos dias em que todo o mundo evocava o desaparecimento e a memória do grande arquitecto brasileiro, resistente político e comunista convicto e coerente!

Sem adiantar aqui e agora mais nada sobre a vida, a personalidade e a obra de Niemeyer – sobre tudo aquilo de que foi símbolo, lenda ou ícone, e sobre os sinais, os olhares e os textos açorianos que com os dele se cruzaram –, lamento hoje apenas o que, nos antípodas das suas leituras teóricas, da sua estética vanguardista e da sua pragmática da Arquitectura, por aí cresce e apodrece, amiúde ainda à sombra de três dos mais insidiosos domínios aonde grassam tantas das nossas recorrentes, medíocres e provincianas mistificações e atentados patrimoniais: a Cultura, a Arte e o Pensamento…
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Publicado em Azores Digital:
RTP-Açores:
e Jornal "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 09.12.2012):




























Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 08.12.2012).