sábado, abril 20, 2013


ESTUDO REALIZADO NA TERCEIRA
ENTRE FEVEREIRO E NOVEMBRO DE 2012

Relatório arrasa implementação
de Cuidados Continuados


O relatório "Levantamento, Avaliação e Operacionalização da Rede de Cuidados Continuados Integrados. Situação Atual e Perspetivas Estratégicas da Política de Saúde nos Açores", disponibilizado ao DI pela secretaria regional da Saúde, traça um cenário negro no que diz respeito à área dos cuidados paliativos e ao estado atual da implementação da rede de cuidados continuados.

O estudo, assinado por Eduardo Ferraz da Rosa, debruçou-se sobre o caso terceirense. De acordo com o documento, após auscultadas diversas entidades, foi concluído existir "indefinição total na conceção, organização, planeamento e coordenação de Serviços de Cuidados Paliativos no HSEIT (Hospital de Santo Espírito da Ilha Terceira) e entre esta principal unidade de saúde e as restantes unidades, serviços, instituições e âmbitos sociais, familiares, domiciliários/domésticos e individuais dos utentes necessitados desses cuidados e especializados acompanhamentos técnicos e humanos específicos".

A Lei de Bases dos Cuidados Paliativos, entende-os como "os cuidados ativos, coordenados e globais, prestados por unidades e equipas específicas, em internamento ou no domicílio, a doentes em situação de sofrimento decorrente de doença incurável ou grave, em fase avançada e progressiva, assim como às suas famílias".

Já os cuidados continuados são os cuidados de convalescença, recuperação e reintegração de doentes crónicos e pessoas em situação de dependência.

O relatório foi produzido entre fevereiro e novembro do ano passado. Foram auscultadas "todas as instituições, agentes e atores direta ou indiretamente ligados às áreas da prestação de Cuidados de Saúde e Assistência Social na Ilha Terceira (Hospitais, Centros de Saúde, Residências e Lares, e outros Serviços Públicos e Privados)".

Quanto a recomendações, o documento, no domínio dos cuidados paliativos, defende uma mais "competente definição na conceção, organização, planeamento e coordenação de serviços de cuidados paliativos no HSEIT", isto "procurando também aqui promover uma crescente humanização na prestação destes cuidados e um mais sistemático, efetivo e generoso apoio às famílias envolvidas e/ou a envolver responsavelmente em todo tão exigente processo". 

Este relatório indica ser necessário cumprir as linhas definidas nos programas do X e XI Governos Regionais no campo da política de Saúde, nomeadamente no que diz respeito à "real implementação da Rede de Cuidados Integrados da Região Autónoma dos Açores".


No domínio dos cuidados continuados integrados, é recomendada a realização de mais estudos, que se debrucem sobre a realidade das nove ilhas.

O autor do relatório encontrou repetidas falhas graves no seio do Hospital de Santo Espírito. 

Entre estas falhas estão a "ausência recorrente de elaboração competente e relevante de carta de alta", a "inoperância no sentido da programação dos seus serviços e procedimentos internos, nomeadamente no que concerne à padronização processual, documental e informática da informação e da história clínica pregressas dos seus utentes", ou "falhas na circulação devolutiva da informação clínica atualizada dos utentes atendidos e tratados na urgência" entre esta unidade de saúde e as restantes instituições de saúde, assistência social e de prestação de cuidados. 

Havia também à data de produção do relatório indefinição coordenadora entre os Centros de Saúde de Angra e da Praia no âmbito das atribuições da Unidade de Saúde da Ilha Terceira e era "praticamente nula" a cobertura no campo da assistência domiciliária. 

Foram identificadas deficiências na assiduidade, pontualidade e práticas deontológicas de profissionais de saúde a prestar cuidados nas freguesias. 

É feita ainda a "constatação de demoras, adiamentos injustificados e falta de coordenação e gestão dos calendários, agendas e tempos de consultas médicas e lista de espera nos Centros de Saúde e nos Postos de Saúde das Freguesias- situação agudizada pela falta de um sistema integrado de marcação de consultas".

Há ainda, em termos globais, falta de campanhas de formação e informação dirigidas aos prestadores de cuidado, e escassa articulação entre as políticas de saúde e social e as políticas de habitação, urbanismo e equipamentos "conforme decorre explícita e implicitamente dos relatórios efetuados pelos serviços de bombeiros, transporte de doentes e proteção civil".

É assinalado um fraco envolvimento por parte de alguns agentes locais (Câmaras e Juntas de Freguesia) em projetos, processos e procedimentos nos campos da Saúde e da Assistência Social. Por outro lado, existe um acesso difícil dos membros das autarquias locais às instâncias decisórias da administração regional.

Este documento identifica "restrições, congestionamentos e protelamentos de vários procedimentos médico-legais, administrativos e tributários nas delegações de saúde, nomeadamente no que concerne às solicitações de associações de utentes das áreas da Saúde Mental, das Deficiências e das Dependências".

Rever a lei

O relatório recomenda a correção de todos estes aspetos. É apontada como necessária a revisão do decreto legislativo regional nº13 /2008, que lançou as bases para a criação de uma rede de Cuidados Continuados Integrados na Região (CCIRAA), de modo a adaptar esta rede às "características, meios humanos, técnicos, materiais e logísticos" do Serviço Regional de Saúde. 

Também como medida central surge "reconsiderar a constituição, as atribuições, a agenda e o funcionamento e os objetivos prioritários da Coordenação Regional da Rede CCIRAA", fazendo o mesmo face à coordenação por ilha.

É recomendada a responsabilização dos hospitais pela elaboração competente de cartas de alta e pela existência e disponibilização de informação sólida sobre os utentes. 

Será ainda, entre outros aspetos, importante uma célere implementação da cobertura de assistência domiciliária.

Uma recomendação final vai para "fazer cumprir a obrigatoriedade da existência, em cada unidade ou serviço de saúde, de um processo individual de cuidados continuados da pessoa em situação de dependência".

Todas as unidades, serviços e agentes que integram a rede CCIRAA deviam ainda, de acordo com este documento que está nas mãos da secretaria regional da Saúde, ser alvo de avaliações periódicas, independentes e objetivas, como instrumento de melhoramento de todo o sistema.
_____________

Em “Diário Insular”, Angra do Heroísmo, 20.04.2013.
Texto integral disponível aqui: http://we.tl/7HxjNO81Z2




sexta-feira, abril 12, 2013


REENCONTROS
com a História



No dia em que escrevo este texto – 11 de Abril – comemora-se o 50º. Aniversário da ocorrência, praticamente simultânea, de três acontecimentos cujos significados e alcances socio-históricos, culturais e espirituais se revestem de grande relevo e são, por isso, merecedores de uma evocação reflexiva entre nós, por muito sucinta que a mesma seja feita aqui e hoje apenas nestas páginas de jornal:

– Refiro-me à publicação da Carta-Encíclica Pacem in Terris (do Papa João XXIII, falecido dois meses depois);

              - à realização da II Semana de Estudos dos Açores,



- e ao início do Movimento dos Cursos de Cristandade nos Açores, factos sequenciais, estreitamente interligados e quase temporalmente coincidentes (entre Abril e Setembro de 1963), conforme noutra ocasião já tive oportunidade de abordar desenvolvidamente e a cuja memória mais tarde voltarei.




Então, na dinâmica envolvência do Concílio Vaticano II;

- na evolutiva e progressiva tomada de consciência dos Açores como realidade regional una e em busca de um almejado Desenvolvimento integral (estrutural, económico, social, cultural, político, educativo e intelectual),

- e, enfim, naqueles tempos de efervescências mundiais e civilizacionais, e de novos desafios religiosos, ideológico-políticos, socio-institucionais e espirituais, tudo eram (e foram!) novos e pioneiros sinais dos tempos e busca de alternativos tempos novos, numa dimensão talvez nem sempre agora (imerecidamente) conhecida e avaliável, quando não até conveniente e tacitamente esquecida…

– E todavia, desde esse (ainda nosso) meio século passado até à nossa contemporaneidade (que é também parte dele ainda…) – apesar da contínua mudança dos tempos, das vontades, das gerações, das realidades da Cidade e das configurações mentais, discursivas e axiológicas dos Homens e Mulheres dos Açores, do País e do Mundo –, muitos são os problemas, carências, atrasos, desânimos e falhanços de que identicamente padecemos (e somos!) nos dias que correm, parecendo antes, ou sempre ciclicamente, amiúde condenados aos mesmos, opressores e injustos valores e padrões de vida, como se nada tivéssemos aprendido com a História, ou falhado, sem Esperança nem Coragem, o encontro com ela e connosco mesmos!

11 de Abril de 2013
 ___________________

Publicado em RTP-Açores:
Azores Digital:
“Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 13.04.2013),
e “Diário dos Açores” (14.04.2013).




quarta-feira, abril 10, 2013


Cuidados Continuados Integrados
e Política de Saúde nos Açores



“Diário Insular” (DI) – É sabido que coordenou e executou, para o Governo Regional, um Projecto de Investigação sobre a Rede de Cuidados Integrados (RCCI) na Região. Confirma a elaboração desse Projecto e do respectivo Relatório?

Eduardo Ferraz da Rosa (EFR) – Sim, confirmo a realização desse Estudo (que envolveu praticamente, na primeira parte concretizada, todas as entidades e instituições públicas e particulares directa e/ou indirectamente ligadas à Saúde e à Assistência Social na ilha Terceira, para além de responsáveis institucionais e agentes, actores socioprofissionais, técnicos e especialistas nessas áreas, e ainda responsáveis pelas Autarquias e outros Parceiros Sociais).

Esse exaustivo (e empenhativo!) trabalho decorreu durante o ano de 2012, a pedido diligente e esforçado do então secretário da Saúde [Miguel Correia], tendo as respectivas Conclusões e Propostas sido entregues, já ao novel detentor do lugar [Luís Cabral], em Dezembro último…

– Porém, esse mesmo Relatório, por minha iniciativa, foi também entregue ao Presidente [Vasco Cordeiro] e ao Vice-Presidente [Sérgio Ávila] do Governo dos Açores!




DI – Quais os âmbitos, conteúdos, Conclusões e Propostas desse Estudo?

­EFR – O objecto do Estudo foi o levantamento e avaliação da Rede de Cuidados Continuados Integrados na Região Autónoma dos Açores, tendo-se procedido à caracterização actual e às perspectivas de operacionalização subsequente e possível.

– O projecto, como referi, tomou a Terceira como primeira amostra científica ou modelo sociológico para investigação ou estudo de caso e de campo.

As Conclusões e Propostas, que foram deontológica e naturalmente entregues a título reservado, como documento interno para reflexão e tradução prática (espero eu…) –, não sendo propriamente confidenciais, decorrem todavia de delineamentos programáticos assentes, dos depoimentos e testemunhos pessoais e/ou dos memorandos sectoriais facultados pelos múltiplos participantes e colaboradores ouvidos, sendo porém que muitas das estruturas e bloqueios analisados são do domínio e do conhecimento públicos, embora eventualmente de modo menos tematizado, formal e sistemático…




 – Contudo e assim, esses são problemas, situações e factos bem perceptíveis (alguns até já denunciados!) pela sociedade, utentes, doentes, famílias, instituições, OCS e por todo e qualquer profissional dedicado, analista sério, observador atento, estudioso isento e rigoroso, ou político competente, bem formado e responsável!

DI – Como explica a não operacionalização cabal da Rede de CCI nos Açores?

EFR – Essa constatação é verdadeira, sendo todavia que o problema é complexo, tal como a nível nacional e até internacional, porquanto envolve uma diversidade de causas, constrangimentos, inoperâncias, faltas de planeamento, gestão integrada de recursos materiais, técnicos, humanos e logísticos, para além de inadmissíveis lacunas e preguiças conceptuais, protelamentos de decisão e vontade institucional, tudo amiúde aliado a ausências de definição de prioridades e ao esquecimento de valores essenciais para a implementação efectiva e comunitariamente partilhada de uma Política de Saúde e Assistência sustentável e humanizada …




DI – Um seu conhecido trabalho académico anterior [Investigação para um Projecto de Doutoramento no ICBAS/Universidade do Porto], na área das Ciências Biomédicas, tornou-o mais sensível a esta problemática?

EFR – Sim, mais empírica e cientificamente habilitado, e mais ética e filosoficamente crítico…

– E também mais exigente, mais refractário a sofismas partidários e ainda mais fiel aos valores de uma política alternativa, humanista e socialmente justa!
________

(*) Texto revisto da Entrevista publicada nos jornais “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 10.04.2013) e “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 11.04.2013).
_________________

Publicado em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 10.04.2013);
Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 11.04.2013);
RTP-Açores:

e Azores Digital:




sábado, abril 06, 2013


Os Lugares Naturais



Pese embora a expressão que dá título a esta Crónica ser – talvez por arreigado hábito disciplinar – realmente inspirada no complexo e plurifacetado discurso aristotélico, a verdade é que aqui vamos hoje tomá-la como uma espécie de mote ou motivo para a problematização – conquanto intencional e parcialmente análoga… – de outros lugares (e também de alguns não-lugares), conceitos tanto filosoficamente apelativos quanto sociologicamente pertinentes (como, entre outros, Marc Augé os abordou nos quadros não só cingidamente físicos mas também simbólicos, comunicacionais, socio-institucionais e éticos das formas da existência moderna, especialmente da vida urbana ou cosmopolita, ou nas chamadas Modernidade e Pós-Modernidade.

Todavia, na linguagem popular, ou mais prosaica, das falas do quotidiano, a tematização da profunda diferença entre lugar e não-lugar aparece-nos também intuída em enunciações e provérbios, seja – por exemplo – para estabelecer relações críticas entre saber real e lugar convencional; lugares comprados e posições do carácter vendido; mediocridades de habilitação, talento ou competência; serventia e subidas de posto ou na chefia ou mando das respectivas tribos; neutralidade ética e futilidades discursivas; anonimato massificado e solidão espiritual, etc., por aí fora, como se vê e é impossível a tanto e tais desaforos ou patologias não reagir!

– E não se reflicta só no que se passa por essa nação que fez de um ressabiado símile nominal do sábio ateniense um PM (com quase todo um partido rendido, ou nele re-enroscado em peso ou vacuidade!) e que o leva agora (sob aplausos de envergonhar!) à pantalha dos embustes como redentor e redimido sofista em causa e interesse exclusivamente próprios (dos quais o PS, a prazo seguro aliás, e dessa táctica desforra extemporânea, será a primeira vítima entontecida e penalizada…);

       - ou naquele PSD (o do saudoso Sá Carneiro!?) que, adiado, arrasta um tosco Coelho governamentado pelas orelhas, com um paradigmático Relvas já em descabelada cauda, porém também ele (para não atirar pedras aos ecrãs do vizinho!) com idêntica trupe circense de falaciosos comentadores mediatizados…;

       - ou, enfim, num híbrido CDS-PP (a desbaratar os trunfos que a outros tanto custou a credibilizar) …

– Não! No que estou também a pensar é nos não-lugares (ou não desempenhos competentes…) que putativos candidatos e falhados executivos ocupam já hoje nas nossas periclitantes empresazinhas e servicinhos autonómicos (quais espécimes criados segundo um perfeito Princípio de Peter!); e assim por diante…

O resto, tudo o resto, faz parte natural e efectivamente remanescente dos tais (não) lugares – quais espaços análogos aos denunciados naquelas alegóricas cavernas que a verdadeira Filosofia Política e a sua coerente e decorrente Prática para o Bem Comum (e não apenas as retóricas e narrativas tácticas da tal dita “Teoria” ou “Ciência Política” que um conhecido propagandista trouxe em parisiense porta-bagagens…) sempre sinalizaram às mais legítimas e nobres precauções democráticas historicamente alternativas … –, para onde o Povo, qualquer dia, há-de remeter à força tantos dos nossos carreiristas políticos agrilhoados às suas alienantes análises, néscias dívidas, malfeitorias e aberrantes e viciosas heranças, tão injusta e impunemente deixadas à dignidade da vida, à honra e à soberania perdidas desta e das futuras gerações do pobre País que tais empalhados caudilhos, políticos e comentadores alberga e sustenta!

05.04.2013
________________
Publicado em RTP-Açores:
e Jornal "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 07.04.2013).
Outra versão: Jornal "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 06.04.2013).

sexta-feira, março 29, 2013


Da Narrativa dos Embustes
aos Embustes da Narrativa


Num famoso estudo sobre as estruturas, formas, estilos, idiolectos, dinâmicas expressivas e significados dos actos de fala individuais e linguagens comunitárias do quotidiano – tal como vividos, estratificados e transformados por falantes da cidade de Nova York (cf. Le parler ordinaire: La langue dans les ghettos noirs des Etats-Unis) –, o conhecido sociolinguista William Labov definiu narrativa como um processo ou método de recapitulação representativa, ou recontagem evocativa de experiências passadas, consistindo em fazer (ou procurar fazer…) corresponder a uma série de eventos ou factos (supostamente reais) uma sequência de proposições ou afirmações verbais sobre os mesmos…

– E idêntica definição de narrativa, em termos mais sintéticos, também é dada no Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa como sendo a “acção de contar, de relatar oralmente ou por escrito um ou mais acontecimentos”, tal como num texto “em que se conta um facto ou uma sucessão de factos reais ou imaginários que decorrem num espaço e tempo determinados e em que intervêm personagens”.

Ora, como é sabido, este termo “narrativa” e o respectivo conceito – tal como os seus próximos “discurso”, “história”, “estória”, “relato” e “conto”, ou apenas fala ou conversa (às vezes fiada, confiada, de treta ou xaxa…) – circulam hoje nos mais variados vocabulários e domínios académicos, científicos, sociais, humanos e comunicacionais, tendo até – veja-se agora… –, acabado de ganhar um inusitado e desinibido, conquanto quase repetitivamente compulsivo uso, no discreteador arrazoado televisivo do nosso novel mestre engenheiro, ex-PM do PS e fresquinho e engatilhado “comentador” da TV tutelada por essa outra e gémea fina cabeça da vigente governança de Portugal, que dá pelo viçoso nome de Miguel Cassola Relvas!


– Claro que esse tal de Pinto de Sousa tinha (e tem!) o direito de falar e defender-se aonde e como bem entender, ou generosa, democrática e piedosamente lhe consentirem em palco (ou cadafalso…) adequados para tal contra-narrativa, mesmo que apenas pro bono remoendo (ou tentando retoricamente desconstruir...) os ossos (com tutanos envenenados?) que lhe atirarem à mesa, à banca ou à cara, sabe-se lá com que reais intenções próprias ou coniventes e estratégicas parcerias, a talho de foice ou retalho de setas…

Porém, caberá aos cidadãos dignos, atentos e vacinados continuar a tentar distinguir a mais afoita e ressabiada narrativa dos ditos embustes, de todo o mais denunciado e ainda impune embuste daquelas narrativas…


– E certamente não deixarão de o fazer a seu devido tempo e por maioria de razão patriótica e cívica, para além da teia de injusta servidão, enganos e traficâncias sistemáticas em que o nosso País desde há muito se deixou cair, por mão de falsários de carreira, menoridades recorrentes, mediocridades político-partidárias e a mais vil, acobardada e explorada alienação das vontades e das consciências pessoais e colectivas de que há memória recente na nossa infeliz e decadente Pátria!

28.03.2013 
_______________

Os Sinais da Escrita:
Azores Digital:
RTP-Açores:
Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 31.03.2013),
e Jornal “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 02.04.2013).

sexta-feira, março 22, 2013


Mentes Vazias e Buchos Impantes


Os últimos debates e despiques mantidos, a par das rocambolescas e virulentas cenas ocorridas na Assembleia Regional, a propósito do rendimento escolar dos estudantes açorianos – e a relação que todo esse processo de aprendizagem e desempenho dos nossos alunos possa ter (como é mais do que sabido que efectivamente também tem!) com a problemática dos hábitos de alimentação e das respectivas e integrantes possibilidades e práticas de nutrição (*) –, vieram não só pertinentemente trazer a lume como, para além disso e muito lamentavelmente, ainda acabaram por permitir fazer descambar tudo aquilo para uma pré-arruaça e um rasteiro bate-língua de taberna ou caserna…


 E isto apesar da seriedade do tema ter podido constituir uma boa oportunidade para, uns e outros, terem mostrado mais dignidade, competência, compostura e até mesmo alguma exigível fidelidade ideológica e ética perante fenómenos e factos indesmentíveis (conquanto complexos) e princípios e valores intocáveis, cujo esquecimento ou falsificação não deveriam, em circunstância alguma, ter sido tão levianamente minorados, escamoteados e instrumentalizados de parte a parte!

– Entretanto, quase à mesma hora, insolitamente, lia-se no DN que o secretário-geral do PS acabara de expressar a sua preocupação com o estado de subnutrição com “que chegam muitas crianças” aos estabelecimentos de ensino e com uma escola pública “que reproduz desigualdades sociais”, confessando, lá fora e cheio de sensibilidade nacional…, assim:

“Naturalmente que fico muito preocupado com o estado em que muitas crianças chegam às escolas no que diz respeito às condições de nutrição, (...) sobretudo à segunda-feira”, algo que “não deveria acontecer”, sublinhou o líder do PS no final de uma reunião com professores na Marinha Grande, referindo-se a situações relatadas pelos docentes durante o encontro…


– De resto e por cá, talvez não tivesse sido despiciendo de todo que ali na Assembleia Regional se houvesse feito uma destrinça minimamente científica e socialmente fundamentada entre fome e má nutrição, e bem assim uma outra, justa e politicamente coerente distinção crítica, nomeada e comprovadamente já estudada e articulável, entre desenvolvimento cognitivo, subalimentação, pobreza, exclusão, sistema e organização escolar, estruturas socioeconómicas e familiares, condicionantes psico-comportamentais, educação para a saúde, assistência e segurança social... E que, de todos daqueles algariados, susceptíveis e enfatuados actores parlamentares, seria de esperar toda uma alternativa discorrência coordenada de prudentes discursos, real e empírico conhecimento de causa, tecnicamente sustentados diagnósticos e consequentes acções estratégicas!

– Porém, quanto a sensibilidades mais ou menos patológicas, para o mais que apeteceria socioeducativa e politicamente recordar, que ficassem lá com elas apertadas, mas não de mentes vazias e buchos impantes…


________
(*) Veja-se, por exemplo, aqui: http://www.youtube.com/watch?v=dL2KG4cNTK4
_________________________
Publicado em Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/;
RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/index.php?headline=14&visual=10;
Jornal "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 24.03.2013).
Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 23.03.2013).

sexta-feira, março 15, 2013


O Território dos Riscos

As novas calamidades e prejuízos que fustigaram os Açores não poderão continuar a deixar de suscitar uma ampla e crítica reflexão com vista à indeclinável e inadiável implementação de medidas práticas, apesar de alguns passos nesse sentido terem sido dados pelo Governo, por Autarquias Locais e pela pressurosa Oposição que temos…

Ora, apesar da violência e características das tempestades que se abateram sobre as nossas ilhas terem atingido dimensões imprevisíveis (?) e inusitadas, a verdade é que algumas das suas consequências, ou parte delas – infelizmente, desta feita, com perdas de vidas humanas! –, talvez pudessem ter sido evitadas, ou sequer minoradas, caso tivessem sido cumpridas leis, normas e procedimentos precaucionais que são imperativos em áreas da governação e da administração que deveriam estar coordenada e complementarmente implicadas em domínios que envolvem logo e sobremaneira Ambiente, Ordenamento do Território, Obras Públicas, Agricultura e Florestas, Saneamentos e Protecção Civil.




Por outro lado e intrinsecamente relacionada com esta problemática, está toda uma vertente técnico-científica, reguladora, orientadora, pedagógica e fiscalizadora que entronca em cheio nas interdisciplinaridades próprias dos Estudos, Geografias, Cartografias e Gestão de Riscos, – territórios estes há já demasiado tempo deixados ao Deus-dará, esquecidos, não fiscalizados ou à sombra de muitos entulhos, alheamentos, ignorâncias, incompetências, irresponsabilidades e impunidades que recorrentemente enlameiam sectores chave da sociedade, com agentes, actores e decisores apenas a fazer de conta que trabalham, enquanto vão, quais olheiros néscios, contabilizando as pouco mais que mercenárias comissões de serviço para aonde foram imerecidamente alcandorados, com evidentes e irreversíveis penalizações e desgraças sistemáticas para todos!

– Novas palavras, para quê? Um texto, quase integralmente idêntico a este (*), foi mesmo aqui cá publicado nos dias 19 e 20 de Maio de 2012...
______

(*) Cf. http://sinaisdaescrita.blogspot.pt/2012/05/territorios-de-risco.html
________________________

Publicado em RTP-Açores:
Azores Digital:
Jornal “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 16.03.2013),
e Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 17.03.2013).





quarta-feira, fevereiro 20, 2013


NEMÉSIO E OS VINHOS DA ILHA

1. Um conhecido e proverbial testemunho – aliás bem sugestivo, sobre o ambiente e os contextos artísticos, literários e culturais, mais ou menos animados, fraternais e boémios (como se imagina…), que terão rodeado a elaboração e o selo último do famoso quadro de António Dacosta sobre Nemésio –, conta que o Pintor angrense ao fazer o quadro do escritor do Corsário das Ilhas – e quando ao encimá-lo de remate com a legenda V.N., logo teria interrogado os companheiros próximos sobre o significado das famosas e paradigmáticas siglas…

E então, recorda-se mais, que ao ser-lhe palpitado, indubitavelmente, reportarem-se as letras à indicação sinalética dos nomes Vitorino Nemésio, logo garantiu que não, que não senhor, que era falsa pista e não univocamente tão clara ou perceptível como o retrato parecia mostrar, e que se desenganassem no equívoco, sem sombra, suposto, para dúvida legível!

– Porém ainda, antes que sim, que melhor talvez fosse, mas de outra expressão, quem sabe se sempre nova em velhos odres, e que o ali do trago do pincel para a vista se emborcara não era senão legenda outra, por Vinho Novo, – concluía.

Todavia, a pincelada de Dacosta vem aqui à mesa hoje e ao balcão tocado de cheiros de memória mas é para uma vide de escrita de evocação – de vida, devida e grata – e no ensejo presente de celebrar o Centenário do Nascimento do Poeta da Festa Redonda, ou não tivesse sido toda a nossa Ilha por ele cantada e assim erguida em popular cálice e quadra:

Minha rosa, minha casa,
Meu almário, minha flor;
Arca de pão, minha vinha,
Minha terra, meu amor!

2. Nas páginas de uma publicação enófila – para mais desta terceirense Confraria do Verdelho dos Biscoitos –, a propósito de Vitorino Nemésio e da presença do Vinho na sua vida e na sua obra – tanto real como ficcionalmente –, não deixaria de ser curioso proceder à selecção dos ricos cachos, apuradas castas e preciosas colheitas, que a tal figura de produção e fruto da terra  – metáfora poética e trabalho do homem! – o autor de Mau Tempo no Canal concedeu adega literária ou latada castiça…

 
Segunda-feira dos Biscoitos (1952). Dia de Tourada:
     Vitorino Nemésio, em casa de Manuel Gonçalves Toledo Brum, 
     com João de Oliveira Gouveia e Fernando Linhares Brum.

– E depois, para tanto, não deixariam também de justificar o gesto da apanha, a percepção da cor e o paladar que tal faina deixasse escorrer de balseiros e prensas, ao provarmos, com sede, o escorrer vivo e observante das suas prosas e da sua apurada e única poesia!

Desde aquelas falas do discurso humaníssimo e castiço do conto do Matesinho de São Mateus – “Padaço de Traste”! Tarraço! –, que sem vinho “era o rei dos bensinados e amigo de carrear”, o tal que para Consuelo, na Calle de las Fuentes, mandara vir

“roda de aniz, que chómum amuntilhado, pois sempre era ua bebida doce, e as mulheres gosto daquilho”,

– o mesmo que “era o maior gavola que a Vila da Praia tinha” e que


“Pelava-se por vinho e cachaça, entrando às vezes em casa perdidinho de bêbado. É verdade que passava às vezes um mês e mais sem copo (…). O seu fraco era aguardente do balcão – que emborcava, sem pestanejar, aos dezasseis de cada vez. Numa aposta, mesmo, lá ia meio quartilho. Enxugava também com limpeza o seu cálix de nêspera, empinando-se com o nó da garganta a embolar debaixo da papada”,


– até àquelas Décimas & Cantigas de Terreiro –

Meu Primo Chico Maria,
Maioral do meu concelho,
Alfenete de oiro puro
Como vinho de verdelho!

Meu Primo Chico Maria,
Nem visconde nem barão;
Pinheiros da tua casta
Não querem escoras, não!

Meu Primo Chico Maria!
Nas tuas pipas de vinho
Cabia o mar dos Biscoitos
E o povo do Raminho…


Meu Primo Chico Maria,
Dono da Agualva e Fontinhas!
Dizei-me se lá do Céu
Tendes saudades das vinhas…

– e também desde aquele maravilhamento da Tourada e dos seus bulícios –

“Quinto domingo na Agualva;
Manuel Maria Brum!”
Vá fogo prò ar! Brindeiras
E tambores, turuntuntun!

– até às suas erguidas taças de profunda reminiscência –

Que lembro? Um sonho é pouco nas aradas,
Pão de alma não granou no estéril chão
E, a vinho, ponho à boca o coração.

– sempre em Vitorino Nemésio poderíamos detectar marcas dessa presença, nos mais diferentes contextos, esferas de realidade e mundos de linguagem.




3. Deixando, porém, para outra prova, ou mostra, tão longa e ampla degustação merecida e proveitosa, fiquemo-nos apenas por agora numa banqueta de lava, junto àquela mesma geografia histórica e humana que deixou bagos extremos em roda da Ilha Terceira, acabando por lacrar as saídas saudosas e as aconselhadas entradas limítrofes e comuns dos vinhedos e do próprio concelho nemesianos da Praia da Vitória…

- Na verdade, entre muitos dos muros da pedra vulcânica e da existência insular que lhe balizaram as vivências, as inspirações, o calor almado do coração açoriano e a profunda graduação oceânica do espírito, ali, sobremaneira vivenciados e significantes, encontramos pingos daquele Vinho que – do Porto Martim aos Biscoitos – é mansa festa, alegria e exclamado fascínio:

Ah, Porto Martim das uvas,
Baga de faia cheirosa,
Minha maçã redondinha,
Pedra negra preciosa!

Ora este Porto Martim e aqueles Biscoitos, por igual, são “lavas cobertas de vinhedo, de matinhos de faia e pitosporos”, aonde no passado se erguiam cedo

“os filhos dos vinhateiros e lavradores da periferia do biscoito (nome do chão de pedra vulcânica onde, em currais, medra a vinha)”,

mas hoje se levantam e entrecruzam novas e estrategicamente calculadas mobilizações socioeconómicas…, um pouco como aquelas que Nemésio não deixou, no seu tempo e a seu modo, de lamentar ver desabafar, como uma ameaçadora trituração implacável do nosso clássico viver antigo, enquanto

“se vão desfazendo, como se fossem simples saibreiras, os velhos picos da ilha cobertos de trevinha e debruados de hortenses…”.

– Talvez por isso mesmo as vides histórico-literárias de Nemésio destilem ainda agora mais actuais e espirituosas graduações críticas do que na época dos seus primeiros frutos!

A 24 anos da sua morte – idade nobre para a qualidade de certos vinhos… –, a sua obra permanece pois, como casta privilegiadamente exposta, quando em temperatura crítica para fermentação cuidada – e sendo passada pelos cascos da mais genuína Açorianidade –, cada vez mais nimbada de luz e cor, e assim enfim animada do único sabor e saber que os verdadeiros Escanções podem apreciar, provando e servindo…

Ilha Terceira, 20 de Dezembro de 2001
____________

Publicado na Revista Verdelho – Boletim da Confraria de Vinho Verdelho dos Biscoitos, Nº. 6 (2001).

Disponível no Blogue Bagos d' Uva:


sexta-feira, fevereiro 08, 2013

A Honra das Casas




Foi recentemente disponibilizada em vários novos sítios da Internet (nomeadamente em https://www.facebook.com/HistoriaDosAcores) uma magnífica Colecção de Fotografias de Casas Rurais terceirenses, inventariadas e avaliadas para eventual ou efectivamente concretizada demolição pelas forças britânicas da Royal Air Force (RAF) estacionadas na Base das Lajes durante a II Guerra Mundial.

O principal divulgador desta exposição nas redes sociais daquele precioso acervo histórico-documental – conforme deve ser devidamente indicado – é um cidadão terceirense (José Carlos Tristão), natural das Lajes e presentemente a viver nos Estados Unidos (Tracy, Califórnia), que refere, na sua página do Facebook (disponível em https://www.facebook.com/jose.c.tristao?fref=ts) tê-lo recolhido do “Sr. Ramalhinho das Lages”, mais informando ainda que as fotos, de “autor desconhecido”, foram digitalizadas pelo “Doutor Paim”.

Todavia, fazendo aqui um parênteses nosso, é de assinalar, mais rigorosa e apuradamente, que as referidas imagens pertenciam originariamente a álbuns ingleses – deixados em arquivos portugueses da Base das Lajes – que foram, felizmente, recolhidos por Francisco Martins Aguiar (o “Sr. Ramalhinho”), quando iam provavelmente já a caminho de alguma imprevidente e abusiva destruição na lixeira…

– Mais tarde, como sabemos, foram esses álbuns emprestados à RTP-Açores, onde foram digitalizados por recomendação do médico e nosso saudoso amigo Dr. Adriano Paim de Andrade, e por intermédio de quem, finalmente, chegaram outras cópias a José Carlos Tristão, seu empenhado e diligente último divulgador, como vimos.

Ora as imagens das reveladas construções (a preto e branco, com sépia nas rotulagens apensas) que constam dos belos retratos, foram praticamente todas captadas durante os anos de 1944 e 45, apresentando-se na sua maioria anotadas e datadas (algumas com indicação do dia e mês).

– Por outro lado e em conjugação, registando também muitas das fotografias a identificação dos proprietários dos prédios e a respectiva localização geográfica, é assim possível, a partir dos respectivos registos, mapear o perímetro dos terrenos aonde as referidas habitações, ou simples moradias e guaritas, estavam implantadas, a saber: as áreas envolventes e cercanias laterais e de enfiamento da futura (actual) Base Aérea das Lajes, na altura a ser construída precisamente nos terrenos daquela nossa gente do Ramo Grande…

E é assim que os prédios, a cujo levantamento geo-cadastral e destruição patrimonial os ingleses procederam após o seu desembarque com armas e bagagens na ilha Terceira (em 1943), se situam identificadamente em zonas, ruas e canadas da freguesia das Lajes (sempre ortografada “Lages”), Serra das Lajes, Santa Luzia, Juncal, Santa Rita e Serra da Praia, sendo – enfim… – que os respectivos donos ou moradores (pelo menos os daquelas propriedades que acabaram demolidas e das quais os donos foram forçosamente desalojados ou se viram desapossados) – acabaram depois por ser realojados em novos bairros circunvizinhos e ali criados em redor da gigantesca pista de asfalto então em implacável e imperioso crescimento administrativo-militar e político-diplomático, – num beligerante takeover da “moda da gasolina” que “Secou o trigo do chão”, e do “avião da carreira/ Carregadinho de bombas”, “Dando nicões de aço fino, / Traques de fogo de guerra!”…

Voltarei certamente – como já o fiz noutras abordagens mais académicas e várias vezes antes – a falar desta colectânea documental e do seu valor histórico-político, antropológico-cultural e sociológico, cujas virtualidades temáticas e de leitura científica e multidisciplinar são imensas!

– Mas, para já, o que aqui deixo é somente um convite para que o leitor observe, sinta e reflicta bem e a fundo na verdade dramática e inspiradora da importância memorial e projectiva da existência e destruição real e simbólica daquelas casas, e das almas e corpos que as rondaram em vida e simbolicamente povoam o nosso imaginário, na certeza do vasto e responsabilizante significado histórico-político, social, cultural e moral que ainda hoje tem para os nossos Açores, para a Terceira, para a Praia da Vitoriam, para a trémula soberania nacional e… para as tantas vezes alienadas honras de Portugal!
 _______________

Publicado em Azores Digital:  http://www.azoresdigital.com/,
e “Diário dos Açores”, Ponta Delgada, 10.02.2013.
Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 10.02.2013).



quinta-feira, fevereiro 07, 2013


Açores mais desprotegidos
no caso da Base das Lajes




“Diário Insular” (DI) – Não tem sido fácil perceber a postura de Portugal nas supostas negociações que estarão em curso para uma redução da presença norte-americanas nas Lajes. Como interpreta a posição portuguesa?

Eduardo Ferraz da Rosa (EFR) – Como a pergunta deixa entrever – tanto a partir de elementos explícitos, divulgados ou conhecidos, como a partir de indícios ou sinais implícitos em toda uma série de correlacionáveis dados da vida político-diplomática, de estratégia militar e de defesa seguidos por Portugal e pelos Estados Unidos na última década e mais ainda nos últimos anos… –, ao contrário do que às vezes parece, reais negociações tem vindo a acontecer sobre a presença e os modos de permanência (diga-se, continuação da presença…) desses aliados na Base das Lajes.

Naturalmente que tudo decorre com o normal (muitas vez rápido e oscilante) andamento de conjunturas nacionais e internacionais variáveis e evolutivas. Depois, a própria filosofia e o discurso políticos, a metodologia diplomática, a ética negocial e os interesses estratégicos da “real policy” vivem muito de uma espécie de prudência táctica e de uma reserva dissimuladora que são a alma das negociações

Recordo assim o que aqui  já escrevi em 24.03.2012 -- Cf. neste Blogue, a 23.03.2012 (1) --, quando foi anunciado que iriam prosseguir contactos trilaterais, contratos militares e negociações diplomáticos entre Portugal, os EUA e a NATO com vista à redefinição efectiva, logística e tecnológico-militar das Lajes.

E relembro que, nessa altura, fizera um ano que o ministro da Defesa (Augusto Santos Silva) se tinha deslocado aos EUA para “discussões” sobre o comando NATO em Oeiras, a Base das Lajes e a participação de firmas lusas em concursos militares norte-americanos, estando igualmente então em agenda a forma de “alargamento e reparação da pista da Base das Lajes” e a tentativa de empresas portuguesas “do sector de Segurança e Defesa” (?) conseguirem “mais informação para participar em concursos” nos Estados Unidos!

– Ora é neste contexto, e nas respectivas e subsequentes alterações nacionais e internacionais, que deve ser compreendida a fase em que nos encontramos!


DI – Há quem compare as posturas diplomáticas, no caso das Lajes, de agora e no âmbito do primeiro Acordo. Os negociadores actuais ficam a perder ou a ganhar?

EFR – Ficam a perder, embora tudo deva ser situado num tempo histórico-político, geoestratégico, diplomático e institucional diverso, e em quadros de regime diferentes! Todavia, a firmeza, consistência e talento dos “negociadores” portugueses de Salazar talvez se tenham revelado, em contraposição formal e substancial aos de hoje, bem mais sólidos, coerentes e respeitáveis! Para não dizer patrióticos, informados e competentes…


DI – A recente presença dos BENS entre nós está a levantar grandes dúvidas... Qual a sua leitura?

EFR – A que decorre precisamente da diferença entre os políticos e os militares de outrora e os de hoje… E também do estatuto de Estado e de País tutelado (parcialmente “falhado”, se bem que ainda não “pária”…) em que decaímos!

– Por isso também a posição dos Açores está mais desprotegida, desenquadrada e iludida!
_______
(1) - http://sinaisdaescrita.blogspot.pt/2012/03/diplomacia-dos-interesses_23.html
--------------------------------------
(*) Texto da Entrevista publicada no Jornal “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 07.02.2013).
Idem em Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2331&tipo=col;
RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/index.php?headline=14&visual=10.



sábado, fevereiro 02, 2013


Tragicomédias da Praia e do BENS




Reincidente e mais depressa do que se imaginaria, a Câmara Municipal da Praia da Vitória está mesmo indubitável e ingloriamente a deixar-se atolar num turvo pântano que – para além daquilo que aqui foi pessoalmente relevado – é já, e mais ameaça devir, uma inesperada (?) ratoeira e uma penalizadora hipoteca para todo esse concelho da ilha Terceira, e (evidentemente!) para o próprio Partido Socialista (à medida de Sérgio Ávila, que nanja pela estatura de Vasco Cordeiro?!) …

– E isto é assim tanto mais institucionalmente (além de político-partidariamente…) espantoso quanto, consumindo-se e consumando-se tal tragicomédia, quis-se agora tornar refém (comprometendo-a e instrumentalizando-a…) também toda a bancada dos seus (nossos) autarcas –, conquanto apenas só se conseguindo com isso desencadear um potencial bloqueio decisório (e eleitoral?) a quem e/ou ao partido que o(s) candidatou (possivelmente à cata de supostos benefícios políticos interinos) …

Todavia, percebendo-se logo e muito bem o que por lá foi pretendido com uma tal dita e promovida “conferência de imprensa”, afinal com tanto mais não foi conseguido a não ser a encenação de um suicidário e desatinado lava-mãos (conjunturalmente perpetrado sob imprevidente batuta local), a mesma que – como se não bastasse o resto – logo arrebanhou gente para aquela pressurosa e coarctante manifestação de claque de cumplicidades naquele simulacro de co-responsabilização colectiva!

– Depois, a falta de segurança, razoabilidade, maturidade e talento político-institucionais revelados e montados naqueles termos e palcos escolhidos para tornar a afrontar o Tribunal de Contas com o implícito agravo da insinuação de existência de arbitrariedades e incompetências no Relatório da sua qualificada Auditoria (pois é disso que se trata quando lógica, técnica e cientificamente a algo falece solidez de pressupostos…), e bem assim o disparatado recurso a ameaças judiciárias, consabidas falácias, cabalas dos OCS, suspeições de difamação, ódio, bairrismo, inveja micaelense e outros igualmente fantasmáticos dislates…, – tudo começou a ultrapassar os limites do tacticamente legítimo e razoável!

Realmente, nada disso – diga-se em abono da verdade – curará nenhum dos reais problemas económico-financeiros e as ilegalidades jurídico-políticas que o Tribunal de Contas competentemente detectou na Câmara da Praia, tal como não contribuirá para pagar dívidas e favas a dobrar no futuro, nem, sequer, finalmente, para redimir os do passado, que – hélas! –, até mesmo o de José Fernando Gomes e os (outros) do PSD, foram agora e ali geminadamente invocados, numa sibilina e hipócrita tentativa de cobertura desculpabilizante e para esconjura de outrora denunciados vícios alheios!

– De facto, desse modo, nem com um reclamado e messiânico “Plano de Salvação” para a Praia da Vitória sairemos daquele pântano, tal como de outro incauto atoleiro talvez também não escaparemos apenas por obra e graça dos nossos amigos e aliados americanos do BENS (Business Executives for National Security), organização encarregada, desde os anos 80, de conceber e accionar o Base Realignment and Closure Act.

Finalmente, sabe-se – conforme o “Diário Insular” (honra lhe seja feita!), isoladamente em todos os OCS e instâncias nacionais, também parece ter começado a intuir (aliás apenas com um relance próximo do mesmo tema pelo deputado do PPM/PSD pelo Corvo na Assembleia Regional…) – que o BENS é uma “non-profit organization of business executives”, autodenominada ‘the primary channel through which senior business executives can help enhance the nation’s security”, tendo mais de 300 membros espalhados por todo o território americano, organizando e gerindo “public-private partnerships” que facilitem o uso de iniciativas susceptíveis de responder a emergências e apoios civis, e que tem – enfim… – uma alegadamente forte ligação à Central Intelligence Agency, ao Council on Foreign Relations e ao Bilderberg Group

– Mas talvez se prefira tão graciosos benfeitores (e seus generosos projectos…) aos novamente  denegridos interesses “patrióticos” dos atentos e advertidos negociadores de Portugal...– ou vice-versa! –, sejam eles os do Governo de Lisboa ou dos Açores, não é? 

Pode ser, o que veremos no futuro próximo…
____________________

Publicado em RTP-Açores:
Azores Digital:
e “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 03.02.2013).
Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 02.02.2013).


segunda-feira, janeiro 28, 2013

Um patético Relambório




1. Tal como vinha dizendo no DI do passado sábado, é quase inacreditável o que se lê num patético relambório sobre a Base das Lajes – verdadeiro, aflitivo e desolador testamento e atestado de mediocridades e de irresponsabilidades político-institucionais e socioculturais passado à nossa terra –, de tal modo que só folheando integralmente o dito “Relatório” (disponível em http://www.azoresdigital.com/relatampv.baselajes.pdf) será possível avaliá-lo em toda sua objectiva gravidade e significado profundo!

– Recapitulando: Conforme deliberação unânime (15.06.2012) da Assembleia Municipal da Praia da Vitória (AMPV), foi a sua Comissão Permanente (CP) encarregada de elaborar “um trabalho” para definir a “posição abrangente e, se possível, unânime, dos Órgãos de Poder Local da Praia da Vitória sobre a Base das Lajes”! E assim foi logo decidido “realizar audições a várias entidades e personalidades que têm como área de intervenção e de investigação os assuntos relacionados com a presença Norte-Americana na Base das Lajes, nas suas diversas vertentes”, – levando-se depois a cabo (entre 30.07.2012 e 09.11.2012) quatro das ditas sessões, nas quais participaram, a consabidos e diferentes títulos, as seguintes personalidades: Armando Mendes, Berto Messias, Emiliana Silva, Francisco Oliveira, Francisco Tavares, José Adriano Borges de Carvalho, João Manuel Barcelos, João Ormonde, José Paim, José Parreira, Norberto Messias, Paula Ramos, Paulo Borges, Paulo Ribeiro, Roberto Monteiro, Rui Castro e Victor Silva.

– De seguida, após solicitação (certamente técnica e metodologicamente pensada, adequada, acautelada e competente…), lá o presidente da CP pediu ao presidente da AMPV que – sublinhemos aqui … – “disponibilizasse os serviços de gravação dos (…) trabalhos, para que depois, para efeitos de relatório, pudéssemos ter todas as transcrições, para que possam também constar desse relatório final. Nós definiremos, depois das audições, quais os procedimentos a adotar, mas a ideia é, como foi deliberado e definido na última Assembleia Municipal, que seja elaborado um documento que será a posição oficial, digamos assim, dos órgãos do poder local da Praia da Vitória, posição essa também a ser considerada no âmbito de um processo negocial, que se avizinha, em torno da já anunciada intenção de redução do contingente estacionado na Base das Lajes” (sic)!


E note-se: – Sem prejuízo da gramática, da ortografia e, evidentemente, da mais marcante e espontânea oralidade (que lá ficaram também gravadas para os anais e actas da nossa melhor literatura democrática e parlamentária…), deve já ser referido que todas as transcrições aqui tomadas (e aquelas que, por pudor, não cito!) reproduzem exactamente o que está publicado no dito “Relatório” institucional, o qual – após as ditas “consultas” e superiormente modelado (pois como não havia de ser?!) sob a sábia orientação da tal CP – foi dado ao conhecimento (?) da AMPV, que o aprovou, a 14.12.2012, por unanimidade reiterada e com a conivente anuência de todos os partidos que lá tem assento parlamentar municipal (como agora se diz)!




Mais tarde, como foi publicitado, da mesma triste crestomatia praiense, foi feita solene e oficial dádiva em mão (11.01.2013) ao presidente do Governo Regional, só não se sabendo, entrementes, quando ou se será a dita e selecta antologia de depoimentos pomposa e formalmente também entregue, como também intencionado pelos seus obreiros, ao próprio Governo da República Portuguesa…

2. Ora, independentemente daquilo que sobre tal ilustrado rebento municipal terá de ser posteriormente dito, mas porque se trata de reais imagens e imediatos interesses nossos (açorianos e portugueses!), não posso deixar de confessar ter sido com um misto de vergonha e de indignação que li semelhante e suposto “Relatório”, para mais numa altura histórico-diplomática e com um destino negocial, estratégico e de soberania que, ainda por cima, lhe pretenderam e pretenderão dar…


– Bem sei (calculo...) que o dito “Relatório” não fará propriamente História (embora talvez provoque alguma mossa conjuntural, ou suscite dobradas e piedosas risotas historicamente humilhantes para todos nós!). Todavia, e para além disso, que aquelas espantosas letras e folhas hão-de certamente ficar para a contemporânea história local dos Açores (e de Portugal no seu todo, desde a mais humilde freguesia à mais científica e distinta Academia…), como um datado e pequeno monumento (significante na sua insignificância…)  à menoridade, à irresponsabilidade e ao nosso comprometedor e degradante retrocesso político, institucional, social, cultural e mental –, lá disso não haverá a mínima dúvida!


E mais: – Quando o que ali fica arquivado para a posteridade provém de quem teve, e/ou tem, algumas (grandes e graves) responsabilidades políticas (e partidárias) na nossa vida colectiva, por maioria de razão, o caso torna-se sobremaneira preocupante e angustiante, na exacta medida em que o ultrajante e incauto conteúdo daquele tão comprometedor, indiscreto, insólito, confrangedor e patético relambório, somente terá paralelo nas suas quase inacreditáveis formas,  (i)literacias e arrojadas pretensões!

Tudo isto, na verdade, é muito desolador (e seria carnavalesco, se não fosse dramático). – Porém, sinceramente, ao fim de todos estes anos (de Democracia, de Autonomia e até de Escolaridade...), chegarmos a tanto e a tão pouco, é mesmo de partir a alma!




Sem antecipar nada do que crítica e detalhadamente dir-se-á mais tarde, noutro contexto e no domínio de abordagens críticas e socio-históricas – que é aquilo que fundamentalmente me interessa focalizar nesta problemática –, apenas quero hoje adiantar que – desde a inconcebível e desadequada “metodologia” usada, até à analfabeta transcrição técnica dos palavreados gravados; desde o embaraçoso e escusado registo de afirmações (algumas individualmente penalizadoras…), desabafos de estados viscerais e (até) acusações ultrajantes para o Estado Português, para o País e para muitas das suas instituições, representantes e órgãos; desde as mais mirabolantes, desinformadas, superficiais ou apenas levianas análises, até às mais imprudentes ou inconsequentemente formuladas defesas de vários dos nossos (esses sim, justos e razoáveis!) direitos e deveres, – quase nada do que ali consta abona substancialmente a favor da Praia da Vitória, da mínima e exigível qualificação interna e externa dos seus órgãos e actores municipais, políticos e técnicos, até porque a todos e à nossa terra expõe ao mais alto nível, e mais do que o imaginável, a um atroz e ridículo estatuto institucional, pessoal, sociocultural e ético!

– Finalmente, ainda por cima, ter-se pretendido provocar a chamadapedra, à pedrada ou às lajes do Poder Local?), para depois, formalmente, perante a sua sensata recusa, manifestar e fazer inscrever no texto das Conclusões e Recomendações deste tosco testamento “praiense” – que permanece aliás e todavia apenas da exclusiva e total responsabilidade daquela confrangedora, auto-suficiente e comissariada instância municipal! – que se lamentava “o facto de o Comando Português e Comando Americano da Base das Lajes terem recusado ser ouvidos”, francamente, nem sequer merece qualquer comentário…


3. Tudo isto, como escrevi antes – evidentemente não invalidando o mais importante que naquelas reuniões, em bruto, foi dito –, o que se questiona e renovadamente rejeita é acima de tudo o modo impensado, improvisado e presumido como tudo foi ali congeminado e depois tombado na rústica (e nem sequer corrigida…) prosa do suposto “Relatório”, chegando-se, também com isso, ao ponto de fragilizar e desacreditar o que lá fora eventual, esparsa mas validamente reflectido (ou apenas irreflectidamente desabafado…), na mais ridícula, leviana e improcedente demonstração narrativa do nosso subalterno estatuto regional, nacional e internacional!




E é ainda por estas razões e pela insuspeitada (?) e revelada desqualificação técnico-política da CP, da AMPV e da CMPV – que pouco escrupulosa e perigosamente tornaram a deslustrar as populações que dizem representar, minorando o seu histórico brasão e o seu nome, e desproporcionadamente comprometendo as suas legítimas expectativas – que, a um preciso nível, toda uma perplexa, pequena e humilde comunidade local ficará agora ainda mais desiludida e irremediavelmente mais fragilizada no contexto regional e nacional, sob o olhar pragmático (calculista, cuidadoso e displicente…) da “real policy” do velho amigo, hóspede e aliado norte-americano, e daquilo que (de há muito) esta hegemónica potência vem preparando e consumando sobre tantas das nossas desatentas, ignorantes ou preguiçosas cabeças de vento…



Desta brincadeira, toda de mau gosto, com coisas sérias à mistura; deste presente envenenado aos seus próprios artífices; desta oportunidade perdida; desta ridícula manifestação de paroquialismo e de incompetência institucional, técnica, política, social e científica – enfim –, só se aproveitará talvez uma coisa:

– Ficámos todos a saber melhor, se dúvidas houvesse, caso a caso, a verdade nua e crua daquilo que cada um (nas semelhanças e nas diferenças manifestadas) pensa, sabe, diz, vale, descura ou ignora enquanto “representante” municipal praiense, terceirense e açoriano, líder, mentor político-partidário ou dirigente associativo e sindical, nestes tristes tempos que correm, sem quase ninguém autenticamente capaz de olhar pela nossa terra e pela nossa gente, aqui e além, nas velhas e novas capitais dos impérios do globo…
_______________________

Publicado em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 29 de Janeiro de 2013);
RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/index.php?article=30722&visual=9&layout=17&tm=41;
Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2329&tipo=col.