sexta-feira, novembro 30, 2012

Portugal a Entristecer



Escrevo esta Crónica na data em que, em 1935, morria Fernando Pessoa, cuja família materna era de Angra e morou ali mesmo junto ao edifício do já saudoso vespertino “A União”, que hoje também desaparece dos trabalhos e dos dias desta misérrima terra!

– E como se não bastassem esses tristes faustos e efemérides, lembro-me do Vasco (da nossa velha irmandade do Pio XII; do carinho e competência com que tratou o meu filho Tiago na sua adoptiva Graciosa; da sua vinda a Angra para o lançamento da minha Poética da Memória, e do seu tão trágico e derradeiro desencanto) …

E releio a Carta dos 78 (Soares, Bruto da Costa, Siza Vieira, Arnaut, Pires Veloso, Boaventura Sousa Santos, Eduardo Lourenço, Bento Domingues, Barata-Moura, Medeiros Ferreira, Júlio Pomar, Reis Torgal, Carvalho da Silva e Maria Belo, entre muitos outros que a subscrevem), dolorosa e revoltadamente sob os signos medonhos e alegados da perda de “toda e qualquer esperança”…

E enquanto nisto penso, ouço notícias de Santa Maria, com a reconfirmação da bem real, dura e emblemática existência de crianças famintas no Hospital; das galopantes patologias físicas e mentais da população; da pobreza, dos traumas e do desemprego; do garrote dos impostos e do OE; das denunciadas tontices retóricas, prosápias e contraditórias afirmações maquiavélicas da governança lisboeta sobre a Escola, o Trabalho, a Saúde e o Pão…

– E revejo ainda a patética, obcecada e nevrótica figura do PM, enquanto torno a presenciar, com indesmentível espanto e indignação, a ronha enrolante e mole de Portas e Branco, o discurso do atónito oficial aviador do EMFA, como que planando sobre a pista, sem radar e sem trem de aterragem aberto, esvoaçando por entre as negras nuvens que se adensam nas Lajes, nas vésperas de borrascas na Terceira e de mais naufrágios na Pátria, por entre cínicas brumas e neblinas, imprevidência, manigância, interesses inconfessados, ostracismos e ignorâncias de décadas que cegaram o Mundo, o País e as nossas Ilhas, desde o Terreiro do Paço aos Paços da Câmara da Praia, e desde Washington a Lisboa e Ponta Delgada, com tretas e petas para calar o indígena açórico, encher os paióis do Império e vender bugigangas bélicas e inócuas lentilhas de cooperação, ciência e desenvolvimento, nem sequer à moda terceiro-mundista, mas ainda então em gesto benfeitor, do Programa People to People

Finalmente em tudo isto reflicto, nesta Vigília de 1 de Dezembro de 2012, conquanto conjunturalmente banido também esse Dia do calendário comemorativo de Portugal, assim como se sem nenhum Brasão, sem Armas e sem as águas lustrais do melhor que de si histórica e honrosamente já houve para uma permanente Restauração…

– E todavia aqui permaneceremos atentos, resistentes e vigilantes, sempre contra Este fulgor baço da terra/ Que é Portugal a entristecer/ – Brilho sem luz e sem arder, / Como o que o fogo-fátuo encerra… 
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Publicado em Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/;
RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/index.php?article=29924&visual=9&layout=17&tm=41;
Networked Blogs:
http://www.networkedblogs.com/blog/os-sinais-da-escrita?parent_page_name=source,
e Jornal "Diário dos Açores" ( (Ponta Delgada, 2 de Dezembro de 2012).
Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 1.12. 2012).

sábado, novembro 24, 2012


Um Inventário Exemplar




Acaba de ser lançada a obra Arte Sacra no Concelho de Reguengos de Monsaraz, décimo volume de uma bela série editada pela Fundação Eugénio de Almeida (FEA) e dedicada ao Património Histórico-Religioso da Arquidiocese de Évora, no qual estão registadas e tratadas “peças de arte e devoção [que] são testemunhos do cruzamento entre as culturas Cristã e Oriental resultante da ocupação político-militar, da missionação e das dinâmicas comerciais implementadas ao longo de séculos”, conforme foi devidamente sublinhado no comunicado que a FEA distribuiu a propósito deste tão meritório evento.

Porém, todo este muito apreciável e rigoroso projecto merece hoje menção aqui, não só porque tem efectivamente procedido a um anunciado trabalho de “levantamento, estudo e catalogação do património artístico disperso por igrejas, capelas, seminários e instituições religiosas” de Portugal Continental – identificando e preservando assim muitas peças de interesse religioso, cultural e civilizacional –, mas também porque tem sido coordenado técnico-cientificamente pelo investigador açoriano Artur Goulart de Melo Borges.

– Natural da ilha de S. Jorge e residente em Évora desde 1979, antigo professor do Seminário de Angra e chefe-de-redacção do saudoso vespertino “A União”, também escritor e poeta, Artur Goulart é licenciado em Arqueologia pelo Pontificio Instituto di Archeologia Cristiana  (Itália), possuindo pós-graduações em Museologia e História da Arte, sendo que da sua longa e diversificada experiência profissional, sobretudo no Museu de Évora, destaca-se o cargo de Director desta mesma instituição (1992 e 1999), onde deu um precioso contributo à inventariação do seu acervo artístico, à investigação bibliográfica e ao estudo aprofundado de obras de arte e de material arqueológico, conforme é justamente salientado na excepcional Página Digital do projecto que tão competente e prestigiantemente tem vindo a dirigir e cuja visita vivamente recomendo, aqui: http://www.inventarioaevora.com.pt/inicio.asp.

Numa época em que, por esse Portugal fora e também entre nós (autónoma, esbanjante e auto-suficientemente, pois então…) tantos valores e patrimónios humanos, intelectuais, materiais, artísticos e espirituais vão sendo amiúde atirados à rua – ou aos brincos e argolinhas da mais incrível discriminação apadrinhada… –, o valioso labor e o dedicado exemplo cultural, educativo, ético e cívico de Artur Goulart, para além da amizade pessoal e fraterna que por ele nutro, não podiam ficar, nesta data, sem registo escrito e merecido louvor público!
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Publicado em Azores Digital:
Jornal "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 25.11.2012);


quarta-feira, novembro 21, 2012


Instituto da Democracia Portuguesa
apresenta Teses para o Plano C



O Instituto da Democracia Portuguesa  (IDP) – instituição fundada em 2007 e que se afirma como organização da sociedade civil congregando pessoas independentes e cidadãos com filiação em partidos de todo o espectro político – ­ acaba de apresentar uma nova obra onde estão reunidos Estudos e Ensaios críticos sobre a situação presente e as perspectivas de transformação da sociedade portuguesa.

Dos actuais órgãos directivos e conselhos consultivos do IDP (http://www.democraciaportuguesa.org/) fazem parte, entre outros, D. Duarte de Bragança, Fernando Nobre, Mendo Castro Henriques, Rui Moreira, José Alarcão Troni, Rainer Daenhardt, Carvalho Rodrigues, Ascenso Simões, Luís Salgado de Matos, Rui Rangel, Francisco Cunha Rego, Eduardo Ferraz da Rosa, Gonçalo Ribeiro Telles e o general Garcia Leandro.

Na apresentação do livro, editado pela Bertrand e intitulado Plano C – o Combate da Cidadania, O IDP manifesta não ter “pretensão de inventar conceitos, mas sim de os combinar numa narrativa diferente, numa demonstração apaixonada de que existem alternativas às políticas públicas que têm vindo a empobrecer o país”, elencando no seu manifesto editorial as seguintes ideias e ideais:

– “Combate da Cidadania, porque está em causa a sobrevivência dos portugueses numa Europa ainda sem rumo e numa Lusofonia ainda sem ritmo. Cidadania, porque ainda vamos a tempo de salvar Portugal das oligarquias que o ameaçam.

“Plano A é o da Troika, o notório Memorando do Nosso (Des)entendimento. Não queremos a nossa democracia troikada por políticos sem preparação. Planos B há vários, dos actuais programas partidários. São todos muito parecidos. Têm coisas boas e coisas más. Separados são insuficientes. Juntos são inexequíveis.

“PLANO C, finalmente, é o de todos nós, da cidadania, da sociedade civil, das associações mediadoras entre o indivíduo e o Estado. Um plano feito de alternativas concretas, propostas por quem conhece o país, o seu território e população, a sua história e cultura, as suas potencialidades, sonhos e empreendimentos”.

No Prefácio desta obra – que contém um breve capítulo sobre os Açores, da autoria de Eduardo Ferraz da Rosa –, D. Duarte de Bragança traça assim as grandes linhas orientadoras da reflexão do IDP:

– “A democracia é o regime da liberdade, pelo que é, também, o regime da responsabilidade (…). O futuro do nosso país não se esgota com as tarefas de um grupo de ‘políticos’ tradicionais, mas desligados da consciência colectiva. O discernimento e a intervenção, pelo contrário, são uma responsabilidade de todos.

“Esta acção concertada dos portugueses neste momento de crise nacional e europeia tem de firmar-se em ideias muito firmes e muito claras, sob pena de os seus objectivos serem corrompidos e desviados pelos interesses instalados. Sabemos como (…) o acessório tantas vezes se sobrepõe ao essencial, o espectáculo à inteligência, a celebridade ao mérito, a imagem à eficácia, a aparência à produtividade. E com uma comunicação social que perdeu muito do  seu  poder de vigilância e testemunho, sentimo-nos perdidos, perdidos nas ideias que nos devem guiar nos caminhos da democracia portuguesa, afastados dos  ideais que orientaram a nossa História e das pessoas às quais esses caminhos vão dar. Para intervirmos no nosso país, na Europa e no Mundo, precisamos afirmar os princípios que nos identificam.

“Esses princípios, para quem milita no IDP, nascem da cidadania, da sociedade civil, que hoje é urgente esclarecer, promover e divulgar”.
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Em Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=17581
e Jornal "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 22.11.2012).

sábado, novembro 17, 2012

As Fachadas do Radicalismo


O que se passou na passada quarta-feira em frente à Assembleia da República não pode deixar de constituir motivo de profunda e urgente reflexão para todo o País, – tal o grau de virulência pública, de mediatização e de violência ali exercidas, de parte a parte, entre manifestantes, actores de provocação agressiva, autores de incontrolada e descontrolada contestação, mirantes incautos e agentes policiais (sujeitos estes a uma tremenda, continuada, afrontosa e imparável pressão)!

O fenómeno, em moldes bastante semelhantes, infelizmente não é novo, tendo sido amiúde visto um pouco por todo o mundo, com natural relevo em países sob regime de ditadura e discriminação, ou como corolário de várias e multiformes tiranias

– Mas em nada, nada disto se assemelha, novamente de parte a parte, àquilo que se passou em Portugal durante a Repressão fascista e a Resistência Democrática exercidas ambas no Estado Novo e até ao 25 de Abril, pelo que confundir estas duas realidades distintas é desvirtuar umas, falseando as outras, e só pode resultar de uma enviesada percepção da tipologia e da dinâmica dos conflitos sociais.

Aquilo a que assistimos em Lisboa revestiu-se pois de inusitadas (e não expectáveis?) características, só devidamente avaliáveis no contexto específico de toda a grave e complexa situação socioeconómica, laboral, política, sindical, partidária e psicológica que os portugueses vivem e sofrem no actual cenário de crise europeia e de reconfiguração global das economias, poderes, hegemonias e exploração dos recursos humanos, financeiros e naturais da Terra, – nesta Era Planetária cujas raízes filosóficas, antropológicas e socioculturais vem espiritualmente de muito longe e assentam na dominação, produção e distribuição (partilha, manipulação, controle ou voraz rapina…) dos bens e patrimónios da Humanidade inteira, segundo técnicas e tecnologias cada vez mais sofisticadas, totalitárias e unidimensionais…

– Porém, devindo crescentemente explosiva (por acumulação sistémica e determinante de factores histórico-civilizacionais remotos mas ainda calibrados em cadinhos estruturais e paióis estruturantes bem mais próximos de nós), a sociedade portuguesa talvez tenha agora pisado uma sinalética de risco que deveria fazer relembrar, entre nós, a de antigas (e premonitórias?) conjunturas, análises e teses críticas de Álvaro Cunhal no seu livro Radicalismo Pequeno Burguês (felizmente bem conhecido ainda pelo PCP e pela CGTP, ao menos nalgumas das suas fundamentações mais prudenciais, conforme, de certo modo, se tem comprovado ao longo das recentes jornadas de luta unitária; e não fora assim, provavelmente que os balanços da violência presente se assemelhassem mais aos de uma quase guerrilha urbana, como até o actual Governo e a Oposição socialista democrática não deixaram de implicitamente reconhecer…).

Ora tal releitura de estratégias militantes, à falta de melhor e actualizada literatura político-ideológica e sociológica, talvez até possa mesmo ser insuspeitadamente bem proveitosa para alguns dos (ir)responsáveis institucionais, governantes, sindicalistas, agitadores inconsequentes, anarquistas, analistas de estúdio ou cátedra, e outros comparsas ou reversos coadjuvantes da tragédia cívica e moral onde nos vimos atolando há décadas, e agora mesmo ainda mais, face às novas formas de exploração de classe e nação, marginalidade, implosão de subúrbios urbanos e explosões mentais, pobreza e miséria galopantes, degradação vertiginosa e terrorista da vida e dos valores, – enfim –, da total desesperança em qualquer futuro comum, digno, ética e fraternalmente trabalhado e construído em paz!

Aliás, ora por conhecimento ou experiência (de poucos), ora por ignorância ou imprudência (de muitos), ou por repugnante traição nacional (de outros mais), é que as fachadas, máscaras, barreiras e ruas de Lisboa terão começado a arder e a cair hoje, tão dramática e sofridamente, com pedras, sangue, medo e uma imprevisível tentação de insurreição à mistura, – se é que não a par e passo já de um provocatório e programado intuito de jugular à nascença toda e qualquer veleidade de atempada e possível alternativa democrática, justa e limpa à tão desesperada, insegura, assustadora, opressiva e podre realidade nacional portuguesa (e não só)...

– E enquanto tudo isto ocorre, o País degrada-se e enregela dia após dia, por aí abandonado às suas muitas insularidades continentais e ilhoas, iconicamente deitado nos acobertados chãos do Terreiro do Paço e nas arcadas dos seus cegos e surdos Ministérios, com as fogueiras apenas adormecidas no rescaldo das noites de um novo e angustiado entardecer pessoano de Portugal, somente à espera de outras ocasiões para novas imolações suicidárias, torcionárias reacções de resposta ou o afiar imponderável das lâminas das baionetas, das foices e das navalhas de ponta e mola…
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Publicado em:
Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 18.11. 2012);
Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2304&tipo=col,
RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/index.php?headline=14&visual=10,
Jornal "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 20.11.2012),
e Networked Blogs:


Os Fantasmas de Secretaria



O título desta Crónica talvez relembre logo – e com razão – um outro da fascinante obra de Jacques Bonnet (Des bibliothèques pleines de fantômes, Éditions Denoël, 2008), cuja primorosa tradução portuguesa, por José Mário Silva (diligente mantenedor do Blogue “Bibliotecário de Babel”), foi publicada pela Quetzal (Bibliotecas Cheias de Fantasmas, Lisboa, 2010) e constituiu então merecido escaparate na nossa acolhedora e informada Livraria In Folio.

O livro – na verdade, um livro de amor aos livros… – começa por relatar o encontro, em Coimbra, em 1983, do autor – um francês especialista em Bibliofilia e Teoria da Leitura, à semelhança de Umberto Eco, José Mindlín e Alberto Manguel (de quem aqui também já falei) – com uma obra de Maria José de Lancastre (Fernando Pessoa – uma fotobiografia, Lisboa, INCM e Centro de Estudos Pessoanos, 1981), na qual vem reproduzida uma carta de candidatura (datada de 16.09.1932) do poeta da Mensagem ao lugar de conservador-bibliotecário do Museu Condes de Castro Guimarães (em Sintra), cargo para o qual o criador do Livro do Desassossego foi preterido a favor de um medíocre “pintor obscuro”, hoje inominável, vago e insignificante manga de alpaca que era…

E isto aconteceu apesar do currículo profissional e da invocada e objectivamente abonatória obra literária e cultural de Fernando Pessoa, – nem se podendo sequer falar então ainda, naturalmente, da sua esplendorosa posteridade… –, e onde, a determinada altura e a propósito do dito concurso, se pode ler o seguinte:

– “Salvo o que de competência e idoneidade está implícito nas habilitações indicadas como motivo de preferência nos parágrafos do artigo, e portanto se prova documentalmente pelos documentos referentes às indicações de cada parágrafo, a competência e a idoneidade não são susceptíveis de prova documental. Incluem, até, elementos como o aspecto físico e a educação, que são indocumentáveis”…

O livro de Jacques Bonnet é apaixonante no seu todo, mas o registo da carta de Fernando Nogueira Pessoa acaba por abrir logo – para leitura crítica, bem entendido … – uma insuspeitada “janela de oportunidades” (como agora os gestores da nossa provinciana e compadrinhada nomenclatura vão debitando, à toa, nos seus altos postos e míopes postigos…), – ou não estivessem eles equiparados àquele antigo júri da Câmara de Cascais, o qual, “certamente perplexo com esta retórica insólita [de Fernando Pessoa, obviamente…], não se deixou convencer, tendo escolhido prudentemente um outro candidato”, – certamente menos brilhante e competente porém bem mais ao jeito daqueles pobres diabos jurados e arregimentados, criaturas submissas, serventuários mínimos e alinhados pela mais rasteira, venal e gémea bitola político-administrativa daquela época de trinta e tal, no século passado…
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Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 20.11.2012);

Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2304&tipo=col;
RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/?article=29783&visual=9&layout=17&tm=41
Networked Blogs:
http://sinaisdaescrita.blogspot.pt/2012/11/fantasmas-de-secretaria-o-titulo-desta.html,
e (outra versão) em Jornal “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 17.11.2012).


segunda-feira, novembro 12, 2012

O Vídeo dos Vexames




1. Eis aqui o famoso Vídeo dos nossos vexames:

2. Segundo os OCS, a transmissão pública desse Vídeo que Marcelo Rebelo de Sousa – influente militante, mentor, líder histórico do PSD e mediático comentador da Rádio e TV portuguesas, na gíria mais conhecido por “O Professor” – inacreditavelmente concebeu e anunciou, e que tinha por objectivo ser emitido na Praça Sony (Berlim), em vésperas da visita da chanceler Merkel a Portugal (no dia 12 de Novembro de 2012), teria sido recusada pelas autoridades locais alemãs!

De resto, o próprio Prof. Marcelo acaba de reconhecer tratar-se de uma peça mais ou menos improvisada, experimental, como se tivesse sido feita, ou como foi mesmo montada em cima do joelho, se é que não às três marteladas…

3. O outro artífice desta pérola é um tal Rodrigo Moita de Deus, criativa figura também elucidável aqui: http://pt.linkedin.com/pub/rodrigo-moita-de-deus/19/68b/717.

4. A mensagem da dita obra, explanada e teorizada em português, incluía versões em inglês e alemão para ser enternecidamente vista, piedosamente ouvida e politicamente entendida por toda essa Europa e pelo Mundo fora, havendo ainda provável esperança que chegasse, num tempo futuro e indeterminado, a atingir vários planetas do imenso Universo que nos rodeia, só não tendo ainda sido apurado o efectivo envolvimento do Governo de Passos Coelho e do erudito académico Miguel Relvas em todo este também diplomático manifesto...

5. Na verdade, trata-se de um excelso aljôfar artístico, um feito mediático, antropológico-cultural, sociopolítico, económico-financeiro, cultural e civilizacional, um dignificante retrato de Portugal e dos Portugueses, nunca dantes tão exemplarmente conseguido…

6. Agora – lamento dizê-lo –, trata-se mesmo e na verdade de uma narrativa fílmica conceptualmente pindérica, em jeito de corso ou dança carnavalesca, cheia de lugares comuns, técnica e esteticamente mal concebida e toscamente executada, iconograficamente pobre, mimeticamente ridícula, desadequada, quase imbecil e até simbolicamente tendenciosa...

Uma verdadeira demonstração de subdesenvolvimento, inferioridade cultural e enviesamentos em série!

– Outra vergonha para Portugal, que pelos vistos também embaraçaria qualquer outro país da Europa que acolhesse e publicitasse semelhante palhaçada!

7. Todavia, e por contraditório que pareça, foi um favor patriótico – uma prudente obra de caridade civilizacional – que nos fizeram ao colocar tamanha, tão humilhante e tão tacanha produção “made in Portugal” no caixote de lixo da Europa, onde ficará na boa companhia de outros fatídicos subprodutos mentais, institucional e socio-historicamente datados destes patéticos e decadentes anos da nossa colectiva (des)graça…
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Publicado em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 13.11.2012):
RTP-Açores:
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e “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 13.11.2012):





sexta-feira, novembro 09, 2012

Os políticos da Política



1. Acaba de ser colocada no mercado a nova obra de Tibério Cabral – A Política dos políticos, II Volume [Entrevistas] (Angra do Heroísmo, IAC, 2011) –, embora, ao contrário do que acontece com tantos outros autores e livros (aonde amiúde se forçam e forjam merecimentos…), sem qualquer sessão de Apresentação e Lançamento que as suas qualidades, especificidades e potencialidades plenamente justificariam…

O livro – embora sem precisa referência técnico-editorial – inclui também um sugestivo texto de abertura, a modos de prefácio (“Antes de ler as entrevistas”), por J. G. Reis Leite, relevando este conhecido historiador açoriano, com justeza, para além de algumas questões pertinentes de metodologia histórica e de crítica historiográfica, o especial valor das Entrevistas de Tibério Cabral, enquanto e porque elas constituem precisamente e “acima de tudo documentos e fontes orais para a nossa história contemporânea”, inscrevendo-as por isso, e bem, no âmbito das problemáticas próprias do “uso das fontes” e da consciência (maior ou menor, quando não até nula…) que disso mesmo os Entrevistados teriam quanto ao seu “papel de actores e construtores de uma memória”…


2. Neste 2.º Volume de A Política dos políticos, ao longo das suas 621 páginas, estão assim reunidas Entrevistas, todas datadas, que o Jornalista terceirense efectuou entre 1984 e 2009, sendo todavia que as mesmas reflectem a bastante diferenciada qualificação, desigual perfil, formação e estatuto dos seus Entrevistados, cujos posicionamentos conseguem ganhar aliás, lidos hoje, contornos quase incríveis ou patéticos, fabulosas (in)coerências de percurso, (in)consequências e (des)ilusões, a par de outras concatenações cuja comicidade, inverosimilhança ou futilidade chegam a atingir foros dramáticos…, atendendo às responsabilidade dos respectivos autores-actores mediáticos (ou apenas mediaticamente construídos!), e tanto mais quanto alguns dos dialogados discursos estão claramente marcados por naturais pré-conceitos, circunstancialismos, meras conjecturas de opinião interessada, e outras conveniências ou oportunidades de juízo volátil…

– Ali e nisso veremos todos enfim justificados os motivos para a retoma desta questão crítica, porquanto, sobretudo e de facto, como Reis Leite salientou, “na história política temos assistido a uma transformação do discurso em retórica memorialista e muitas vezes justificativa, que oblitera a função primordial da historiografia”!


3. Tibério Cabral, nascido em 1957, na freguesia das Fontinhas (ilha Terceira), desde cedo mostrou notável vocação para a prática e a escrita jornalísticas, afirmadas e confirmadas depois e até hoje por uma vasta, rica e diversificada experiência na Comunicação Social açoriana (Rádio e Jornais), documentada no seu currículo (também cultural e artístico) e na sua já significativa e talentosa produção reunida em O que eles disseram (1998), A Política dos Políticos, I (2001) e Igreja – Virtudes e Pecados (2004).

– Tal como escrevi anteriormente, no estudo de Introdução ao igualmente notável 1.º Volume (2001) desta série, também estas Entrevistas tornam a dar paradigmática conta, através das palavras ali suscitadas, ditas, entreditas e interditas, tanto da recorrente ou previsível indigência, quanto da extraordinária reserva e limites de humanidade que nestes domínios e discursos acolhidos e recolhidos nas nossas ilhas grassam, exactamente como naqueles parabólicos campos do trigo e do joio que socio-histórica, cultural e espiritualmente sempre juntos crescem, mas que o Tempo se encarrega, mais tarde ou mais cedo, de separar para a ceifa e para a recolha da Verdade …
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Publicado em Azores Digital:
RTP-A:
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e Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 11.10.2012):
Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 10.11.2012):




sexta-feira, novembro 02, 2012

As Passarolas Visionárias


Vá lá saber-se se por uma qualquer causa real e efectiva, conquanto desconhecida ou pouco positivamente verosímil, ou se apenas fruto de uma fortuita coincidência de factores mais ou menos aleatórios, mas todavia misteriosamente conjugados – a modos de conjunção escrita nos astros, no destino ou no fado, como diriam certos crentes em ordens sobre e infranaturais (ou em outras disposições mais astralmente próprias de um mundo ainda visto e dito sob modelos aristotelicamente sublunares…) –, a verdade é que parece haver na história dos homens, dos povos, das regiões e das tribos um significativo número e uma espantosa variedade de factos e fenómenos que, aparentemente querendo escapar a uma explicação linear e objectiva (no que respeita à sua origem, instrumentos, formas de manifestação e subjacente finalidade), prestam-se depois aos mais mirabolantes esquemas e propostas de causa/efeito…

– Ora foi isso mesmo que se tornou a verificar com as fúrias do Sandy, tempestade que se abateu nos últimos dias catastrófica e especialmente sobre a costa leste dos Estados Unidos e com emblemático expoente naquela metrópole que ainda não há muitos anos, por outras causas, cérebros e mãos, viu desabar apocalipticamente dois dos seus mais exemplares ícones de negócio e orgulho (ambos, embora confiantes “em Deus”, arranhando o Céu, ou melhor, como bem corrigiria o velho Platão, os céus, entendidos estes como algo cá mais por baixo, com nuvens escuras, visíveis e hodiernamente rasgáveis por naves inter-planetárias, satélites espaciais, mísseis, aviões, balões e outras passarolas voadoras (todas afinal cridas e queridas herdeiras, para elevação do orgulho lusíada, daquela nave do padre Bartolomeu de Gusmão, que Saramago, para nosso regalo de leitura, tão inspiradamente também faria subir, mesmo contra velhas e novas inquisições culturais, lá pelos maravilhosos ventos ficcionais e romanescos do seu Memorial…).

É claro que sobre o furacão Sandy não faltaram genéticas teses surreais, desde as míticas e “religiosas” certezas de um tal McTernan (pregador e invocador de castigos celestes “made in USA”), até às mais tecnologicamente sofisticadas e visionárias teorias energéticas e climatéricas (espécie de feitiço com chuvas, ventos e danças à Obama, nas vésperas da eleição presidencial na nação mais poderosa do planeta Terra)!

– Porém, cá na Ocidental Praia, os vaticínios tem sido bem mais rasteiros, e o grande adivinho de serviço por estes dias de todos os santos e fiéis defuntos (ou a caminho disso, na romaria nacional que orçamentalmente a tanto e tal se perfilha…), foi apenas um baixote, enorme e substancial comentador do PSD, um dos tais que por essas ilhas abaixo (e de baixo!) andaram pregando, sem convencer nem converter ninguém, com as suas dissimuladas, quase extra-terrestres e pueris narrativas!

Agora, que a nova passarola vai levantar voo, veremos todos até onde o seu vespertino rumo a vai levar, com nove ilhas a bordo e algumas asas e penas feridas à nascença…
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Publicado em RTP-Açores:
Azores Digital:
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e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 04.11.2012).
Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 03.11.2012).

sábado, outubro 27, 2012

O Vazio da Sala




Das muitas imagens mediaticamente divulgadas, daquilo que elas traduzem de significativas perspectivas do mundo político-partidário, psicossocial e ético que nos cerca, e das confluentes realidades e valores em que vivemos e vegetamos, constituiu amostra bem documentativa as que foram transmitidas, a partir da sede do PSD, em Ponta Delgada, no passado dia 14, data das últimas eleições regionais.

De facto, foi algo de muito evidente e revelador o que foi possível visualizar daquele ambiente, quando – sabendo-se já dos mais que comprováveis e fracassados resultados nas urnas para os ditos social-democratas ilhéus –, as câmaras de televisão e a vacilante reportagem do jornalista para ali destacado deram conta da constatável e quase embaraçosa e confrangedora atmosfera naquele recinto: um fantástico cenário de deserto pessoal (e de pessoais deserções!), – tão pesada e densa que os experientes e benevolentes homens dos OCS presentes nem jeito ou ânimo tiveram para exibir, em toda a sua escancarada crueza, semelhante descida a tão gélido purgatório nocturno que – mais do que surpreendente, inacreditável até – naquele patético salão, patente estava…

E assim se foi esperando e fazendo esperar, e circundando a cobertura, e apenas fazendo-se chegar a substancial conteúdo de anúncio verbal a chegada dos poucos vultos que por ali, salientes e despontando, a soluço assomavam, excepção feita a Mota Amaral (em dignidade, ainda e sempre, o primeiro!).

Mas logo depois, então, foi o que à exaustão, à mostração nua e dura, se viu e transmitiu para quem tanto e mais quis acompanhar e sentir, por esse atónito arquipélago adentro…E lá começaram os penosos reconhecimentos da derrota, os agradecimentos da praxe, as respostas evasivas, as suspensivas reservas e omissões, e o realinhamento (com acenos de aflitiva chamada à linha ou à cara) do cabisbaixo entourage mais firme e proximal da grande candidata e timoneira desta mal fadada campanha; e pouco mais!

– Dos rostos e saracoteamentos arrogantes ou gananciosos de outrora, da evanescente e lesmática claque de ontem, dos ilustrados e recorrentes capangas de “olho na faca, olho na lapa”, ouvidos sempre na onda e no calhau para o salto oportunista, como dizia o outro, nem sombra; nicles!

O resto, que não se conta aqui por pudor (e quase vergonha pelas culpas e pecados alheios, mas que de algum modo a todos nós devem fazer reflectir…) ficará para depois. E todavia, a cumprir-se o maldoso (e talvez injusto, porque genérico) chiste açórico, da actual toca do Coelho, “nem por carta nem por escrito”!

– Por isso mesmo, não será talvez tão cedo que aquela sala e aquelas cadeiras, agora medonhamente vazias, desguarnecidas e desguardadas, tornarão a encher-se com gente capaz, esperançosa e honrosamente perfilhada em defesa da nossa terra, pacificamente construindo e partilhando o pão do Povo em Liberdade, como no seu antigo, porém agora desbaratado e desafinado hino de glórias passadas e novas ilusões futuras…

E assim as mesmas salas, cadeiras e câmaras, de mal a pior, vão continuar provavelmente ainda mais ocas e irrelevantes, sem a mínima presença que mereça crédito limpo, generoso empenhamento político-partidário ou confiança ética!
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Em  Azores Digital:
RTP-Açores:
"Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 28.10.2012);
Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 27.10.2012).

sábado, outubro 20, 2012

Leituras para o Outono





Na próxima semana e depois a decorrer entre os dias 26 de Outubro e 4 de Novembro, começará na cidade da Praia da Vitória (Academia de Juventude da Ilha Terceira, Auditório do Ramo Grande e Casa das Tias) mais uma edição (a sétima) do Outono Vivo, um Certame cultural e artístico fomentado anualmente pelo respectivo pelouro municipal da Cultura (e animado pela perseverança institucional e a conhecida insistência e diligência pessoais do respectivo vereador…).

Tratando-se de facto de uma iniciativa válida e única no seu género entre nós – aliás cujas virtualidades socioeducativas e múltiplos e reprodutivos alcances nunca será de mais relembrar nos tempos que correm, conquanto, como é evidente, à dimensão possível dos recursos financeiros, logísticos e humanos presentemente disponíveis e esforçadamente disponibilizados pela autarquia praiense –, não pode assim a efectivação do seu já divulgado e promissor Programa (disponível na íntegra em http://www.outonovivo.com/pdfs/material/3.pdf) deixar de granjear aqui uma palavra de merecido aplauso, tanto mais quanto o mesmo resulta de um verdadeiro e meritório esforço de promoção da Cultura, das Artes e das Letras nos Açores e com Açorianos.

– Este ano subordinado ao tema “Açorianidade – Percursos à volta de casa”, o Outono Vivo incluirá Conferências (Luís Fagundes Duarte, Eduardo Ferraz da Rosa, Ivo Machado e Daniel de Sá), Lançamentos e Apresentação de livros (Vamberto Freitas, Reis Leite, Avelino Meneses, Álamo Oliveira, Vasco Pereira da Costa e Manuel Machado, entre outros), Concertos, Exposições, Workshops, Teatro, Filmes, Documentários, um Colóquio/Debate (“Os Escritores Açorianos – que futuro?”, moderado por Sidónio Bettencourt) e a já habitual Feira do Livro.

Alberto Manguel, numa obra fascinante sobre livros e bibliotecas, afirmava que a leitura, porque libertadora do pensamento e do agir, bem que se podia dizer estar justa e criticamente “na base do contrato social”, até porque “uma multidão de analfabetos é mais fácil de governar”…

– Talvez também por isso é que todos os Outonos, desde que livres, vivos e despertos, (com palavras, sons, cores e alma…), podem mesmo ajudar a decifrar os signos do tempo, contribuindo decisivamente para a progressiva evolução das mentalidades e a cada vez mais urgente transformação do mundo!
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Publicado em RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/index.php?article=29280&visual=9&layout=17&tm=41;
"Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 20.10.2012);
Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/;
"Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 21.10.2012),
e Networked Blogs:
http://www.networkedblogs.com/blog/os-sinais-da-escrita?parent_page_name=source.

sexta-feira, outubro 12, 2012

O Cinquentenário do Concílio



Passados 50 anos da sua Abertura (11.10.1962) por João XXIII, o Vaticano II – terminado a 8.12. 65 (já sob o Pontificado de Paulo VI) – representou para a Igreja e para o Mundo um marco espiritual, pastoral, histórico-civilizacional e cultural verdadeiramente notável, pelo que, nesta efeméride do seu quinquagésimo aniversário, esse grande Concílio começou já a ser justamente relembrado, evocado, relido e reaprofundado – dos mais diversos, inspiradores e complementares modos, nas suas amplas vertentes e dimensões, e em várias regiões e países (incluindo Portugal) –, naquilo que se espera seja mesmo um movimento de real empenho na recuperação renovadora do seu original, mais fidedigno e genuíno aggiornamento como e enquanto cristã “tensão positiva” entre as Duas Cidades (para compendiarmos em termos agostinianos…), tal como acabou de propor o actual Papa (ele próprio membro de uma antiga e brilhante geração de Teólogos – Rahner, Chenu, Lubac, Congar, Calvez, Dubarle, Schillebeeckx… – acompanhantes e animadores daquele tão promissor 21.º Concílio da História do Catolicismo).

Convocado em 21.12.1961, pela Bula “Humanae salutis”, o Vaticano II decorreu em quatro Sessões e produziu 4 Constituições, 9 Decretos e 3 Declarações, nele tendo participado (ou apenas comparecido…) mais de 2.000 prelados – entre os quais 39 portugueses (alguns naturais dos Açores: Costa Nunes, José Pedro da Silva, José Vieira Alvernaz, Jaime Garcia Goulart e Paulo José Tavares –, Cardeais, Arcebispos, Bispos (o de Angra também, Manuel Afonso de Carvalho) e um Sacerdote.

– “Ainda hoje estamos felizes, mas a nossa alegria é mais sombria, mais humilde”, afirmou Bento XVI ao inaugurar em coincidência o presente “Ano da Fé”, mas bem podendo aliás ter retomado as consagradas e programáticas palavras do pórtico da Gaudium et Spes, ou finalizado com a retoma dos gestos reiterados na “Mensagem dos Padres do Concílio ao Mundo” (em Novembro de 1962), para uma urgente atenção prática, denúncia profética, comprometimento alternativo, generosidade e partilhado testemunho de Fé e de Vida autênticos, face às alegrias, esperanças, tristezas, angústias, misérias morais, sofrimentos e aspirações dos Homens e dos Povos, do nosso e de todos os tempos…
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Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 13 de Outubro de 2012):
Azores Digital:
RTP-Açores:




terça-feira, outubro 09, 2012

As Lentilhas do Parlamento




Na Assembleia da República, quando da discussão parlamentar da última Moção de Censura ao Governo (apresentada pelo BE e pelo PCP), a deputada e vice-presidente do PSD, Teresa Leal Coelho, a dada altura da sua intervenção, bradou:

– “E para terminar pergunto apenas ao senhor deputado João Semedo [BE] se pode olhar nos olhos dos portugueses e dizer-lhes que este debate está a ser pago, está a ser financiado, não por um Moscovo soviético mas por uma Troika que financia os vencimentos de quem aqui falou” (sic)!

Ora este já famoso grito tribunício, que continua disponível em https://www.youtube.com/watch?v=uDYqjiiNhTQ&feature=player_embedded, sendo logo bem revelador de uma confrangedora emoção discursiva, chega mesmo a atingir as raias de uma inconcebível e intolerável falta de senso patriótico e de pudor político-parlamentar e pessoal (ali exemplarmente documentados e talvez só freudianamente explicáveis de maneira mais consentânea…).

– Todavia, o que acima de tudo e nesse cenário se revelou mais insuportável foi ver-se uma representante nacional – portuguesa! – querer amarrar (cerceando-o com o aceno da dramática e pendente hipoteca que vexativamente impende sobre toda a nossa Nação…) o direito à crítica tal como o BE a entendeu fazer – ou outra que fosse, independentemente até do respectivo conteúdo! –, tentando de seguida travá-la censoriamente, ou pretendendo submetê-la à tutela e – vamos lá, para sermos mais duros… – ao gosto, ou à paga, da ração que lhe(s) cai na malga parlamentar. Ou então, dito de outro modo, querendo fazer afinar as pautas (portuguesas, apesar de tudo), na Assembleia República, pelo tom, ou pela conveniência, da voz de comando dos donos ou dos capatazes (estrangeiros) que, provisoriamente (?), co-governam Portugal a meias com o desastrado Executivo de Passos Coelho e com a conjuntural e já periclitante maioria parlamentar que o suporta!

Na verdade, conforme tem sido salientado, o que está aqui primeiramente em causa, porque é politicamente desonroso para os Portugueses, é exactamente essa espécie de rendição cabisbaixa às imposições (a todas elas, e às vezes mais até do que a elas próprias…), a troco de um suposto merecimento de alguns pratos de lentilhas para a mesa do Parlamento e de mais alguns euro-trocos para o Povo (?) Português…




– E depois, é evidente que na trepidação saída daquele excitadíssimo peito “social-democrata” estava também presente uma outra vertente que – essa, sim – sendo político-ideológica e partidária mas nem sequer estando aqui em discussão, de resto, foi lá metida, conquanto de modo extemporâneo e historicamente abstruso, a primário, invertido e descabido talho de foice e martelo... Porém, nem é sequer tanto por isso que as vibrações e os agachamentos da dita deputada nacional – portuguesa… e logo da bancada do partido tão dignamente fundado por Francisco Sá Carneiro! – deixam de ser menos patéticas.

Todavia, que se há-de fazer, quando são desta qualidade os talentos parlamentares e os supostos e apregoados patriotismos das actuais classes dirigentes alfacinhas e das suas claques políticas europeias que – em Berlim, Bruxelas e Lisboa (ou ainda, recorde-se, lá pelas ruas de Paris, por onde se esgueira sorrateiro e calado, impune e expatriado, o outro nominal troca-tintas do figurão grego …) – tem vindo a reduzir a realidade e a imagem de Portugal, agora sob um novo Ultimato, à triste figura de uma pequena e pobre colónia recheada de caloteiros e agiotas, e que – por isso mesmo – apenas tem merecido ser governada, sem soberania nem crédito, sob um regime de humilhante protectorado, como se fosse um País e um Povo sem História, sem Pensamento, sem Personalidade, sem Cultura, sem Alma e sem Honra!?
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Em: “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 10.10.2012);
“Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 10.10.2012);










sábado, outubro 06, 2012

As Obscuridades da EDA


Não há dúvida que a formosa Empresa de Electricidade dos Açores (EDA) tem um invejável historial de bem servir e alumiar os seus clientes, proporcionando, há décadas, na ilha Terceira – e provavelmente também em todo o nosso restante Arquipélago – uma produção, distribuição e assistência de alto gabarito energético!

– Por aqui e hoje, na mesa de trabalho e estudo onde esta Crónica costuma ser escrita, já foram várias as vezes em que subidas e descidas de corrente deram sinal dessa excepcional e fiável prestação pública, atirando sistemas e programas abaixo e acima, enquanto as luzes, apitos e aparelhos de toda a casa ganham inusitada agitação e parecem ir finar-se a espaços oscilantes e imprevistos, sendo que nem sequer os normalmente suficientes estabilizadores e suas precaucionais e acopladas unidades UPS (outro acrónimo, mas este de “Uninterruptible Power Supply”…) conseguem haver-se em conta com tão eficiente abastecimento…

E o caso, nesta circunstância, até se ficou por menos, não tendo o diabo vindo tecê-las para ficarmos em apagão, horas a fio, como ainda há poucos dias voltou a suceder!

– É claro que aos prejuízos, avarias, incómodos, arrelias, atrasos, indemnizações e avultadas despesas de manutenção, que desses negrumes técnicos recorrentemente decorrem, nem vale a pena contabilizar, ao lado daquilo que tanto tem sido dito, escrito e protestado em vão, desde as associações de Comércio, Serviços e Indústria à mais pequena e bucólica casinha dos contribuintes açorianos.

Todavia, este caso não poderia ficar desfocado e sem mais uma achega face a alguns velhos e conhecidos papéis, arquivos, relatórios e recortes onde não faltam números, potências, centrais, geradores, redes e demais panóplia para registo do brilhante cadastro empresarial da dita EDA, a par de alguns bem recordáveis, co-responsabilizáveis e sucessivos administradores, delegados, antigos e actuais responsáveis planeadores, gestores, “public-relations”, imparciais e ajuizantes conselheiros de sentença sempre oportuna, iluminados académicos e/ou ressabiados e descansados comissários político-administrativos de alta e baixa tensão…, – todos eles já em postos de transformação para melhores diferenciais (e sem choques nos respectivos e inocentados padrinhos institucionais, nem curto-circuito nos fusíveis das suas condensadas memórias, ascensionais carreiras ou douradas reformas…), atirando pedras, calhaus, raios e coriscos aos filamentos virgens das lampadazinhas dos outros, agora que a luz se apaga, ou alguma baixa nos débitos cúmplices de outrora recomeça a manifestar-se com as ventanias e ameaças deste inseguro e eleitoral Outono dos patriarcas e suas luminárias!
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Publicado em:
"Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 06.10.2012);
"Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 05.10.2012);

sábado, setembro 29, 2012

O RACIONAMENTO 
da Vida e da Morte




O Parecer que acaba de ser emitido (64/CNECV/2012) pelo Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida sobre Um Modelo de Deliberação para Financiamento do Custo dos Medicamentos – e sobre o qual logo se quis dar conferência de imprensa “para esclarecimento de todas as questões relativas a esta temática” (sic) –, teve o condão de começar a gerar todo um salutar e expectável coro de indignados protestos, críticas e repulsas, desde a Ordem dos Médicos (que o rotula de “redutor e desumano”, interrogando: “Vamos regressar ao princípio Ceausescu de que o mais barato é o doente morto? Quem vai perguntar aos doentes se prescindem de viver mais dois meses porque é caro?”), a Liga Portuguesa Contra o Cancro (que o dá como “desnecessário, inócuo e perigoso na medida em que isso pode abrir a porta para que tratamentos, que estão perfeitamente aceites do ponto de vista mundial, possam ser cortados", adiantando: "Penso que o Conselho deveria ter dito que era que todos os medicamentos que fossem comprovadamente úteis na cura, sobrevivência e na qualidade de vida não deveriam ser cortados aos doentes"), e a coordenação do Plano Nacional de Prevenção das Doenças Oncológicas (precisando que racionamento é "utilização limitada de um medicamento"), até às reacções – que assumidamente mais quero relevar e que politicamente partilho – de António Arnaut (“O Estado não tem autoridade moral para cortar naquilo que é essencial à vida e à dignidade humana”; “uma discricionariedade perigosa”; “uma aberração ética e um absurdo médico”) e de Maria de Belém Roseira (“a estratégia de comunicação, que fala em racionamento em vez de racionalização, é o pior que há. O sublinhado no racionamento é extraordinariamente perigoso, sobretudo na presente época”; “o direito à saúde é um bem social e o pior que pode acontecer é que se transmita às pessoas a ideia de que estar doente é um peso social, ou que estar com uma doença grave é algo que tem de ser visto ponderando os custos da pessoa, esquecendo completamente os princípios éticos que devem presidir a qualquer decisão”; “Eu não quero viver num país onde a mensagem que se transmite é que os velhos são um peso para a sociedade, porque são pensionistas, e em que os doentes são considerados um peso para a sociedade, porque gastam muito dinheiro”)!

– Ora já não é a primeira vez que este órgão consultivo (cujos regime jurídico, constituição, produção doutrinal, etc., podem ser consultados em http://www.cnecv.pt/index.php) emite opiniões que se revestem de evidente carácter controverso, sabendo-se ainda e para mais muito bem qual o tipo de dissensões e diferenciações internas (disciplinares, filosóficas, técnico-científicas, políticas, religiosas e éticas) que dividem os seus 17 membros (dos quais, aliás, só 11 estiveram presentes na reunião que aprovou – e quantos deles reprovam ou subscrevem? – o dito Parecer…).

Porém, neste documento – apesar dos facetamentos que a sua leitura integral não deixa de ressalvar parcialmente, conquanto mesmo assim de modo dúbio –, a verdade é que o juízo ético-político, a percepção global e a decorrente prática técnico-institucional, real ou potencialmente ali desenhados e acolhidos, encontram mesmo nele uma aberrante fundamentação (e cobertura!) para quanto perspectivam e avaliam sobre a vida humana e sobre as suas derradeiras temporalidades neste mundo, a enfermidade e o sofrimento crónicos e – por fim e implicitamente – sobre a própria prestação de cuidados médicos, clínicos, de enfermagem, paliativos, continuados e outros afins, que aos cidadãos nessas condições deveriam ser sempre imperativamente proporcionados!

Fruto de uma visão distorcida da condição humana e da justa ordenação sociopolítica, jurídico, económica e ética – aliás denunciadora de uma alienante e alienada perspectiva materialista, economicista e até eugenista da doença e da gestão da Saúde e da Assistência Social –, este papel do CNECV, elaborado no seguimento e para satisfação do “pedido formulado por Sua Excelência o Ministro da Saúde [e] diz[endo] respeito à elaboração de um Parecer sobre a fundamentação ética para o financiamento de três grupos de fármacos, a saber retrovirais para doentes VIH+, medicamentos oncológicos e medicamentos biológicos em doentes com artrite reumatóide” (sic) –, é bem revelador de todo um conjunto de outros e idênticos racionamentos (sic) ou cortes nos direitos e deveres das pessoas e das instituições, na dignidade constitucional dos cidadãos, na justiça social e até na garantia do exercício ético, técnico e espiritual da compaixão, da competência, da salvaguarda da vida e da protecção dos mais fragilizados, indefesos ou dependentes, para não dizer da preservação do direito à vida e à morte, sem tortura, padecimento, agonia, sadismo ou para-assassinato psicofísico (e metafísico, evidentemente, para quem desta dimensão tiver o mais ínfimo vislumbre antropológico, religioso ou apenas moral…)!

– Pior do que tudo isto que agora parece tecer-se, ao que se entende, de facto, só mesmo a legalização da eutanásia, coisa que talvez não deixará de vir a caminho e de seguida, enquanto paira já nas mentes e nas cartilhas das causas “fracturantes”, como o reverso incoerente e conspurcado daquilo que hoje se irá condenar e mais há-de servir para arremesso apenas táctico nas campanhas eleitorais do costume, para entretenimento de espíritos entorpecidos e canalização dos votos incautos dos mais cegos, ou dos mais estúpidos…

E assim aqui chegámos, nesta desgraçada e ignara Pátria, nestes tempos de decadência, de opressão desumana e de irresponsabilidade:

– Gasta-se uma vida inteira de trabalhos, descontos, sacrifícios, impostos e contratualizadas e legítimas expectativas, para, ao final dela, uma qualquer corja política de uma qualquer série de governos de pacotilha e seus celerados ministros e conselheiros, poderem aplicar ao Povo, depois de lhe tirarem a saúde e a esperança, o trinco na corrente do soro, ou a última injecção letal!

E enquanto tudo isto se passa, o outro, coitado, na sua assustada plástica de mandarete a prazo, vai recitando Camões, como se o tivesse lido e compreendido, com a cabeça dentro da toca… 
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Em “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 30.09.2012).
Id. em Azores Digital:
RTP-Açores:
e Networkedblogs:
Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 29.09.2012).




terça-feira, setembro 25, 2012

Economia, Moral e Política



           Depois de escrito e publicado neste jornal a nossa habitual Crónica da semana passada, tiveram lugar as mais do que expressivas, impressionantes e gigantescas manifestações populares nacionais (que falaram por si!) contra a política do governo de Passos Coelho, a par da continuação das já esperadas ou previsíveis e consabidas tomadas de posição por parte dos partidos, parceiros e formações sociais, das quais é justo salientar o exercício de equilíbrio político-partidário (com algum denunciado mas notável e controlado malabarismo à mistura…) de Paulo Portas, e bem assim os reacendidos argumentos de políticos, economistas, sociólogos e analistas sociais, e de entre eles os de Manuela Ferreira Leite (no jornal i do dia 15) e de Vítor Bento (https://www.youtube.com/watch?v=QVscITlSkTY&feature=player_embedded), em entrevista à TVI.

Quanto a esta última intervenção, mesmo sem entrarmos de pleno em âmbitos fundamentais e próprios da Filosofia Política, ou logo em questões ideológicas (conquanto estas nunca possam ser escamoteadas nas respectivas funções e escalas!), deve ser dito aqui que muitas das suas reflexões, vindas aliás na linha de abordagens prévias (v.g. em http://www.youtube.com/watch?v=TaXilMs8250&feature=related), haviam já sido feitas anteriormente também por outros, embora com variantes de discurso e argumentos.

– De qualquer modo, como seria de aguardar de um economista (e Conselheiro de Estado) tão sério, ponderado e consciencioso como Vítor Bento, é sempre bom repensar, frontalmente e sem falsificações iníquas, as doenças do País, o remédio e o seu sucedâneo, como ele diz… Coisa que Passos Coelho, infeliz, irresponsável e incompetentemente, não soube, nem nunca certamente saberá fazer!

De resto, muitas das questões teóricas e práticas aqui e ali abordadas andam irrecusavelmente centradas naquilo que na obra Economia, Moral e Política (Lisboa, FFMS, 2011) vem assumido assim:

– “Como se poderá verificar […], sustento, nomeadamente, que a Economia, enquanto estudo da realidade ou, mais propriamente, do comportamento humano relacionado com a actividade económica, é uma ciência positiva e, como tal, (praticamente) autónoma de considerações morais. Mas que a economia, enquanto actividade humana, funciona sempre em contextos morais. E que toda a acção que visa influenciar o funcionamento da economia, ou mesmo os juízos formulados sobre esse funcionamento e os seus resultados, são, sempre e por natureza, moralmente orientados e dependentes da escala de valores morais de quem julga ou de quem age (ou quer agir). E que uma tal acção pertence, também por natureza, à Política.

“ […] É claro que, quanto mais diversas forem as escalas dos intervenientes, mais difícil será a eficácia da acção política, quer se trate da sua formulação, quer se trate da sua concretização. Por isso, as sociedades que melhor conseguem articular o seu funcionamento e a sua acção política são aquelas em que é possível criar consensos morais para a acção política”…

– Lúcidas e prudentes palavras estas para os perigosos e abismais dias que correm, aonde, na inversão exacta da expectável e paciente ordem das coisas, dos valores e dos sacrifícios, quiseram vender lebre por gato a todo um adiado e agora revolto País …
Por outro lado e entretanto foram-se sucedendo as mais diversas tomadas de posição sobre a muita crítica e real situação do País, para a qual, aliás, não é fácil encontrar uma solução equilibrada, justa e minimamente prestigiante, tanto interna como externamente e face ao essencial que importa salvaguardar, como todos os portugueses puderam certamente tornar a constatar hoje perante a cegueira, a surdez e o mutismo invertido (ou de substituição) que se verificaram no debate realizado na Assembleia da República!

Porém, nos Açores, o tempo tem sido de tempestade, de esgalhar árvores e apresentação de listas de candidatos, sabe-se lá qual das tormentas a mais difícil de suportar, gerir e remediar no futuro, – seja ela o dos anticiclones autonómicos, a dos ventos e assentos parlamentares, a da dança das pastas executivas próximas ou a das Autárquicas do ano que vem (para onde muitos dos ditos estariam de facto e estrategicamente tão bem posicionados como dedos numa luva à medida…), – mesmo sem levar em linha de conta as produções, talentos mediáticos, audiovisuais ou quejandos que as mais ou menos felizes ou conseguidas feituras de dobragem de voz, enredo e legendagem – nas máquinas partidárias ou em outros centros de propaganda e contra-propaganda anónima, clandestina ou apenas mafiosa e incautamente (en)coberta… –, vão vendendo à porta de cada um e nas redes sociais, à falta de melhor e mais assumido meio e assinatura, entre pequenos grandes ramos e areias atiradas aos olhos dos eleitores e contribuintes…

E para tal nem será sequer necessário abrir o YouTube, o Facebook ou os sítios partidários que muito em moda e alta estatística de acesso e recomendação de consulta vão granjeando por aí:

        – Basta abrir a portinhola da caixa do correio, a janela de casa ou a do carro, para sentir no ar um antigo cheiro a pólvora, como antigamente se dizia e fazia em Ilhéus, no tempo recorrente ou remoçado dos velhos e duros coronéis, capitães do mato, jagunços e suspirantes moças românticas e passionais, todos à espera da hora da telenovela dos outros, quando não ou afinal eles mesmos já propriamente dentro dela, como figurantes inocentes (?) mas úteis de uma tragicomédia, insularmente repetida ad nauseam, porém que tornará a ultrapassá-los irremediavelmente de novo e mais depressa do que se imagina!
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Publicado em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 23.09.2012).