segunda-feira, outubro 19, 2015



As Baleias e o Leviatã
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Cerca de seis anos após ser concebida e planeada como pioneira Sociedade de Estudos aeronáuticos, aeroportuários e de transportes aéreos indubitavelmente situada na conjuntura daqueles conturbados, desafiantes e promissores tempos, cenários e horizontes que marcaram os Açores no início da II Guerra, e depois efectivamente concretizada em meados dos anos 40 do século passado (1947) como Sociedade Açoriana de Transportes Aéreos, pode dizer-se que a SATA determinou desde então as ligações inter-ilhas, constituindo referencial do quotidiano e presença viva no imaginário dos nossos transportes, de modo só comparável ao dos navios e iates que antes sulcavam os mares das ilhas. Comprada depois, em 1980, ao Grupo Bensaude, a SATA passou de companhia privada a empresa regionalizada/nacionalizada, e com nova designação (Serviço Açoriano de Transportes Aéreos) mas sob o mesmo acrónimo, viu as suas acções e responsabilidades de serviço público serem divididas entre a TAP e Governo regional.


– Ora para quem muito viajou e conviveu de perto com a SATA, com os seus míticos pilotos, aeronaves, tripulações, funcionários, escritórios exíguos e progressivamente modernizados, a par de descolagens e aterragens, por entre ventos e nevoeiros, esperas de aeroporto, reservas e acomodamentos e redireccionamentos, com pequenas e grandes fugas por entre abertas e fechos do caprichoso e às vezes traiçoeiro tempo das ilhas atlânticas, a relação com essa companhia não é isenta de uma certa paixão, de expectativas e confianças, de um certo ambiente de família, proximidade de sentimentos e partilha de condições de vida, apesar de algumas angústias, desencantos e desilusões (algumas motivadas pelos muitos poços de ar e descaminhos e indefinições que estão na base e decorrem de oscilações de uma Política Aérea pouco transparente, pouco racional, incoerente e amiúde até pouco justa).
Por outro lado, os felizmente raros mas dramáticos e traumáticos acidentes com os seus aviões ainda mais solidificaram os laços que memorialmente ligam as ilhas e o nosso povo à SATA, fazendo crescer um envolvimento singular, simbolicamente identificativo, que gerou mecanismos de confiança – por assim dizer, uma certa açorianidade em viagem (dentro dos Açores e fora deles, por e para todo o mundo onde vão ou de onde regressam os Açorianos) –, quase com sentimentos tácitos e julgados maiores direitos de acolhimento, expectativas de solidariedade e mesmo alguma esperança (conquanto nem sempre correspondida!) de união de esforços e partilhas de pátria ou expatriação...

A sobra das notáveis (e também das infelizmente trágicas) histórias da SATA é mais ou menos conhecida, e não vale a pena, nem é propósito desta Crónica, tratá-las hoje, muito embora muitas das peripécias a que estamos assistindo hoje pudessem ser bem mais claramente situadas, explicadas e compreendidas à luz dos percursos, rotas e cumplicidades em escala e cadeia... – de onde ninguém poderá atirar primeiras pedras às rodas e trens da empresa... – dessa e de outras “parcerias” mais ou menos “estratégicas”, envolvendo nomeações, administrações, gestão, negócios, financiamentos, subsídios e políticas, favores e escolhas de ocasião e conveniência, jogos de gabinete e secretaria, corredor, cabine, porão, lobbies profissionais e técnicos, concorrências e concursos e vagas e promoções, etc., – como cada vez é mais evidente aos olhos de quem por aí quiser observar (e sindicar) a fundo, em terra e no ar, onde dos serviços e amabilidades do velho slogan da SATA às vezes já pouco resta por esses balcões e voos adiante e atrás, nas ilhas e na diáspora, onde a alguns yuppies e fedelhos e fedelhas de gravatinha, farda e calças de fino toque mas pouca transparência, civilidade e cortesia, melhor fora que os chamassem ou despedissem um a um...
– Mas pior do que isso é a criminosa e demencial audácia de quem veio agora (impunemente!?) propalar a existência (fictícia ou real?) de gravíssima insegurança potencial (e de esterco pouco higiénico alegadamente à mistura) nos aviões da SATA onde todos viajamos à guarda e ao zelo exigíveis a todas as companhias de aviação, sejam elas privadas ou públicas, porém aqui sem que a verdade tenha sido radicalmente apurada e a confiança reposta, antes que as nossas asas e o chão que pisamos mais se confundam e invertam!


Neste contexto – e talvez bem mais real e figurativamente ligado a tudo o que aqui dizemos... – não posso finalmente deixar de referir o quanto directa e indirectamente decorre, ou pode deixar transcorrer, da recentíssima e última iniciativa da SATA, ao renomear o seu desdobramento de SATA Internacional para Azores Airlines (o que obrigará por certo a repintar/redecorar/reeditar todas as aeronaves nesse serviço, e bem assim, provavelmente, todo o material icónico ligado à mesma frota), com certeza em obediência a calculados, estudados, orçamentados e opcionais ditames rentabilizadores e com prioridades comerciais e técnicas sérias, a custo/benefício calculado para o marketing, a imagem e as promoções decorrentes... No essencial, e do aparatoso e novel grafismo e respectiva reelaboração integrada, portanto, o que veremos doravante no bojo dos aviões da Azores Airlines (SATA?) será uma gigantesca baleia (ou cachalote, para o caso tanto faz) cuja concepção estética (ao menos esta...) é bastante discutível, de todos os pontos de vista.


É claro que desse gigante dos oceanos – mamífero marinho muito ligado à ancestral história das fainas, ficções literárias, belos artesanatos, caçadas arrojadas, indústrias desaparecidas, hodiernas sensibilidades ecológicas e observações neo-turísticas nos mares e faunas dos Açores, pelos Açorianos e pelos tão desejados, necessários e putativos visitantes nacionais e da estranja – muito haverá que se lhe diga e contradiga, conforme a perspectiva, não fora a diversidade e mesmo o contraditório e – claro, para bom ou mau entendedor – ainda a inerente equivocidade simbólica daquela figuração, carregada que está de muitas e díspares conotações, como devia saber-se com prudência e arte dos signos...


– Todavia, ficará esse exercício de simbologia aplicada (a um terreno que é também económico-empresarial, financeiro, técnico-operacional e de mercado), para outra ocasião, enquanto por hoje ficaremos apenas reflectindo na lenda bíblica de Jonas e na confluente alegoria do Moby Dick de Melville, mas sem esquecer o paralelo e potencial sentido oposto, disforme e aterrador, do Leviatã, – tudo coisas que os imaginativos ilustradores da Azores Airlines porventura ignoram ou terão descurado, e que os seus administradores, gestores, “public-relations” ou agentes de marketing muito pouco terão levado em sabida conta, lá para os altos ares e fundos mares que os nossos aviões vão cruzar, com muita gente acomodando-se aos esguichos, barbas, entranhas, vísceras e espermacetes daqueles tecnologicamente avançados irmãos (?) dos belos e saudosos pássaros açorianos das brilhantes e solares asas da antiga e elegante SATA, – esses que agora hibridamente vão voar travestidos de pesados cetáceos, à semelhança de tudo o resto que nos rodeia, com barbatanas roídas e olhos fixados nos abismos que nos cercam no ar, no mar e em terra também!
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Em "Diário dos Açores",
Ponta Delgada, 20.10.2015: