sexta-feira, maio 03, 2013


Memória de um Projecto Cristão
para Desenvolvimento dos Açores



Nesta efeméride da passagem de meio século sobre a ocorrência de acontecimentos históricos muito marcantes e decisivos na vida da sociedade açoriana de meados do Século XX, tive já oportunidade de evocar aqui dois deles – a II Semana de Estudos dos Açores e o início dos Cursos de Cristandade no Arquipélago –, relacionando-os especialmente com a publicação da Encíclica Pacem in Terris, a realização e a recepção do Concilio Vaticano II, a Doutrina Social da Igreja e o Pensamento Humanista Cristão, – factos e factores que conjugadamente moldaram uma ilustríssima geração de Açorianos e balizaram os seus horizontes, ideários, projectos e comprometimentos espirituais, sociais, culturais e políticos.

1. Hoje abordarei sucintamente mais um exemplo desses acontecimentos e recepção dessas ideias, recordando a paradigmática confluência verificada entre aquele que seria afinal o principal lema das Semanas de Estudos e uma sua interpretação ortoprática tal como foram subscritas no discurso de um distinto homem da sociedade e da imprensa micaelenses da época, – precisamente o Dr. Manuel Carreiro, então Director do “Diário dos Açores” (e cujo filho Manuel/“Mani” viria a falecer, morto em combate na Guiné, durante a Guerra Colonial que o regime deposto em 25 de Abril sustentaria durante décadas de opressivos sacrifícios, injustiças, logros, arbitrariedades e impasses nacionais, regionais e pessoais…). 

– E foi assim que na Apresentação do Livro da II Semana de Estudos (realizada em Angra do Heroísmo entre os dias 3 e 10 de Abril de 1963) o seu genial animador e incansável Secretário, Doutor José Enes (na pintura-retrato de Aristides Ambar que ilustra este texto), depois de salientar o “nível das conferências e dos debates, o interesse activo e o admirável espírito de compreensão, sinceridade e tolerância” que haviam timbrado as respectivas sessões com “um valor cultural e humano verdadeiramente invulgar”, acabaria por colocar aquele ímpar projecto pan-açoriano sob o programático lema de “Mais saber para melhor viver”!

Porém aquela formulação fora possivelmente inspirada e como que parafraseava filosoficamente uma célebre passagem da Encíclica Mater et Magistra (de João XXIII), por sua vez recolhida da não menos indicativa expressão – “Ver, julgar, agir” – do método pastoral do cardeal Joseph Cardijn, fundador da Juventude Operária Católica (JOC) e que tinha aliás desempenhado activo papel como um dos mais empenhados e primeiros responsáveis católicos a pedir ao Papa, em Memorando próprio, a publicação de nova Encíclica social para marcar o 70º. Aniversário da Rerum Novarum (1891) de Leão XIII. E de facto, na Mater et Magistra (15 de Maio de 1961), no articulado relativo a “Sugestões práticas”, viria depois a ler-se:

– «Para levar a realizações concretas os princípios e as directrizes sociais, passa-se ordinariamente por três fases: estudo da situação; apreciação da mesma à luz desses princípios e directrizes; exame e determinação do que se pode e deve fazer para aplicar os princípios e as directrizes à prática, segundo o modo e no grau que a situação permite ou reclama. São os três momentos que habitualmente se exprimem com as palavras seguintes: "ver, julgar e agir"» …

2. Ora é neste contexto socio-histórico e teórico-prático que José Enes, citando Manuel Carreiro, depois de afiançar que como portugueses e como açorianos tínhamos consciência de que a hora não era “para divagações estéreis nem para discussões bizantinas”, destacava o argumento a relevar e subscrever com o Director do “Diário dos Açores” quando este dizia que “de mãos dadas, olhando-nos de frente e nunca indiferentes, poderemos discutir, limar arestas, e resolver grandes problemas açorianos, há muito aguardando solução satisfatória. Só assim, francos e descontraídos, poderemos dar ao Arquipélago aquela coesão e força anímica de que tanto carece, para que mais se valorize e prestigie”!

Por seu lado e do mesmo modo, justa e finalmente José Enes concluía, com toda a previdente lucidez da sua tão reflectida e avisada prospectiva: – “E é desta forma que as ideias entram na convivência humana, ao nível da consciência colectiva, transformando-se em sistemas de dominantes teóricas e práticas. Quer dizer: é assim que se elabora a cultura vivida.

“Com o desejo de mais saber para melhor viver, comecemos, portanto, sob o signo da boa vontade, da sinceridade e da tolerância”…

3. Todavia, agora e aqui, passado meio século, talvez seja urgente e proveitoso repensarmos todos e analogamente o estado de coisas a que chegámos, e tudo aquilo que não soubemos (ou não nos deixaram…) construir como homens e como cristãos portugueses dos Açores, no País, para a nossa Região Autónoma e com todos os Açorianos, sendo que talvez com isso nos tornaríamos mais dignos das esperanças e lutas do passado… Ou não permanecessem ainda vigentes e actuais as históricas palavras da mesma Encíclica, lá pelos idos (?) anos 60, ao analisar os antecedentes do século, assim:

–“Como é sabido de todos, o conceito do mundo económico, então mais difundido e posto em prática, era um conceito naturalista, negador de toda a relação entre moral e economia. (…) Juros dos capitais, preços das mercadorias e dos serviços, benefícios e salários, são determinados, de modo exclusivo e automático, pelas leis do mercado. (…) Num mundo económico assim concebido, a lei do mais forte encontrava plena justificação no plano teórico e dominava no das relações concretas entre os homens. E daí derivava uma ordem económica radicalmente perturbada.

“ (…) Enquanto, em mãos de poucos, se acumulavam riquezas imensas, as classes trabalhadoras iam gradualmente caindo em condições de crescente mal-estar. (…) Sempre ameaçador o espectro do desemprego.

“ (…) Não devemos, pois, admirar-nos, se os católicos mais eminentes, atendendo aos apelos da Encíclica, empreenderam iniciativas múltiplas, para traduzirem em prática os seus princípios. De facto, nessa tarefa se empenharam, sob o impulso de exigências objectivas da natureza, homens de boa vontade de todos os países do mundo.

“Por isso, a Encíclica, com razão, foi e continua a ser considerada como a Magna Carta da reconstrução económica e social da época moderna”…
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Em RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/index.php?article=32031&visual=9&layout=17&tm=41;
Azores Digital:
Jornal "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 03.05.2013)

quarta-feira, maio 01, 2013


Revista “Nova Águia” publica
ensaio sobre figuras açorianas

Acabado de sair, o nº. 11 (Março de 2013) da “Nova Águia” – Revista de Cultura para o Século XXI (Lisboa, Edições Zéfiro) inclui um ensaio dedicado a Agostinho da Silva e à sua ligação aos Açores e a Açorianos.




Da autoria do investigador, ensaísta e professor universitário Eduardo Ferraz da Rosa, o texto aborda a vida e o pensamento daquele grande pensador, filósofo e escritor português, nas suas relações pessoais e académicas com duas outras personalidades açorianas – os terceirenses Vitorino Nemésio e Alberto Machado da Rosa, com quem os seus percursos históricos, existenciais e universitários, tal como a sua plurifacetada obra, se cruzaram ao longo dos anos, em Portugal, no Brasil e nos Estados Unidos.

Intitulado “Memórias Açorianas de Agostinho da Silva, Vitorino Nemésio e Alberto Machado da Rosa”, o estudo de Eduardo Ferraz da Rosa retoma, agora com novos desenvolvimentos e maior amplitude, um anterior trabalho que fora publicado no seu livro O Risco das Vozes (editado em Lisboa, com Prefácio de Carlos Reis, em 2006, pela Academia Internacional da Cultura Portuguesa, presidida por Adriano Moreira).

O presente trabalho de Eduardo Ferraz da Rosa regista o convívio intelectual e encontros pessoais com Agostinho da Silva, traçando o seu perfil filosófico, atribulações políticas e académicas, principais núcleos temáticos de reflexão e o seu papel na criação e desenvolvimento de academias, universidades e centros de estudos luso-brasileiros, analisando ainda as ligações de Agostinho da Silva à Tradição Paraclética e ao Culto do Espírito Santo nos Açores, e bem assim os seus diálogos com aquele que foi, até hoje, um dos mais destacados, inovadores e críticos estudiosos de Eça de Queirós, precisamente o académico Alberto Machado da Rosa (Angra do Heroísmo, 1924 - Monsaraz, 1974), doutor em Literaturas Hispânicas, investigador e professor universitário nos Estados Unidos (Wisconsin e California, Los Angeles), sendo depois todas estas referências articuladas com a vida e o pensamento de Agostinho da Silva, cuja figura, por sua vez, é relacionada com Vitorino Nemésio nos âmbitos culturais, filosóficos e literários referidos e detectados neste muito curioso e pertinente ensaio, aonde, por exemplo, são reproduzidos testemunhos únicos de outros amigos, companheiros ou colegas comuns de Machado da Rosa, que foram pesquisados por Eduardo Ferraz da Rosa (como o médico Hélio Flores Brasil, o livreiro José Teixeira de Borba e o escritor e jornalista João Afonso).

Com sucessivos lançamentos a decorrer em todo o País, este número da “Nova Águia” – herdeira da revista A Águia e do ideário do chamado Movimento da Renascença Portuguesa (Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, António Carneiro, António Sérgio, Fernando Pessoa, Leonardo Coimbra e próprio Agostinho da Silva) –, actualmente dirigida por Renato Epifânio, Miguel Real e Luísa Janeirinho, inclui vasta lista de Colaboradores, entre os quais, para além de Eduardo Ferraz da Rosa (que é também membro do seu Conselho de Direcção), Adriano Moreira, António Carlos Carvalho, António Braz Teixeira, José Eduardo Franco, Manuel Ferreira Patrício, Manuel J. Gandra, Maria Leonor Xavier e Pinharanda Gomes.
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Em "Diário dos Açores (Ponta Delgada, 01.05.2013);



sábado, abril 27, 2013


As Leituras dos Cursistas

Como aqui assinalei antes, está presentemente a decorrer em Angra do Heroísmo a comemoração do quinquagésimo aniversário dos Cursos de Cristandade nos Açores.


Para além da sua já situada importância social – a par das Semanas de Estudo que, embora em campos diferentes, também foram concretizações de consciencialização e elaboração do pensamento e da acção da nossa sociedade na segunda metade do Século XX –, sinalizarei hoje algumas das sugestões doutrinárias e recomendações bibliográficas que eram propostas e disponibilizadas para aprofundada reflexão e contínua formação religiosa, teológica e moral dos Cursistas, e que moldaram assim muitas das linhas teórico-práticas orientadoras e renovadoras do sentido e projectos cristãos do seu mundo, buscas de sentido, reflexão e vivências do quotidiano, sendo que a tanto não fora alheio o Vaticano II, como aliás reconheceu D. Juan Hervás, no seu Manual de Responsáveis dos Cursilhos de Cristandade, ao referir a conciliar “incorporação plena dos movimentos bíblico, patrístico e litúrgico, num aprofundamento da teologia das realidades terrestres, da doutrina sobre a liberdade religiosa e das aspirações do movimento ecuménico”, – todos que, naturalmente, teriam significativa projecção sobre os Cursilhos (nascidos anos atrás).

Ora é neste confluente horizonte – genuína mas sincreticamente marcado por métodos, técnicas e modelos de auto-análise evangélica, espiritual e existencial reconhecíveis nos Exercícios Espirituais dos Jesuítas, no método de Cardijn e em vivências próximas do Opus Dei –, que também se enquadravam as principais, mais destacadas e exigentes leituras e livros dos Cursistas, onde, em primeiro lugar entre os recomendados, estava o emblemático e pessoal Guia do Peregrino (publicado pelo Secretariado Nacional e sempre usado durante e após os Cursos), espécie de manual litúrgico e de horas, oferecimento de obras, exame de consciência, cânticos e orações.


– Mas depois, entre o discurso quase poético do duplo Cristo Partido de Ramón Cué, S.J. (Porto, Editorial Perpétuo Socorro) e a minuciosamente esquematizada axiologia dos Valores Humanos (4 Volumes) de A. Ortega Gaisán (Braga, Editorial Franciscana), em estante de destaque lá vinha o Caminho de Josemaría Escrivá de Balaguer, editado pela Aster (ligada à Prumo) e cujo excepcional catálogo, nas colecções Éfeso e Signo, em traduções notáveis, incluía, entre outros, autores como Romano Guardini, Paul Claudel, Daniel-Rops, Jacques Leclerq, Michael Schmaus, Antoine Sertillanges, Journet, Pieper, Charles de Foucauld, Garrigou-Lagrange, e Jesus Urteaga (cuja obra O Valor Divino do Humano, é ainda um texto de esperança e confiança na audácia intelectual, metafísica e ética da Fé)!

– Sendo estas as mais conhecidas leituras e reflexões da Cristandade dos Cursos (e não só!), oxalá as assumissem e vivessem todos hoje, tal como, naqueles (afinal sempre recorrentes) tempos cruciais, escrevia Michel Quoist, na mesma demanda permanente da reconversão e do diálogo intemporal “do homem com o seu Deus”…
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Em Azores Digital:
RTP-Açores:
“Diário dos Açores” (28.04.2013) e “Diário Insular” (27.04.2013).

quarta-feira, abril 24, 2013


Igreja e Política nos Açores
durante o Século XX



Diário Insular (DI) – Tem salientado o papel da Igreja na transformação da sociedade açoriana do Século XX. Como perspectiva essa relação?

Eduardo Ferraz da Rosa (EFR) – O período referido – precisamente entre o final da década de 40 e a primeira metade dos anos 70 (até ao 25 de Abril) – constituiu de facto um ciclo histórico-político, psicossocial, cultural, intelectual e espiritual absolutamente único e decisivo na evolução da nossa sociedade, tendo sido por isso determinante para a construção possível da unidade do Arquipélago e a génese de uma nova consciência regional açoriana.

– Digo “nova consciência”, apesar de diferentes configurações axiológicas e societárias se terem verificado em outros períodos e contextos históricos; porém, nunca como ali se verifica tão profundamente a tematização e consciencialização dos Açores como comunidade dotada de personalidade colectiva e de unidade destinal, para usar a exemplar formulação filosófica de José Enes.

DI – Onde e como nasceram essas dinâmicas?

EFR – Os centros comuns de geração e de encontro desse progressivo e compósito processo reflexivo e programático regional – onde confluem (em campos, dimensões e carismas diferentes) várias instituições e movimentos (Seminário de Angra, IAC, Semanas de Estudo, Cursos de Cristandade, Acção Católica, LIC, JEC e JOC…) –, encontram-se justamente nos círculos de influência e nos quadros teórico-práticos da Igreja, da Doutrina Social e do Humanismo próprios do Cristianismo.

– Tudo o resto, no Pensamento e na Acção locais (inclusive nas esferas da Política, do Associativismo, da Educação e da Comunicação Social), tanto em termos de projecto de sociedade como de vida pessoal, assentou, directa ou indirectamente, nessa matriz, com a subsequente redescoberta, reconfiguração e correlativo entendimento dos sinais das “realidades terrestres” e da “ordem universal”, que o Vaticano II, a par da nova ordem mundial nascente, trouxeram até nós…

DI – Nesse contexto, como situa o 25 de Abril de 74?

EFR – … Depois, mas já numa fase de certo declínio, desencanto ou esgotamento daqueles ideais (em parte devido à situação política global e à fracassada “primavera marcelista”), foi só e apenas com algumas daquelas linhas e categorias (conseguidas umas, frustradas outras…) que chegámos ao 25 de Abril! Porém, tudo isso, que fora incarnado em pessoas e projectos concretos, sofre lamentáveis e regressivos adiamentos, bloqueios, desperdícios mentais, estruturais e institucionais, com intolerâncias, repressões e saneamentos que provocaram desmotivação, conformismo, cedências ou revolta, apesar das aspirações e conquistas autonómicas…

Ora com a libertação revolucionária (e outras arrumações ideológicas, crispações, subalternizações e enquistamentos partidários de muita gente, saberes e valores…), abriu-se também a porta a oportunismos, impasses, rupturas e insustentabilidades, com a agravante terminal de, contemporaneamente, ser até difícil a crença (esperança ou utopia…) numa Pátria mais justa, livre, desenvolvida e com sentido do futuro!

– É certo que a culpa formal e sistémica das nossas múltiplas falências não estará essencialmente na Democracia e na Autonomia! Todavia, os vigentes modelos, paradigmas e regimes societários, éticos e culturais, a perpetuarem-se, não garantirão nem a viabilidade material nem a legitimidade moral da sua (e nossa) sobrevivência, em moldes livres e dignos, por muito mais tempo…
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(*) Entrevista concedida ao jornal “Diário Insular” (25 de Abril de 2013).
Idem em “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 25.04.2013);
RTP-Açores:

sábado, abril 20, 2013


50 Anos de Ultreias
nos Açores

Cumprindo-se este ano a passagem de meio século sobre a realização dos primeiros Cursos de Cristandade nos Açores, tal como assinalámos aqui na nossa Crónica anterior (“Reencontros com a História”), justo e devido é realçar esta efeméride, que aliás – e bem – vai ser comemorada, nos próximos dias 26 a 28 do corrente, na ilha Terceira, com a realização, no dia 27 de Abril, da VII Ultreia Nacional (subordinada ao tema “Fé: Experiência de um Amor Recebido e Comunicado”) do MCC (Movimento dos Cursilhos de Cristandade) de Portugal, de acordo com o Programa estabelecido para o efeito e que integra também diversos convívios, visitas e passeios turísticos, para além de uma Eucaristia na Sé de Angra e de outros encontros de reflexão, estudo e meditação.




– Idealizado e dinamizado por um grupo de leigos e responsáveis eclesiásticos católicos espanhóis muito ligados à Acção Católica, com destaque para Eduardo Bonnin Aguiló (1917-2008) e D. Juan Hervás y Benet (1905-1982), estes Cursilhos tiveram início na década de 40 do século passado, num contexto muito marcado pelo tradicionalismo católico, que procuraram ultrapassar através de novos processos evangélicos, pastorais e espirituais, de opções existenciais, valores e métodos de auto-análise de vida e da sociedade circundante, segundo métodos e modelos que fundiam diversas linhas de meditação, oração, reconversão, acção e compromisso eclesial e comunitário, alguns deles sincreticamente, mas de modo inovador, marcados ou reconhecíveis também nos Exercícios Espirituais inacianos, no método de Cardijn e em certas vivências próximas dos carismas e práticas do Opus Dei (de cujo fundador, Josemaria Escrivá de Balaguer, Juan Hervás, aliás, foi bastante próximo…).



Nos Açores, tal como no País em geral, mas também um pouco por todo o Mundo, os Cursos de Cristandade – num quadro especial e específico de renovação do Catolicismo na acção e na espiritualidade laicais – desenvolveram, logo de início, um trabalho que proporcionou realmente uma dilatada partilha de vida e de experiências cruciais cristãs, naqueles anos marcados pelo Concílio Vaticano II e pelo aggiornamento proposto pelo Papa João XXIII, tendo os dois primeiros Cursos para Homens tido lugar em Angra do Heroísmo, e o 3.º Regional (Homens), 1.º em S. Miguel – documentado na Foto que ilustra este texto – ocorrido nas Furnas, em Dezembro do mesmo ano (1963).

– Todavia, o primeiro Curso de Cristandade que teve a presença de açorianos, a convite e por incentivo do Prelado Diocesano de então, foi o 14.º Curso Nacional, realizado no Porto, e que contou com a ida dos Cursistas pioneiros regionais Hernâni Mendonça e Cunha, António Braz e Dr. Henrique Braz, nele tendo também participado militantes empenhados e de grande projecção católica posterior no País, como o Arq. Nuno Teotónio Pereira.

No Curso referido, que teve como Director Espiritual o então Padre Januário dos Reis Torgal (actual Bispo das Forças Armadas), estiveram também presentes o Cónego José Garcia e o Dr. Cunha de Oliveira (que viria depois a ser uma das suas figuras cimeiras e dinamizadoras).

– Por seu lado, o Dr. António Rosa (da Clínica do Bom Jesus) foi, na mesma altura, um dos primeiros animadores dos mesmos Cursos em S. Miguel, juntamente com sua esposa, D. Maria Luísa Rosa (primeira reitora dos Cursos de Senhoras, com a terceirense D. Aurora Braz).

Assim sendo, talvez se possa mesmo dizer que, ao seu nível de objectivos próprios, a par das Semanas de Estudo, os Cursos de Cristandade nos Açores foram, no seu sucesso e impacto globais, desse modo e com as suas propostas de análise e estudo do sentido dos casos, concretizações privilegiadas de momentos ímpares de consciencialização privada e de elaboração do pensamento e da vida da nossa sociedade, umas e outros preponderante e identificadamente com declaradas (e até complementares...) referências doutrinárias, teoréticas, axiológicas e práticas herdeiras da tradição do Humanismo Personalista, da tensão profética do Cristianismo e da Doutrina Social da Igreja.

– Todas estas dinâmicas, com uma feição inter-ilhas, foram – esperançosa e felizmente naquela época… – geradoras consequentes de renovadas consciências sociais, societárias, intelectuais e espirituais, com uma liderante e notabilíssima componente local e regional que – apesar de divergências, concorrências e divisões nos penhascos... – ajudaram decisivamente a pensar e a preparar o nosso Arquipélago para a formulação de novas metas a todos os níveis, nos anos subsequentes e de um modo simultaneamente realista, generoso e utópico, talvez nunca mais igualado até hoje…

19.04.2013
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Em RTP-Açores:
Azores Digital:
e Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 21.04.2013).
Outra versão em "Diário Insular" (20.04.2013).



ESTUDO REALIZADO NA TERCEIRA
ENTRE FEVEREIRO E NOVEMBRO DE 2012

Relatório arrasa implementação
de Cuidados Continuados


O relatório "Levantamento, Avaliação e Operacionalização da Rede de Cuidados Continuados Integrados. Situação Atual e Perspetivas Estratégicas da Política de Saúde nos Açores", disponibilizado ao DI pela secretaria regional da Saúde, traça um cenário negro no que diz respeito à área dos cuidados paliativos e ao estado atual da implementação da rede de cuidados continuados.

O estudo, assinado por Eduardo Ferraz da Rosa, debruçou-se sobre o caso terceirense. De acordo com o documento, após auscultadas diversas entidades, foi concluído existir "indefinição total na conceção, organização, planeamento e coordenação de Serviços de Cuidados Paliativos no HSEIT (Hospital de Santo Espírito da Ilha Terceira) e entre esta principal unidade de saúde e as restantes unidades, serviços, instituições e âmbitos sociais, familiares, domiciliários/domésticos e individuais dos utentes necessitados desses cuidados e especializados acompanhamentos técnicos e humanos específicos".

A Lei de Bases dos Cuidados Paliativos, entende-os como "os cuidados ativos, coordenados e globais, prestados por unidades e equipas específicas, em internamento ou no domicílio, a doentes em situação de sofrimento decorrente de doença incurável ou grave, em fase avançada e progressiva, assim como às suas famílias".

Já os cuidados continuados são os cuidados de convalescença, recuperação e reintegração de doentes crónicos e pessoas em situação de dependência.

O relatório foi produzido entre fevereiro e novembro do ano passado. Foram auscultadas "todas as instituições, agentes e atores direta ou indiretamente ligados às áreas da prestação de Cuidados de Saúde e Assistência Social na Ilha Terceira (Hospitais, Centros de Saúde, Residências e Lares, e outros Serviços Públicos e Privados)".

Quanto a recomendações, o documento, no domínio dos cuidados paliativos, defende uma mais "competente definição na conceção, organização, planeamento e coordenação de serviços de cuidados paliativos no HSEIT", isto "procurando também aqui promover uma crescente humanização na prestação destes cuidados e um mais sistemático, efetivo e generoso apoio às famílias envolvidas e/ou a envolver responsavelmente em todo tão exigente processo". 

Este relatório indica ser necessário cumprir as linhas definidas nos programas do X e XI Governos Regionais no campo da política de Saúde, nomeadamente no que diz respeito à "real implementação da Rede de Cuidados Integrados da Região Autónoma dos Açores".


No domínio dos cuidados continuados integrados, é recomendada a realização de mais estudos, que se debrucem sobre a realidade das nove ilhas.

O autor do relatório encontrou repetidas falhas graves no seio do Hospital de Santo Espírito. 

Entre estas falhas estão a "ausência recorrente de elaboração competente e relevante de carta de alta", a "inoperância no sentido da programação dos seus serviços e procedimentos internos, nomeadamente no que concerne à padronização processual, documental e informática da informação e da história clínica pregressas dos seus utentes", ou "falhas na circulação devolutiva da informação clínica atualizada dos utentes atendidos e tratados na urgência" entre esta unidade de saúde e as restantes instituições de saúde, assistência social e de prestação de cuidados. 

Havia também à data de produção do relatório indefinição coordenadora entre os Centros de Saúde de Angra e da Praia no âmbito das atribuições da Unidade de Saúde da Ilha Terceira e era "praticamente nula" a cobertura no campo da assistência domiciliária. 

Foram identificadas deficiências na assiduidade, pontualidade e práticas deontológicas de profissionais de saúde a prestar cuidados nas freguesias. 

É feita ainda a "constatação de demoras, adiamentos injustificados e falta de coordenação e gestão dos calendários, agendas e tempos de consultas médicas e lista de espera nos Centros de Saúde e nos Postos de Saúde das Freguesias- situação agudizada pela falta de um sistema integrado de marcação de consultas".

Há ainda, em termos globais, falta de campanhas de formação e informação dirigidas aos prestadores de cuidado, e escassa articulação entre as políticas de saúde e social e as políticas de habitação, urbanismo e equipamentos "conforme decorre explícita e implicitamente dos relatórios efetuados pelos serviços de bombeiros, transporte de doentes e proteção civil".

É assinalado um fraco envolvimento por parte de alguns agentes locais (Câmaras e Juntas de Freguesia) em projetos, processos e procedimentos nos campos da Saúde e da Assistência Social. Por outro lado, existe um acesso difícil dos membros das autarquias locais às instâncias decisórias da administração regional.

Este documento identifica "restrições, congestionamentos e protelamentos de vários procedimentos médico-legais, administrativos e tributários nas delegações de saúde, nomeadamente no que concerne às solicitações de associações de utentes das áreas da Saúde Mental, das Deficiências e das Dependências".

Rever a lei

O relatório recomenda a correção de todos estes aspetos. É apontada como necessária a revisão do decreto legislativo regional nº13 /2008, que lançou as bases para a criação de uma rede de Cuidados Continuados Integrados na Região (CCIRAA), de modo a adaptar esta rede às "características, meios humanos, técnicos, materiais e logísticos" do Serviço Regional de Saúde. 

Também como medida central surge "reconsiderar a constituição, as atribuições, a agenda e o funcionamento e os objetivos prioritários da Coordenação Regional da Rede CCIRAA", fazendo o mesmo face à coordenação por ilha.

É recomendada a responsabilização dos hospitais pela elaboração competente de cartas de alta e pela existência e disponibilização de informação sólida sobre os utentes. 

Será ainda, entre outros aspetos, importante uma célere implementação da cobertura de assistência domiciliária.

Uma recomendação final vai para "fazer cumprir a obrigatoriedade da existência, em cada unidade ou serviço de saúde, de um processo individual de cuidados continuados da pessoa em situação de dependência".

Todas as unidades, serviços e agentes que integram a rede CCIRAA deviam ainda, de acordo com este documento que está nas mãos da secretaria regional da Saúde, ser alvo de avaliações periódicas, independentes e objetivas, como instrumento de melhoramento de todo o sistema.
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Em “Diário Insular”, Angra do Heroísmo, 20.04.2013.
Texto integral disponível aqui: http://we.tl/7HxjNO81Z2




sexta-feira, abril 12, 2013


REENCONTROS
com a História



No dia em que escrevo este texto – 11 de Abril – comemora-se o 50º. Aniversário da ocorrência, praticamente simultânea, de três acontecimentos cujos significados e alcances socio-históricos, culturais e espirituais se revestem de grande relevo e são, por isso, merecedores de uma evocação reflexiva entre nós, por muito sucinta que a mesma seja feita aqui e hoje apenas nestas páginas de jornal:

– Refiro-me à publicação da Carta-Encíclica Pacem in Terris (do Papa João XXIII, falecido dois meses depois);

              - à realização da II Semana de Estudos dos Açores,



- e ao início do Movimento dos Cursos de Cristandade nos Açores, factos sequenciais, estreitamente interligados e quase temporalmente coincidentes (entre Abril e Setembro de 1963), conforme noutra ocasião já tive oportunidade de abordar desenvolvidamente e a cuja memória mais tarde voltarei.




Então, na dinâmica envolvência do Concílio Vaticano II;

- na evolutiva e progressiva tomada de consciência dos Açores como realidade regional una e em busca de um almejado Desenvolvimento integral (estrutural, económico, social, cultural, político, educativo e intelectual),

- e, enfim, naqueles tempos de efervescências mundiais e civilizacionais, e de novos desafios religiosos, ideológico-políticos, socio-institucionais e espirituais, tudo eram (e foram!) novos e pioneiros sinais dos tempos e busca de alternativos tempos novos, numa dimensão talvez nem sempre agora (imerecidamente) conhecida e avaliável, quando não até conveniente e tacitamente esquecida…

– E todavia, desde esse (ainda nosso) meio século passado até à nossa contemporaneidade (que é também parte dele ainda…) – apesar da contínua mudança dos tempos, das vontades, das gerações, das realidades da Cidade e das configurações mentais, discursivas e axiológicas dos Homens e Mulheres dos Açores, do País e do Mundo –, muitos são os problemas, carências, atrasos, desânimos e falhanços de que identicamente padecemos (e somos!) nos dias que correm, parecendo antes, ou sempre ciclicamente, amiúde condenados aos mesmos, opressores e injustos valores e padrões de vida, como se nada tivéssemos aprendido com a História, ou falhado, sem Esperança nem Coragem, o encontro com ela e connosco mesmos!

11 de Abril de 2013
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Publicado em RTP-Açores:
Azores Digital:
“Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 13.04.2013),
e “Diário dos Açores” (14.04.2013).




quarta-feira, abril 10, 2013


Cuidados Continuados Integrados
e Política de Saúde nos Açores



“Diário Insular” (DI) – É sabido que coordenou e executou, para o Governo Regional, um Projecto de Investigação sobre a Rede de Cuidados Integrados (RCCI) na Região. Confirma a elaboração desse Projecto e do respectivo Relatório?

Eduardo Ferraz da Rosa (EFR) – Sim, confirmo a realização desse Estudo (que envolveu praticamente, na primeira parte concretizada, todas as entidades e instituições públicas e particulares directa e/ou indirectamente ligadas à Saúde e à Assistência Social na ilha Terceira, para além de responsáveis institucionais e agentes, actores socioprofissionais, técnicos e especialistas nessas áreas, e ainda responsáveis pelas Autarquias e outros Parceiros Sociais).

Esse exaustivo (e empenhativo!) trabalho decorreu durante o ano de 2012, a pedido diligente e esforçado do então secretário da Saúde [Miguel Correia], tendo as respectivas Conclusões e Propostas sido entregues, já ao novel detentor do lugar [Luís Cabral], em Dezembro último…

– Porém, esse mesmo Relatório, por minha iniciativa, foi também entregue ao Presidente [Vasco Cordeiro] e ao Vice-Presidente [Sérgio Ávila] do Governo dos Açores!




DI – Quais os âmbitos, conteúdos, Conclusões e Propostas desse Estudo?

­EFR – O objecto do Estudo foi o levantamento e avaliação da Rede de Cuidados Continuados Integrados na Região Autónoma dos Açores, tendo-se procedido à caracterização actual e às perspectivas de operacionalização subsequente e possível.

– O projecto, como referi, tomou a Terceira como primeira amostra científica ou modelo sociológico para investigação ou estudo de caso e de campo.

As Conclusões e Propostas, que foram deontológica e naturalmente entregues a título reservado, como documento interno para reflexão e tradução prática (espero eu…) –, não sendo propriamente confidenciais, decorrem todavia de delineamentos programáticos assentes, dos depoimentos e testemunhos pessoais e/ou dos memorandos sectoriais facultados pelos múltiplos participantes e colaboradores ouvidos, sendo porém que muitas das estruturas e bloqueios analisados são do domínio e do conhecimento públicos, embora eventualmente de modo menos tematizado, formal e sistemático…




 – Contudo e assim, esses são problemas, situações e factos bem perceptíveis (alguns até já denunciados!) pela sociedade, utentes, doentes, famílias, instituições, OCS e por todo e qualquer profissional dedicado, analista sério, observador atento, estudioso isento e rigoroso, ou político competente, bem formado e responsável!

DI – Como explica a não operacionalização cabal da Rede de CCI nos Açores?

EFR – Essa constatação é verdadeira, sendo todavia que o problema é complexo, tal como a nível nacional e até internacional, porquanto envolve uma diversidade de causas, constrangimentos, inoperâncias, faltas de planeamento, gestão integrada de recursos materiais, técnicos, humanos e logísticos, para além de inadmissíveis lacunas e preguiças conceptuais, protelamentos de decisão e vontade institucional, tudo amiúde aliado a ausências de definição de prioridades e ao esquecimento de valores essenciais para a implementação efectiva e comunitariamente partilhada de uma Política de Saúde e Assistência sustentável e humanizada …




DI – Um seu conhecido trabalho académico anterior [Investigação para um Projecto de Doutoramento no ICBAS/Universidade do Porto], na área das Ciências Biomédicas, tornou-o mais sensível a esta problemática?

EFR – Sim, mais empírica e cientificamente habilitado, e mais ética e filosoficamente crítico…

– E também mais exigente, mais refractário a sofismas partidários e ainda mais fiel aos valores de uma política alternativa, humanista e socialmente justa!
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(*) Texto revisto da Entrevista publicada nos jornais “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 10.04.2013) e “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 11.04.2013).
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Publicado em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 10.04.2013);
Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 11.04.2013);
RTP-Açores:

e Azores Digital:




sábado, abril 06, 2013


Os Lugares Naturais



Pese embora a expressão que dá título a esta Crónica ser – talvez por arreigado hábito disciplinar – realmente inspirada no complexo e plurifacetado discurso aristotélico, a verdade é que aqui vamos hoje tomá-la como uma espécie de mote ou motivo para a problematização – conquanto intencional e parcialmente análoga… – de outros lugares (e também de alguns não-lugares), conceitos tanto filosoficamente apelativos quanto sociologicamente pertinentes (como, entre outros, Marc Augé os abordou nos quadros não só cingidamente físicos mas também simbólicos, comunicacionais, socio-institucionais e éticos das formas da existência moderna, especialmente da vida urbana ou cosmopolita, ou nas chamadas Modernidade e Pós-Modernidade.

Todavia, na linguagem popular, ou mais prosaica, das falas do quotidiano, a tematização da profunda diferença entre lugar e não-lugar aparece-nos também intuída em enunciações e provérbios, seja – por exemplo – para estabelecer relações críticas entre saber real e lugar convencional; lugares comprados e posições do carácter vendido; mediocridades de habilitação, talento ou competência; serventia e subidas de posto ou na chefia ou mando das respectivas tribos; neutralidade ética e futilidades discursivas; anonimato massificado e solidão espiritual, etc., por aí fora, como se vê e é impossível a tanto e tais desaforos ou patologias não reagir!

– E não se reflicta só no que se passa por essa nação que fez de um ressabiado símile nominal do sábio ateniense um PM (com quase todo um partido rendido, ou nele re-enroscado em peso ou vacuidade!) e que o leva agora (sob aplausos de envergonhar!) à pantalha dos embustes como redentor e redimido sofista em causa e interesse exclusivamente próprios (dos quais o PS, a prazo seguro aliás, e dessa táctica desforra extemporânea, será a primeira vítima entontecida e penalizada…);

       - ou naquele PSD (o do saudoso Sá Carneiro!?) que, adiado, arrasta um tosco Coelho governamentado pelas orelhas, com um paradigmático Relvas já em descabelada cauda, porém também ele (para não atirar pedras aos ecrãs do vizinho!) com idêntica trupe circense de falaciosos comentadores mediatizados…;

       - ou, enfim, num híbrido CDS-PP (a desbaratar os trunfos que a outros tanto custou a credibilizar) …

– Não! No que estou também a pensar é nos não-lugares (ou não desempenhos competentes…) que putativos candidatos e falhados executivos ocupam já hoje nas nossas periclitantes empresazinhas e servicinhos autonómicos (quais espécimes criados segundo um perfeito Princípio de Peter!); e assim por diante…

O resto, tudo o resto, faz parte natural e efectivamente remanescente dos tais (não) lugares – quais espaços análogos aos denunciados naquelas alegóricas cavernas que a verdadeira Filosofia Política e a sua coerente e decorrente Prática para o Bem Comum (e não apenas as retóricas e narrativas tácticas da tal dita “Teoria” ou “Ciência Política” que um conhecido propagandista trouxe em parisiense porta-bagagens…) sempre sinalizaram às mais legítimas e nobres precauções democráticas historicamente alternativas … –, para onde o Povo, qualquer dia, há-de remeter à força tantos dos nossos carreiristas políticos agrilhoados às suas alienantes análises, néscias dívidas, malfeitorias e aberrantes e viciosas heranças, tão injusta e impunemente deixadas à dignidade da vida, à honra e à soberania perdidas desta e das futuras gerações do pobre País que tais empalhados caudilhos, políticos e comentadores alberga e sustenta!

05.04.2013
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Publicado em RTP-Açores:
e Jornal "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 07.04.2013).
Outra versão: Jornal "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 06.04.2013).

sexta-feira, março 29, 2013


Da Narrativa dos Embustes
aos Embustes da Narrativa


Num famoso estudo sobre as estruturas, formas, estilos, idiolectos, dinâmicas expressivas e significados dos actos de fala individuais e linguagens comunitárias do quotidiano – tal como vividos, estratificados e transformados por falantes da cidade de Nova York (cf. Le parler ordinaire: La langue dans les ghettos noirs des Etats-Unis) –, o conhecido sociolinguista William Labov definiu narrativa como um processo ou método de recapitulação representativa, ou recontagem evocativa de experiências passadas, consistindo em fazer (ou procurar fazer…) corresponder a uma série de eventos ou factos (supostamente reais) uma sequência de proposições ou afirmações verbais sobre os mesmos…

– E idêntica definição de narrativa, em termos mais sintéticos, também é dada no Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa como sendo a “acção de contar, de relatar oralmente ou por escrito um ou mais acontecimentos”, tal como num texto “em que se conta um facto ou uma sucessão de factos reais ou imaginários que decorrem num espaço e tempo determinados e em que intervêm personagens”.

Ora, como é sabido, este termo “narrativa” e o respectivo conceito – tal como os seus próximos “discurso”, “história”, “estória”, “relato” e “conto”, ou apenas fala ou conversa (às vezes fiada, confiada, de treta ou xaxa…) – circulam hoje nos mais variados vocabulários e domínios académicos, científicos, sociais, humanos e comunicacionais, tendo até – veja-se agora… –, acabado de ganhar um inusitado e desinibido, conquanto quase repetitivamente compulsivo uso, no discreteador arrazoado televisivo do nosso novel mestre engenheiro, ex-PM do PS e fresquinho e engatilhado “comentador” da TV tutelada por essa outra e gémea fina cabeça da vigente governança de Portugal, que dá pelo viçoso nome de Miguel Cassola Relvas!


– Claro que esse tal de Pinto de Sousa tinha (e tem!) o direito de falar e defender-se aonde e como bem entender, ou generosa, democrática e piedosamente lhe consentirem em palco (ou cadafalso…) adequados para tal contra-narrativa, mesmo que apenas pro bono remoendo (ou tentando retoricamente desconstruir...) os ossos (com tutanos envenenados?) que lhe atirarem à mesa, à banca ou à cara, sabe-se lá com que reais intenções próprias ou coniventes e estratégicas parcerias, a talho de foice ou retalho de setas…

Porém, caberá aos cidadãos dignos, atentos e vacinados continuar a tentar distinguir a mais afoita e ressabiada narrativa dos ditos embustes, de todo o mais denunciado e ainda impune embuste daquelas narrativas…


– E certamente não deixarão de o fazer a seu devido tempo e por maioria de razão patriótica e cívica, para além da teia de injusta servidão, enganos e traficâncias sistemáticas em que o nosso País desde há muito se deixou cair, por mão de falsários de carreira, menoridades recorrentes, mediocridades político-partidárias e a mais vil, acobardada e explorada alienação das vontades e das consciências pessoais e colectivas de que há memória recente na nossa infeliz e decadente Pátria!

28.03.2013 
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Os Sinais da Escrita:
Azores Digital:
RTP-Açores:
Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 31.03.2013),
e Jornal “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 02.04.2013).

sexta-feira, março 22, 2013


Mentes Vazias e Buchos Impantes


Os últimos debates e despiques mantidos, a par das rocambolescas e virulentas cenas ocorridas na Assembleia Regional, a propósito do rendimento escolar dos estudantes açorianos – e a relação que todo esse processo de aprendizagem e desempenho dos nossos alunos possa ter (como é mais do que sabido que efectivamente também tem!) com a problemática dos hábitos de alimentação e das respectivas e integrantes possibilidades e práticas de nutrição (*) –, vieram não só pertinentemente trazer a lume como, para além disso e muito lamentavelmente, ainda acabaram por permitir fazer descambar tudo aquilo para uma pré-arruaça e um rasteiro bate-língua de taberna ou caserna…


 E isto apesar da seriedade do tema ter podido constituir uma boa oportunidade para, uns e outros, terem mostrado mais dignidade, competência, compostura e até mesmo alguma exigível fidelidade ideológica e ética perante fenómenos e factos indesmentíveis (conquanto complexos) e princípios e valores intocáveis, cujo esquecimento ou falsificação não deveriam, em circunstância alguma, ter sido tão levianamente minorados, escamoteados e instrumentalizados de parte a parte!

– Entretanto, quase à mesma hora, insolitamente, lia-se no DN que o secretário-geral do PS acabara de expressar a sua preocupação com o estado de subnutrição com “que chegam muitas crianças” aos estabelecimentos de ensino e com uma escola pública “que reproduz desigualdades sociais”, confessando, lá fora e cheio de sensibilidade nacional…, assim:

“Naturalmente que fico muito preocupado com o estado em que muitas crianças chegam às escolas no que diz respeito às condições de nutrição, (...) sobretudo à segunda-feira”, algo que “não deveria acontecer”, sublinhou o líder do PS no final de uma reunião com professores na Marinha Grande, referindo-se a situações relatadas pelos docentes durante o encontro…


– De resto e por cá, talvez não tivesse sido despiciendo de todo que ali na Assembleia Regional se houvesse feito uma destrinça minimamente científica e socialmente fundamentada entre fome e má nutrição, e bem assim uma outra, justa e politicamente coerente distinção crítica, nomeada e comprovadamente já estudada e articulável, entre desenvolvimento cognitivo, subalimentação, pobreza, exclusão, sistema e organização escolar, estruturas socioeconómicas e familiares, condicionantes psico-comportamentais, educação para a saúde, assistência e segurança social... E que, de todos daqueles algariados, susceptíveis e enfatuados actores parlamentares, seria de esperar toda uma alternativa discorrência coordenada de prudentes discursos, real e empírico conhecimento de causa, tecnicamente sustentados diagnósticos e consequentes acções estratégicas!

– Porém, quanto a sensibilidades mais ou menos patológicas, para o mais que apeteceria socioeducativa e politicamente recordar, que ficassem lá com elas apertadas, mas não de mentes vazias e buchos impantes…


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(*) Veja-se, por exemplo, aqui: http://www.youtube.com/watch?v=dL2KG4cNTK4
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Publicado em Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/;
RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/index.php?headline=14&visual=10;
Jornal "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 24.03.2013).
Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 23.03.2013).

sexta-feira, março 15, 2013


O Território dos Riscos

As novas calamidades e prejuízos que fustigaram os Açores não poderão continuar a deixar de suscitar uma ampla e crítica reflexão com vista à indeclinável e inadiável implementação de medidas práticas, apesar de alguns passos nesse sentido terem sido dados pelo Governo, por Autarquias Locais e pela pressurosa Oposição que temos…

Ora, apesar da violência e características das tempestades que se abateram sobre as nossas ilhas terem atingido dimensões imprevisíveis (?) e inusitadas, a verdade é que algumas das suas consequências, ou parte delas – infelizmente, desta feita, com perdas de vidas humanas! –, talvez pudessem ter sido evitadas, ou sequer minoradas, caso tivessem sido cumpridas leis, normas e procedimentos precaucionais que são imperativos em áreas da governação e da administração que deveriam estar coordenada e complementarmente implicadas em domínios que envolvem logo e sobremaneira Ambiente, Ordenamento do Território, Obras Públicas, Agricultura e Florestas, Saneamentos e Protecção Civil.




Por outro lado e intrinsecamente relacionada com esta problemática, está toda uma vertente técnico-científica, reguladora, orientadora, pedagógica e fiscalizadora que entronca em cheio nas interdisciplinaridades próprias dos Estudos, Geografias, Cartografias e Gestão de Riscos, – territórios estes há já demasiado tempo deixados ao Deus-dará, esquecidos, não fiscalizados ou à sombra de muitos entulhos, alheamentos, ignorâncias, incompetências, irresponsabilidades e impunidades que recorrentemente enlameiam sectores chave da sociedade, com agentes, actores e decisores apenas a fazer de conta que trabalham, enquanto vão, quais olheiros néscios, contabilizando as pouco mais que mercenárias comissões de serviço para aonde foram imerecidamente alcandorados, com evidentes e irreversíveis penalizações e desgraças sistemáticas para todos!

– Novas palavras, para quê? Um texto, quase integralmente idêntico a este (*), foi mesmo aqui cá publicado nos dias 19 e 20 de Maio de 2012...
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(*) Cf. http://sinaisdaescrita.blogspot.pt/2012/05/territorios-de-risco.html
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Publicado em RTP-Açores:
Azores Digital:
Jornal “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 16.03.2013),
e Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 17.03.2013).





quarta-feira, fevereiro 20, 2013


NEMÉSIO E OS VINHOS DA ILHA

1. Um conhecido e proverbial testemunho – aliás bem sugestivo, sobre o ambiente e os contextos artísticos, literários e culturais, mais ou menos animados, fraternais e boémios (como se imagina…), que terão rodeado a elaboração e o selo último do famoso quadro de António Dacosta sobre Nemésio –, conta que o Pintor angrense ao fazer o quadro do escritor do Corsário das Ilhas – e quando ao encimá-lo de remate com a legenda V.N., logo teria interrogado os companheiros próximos sobre o significado das famosas e paradigmáticas siglas…

E então, recorda-se mais, que ao ser-lhe palpitado, indubitavelmente, reportarem-se as letras à indicação sinalética dos nomes Vitorino Nemésio, logo garantiu que não, que não senhor, que era falsa pista e não univocamente tão clara ou perceptível como o retrato parecia mostrar, e que se desenganassem no equívoco, sem sombra, suposto, para dúvida legível!

– Porém ainda, antes que sim, que melhor talvez fosse, mas de outra expressão, quem sabe se sempre nova em velhos odres, e que o ali do trago do pincel para a vista se emborcara não era senão legenda outra, por Vinho Novo, – concluía.

Todavia, a pincelada de Dacosta vem aqui à mesa hoje e ao balcão tocado de cheiros de memória mas é para uma vide de escrita de evocação – de vida, devida e grata – e no ensejo presente de celebrar o Centenário do Nascimento do Poeta da Festa Redonda, ou não tivesse sido toda a nossa Ilha por ele cantada e assim erguida em popular cálice e quadra:

Minha rosa, minha casa,
Meu almário, minha flor;
Arca de pão, minha vinha,
Minha terra, meu amor!

2. Nas páginas de uma publicação enófila – para mais desta terceirense Confraria do Verdelho dos Biscoitos –, a propósito de Vitorino Nemésio e da presença do Vinho na sua vida e na sua obra – tanto real como ficcionalmente –, não deixaria de ser curioso proceder à selecção dos ricos cachos, apuradas castas e preciosas colheitas, que a tal figura de produção e fruto da terra  – metáfora poética e trabalho do homem! – o autor de Mau Tempo no Canal concedeu adega literária ou latada castiça…

 
Segunda-feira dos Biscoitos (1952). Dia de Tourada:
     Vitorino Nemésio, em casa de Manuel Gonçalves Toledo Brum, 
     com João de Oliveira Gouveia e Fernando Linhares Brum.

– E depois, para tanto, não deixariam também de justificar o gesto da apanha, a percepção da cor e o paladar que tal faina deixasse escorrer de balseiros e prensas, ao provarmos, com sede, o escorrer vivo e observante das suas prosas e da sua apurada e única poesia!

Desde aquelas falas do discurso humaníssimo e castiço do conto do Matesinho de São Mateus – “Padaço de Traste”! Tarraço! –, que sem vinho “era o rei dos bensinados e amigo de carrear”, o tal que para Consuelo, na Calle de las Fuentes, mandara vir

“roda de aniz, que chómum amuntilhado, pois sempre era ua bebida doce, e as mulheres gosto daquilho”,

– o mesmo que “era o maior gavola que a Vila da Praia tinha” e que


“Pelava-se por vinho e cachaça, entrando às vezes em casa perdidinho de bêbado. É verdade que passava às vezes um mês e mais sem copo (…). O seu fraco era aguardente do balcão – que emborcava, sem pestanejar, aos dezasseis de cada vez. Numa aposta, mesmo, lá ia meio quartilho. Enxugava também com limpeza o seu cálix de nêspera, empinando-se com o nó da garganta a embolar debaixo da papada”,


– até àquelas Décimas & Cantigas de Terreiro –

Meu Primo Chico Maria,
Maioral do meu concelho,
Alfenete de oiro puro
Como vinho de verdelho!

Meu Primo Chico Maria,
Nem visconde nem barão;
Pinheiros da tua casta
Não querem escoras, não!

Meu Primo Chico Maria!
Nas tuas pipas de vinho
Cabia o mar dos Biscoitos
E o povo do Raminho…


Meu Primo Chico Maria,
Dono da Agualva e Fontinhas!
Dizei-me se lá do Céu
Tendes saudades das vinhas…

– e também desde aquele maravilhamento da Tourada e dos seus bulícios –

“Quinto domingo na Agualva;
Manuel Maria Brum!”
Vá fogo prò ar! Brindeiras
E tambores, turuntuntun!

– até às suas erguidas taças de profunda reminiscência –

Que lembro? Um sonho é pouco nas aradas,
Pão de alma não granou no estéril chão
E, a vinho, ponho à boca o coração.

– sempre em Vitorino Nemésio poderíamos detectar marcas dessa presença, nos mais diferentes contextos, esferas de realidade e mundos de linguagem.




3. Deixando, porém, para outra prova, ou mostra, tão longa e ampla degustação merecida e proveitosa, fiquemo-nos apenas por agora numa banqueta de lava, junto àquela mesma geografia histórica e humana que deixou bagos extremos em roda da Ilha Terceira, acabando por lacrar as saídas saudosas e as aconselhadas entradas limítrofes e comuns dos vinhedos e do próprio concelho nemesianos da Praia da Vitória…

- Na verdade, entre muitos dos muros da pedra vulcânica e da existência insular que lhe balizaram as vivências, as inspirações, o calor almado do coração açoriano e a profunda graduação oceânica do espírito, ali, sobremaneira vivenciados e significantes, encontramos pingos daquele Vinho que – do Porto Martim aos Biscoitos – é mansa festa, alegria e exclamado fascínio:

Ah, Porto Martim das uvas,
Baga de faia cheirosa,
Minha maçã redondinha,
Pedra negra preciosa!

Ora este Porto Martim e aqueles Biscoitos, por igual, são “lavas cobertas de vinhedo, de matinhos de faia e pitosporos”, aonde no passado se erguiam cedo

“os filhos dos vinhateiros e lavradores da periferia do biscoito (nome do chão de pedra vulcânica onde, em currais, medra a vinha)”,

mas hoje se levantam e entrecruzam novas e estrategicamente calculadas mobilizações socioeconómicas…, um pouco como aquelas que Nemésio não deixou, no seu tempo e a seu modo, de lamentar ver desabafar, como uma ameaçadora trituração implacável do nosso clássico viver antigo, enquanto

“se vão desfazendo, como se fossem simples saibreiras, os velhos picos da ilha cobertos de trevinha e debruados de hortenses…”.

– Talvez por isso mesmo as vides histórico-literárias de Nemésio destilem ainda agora mais actuais e espirituosas graduações críticas do que na época dos seus primeiros frutos!

A 24 anos da sua morte – idade nobre para a qualidade de certos vinhos… –, a sua obra permanece pois, como casta privilegiadamente exposta, quando em temperatura crítica para fermentação cuidada – e sendo passada pelos cascos da mais genuína Açorianidade –, cada vez mais nimbada de luz e cor, e assim enfim animada do único sabor e saber que os verdadeiros Escanções podem apreciar, provando e servindo…

Ilha Terceira, 20 de Dezembro de 2001
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Publicado na Revista Verdelho – Boletim da Confraria de Vinho Verdelho dos Biscoitos, Nº. 6 (2001).

Disponível no Blogue Bagos d' Uva: