quarta-feira, maio 29, 2013


CARTA NOVÍSSIMA
para Daniel de Sá
(1944-2013)


Meu caro Daniel,

1. Estava a contar os dias que faltavam para nos encontrarmos de novo, porém ainda por cá onde tanto demandámos e pensámos os Novíssimos da Ilha, e por entre tantas palavras, sonhos e arroubos, alguns apenas nominalistas, outros escatológicos, visionários ou retóricos como os do nosso amado Padre António Vieira, – quem sabe se ele lá contigo nesta hora, ou tu com ele, fora desta temporalidade, noutro púlpito resistente e perpétuo, ou na Luz do Corpo Místico que ele, apocalíptico, também paradigmaticamente evocou, à beira do Abismo aonde toda a Terra treme, clama e desponta, na aurora do Dia Novíssimo, para a Última Resposta…

… Estava eu a desfiar esse rosário de expectativas – ia a dizer-te –, meu caro Daniel, para querer continuar os nossos diálogos, quando me chegou de rompante a notícia da tua súbita e derradeira partida para o mais fundo, distante e todavia próximo dos silêncios!

– E num instante, então, agora, assim, tão devagar no sobressalto, perdemos ambos a acalentada confiança que tão fraternalmente tinhas expressado naquela bela narrativa do teu último périplo terceirense, quando dizias – naquele modo que os dois bem em cumplicidade antiga e na verdade logo percebemos e acordámos – gostar de “conversar longamente com o Eduardo Ferraz da Rosa. Da sua escrita e da sua amizade com Nemésio.

“Da escrita, perguntar-lhe se ele exercita nela conscientemente, ou por acaso, o que me parece ser um exemplo prático da Fenomenologia de Husserl. É que eu leio o que o Eduardo escreve, e crio uma ideia do que as palavras significam. Mas depois volto às palavras para verificar se essa ideia de facto lhes corresponde. E, parafraseando aquela que, por amor e necessidade, é a pessoa mais indispensável da minha vida, dir-lhe-ia que, se Nemésio tivesse estudado mais, não teria tido tempo para aprender tanto. Não nos haveria deixado, portanto, um livro quase esquecido, uma torrente de cultura, como é o ‘Jornal do Observador’. Nem, provavelmente, o ‘Mau Tempo no Canal’, porque, fosse ele mais aplicado nos estudos e mais paciente com os professores, e não iria parar à Horta para obter um diploma com a mesma classificação do de João de Deus na Universidade”…

Ora é para isso, e como se estivéssemos os dois finalmente sentados frente a frente e a ver o nosso mesmo Mar, que tão gratamente quis recolher, evocar e citar neste dia as tuas palavras, Daniel, porém logo também para devolver-tas com outras, as minhas, de outrora – mas agora para sempre relidas e refeitas, ou futuríveis, quem sabe afinal? – que te enviei há anos, deste mesmo lugar da Terceira, mas de um tempo outro, no derradeiro e ventoso Outono que atravessaste. Todavia, não tenho a certeza de algum dia (não) as leres, ou (sim) as receberes no ressurrecto modo do Mistério que nenhuma Fenomenologia, como bem detectaste, do Homem terreno – aqui neste frágil e contingente destino do pulvis (…) et in pulverem reverteris – poderá alguma vez explicar, ou sequer compreender (a não ser, pode ser, sob o modo de alguma crença ou da Fé que ambos partilhamos...).

– E aqui vai pois, meu caro Daniel, o que repito, praticamente sílaba a sílaba, e torno a querer dizer-te hoje, identicamente como desse passado Janeiro de 1995, no Suplemento Açoriano de Cultura que o Vamberto Freitas empenhadamente coordenava no “Correio dos Açores”, para o mesmo Futuro Absoluto (que já ali o era eternamente): 

2. Para a tua ilha do nosso Arcanjo, como Ruy Galvão de Carvalho sempre acentuava na datação propiciadora de um lugar de luz para a guarda da Palavra vai a última carta que te escrevo.


– Estou aqui em Angra, mas é quase como se não tivesse chegado a partir de onde vim, daquela morada, terra e templo de Reminiscência Absoluta – afinadas estas por uma dimensão existencial que já foi legitimada e assumida em longo processo crítico e horizonte semântico e metafísico – compreendes? –, digo, daquela Praia minha, da mesma ou análoga à que Vitorino Nemésio, tão significativa e paradigmaticamente sempre chamou de “nossa mãe”, dizendo-a desse modo por relação ao sentido fundamental, matricial a genésico da sua Poética, da sua Filosofia e da sua Fé…

Ora acontece que é por causa dessas categorias que te mando novamente hoje estas palavras fraternas. Refiro-me, como terás já apreendido, ao núcleo de significação mais essencial que aquelas figuras ou metáforas retêm, e que hoje se me tornou a relevar e revelar de repente ainda mais em novo fulgor e relevância de verdade, ao ser-me chamada a atenção para um espantoso e pequeníssimo lapso tipográfico que a tua bela e humaníssima missiva então continha.

De facto, na mensagem a que me estou referindo, e na qual generosamente e mais uma vez com igual Amizade e certeira e rigorosa Exegese disciplinar, tiveste a viva memória e a afectuosa e intencional lembrança de me descobrires e nomeares num parágrafo e entre aqueles (outros) vultos que são da verdadeira e unicamente grande estirpe e condição que (a todos) nos poderia e deveria unir e reunir in gente, lá resvalou o alfabeto (que não a gramática!) de vogal em vogal, como ao nosso Nemésio, de vaga em vaga vocálica…, de uma a outra delas, e então de um “o” penúltimo se acercou a prosa de um “e” mais original no andamento da declinação prototípica, e assim de mão se chegou a mãe, e eu (em abençoado destino suplementar), de contraparente, amigo e discípulo, me vi baptizado em Irmão de sangue verdadeiro!

– Feliz corrente de composição que a tanta proximidade de natureza e semântica acabou por deixar resumir a ideia…

Surpreso, pois, na maravilha de sentido que um lapso técnico de gesto no teclado foi capaz de gerar (e tão verosímil em seu segredo e maiêutica ocultação foi, que nenhuma outra revisão se mostrou ciosa ao ponto de a invejar em golpe de correcção!), – não resisti, neste inesperado contexto, ao encantado impulso de te mandar, com devida e maior estima, este ramalhete de escrita, alinhadas e alinhavadas as minhas próprias letras para testemunho de gratidão pelas tuas pessoais, bondosas e lisonjeiras referências às minhas humildes demandas ensaísticas, filosóficas e literárias.

3. Cá se realizou o Outono Vivo, mas tal como muito bem vislumbraste da outra vez, na autêntica proximidade espiritual que às vezes só mesmo uma virtuosa e conjuntural distância garante e sela para o mais gratificante futuro absoluto (como, nas mesmas e todavia outras maiúsculas de grandeza escatológica o nosso Karl Rahner tematizou, como sabes…), também nestas aventuras de encontro e reencontro é bom que se perdoe “alguma coisinha”, porquanto, com certeza, mesmo a Terceira, “lá por ser de Jesus, não é por força em tudo virtuosa apenas”…

– Tenho tenha pena de lá não teres estado! E agora, maior é ela ainda quando leio que sentes e dizes mesmo, na solidão confessada, não quereres cair na lamúria.



É que – entendes? – cá por esta “Treceira de Jasus”, com os seus pretensos ou supostos donos e proverbiais padrinhos e puxadores de dança e contradança vária, em tanta corrida, passo e queda se quedarem alguns infelizes, diletantes e aduladores, que já nem ao nível do chão vão, antes de lá e amiúde dele nem conseguem levantar-se, no que aliás seguem em razão inversa às dos conceitos predicáveis do Sermão da Caída…

Mas seja lá como for, ou não seja, também agora te quero afiançar das minhas saudades da tua Maia e desse calor tão franco e mais reanimador, e tão diverso e tão nobre, ao menos na esperança e na sua inteireza singela de pão e mesa e caldo de tanto ideal e persistente sonho fraterno…

– Lembro-me muito bem de tudo isso, de novo aqui, longe da mão da porta e do sentido-mãe das ruas e das casas, e da minha casa na Praia, e do rosto materno e definido das pessoas e das coisas, mas ainda mais hoje, depois do tempo e do espaço, das mães universais que lá e cá (como de facto e na genuína solidez da Vida e do Amor, em todo o lado) sempre nos hão-de fazer pensar, sentir e agir, crescendo interiormente para o mais que importa e vale!

A terminar, saúdo-te, de novo, na certeza de um dia poder acolher-te pessoalmente na nossa real Praia da Vitória. Aí hei-de mostrar-te, por minha própria mão, responsabilidade, olhar e coração, aqueles recantos de Nemésio e da Praia-Pátria Açoriana e universal de sempre que só é conhecida e reconhecível por aqueles que a amam e compreendem; ou vice-versa, tanto faz, porque, como tu também sabes, entre o paciente amor da Sabedoria e a sabedoria paciente do Amor, talvez não valha a pena acentuar mais nenhum daqueles usuais, às vezes pérfidos e rasteiros, esquemas de dualismo racional, poético e ético, – todos eles em que, tantas e escusadas vezes, por entre fúteis e crispadas letras, se perdem as palavras sapientes e se desencontram os afectos e os espíritos, por melhores que sejam as literaturas e o que delas há-de restar!




Sem mais, por aqui agora me deixo também ficar sem lamúria mas grande tristeza, para procurar continuar a aprender com tudo e com todos, enviando-te um grande e definitivo abraço firme e fraterno, e pedindo-te que aceites todo o respeito e a minha admiração, ao ver-te partir para onde, junto aos nossos todos juntos, esperarás certamente por nós, na Saudade do Futuro.
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Em “DA” (“Diário dos Açores”, Ponta Delgada, 29.05.2013);
Visualização e Download aqui:
“Os Sinais da Escrita”:
RTP-Açores:
e Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2364&tipo=col.









sexta-feira, maio 24, 2013


Um País Paranormal


Mais do que aos famosos Pastéis de Belém, saborosos e cremosos produtos da nossa nacional Doçaria, tanto mais apetecíveis quanto mais polvilhados estiverem de Canela…, – coisa também ainda mercantilizável como iguaria de marca eleita pelo ministro da Economia do Governo de Lisboa, a par do castiço frango de churrasco, como factor decisivo para um potencial relançamento pantagruélico das nossas periclitantes transacções comerciais (ou não fora suplementarmente essa Especiaria ainda resquício de antigos condimentos de sonho e grandeza que trouxemos lá do longínquo Ceilão no bojo das míticas naus do Império Português do Oriente e na onda da Primeira Globalização Planetária, para a qual aliás abrimos mares nunca dantes navegados, e terras e gentes sempre cobiçadas por quem as quis e de lá conseguiu retirar o que os Portugueses a tanto não quiseram, não souberam ou não puderam tão cruamente aventurar-se) …

Porém – vinha a dizer –, mais do que à voraz mastigação e deglutição daquelas iguarias de massa e creme belenenses, aquilo a que nos últimos dias mais deliciosamente assistimos, a partir do político e comediante chamatório dos estúdios das TVs, bancas de jornais, cadeirões políticos e carroçarias partidárias de alto estofo, cabedal ou cilindrada (junto ou portas adentro do Pátio e do Palácio presidencial), foi certamente a verdadeira tragicomédia que antecedeu, ocorreu durante e sucedeu ao último Conselho de Estado!



– Na verdade, desde o falario antecipatório e/ou dedutivo dos sempre presumidos espalha-brasas, sofistas ou ficcionais analistas das Redes e OCS que temos, até às mais desbragadas metáforas dos diferentes feirantes e circenses gémeos actuais dos Palma Cavalões de outrora (com as respectivas Cornetas do Diabo…), passando pela retórica oca de caducos politiqueiros e inconscientes institucionais de carreira consolidada, – a tudo isso o País – de rastos, revoltado, angustiado, espoliado, porém submisso, ou simplesmente descrente (até à invocação leviana e vã de Fátima!) – foi assistindo:

Desses sinais, em portas e passos, entre vida e morte (trocadilhos ora em voga numa Nação em pré-coma induzido…), ficaram os Açores quase a ver, e vistos, de longe!

– Todavia, paranormalmente também, para não destoar…
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Em Jornal "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 26.05.2013),
e RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/index.php?article=32308&visual=9&layout=17&tm=41
Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo (25.05.2013).

segunda-feira, maio 20, 2013

sexta-feira, maio 10, 2013


As Culturas da Rádio
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A História da Rádio nos Açores nunca foi feita de modo minimamente alargado, articulado e sistemático, pese embora a existência de alguns projectos idealizados e de específicos trabalhos monográficos (como o de Pedro de Merelim sobre o RCA) e a concretização de diversos outros apontamentos dispersos e registos pontuais (conferências institucionais evocativas, crónicas, exposições, mostras e reportagens de tipo jornalístico).

– Mas tal lacuna não assentará certamente na falta de significativos historiais deste importante meio de Comunicação Social no Arquipélago, nomeadamente em S. Miguel, Santa Maria e Terceira, cujos pioneirismos remontam a 1941 e 1947 (com as instalações do Emissor Regional dos Açores da EN, depois RDP, Asas do Atlântico e Rádio Clube de Angra), coincidindo assim temporalmente com os meados da chamada época de ouro radiofónica em Portugal.

Todavia – e apesar de muitos elementos materiais, documentais e técnicos, preciosos para a realização de tal levantamento e consequente estudo, se terem perdido, gastos pelo tempo, incúria ou inconsciência das respectivas agremiações e ausência de políticas culturais, patrimoniais e museológicas mais amplas e multidisciplinarmente fomentadas… –, talvez fosse hoje ainda possível fazer uma proveitosa investigação temática e uma metódica abordagem socio-histórica, sociológica e política sobre tão importante sector, sendo que tal trabalho, a chegar aos nossos dias (com a relativamente mais recente implantação das novas estações e modelos institucionais, comerciais, associativos ou apenas locais de Rádio), não deixaria de fornecer abundante matéria para análise crítica deste relevante campo mediático, histórico-cultural, informativo, formativo e lúdico, nas suas diversas etapas, qualificações e instrumentos, e tanto naquilo que aí também se manifesta e representa de universal como de particular.

– Oxalá esta problemática, que é assim e afinal da ordem da Cultura e da Cidadania – e que se articula com a tão mal debatida e ainda menos bem encaminhada questão do serviço público de Radiodifusão (e da participação, ou ingerência, do Estado, do Governo e de muitas, desreguladas e obscuras redes de interesse e teias de Poder nos OCS…) –, fosse mesmo levada a sério por toda a sociedade civil e pela própria “classe jornalística” (tão amiúde permeável ao mais abjecto tráfico de favores e contra-favores que as lógicas partidárias e as propagandas administrativas sempre tem a tentação de gerar, reclamar e impunemente perpetuar)!

Por outro lado, é de notar que uma observação atenta às grelhas de programação e aos conteúdos individuais de muitos Programas de algumas Estações de Rádio nos Açores (melhor sendo nem falar, por agora, da Televisão que nos foi impingida para desencanto, desmobilização, des-edificação e des-identificação colectivas e individuais…), em comparação com produções e realizações bastante anteriores e muito mais parcas em meios técnicos e humanos, não poderá deixar de fazer constatar uma acentuada quebra na qualidade, na capacidade criativa, na pertinência sociocultural, na relevância artística, na correspondência às dinâmicas comunitárias regionais, na objectividade factual e na aceitação das audiências…

– Porém, depois e no meio do deserto nacional ou da vacuidade gerais, lá nos aparecem pequenos espaços encantadores e muito bem conseguidos na sua simplicidade, contenção e singeleza, revestindo-se, por isso, de uma feição bem atractiva e de verdadeira promoção cultural, cívica, crítica, estética e intelectual. E é neste quadro que quero até referir e salientar pela positiva o Programa “À Volta dos Livros” de Ana Daniela Soares, transmitido na Antena 1!


Trata-se de uma conversa serena, de um sugestivo diálogo diário com Autores portugueses e suas Obras mais recentes, nuns breves mas ricos minutos radiofónicos por onde já passaram, entre outros e variadamente, Eduardo Lourenço, Miguel Real, Alice Vieira, José Eduardo Franco, Bagão Félix, Helena Matos, Pacheco Pereira, Nazaré Barros e Mendo Henriques…

– Certamente um pequeno exemplo a seguir, para além do mais e ao seu nível próprio, por tantas estações e frequências de afugentar os olhos e queimar os ouvidos, deste e do outro lado do mar das ilhas…
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 11.05.2013):



























RTP-Açores:
http://sinaisdaescrita.blogspot.pt/,
Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2358&tipo=col,
e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 12.05.2013):




sexta-feira, maio 03, 2013


Memória de um Projecto Cristão
para Desenvolvimento dos Açores



Nesta efeméride da passagem de meio século sobre a ocorrência de acontecimentos históricos muito marcantes e decisivos na vida da sociedade açoriana de meados do Século XX, tive já oportunidade de evocar aqui dois deles – a II Semana de Estudos dos Açores e o início dos Cursos de Cristandade no Arquipélago –, relacionando-os especialmente com a publicação da Encíclica Pacem in Terris, a realização e a recepção do Concilio Vaticano II, a Doutrina Social da Igreja e o Pensamento Humanista Cristão, – factos e factores que conjugadamente moldaram uma ilustríssima geração de Açorianos e balizaram os seus horizontes, ideários, projectos e comprometimentos espirituais, sociais, culturais e políticos.

1. Hoje abordarei sucintamente mais um exemplo desses acontecimentos e recepção dessas ideias, recordando a paradigmática confluência verificada entre aquele que seria afinal o principal lema das Semanas de Estudos e uma sua interpretação ortoprática tal como foram subscritas no discurso de um distinto homem da sociedade e da imprensa micaelenses da época, – precisamente o Dr. Manuel Carreiro, então Director do “Diário dos Açores” (e cujo filho Manuel/“Mani” viria a falecer, morto em combate na Guiné, durante a Guerra Colonial que o regime deposto em 25 de Abril sustentaria durante décadas de opressivos sacrifícios, injustiças, logros, arbitrariedades e impasses nacionais, regionais e pessoais…). 

– E foi assim que na Apresentação do Livro da II Semana de Estudos (realizada em Angra do Heroísmo entre os dias 3 e 10 de Abril de 1963) o seu genial animador e incansável Secretário, Doutor José Enes (na pintura-retrato de Aristides Ambar que ilustra este texto), depois de salientar o “nível das conferências e dos debates, o interesse activo e o admirável espírito de compreensão, sinceridade e tolerância” que haviam timbrado as respectivas sessões com “um valor cultural e humano verdadeiramente invulgar”, acabaria por colocar aquele ímpar projecto pan-açoriano sob o programático lema de “Mais saber para melhor viver”!

Porém aquela formulação fora possivelmente inspirada e como que parafraseava filosoficamente uma célebre passagem da Encíclica Mater et Magistra (de João XXIII), por sua vez recolhida da não menos indicativa expressão – “Ver, julgar, agir” – do método pastoral do cardeal Joseph Cardijn, fundador da Juventude Operária Católica (JOC) e que tinha aliás desempenhado activo papel como um dos mais empenhados e primeiros responsáveis católicos a pedir ao Papa, em Memorando próprio, a publicação de nova Encíclica social para marcar o 70º. Aniversário da Rerum Novarum (1891) de Leão XIII. E de facto, na Mater et Magistra (15 de Maio de 1961), no articulado relativo a “Sugestões práticas”, viria depois a ler-se:

– «Para levar a realizações concretas os princípios e as directrizes sociais, passa-se ordinariamente por três fases: estudo da situação; apreciação da mesma à luz desses princípios e directrizes; exame e determinação do que se pode e deve fazer para aplicar os princípios e as directrizes à prática, segundo o modo e no grau que a situação permite ou reclama. São os três momentos que habitualmente se exprimem com as palavras seguintes: "ver, julgar e agir"» …

2. Ora é neste contexto socio-histórico e teórico-prático que José Enes, citando Manuel Carreiro, depois de afiançar que como portugueses e como açorianos tínhamos consciência de que a hora não era “para divagações estéreis nem para discussões bizantinas”, destacava o argumento a relevar e subscrever com o Director do “Diário dos Açores” quando este dizia que “de mãos dadas, olhando-nos de frente e nunca indiferentes, poderemos discutir, limar arestas, e resolver grandes problemas açorianos, há muito aguardando solução satisfatória. Só assim, francos e descontraídos, poderemos dar ao Arquipélago aquela coesão e força anímica de que tanto carece, para que mais se valorize e prestigie”!

Por seu lado e do mesmo modo, justa e finalmente José Enes concluía, com toda a previdente lucidez da sua tão reflectida e avisada prospectiva: – “E é desta forma que as ideias entram na convivência humana, ao nível da consciência colectiva, transformando-se em sistemas de dominantes teóricas e práticas. Quer dizer: é assim que se elabora a cultura vivida.

“Com o desejo de mais saber para melhor viver, comecemos, portanto, sob o signo da boa vontade, da sinceridade e da tolerância”…

3. Todavia, agora e aqui, passado meio século, talvez seja urgente e proveitoso repensarmos todos e analogamente o estado de coisas a que chegámos, e tudo aquilo que não soubemos (ou não nos deixaram…) construir como homens e como cristãos portugueses dos Açores, no País, para a nossa Região Autónoma e com todos os Açorianos, sendo que talvez com isso nos tornaríamos mais dignos das esperanças e lutas do passado… Ou não permanecessem ainda vigentes e actuais as históricas palavras da mesma Encíclica, lá pelos idos (?) anos 60, ao analisar os antecedentes do século, assim:

–“Como é sabido de todos, o conceito do mundo económico, então mais difundido e posto em prática, era um conceito naturalista, negador de toda a relação entre moral e economia. (…) Juros dos capitais, preços das mercadorias e dos serviços, benefícios e salários, são determinados, de modo exclusivo e automático, pelas leis do mercado. (…) Num mundo económico assim concebido, a lei do mais forte encontrava plena justificação no plano teórico e dominava no das relações concretas entre os homens. E daí derivava uma ordem económica radicalmente perturbada.

“ (…) Enquanto, em mãos de poucos, se acumulavam riquezas imensas, as classes trabalhadoras iam gradualmente caindo em condições de crescente mal-estar. (…) Sempre ameaçador o espectro do desemprego.

“ (…) Não devemos, pois, admirar-nos, se os católicos mais eminentes, atendendo aos apelos da Encíclica, empreenderam iniciativas múltiplas, para traduzirem em prática os seus princípios. De facto, nessa tarefa se empenharam, sob o impulso de exigências objectivas da natureza, homens de boa vontade de todos os países do mundo.

“Por isso, a Encíclica, com razão, foi e continua a ser considerada como a Magna Carta da reconstrução económica e social da época moderna”…
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Em RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/index.php?article=32031&visual=9&layout=17&tm=41;
Azores Digital:
Jornal "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 03.05.2013)

quarta-feira, maio 01, 2013


Revista “Nova Águia” publica
ensaio sobre figuras açorianas

Acabado de sair, o nº. 11 (Março de 2013) da “Nova Águia” – Revista de Cultura para o Século XXI (Lisboa, Edições Zéfiro) inclui um ensaio dedicado a Agostinho da Silva e à sua ligação aos Açores e a Açorianos.




Da autoria do investigador, ensaísta e professor universitário Eduardo Ferraz da Rosa, o texto aborda a vida e o pensamento daquele grande pensador, filósofo e escritor português, nas suas relações pessoais e académicas com duas outras personalidades açorianas – os terceirenses Vitorino Nemésio e Alberto Machado da Rosa, com quem os seus percursos históricos, existenciais e universitários, tal como a sua plurifacetada obra, se cruzaram ao longo dos anos, em Portugal, no Brasil e nos Estados Unidos.

Intitulado “Memórias Açorianas de Agostinho da Silva, Vitorino Nemésio e Alberto Machado da Rosa”, o estudo de Eduardo Ferraz da Rosa retoma, agora com novos desenvolvimentos e maior amplitude, um anterior trabalho que fora publicado no seu livro O Risco das Vozes (editado em Lisboa, com Prefácio de Carlos Reis, em 2006, pela Academia Internacional da Cultura Portuguesa, presidida por Adriano Moreira).

O presente trabalho de Eduardo Ferraz da Rosa regista o convívio intelectual e encontros pessoais com Agostinho da Silva, traçando o seu perfil filosófico, atribulações políticas e académicas, principais núcleos temáticos de reflexão e o seu papel na criação e desenvolvimento de academias, universidades e centros de estudos luso-brasileiros, analisando ainda as ligações de Agostinho da Silva à Tradição Paraclética e ao Culto do Espírito Santo nos Açores, e bem assim os seus diálogos com aquele que foi, até hoje, um dos mais destacados, inovadores e críticos estudiosos de Eça de Queirós, precisamente o académico Alberto Machado da Rosa (Angra do Heroísmo, 1924 - Monsaraz, 1974), doutor em Literaturas Hispânicas, investigador e professor universitário nos Estados Unidos (Wisconsin e California, Los Angeles), sendo depois todas estas referências articuladas com a vida e o pensamento de Agostinho da Silva, cuja figura, por sua vez, é relacionada com Vitorino Nemésio nos âmbitos culturais, filosóficos e literários referidos e detectados neste muito curioso e pertinente ensaio, aonde, por exemplo, são reproduzidos testemunhos únicos de outros amigos, companheiros ou colegas comuns de Machado da Rosa, que foram pesquisados por Eduardo Ferraz da Rosa (como o médico Hélio Flores Brasil, o livreiro José Teixeira de Borba e o escritor e jornalista João Afonso).

Com sucessivos lançamentos a decorrer em todo o País, este número da “Nova Águia” – herdeira da revista A Águia e do ideário do chamado Movimento da Renascença Portuguesa (Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, António Carneiro, António Sérgio, Fernando Pessoa, Leonardo Coimbra e próprio Agostinho da Silva) –, actualmente dirigida por Renato Epifânio, Miguel Real e Luísa Janeirinho, inclui vasta lista de Colaboradores, entre os quais, para além de Eduardo Ferraz da Rosa (que é também membro do seu Conselho de Direcção), Adriano Moreira, António Carlos Carvalho, António Braz Teixeira, José Eduardo Franco, Manuel Ferreira Patrício, Manuel J. Gandra, Maria Leonor Xavier e Pinharanda Gomes.
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Em "Diário dos Açores (Ponta Delgada, 01.05.2013);



sábado, abril 27, 2013


As Leituras dos Cursistas

Como aqui assinalei antes, está presentemente a decorrer em Angra do Heroísmo a comemoração do quinquagésimo aniversário dos Cursos de Cristandade nos Açores.


Para além da sua já situada importância social – a par das Semanas de Estudo que, embora em campos diferentes, também foram concretizações de consciencialização e elaboração do pensamento e da acção da nossa sociedade na segunda metade do Século XX –, sinalizarei hoje algumas das sugestões doutrinárias e recomendações bibliográficas que eram propostas e disponibilizadas para aprofundada reflexão e contínua formação religiosa, teológica e moral dos Cursistas, e que moldaram assim muitas das linhas teórico-práticas orientadoras e renovadoras do sentido e projectos cristãos do seu mundo, buscas de sentido, reflexão e vivências do quotidiano, sendo que a tanto não fora alheio o Vaticano II, como aliás reconheceu D. Juan Hervás, no seu Manual de Responsáveis dos Cursilhos de Cristandade, ao referir a conciliar “incorporação plena dos movimentos bíblico, patrístico e litúrgico, num aprofundamento da teologia das realidades terrestres, da doutrina sobre a liberdade religiosa e das aspirações do movimento ecuménico”, – todos que, naturalmente, teriam significativa projecção sobre os Cursilhos (nascidos anos atrás).

Ora é neste confluente horizonte – genuína mas sincreticamente marcado por métodos, técnicas e modelos de auto-análise evangélica, espiritual e existencial reconhecíveis nos Exercícios Espirituais dos Jesuítas, no método de Cardijn e em vivências próximas do Opus Dei –, que também se enquadravam as principais, mais destacadas e exigentes leituras e livros dos Cursistas, onde, em primeiro lugar entre os recomendados, estava o emblemático e pessoal Guia do Peregrino (publicado pelo Secretariado Nacional e sempre usado durante e após os Cursos), espécie de manual litúrgico e de horas, oferecimento de obras, exame de consciência, cânticos e orações.


– Mas depois, entre o discurso quase poético do duplo Cristo Partido de Ramón Cué, S.J. (Porto, Editorial Perpétuo Socorro) e a minuciosamente esquematizada axiologia dos Valores Humanos (4 Volumes) de A. Ortega Gaisán (Braga, Editorial Franciscana), em estante de destaque lá vinha o Caminho de Josemaría Escrivá de Balaguer, editado pela Aster (ligada à Prumo) e cujo excepcional catálogo, nas colecções Éfeso e Signo, em traduções notáveis, incluía, entre outros, autores como Romano Guardini, Paul Claudel, Daniel-Rops, Jacques Leclerq, Michael Schmaus, Antoine Sertillanges, Journet, Pieper, Charles de Foucauld, Garrigou-Lagrange, e Jesus Urteaga (cuja obra O Valor Divino do Humano, é ainda um texto de esperança e confiança na audácia intelectual, metafísica e ética da Fé)!

– Sendo estas as mais conhecidas leituras e reflexões da Cristandade dos Cursos (e não só!), oxalá as assumissem e vivessem todos hoje, tal como, naqueles (afinal sempre recorrentes) tempos cruciais, escrevia Michel Quoist, na mesma demanda permanente da reconversão e do diálogo intemporal “do homem com o seu Deus”…
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Em Azores Digital:
RTP-Açores:
“Diário dos Açores” (28.04.2013) e “Diário Insular” (27.04.2013).

quarta-feira, abril 24, 2013


Igreja e Política nos Açores
durante o Século XX



Diário Insular (DI) – Tem salientado o papel da Igreja na transformação da sociedade açoriana do Século XX. Como perspectiva essa relação?

Eduardo Ferraz da Rosa (EFR) – O período referido – precisamente entre o final da década de 40 e a primeira metade dos anos 70 (até ao 25 de Abril) – constituiu de facto um ciclo histórico-político, psicossocial, cultural, intelectual e espiritual absolutamente único e decisivo na evolução da nossa sociedade, tendo sido por isso determinante para a construção possível da unidade do Arquipélago e a génese de uma nova consciência regional açoriana.

– Digo “nova consciência”, apesar de diferentes configurações axiológicas e societárias se terem verificado em outros períodos e contextos históricos; porém, nunca como ali se verifica tão profundamente a tematização e consciencialização dos Açores como comunidade dotada de personalidade colectiva e de unidade destinal, para usar a exemplar formulação filosófica de José Enes.

DI – Onde e como nasceram essas dinâmicas?

EFR – Os centros comuns de geração e de encontro desse progressivo e compósito processo reflexivo e programático regional – onde confluem (em campos, dimensões e carismas diferentes) várias instituições e movimentos (Seminário de Angra, IAC, Semanas de Estudo, Cursos de Cristandade, Acção Católica, LIC, JEC e JOC…) –, encontram-se justamente nos círculos de influência e nos quadros teórico-práticos da Igreja, da Doutrina Social e do Humanismo próprios do Cristianismo.

– Tudo o resto, no Pensamento e na Acção locais (inclusive nas esferas da Política, do Associativismo, da Educação e da Comunicação Social), tanto em termos de projecto de sociedade como de vida pessoal, assentou, directa ou indirectamente, nessa matriz, com a subsequente redescoberta, reconfiguração e correlativo entendimento dos sinais das “realidades terrestres” e da “ordem universal”, que o Vaticano II, a par da nova ordem mundial nascente, trouxeram até nós…

DI – Nesse contexto, como situa o 25 de Abril de 74?

EFR – … Depois, mas já numa fase de certo declínio, desencanto ou esgotamento daqueles ideais (em parte devido à situação política global e à fracassada “primavera marcelista”), foi só e apenas com algumas daquelas linhas e categorias (conseguidas umas, frustradas outras…) que chegámos ao 25 de Abril! Porém, tudo isso, que fora incarnado em pessoas e projectos concretos, sofre lamentáveis e regressivos adiamentos, bloqueios, desperdícios mentais, estruturais e institucionais, com intolerâncias, repressões e saneamentos que provocaram desmotivação, conformismo, cedências ou revolta, apesar das aspirações e conquistas autonómicas…

Ora com a libertação revolucionária (e outras arrumações ideológicas, crispações, subalternizações e enquistamentos partidários de muita gente, saberes e valores…), abriu-se também a porta a oportunismos, impasses, rupturas e insustentabilidades, com a agravante terminal de, contemporaneamente, ser até difícil a crença (esperança ou utopia…) numa Pátria mais justa, livre, desenvolvida e com sentido do futuro!

– É certo que a culpa formal e sistémica das nossas múltiplas falências não estará essencialmente na Democracia e na Autonomia! Todavia, os vigentes modelos, paradigmas e regimes societários, éticos e culturais, a perpetuarem-se, não garantirão nem a viabilidade material nem a legitimidade moral da sua (e nossa) sobrevivência, em moldes livres e dignos, por muito mais tempo…
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(*) Entrevista concedida ao jornal “Diário Insular” (25 de Abril de 2013).
Idem em “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 25.04.2013);
RTP-Açores:

sábado, abril 20, 2013


50 Anos de Ultreias
nos Açores

Cumprindo-se este ano a passagem de meio século sobre a realização dos primeiros Cursos de Cristandade nos Açores, tal como assinalámos aqui na nossa Crónica anterior (“Reencontros com a História”), justo e devido é realçar esta efeméride, que aliás – e bem – vai ser comemorada, nos próximos dias 26 a 28 do corrente, na ilha Terceira, com a realização, no dia 27 de Abril, da VII Ultreia Nacional (subordinada ao tema “Fé: Experiência de um Amor Recebido e Comunicado”) do MCC (Movimento dos Cursilhos de Cristandade) de Portugal, de acordo com o Programa estabelecido para o efeito e que integra também diversos convívios, visitas e passeios turísticos, para além de uma Eucaristia na Sé de Angra e de outros encontros de reflexão, estudo e meditação.




– Idealizado e dinamizado por um grupo de leigos e responsáveis eclesiásticos católicos espanhóis muito ligados à Acção Católica, com destaque para Eduardo Bonnin Aguiló (1917-2008) e D. Juan Hervás y Benet (1905-1982), estes Cursilhos tiveram início na década de 40 do século passado, num contexto muito marcado pelo tradicionalismo católico, que procuraram ultrapassar através de novos processos evangélicos, pastorais e espirituais, de opções existenciais, valores e métodos de auto-análise de vida e da sociedade circundante, segundo métodos e modelos que fundiam diversas linhas de meditação, oração, reconversão, acção e compromisso eclesial e comunitário, alguns deles sincreticamente, mas de modo inovador, marcados ou reconhecíveis também nos Exercícios Espirituais inacianos, no método de Cardijn e em certas vivências próximas dos carismas e práticas do Opus Dei (de cujo fundador, Josemaria Escrivá de Balaguer, Juan Hervás, aliás, foi bastante próximo…).



Nos Açores, tal como no País em geral, mas também um pouco por todo o Mundo, os Cursos de Cristandade – num quadro especial e específico de renovação do Catolicismo na acção e na espiritualidade laicais – desenvolveram, logo de início, um trabalho que proporcionou realmente uma dilatada partilha de vida e de experiências cruciais cristãs, naqueles anos marcados pelo Concílio Vaticano II e pelo aggiornamento proposto pelo Papa João XXIII, tendo os dois primeiros Cursos para Homens tido lugar em Angra do Heroísmo, e o 3.º Regional (Homens), 1.º em S. Miguel – documentado na Foto que ilustra este texto – ocorrido nas Furnas, em Dezembro do mesmo ano (1963).

– Todavia, o primeiro Curso de Cristandade que teve a presença de açorianos, a convite e por incentivo do Prelado Diocesano de então, foi o 14.º Curso Nacional, realizado no Porto, e que contou com a ida dos Cursistas pioneiros regionais Hernâni Mendonça e Cunha, António Braz e Dr. Henrique Braz, nele tendo também participado militantes empenhados e de grande projecção católica posterior no País, como o Arq. Nuno Teotónio Pereira.

No Curso referido, que teve como Director Espiritual o então Padre Januário dos Reis Torgal (actual Bispo das Forças Armadas), estiveram também presentes o Cónego José Garcia e o Dr. Cunha de Oliveira (que viria depois a ser uma das suas figuras cimeiras e dinamizadoras).

– Por seu lado, o Dr. António Rosa (da Clínica do Bom Jesus) foi, na mesma altura, um dos primeiros animadores dos mesmos Cursos em S. Miguel, juntamente com sua esposa, D. Maria Luísa Rosa (primeira reitora dos Cursos de Senhoras, com a terceirense D. Aurora Braz).

Assim sendo, talvez se possa mesmo dizer que, ao seu nível de objectivos próprios, a par das Semanas de Estudo, os Cursos de Cristandade nos Açores foram, no seu sucesso e impacto globais, desse modo e com as suas propostas de análise e estudo do sentido dos casos, concretizações privilegiadas de momentos ímpares de consciencialização privada e de elaboração do pensamento e da vida da nossa sociedade, umas e outros preponderante e identificadamente com declaradas (e até complementares...) referências doutrinárias, teoréticas, axiológicas e práticas herdeiras da tradição do Humanismo Personalista, da tensão profética do Cristianismo e da Doutrina Social da Igreja.

– Todas estas dinâmicas, com uma feição inter-ilhas, foram – esperançosa e felizmente naquela época… – geradoras consequentes de renovadas consciências sociais, societárias, intelectuais e espirituais, com uma liderante e notabilíssima componente local e regional que – apesar de divergências, concorrências e divisões nos penhascos... – ajudaram decisivamente a pensar e a preparar o nosso Arquipélago para a formulação de novas metas a todos os níveis, nos anos subsequentes e de um modo simultaneamente realista, generoso e utópico, talvez nunca mais igualado até hoje…

19.04.2013
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Em RTP-Açores:
Azores Digital:
e Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 21.04.2013).
Outra versão em "Diário Insular" (20.04.2013).



ESTUDO REALIZADO NA TERCEIRA
ENTRE FEVEREIRO E NOVEMBRO DE 2012

Relatório arrasa implementação
de Cuidados Continuados


O relatório "Levantamento, Avaliação e Operacionalização da Rede de Cuidados Continuados Integrados. Situação Atual e Perspetivas Estratégicas da Política de Saúde nos Açores", disponibilizado ao DI pela secretaria regional da Saúde, traça um cenário negro no que diz respeito à área dos cuidados paliativos e ao estado atual da implementação da rede de cuidados continuados.

O estudo, assinado por Eduardo Ferraz da Rosa, debruçou-se sobre o caso terceirense. De acordo com o documento, após auscultadas diversas entidades, foi concluído existir "indefinição total na conceção, organização, planeamento e coordenação de Serviços de Cuidados Paliativos no HSEIT (Hospital de Santo Espírito da Ilha Terceira) e entre esta principal unidade de saúde e as restantes unidades, serviços, instituições e âmbitos sociais, familiares, domiciliários/domésticos e individuais dos utentes necessitados desses cuidados e especializados acompanhamentos técnicos e humanos específicos".

A Lei de Bases dos Cuidados Paliativos, entende-os como "os cuidados ativos, coordenados e globais, prestados por unidades e equipas específicas, em internamento ou no domicílio, a doentes em situação de sofrimento decorrente de doença incurável ou grave, em fase avançada e progressiva, assim como às suas famílias".

Já os cuidados continuados são os cuidados de convalescença, recuperação e reintegração de doentes crónicos e pessoas em situação de dependência.

O relatório foi produzido entre fevereiro e novembro do ano passado. Foram auscultadas "todas as instituições, agentes e atores direta ou indiretamente ligados às áreas da prestação de Cuidados de Saúde e Assistência Social na Ilha Terceira (Hospitais, Centros de Saúde, Residências e Lares, e outros Serviços Públicos e Privados)".

Quanto a recomendações, o documento, no domínio dos cuidados paliativos, defende uma mais "competente definição na conceção, organização, planeamento e coordenação de serviços de cuidados paliativos no HSEIT", isto "procurando também aqui promover uma crescente humanização na prestação destes cuidados e um mais sistemático, efetivo e generoso apoio às famílias envolvidas e/ou a envolver responsavelmente em todo tão exigente processo". 

Este relatório indica ser necessário cumprir as linhas definidas nos programas do X e XI Governos Regionais no campo da política de Saúde, nomeadamente no que diz respeito à "real implementação da Rede de Cuidados Integrados da Região Autónoma dos Açores".


No domínio dos cuidados continuados integrados, é recomendada a realização de mais estudos, que se debrucem sobre a realidade das nove ilhas.

O autor do relatório encontrou repetidas falhas graves no seio do Hospital de Santo Espírito. 

Entre estas falhas estão a "ausência recorrente de elaboração competente e relevante de carta de alta", a "inoperância no sentido da programação dos seus serviços e procedimentos internos, nomeadamente no que concerne à padronização processual, documental e informática da informação e da história clínica pregressas dos seus utentes", ou "falhas na circulação devolutiva da informação clínica atualizada dos utentes atendidos e tratados na urgência" entre esta unidade de saúde e as restantes instituições de saúde, assistência social e de prestação de cuidados. 

Havia também à data de produção do relatório indefinição coordenadora entre os Centros de Saúde de Angra e da Praia no âmbito das atribuições da Unidade de Saúde da Ilha Terceira e era "praticamente nula" a cobertura no campo da assistência domiciliária. 

Foram identificadas deficiências na assiduidade, pontualidade e práticas deontológicas de profissionais de saúde a prestar cuidados nas freguesias. 

É feita ainda a "constatação de demoras, adiamentos injustificados e falta de coordenação e gestão dos calendários, agendas e tempos de consultas médicas e lista de espera nos Centros de Saúde e nos Postos de Saúde das Freguesias- situação agudizada pela falta de um sistema integrado de marcação de consultas".

Há ainda, em termos globais, falta de campanhas de formação e informação dirigidas aos prestadores de cuidado, e escassa articulação entre as políticas de saúde e social e as políticas de habitação, urbanismo e equipamentos "conforme decorre explícita e implicitamente dos relatórios efetuados pelos serviços de bombeiros, transporte de doentes e proteção civil".

É assinalado um fraco envolvimento por parte de alguns agentes locais (Câmaras e Juntas de Freguesia) em projetos, processos e procedimentos nos campos da Saúde e da Assistência Social. Por outro lado, existe um acesso difícil dos membros das autarquias locais às instâncias decisórias da administração regional.

Este documento identifica "restrições, congestionamentos e protelamentos de vários procedimentos médico-legais, administrativos e tributários nas delegações de saúde, nomeadamente no que concerne às solicitações de associações de utentes das áreas da Saúde Mental, das Deficiências e das Dependências".

Rever a lei

O relatório recomenda a correção de todos estes aspetos. É apontada como necessária a revisão do decreto legislativo regional nº13 /2008, que lançou as bases para a criação de uma rede de Cuidados Continuados Integrados na Região (CCIRAA), de modo a adaptar esta rede às "características, meios humanos, técnicos, materiais e logísticos" do Serviço Regional de Saúde. 

Também como medida central surge "reconsiderar a constituição, as atribuições, a agenda e o funcionamento e os objetivos prioritários da Coordenação Regional da Rede CCIRAA", fazendo o mesmo face à coordenação por ilha.

É recomendada a responsabilização dos hospitais pela elaboração competente de cartas de alta e pela existência e disponibilização de informação sólida sobre os utentes. 

Será ainda, entre outros aspetos, importante uma célere implementação da cobertura de assistência domiciliária.

Uma recomendação final vai para "fazer cumprir a obrigatoriedade da existência, em cada unidade ou serviço de saúde, de um processo individual de cuidados continuados da pessoa em situação de dependência".

Todas as unidades, serviços e agentes que integram a rede CCIRAA deviam ainda, de acordo com este documento que está nas mãos da secretaria regional da Saúde, ser alvo de avaliações periódicas, independentes e objetivas, como instrumento de melhoramento de todo o sistema.
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Em “Diário Insular”, Angra do Heroísmo, 20.04.2013.
Texto integral disponível aqui: http://we.tl/7HxjNO81Z2




sexta-feira, abril 12, 2013


REENCONTROS
com a História



No dia em que escrevo este texto – 11 de Abril – comemora-se o 50º. Aniversário da ocorrência, praticamente simultânea, de três acontecimentos cujos significados e alcances socio-históricos, culturais e espirituais se revestem de grande relevo e são, por isso, merecedores de uma evocação reflexiva entre nós, por muito sucinta que a mesma seja feita aqui e hoje apenas nestas páginas de jornal:

– Refiro-me à publicação da Carta-Encíclica Pacem in Terris (do Papa João XXIII, falecido dois meses depois);

              - à realização da II Semana de Estudos dos Açores,



- e ao início do Movimento dos Cursos de Cristandade nos Açores, factos sequenciais, estreitamente interligados e quase temporalmente coincidentes (entre Abril e Setembro de 1963), conforme noutra ocasião já tive oportunidade de abordar desenvolvidamente e a cuja memória mais tarde voltarei.




Então, na dinâmica envolvência do Concílio Vaticano II;

- na evolutiva e progressiva tomada de consciência dos Açores como realidade regional una e em busca de um almejado Desenvolvimento integral (estrutural, económico, social, cultural, político, educativo e intelectual),

- e, enfim, naqueles tempos de efervescências mundiais e civilizacionais, e de novos desafios religiosos, ideológico-políticos, socio-institucionais e espirituais, tudo eram (e foram!) novos e pioneiros sinais dos tempos e busca de alternativos tempos novos, numa dimensão talvez nem sempre agora (imerecidamente) conhecida e avaliável, quando não até conveniente e tacitamente esquecida…

– E todavia, desde esse (ainda nosso) meio século passado até à nossa contemporaneidade (que é também parte dele ainda…) – apesar da contínua mudança dos tempos, das vontades, das gerações, das realidades da Cidade e das configurações mentais, discursivas e axiológicas dos Homens e Mulheres dos Açores, do País e do Mundo –, muitos são os problemas, carências, atrasos, desânimos e falhanços de que identicamente padecemos (e somos!) nos dias que correm, parecendo antes, ou sempre ciclicamente, amiúde condenados aos mesmos, opressores e injustos valores e padrões de vida, como se nada tivéssemos aprendido com a História, ou falhado, sem Esperança nem Coragem, o encontro com ela e connosco mesmos!

11 de Abril de 2013
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Publicado em RTP-Açores:
Azores Digital:
“Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 13.04.2013),
e “Diário dos Açores” (14.04.2013).




quarta-feira, abril 10, 2013


Cuidados Continuados Integrados
e Política de Saúde nos Açores



“Diário Insular” (DI) – É sabido que coordenou e executou, para o Governo Regional, um Projecto de Investigação sobre a Rede de Cuidados Integrados (RCCI) na Região. Confirma a elaboração desse Projecto e do respectivo Relatório?

Eduardo Ferraz da Rosa (EFR) – Sim, confirmo a realização desse Estudo (que envolveu praticamente, na primeira parte concretizada, todas as entidades e instituições públicas e particulares directa e/ou indirectamente ligadas à Saúde e à Assistência Social na ilha Terceira, para além de responsáveis institucionais e agentes, actores socioprofissionais, técnicos e especialistas nessas áreas, e ainda responsáveis pelas Autarquias e outros Parceiros Sociais).

Esse exaustivo (e empenhativo!) trabalho decorreu durante o ano de 2012, a pedido diligente e esforçado do então secretário da Saúde [Miguel Correia], tendo as respectivas Conclusões e Propostas sido entregues, já ao novel detentor do lugar [Luís Cabral], em Dezembro último…

– Porém, esse mesmo Relatório, por minha iniciativa, foi também entregue ao Presidente [Vasco Cordeiro] e ao Vice-Presidente [Sérgio Ávila] do Governo dos Açores!




DI – Quais os âmbitos, conteúdos, Conclusões e Propostas desse Estudo?

­EFR – O objecto do Estudo foi o levantamento e avaliação da Rede de Cuidados Continuados Integrados na Região Autónoma dos Açores, tendo-se procedido à caracterização actual e às perspectivas de operacionalização subsequente e possível.

– O projecto, como referi, tomou a Terceira como primeira amostra científica ou modelo sociológico para investigação ou estudo de caso e de campo.

As Conclusões e Propostas, que foram deontológica e naturalmente entregues a título reservado, como documento interno para reflexão e tradução prática (espero eu…) –, não sendo propriamente confidenciais, decorrem todavia de delineamentos programáticos assentes, dos depoimentos e testemunhos pessoais e/ou dos memorandos sectoriais facultados pelos múltiplos participantes e colaboradores ouvidos, sendo porém que muitas das estruturas e bloqueios analisados são do domínio e do conhecimento públicos, embora eventualmente de modo menos tematizado, formal e sistemático…




 – Contudo e assim, esses são problemas, situações e factos bem perceptíveis (alguns até já denunciados!) pela sociedade, utentes, doentes, famílias, instituições, OCS e por todo e qualquer profissional dedicado, analista sério, observador atento, estudioso isento e rigoroso, ou político competente, bem formado e responsável!

DI – Como explica a não operacionalização cabal da Rede de CCI nos Açores?

EFR – Essa constatação é verdadeira, sendo todavia que o problema é complexo, tal como a nível nacional e até internacional, porquanto envolve uma diversidade de causas, constrangimentos, inoperâncias, faltas de planeamento, gestão integrada de recursos materiais, técnicos, humanos e logísticos, para além de inadmissíveis lacunas e preguiças conceptuais, protelamentos de decisão e vontade institucional, tudo amiúde aliado a ausências de definição de prioridades e ao esquecimento de valores essenciais para a implementação efectiva e comunitariamente partilhada de uma Política de Saúde e Assistência sustentável e humanizada …




DI – Um seu conhecido trabalho académico anterior [Investigação para um Projecto de Doutoramento no ICBAS/Universidade do Porto], na área das Ciências Biomédicas, tornou-o mais sensível a esta problemática?

EFR – Sim, mais empírica e cientificamente habilitado, e mais ética e filosoficamente crítico…

– E também mais exigente, mais refractário a sofismas partidários e ainda mais fiel aos valores de uma política alternativa, humanista e socialmente justa!
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(*) Texto revisto da Entrevista publicada nos jornais “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 10.04.2013) e “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 11.04.2013).
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Publicado em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 10.04.2013);
Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 11.04.2013);
RTP-Açores:

e Azores Digital: