sexta-feira, fevereiro 08, 2013

A Honra das Casas




Foi recentemente disponibilizada em vários novos sítios da Internet (nomeadamente em https://www.facebook.com/HistoriaDosAcores) uma magnífica Colecção de Fotografias de Casas Rurais terceirenses, inventariadas e avaliadas para eventual ou efectivamente concretizada demolição pelas forças britânicas da Royal Air Force (RAF) estacionadas na Base das Lajes durante a II Guerra Mundial.

O principal divulgador desta exposição nas redes sociais daquele precioso acervo histórico-documental – conforme deve ser devidamente indicado – é um cidadão terceirense (José Carlos Tristão), natural das Lajes e presentemente a viver nos Estados Unidos (Tracy, Califórnia), que refere, na sua página do Facebook (disponível em https://www.facebook.com/jose.c.tristao?fref=ts) tê-lo recolhido do “Sr. Ramalhinho das Lages”, mais informando ainda que as fotos, de “autor desconhecido”, foram digitalizadas pelo “Doutor Paim”.

Todavia, fazendo aqui um parênteses nosso, é de assinalar, mais rigorosa e apuradamente, que as referidas imagens pertenciam originariamente a álbuns ingleses – deixados em arquivos portugueses da Base das Lajes – que foram, felizmente, recolhidos por Francisco Martins Aguiar (o “Sr. Ramalhinho”), quando iam provavelmente já a caminho de alguma imprevidente e abusiva destruição na lixeira…

– Mais tarde, como sabemos, foram esses álbuns emprestados à RTP-Açores, onde foram digitalizados por recomendação do médico e nosso saudoso amigo Dr. Adriano Paim de Andrade, e por intermédio de quem, finalmente, chegaram outras cópias a José Carlos Tristão, seu empenhado e diligente último divulgador, como vimos.

Ora as imagens das reveladas construções (a preto e branco, com sépia nas rotulagens apensas) que constam dos belos retratos, foram praticamente todas captadas durante os anos de 1944 e 45, apresentando-se na sua maioria anotadas e datadas (algumas com indicação do dia e mês).

– Por outro lado e em conjugação, registando também muitas das fotografias a identificação dos proprietários dos prédios e a respectiva localização geográfica, é assim possível, a partir dos respectivos registos, mapear o perímetro dos terrenos aonde as referidas habitações, ou simples moradias e guaritas, estavam implantadas, a saber: as áreas envolventes e cercanias laterais e de enfiamento da futura (actual) Base Aérea das Lajes, na altura a ser construída precisamente nos terrenos daquela nossa gente do Ramo Grande…

E é assim que os prédios, a cujo levantamento geo-cadastral e destruição patrimonial os ingleses procederam após o seu desembarque com armas e bagagens na ilha Terceira (em 1943), se situam identificadamente em zonas, ruas e canadas da freguesia das Lajes (sempre ortografada “Lages”), Serra das Lajes, Santa Luzia, Juncal, Santa Rita e Serra da Praia, sendo – enfim… – que os respectivos donos ou moradores (pelo menos os daquelas propriedades que acabaram demolidas e das quais os donos foram forçosamente desalojados ou se viram desapossados) – acabaram depois por ser realojados em novos bairros circunvizinhos e ali criados em redor da gigantesca pista de asfalto então em implacável e imperioso crescimento administrativo-militar e político-diplomático, – num beligerante takeover da “moda da gasolina” que “Secou o trigo do chão”, e do “avião da carreira/ Carregadinho de bombas”, “Dando nicões de aço fino, / Traques de fogo de guerra!”…

Voltarei certamente – como já o fiz noutras abordagens mais académicas e várias vezes antes – a falar desta colectânea documental e do seu valor histórico-político, antropológico-cultural e sociológico, cujas virtualidades temáticas e de leitura científica e multidisciplinar são imensas!

– Mas, para já, o que aqui deixo é somente um convite para que o leitor observe, sinta e reflicta bem e a fundo na verdade dramática e inspiradora da importância memorial e projectiva da existência e destruição real e simbólica daquelas casas, e das almas e corpos que as rondaram em vida e simbolicamente povoam o nosso imaginário, na certeza do vasto e responsabilizante significado histórico-político, social, cultural e moral que ainda hoje tem para os nossos Açores, para a Terceira, para a Praia da Vitoriam, para a trémula soberania nacional e… para as tantas vezes alienadas honras de Portugal!
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Publicado em Azores Digital:  http://www.azoresdigital.com/,
e “Diário dos Açores”, Ponta Delgada, 10.02.2013.
Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 10.02.2013).