sábado, outubro 24, 2015



Os Distintivos da SATA
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Para quem muito viajou e conviveu com a SATA – com os seus míticos pilotos, aeronaves, tripulações, funcionários e estruturas, pelo meio de descolagens e aterragens, ventos e nevoeiros, esperas e pernoitas, fugas ao caprichoso e às vezes traiçoeiro clima das ilhas –, a relação com essa companhia não é isenta de paixão, expectativas e (des)confianças, num ambivalente círculo de situações e geografias (ainda marcadas por angústias e turbulências “atmosféricas”, poços de ar, cegueira de radares e vórtices que nascem de oscilações conjunturalmente variáveis...).




– Ora neste contexto referira-se o quanto de real e simbolicamente está embarcado no redireccionamento e renomeação da SATA Internacional para Azores Airlines. Assim e atendendo somente ao novel e parabólico design – no momento em que imbróglios e inquirições pendem sobre projectos, dívidas e prestação de contas da empresa! – o que veremos doravante no seu bojo serão sintomáticos e emblemáticos cetáceos (baleias ou cachalotes, para o caso tanto faz).



É claro que desses distintos mamíferos (também ligados à memória e imaginação das fainas, ficções, caçadas, indústrias, sensibilidades e mercados neo-turísticos) muito haveria a expressar e contradizer, atendendo à equivocidade das suas figurações e díspares conotações.


– Deixando porém mais para diante tal exercício de simbologia aplicada, ficaremos hoje apenas na lenda de Jonas e na alegoria do Moby Dick de Melville, mas sem esquecer o paralelo e potencial sentido, disforme e ameaçador, do Leviatã – tudo coisas que os padrinhos e madrinhas da SATA porventura ignoram ou terão descurado, lá pelos subidos ares e fundos mares que os seus aparelhos e máquinas cruzam (certamente com gente conformando-se aos novos esguichos, barbas, entranhas, vísceras e espermacetes daqueles herdeiros dos pássaros da velha companhia), esses que hibridamente voarão para destinos incertos, elegantes mas travestidos ou tatuados com pesados cetáceos, à semelhança do resto que nos rodeia, porém de barbatanas roídas (“caudas de palha”...) e olhos falidos nos abismos (empresariais e não só...) que nos cercam, com os “vigias da baleia” dormindo na falésia...
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Em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 24.10.2015):





























Azores Digital:


















e RTP-Açores (no prelo).

segunda-feira, outubro 19, 2015



As Baleias e o Leviatã
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Cerca de seis anos após ser concebida e planeada como pioneira Sociedade de Estudos aeronáuticos, aeroportuários e de transportes aéreos indubitavelmente situada na conjuntura daqueles conturbados, desafiantes e promissores tempos, cenários e horizontes que marcaram os Açores no início da II Guerra, e depois efectivamente concretizada em meados dos anos 40 do século passado (1947) como Sociedade Açoriana de Transportes Aéreos, pode dizer-se que a SATA determinou desde então as ligações inter-ilhas, constituindo referencial do quotidiano e presença viva no imaginário dos nossos transportes, de modo só comparável ao dos navios e iates que antes sulcavam os mares das ilhas. Comprada depois, em 1980, ao Grupo Bensaude, a SATA passou de companhia privada a empresa regionalizada/nacionalizada, e com nova designação (Serviço Açoriano de Transportes Aéreos) mas sob o mesmo acrónimo, viu as suas acções e responsabilidades de serviço público serem divididas entre a TAP e Governo regional.


– Ora para quem muito viajou e conviveu de perto com a SATA, com os seus míticos pilotos, aeronaves, tripulações, funcionários, escritórios exíguos e progressivamente modernizados, a par de descolagens e aterragens, por entre ventos e nevoeiros, esperas de aeroporto, reservas e acomodamentos e redireccionamentos, com pequenas e grandes fugas por entre abertas e fechos do caprichoso e às vezes traiçoeiro tempo das ilhas atlânticas, a relação com essa companhia não é isenta de uma certa paixão, de expectativas e confianças, de um certo ambiente de família, proximidade de sentimentos e partilha de condições de vida, apesar de algumas angústias, desencantos e desilusões (algumas motivadas pelos muitos poços de ar e descaminhos e indefinições que estão na base e decorrem de oscilações de uma Política Aérea pouco transparente, pouco racional, incoerente e amiúde até pouco justa).
Por outro lado, os felizmente raros mas dramáticos e traumáticos acidentes com os seus aviões ainda mais solidificaram os laços que memorialmente ligam as ilhas e o nosso povo à SATA, fazendo crescer um envolvimento singular, simbolicamente identificativo, que gerou mecanismos de confiança – por assim dizer, uma certa açorianidade em viagem (dentro dos Açores e fora deles, por e para todo o mundo onde vão ou de onde regressam os Açorianos) –, quase com sentimentos tácitos e julgados maiores direitos de acolhimento, expectativas de solidariedade e mesmo alguma esperança (conquanto nem sempre correspondida!) de união de esforços e partilhas de pátria ou expatriação...

A sobra das notáveis (e também das infelizmente trágicas) histórias da SATA é mais ou menos conhecida, e não vale a pena, nem é propósito desta Crónica, tratá-las hoje, muito embora muitas das peripécias a que estamos assistindo hoje pudessem ser bem mais claramente situadas, explicadas e compreendidas à luz dos percursos, rotas e cumplicidades em escala e cadeia... – de onde ninguém poderá atirar primeiras pedras às rodas e trens da empresa... – dessa e de outras “parcerias” mais ou menos “estratégicas”, envolvendo nomeações, administrações, gestão, negócios, financiamentos, subsídios e políticas, favores e escolhas de ocasião e conveniência, jogos de gabinete e secretaria, corredor, cabine, porão, lobbies profissionais e técnicos, concorrências e concursos e vagas e promoções, etc., – como cada vez é mais evidente aos olhos de quem por aí quiser observar (e sindicar) a fundo, em terra e no ar, onde dos serviços e amabilidades do velho slogan da SATA às vezes já pouco resta por esses balcões e voos adiante e atrás, nas ilhas e na diáspora, onde a alguns yuppies e fedelhos e fedelhas de gravatinha, farda e calças de fino toque mas pouca transparência, civilidade e cortesia, melhor fora que os chamassem ou despedissem um a um...
– Mas pior do que isso é a criminosa e demencial audácia de quem veio agora (impunemente!?) propalar a existência (fictícia ou real?) de gravíssima insegurança potencial (e de esterco pouco higiénico alegadamente à mistura) nos aviões da SATA onde todos viajamos à guarda e ao zelo exigíveis a todas as companhias de aviação, sejam elas privadas ou públicas, porém aqui sem que a verdade tenha sido radicalmente apurada e a confiança reposta, antes que as nossas asas e o chão que pisamos mais se confundam e invertam!


Neste contexto – e talvez bem mais real e figurativamente ligado a tudo o que aqui dizemos... – não posso finalmente deixar de referir o quanto directa e indirectamente decorre, ou pode deixar transcorrer, da recentíssima e última iniciativa da SATA, ao renomear o seu desdobramento de SATA Internacional para Azores Airlines (o que obrigará por certo a repintar/redecorar/reeditar todas as aeronaves nesse serviço, e bem assim, provavelmente, todo o material icónico ligado à mesma frota), com certeza em obediência a calculados, estudados, orçamentados e opcionais ditames rentabilizadores e com prioridades comerciais e técnicas sérias, a custo/benefício calculado para o marketing, a imagem e as promoções decorrentes... No essencial, e do aparatoso e novel grafismo e respectiva reelaboração integrada, portanto, o que veremos doravante no bojo dos aviões da Azores Airlines (SATA?) será uma gigantesca baleia (ou cachalote, para o caso tanto faz) cuja concepção estética (ao menos esta...) é bastante discutível, de todos os pontos de vista.


É claro que desse gigante dos oceanos – mamífero marinho muito ligado à ancestral história das fainas, ficções literárias, belos artesanatos, caçadas arrojadas, indústrias desaparecidas, hodiernas sensibilidades ecológicas e observações neo-turísticas nos mares e faunas dos Açores, pelos Açorianos e pelos tão desejados, necessários e putativos visitantes nacionais e da estranja – muito haverá que se lhe diga e contradiga, conforme a perspectiva, não fora a diversidade e mesmo o contraditório e – claro, para bom ou mau entendedor – ainda a inerente equivocidade simbólica daquela figuração, carregada que está de muitas e díspares conotações, como devia saber-se com prudência e arte dos signos...


– Todavia, ficará esse exercício de simbologia aplicada (a um terreno que é também económico-empresarial, financeiro, técnico-operacional e de mercado), para outra ocasião, enquanto por hoje ficaremos apenas reflectindo na lenda bíblica de Jonas e na confluente alegoria do Moby Dick de Melville, mas sem esquecer o paralelo e potencial sentido oposto, disforme e aterrador, do Leviatã, – tudo coisas que os imaginativos ilustradores da Azores Airlines porventura ignoram ou terão descurado, e que os seus administradores, gestores, “public-relations” ou agentes de marketing muito pouco terão levado em sabida conta, lá para os altos ares e fundos mares que os nossos aviões vão cruzar, com muita gente acomodando-se aos esguichos, barbas, entranhas, vísceras e espermacetes daqueles tecnologicamente avançados irmãos (?) dos belos e saudosos pássaros açorianos das brilhantes e solares asas da antiga e elegante SATA, – esses que agora hibridamente vão voar travestidos de pesados cetáceos, à semelhança de tudo o resto que nos rodeia, com barbatanas roídas e olhos fixados nos abismos que nos cercam no ar, no mar e em terra também!
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Em "Diário dos Açores",
Ponta Delgada, 20.10.2015:


sábado, outubro 17, 2015



No Ar e em Terra
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Cerca de seis anos após ser concebida e planeada sob cenários e horizontes que marcaram os Açores no início da II Guerra, e depois concretizada em meados dos anos 40 do século passado (1947) como Sociedade Açoriana de Transportes Aéreos, pode dizer-se que a SATA marcou desde então todas as ligações inter-ilhas, constituindo referencial do quotidiano e presença viva no imaginário dos nossos transportes, de modo só comparável ao dos navios e iates que antes sulcavam os mares das ilhas.

– Comprada em 1980 ao Grupo Bensaude, a SATA passou de companhia privada a empresa regionalizada/nacionalizada, e com nova designação (Serviço Açoriano de Transportes Aéreos) mas sob o mesmo acrónimo, viu as suas acções e responsabilidades de serviço público serem divididas entre a TAP e Governo regional.

O resto das suas histórias é mais ou menos conhecido e não vale a pena, nem este é o propósito desta Crónica, tratá-las hoje, embora muitas das peripécias a que estamos assistindo pudessem ser bem mais claramente situadas, explicadas e compreendidas à luz dos percursos, rotas e cumplicidades dessa e outras “parcerias” mais ou menos ditas “estratégicas”, envolvendo nomeações, administrações, gestões, negócios, financiamentos, subsídios e política, favores e escolhas de ocasião e conveniência, jogos de gabinete e secretaria, corredor, cabine, porão, lobbies profissionais e técnicos, concorrências e concursos e vagas e promoções, etc., etc., – como cada vez é mais evidente aos olhos de quem por aí quiser observar (e sindicar) a fundo, em terra e no ar, onde dos serviços e amabilidades do velho slogan da SATA às vezes já pouco resta por esses balcões e voos adiante e atrás, nas ilhas e na diáspora, onde a alguns yuppies e fedelhos e fedelhas de gravatinha, farda e calças de fino toque mas pouca transparência, civilidade e cortesia, melhor fora que os chamassem ou despedissem um a um...

– Mas pior do que isso é a criminosa e quase demencial audácia de quem veio agora propalar a (fictícia ou real?) insegurança dos aviões onde todos viajamos, sem que a verdade seja radicalmente apurada e a confiança reposta, antes que as nossas asas e o chão que pisamos mais se confundam e invertam!
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e "Diário Insular", Angra do Heroísmo (17.10.2015):



























Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=3043:























e "Diário dos Açores" (no prelo).

sexta-feira, outubro 16, 2015


Svetlana Aleksievitch:
Desenganos da Utopia
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A atribuição do Prémio Nobel 2015 da Literatura à escritora Svetlana Aleksievitch chamou a atenção do mundo para uma obra singular, que tem vindo a ganhar crescente notoriedade na Europa, não só pelo seu carácter propriamente literário, vertente ensaística e estilo narrativo quanto também pelos conteúdos da problemática sociopolítica, cultural e filosófica que a atravessa e profundamente modela.


Nascida em 1948 na Ucrânia, então pertencente à URSS, o difícil (e arriscado...) trabalho de Svetlana Aleksievitch, mormente através da recolha de entrevistas, arquivo de confissões e registo de histórias de vida, oscilando sempre entre textos profundamente realistas (alguns quase surrealistas e para-ficcionais de tão cruamente contados...), numa espécie de investigação antropológica de campo que é igualmente um talentoso misto de pesquisa etnológica e de reportagem jornalística –, tem vindo a permitir-lhe abordar (denunciando...) a experiência histórica, ética, espiritual, ideológica e psico-existencial da chamada era pós-soviética e das verdadeiramente traumáticas implicações modernas e contemporâneas que as suas mais relevantes fracturas sociopolíticas (Perestroika), ambientais (Chernobyl), bélicas (Guerras Mundiais, Afeganistão e Chechénia), institucionais e morais, atingindo quase todas as classes, camadas e etnias populacionais da extinta URSS, provocaram na dramática reconfiguração destinal e simbólica do “homem soviético” da sua mentalidade e desencantos “saudosistas”, patrióticos ou nacionalistas, num quadro – digamos – de “ocidentalização” pelo pior, por entre derivas juvenis, “boom” consumista, guetização e proliferação de drogas, violências urbanas, manifestações racistas e iconoclastas, – enfim –, de todos os mitos soviéticos, pós-soviéticos e... neo-soviéticos, essencialmente irmanados com os vícios, perversidades e taras seculares e mundanas (e metafísicas!) de um Ocidente decadente e impotente em sua cancerígena e já universal podridão...



– E é evidente que, neste caso, para Svetlana Aleksievitch, tais motivos próximos foram e são ainda, entre outros, o regime de Loukachenko e o voraz czarismo neoimperial de Putin (como escreveu em 2014 no Le Monde, a propósito da anexação da Crimeia e do “histerismo” neonacionalista russo); as causas dos descendentes das purgas estalinistas e do actual controlo, instrumentalizações e propagandas dos media; as vítimas do Gulag; as aberturas da era Gorbatchev; o golpe de 1991; a acumulação neocapitalista das grandes fortunas, monopólios e grémios empresariais; a criação dos gangs mafiosos russos e seus ajustes de contas criminosos; o desemprego dos universitários ou a sua única sobrevivência possível no mercado dos pequenos serviços, trabalhos no comércio ou em biscates precários, e a global degradação das condições de vida, saúde, habitação, educação, etc.  





Porém, acima de tudo e paralelamente a tudo isso (amiúde por isso mesmo!), Aleksievitch tem testemunhado na sua obra todo um universo de fixações utópicas naquele passado “comunista” (soviético), conquanto objectivamente perdido e volatilizado hoje, porém re-activo e constatável nos interstícios do desenvolvimento sofredor (pático e amiúde patológico) de mecanismos compensatórios e ilusórios (ressentidos, frustrados e desenganados), ao mesmo tempo quase delirantes, regressivos e até suicidários, conforme os seus livros vem revelando, desde 1983-85 (com o impressionante repositório narrativo de vivências de soldados e testemunhos femininos da II Grande Guerra) até ao O Fim do Homem Soviéticoúnica publicação sua traduzida em português, na Porto Editora, por António Pescada –, obra vencedora do Premio Médicis Ensaio e Livro do Ano escolhido pela Revista Lire, em 2013.


– “Escrevo a história das almas”, assim se exprimia num depoimento concedido a Michel Eltchanioff (antigo professor universitário, especialista em Dostoievski e actual chefe-de-redacção adjunto da Philosophie Magazine), onde a bielorrussa, após recordar a infância, formação universitária e intelectual, leituras e primeiros ideários e influências ideológicas (Gramsci, Freud, Nietzsche, Adamovitch), caracteriza o método da sua escrita por relação ao mundo que lhe tem sido dado viver, sofrer e observar, deste modo: 

“Não procuro – diz, recusando assumir tanto o papel de jornalista como o de historiadora – produzir um documento mas esculpir a imagem de uma época. É por isso que levo entre sete a dez anos para redigir cada livro. Registo centenas de pessoas. Torno a ver a mesma pessoa várias vezes. Com efeito, é preciso, antes de mais, libertá-la da banalidade que ela possui”, como se se tratasse de um mal que ela tenha, ou tivesse, em si mesma ou por si própria...


Ora é certamente por essas marcas narrativas (e éticas!), onde tantas vozes se erguem e cruzam, que a Academia Sueca lhe atribuiu agora um Nobel, mais salientando o carácter polifónico de uma obra que pode ser vista como “um memorial ao sofrimento e à coragem na nossa época”. De resto, segundo me parece, os livros desta escritora deveriam valer também para a elaboração de uma complementar perspectivação daquilo a que François Furet chamou de O Passado de uma Ilusão – Ensaios sobre a Ideia Comunista no Século XX, que aliás e já de si, de certo modo, parafraseava, para analogar sob um fundo comum, muito daquilo que pode estar na base de fenómenos próximos como o totalitarismo, o fanatismo, o fascismo, o militarismo, outras e demais pulsões de morte pessoal e colectiva, e poder de Estado e Vontade de Poder, Destino e Cultura, Violência e Civilização, Crença, Utopia e (des)Ilusão, e Desengano, como na famosa obra de Freud O Futuro de uma Ilusão...


Finalmente, da obra de Svetlana Aleksievitch poder-se-á dizer que nos traz não só um retrato trágico da grande História e da Ideia do “comunismo”, tal como foram historicamente tentados na falhada experiência soviética, como também nos revela o interior existencial, concreto e real das pequenas histórias individuais da vida de cada um dos milhões de homens que acreditaram num (nesse?) Ideal de Humanidade nova e “reconciliada consigo mesmo”, como teorizava Marx, – sonho imemorial de uma sociedade justa e perfeita, desejo afinal latente naquele subconsciente ideologicamente construído e condicionado e hoje ainda nostalgicamente latente no heróico e messiânico Povo russo, mesmo face ao fracasso, ou pelo próprio falhanço, do modelo real de sociedade e de regime politico-historicamente impostos e/ou assumidos, com temor e terror concentracionários também, na URSS e seus domínios ou satélites, conforme Aleksievitch espantosamente revela à luz crua da realidade ou da sua negação!


– Assim, nos tempos conturbados que vivemos, a obra de Svetlana Aleksievitch contém tanto um aviso de perigo como uma esperança realista, quer para quem nunca acreditou como para quem sempre sonhou e confiará nos valores civilizacionais de um projecto outro, humanista e humanizante, face a tudo o que degrada o Homem e aliena a prudente rectidão reguladora das unicamente necessárias utopias integrais que podem fazer avançar o Mundo, crescer a Justiça e assegurar a Liberdade.
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Em "Diário dos Açores", Ponta Delgada (17.10.2015):



sexta-feira, outubro 09, 2015

Utopia e Desenganos
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A atribuição do Prémio Nobel 2015 da Literatura à escritora Svetlana Aleksievitch chamou a atenção do mundo para uma obra singular, que tem vindo a ganhar crescente notoriedade na Europa não só pelo seu carácter propriamente literário e estilo narrativo quanto pela problemática sociopolítica, cultural e filosófica que a atravessa e profundamente modela na vertente ensaística.



– Nascida em 1948 na Ucrânia, então pertencente à URSS, o seu difícil (e arriscado...) trabalho de pesquisa e escrita (mormente recolha de entrevistas, arquivo de confissões e registo de histórias de vida), oscilando sempre entre textos profundamente realistas (alguns quase surrealistas e para-ficcionais de tão cruamente contados...), numa espécie de investigação antropológica de campo, misto de pesquisa etnológico-civilizacional e de reportagem jornalística –, tem vindo a permitir a Svetlana Aleksievitch abordar, denunciando, fundamentalmente a experiência histórica, ética, espiritual, ideológica e psico-existencial da chamada era pós-soviética e das implicações que as suas mais relevantes fracturas sociopolíticas (Perestroika), ambientais (Chernobyl), bélicas (II Guerra Mundial e guerra do Afeganistão) e institucionais (nomeadamente o regime de Loukachenko e o novo czarismo imperial de Putin), atingindo todas as classes e camadas populacionais da extinta URSS, provocaram na dramática reconfiguração destinal e simbólica do chamado “homem soviético”, na sua mentalidade e desencantos patrióticos ou nacionalistas, porém acima de tudo na sua fixação “utópica” num passado “comunista” perdido e volatilizado, 



– naquilo que afinal se traduz no desenvolvimento sofredor (pático e amiúde patológico) de uma série de mecanismos compensatórios e ilusórios (ressentidos, frustrados, desenganados mas ao mesmo tempo quase delirantes e regressivos), conforme todos os livros de Aleksievitch o revelam, desde 1985 (sobre testemunhos femininos da II Grande Guerra) até ao mais recente O Fim do Homem Soviético (único livro seu traduzido em português, obra vencedora do Premio Médicis Ensaio e Livro do Ano escolhido pela Revista Lire em 2013), títulos de uma obra muito apelativa e à qual voltaremos aqui.
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 10.10.2015):








sexta-feira, outubro 02, 2015


Um Tratado Histórico
e Político-Eleitoral
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Quando no ano de 64 a.C. o notável retórico, advogado, político e filósofo Marco Túlio Cícero (03.01.106 a.C. – 07.12-43 a.C.), então com 43 anos, resolveu candidatar-se ao alto cargo de cônsul da República Romana, o seu irmão – Quintus Tullius Cícero – terá achado por bem escrever para uso dele (e bem ao clássico e sempre actual estilo de ad usum delphini) um elucidativo manual político, guia ou carta recheada de conselhos, truques e expedientes pragmáticos sobre como orientar a sua propaganda eleitoral...


– Intitulado Commentariolum petitionis e também conhecido como De petitione consulatus, conquanto a respectiva autoria não seja unanimemente atribuída ao próprio Quinto Cícero, esse modelo de tratado de estratégia político-eleitoral (que é ao mesmo tempo um documento histórico e um filosófico ensaio pessimista sobre a natureza humana...) foi recentemente reeditado entre nós em publicação bilingue (Latim e Português) feita a partir da tradução inglesa da obra por Philip Freeman (How To Win an Election: An ancient guide for modern politicians).


A nova versão portuguesa deste texto, realizada por Pedro Saraiva (Lisboa, Gradiva, 2015), traz o título de Como Ganhar Eleições: Um Guia Clássico para Líderes Actuais e inclui igualmente – tal como aquela edição-fonte usada, que é de 2012 (da Princeton University Press, omitida da ficha), e também da autoria de Freeman – uma Introdução, uma Observação (“relativa à tradução para inglês”), uma nota sobre O resultado das eleições, um Glossário e um breve repertório de Bibliografia “para saber mais” (“Further Reading”).


– De resto, relembre-se, esta mesma obra latina, em conhecida edição de bolso, já havia tido uma anterior edição portuguesa, na qual incorrectamente se afirmava que o título “original” (sic) da mesma era Petit Manuel de Campagne Électorale, naquilo que foi julgado como uma “completa fraude”, conforme assinalou António Rocha da Silva na sua Tese de Mestrado em Estudos Clássicos apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (2010) sob orientação da Prof.ª Maria Cristina de Sousa Pimentel:


– Trata-se, aqui, de um minucioso trabalho académico, compreendendo uma outra tradução portuguesa integral e crítica da referida obra latina de Quinto Túlio, e que vem acompanhada de “um conjunto de notas que visam esclarecer aspectos civilizacionais e prosopográficos importantes para a plena compreensão do texto por parte de um leitor do séc. XXI, em geral, e infelizmente, bastante afastado dos realia do mundo romano”.


Ora o Commentariolum petitionis daquele tão impiedoso e cruel (quanto premonitório e paradigmaticamente maquiavélico...) irmão do grande, exuberante e ambicioso orador e político Marcus Tullius Cícero – ele próprio emanação e reconhecido espelho de uma época instável e turbulenta, como bem é reproduzido na interessante edição agora lançada em Portugal – e logo numa conjuntura eleitoral inspiradora de leituras sobre as várias fortunas e infortúnios que bem quadram e decorrem das propostas cinicamente arquitectadas, ou apenas realisticamente constatadas em tão desmistificadora e pessimista narrativa! –, traz-nos um retrato humano (uma caricatura sociopolítica, ética e moral...), e traça-nos um expressivo cenário histórico, simultaneamente realista e céptico, que é revelado através de “fragmentos intemporais de sabedoria [sic] política, desde a importância de prometer tudo a todos até à evocação de escândalos sexuais que envolvem os adversários, passando por se ser camaleão, dar um bom espectáculo às massas e rodear-se sempre de apoiantes acérrimos.


“ (...) Todo e qualquer idealismo ou ingenuidade são [ali] postos de lado quando Quinto fala ao irmão – e a todos nós – sobre a forma baixa e suja como realmente se processa uma campanha eleitoral vitoriosa.


“ (...) É fascinante verificar que, tendo a República Romana desaparecido há dois mil anos, e apesar de todas as mudanças entretanto ocorridas, está tudo na mesma”...


– Assim, por todas estas razões, mais aquelas recorrências que o leitor de certeza deliciosamente identificará naquela época – e mais dramaticamente ainda reconhecerá nos discursos e práticas das respectivas e reais réplicas contemporâneas... –, é esta uma leitura propiciatória de profunda reflexão crítica, para estes chuvosos dias e noites de campanhas eleitorais e expectativas políticas que só o futuro dirá aonde levarão, por entre tantas das continuadas ou adiadas (des)esperanças do País inteiro e as muitas, históricas e cansadas (des)ilusões do Povo!


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Em “Diário dos Açores”
(Ponta Delgada, 03.10.2015):



























Azores Digital:

















e RTP-Açores (no prelo).