sexta-feira, abril 04, 2014


Bibliotecários da Humanidade


Publicado em Portugal nos finais do ano passado mas já na sua 3.ª edição (Lisboa, 2014), A Bibliotecária de Auschwitz é um livro da autoria de António G. Iturbe premiado a nível mundial e que tem granjeado merecida apreciação positiva, justificando mesmo, no “DN” a qualificação de “uma das leituras mais marcantes de todo o ano [2013]”, ou não se tratasse, de facto, como a respectiva editora o apresenta, de “um romance avassalador, hipnotizante, que toca o coração dos leitores”, baseado na história verídica de Dita Dorachova/Adlerova – então uma jovem checa de 14 anos, bibliotecária do Bloco 31 de Auschwitz-Birkenau –, com quem o autor teve agora, passados tantos anos, oportunidade de falar, para poder assim justamente resgatar do esquecimento “uma das mais comoventes histórias de heroísmo cultural”.


 – A heroína do livro, de seu nome verdadeiro Dita Kraus, hoje com 84 anos, sobrevivente ao Holocausto e vivendo actualmente em Israel, esteve realmente encarcerada em Auschwitz entre 1944-45 e é viúva do escritor italiano Otto B. Kraus (1921-2000), autor de A Parede Pintada, Terra sem Deus, Vento da Montanha e outros livros que abordaram também o fenómeno do Nazismo e o Holocausto dos Judeus, na linha de Primo Levi e Eli Wiesel.


A obra – rigorosamente documentada e cuja narrativa ultrapassa a mera ficção – conta de modo muito realista e pungente a vida naquele campo de concentração e extermínio, a suprema brutalidade dos guardas SS, dos oficiais alemães e comandantes militares e do sinistro e sádico médico Josef Mengele, cujas acções são contrapostas à coragem sofredora, à esperançosa audácia e à espantosa capacidade de resistência de Dita e de Fredy Hirsh (o instrutor judeu do Bloco 31), cujas vidas passadas e infância são intercaladas na narrativa.


– A história foi inicialmente recolhida por Iturbe no livro A Biblioteca à Noite do nosso já conhecido, e aqui em Crónica anterior também abordado, Alberto Manguel, conforme ele próprio confessou em Entrevista ao jornal “Público”, revelando o percurso feito e as respectivas referências seguidas:

“Alberto Manguel escreveu um Dicionário de Lugares Imaginários, mas esta obra é sobre bibliotecas que existiram de facto. É verdade que me surpreendeu muito quando, em poucas linhas, ele explica, que num barracão de Auschwitz – o lugar mais terrível que existiu –, conseguiram criar aquela que terá sido a biblioteca pública mais pequena do mundo, com apenas oito volumes. Mas, sim, acreditei completamente, porque o dizia Alberto Manguel e porque vi na bibliografia a fonte onde ele tinha ido buscar a informação, que era outro livro. Li este livro, com artigos sobre temas variados relacionados com Auschwitz, e havia umas 15 páginas sobre o campo familiar”. E assim, logo a abrir A Bibliotecária de Auschwitz, o autor cita Manguel:


– “Enquanto durou, o Bloco 31 (no campo de extermínio de Auschwitz ) albergou quinhentas crianças, vários prisioneiros que tinham sido nomeados ‘conselheiros’ e, apesar de toda a vigilância a que estava sujeito e contra todas as probabilidades, uma biblioteca infantil clandestina. Era minúscula: consistia em apenas oito livros, entre os quais Uma Breve História do Mundo, de H.G. Wells, um livro de texto russo e outro de geometria analítica [...]. No fim de cada dia, os livros, com outros tesouros, como medicamentos ou alguma comida que houvesse, eram confiados a uma das meninas mais velhas, que tinha o encargo de escondê-los todas as noites num lugar diferente”... Porém a esses, Iturbe acrescenta ainda, real e paradigmaticamente, entre alguns outros mais que ali existiram, um livro de Freud (Novos Caminhos da Terapia Psicanalítica), As Aventuras do Bravo Soldado Svejk de Jaroslav Hasek, um Atlas Universal, o Conde de Montecristo de Dumas, todos constituindo afinal um sinal de Esperança e um ícone de Humanidade, naquele laboratório de morte e ignomínia:


– “Dita olhava os livros, mas sobretudo acariciava-os. Estavam rasgados e riscados, manuseados, com cercaduras avermelhadas de humidade, alguns deles mutilados... mas eram um tesouro. E a fragilidade tornava-os ainda mais valiosos. Apercebia-se de que tinha de cuidar daqueles livros como se fossem velhinhos sobreviventes de uma catástrofe porque tinham uma importância crucial: sem eles, podia perder-se a sabedoria de séculos de civilização. A geografia, que nos mostrava como era o mundo; a arte da literatura, que multiplicava por dezenas a visa do leitor, o progresso científico, que a matemática representava; a história, que nos recordava de onde vínhamos e talvez nos ajudasse a decidir para onde deveríamos ir; a gramática, que permitia urdir os fios da comunicação entre as pessoas... mais do que uma bibliotecária, a partir daquele dia converteu-se em enfermeira de livros”.


Entretanto, numa longa e sugestiva Entrevista recente ao jornalista brasileiro Herbert Moraes, a própria Dita Kraus pronunciou-se comovidamente sobre o romance de António Iturbe, que todavia ainda não lera, afirmando que, apesar das reservas que o mesmo lhe colocava pessoalmente (“Primeiramente, porque me qualifica como heroína”), lhe diziam ser “um bom livro. Muito bem escrito. Daqueles que não se consegue parar de ler”...


– E tinha certamente razão! Até porque, apesar daquilo que tão tragicamente escreveu Adorno, depois de Auschwitz e de todos os Holocaustos da História, ou por isso mesmo, é que embora não seja mais possível toda e qualquer forma de Poesia inocente, certamente que caberá sempre à Literatura e ao Pensamento livres e comovidos, tentar impedir que eles se repitam às mãos de todos aqueles para quem a Humanidade vale tanto como um “lodaçal de corpos onde os vivos e os mortos não se distinguem, caídos por terra...”.
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 05.04.2014):






















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Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 05.04.2014):