sábado, julho 09, 2016


Textos de Açorianidade
e Títulos da Autonomia
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1. Não fora a atenção de uma amiga faialense e talvez só daqui a mais alguns dias é que eu iria ler, como o faço habitualmente, a Newsletter da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (http://www.alra.pt/), na qual são sempre destacados eventos e marcos institucionais, culturais e artísticos directa ou indirectamente ligados ao Parlamento e à vida açoriana, sendo que aí é também geralmente seleccionado um Documento (livro, artigo ou publicação) cuja existência é significativa e consta dos Fundos ou Espólios existentes na Biblioteca da ALRAA, na cidade da Horta.


 – E foi assim, desta vez, que na referida Newsletter (relativa ao corrente mês de Julho) da Assembleia Regional (agora presidida por Ana Luís) a obra escolhida foi o meu bem lembrado livro Açorianidade e Autonomia, trabalho que concebi e coordenei em 1989 e cuja publicação, naquele ano, preparei e dirigi para a Signo (projecto da Brumarte, então jovem e pioneira empresa editorial, infelizmente já extinta, que marcou o panorama cultural e jornalístico insular ao divulgar um bom rol de autores, estudos, ensaios, novelas, contos, poesia, álbuns de arte, intervenções sociopolíticas, etc.).


 Ora a Newsletter N.º 18 da ALRAA, que aqui trago hoje às anotações deste texto, não só reproduz a capa da edição original (e única) da obra como faz uma breve, rigorosa e adequada resenha do conteúdo da mesma, transcrevendo uma passagem da minha própria Nota Introdutória. De resto, como é sabido, para a preparação daquele meu velho livro contei com a inestimável colaboração, que então escolhi e solicitei, fazendo questão para que tal devidamente constasse na respectiva ficha bibliográfica, dos meus amigos Carlos Cordeiro (historiador comprometido e empenhado colega professor na Universidade dos Açores) e José Mendonça Brasil e Ávila (afastado agora da nossa presença regular devido a impiedosa doença, porém incansável investigador e distinto bibliófilo a quem devo um valioso companheirismo académico, debatidas e partilhadas leituras, e longos e já saudosos anos de solidário e fraternal convívio na Praia da Vitória e em Angra do Heroísmo).

– E é por tudo isso que, tornando a olhar para aquela recordação documental de há 27 anos, não posso deixar de evocar de passagem alguns factos e pormenores ligados à génese e história da sua edição, à estruturação e critérios da mesma antologia (“Páginas Escolhidas” é o subtítulo da obra), ao seu lançamento e recepção, e bem assim, afinal, ao seu próprio destino à luz do passado e do presente, deixando para posterior ensejo um tratamento mais exaustivo das temáticas e problemáticas que ali ficaram apontadas.


 2. Quando nos começos de 1989 estava em preparação a Presidência Aberta de Mário Soares nos Açores (durante a qual seria comemorado o 10 de Junho, em Ponta Delgada, com uma bela cerimónia durante a qual foi entregue o “Prémio Camões” a Miguel Torga – “Guardião do fogo sagrado da identidade lusitana, escritor de enraizamento, mas também ele emigrante, homem de viagem e da peregrinação, a sua própria e a nossa, tão admiravelmente contada”... – como salientou o Presidente da República no Teatro Micaelense), logo se começou a preparar essa visita de 14 dias (que decorreria entre 29 de Maio e 11 de Junho daquele ano, percorrendo todas as nove ilhas do arquipélago). E foi de facto todo um diversificado, rico e minucioso calendário que foi frutuosamente trabalhado, em conjunto e consensualmente no essencial, pela Presidência e Ministro da República (Rocha Vieira), Forças Armadas e todas as instituições e entidades públicas, governamentais, autárquicas, associativas e culturais da nossa Região, com destaque para o Governo, chefiado por Mota Amaral e para o Parlamento (liderado por Reis Leite, cujo discurso, aliás, foi sublinhado nas passagens mais insinuantes...).

Todavia, na programação das deslocações e observações locais, foram ainda planeadas Exposições temáticas e algumas iniciativas editoriais susceptíveis de coincidir com a Presidência Aberta, de modo a que todas pudessem ser inseridas ou articuladas, como viriam a ser de facto, no roteiro mais oficial de Mário Soares e da sua ilustre comitiva (que trouxe aos Açores, entre outros, Natália Correia, Pedro da Silveira, António Valdemar, Mário Ruivo, Luís Saldanha, Lyon de Castro, Maria Barroso, Luís de Albuquerque, Joel Serrão, Carvalho Homem, Alçada Baptista e Miguel Torga).


– Foi pois na vertente cultural que ocorreram os lançamentos dos livros Poetas dos Açores (de Ruy Galvão de Carvalho), do 1.º volume da Obra Poética de Nemésio, dos dois primeiros volumes das Obras Completas de Antero e do álbum Açores, Paisagem sem Mácula (com fotos de Ana Esquível, prefácio de David Mourão-Ferreira e Jorge Forjaz), o mesmo vindo a acontecer assim, de modo mais informal, com o nosso Açorianidade e Autonomia (apresentado por Onésimo Almeida e oferecido aos convidados do Presidente, durante uma cerimónia rica de peripécias surpreendentes, autógrafos para memória e outras lembranças que deixo para contar noutra ocasião...).


 3. Ora foi precisamente no campo das iniciativas editoriais que se inseriram as duas aqui nomeadas publicações simultâneas da Signo: o livro de Onésimo, Açores, Açorianos, Açorianidade (subvencionado pela Irmandade do Hospital da Maia e cuja revisão acompanhei de muito perto), e o nosso Açorianidade e Autonomia (qualificado depois por Mário Soares como “tão interessante livro”), uma edição patrocinada pela Presidência do Governo Regional dos Açores. Estas duas obras viriam a ser devidamente elogiadas por Soares no texto “Memória e Testemunho” com que abre o seu livro (sobre a Presidência Aberta nos Açores) Quando o mar acaba, o coração começa..., – um óptimo arquivo histórico-textual organizado por José Manuel dos Santos, com as Intervenções do Presidente da República e um notável acervo fotográfico de Luís de Vasconcelos e Alfredo Cunha, que guardo como gentil oferta enviada de Belém pelo seu Chefe da Casa Civil, Alfredo Barroso.


“Numa altura – escrevi eu a dado passo da Introdução a Açorianidade e Autonomia, que Mota Amaral tanto acarinhou e incentivou, e que comigo concordou no nosso optado e indicativo título teórico-programático assente numa reunião em sua casa – em que as problemáticas culturais, sociais, político-institucionais, económicas e técnicas da regionalização e do regionalismo ganham novas premências planetárias, perante os riscos e as promessas da unificação civilizacional e da interdependência crescente de Regiões e Estados, Povos e Nações, a especificidade da Autonomia do Arquipélago dos Açores reclama novo alento precisivo das condicionantes, situações, custos e potencialidades presentes, e inovadoras capacidades e estilos de resposta aos reptos do futuro. (...) Novo e experimental arranjo, os textos [de Natália Correia, Nemésio, Luís Ribeiro, Galvão de Carvalho, Pedro da Silveira, Morão Correia, Armando da Silva, Matos Bettencourt, Gervásio Lima, Rebelo Bettencourt, Carlos Cordeiro, Mendonça Dias, José de Lacerda, Branco Camacho, Bruno Carreiro, Mont’Alverne de Sequeira, Caetano Albuquerque, Moreira da Mota, Luiz Bettencourt, Faria e Maia, Paula Nogueira e José Enes] reunidos (...), assim entendidos, poderão tornar a servir de ponto de mira e de partida para subsequentes, virtualizantes e potencializadores esquemas de mais englobante e sistemático estudo dos paradigmas todos que entretecem a memorial mundividência e a prospectiva actualização dos modelos de pensamento, de sentimento e de acção do Povo dos Ilhas dos Açores”. Ontem, tal como hoje, na verdade, devo sublinhar à distância (e à proximidade) de quase três décadas de textos de Açorianidade e títulos da Autonomia...


 – Assim estejam (ou estivessem) todos os propalados e tácticos “autonomistas” de hoje, nestes amiúde decadentes e renegados dias e nomes açorianos, à altura de tão exigente apelo de um renovado e mais digno futuro outro, para o qual, sem honra nem glória, infelizmente, muitos não tiveram, não têm, nem poderão ter o mais rudimentar talento ou a mais exigível e legitimada força de razão, como ideal de vida ético-política e validade de virtuoso e liberto coração, “ (...) pelo aro das estrelas/ A compasso retido em mente pura/ E avivado nos vidros das janelas”.
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 09.07.2016):



























e "Diário Insular" (12. 07. 2016):