domingo, setembro 01, 2013

José Enes ou A Filosofia
como Projecto de Vida

1. Mal sabia eu ao rumar à ilha de Ramon Llull que o meu querido Prof. José Enes deixaria nesse dia a terrena casa do ser, – aquela que na mais profunda raiz da nossa condição existencial tanto configura o sentido contingente, o destino e o estatuto ontológico da “finitude dos limites” do homo viator, como é condição de possibilidade do acesso novíssimo à Porta daquele Futuro Absoluto em cuja Transcendência cremos e confiamos, enquanto na consciência reflexa e nos seus signos – no silêncio matutino da Poesia ou nos verbos e metáforas da Filosofia – expectantemente questionamos se “a aridez deste deserto/chamará pelas fontes”…

Agora – para breve testemunho deste excepcional pensador português, para além do que antes escrevi –, que mais hei-de evocar dos anos em que privei e do muito que académica e cientificamente aprendi, culturalmente trabalhei e partilhei com ele, na Universidade, na sociedade e na fraterna intimidade da Família?

– Na impossibilidade de o dizer aqui de outro ampliado modo, como ele o merecerá sempre, saudosamente relembro hoje a lucidez orientadora das suas palavras generosas, os gestos paternais, a luminosidade inspiradora do pensamento vivo, a brilhante recriação hermenêutica das linguagens, a firmeza ética do carácter pessoal e institucional, – todos na exemplaridade cônscia do seu espírito filosófico, do seu universal saber integrado e da sua inquieta e inconsútil alma açoriana.




2. Passam agora mais de 20 anos sobre a justíssima Homenagem que a Câmara de Ponta Delgada prestou ao Prof. José Enes, concedendo-lhe então (1992) o merecido estatuto de Cidadão Honorário daquela maior cidade dos Açores – louvável iniciativa que aliás viria a ser seguida, em 1999, pelas Lajes do Pico (em cujo concelho, na freguesia da Silveira, o homenageado nascera a 18.08.1924) – e dando depois, em 2005, o nome daquele verdadeiro fundador, primeiro e Magnífico Reitor da nossa Universidade a uma das novas praças da zona “Urbe Oceanus” do município, sendo sua presidente Berta Cabral, – entidades autárquicas açorianas que assim figuram entre todas as que reconhecida e publicamente o louvaram em vida.

Por outro lado e a par ainda daqueles justos agraciamentos, recordo os do Corpo Nacional de Escutas (que lhe atribuiu, em 1958, a Medalha de Ouro de Gratidão pela sua liderante introdução do Escutismo Católico no Seminário de Angra); da Universidade de Rhode Island (Doutoramento Honoris Causa, em 1978); da Universidade Aberta (da qual Vice-Reitor e que lhe concedeu a respectiva Medalha de Ouro, em 1994), e – enfim … – da Presidência da República Portuguesa, que o condecorou sucessivamente com os Graus de “Grande Oficial da Ordem do Infante” (1964) e da “Ordem da Instrução Pública” (1983).

Quanto à Universidade dos Açores, saliente-se os louvores académicos que lhe foram prestados em 2005 (sendo Reitor Avelino Meneses), altura em que foi publicado, sob coordenação de José Luís Brandão da Luz, o esmerado e significativo volume Caminhos do Pensamento, Estudos de Homenagem ao Professor José Enes, no qual colaboraram alguns dos estudiosos da sua Obra, e outros discípulos, colegas e amigos nossos.

3. Hoje, estando a decorrer exactamente um mês sobre a data do falecimento (1 de Agosto) daquele que foi uma das mais distintas personalidades intelectuais, literárias, institucionais, académicas, sociais, culturais e espirituais da sociedade açoriana da segunda metade do Século XX, e não tendo eu podido deixar antes o solicitado e devido testemunho sobre a Vida e Obra do Prof. José Enes, a quando e a propósito daquela triste ocorrência, aqui ficam então agora estas palavras, intencionalmente retomando para tal e quase na íntegra também o texto mesmo de uma anterior e já distante evocação de há 20 anos, porém relido e novamente subscrito o seu conteúdo à luz das presentes circunstâncias e na planeada sequência daquilo que, semanas atrás, nestas colunas vinha abordando sobre algumas das mais relevantes dinâmicas societárias da vida dos Açores, onde José Enes desempenhou um papel absolutamente ímpar e talvez insuperável!

De resto e para além do mais, estas notas não podem esquecer – mas todavia ressalvam a preceito da respeitável efeméride actual – muito daquilo que, por entre ventos e marés, foi tantas vezes invejosa ou despeitadamente movido ao Prof. José Enes – intolerantes dissensões doutrinárias e ideológicas, incompreensões e tentativas de incendiários libelos (recordáveis por entre machadadas obscuras…), venenos à falsa fé ou a coberto de seráficas e invertebradas letras e tretas, etc. –, todos a modos de ignóbeis, rasteiros e quase expatriantes golpázios, apenas para escusado e interesseiro conluio ou tentativa frustrada de silenciamento pessoal e político-institucional por parte de tantos daqueles que, agora, deixam cair no proscénio do cinismo nacional, regional e local a hipócrita lágrima da mais repugnante compunção póstuma sobre os seus inegáveis e aproveitados legados, fundamentados projectos ou indicativas utopias concretas…

4. Assistente que fui do Prof. José Enes, durante anos, na Universidade dos Açores (na leccionação das Cadeiras de Ontologia e Axiologia e Ética); orientado por ele para Provas de Aptidão Pedagógica e Capacidade Científica; companheiro e acompanhante de prospectivos trabalhos no seu tão empenhativo CERIE (Centro de Estudos de Relações Internacionais e Estratégia); privilegiado merecedor da sua generosa, paternal e fraterna Amizade, daquela espécie de íntima e sapiente tutoria filosófica e humana do seu profundo e complexo saber comprometido, e da sua densa e partilhada experiência de vida, – é-me difícil dar, em poucas linhas, depoimento adequado à estatura do Filósofo de À Porta do Ser (1969), Linguagem e Ser (1983) e Noeticidade e Ontologia (1999); do Crítico e Ensaísta de Estudos e Ensaios (1982) e Autonomia da Arte (1965); do Poeta de Água do Mar e do Céu; do sistemático estudioso, teórico comprometido e prático militante da dominância das origens da Açorianidade e na Autonomia, para já nem falar nas suas propedêuticas teoréticas e reflexões exegéticas nas esferas da Teologia, Fenomenologia da Religião, Poética Literária (Roberto Mesquita, Pessoa e Nemésio), Sociologia, Filosofia da Ciência, História da Cultura e Filosofia Social e Política.

– De resto, tanto na Educação e no Ensino diocesanos e no Magistério Universitário (Universidade Católica, Universidade dos Açores e Universidade Aberta), quanto através de Conferências, Traduções e Investigações filosóficas e multidisciplinares, sempre José Enes ocupou e ocupará lugar cimeiro na inteligência da Cultura e da Identidade portuguesas, nomeadamente no particular horizonte temático de um original e inovador jeito de Pensar, perspectivado a partir de problematizáveis primórdios e prosseguimentos escolásticos e tomistas (Aristóteles, Tomás de Aquino, Pedro da Fonseca, Suárez, António Cordeiro, Hoenen…), mas depois logo, como identicamente detectou Gustavo de Fraga, num “diálogo filosófico de que ficarão resultados e vestígios seguros na nossa linguagem filosófica e literária”, mormente no confronto crítico, categorial e discursivo, com Heidegger, Kant, Descartes, Hegel e Ricoeur.


5. Figura cimeira, liderante e referencial de uma geração de Açorianos ilustres e empenhados na nossa comunidade insular e autonómica, e na nossa comunidade de destino, pátria e civilização, a ele se deve, a par do imenso labor da reflexão intelectual, uma esforçada e multímoda acção prática, ambas conseguidas no contexto possível das diferentes e mutáveis circunstâncias orgânicas e das conjunturas históricas e mentais do tempo em que viveu…

E assim aconteceu ainda, como já aqui salientei anteriormente, no âmbito pioneiro das Semanas de Estudos dos Açores, nos círculos e centros pedagógicos e associativos diocesanos da renovação conciliar e socio-espiritual Católica (Cursos de Cristandade, especialmente), no Suplementarismo Cultural (“A União”), na produção e no movimento editorial e artístico nacional e dos Institutos Culturais dos Açores, etc., aonde a contribuição de José Enes foi decisiva (e mantém-se contemporaneamente válida!) para aquilo que ele próprio definiu e sintetizou como sendo a elaboração do pensamento da nossa sociedade.

– Ora todo esse projecto comunitário e institucional, simultaneamente teórico, técnico e prático, também foi, é e deve continuar a ser, uma procura de formulação explícita e sistemática da experiência histórica de sociedade açoriana, com vista à sua integral evolução e ao seu desenvolvimento cultural, científico e educativo, socioeconómico, político-administrativo e espiritual!

Porém, mais do que a minha discursividade valerá ouvir a sua, na formulação da intencionalidade precisiva das dinâmicas e das virtualidades de um saber integrado e de uma prática lúcida, para fundamentação segura e competente efectivação de tudo aquilo que neste domínio pode e deve emancipadoramente ser esperado:

– “No processo histórico as decisões são tomadas mediante a interpretação das potencialidades que estabelecem o fluxo causativo dos acontecimentos. O devir do acontecer histórico é formalmente constituído pelo discurso da razão hermenêutica e pelo discurso da razão prática. E são as razões fundamentantes da razão hermenêutica e as razões motivantes da razão prática que formam e dão consistência àquilo a que se costuma chamar o destino de uma sociedade ou a sua vocação histórica, ou o seu papel na história, entendidas, é claro, estas expressões como denotativas de entidades formalmente históricas.

“Ao longo do seu percurso histórico e sob o aguilhão dos obstáculos e dos percalços, vão-se aquelas razões armando com as categorias e os argumentos dos seus respectivos discursos.
“E à medida que o nível cultural da sociedade sobe e que no seu seio surgem homens dotados de alto poder de cerebração, aqueles conceitos e raciocínios se vão explicitamente formalizando e tendendo para a recíproca integração num sistema. Assim se vai formando aquilo a que se dá o nome de pensamento de uma sociedade. Isto é: o pensamento da sociedade sobre si mesma e que ela forma através da sua experiência histórica”.

E concluía o Prof. José Enes no texto que venho tendo em atenção:

“Parafraseando [Unamuno] nós poderemos chamar aos Açores o miradoiro atlântico da nossa visão de Portugal. Por força da em nós vigente transcendentalidade da proto-história dos Açores, para usar a expressão nemesiana, a nossa perspectiva atlântica é de facto essencial para a descoberta dos vectores mais autênticos da historicidade portuguesa”.

E também assim, por tudo e para tudo isto, é que toda a Obra de José Enes representa um legado precioso e será sempre um factor de enriquecimento e um ponto de luminosa referência na construção e na ultrapassagem históricas da consciência e da auto-consciência dos Açores, perante todos os desafios, impasses ou retrocessos do presente ou do futuro… Mas para tal é necessário conhecê-la, estudá-la, divulgá-la e pensar com ela, para – na medida do possível (face a tantas das condicionantes e indigências actuais a que estamos amarrados…) – levá-la à vantajosa e crítica frutificação real, renovada e sistemática!

– Será essa certamente a melhor homenagem que o País, os Açores e os Açorianos de boa e racional vontade lhe poderão gratamente vir a prestar, respeitando a sua memória e partilhando a força meditativa e crítica do seu espírito, quando ele já não está – apenas ao (a)parecer fenoménico, digo, como não sendo do mesmo modo, isto é, ontológica e existencialmente configurado como dantes – agora, ainda vivo e presente, entre nós…

Angra do Heroísmo, 1 de Setembro de 2013
_________________

Em Jornal "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 01.09.2013).
Versão parcial em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 01.09.2013).
Um extracto deste texto (§ 1) foi também publicado no Suplemento de Homenagem ao Prof. José Enes, publicado pelo Jornal "Correio dos Açores" (Ponta Delgada, 01.09.2013), com o título A Exemplaridade do Espírito.

sábado, agosto 31, 2013

Os Idiomas e as Labaredas

Denominada “silly season”, esta época é assim chamada para adjectivar o Verão e os seus ritmos calmosos, como se existências activas e consciências despertas ficassem tolhidas por sonolências lentas ou abúlicas, com perda de noção das realidades e alienação de problemas quotidianos.


– Porém, nesta altura em que muitos procuram usufruir de retemperante e merecido descanso, aquela denominação é sobretudo usada na gíria social e jornalística para designar uma quadra em que nada de importante e decisivo supostamente se mostraria, ou aparenta (não) acontecer, enquanto a classe política (capital actora da dita silliness, idiotia ou folly, quando não crónica loucura…) vai a banhos ou vem de vilegiaturas desopilantes, até ao inescapável regresso àquela prudente queda na real (que dá pelo teatral nome de “rentrée”).



Ora neste final de Agosto, com o País ardendo e queimando vidas e bens, por cá (onde fica, accionável a todo o momento, a Base das Lajes…) – para não falarmos já das frenéticas ideias, peregrinas mensagens e belas declarações de intenção autárquica (das quais os discursos e cartazes vão ficando já recheados e as labaredas do inferno estão sempre cheias…) –, aquilo a que de mais dramático vamos assistindo – não tanto de palanque (como nas nossas remansosas touradas) quanto possivelmente a caminho de mundialmente tornarmos o orbitar aquele olho do furacão muito bem analisado no Editorial do jornal terceirense “Diário Insular” de 30 de Agosto – é o que sobre a Síria cresce a todo o segundo, por entre desencontradas e contraditórias versões diplomáticas e estratégicas, enquanto se aguarda o resultado das investigações da ONU e crescem contestações e reservas relativamente às inclinações, ditas “punitivas” do regime totalitário de Assad, pelos teleguiados drones, mísseis e aviões dos EUA e da França, conquanto ambos vacilantes (ou retardatários…) e em impasse (isolamento…) acelerado face ao recuo britânico, às demarcações árabes, russas e iranianas, às cautelas israelitas e às incertezas e riscos globais de tal campanha militar!


– Por tudo isso é que convém permanecermos atentos e críticos, por entre todos os idiomas alheios e as labaredas próprias deste final de Verão que não augura nada de bom…
__________________
Em Azores Digital:
Jornal “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 31.08.2013);
RTP-Açores:
http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?headline=14&visual=10
e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 03.09.2013).



sexta-feira, julho 26, 2013


As manchetes de Machete


O desenlace (ou sua continuação, por meios alternativos…) do real ou simulado conluio (conúbio ou tácito acordo prático e de princípios, pressupostos ideológicos, afinidades programáticas e sintonias jurídico-institucionais) do rocambolesco episódio irresponsavelmente gerado no próprio seio do governo PSD/CDS-PP, entre outros efeitos quase inesperados, conquanto mais ou menos previsíveis – se é que não até sub-repticiamente induzidos com cálculo preciso, naquilo e da forma como se constatou –, conduziu agora à sintomática, última e significativa remodelação do executivo da coligação no poder em Portugal.



– E foi assim que tal remexida político-partidária (muito para consumo e tentativa de apaziguamento internos) acabou levada (qual “farinha Amparo”…) das mós da Lapa e do Caldas até Belém, onde acabou vendida e distribuída para todo um atónito País (sob a forma de apadrinhados pastéis de Belém…), e desde o Largo do Rato (onde coabitam Seguros e Pintos de Sousa a mútuo prazo) até às nossas baías insulares (onde desembarcaram e ainda pululam as mais desvairadas gentes)!

Todavia, de entre todos os nomes recém ministriados, o que maior manchete tornou a granjear foi certamente o de Rui Machete (Negócios Estrangeiros), o todo poderoso e controverso ex-senhor da FLAD, de quem os norte-americanos, há dois ou três anos apenas, diziam do piorio que imaginar se vira – conforme ainda se consegue (re)ler aqui,
para já nem recontar o que Vamberto Freitas recordou dos seus tempos de correspondente do DN na Califórnia…


– Mas seja como for, de todos os ministros e secretários de Estado de Lisboa, não há dúvida que Rui Machete, a par dos das Finanças e da Defesa (onde permanece Berta Cabral), há-de certamente merecer dos Açores uma dialogada atenção (e uma redobrada vigilância…), ou não se cruzassem nos seus corredores nacionais e gabinetes internacionais muitas das pistas, créditos, descréditos, rotas estratégicas e diplomáticas que sobre as nossas Lajes se cruzam e descruzam!
_________________

sexta-feira, julho 19, 2013

As Filosofias de V. Gaspar



Numa muito significativa Entrevista concedida no passado mês de Abril ao programa “Sociedade das Nações” (transmitido e conduzido na SIC pelo politólogo Nuno Rogeiro e pelo jornalista Martim Cabral), Vítor Gaspar – antigo ministro das Finanças do já então periclitante governo do PSD/CDS-PP (e dos ainda actuais líderes daqueles partidos, Passos Coelho e Paulo Portas) – desenvolveu todo um notável e pouco vulgar (conquanto não totalmente surpreendente…) discurso técnico, político-económico, cultural e pontualmente filosófico, cujos vários conteúdos argumentativos (mais ou menos retóricos…), conquanto incidindo em especial sobre Economia (especialidade académica, área profissional e pelouro da sua entretanto demitida governança), em muito ultrapassaram os cingidos horizontes daquela ciência social e também o vulgar arrazoado (lugares comuns, frases feitas e chavões) da gíria quotidianamente papagueada nos espaços públicos (nacionais, regionais e locais!), sem real domínio da matéria falada, pela maior parte da baixa classe político-partidária que vem conduzindo o nosso País, há décadas, para ruínas de soberania e dívidas soberanas, ambas historicamente suicidárias e de dramático sacrifício para as futuras gerações!

– Todavia e para além do mais, aquele diálogo televisivo constituiu excelente documentário sobre o entendimento e as estratégias teórico-práticas que V. Gaspar liderava e vinha fazendo assumir pela coligação de centro-direita no poder, embora, pelos vistos e pelo menos parcialmente, nem ele tenha hoje as mesmas ideias, certezas ou esperanças sobre as ditas e conjugadas crises europeias e nacionais; sobre o corrente (e não sabemos até quando, nem em que moldes, vigente) programa de assistência financeira e de tutela político-económica ao nosso País, e – enfim – sobre as perspectivas de austeridade e consolidação orçamental que Portugal e os restantes Estados da zona euro enfrentam a curto, médio e longo prazo…

E é assim que, tanto apesar de, como, precisamente, por essa mesma qualidade, aquele testemunho do ex-ministro das Finanças continua a merecer ser visto e muito mais detalhadamente analisado do que surpreendentemente o (não) foi em nenhum órgão da lusa praça e dos seus estafados, oficiais ou oficiosos lugares de “comentário”…, – desde as inefáveis congeminações palpitantes (supostamente sempre doutas, argutas e objectivas!) do prof. Marcelo, às expeditas previsões/anúncios premonitórios de M. Mendes, ou à desfaçatez canalizada do reencenado poiso do J. Sócrates (com as suas respectivas, ressabiadas ou serôdias refutações, obscuros ressentimentos e desmemoriados arroubos tácticos “socialistas”, dos quais, aliás, um PS minado e reincidente foi, é, e tornará a ser primeira vítima culpada)!

– Mas seja como for, verdade é que aquele debate é mesmo digno de ser visionado por todos e por tudo o que revela, oculta ou dissimula daquilo que, à oscilante beira do embuste ou da patética e improvisada (des)informação, não há muito, se tentou fazer circular por entre moedas verdadeiras e patacos falsos!

Porém, se quanto ao (in)sucesso autoconfessado da política económica e social do governo – que naquele ministro teve um dos seus mais plenipotenciários e cimeiros oficiantes encartados – estaremos entendidos, restar-nos-ia ainda curiosamente rever as sintomáticas declarações e cruzadas cartilhas – imagine-se! – da teoria económica e financeira (Michael Mussa, Walter Bagehof e Nouriel Roubini…), da familiar (?) literatura filosófica (Habermas e Foucault…) e da música barroca (a ópera Ariodante, de Haendel…), – (todas) citadas e com as quais o nosso intelectual ministro demissionário tanto fidedignamente confessou amiúde conviver…, pesem evidentemente os lapsos ou imprecisões (como aquela, por ele inventada, história de um suposto “debate” em Berkeley – que de facto nunca chegou sequer a existir… – entre os autores de O Discurso Filosófico da Modernidade e de O Governo de Si e dos Outros, para além, segundo esteve também apenas previsto, de Charles Taylor, Rorty, H. Dreyfus e Paul Rabinow, em 1984, ano da própria morte de Foucault...)!

– Contudo e mesmo assim, por entre pistas e despistes que à nossa volta se teceu e entretecem de novo, talvez que com isso compreendamos melhor a agenda perdida, aleijada e alijada de V. Gaspar, farto e desencantado das alegadas omissões e tergiversações do meio caudilho que hoje é Passos Coelho (para demérito do saudoso partido de Sá Carneiro), e do outro, esse pequeno dândi feirante que é Portas (politicamente travestido e empolado no que lhe falta de credibilidade até para réplica menor de um passional e ambicioso condottieri…), deslustrado ou mal disfarçado embaraço que se tornou ele próprio para um atordoado e amordaçado CDS (que já foi de Adelino Amaro da Costa e Adriano Moreira…)!
_____________
Publicado em Azores Digital:

sábado, julho 13, 2013


A Consciência da Filosofia


Publicado pela Objectiva Editora, o livro Olá, Consciência! (da autoria de Mendo Castro Henriques e Nazaré Barros) acaba de marcar presença em mais um dos assinaláveis Encontros do Conhecimento promovidos pelo fórum Sociedade Aberta e que decorrem semanalmente no edifício do “Diário de Notícias”, em Lisboa.

Esta notável, muito singular e sugestiva obra filosófica – lançada em Março (com apresentação por José Tolentino de Mendonça) e que será também editada no Brasil em Agosto –, tem vindo entretanto a ser analisada e apreciada em diversas sessões, tertúlias e programas culturais (nomeadamente na Rádio, conforme aqui anteriormente tive oportunidade de registar, devendo porém ainda tornar a ser debatida por relação às problemáticas da Ética, nos próximos dias 16 e 23 de Julho, na continuação dos programados âmbitos temáticos dos referidos Encontros).

– Mendo Henriques é professor universitário, licenciado e mestre em Filosofia pela Universidade de Lisboa e doutorado em Filosofia Política pela Universidade Católica Portuguesa (UCP). Tem 12 títulos publicados em Portugal, Brasil e França sobre Pessoa, Voegelin, Lonergan, Filosofia da Consciência e obras em conjunto sobre temas de Cidadania e História.

Nazaré Barros, professora do ensino secundário, licenciada em Filosofia na UCP e mestre em Administração e Organização Escolar pela Faculdade de Ciências de Lisboa, é autora de manuais escolares e obras de iniciação a Antero de Quental, Kant, Locke, Descartes, Platão, S. Anselmo e S. Agostinho, tendo-se dedicado ainda a temas de violência e vida escolar.

Olá, Consciência! – cuja atractiva actualização mediática está articuladamente assegurada em www.olaconsciencia.com e na respectiva Página do Facebook – é uma espécie de passeio reflexivo, exercício de atenção e viagem iniciática pela Filosofia – como dizem os seus autores, “lembrando os caminhos viáveis e os impasses, as cooperações e os conflitos” seus e nossos –, através de uma bem estruturada e excepcional narrativa propedêutica, sob a forma de uma sucinta mas muito sugestiva e comunicativa exposição em sequenciada abordagem histórico-crítica dos núcleos, áreas (Epistemologia, Lógica, Política, Antropologia, Ontologia, Ética e Gnoseologia), configurações linguagens, imaginários, analogias e hermenêuticas das principais filosofias específicas da nossa Tradição Ocidental e dos seus referenciais momentos, pensadores, respectivos discursos e categorias.

– Desde a precisiva caracterização da mais originante atitude, gesto ou olhar do assomo interrogativo humano que move o apetite inquiridor e o querer compreender, até ao seu universal, natural e possível regresso reflexivo “em todos os que se interrogam sobre as grandes e as pequenas questões da existência” […], “por entre as crises que abalam […] até aos alicerces, ao ponto de darmos por incerto o que antes se nos afigurava como dogma” – explicam Mendo Henriques e Nazaré Barros –, “há urgência em levantar as grandes questões sem as quais a filosofia não valeria a pena. E, porque somos capazes de interrogar, dizemos Olá, Consciência!”.

De resto, professores de Filosofia – com larga e rica experiência de docência, investigação, tradução, ensaio, comentário escolar, mas também de genuína assimilação e criação de pensamento pessoal –, os autores desta bela e a todos os títulos absolutamente recomendável obra (para todos os públicos e cidadãos da Cidade aonde ou todos crescemos, ou todos definhamos…) expressam clara e distintamente o método, o fim e os meios aqui seguidos de modo generoso, existencialmente apelativo e eticamente exigente, como não poderia deixar de ser, assim:

– “A fim de que a filosofia não seja um exclusivo de prateleiras de bibliotecas, seguimos um caminho diferente das habituais introduções à filosofia. Em vez de apenas explicarmos conceitos filosóficos ou apresentarmos uma galeria de autores, procurámos partir das nossas experiências quotidianas e mostrar como elas fazem mais sentido com os conceitos filosóficos. No início de cada capítulo, o leitor encontrará narrativas muito variadas, como variada é a nossa existência. Através de episódios quotidianos, tais como uma festa, um encontro no aeroporto, a leitura de um livro, uma ida ao cinema, a audição de um concerto, uma urgência hospitalar, ou outros casos, o leitor é iniciado nos caminhos filosóficos trilhados pelos grandes autores”...

Olá, Consciência! é – enfim – um livro profundamente original, ímpar em Língua Portuguesa e em trabalho de linguagem reflexiva e rigor conceptual, sendo único no seu género, mesmo tendo em vista muita da produção filosófica, científica e didáctica conhecida ou intencionalmente mais ou menos afim, – como aquelas de Bochenski, Caratini, Martin Gardner, Jaspers, Brendan Purcell, Rickmann ou Bertrand Russell (que os autores declaradamente, e bem, consideraram), ou as, conquanto diferentes, de Jostein Gaarder ou Fynn, mas também outras ainda, que, em moldes e horizontes diferenciados, fizeram, ou fazem, lista estreita ou grossa nas bibliografias, cânones, leituras e literaturas de fraca qualidade e precário, duvidoso ou nulo rigor, indigesta doutrinação, (des)motivação e alcances futuros, porém sendo amiúde aquelas preferente e programaticamente seleccionadas, antologizadas e, por demasiadas vezes, até as mais oficialmente recomendadas, quando não até curricular ou – por demasiadas vezes – ideologicamente dadas por obrigatórias e impostas, em tantas das preconceituosas, unidimensionais ou banais escolas nacionais e regionais do Continente e Ilhas adjacentes…

– E isto, como escrevem Mendo Henriques e Nazaré Barros, porque a Filosofia “é de todos os que ousam pensar por si próprios”, e porque “quem entra na filosofia corre o risco de se tornar um dissidente. Dissidente na sua própria terra, dissidente do poder instituído, da opinião comumente aceite, dos êxitos mundanos, do mundo dos negócios, do prestígio social. Dissidente da vida vulgar, do senso comum, da moda, das banalidades e das brutalidades da vida quotidiana. Dissidente do pensamento único, de tudo o que é aceite passivamente, da norma, do politicamente correto, do instituído, do consensual, do tradicional. Dissidente do poder e do snobismo das criaturas de sucesso que procuram as luzes da ribalta para expor as suas vaidades. Dissidente da passividade dos media, do comodismo fácil das opiniões aceites, da normalidade superficial dos dias, das vozes cómodas, pacíficas e conformistas”…

Todavia, esta obra – apesar de alguns (in)compreensíveis silêncios que à sua volta, esquivos ou preguiçosos, ainda persistem …–, há-de certamente vir a conquistar merecido reconhecimento e grato lugar para Pensamento cônscio e Acção libertadora, junto de quem quiser e souber pensar, e daí mais e melhor puder agir, nestes tempos de indigência e obnubilação de tantas consciências espirituais, históricas, sociais e políticas!
______________________
Em Azores Digital:
RTP-Açores:
e Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 14.07.2013).
Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 13.07.2013).



sexta-feira, julho 05, 2013

Um País e um Povo Reféns



Ao longo da sua multissecular existência, Portugal e os Portugueses tem sido reféns de toda uma série de factores condicionantes, acontecimentos, acções individuais e outras determinantes humanas, histórico-políticas, geo-económicas e mentais que sempre lhes moldaram a identidade, os rumos societários e as próprias figuras, valores e modelos com os quais a mesma viabilidade do País e o carácter da sua Grei se foram cimentando, construindo, desconstruindo e reconstruindo ao longo dos tempos e das gerações.

– De resto, assim também aconteceu evolutivamente em quase todos os actuais Estados, Nações e Regiões do Mundo, desde os mais primitivos agrupamentos gregários, tribos ou hordas, até às mais juridicamente consolidadas comunidades vigentes, sejam elas pré ou pós-modernas, hegemónicas, dependentes, falhadas ou insularmente párias…

Por outro lado, a partir de pressupostos filosóficos, doutrinais, ideológicos e até poéticos (alguns deles pouco racionais ou racionalizados, míticos, oníricos ou somente retóricos…), esta fundamental questão da identidade nacional, do direito (enquanto granjeado mérito…) à independência, e até da própria legitimidade histórico-cultural e civilizacional de Portugal como Pátria e País soberano – ou apenas, que fosse ou seja, realmente autónomo… –, tem constituído um daqueles motivos mais angustiada e recorrentemente pulsáteis (diga-se, mais precisa e exactamente aqui, intrincados em e como pulsão) na consciência nacional lusíada, ao menos tal como ela ocasionalmente (porém sempre obsessivamente!) tem aflorado à auto-consciência crítica, à inteligência reflexiva, ao discurso tematizador e à sensibilidade estética ou ficcionalmente representativa dos nossos maiores pensadores, poetas e artistas, conquanto, igualmente, às vezes (mas bem mais amiúde, infelizmente, como por estes vertiginosos dias todos os Portugueses puderam constatar…), pela negativa, na primária, esquizofrénica, irresponsável, incompetente, leviana e objectivamente criminosa actuação dos malfadados principais actores institucionais que temos, com os seus abjectos próceres político-partidários, em cujas comuns, enlameadas e irmanadas mãos e cegas mentes todo um desgraçado Povo, falido, hipotecado (a termo incerto e em cada vez mais longínquo horizonte), e descrente, agoniza, noite após dia, naquele fatídico domínio do poder e do “gosto da cobiça e […] rudeza/ duma austera, apagada e vil tristeza”, com que sucessivas vagas de canalha como “gente surda e endurecida”, sem vergonha e impunemente, enganaram e querem persistir em ludibriar toda a esperança de Liberdade e de Justiça.
___________________
Publicado em Azores Digital,
RTP-Açores,
e "Diário dos Açores".
Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 06.07.2013).

sexta-feira, junho 28, 2013


As Pegadas de Raul Brandão


Dentro de doze meses, mais exactamente no dia 8 de Junho de 2014, passam noventa anos sobre o bem documentado primeiro encontro de Vitorino Nemésio com Raul Brandão, conforme o autor de O Corsário das Ilhas evoca com detalhe quando o relembra num escrito de 1931 cujo potencial de significação (e sugestiva reserva de projectos temáticos e práticos!) nunca será demais acentuar novamente…




– Nemésio relembra pois esse episódio, decisivo para o começo de uma amizade fraternal e de uma intuída afinidade existencial para sempre assinaláveis e intimamente marcantes, tanto na sua vida como na sua obra, assim:


“Conheci-o (…) a bordo do San Miguel, da carreira das ilhas, e posso precisar a data porque é a que ele põe às primeiras impressões d’ As Ilhas Desconhecidas, em que fala da ‘agitação tremenda que não cessa’ [da] ‘água em vagalhões cada vez mais cinzentos e maiores, que as velhas de penante e plumas, sentadas de bombordo a estibordo e que se atrevem com o oceano Atlântico, fazem o possível por amesquinhar’. Estou a vê-lo. Esgrouviado e grave, – grave de força interior, – debruçava-se a meu lado na amurada do paquete (…).



“Em toda a viagem desenvolvi uma espionagem convicta em torno do seu vulto pernalta, descoberto à popa para melhor se impregnar da largura salina e do vento, e desci com ele, o comandante Rio e o Mestre Miguel às fornalhas (…).

“Mas, depois da chegada à Terceira, não tornei a vê-lo nas ilhas. Conseguira arrancar-lhe a promessa de uma visita demorada ao meu casinhoto de Santo António, sobranceiro ao Porto Martins (…). Não pôde ir”.



Ora sendo conhecido – conquanto ainda não suficientemente estudado e alargado – todo o possível horizonte, literário, histórico, estético e filosófico do notável autor de, entre outros, Os Pescadores, Os Pobres, Húmus e Impressões e Paisagens, nomeadamente no que diz respeito aos Açores, merecem para já referência e relevo três concretizadas e meritórias iniciativas recentes sobre o universo da produção escrita e de outras correlativas visões, percepções ou traduções representativas do fascinante imaginário brandoniano:

– Refiro-me à bela reedição (DRC) de As Ilhas Desconhecidas: Notas e Paisagens (com ilustrações de Jorge Barros), à patente Exposição Fotográfica do mesmo conceituado Fotógrafo, e à edição (Quetzal), minuciosamente organizada por Vasco Rosa, de A pedra ainda espera dar flor, excepcional recolha de Textos Dispersos (1891-1930) de Raul Brandão.



Retornarei no futuro e mais uma vez a estes temas, mas para hoje e aqui ficam já sinalizadas estas proposta sobre uma obra literária e um olhar existencial ímpares na Cultura Portuguesa, nomeadamente naquilo que integram de acrescida incidência insular açoriana, incarnando e desenhando afinal, como de Pascoaes o próprio Brandão dizia, todo um tocante, universal e paradigmático livro vivo, telúrico e geo-humano, que “é também um caminho cheio de fantasmas, onde ele deixou impressas as suas pegadas. O chão ficou dorido. Livro profundo como a vida, porque é a mesma vida”…
___________________

Em RTP-Açores:
Azores Digital:
e “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 30.06.2013).
Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 29.06.2013).


quinta-feira, junho 20, 2013


O Silêncio dos Livros



Não fora a ansiosa e passional interrogação de uma colega professora, recém-chegada à ilha, sobre aonde encontrar Livrarias em Angra do Heroísmo (formal cidade Património do Mundo, histórica e proverbialmente dita, ou suposta, passada “capital cultural” dos Açores, quando não apenas provecto areópago intelectual das ilhas “de Baixo”…), e talvez esta Crónica não tivesse o rumo deste sugerido tema para os primeiros dias de Verão, quando toda aquela urbe e suas periferias fervilham já nas tradicionais e arreigadas galas das suas frenéticas ondas e sonhados luares de emoções festivas, – mais ou menos efémeras umas, menos ou mais imaginários os nobres restos do seu emblemático brasão, para real ou somente retórico ofício e dever de identidades narrativas ou icónicas…

Todavia, nesta quadra estival, indiferenciada e recorrentemente sentida como mais propícia a parentéticas e poéticas rêveries – ou como velha e modorrenta “estação calmosa”, por entre depressivas crises, (des)compensatórias idas ou vindas a banhos e praias, festivais, touradas e tasquinhas, pontuais mobilidades, roteiros e rotações de alienadas centralidades inter-ilhas, devaneios de turismo e outras viagens, por aí fora e dentro, longe ou ao pé da porta, a pergunta daquela universitária não deixou de ter logo a possível e primeira bússola com a sinalização da nossa presentemente mais cultivada e informada Livraria angrense (a “In Folio”) – lugar de culto –, como a sua empenhada responsável justamente testemunhava ao DN, e aonde os livros (e alguma Música), em mansa companhia da Branca de Neve, “não são para as elites do dinheiro, daquela com sinais exteriores de riqueza ou tontice, mas para a elite do pensamento, cultura, arte, beleza do espírito humano e da humanidade”!

Depois – distantes e idos os tempos do “Andrade”, dos escassos Alfarrabistas, da Livraria particular de Ferreira dos Santos, da saudosa “Sextante” e da fraternal Papelaria "Académica" de Emílio Ribeiro –, para além dos esparsos escaparates hodiernos e magazinescos dos quiosques, tabacarias e mercados locais –, o desejado percurso habitual de hoje poderia fazer-se ainda por esses outros sítios que aqui ainda disponibilizam, dando-lhes mostra e montra, variegadas capas e díspares edições: “Loja do Adriano”, “Utilidades”, “Católica”, DRC, Museu e IAC, sem esquecer a apelativa Feira do Livro que este ano a micaelense “Tabacaria Açoriana”, em boa hora, trouxe à circunscrita atenção e ao interesse de uns tantos terceirenses…

– Porém, e se para alguns – residentes e visitantes, iguais leitores por virtude e hábito –, as Sanjoaninas deixassem mesmo intocado o mais genuíno espírito da Leitura incarnado naquela atitude de vida interior que o consagrado autor das Confissões tanto admirava no seu sapiente mestre de Milão, quando o via ler e “os seus olhos esquadrinhavam a página e o seu coração procurava o sentido, mas a sua voz não se movia. Qualquer pessoa podia [então] chegar até ele livremente e as visitas não eram normalmente anunciadas, de forma que, muitas vezes (…), encontrávamo-lo (…) assim, em silêncio”?
________________
Em RTP-Açores:
Azores Digital:
“Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 22.06.2013),
e “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 23.06.2013).

quinta-feira, junho 13, 2013


A Continência dos Rasos


Muito usada na gíria castrense, mas igualmente vulgarizada na linguagem popular, a expressão soldado raso – ou, às vezes, em pouco mais graduada patente baixa, a quase equivalente nomeação de cabo raso –, poderia servir para sugestivas figurações de um qualquer paradigmático estatuto (voluntário ou involuntário, consciente, subconsciente ou inconsciente) de rebaixamento, despromoção ou recorrente falta de carácter...

– E sem valer a pena entrarmos aqui em cogitações de psicologia das profundidades, não deixaria de ser pertinente levantar até a hipótese de alguns sujeitos que fizeram serviço obrigatório (ou forçado) terem ficado para a vida toda com uma espécie reflexo condicionado, trauma, complexo ou mania de bater continência, baixar cerviz, ajoelhar-se, acocorar-se, pôr-se em sentido (ou noutra pose de subserviente postura e toada…) logo que presentes a reais ou substitutivos superiores (transaccionais objectos mais ou menos totémicos, afinal), chefes, caudilhos, patrões, capatazes, vozes de senhorio, cabecilhas partidários, grão-mestres, veneráveis camaradas ou irmãos de seita religiosa, loja, confraria ou lobby

De resto, idênticos mecanismos psico-comportamentais (institucionalmente situados…) poderiam ainda ser detectados em certos indivíduos fracos, eticamente invertebrados, passionalmente desviantes, problemáticos ou descompensados, tais aqueles que tiveram trajectos marcados por experiências pouco gratificantes naquelas conhecidas e já chamadas instituições sociais totais (v.g. quartéis, seminários, colégios internos, prisões e hospitais, mas também clubes e claques, quadrilhas, partidos e grupos políticos…), especialmente quando os seus percursos e currículos ficaram tingidos por dependências despersonalizantes, atitudes passivas (amiúde ainda bipolares), algumas até mesmo candidatas a foro psico-patológico!

Ora entre nós também temos ultimamente assistido, em tribuna e palco mediáticos, a várias dessas marciais, lacrimejantes ou sáurias (in)continências, muitas das quais, assim, só poderão ser explicadas por mecanismos como os acima descritos…

– Ou não estivessem novamente Eleições à porta de armas, e eles, rasos, amestrados à chibata, trémulos e acobardados, já prontos para bater novamente a pala aos sicários do Poder e aos gestores e ecónomos dos seus vendidos, pobres e ensandecidos espíritos.
______________________
Os Sinais da Escrita:
RTP-Açores:
Azores Digital:
“Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 15.06.2013),

e “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 16.06.2013).

sábado, junho 08, 2013

As Concussões do PS


Desde há muito tempo a esta data que nenhuma actuação política do PS-Açores tinha talvez vindo a causar tão grande perturbação (interna e externa) e tão justificada e significativa contestação em crescendo (conquanto às vezes desesperada ou apenas cínica, hipócrita ou atabalhoadamente dissimuladas…), quanto aquelas que se tem vindo a verificar a propósito do famigerado e já tão afamado documento governamental “socialista” contendo as alegadamente suas propostas para a “reestruturação” do Serviço Regional de Saúde…

– Por outro lado, como é já notório aos olhos de todos – conquanto reste ainda fazer a tal silabário da actual política de Saúde parte da necessária, mais alargada, sistemática e co-ordenada dissecação ao vivo, ou da respectiva autópsia (em vários anfiteatros e auditórios montados ou a montar para o efeito…), conforme os tempos e termos de vida ou sobrevida acatados, ou apenas tacticamente adoptados, pelos diferentes sujeitos da consulta, análise e debate públicos a decorrer sobre o mesmo controverso objecto –, a verdade é que não será já possível nem ao Governo nem ao PS consumarem todo o rol de inconsequentes e imprevidentes medidas que constam de tão mal amanhado projecto!

De resto, agora, quando de todos os quadrantes político-partidários, sociais e socioprofissionais, institucionais e político-administrativos (aí incluídos, e insuspeitados de cisânia oposicionista, muitos e muito altamente responsáveis membros e representantes do próprio PS no Parlamento e nas Autarquias), e atingindo aquela perturbação e contestação, como atingiram já, o nível e alargamento que hoje consensualmente incorporam, o que se aguarda para amanhã é uma prudente e rápida demarcação, ou recuo imediato do próprio Governo, a começar pelo seu presidente e vice-presidente, face a tão comprometedor fiasco político-programático regional!

– Digo que isso é o que se espera, porém dessa possibilidade certeza alguma existe, tal o grau de concussão sofrido no corpo enquistado de um PS sem liderança à altura (ao menos) do seu passado recente… 
____________________
Azores Digital:
“Diário Insular” (Angra do Heroísmo,08.06.2013),
e “Diário dos Açores” (09.06.2013).

sábado, junho 01, 2013


A DOENÇA DOS MÉTODOS


Todo o estudante (ou professor), ao menos de grau ou nível secundário, e por muito pouca preparação e domínio que tenha de certas matérias a aprender (ou ensinar) – em qualquer ramo do Saber e da Ciência, mormente na Filosofia (v.g. na Lógica e na Gnoseologia), na Matemática e até no Português (e ao menos aqui para saber formular com fluente coerência o quê e como supostamente as coisas concebidas são transmitidas pela Língua e pelas suas linguagens…) –, deve certamente entender qual a fundamental diferença entre processos e métodos indutivos e hipotético-dedutivos, – tão básica e relevante é essa questão para as problemáticas do conhecimento e da acção, do conhecimento e da verdade…

– E assim também acontece em escalas e esferas próprias (com implicações diferenciadas de ordem teórica e prática!), na região da Política, da Governação, da Participação Democrática e da Cidadania, muito embora a alguns improvisados gestores e pseudo-servidores da causa e das coisas públicas (que não do Bem Comum, porquanto este amiúde lhes escapa ou fica escamoteado…) tais ideais sejam deixados à sua intrínseca, instalada e apadrinhada mediocridade, incompetência, ou – ainda pior – pura e malévola intencionalidade, tecnicamente interesseira, político-ideologicamente manipuladora e eticamente malévola! E não será preciso ir muito longe nem na geografia nem na história para aquilatar das notórias, exemplificáveis e intoleráveis incongruências que vimos aflorando aqui…

De facto, quem encetar a mais benevolente apreciação (leia-se assim, mas com benefício de dúvida já esgotado!) que se queira fazer à Proposta de Reestruturação do Serviço Regional de Saúde – concebido, feito e dito do e pelo PS (ou então por quem, com quem e para quem?) e agora deitado à rua ou à praça da “discussão pública” (quando não ao cubículo encapsulado das suas mutuamente sensíveis, alheadas ou sustentadoras hostes internas…) –, não deixará de interrogar-se sobre a metodologia e responsabilidade efectivamente assumidas nesse projecto documental pelo Governo no seu todo – desde a sua tricéfala presidência às suas mais emblemáticas e promissoras secretarias e direcções regionais… –, na afoita elaboração (quantitativa e qualitativamente balizadas) dessa pretensa nova carta constitucional para o saneamento económico-financeiro (?) e a cura sistémica (político-administrativa, técnico-médica e humana) das mais prementes e pendentes maleitas psicossomáticas e institucionais, – veja-se, por exemplo, o Plano Oncológico Regional, os Cuidados Continuados e os Paliativos, as agendas e anteriores conteúdos programáticos não cumpridos, etc., ou até as violentas (e esquecidas, ou perdoadas?) críticas que, não há muitos anos, um actual secretário impiedosamente fez ao Governo Regional dos Açores de Carlos César (na área da Saúde e da Protecção Civil…).

Ora – e é por isso mesmo –, como se está vendo de novo, que sem – e muito menos contra – os nossos mais sérios interessados, conhecedores e dedicados profissionais, actores, agentes sociais, parceiros e órgãos locais, entidades históricas assistenciais e formativas, instituições e prestadores complementares (sem esquecer os nossos pacientes e suas famílias!), jamais se conseguirá fazer um diagnóstico rigoroso, objectivo, metodologicamente consistente e socialmente justo, para um urgente relançamento sustentado do Serviço Regional de Saúde e para o tratamento e a prevenção de muitas das antigas e novas Doenças dos Açorianos…  
_______________

RTP-Açores:
e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 02.06.2013).
Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 01.06.2013).



quarta-feira, maio 29, 2013


CARTA NOVÍSSIMA
para Daniel de Sá
(1944-2013)


Meu caro Daniel,

1. Estava a contar os dias que faltavam para nos encontrarmos de novo, porém ainda por cá onde tanto demandámos e pensámos os Novíssimos da Ilha, e por entre tantas palavras, sonhos e arroubos, alguns apenas nominalistas, outros escatológicos, visionários ou retóricos como os do nosso amado Padre António Vieira, – quem sabe se ele lá contigo nesta hora, ou tu com ele, fora desta temporalidade, noutro púlpito resistente e perpétuo, ou na Luz do Corpo Místico que ele, apocalíptico, também paradigmaticamente evocou, à beira do Abismo aonde toda a Terra treme, clama e desponta, na aurora do Dia Novíssimo, para a Última Resposta…

… Estava eu a desfiar esse rosário de expectativas – ia a dizer-te –, meu caro Daniel, para querer continuar os nossos diálogos, quando me chegou de rompante a notícia da tua súbita e derradeira partida para o mais fundo, distante e todavia próximo dos silêncios!

– E num instante, então, agora, assim, tão devagar no sobressalto, perdemos ambos a acalentada confiança que tão fraternalmente tinhas expressado naquela bela narrativa do teu último périplo terceirense, quando dizias – naquele modo que os dois bem em cumplicidade antiga e na verdade logo percebemos e acordámos – gostar de “conversar longamente com o Eduardo Ferraz da Rosa. Da sua escrita e da sua amizade com Nemésio.

“Da escrita, perguntar-lhe se ele exercita nela conscientemente, ou por acaso, o que me parece ser um exemplo prático da Fenomenologia de Husserl. É que eu leio o que o Eduardo escreve, e crio uma ideia do que as palavras significam. Mas depois volto às palavras para verificar se essa ideia de facto lhes corresponde. E, parafraseando aquela que, por amor e necessidade, é a pessoa mais indispensável da minha vida, dir-lhe-ia que, se Nemésio tivesse estudado mais, não teria tido tempo para aprender tanto. Não nos haveria deixado, portanto, um livro quase esquecido, uma torrente de cultura, como é o ‘Jornal do Observador’. Nem, provavelmente, o ‘Mau Tempo no Canal’, porque, fosse ele mais aplicado nos estudos e mais paciente com os professores, e não iria parar à Horta para obter um diploma com a mesma classificação do de João de Deus na Universidade”…

Ora é para isso, e como se estivéssemos os dois finalmente sentados frente a frente e a ver o nosso mesmo Mar, que tão gratamente quis recolher, evocar e citar neste dia as tuas palavras, Daniel, porém logo também para devolver-tas com outras, as minhas, de outrora – mas agora para sempre relidas e refeitas, ou futuríveis, quem sabe afinal? – que te enviei há anos, deste mesmo lugar da Terceira, mas de um tempo outro, no derradeiro e ventoso Outono que atravessaste. Todavia, não tenho a certeza de algum dia (não) as leres, ou (sim) as receberes no ressurrecto modo do Mistério que nenhuma Fenomenologia, como bem detectaste, do Homem terreno – aqui neste frágil e contingente destino do pulvis (…) et in pulverem reverteris – poderá alguma vez explicar, ou sequer compreender (a não ser, pode ser, sob o modo de alguma crença ou da Fé que ambos partilhamos...).

– E aqui vai pois, meu caro Daniel, o que repito, praticamente sílaba a sílaba, e torno a querer dizer-te hoje, identicamente como desse passado Janeiro de 1995, no Suplemento Açoriano de Cultura que o Vamberto Freitas empenhadamente coordenava no “Correio dos Açores”, para o mesmo Futuro Absoluto (que já ali o era eternamente): 

2. Para a tua ilha do nosso Arcanjo, como Ruy Galvão de Carvalho sempre acentuava na datação propiciadora de um lugar de luz para a guarda da Palavra vai a última carta que te escrevo.


– Estou aqui em Angra, mas é quase como se não tivesse chegado a partir de onde vim, daquela morada, terra e templo de Reminiscência Absoluta – afinadas estas por uma dimensão existencial que já foi legitimada e assumida em longo processo crítico e horizonte semântico e metafísico – compreendes? –, digo, daquela Praia minha, da mesma ou análoga à que Vitorino Nemésio, tão significativa e paradigmaticamente sempre chamou de “nossa mãe”, dizendo-a desse modo por relação ao sentido fundamental, matricial a genésico da sua Poética, da sua Filosofia e da sua Fé…

Ora acontece que é por causa dessas categorias que te mando novamente hoje estas palavras fraternas. Refiro-me, como terás já apreendido, ao núcleo de significação mais essencial que aquelas figuras ou metáforas retêm, e que hoje se me tornou a relevar e revelar de repente ainda mais em novo fulgor e relevância de verdade, ao ser-me chamada a atenção para um espantoso e pequeníssimo lapso tipográfico que a tua bela e humaníssima missiva então continha.

De facto, na mensagem a que me estou referindo, e na qual generosamente e mais uma vez com igual Amizade e certeira e rigorosa Exegese disciplinar, tiveste a viva memória e a afectuosa e intencional lembrança de me descobrires e nomeares num parágrafo e entre aqueles (outros) vultos que são da verdadeira e unicamente grande estirpe e condição que (a todos) nos poderia e deveria unir e reunir in gente, lá resvalou o alfabeto (que não a gramática!) de vogal em vogal, como ao nosso Nemésio, de vaga em vaga vocálica…, de uma a outra delas, e então de um “o” penúltimo se acercou a prosa de um “e” mais original no andamento da declinação prototípica, e assim de mão se chegou a mãe, e eu (em abençoado destino suplementar), de contraparente, amigo e discípulo, me vi baptizado em Irmão de sangue verdadeiro!

– Feliz corrente de composição que a tanta proximidade de natureza e semântica acabou por deixar resumir a ideia…

Surpreso, pois, na maravilha de sentido que um lapso técnico de gesto no teclado foi capaz de gerar (e tão verosímil em seu segredo e maiêutica ocultação foi, que nenhuma outra revisão se mostrou ciosa ao ponto de a invejar em golpe de correcção!), – não resisti, neste inesperado contexto, ao encantado impulso de te mandar, com devida e maior estima, este ramalhete de escrita, alinhadas e alinhavadas as minhas próprias letras para testemunho de gratidão pelas tuas pessoais, bondosas e lisonjeiras referências às minhas humildes demandas ensaísticas, filosóficas e literárias.

3. Cá se realizou o Outono Vivo, mas tal como muito bem vislumbraste da outra vez, na autêntica proximidade espiritual que às vezes só mesmo uma virtuosa e conjuntural distância garante e sela para o mais gratificante futuro absoluto (como, nas mesmas e todavia outras maiúsculas de grandeza escatológica o nosso Karl Rahner tematizou, como sabes…), também nestas aventuras de encontro e reencontro é bom que se perdoe “alguma coisinha”, porquanto, com certeza, mesmo a Terceira, “lá por ser de Jesus, não é por força em tudo virtuosa apenas”…

– Tenho tenha pena de lá não teres estado! E agora, maior é ela ainda quando leio que sentes e dizes mesmo, na solidão confessada, não quereres cair na lamúria.



É que – entendes? – cá por esta “Treceira de Jasus”, com os seus pretensos ou supostos donos e proverbiais padrinhos e puxadores de dança e contradança vária, em tanta corrida, passo e queda se quedarem alguns infelizes, diletantes e aduladores, que já nem ao nível do chão vão, antes de lá e amiúde dele nem conseguem levantar-se, no que aliás seguem em razão inversa às dos conceitos predicáveis do Sermão da Caída…

Mas seja lá como for, ou não seja, também agora te quero afiançar das minhas saudades da tua Maia e desse calor tão franco e mais reanimador, e tão diverso e tão nobre, ao menos na esperança e na sua inteireza singela de pão e mesa e caldo de tanto ideal e persistente sonho fraterno…

– Lembro-me muito bem de tudo isso, de novo aqui, longe da mão da porta e do sentido-mãe das ruas e das casas, e da minha casa na Praia, e do rosto materno e definido das pessoas e das coisas, mas ainda mais hoje, depois do tempo e do espaço, das mães universais que lá e cá (como de facto e na genuína solidez da Vida e do Amor, em todo o lado) sempre nos hão-de fazer pensar, sentir e agir, crescendo interiormente para o mais que importa e vale!

A terminar, saúdo-te, de novo, na certeza de um dia poder acolher-te pessoalmente na nossa real Praia da Vitória. Aí hei-de mostrar-te, por minha própria mão, responsabilidade, olhar e coração, aqueles recantos de Nemésio e da Praia-Pátria Açoriana e universal de sempre que só é conhecida e reconhecível por aqueles que a amam e compreendem; ou vice-versa, tanto faz, porque, como tu também sabes, entre o paciente amor da Sabedoria e a sabedoria paciente do Amor, talvez não valha a pena acentuar mais nenhum daqueles usuais, às vezes pérfidos e rasteiros, esquemas de dualismo racional, poético e ético, – todos eles em que, tantas e escusadas vezes, por entre fúteis e crispadas letras, se perdem as palavras sapientes e se desencontram os afectos e os espíritos, por melhores que sejam as literaturas e o que delas há-de restar!




Sem mais, por aqui agora me deixo também ficar sem lamúria mas grande tristeza, para procurar continuar a aprender com tudo e com todos, enviando-te um grande e definitivo abraço firme e fraterno, e pedindo-te que aceites todo o respeito e a minha admiração, ao ver-te partir para onde, junto aos nossos todos juntos, esperarás certamente por nós, na Saudade do Futuro.
________________

Em “DA” (“Diário dos Açores”, Ponta Delgada, 29.05.2013);
Visualização e Download aqui:
“Os Sinais da Escrita”:
RTP-Açores:
e Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2364&tipo=col.









sexta-feira, maio 24, 2013


Um País Paranormal


Mais do que aos famosos Pastéis de Belém, saborosos e cremosos produtos da nossa nacional Doçaria, tanto mais apetecíveis quanto mais polvilhados estiverem de Canela…, – coisa também ainda mercantilizável como iguaria de marca eleita pelo ministro da Economia do Governo de Lisboa, a par do castiço frango de churrasco, como factor decisivo para um potencial relançamento pantagruélico das nossas periclitantes transacções comerciais (ou não fora suplementarmente essa Especiaria ainda resquício de antigos condimentos de sonho e grandeza que trouxemos lá do longínquo Ceilão no bojo das míticas naus do Império Português do Oriente e na onda da Primeira Globalização Planetária, para a qual aliás abrimos mares nunca dantes navegados, e terras e gentes sempre cobiçadas por quem as quis e de lá conseguiu retirar o que os Portugueses a tanto não quiseram, não souberam ou não puderam tão cruamente aventurar-se) …

Porém – vinha a dizer –, mais do que à voraz mastigação e deglutição daquelas iguarias de massa e creme belenenses, aquilo a que nos últimos dias mais deliciosamente assistimos, a partir do político e comediante chamatório dos estúdios das TVs, bancas de jornais, cadeirões políticos e carroçarias partidárias de alto estofo, cabedal ou cilindrada (junto ou portas adentro do Pátio e do Palácio presidencial), foi certamente a verdadeira tragicomédia que antecedeu, ocorreu durante e sucedeu ao último Conselho de Estado!



– Na verdade, desde o falario antecipatório e/ou dedutivo dos sempre presumidos espalha-brasas, sofistas ou ficcionais analistas das Redes e OCS que temos, até às mais desbragadas metáforas dos diferentes feirantes e circenses gémeos actuais dos Palma Cavalões de outrora (com as respectivas Cornetas do Diabo…), passando pela retórica oca de caducos politiqueiros e inconscientes institucionais de carreira consolidada, – a tudo isso o País – de rastos, revoltado, angustiado, espoliado, porém submisso, ou simplesmente descrente (até à invocação leviana e vã de Fátima!) – foi assistindo:

Desses sinais, em portas e passos, entre vida e morte (trocadilhos ora em voga numa Nação em pré-coma induzido…), ficaram os Açores quase a ver, e vistos, de longe!

– Todavia, paranormalmente também, para não destoar…
_____________________
Em Jornal "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 26.05.2013),
e RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/index.php?article=32308&visual=9&layout=17&tm=41
Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo (25.05.2013).

segunda-feira, maio 20, 2013