quarta-feira, novembro 20, 2013
domingo, novembro 17, 2013
Memória e Presença
de Albert Camus
1. No passado dia 7 de Novembro ocorreu o centésimo aniversário do
nascimento de Albert Camus, escritor, ensaísta, dramaturgo, jornalista e
filósofo francês nascido na Argélia (Mondovi, Constantina, 1913) e falecido em
França (Villeblevin, Yonne), num acidente de viação, a 4 de Janeiro de 1960,
conforme sucintamente tivemos já ocasião de evocar aqui.
– Todavia, por sugestão feita ao DI,
retomamos hoje desenvolvidamente o texto dessa memória, registando ainda que o
desaparecimento de Camus foi então também assinalado entre nós, neste mesmo
jornal angrense, logo na sua edição de 5 de Janeiro, e ainda com uma posterior
e específica evocação inserida na sua página de Letras e Artes (Nº. 284, 1º. da 2ª. Série), então dirigida por
Emanuel Félix, na qual foi inserido, em caixa, um breve mas denso e
significativo extracto de La Chute (A Queda), no qual se desenha uma
característica reflexão camusiana sobre a morte, o suicídio, o martírio, o
esquecimento, o escárnio, o aproveitamento e a complexidade existencial da compreensão…
Figura de referência na
Literatura do Século XX, Camus é autor de uma vasta obra que inclui, entre
outras títulos, O Estrangeiro
(adaptado ao cinema, em 1967, por Visconti), A Peste, O Homem Revoltado,
O Mito de Sísifo, Os Justos, O Exílio e o Reino, A Queda
e Cartas a um Amigo Alemão (com um
desenho de capa por Lima de Freitas), todos editados pelos “Livros do Brasil”,
muitos deles traduzidos em português (nomeadamente por António Quadros, Urbano
Tavares Rodrigues, José Carlos Gonzalez e Virgínia Motta), sendo que alguns
incluíam notáveis e pioneiros Prefácios ou Estudos originais no nosso País (especialmente
no caso de António Quadros); versões das respectivas introduções às edições
francesas, como a de Jean-Paul Sartre (de quem aliás Camus se afastaria em 1952
por divergências políticas e filosóficas) para O Estrangeiro, traduzida de Rogério Fernandes; a de Jean Sarochi
para A Morte Feliz; a de Paul
Viallaneix para Cadernos II - Escritos de
Juventude), e outras sugestivas explanações informativas ou ensaísticas (como
a do posfácio de Liselotte Richter a O
Mito de Sísifo).
2. Filho de um humilde trabalhador rural e apesar de grandes
dificuldades materiais, Camus frequentou a Universidade de Argel, onde terminaria
uma licenciatura em Filosofia com uma tese sobre S. Agostinho e Plotino. Depois, tendo sido forçado a deixar a
carreira académica por motivos de saúde, dedica-se ao teatro e ao jornalismo,
tendo trabalhado no Paris-Soir e sido
chefe de redacção (terminada a II Guerra Mundial e a ocupação nazi da França,
contra a qual lutara ao lado da Resistência) no jornal Combat.
Prémio Nobel da Literatura (1957),
todo o pensamento, as acções e os livros de Albert Camus foram exemplar e
genuinamente moldados e movidos por profundas inquietações existenciais,
humanistas e metafísicas, e político-ideológicas e éticas, estando fundamentalmente
marcados por recorrentes motivos de reflexão e tematização sobre a condição humana,
a finitude e a angústia, o absurdo e a revolta, os totalitarismos e a
resistência moral, a arte e a paixão pela vida, o compromisso e o perdão, o
sofrimento e a violência, o medo e a morte, a justiça e a felicidade.
Esta efeméride camusiana tem vindo
a ser assinalada um pouco por todo o mundo, sendo todavia que na própria França
não foi possível promover nenhuma comemoração
oficial sob a égide do seu Ministério da Cultura e da Comunicação, não
tendo igualmente chegado a concretizar-se qualquer evento evocativo na
Biblioteca Nacional, nem sequer tendo chegado a ter lugar consensual a prevista
Exposição, no âmbito da capital europeia da cultura, em Marselha e
Aix-en-Provence…
– E assim, pelos vistos, a
memória de Camus, o seu pensamento, as suas tomadas de posição, as suas acções
e militâncias, e tudo aquilo que ainda nele foi matéria de controvérsia,
dissensão ou dissidência (a questão da Argélia, a experiência comunista
soviética, o desalinhamento partidário, a diferenciação face ao existencialismo
e ao marxismo, a demarcação perante o recurso ao terrorismo armado, etc.), tudo
isso continua a pesar na multiplicidade divergente, ou contraditória, com que o
autor de O Avesso e o Direito continua
a ser visto, lido, situado… e dificilmente recuperável (como até com os seus
restos mortais o figurão de Sarkozy tentou instrumentalizá-lo ao pretender transferir
o que deles (não dele!) restaria para o Panteão parisiense…
Por outro lado, muitas tem sido
as edições, congressos, simpósios, colóquios e debates que a vida e obra de
Albert Camus tem suscitado em vários países, academias e órgãos de comunicação
social, inclusive em Portugal (Universidades do Porto e Évora, Centro Cultural
de Belém, Academia das Ciências, em Lisboa, etc., sendo que nesta última proferiu
uma Conferência evocativo de Camus pelo embaixador Marcello Duarte Mathias, referencial
autor do consagrado e pioneiro ensaio A
Felicidade em Albert Camus, original de 1975, entretanto reeditado e
aumentado).
3. Entre nós, aqui em Angra, as obras de Camus foram conhecidas e
divulgadas, constituindo as respectivas edições pelos “Livros do Brasil” –
recordo – presença regular, nomeadamente, pela mão de José Teixeira de Borba,
na antiga secção e atenta montra de livraria da Loja do Adriano.
– Ali amiúde as discuti com o meu
saudoso amigo e professor de Filosofia no Liceu, Dr. Hélder Lima, com uma
abertura e uma sensibilidade críticas que os programas oficiais e os nossos
velhos e secos manuais escolares adoptados por si só não permitiam…, apesar das
diferenças em métodos e objectivos, bem notórias entre o austero e formal
Augusto Saraiva e as Antologias de Psicologia e de Filosofia muito bem organizadas
por Jorge de Macedo, Joel Serrão e Rui Grácio, que tínhamos de seguir em
conformidade (mais ou menos oficiosa…) com os programas curriculares e
disciplinares daquela época, se bem que, alguns deles, vistos à distância e
comparados com alguns critérios, (des)orientações e competências actuais, não
fossem, talvez, assim tão mal formadores como científica (e ideologicamente!)
os pintam às vezes…
Para mim, que li e estudei
Albert Camus praticamente todo e desde muito novo (e que o debati tantas vezes,
como referi, à margem das aulas liceais e depois universitárias de Filosofia…),
reconheço nele ainda hoje a mesma e perfeita síntese “viva e intacta” da sua
reflexão, timbrando inesquecivelmente “a cintilação intelectual e humana que
rodeia o seu nome”, como justamente escrevia Duarte Mathias:
– “E bem é
que assim seja, porquanto muitos dos problemas por ele abordados, das causas
por ele defendidas como das forças ocultas cuja marcha ele não se cansou de
denunciar, permanecem instalados no nosso tempo, quando não em nós mesmos. A
isto se deve, em grande parte, aliás, a sua popularidade e a actualidade do seu
pensamento”, pelo que identicamente “para muitos da minha geração, o autor de O Estrangeiro logrou ser, pelo que
escreveu e pelo que foi, mais do que uma fonte de inspiração, uma presença
amiga e estimulante”.
De resto, sobre Albert Camus,
entretanto, tem-se multiplicado, em Portugal e (ainda mais) no Brasil, estudos
e teses académicas no âmbito da língua e da cultura portuguesas, confrontando a
sua obra com a de outros escritores e pensadores de diversas áreas, correntes,
estilos e visões do homem e do mundo (casos de José Saramago e de Vergílio
Ferreira), enquanto muito ainda há a trabalhar e (re)descobrir no âmbito da sua
obra literária, filosófica, política e ética, para com ele e nele, e citando-o,
depois de termos falado “da nobreza do mister de escrever”, repormos
verdadeiramente
“o escritor
no seu verdadeiro lugar, sem outros títulos que não sejam os que partilha com
os seus companheiros de luta, vulnerável mas teimoso, injusto e apaixonado pela
justiça, construindo a sua obra sem vergonha nem orgulho à vista de todos,
sempre dividido entre a dor e a beleza, e dedicado, enfim, a tirar do seu duplo
ser as criações que obstinadamente tenta edificar no movimento destruidor da
história"...
– E isto, para lhe darmos o
direito à palavra e à esperança, como ele o mereceria no seu imaginativo e indomável
carácter, reconhecendo-o ainda nos homens do nosso tempo e nesta actualidade às
vezes tão absurda, tão injusta e tão desalmada nos seus pesados e dolorosos
rochedos de Sísifo,
“junto de
todos esses homens silenciosos que não suportam no mundo a vida que lhes é dada
senão pela recordação ou o regresso de breves e livres felicidades”!
sexta-feira, novembro 15, 2013
A Banalização do Exílio
Mário Soares, ex-PR, ex-PM e
fundador do PS, acaba de ser simbolicamente homenageado em França, tendo-lhe
sido entregue pelo maire da “cidade
luz” a Grande
Médaille de Vermeil de la Ville de Paris.
– A
linda cerimónia, no Hôtel de Ville, contou com a presença, entre figuras
gaulesas e nacionais, de Jospin (ex-PM e ex-líder do PS francês), mas acabou
por ficar, acima de tudo, marcada – embora sem notoriedade externa, mas mesmo
assim como motivo de interesse na velha terra lusitana (agora, nas plagiantes e
delico-doces sentenças do vice-PM, transformada em mísero e dependente
“protectorado”) –, pela mui relevada e prestigiante comparência entre os
convidados (presume-se que por oficioso conchavo protocolar inter-pares) do
também ex-PM e ex-condottieri do
ex-PS de Soares, José Sócrates!
Até aqui tudo estaria nos
conformes, êxtases e desvanecimentos da ilustrada entourage daqueles camaradas euro-socialistas, não fosse o que de
seguida mais assombrou a pompa da dita circunstância, quando Mário Soares, com
a incauta (?) bonomia que é apanágio da sua magnânima personalidade, depois de
evocar os seus propedêuticos e penosos tempos “de exílio” democrático, e após
tanger forte e feio no primo-comissário Durão, na troika, na austeridade, em Merkel e no governo do seu País,
dirigindo-se ao novel “mestre” ali acolhido
– porém mediaticamente não encolhido!
–, resolveu perorar neste laudatório:
– “Sou um grande amigo de
Sócrates e penso que ele está a passar pelo mesmo que eu passei, que vivi aqui
quatro anos no exílio – penso que ele, depois de dois anos em Paris, também é
outro homem, com uma cultura que não tinha antes”...
A tais palavras, parolas (apenas paroles?), hão-de varrê-las, algum dia, limpos e novos ventos em
Portugal (e talvez até no PS)!
Mas a tamanha falta de auto-estima, tão confrangedor aviltamento da imagem pessoal
própria e tão ignóbil torção da
verdade histórica, só a mais abjecta e ofensiva banalização ética de um exílio político poderia ter verbalizado em igual retórica cínica, gerando, no duplo espelhado da respectiva representação,
o fantasma da sua vacuidade.
____________________
Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 16.11.2013).
Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=2470
____________________
Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 16.11.2013).
Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=2470
Jornal "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 20.11.2013):
RTP-Açores:
sexta-feira, novembro 08, 2013
Actualidade de Albert Camus
Na passada quinta-feira ocorreu o
centésimo aniversário do nascimento de Albert Camus, escritor, ensaísta,
dramaturgo, jornalista e filósofo francês nascido na Argélia (Mondovi,
Constantina) a 07.11.1913 e falecido em França (Villeblevin, Yonne), num
acidente de viação, a 4 de Janeiro de 1960.
Figura de referência na
Literatura do Século XX, Camus é autor de uma vasta obra que inclui, entre
outras títulos, O Estrangeiro
(adaptado ao cinema, em 1967, por Visconti), A Peste, O Homem Revoltado,
O Mito de Sísifo, Os Justos, O Exílio e o Reino, A Queda
e Cartas a um Amigo Alemão (com um
desenho de capa por Lima de Freitas), todos editados pelos “Livros do Brasil”,
muitos deles traduzidos em português (nomeadamente por António Quadros, Urbano
Tavares Rodrigues, José Carlos Gonzalez e Virgínia Motta), sendo que alguns
incluíam notáveis e pioneiros Prefácios ou Estudos originais no nosso País (especialmente
no caso de António Quadros), versões, em tradução, das respectivas introduções
às edições francesas (como a de Jean-Paul Sartre para O Estrangeiro, traduzida por Rogério Fernandes, a de Jean Sarochi
para A Morte Feliz, e a de Paul
Viallaneix para Cadernos II/Escritos de
Juventude), ou outras sugestivas explanações (como a do posfácio de
Liselotte Richter a O Mito de Sísifo).
– Prémio Nobel da Literatura (1957),
todo o pensamento, as acções e os livros de Albert Camus foram exemplar e
genuinamente moldados e movidos por profundas inquietações existenciais,
humanistas e metafísicas, e político-ideológicas e éticas, estando fundamentalmente
marcados por recorrentes motivos de reflexão e tematização sobre a condição
humana, a finitude e a angústia, o absurdo e a revolta, os totalitarismos e a
resistência moral, a arte e a paixão pela vida, o compromisso e o perdão, o
sofrimento e a violência, o medo e a morte, a justiça e a felicidade.
Esta efeméride camusiana tem
vindo a ser assinalada um pouco por todo o mundo, sendo todavia que na própria
França não foi possível promover nenhuma comemoração
oficial sob a égide do seu Ministério da Cultura e da Comunicação, não
tendo igualmente chegado a concretizar-se qualquer evento evocativo na
Biblioteca Nacional, nem sequer tendo chegado a ter lugar consensual a prevista
Exposição, no âmbito da capital europeia da
cultura, em Marselha e Aix-en-Provence…
– E
assim, pelos vistos, a memória de Camus, o seu pensamento, as suas tomadas de
posição, as suas acções e militâncias, e tudo aquilo que ainda nele foi matéria
de controvérsia, dissensão ou dissidência (a questão da Argélia, a experiência
comunista soviética, o desalinhamento partidário, a diferenciação face ao
existencialismo e ao marxismo, a demarcação perante o recurso ao terrorismo
armado, etc.), tudo isso continua a pesar na multiplicidade divergente, ou
contraditória, com que o autor de O
Avesso e o Direito continua a ser visto, lido, situado… e dificilmente
recuperável (como até com os seus restos mortais o figurão de Sarkozy tentou
instrumentalizá-lo ao pretender transferir o que deles (não dele!) restaria
para o Panteão parisiense…
Por
outro lado, muitas tem sido as edições, congressos, simpósios, colóquios e
debates que a vida e obra de Albert Camus tem suscitado em vários países,
academias e órgãos de comunicação social, inclusive em Portugal (Universidades
do Porto e Évora, Centro Cultural de Belém, Academia das Ciências, em Lisboa,
etc., sendo que nesta última proferiu uma Conferência evocativo de Camus pelo
embaixador Marcello Duarte Mathias, referencial autor do consagrado e pioneiro
ensaio A Felicidade em Albert Camus,
original de 1975, entretanto reeditado e aumentado).
–
Para mim, que li Camus praticamente todo e desde muito novo (e que o debati
tantas vezes, à margem das aulas liceais e depois universitárias de Filosofia…),
como noutra ocasião já referi, reconheço ainda hoje a mesma e perfeita síntese,
“viva e intacta”, timbrando sempre “a cintilação intelectual e humana que
rodeia o seu nome”, como justamente escrevia Duarte Mathias:
“E
bem é que assim seja, porquanto muitos dos problemas por ele abordados, das
causas por ele defendidas como das forças ocultas cuja marcha ele não se cansou
de denunciar, permanecem instalados no nosso tempo, quando não em nós mesmos. A
isto se deve, em grande parte, aliás, a sua popularidade e a actualidade do seu
pensamento”, pelo que identicamente “para muitos da minha geração, o autor de O Estrangeiro logrou ser, pelo que
escreveu e pelo que foi, mais do que uma fonte de inspiração, uma presença
amiga e estimulante”.
– De
resto, sobre Albert Camus, entretanto, tem-se multiplicado, em Portugal e
(ainda mais) no Brasil, estudos e teses académicas no âmbito da língua e da
cultura portuguesas, confrontando a sua obra com a de outros escritores e
pensadores de diversas áreas, correntes, estilos e visões do homem e do mundo
(casos de Saramago e Vergílio Ferreira), enquanto muito ainda há a trabalhar e
(re)descobrir no âmbito da sua obra literária, filosófica, política e ética,
para com ele e nele, e citando-o, depois de termos falado “da nobreza do mister
de escrever”, repormos verdadeiramente “o escritor no seu verdadeiro lugar, sem
outros títulos que não sejam os que partilha com os seus companheiros de luta,
vulnerável mas teimoso, injusto e apaixonado pela justiça, construindo a sua
obra sem vergonha nem orgulho à vista de todos, sempre dividido entre a dor e a
beleza, e dedicado, enfim, a tirar do seu duplo ser as criações que
obstinadamente tenta edificar no movimento destruidor da história”…
E
isto, para lhe darmos o direito à palavra e à esperança, como ele o mereceria
no seu imaginativo e indomável carácter, reconhecendo-o ainda nos homens do
nosso tempo e nesta actualidade às vezes tão absurda, tão injusta e tão
desalmada nos seus pesados e dolorosos rochedos de Sísifo, “junto de todos
esses homens silenciosos que não suportam no mundo a vida que lhes é dada senão
pela recordação ou o regresso de breves e livres felicidades”!
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 09.11.2013):
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 09.11.2013):
Azores Digital:
RTP-Açores:
Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 09.11.2013):
sábado, outubro 19, 2013
Lições dos Processos do PSD
A justamente demarcante
divulgação – alegadamente “com alguma serenidade” – da posição da Comissão
Política Regional do PSD-Açores face ao PSD nacional, chefiado por Pedro Passos
Coelho, ter acabado há dias por decidir mesmo avançar com um libelo de acusação aos seus Deputados
eleitos pelos Açores à Assembleia da República (AR) – João Bosco Mota Amaral
(micaelense), Joaquim Ponte (terceirense) e Lídia Bulcão (faialense) –, devido
a estes três social-democratas Açorianos terem votado no Parlamento da
República Portuguesa contra a Lei das
Finanças Regionais, é um importante e muito significativo facto político-jurídico (e mais ainda filosófico-político, sociopolítico e político-partidário…) que
não deveria continuar a merecer muito daquele silêncio acrítico a que – em diversas e surpreendentes instâncias
intelectuais, autonómicas e democráticas (e mediáticas também…), com honrosas
excepções, tem sido surpreendentemente remetido nas nossas encabuladas ilhas!
– De resto, uma palavra de louvor
é aqui devida à direcção do PSD-A por ter manifestado “total solidariedade”
àqueles Deputados, “reafirmando que eles defenderam, e bem, os interesses
específicos dos açorianos”, de acordo aliás, conforme mais afiançaram – ou em
(des)necessário reforço e alívio de causa? –, “com as orientações do
PSD/Açores”…
Todavia, por igual neste contexto
de contencioso, vale a pena começar por recordar que já em Agosto último,
conforme então noticiado, Mota Amaral tinha declarado que a direcção da bancada
parlamentar do PSD na AR havia enviado à respectiva direcção partidária uma
“denúncia” de intenção disciplinar
pelos motivos acima referidos, sendo que, na sequência de um pressuroso
“inquérito preliminar” ali a decorrer, era de esperar um pronunciamento
superior do Conselho de Jurisdição Nacional do partido capitaneado por Pedro
Passos Coelho (actual PM), no sentido de avançar-se, ou não, com uma formal nota de culpa, para accionamento de um
subsequente Processo Disciplinar (o que veio agora a consumar-se)!
– Ora perante tudo isto, e face a
estes procedimentos próprios de “partidos não democráticos” (como muito bem e
em reacção logo afirmou Mota Amaral ao precisar que Deputados,
conscienciosamente eleitos, nunca devem
perder “personalidade”), doravante apenas restará aos três parlamentares
Açorianos em causa, se forem efectivamente condenados, um possível, firme,
fundamentado e competente recurso para o Tribunal Constitucional, com
articuladas bases e em adequadas e sucessivas instâncias – conforme mais
sinalizou o antigo Presidente do Governo dos Açores e da Assembleia da
República – tanto em Direito
Constitucional e na Lei Orgânica dos
Partidos Políticos como em Ciência
Política…
Por outro lado – e deixando
realmente para outra mais propícia e desenvolvida ocasião uma abordagem bem
enquadrada e plenamente justificada deste apelativo tema para a Ciência e a
Filosofia Políticas –, talvez valha a pena realçar aqui também o facto de não
estarmos perante um acontecimento inédito no PSD, porquanto, em meados dos anos
80, na vigência do governo do Bloco Central, idêntica medida chegou a ser
tomada contra os Deputados social-democratas dos Açores que se recusaram votar
a favor do Orçamento de Estado, e que – após instauração de Processo
Disciplinar – “sob alegação de violação da disciplina de voto” viram ser-lhe
“aplicada a pena de suspensão do direito de elegerem e serem eleitos para os
órgãos partidários durante o período de dois anos”, pena da qual se livraram
depois, conforme testemunho recente de Mota Amaral, que escrevia assim:
– “Poucos meses depois, no
seguimento de diligencias minhas junto de Carlos Mota Pinto, ao tempo líder do
PSD, por deliberação unânime do Conselho Nacional, a situação em causa foi
abrangida por uma amnistia interna, destinada a comemorar o cinquentenário do
nascimento do Fundador do Partido, Francisco Sá Carneiro, ficando portanto
eliminada a alegada falta e também, obviamente, a sanção correspondente”…
E depois ainda: “Em diversas
outras ocasiões, os Deputados social-democratas açorianos fizeram votações
diferentes da generalidade do Grupo Parlamentar do PSD, sem que daí derivassem
quaisquer consequências, disciplinares ou outras. Em regra por se entender que
a sua posição é peculiar, na medida em que representam uma Região Autónoma, com
interesses próprios e até específicos, incumbindo-lhes defendê-los no
Parlamento, ainda que por algum motivo não possa o PSD na totalidade acompanhar
os seus pontos de vista. E isso aconteceu em circunstâncias e sob lideranças
variadas, mesmo naquelas tidas por mais fortes e até com alguma tendência para
o autoritarismo…”.
Como se vê e assim o caso tem que
se lhe diga, e vai continuar por certo a dar que pensar, agir, reagir e
escrever…
– Talvez não dê é para que alguns
dos nossos formosos e impantes actores e agentes partidários, lá e cá, dele se
aproveitem para atirar pedras, setas ou murros aos telhados e portas dos seus
vizinhos, companheiros, amigos ou camaradas (internos e externos…), com e sem
processos disciplinares, ou outros de pior intenção de luta pelo Poder, à vista
desarmada, a golpes de pura e insensata
miopia política, ou para indigno
revanchismo pessoal. Porém, em qualquer caso, sem nenhuma Lei nem Moral
verdadeiramente dignas desse nome!
________________________
Em Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 19.10.2013)
e Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=2453.
Outra versão ("Os Processos do PSD") em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 19.10.2013).
Outra versão ("Os Processos do PSD") em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 19.10.2013).
sábado, outubro 12, 2013
Arquitecturas de Felicidade
Alain de Botton é um dos
escritores nossos contemporâneos (nasceu em 1969) cujos ensaios sobre algumas
das formas quotidianas e geralmente
ditas “pós-modernas” de viver, de pensar e de agir tem granjeado bastante
popularidade em todo o mundo (e mais recente e editorialmente também em
Portugal), talvez por constituírem uma espécie de escrita intertextual e disciplinarmente
eclética, onde diferentes conteúdos psico-existenciais e múltiplos registos socio-experienciais,
afectivo-vivenciais, discursivos, éticos e estéticos aparecem articulados de
modo sugestivo (conquanto às vezes mais ficcionalmente reconfigurados, aplicados
ou acomodados metodicamente de forma nem sempre muito rigorosa ou fiel
relativamente às respectivas matrizes, tradições ou universos conceptuais
específicos…).
De entre os vários títulos de
Alain de Botton traduzidos em português contam-se Alegrias e Tristezas do Trabalho, O Consolo da Filosofia, A
Arte de Viajar, Como Proust pode
mudar a sua Vida, Religião para Ateus
e Arquitectura da Felicidade (original
de 2006).

– Esta última e muito sugestiva
obra, que também contém muitas ilustrações apropriadas ao deveras fascinante
assunto ali tratado, conforme a recente edição da Leya/D. Quixote (2013)
precisamente salienta, parte do direccionamento
intencional de olhares e da formulação
de perguntas filosóficas sobre
toda uma série de fenómenos estéticos, simbólicos e existenciais (pluriculturais
e inter-civilizacionais) ligados à Arquitectura e ao seu Significado, ao Estilo
e ao Gosto, à Construção Material, à Ordem do Edifício e ao Ideal de Casa,
trabalhando assim questões aparentemente
tão simples, mas afinal tão potencialmente
complexas e virtualmente incondicionadas,
como:
– “O que faz verdadeiramente uma
casa ser bonita?”, “Porque existem tantas casas feias?”, “Porque discutimos tão
amargamente sobre sofás e quadros?”, ou “Poderá o minimalismo fazer-nos mais
felizes que a ornamentação?”.
Ora é para procurar respostas a
“estas e outras perguntas” que Alain de Botton olha para “edifícios dispersos
pelo mundo inteiro, das casas de madeira medievais aos modernos arranha-céus;
examina sofás e catedrais, serviços de chá e centros empresariais, ao mesmo
tempo que tece um conjunto de surpreendentes provocações filosóficas, “convidando-nos
a viajar” – e a aprofundadamente dialogar, ou chamar ao mesmo diálogo, os
grandes Filósofos que pensaram fenomenologicamente o espaço vivido e as suas estruturas
reais e matérias reais e imaginárias…
–, “através da história e psicologia da arquitectura e do design, permitindo-nos alterar a forma como olhamos para as casas
em que vivemos – e ajudando-nos a tomar melhores decisões”…
– Oxalá que a tanto nos
decidíssemos individual e colectivamente, em todas as áreas onde se constrói a
felicidade (e a infelicidade) dos povos e das gerações, mais que não fosse por
esta última razão de ajuda (que é de
Vida, de Cultura, de Património e de Identidade), cada vez mais necessárias a
um País como o nosso, que empobrece em tudo menos na arquitecturada infelicidade do
presente e na fealdade do seu futuro
próximo!
________________
Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 12.10.2013):
RTP-Açores:
Azores Digital:
e "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 20.10.2013):
sexta-feira, outubro 11, 2013
O Sol-e-Dó da Luz
No tempo em a Praia da Vitória
falava pela voz independente do seu saudoso jornal (JP) – há 30 anos já… – publicava-se ali uma Crónica cujo conteúdo
relembramos hoje (como a tantos outros frontalmente abordados em páginas que vale a
pena reler…).
Intitulado “Concerto Macabro”, o
texto relatava deste modo, com humor amargo, conforme respigo da narrativa, um
rocambolesco episódio ocorrido na Praça F. O. da Câmara, numa claramente simbólica noite de Agosto de 1983:
– “Grande azáfama: montar um
coreto, ornado a faia-da-terra, no frontispício do qual foi laboriosamente aplicada
uma lápide, em dimensão aproximada de 20X13 centímetros, anunciando um concerto
pela Banda da Força Aérea dos EUA”.
Depois vinha a descrição do
cenário de remedeio para mais uma daquelas recorrentes
falhas com que a EDA (antes dela Serviços Municipalizados), historicamente vem
ensombrando vidas, economia, trabalho,
festas, serviços, comércio, indústria, máquinas, utensilagens, OCS e outros “aparelhos”
dos terceirenses, – desde oportunistas ou incompetentes cérebros técnicos e
administrativos, a decisores e gestorzecos políticos – a quem temos sido
entregues a eito e que sempre nos foram moendo os olhos com apagões de energia, (in)consciência e (ir)responsabilidade
chocantes!
– Ora então lá estava “aos pés
escorados do balcão da Câmara, um camião do Exército americano, carregado com
uma resfolegante geradora eléctrica de campanha, ligada a um instrumento sonoro”,
enquanto em casa fronteiriça se amenizava “as trevas da noite, colocando velas
caridosas nas janelas, – de resto as únicas luzes que na altura se acenderam”.
E mais tarde, ao final daquele apoteótico,
terceiro-mundista e honroso evento “people-to-people”, duas camionetas made in USA ainda puderam iluminar, “com
os seus potentes faróis nos médios, a rápida desmontagem do aparato de
orquestra”…
– A cena, antiga, é apenas uma das
que poderíamos reacender em décadas a
fio desses fatídicos e paradigmáticos “cortes” com que sorrateira e
ratoneiramente nos fustigam (de modo vário e impune!), sabe-se lá até quando
irremediavelmente (?) mal servindo a Terceira, sob tutela governamental mas por
conta e risco de todos os açorianos…
______________________
Em Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=2447;
RTP-Açores:
http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?article=33960&visual=9&layout=17&tm=41;
Jornal “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 12.10.2013),
e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 17.10.2013).
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=2447;
RTP-Açores:
http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?article=33960&visual=9&layout=17&tm=41;
Jornal “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 12.10.2013),
e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 17.10.2013).
sexta-feira, outubro 04, 2013
Retórica e Responsabilidade Política
A semana que agora termina foi
grandemente marcada pela realização das Eleições Autárquicas e por toda uma
subsequente série de exames sobre os seus já mais ou menos previsíveis resultados – embora com relativas surpresas pontuais e globais…
–, multiplicando-se assim e depois, em todos os OCS nacionais, regionais e
locais, como é habitual, as mais díspares e retóricas conjugações de juízos,
avaliações, balanços e (des)culpabilizações sobre os respectivos desenlaces – venturosos
uns, desastrosos outros –, conforme as bitolas partidárias, os interesses
pessoais e corporativos, e os mecanismos de (auto)imunidade e impunidade institucionais
em jogo!
– E foi por esta mesma lacuna fundamental
que a maior parte das vezes aquilo a que assistimos, como se de reais observações
compreensivas (mesmo que não
tendencialmente sequer explicativas …)
se tratasse, foi a um mero exercício, mais ou menos formal ou abstracto (meras
suposições ou equações cenaristas, afinal…), de outras condicionantes, outros
comportamentos, reflexos e atitudes, e outras
determinantes sociais, psicológicas, culturais e informativas, estas então própria,
concreta e situadamente da ordem (mais
observante e objectiva!) da filosofia, da sociologia, da economia e da
fenomenologia políticas!
Ora tudo isto naturalmente que
haveria de ter feito relativizar, embora não anulasse totalmente, os méritos ou
os deméritos de certos resultados alcançados, quando ou porque não apenas, nem
principalmente, devidos a convencimentos ou exemplaridades do carácter ético-politicamente provado ou
da imagem pessoal, imaginada ou
artificialmente construída, de candidatos nascidos das forjas e alforges
partidários (aliás ao contrário, nesta vertente, do que aconteceu com alguns dos
meritórios movimentos e mobilizações de muitos agora ditos ou feitos
independentes…).
– De resto, neste rescaldo das
nossas Autárquicas, não faltaram também testemunhos e propostas que
despudoradamente raiaram a mais surrealista leitura, ou um despudorado e
patético desfasamento político-esquizóide da realidade – veja-se os afoitos
(des)nivelamentos de alguns líderes institucionais, de soberania e partidarite
aguda… –, a par de ilibações e outras desresponsabilizações de faixas
crescentes de tanto eleitorado absorto, falho da percepção fundamentada de
objectivos e valores sólidos, – ao contrário, por exemplo, das firmes posições
de crescentes extractos da sociedade civil e de tantos eleitores (à esquerda, ao
centro e à direita)…
Neste sentido – e tendo em atenção
alguns dos fenómenos novos que as últimas eleições e as opções e resultados deles
saídos atestaram, como justamente acaba de salientar o IDP (Instituto da
Democracia Portuguesa) – é de facto imperioso ver neles e nelas uma forma
“ordenada e consistente” de repúdio da “alternância partidocrática em que
degenerou a democracia portuguesa”, tanto mais quanto ali fica sinalizado ainda
que, não bastando contar com “grupos de cidadãos’ para a “reforma do sistema
político”, é também necessário proceder já a “uma restauração dos partidos
existentes, do seu modo de liderança e recrutamento, por forma a dar expressão
a interesses de grandes grupos populacionais e não de cliques dirigentes”!
– Em todo o caso, agora que foram
(mal ou bem, veremos depois…) eleitos novos (e velhos, ou apenas remoçados…)
governantes autárquicos, mesmo quando as nossas comunidades possam ser
consideradas menos democraticamente preparadas,
ou em estado de menoridade de consciência
e submissão de vontades (segundo parâmetros objectivos de livre e justa existência
societária e personalista, obviamente), como escrevia Julien Freund – é sempre
aos agentes e actores políticos que caberá, enquanto ocupantes transitórios de
um poder democraticamente instituído
mas parcialmente delegado, a
principal assumpção das decorrentes responsabilidades,
pelo que o mais que se pode dizer aqui, no que concerne a colectividade,
enquanto comunidade de eleitores, é
que, também ela há-de suportar essa responsabilidade na medida em que primeiramente,
ela própria, é que sofrerá “a consequência das decisões inábeis ou más dos seus
governantes” escolhidos…
______________
Em “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 05.10.2013);
Azores Digital:
e RTP-Açores:
http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?headline=14&visual=10.
http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?headline=14&visual=10.
Outra versão: Escolhas e Responsabilidades,
em «Diário Insular» (Angra do Heroísmo, 05.10.2013).
quinta-feira, setembro 26, 2013
As Despedidas
de Setembro
Escrevendo a 23 de Setembro, agora, quando já reunia
palavras para a evocação de Pablo Neruda (12.07.1907-23.09.1973) – entre nós
quase apenas recordado e celebrado pela Fundação José Saramago, em Lisboa –,
chega-me a notícia do desaparecimento de António Ramos Rosa (17.10.1924-23.09.2013),
um dos grandes Poetas que atravessaram tantos daqueles dias e noites de outrora,
de um passado de outra (?) “pátria em trevas”, então com negras condenações e o arrastar
opressivo de um pendular “tempo do homem sem melancolia nem extermínio, do
tipo arremessado longe do oceano”…, mas onde, todavia, líamos, do primeiro, o
seu Canto Geral e as Odes (ao Livro, ao Pão, à Poesia, ao
Espaço Marinho, a Walt Whitman…), na tradução de Fernando Assis Pacheco (aliás
“muito ajudada” pelo nosso talentoso florentino Pedro da Silveira…), enquanto acompanhávamos,
jovens, convictos, graves, comovidos e esperançados, os 20 Poemas de Amor e uma Canção Desesperada do mesmo chileno que
dedicaria a Amália Rodrigues um saudoso “querer de amor” (No te quiero sino porque te quiero), depois cantado por Violeta
Parra…
Quanto a António Ramos Rosa – também fino ensaísta e
crítico de Poesia, Liberdade Livre, e
muito notável poeta, referencial e “contenso e vigilante” (como o qualifica
António José Saraiva) autor de O Grito
Claro, Sobre o Rosto da Terra, A Construção do Corpo, Nos seus Olhos de
Silêncio ou Animal Olhar (entre
outros) – cuja poética completa revela um puro
exercício de escrita lírica, existencial e mesmo metafísica, e uma quase obsessiva procura de visão luminosa e de corporal escuta das coisas, seres, espaços, relevos, proximidades e
distâncias movidas todas (como bem notou Eduardo Lourenço) por uma mística vontade “de se unir ao seu
próprio corpo para se unir ao corpo do mundo e inversamente” –, dele podendo
dizer-se que a interior figura, unida
àquela espécie de matura aura (que a respectiva
alma em avançada e ascética idade conjuntamente
vinha revelando à transparência…), era já bem a incarnada imagem simultaneamente real e ilustrativa daquilo mesmo que na sua última metamorfose ôntica se insinuara nos
seus próprios, futuríveis ou antecipados, porém definitivos versos, e se patenteava
sempre, como aqui:
Sem palavras, uma palavra o anima
Ao fim da primeira silenciosa descida.
Depois a brancura rodeia-o como uma capa
(…).
A cegueira branca não o vence.
(…) A rede em que se enreda e se liberta
reafirma a soberania polar
da
inalterável página que desvenda.
– E como havia de não ser assim, nestas despedidas de
Setembro, para ambos os Poetas (e para todos os homens afinal), desde os mirantes e alcantis daquela paradigmática
Ilha Negra de Pablo Neruda, até aos telúricos promontórios e areais de António Ramos Rosa, identicamente
aos daqui abertos sobre os abismos rutilantes
do Mar, porém ainda fechados numa Pátria outonal “que sussurra de presença e
lonjura”…
______________________
Publicado em Azores Digital:
RTP-Açores:
e Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 28.09.2013):
Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo,
28.09.2013):
sexta-feira, setembro 20, 2013
O Almanaque dos Rituais
ou A Temporada dos Tartufos
Se há época no almanaque dos rituais ou no calendário do cerimonial cíclico dos modelos de actividade e de militância próprios do desacreditado regime em que vivemos – aliás cada vez mais rotineiro, dispendioso, pouco credível. nada convincente (nem sequer na medonha estética “criativa” de um marketing importado por atacado, de algures!) e aonde um incomparavelmente delirante e patético jogo de imagens e mensagens ganha sempre mais desproporcionado corpo mediático, conquanto oscilando bastante entre a catalisada revelação objectiva de insofismáveis realidades nuas e cruas e a delirante construção ficcional, artificial e mistificadora de factos outrossim sérios, objectivos e exactos…
– Se há assim, vinha a dizer, tal
género de temporada (arremedo menor
de uma cidadania já de si esquiva e bem pobre!), no estipulado e imposto nosso quadriénio
oficial, político-administrativo e autárquico, essa quadra é certamente a das
pré-campanhas e tempos eleitorais de propaganda
dos partidos e coligações, como esta que agora estamos a atravessar (“cívica
e democraticamente”, mas por linhas travessas…), ou que vimos apenas mirando com
maior ou menor proximidade, descrença, desinteresse, alheamento ou distância,
como se da encenação de um mero espectáculo
socio-institucional alienante (já de si alienado!) se tratasse…
E como se não bastasse a preponderante sensação generalizada de que tudo não passa de mais um simulacro ou repetição de antigas operetas, enredos já vistos ou desfechos análogos a outras anteriores “narrativas teatrais”, ainda por cima são-nos tais preclaras peças ensaiadas umas e representadas outras por actores selectos e artistas de carreira e cartaz, oportunistas servos ou trânsfugas recauchutados das sucatas e lixeiras políticas do costume, todos eles (ou, vá lá, muitos deles…) com versáteis talentos para tácticos “roulement” ou alternância apenas nos papéis, telas e teias em urdidura, no chega-te atrás ou adiante dos elencos arrebanhados à má fila, e – enfim – na desfaçatez, ou à-vontade, com que os básicos farsantes desta parada de tipo “lean in” ou “go ahead” prometem vir a prestar-se aos mesmos subsequentes e fiéis seguimentos das vozes (escamoteadas ou escondida do público) no ponto dos seus donos!
De resto, quanto aos tais róis de
“lean in” e “go ahead”, bastaria conferir o mimetismo dos ditos slogans, mais ou menos imaginativamente
traduzidos, conforme ao que por aí na Net (por exemplo em http://vimeo.com/58176001...) abundante e
documentadamente circula em certas ETICs (até com cursos e idênticas nomenclaturas
de “Chega-te à frente”…), e tudo assim mesmo dito para espanto de
propagandistas de pacotilha e outros originais “criativos”…, para já nem
falarmos nas pastiches neo-gestionárias
de manuais como o de Sheryl Sandberg (talentosa e dinâmica administradora do
Facebook, única mulher no seu conselho de administração e uma das poucas ladies que chegaram a lideranças em
Silicon Valley) …
– Não
que tenhamos, com certeza, por cá qualquer mítico Vale de Silício, evidentemente, embora não nos faltem, em barda, réplicas
menores de directores executivos (chief executive
officers/CEOs) e outras versões razoavelmente cosmopolitas ou provincianas,
mas sempre de vocação yuppie (young urban professional/jovem
profissional urbano), nos conhecidos “nichos de empresas” (públicas e
associadas ou mistas), “reprodutivos empreendorismos” e outras pérolas dos
fatais destinos e poleiros económico-financeiros que enxameiam o nosso modelo (português continental e autónomo
insular, “europeu” e neo-capitalista) de (sub)desenvolvimento – com o qual suposta
e saloiamente nos “modernizámos”, crescemos, progredimos e chegámos endividados
à crise vigente e galopante… –, até baquearmos, humilhados, de joelhos esfolados,
chapéu roto na mão e tutelados, por menoridade
culpada, à porta da troika e ao longo desses terminais 25 anos em que
recebemos da Europa 156 mil milhões (178 até final deste ano), ou seja 9
milhões de euros por dia, situação agora escalpelizada e debatida em Lisboa num
fórum promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Porém o mais grave, no meio deste
nacional circo todo e mais proximamente ao pé de nós, é o que, amiúde por
demais, fica muito esquecido ou silenciado:
– Endividamentos crescentes das
autarquias (a Câmara da Praia da Vitória lá foi a mais 1 milhão!); hipotecas e
falências por décadas; estagnação comercial e empresarial; obscurantismos de
gestão e inversão de prioridades; falares de barato e impunidades políticas e
pessoais de toda a ordem; subserviências partidárias e pessoais; carreirismos
planeados e premiados a prazo; entronização de actores medíocres e agentes
governamentais de arrepiar; farsas, sofismas e subterfúgios de palmatória (na
Saúde o fiasco governamental, consabido mas negado, ultrapassa até o mais
elementar receituário do senso comum); o imbróglio, nunca profundamente
avaliado, da Universidade dos Açores (conforme muito bem apontou há dias
Américo Natalino Viveiros); o inadmissível e já histórico desacompanhamento nacional,
regional e terceirense da questão da Base das Lajes (agora foi o caso das
demolições!), raiando o escandaloso (veja-se a perceptível e quase completa
desatenção e sepulcral omissão na opinião pública e na participação crítica
institucional açorianas perante o último Relatório de Ana Gomes à Comissão dos
Assuntos Externos do Parlamento Europeu sobre a Dimensão Marítima da Política Comum de Segurança e Defesa (cujo §
37 é mesmo de extrema importância e envolvência para os Açores!), etc., etc., –
tudo tristemente entre a coabitação podre de incompetências com absurdas e
imprudentes megalomanias (demasiado vazias, vezeiras e abusivas retóricas pseudo-autonómicas),
apenas ou quase somente calculadas a curto termo, talhe de foice táctica ou improvisado
fio de navalha…
O que resta, o que nos espera e preocupa assim, é o que veremos provavelmente a seguir (e talvez mais depressa do que se imagina), no Almanaque das colheitas e sementeiras do Outono – o dos patriarcas e o dos seus sucessores e herdeiros também … – que, de lá e cá, vem já a caminho e não prometem, nem auguram, nem tangem nada de bom para ninguém!
________________
Em RTP-Açores:
e Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 21.09.2013).
Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo,
21.09.2013).
sexta-feira, setembro 13, 2013
As Dívidas e as Remissões
Conforme previsto, realizou-se no
passado dia 11 em Lisboa, na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade
Católica (FCH-UCP), uma Mesa-Redonda, subordinada ao pertinente e actual tema
“Dívida e Perdão”.
Organizada e promovida pela Área Científica de Filosofia da FCH-UCP – sob a empenhada
e competente coordenação de Américo Pereira, Maria Inês Bolinhas e Cecília
Tomás (moderadora na transmissão vídeo) –, esta Conferência, que
suscitou grande adesão presencial e acompanhamento on-line à distância em
Portugal e no Brasil, no sentido de procurar confrontar
e integrar diversas abordagens daquela problemática numa perspectiva interdisciplinar, contou com as participações de Mendo Henriques, António Cortês, Vítor Bento, Jerónimo
Trigo e César das Neves:
– E foi assim que a referida temática acabou por ser analisada
e debatida de modo singular neste fórum aberto, ou não fossem diversas, e por vezes até bem antagónicas, como então ali ficou claramente
evidenciado (ou escamoteado!), algumas das mais conhecidas posições
teórico-críticas (abstractas e concretas…) habitualmente assumidas e
defendidas pelos Conferencistas presentes e academicamente oriundos das áreas
da Economia, Direito, Teologia e Filosofia.
No entanto, apesar da amplitude esboçada nas abalizadas
e respectivas exposições, parece que aquele proposto assunto da Dívida (e do
seu “Perdão”) mais devia ter suscitado
também um outro aprofundamento fundamental
e fundamentado da questão da Culpa
pela contracção da dita…
– Aliás, mesmo que (intencional
ou provisoriamente?) tivesse sido possível retirar dali a questão moral (ou ética) da “culpa” – individualmente perspectivável,
e não como qualquer, outro e diferente, mal
metafísico original que fosse… –, restaria sempre e ainda um natural imperativo de tematização do apuramento da responsabilidade (sócio-jurídico,
política, técnica, estrutural, económica e financeira) e das implicadas e inerentes causas, pressupostos,
processos e factores reais (e realistas!) da contracção mais ou menos (in)conscientemente
deliberada ou induzida (quando não mesmo objectivamente especulativa, usurária, fraudulenta
e criminosa) da visada dívida nossa e
da Dívida enquanto fenómeno genérico, como muito bem tentaram
apontar alguns dos oradores.
Porém, tanto quanto se constatou,
nenhum destes níveis foi ali muito enfrentado, tal como não o foi o problema da “culpabilidade” ou da
“culpa” (e também o da sanção propriamente penal…),
ao contrário do que vem acontecendo, na penalizadora
realidade da crise empírica e
quotidiana dos portugueses, com o imposto pagamento
comum (digo, pelo Bem Comum, ou – talvez melhor – pelo sistémico mal comum…) e o tutelado resgate colectivo do
mesmo endividamento, dito globalmente “nacional”, por parte (tantas e bastas vezes pouco equitativa) de todo o País…
– De resto, tanto à luz do
Direito quanto à sombra de um (outro) manto
desresponsabilizante, ou de indistinta
retribuição tácita – apenas qualificável como Perdão ou Solidariedade por
mor de branqueamentos nacionais ou de equidades internacionais dúbias… –, como
é que seria moralmente legítimo, ou
sequer politico-económicamente justificável,
perdoar uma dívida nacional soberana (como
a portuguesa) sem um apuramento prévio
de imputações jurídico-políticas (ou
até jurídico-penais!), estruturais, pessoais
e especificamente grupais (partidos e programas políticos, grupos económicos, quadrilhas
financeiras, etc.), e sem que antes se consumasse uma espécie de kantiana Crítica da Responsabilidade Impura, ou da
Dívida (supostamente) Pura, – a única propedêutica social que talvez pudesse, com Verdade então, ao menos
fazer consensual e pacificamente aceitar a partilha
dos sacrifícios desta crise, mobilizando então consensual e credivelmente o
País para a construção real de um futuro com sentido minimamente promissor
e digno para as gerações futuras?
E isto deixando de parte a utopia religiosa ou a esperança messiânica (mais próprias
ambas dos frutos e obras de um fraternal e festivo Império do Espírito Santo…)!
– Mas certamente que, para a
necessária e urgente reflexão sobre este vasto e plurifacetado tema, a
Filosofia (política, moral e económica) muito tem ainda a contribuir, ajudando
a mais criticamente pensar para melhor agir, como de novo na nossa UCP exemplarmente o revelaram
Mendo Henriques, António Cortês, Vítor Bento e até, na singeleza quase
extemporânea (intemporal?) do seu humilde discurso evangélico, o Padre Jerónimo
Trigo, – todos eles, como propunha o ali a propósito citado Bernard Lonergan, afinal
atentos àquela única comunidade de responsabilidade espiritual e
personalista, que firma a Palavra, a Liberdade, a Justiça, a Ética, o Trabalho,
a Cultura, a Tradição e a Igualdade essencial de todos homens numa Antropologia
não cínica, generosa, compassiva e – enfim, por isso mesmo – autenticamente
Cristã.
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Publicado em Azores Digital:
Publicado em Azores Digital:
RTP-Açores:
e Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada).
Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo,
14.09.2013).
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