sábado, outubro 12, 2013



Arquitecturas de Felicidade




Alain de Botton é um dos escritores nossos contemporâneos (nasceu em 1969) cujos ensaios sobre algumas das formas quotidianas e geralmente ditas “pós-modernas” de viver, de pensar e de agir tem granjeado bastante popularidade em todo o mundo (e mais recente e editorialmente também em Portugal), talvez por constituírem uma espécie de escrita intertextual e disciplinarmente eclética, onde diferentes conteúdos psico-existenciais e múltiplos registos socio-experienciais, afectivo-vivenciais, discursivos, éticos e estéticos aparecem articulados de modo sugestivo (conquanto às vezes mais ficcionalmente reconfigurados, aplicados ou acomodados metodicamente de forma nem sempre muito rigorosa ou fiel relativamente às respectivas matrizes, tradições ou universos conceptuais específicos…).



 Por outro lado – ou talvez por isso mesmo – muitas das abordagens e leituras culturais de Botton (vulgarmente e amiúde adjectivado de “filósofo” pop e “filósofo” do quotidiano) tem sido adaptadas empresarialmente, usadas em marketing ou programadas para difusão mediática (televisiva, especialmente), inserindo-se modelarmente em simpósios para gestores e decisores administrativos, espectáculos encenados, live-shows e talk-shows mais ou menos difusores de formas reconhecidamente light ou soft de reflexão (quando não humorísticas, catárticas, pedagógicas e lúdicas), perante plateias aplaudindo em gravação regida, comovedores happenings de estúdio ou sessões que não deixam de ter vários dos perfis e estilos próximos de uma variedade leiga e laica de televangelismo (amiúde maquilhado de retórica “sapiente”, “moral”, “terapêutica” e “científica”…), ou – pelos menos – recheada de referências, provérbios, citações e lugares selectos desse denso, radical, fundamentado, autêntico, exigente e assumido universo hermenêutico-conceptual e ético que constitui, outrossim e então legitimamente, o campo histórico-crítico e o domínio reflexivo e prático próprios da Filosofia!


De entre os vários títulos de Alain de Botton traduzidos em português contam-se Alegrias e Tristezas do Trabalho, O Consolo da Filosofia, A Arte de Viajar, Como Proust pode mudar a sua Vida, Religião para Ateus e Arquitectura da Felicidade (original de 2006).



– Esta última e muito sugestiva obra, que também contém muitas ilustrações apropriadas ao deveras fascinante assunto ali tratado, conforme a recente edição da Leya/D. Quixote (2013) precisamente salienta, parte do direccionamento intencional de olhares e da formulação de perguntas filosóficas sobre toda uma série de fenómenos estéticos, simbólicos e existenciais (pluriculturais e inter-civilizacionais) ligados à Arquitectura e ao seu Significado, ao Estilo e ao Gosto, à Construção Material, à Ordem do Edifício e ao Ideal de Casa, trabalhando assim questões aparentemente tão simples, mas afinal tão potencialmente complexas e virtualmente incondicionadas, como:

– “O que faz verdadeiramente uma casa ser bonita?”, “Porque existem tantas casas feias?”, “Porque discutimos tão amargamente sobre sofás e quadros?”, ou “Poderá o minimalismo fazer-nos mais felizes que a ornamentação?”.
 

Ora é para procurar respostas a “estas e outras perguntas” que Alain de Botton olha para “edifícios dispersos pelo mundo inteiro, das casas de madeira medievais aos modernos arranha-céus; examina sofás e catedrais, serviços de chá e centros empresariais, ao mesmo tempo que tece um conjunto de surpreendentes provocações filosóficas, “convidando-nos a viajar” – e a aprofundadamente dialogar, ou chamar ao mesmo diálogo, os grandes Filósofos que pensaram fenomenologicamente o espaço vivido e as suas estruturas reais e matérias reais e imaginárias… –, “através da história e psicologia da arquitectura e do design, permitindo-nos alterar a forma como olhamos para as casas em que vivemos – e ajudando-nos a tomar melhores decisões”…


– Oxalá que a tanto nos decidíssemos individual e colectivamente, em todas as áreas onde se constrói a felicidade (e a infelicidade) dos povos e das gerações, mais que não fosse por esta última razão de ajuda (que é de Vida, de Cultura, de Património e de Identidade), cada vez mais necessárias a um País como o nosso, que empobrece em tudo menos na arquitecturada infelicidade do presente e na fealdade do seu futuro próximo!
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 12.10.2013):




























RTP-Açores:

Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=2450,

e "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 20.10.2013):






sexta-feira, outubro 11, 2013



O Sol-e-Dó da Luz


No tempo em a Praia da Vitória falava pela voz independente do seu saudoso jornal (JP) – há 30 anos já… – publicava-se ali uma Crónica cujo conteúdo relembramos hoje (como a tantos outros frontalmente abordados em páginas que vale a pena reler…).

Intitulado “Concerto Macabro”, o texto relatava deste modo, com humor amargo, conforme respigo da narrativa, um rocambolesco episódio ocorrido na Praça F. O. da Câmara, numa claramente simbólica noite de Agosto de 1983:

– “Grande azáfama: montar um coreto, ornado a faia-da-terra, no frontispício do qual foi laboriosamente aplicada uma lápide, em dimensão aproximada de 20X13 centímetros, anunciando um concerto pela Banda da Força Aérea dos EUA”.




Depois vinha a descrição do cenário de remedeio para mais uma daquelas recorrentes falhas com que a EDA (antes dela Serviços Municipalizados), historicamente vem ensombrando vidas, economia, trabalho, festas, serviços, comércio, indústria, máquinas, utensilagens, OCS e outros “aparelhos” dos terceirenses, – desde oportunistas ou incompetentes cérebros técnicos e administrativos, a decisores e gestorzecos políticos – a quem temos sido entregues a eito e que sempre nos foram moendo os olhos com apagões de energia, (in)consciência e (ir)responsabilidade chocantes!

– Ora então lá estava “aos pés escorados do balcão da Câmara, um camião do Exército americano, carregado com uma resfolegante geradora eléctrica de campanha, ligada a um instrumento sonoro”, enquanto em casa fronteiriça se amenizava “as trevas da noite, colocando velas caridosas nas janelas, – de resto as únicas luzes que na altura se acenderam”.

E mais tarde, ao final daquele apoteótico, terceiro-mundista e honroso evento “people-to-people”, duas camionetas made in USA ainda puderam iluminar, “com os seus potentes faróis nos médios, a rápida desmontagem do aparato de orquestra”…

– A cena, antiga, é apenas uma das que poderíamos reacender em décadas a fio desses fatídicos e paradigmáticos “cortes” com que sorrateira e ratoneiramente nos fustigam (de modo vário e impune!), sabe-se lá até quando irremediavelmente (?) mal servindo a Terceira, sob tutela governamental mas por conta e risco de todos os açorianos…
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Em Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=2447;
RTP-Açores:
http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?article=33960&visual=9&layout=17&tm=41;
Jornal “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 12.10.2013),
e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 17.10.2013).







sexta-feira, outubro 04, 2013


Retórica e Responsabilidade Política

A semana que agora termina foi grandemente marcada pela realização das Eleições Autárquicas e por toda uma subsequente série de exames sobre os seus já mais ou menos previsíveis resultados – embora com relativas surpresas pontuais e globais… –, multiplicando-se assim e depois, em todos os OCS nacionais, regionais e locais, como é habitual, as mais díspares e retóricas conjugações de juízos, avaliações, balanços e (des)culpabilizações sobre os respectivos desenlaces – venturosos uns, desastrosos outros –, conforme as bitolas partidárias, os interesses pessoais e corporativos, e os mecanismos de (auto)imunidade e impunidade institucionais em jogo!


 Todavia – com apenas raras e honrosas excepções, e quaisquer que tenham sido as proveniências ou descendências sociopolíticas, partidárias e ideológicas dos ditos analistas, comentadores e observadores na citada função –, a maioria das opiniões mediaticamente emitidas a este propósito, bastante ao contrário do que antigamente se verificava, procurou nunca problematizar, ou seja nunca tematizar criticamente os motivos ou factores que terão levado a que muitos eleitores e eleitorados (diga-se assim no plural e na sua inerente quando não até antagónica diversidade…) tenham dirigido os seus votos tal qual o fizeram, sem avaliação de uma outrossim obrigatoriamente conjugação de múltiplos factores, dinâmicas (ou inércias!) da cidadania, da autonomia das vontades e de uma esclarecida consciência electiva…

– E foi por esta mesma lacuna fundamental que a maior parte das vezes aquilo a que assistimos, como se de reais observações compreensivas (mesmo que não tendencialmente sequer explicativas …) se tratasse, foi a um mero exercício, mais ou menos formal ou abstracto (meras suposições ou equações cenaristas, afinal…), de outras condicionantes, outros comportamentos, reflexos e atitudes, e outras determinantes sociais, psicológicas, culturais e informativas, estas então própria, concreta e situadamente da ordem (mais observante e objectiva!) da filosofia, da sociologia, da economia e da fenomenologia políticas!

Ora tudo isto naturalmente que haveria de ter feito relativizar, embora não anulasse totalmente, os méritos ou os deméritos de certos resultados alcançados, quando ou porque não apenas, nem principalmente, devidos a convencimentos ou exemplaridades do carácter ético-politicamente provado ou da imagem pessoal, imaginada ou artificialmente construída, de candidatos nascidos das forjas e alforges partidários (aliás ao contrário, nesta vertente, do que aconteceu com alguns dos meritórios movimentos e mobilizações de muitos agora ditos ou feitos independentes…).

– De resto, neste rescaldo das nossas Autárquicas, não faltaram também testemunhos e propostas que despudoradamente raiaram a mais surrealista leitura, ou um despudorado e patético desfasamento político-esquizóide da realidade – veja-se os afoitos (des)nivelamentos de alguns líderes institucionais, de soberania e partidarite aguda… –, a par de ilibações e outras desresponsabilizações de faixas crescentes de tanto eleitorado absorto, falho da percepção fundamentada de objectivos e valores sólidos, – ao contrário, por exemplo, das firmes posições de crescentes extractos da sociedade civil e de tantos eleitores (à esquerda, ao centro e à direita)…

Neste sentido – e tendo em atenção alguns dos fenómenos novos que as últimas eleições e as opções e resultados deles saídos atestaram, como justamente acaba de salientar o IDP (Instituto da Democracia Portuguesa) – é de facto imperioso ver neles e nelas uma forma “ordenada e consistente” de repúdio da “alternância partidocrática em que degenerou a democracia portuguesa”, tanto mais quanto ali fica sinalizado ainda que, não bastando contar com “grupos de cidadãos’ para a “reforma do sistema político”, é também necessário proceder já a “uma restauração dos partidos existentes, do seu modo de liderança e recrutamento, por forma a dar expressão a interesses de grandes grupos populacionais e não de cliques dirigentes”!

– Em todo o caso, agora que foram (mal ou bem, veremos depois…) eleitos novos (e velhos, ou apenas remoçados…) governantes autárquicos, mesmo quando as nossas comunidades possam ser consideradas menos democraticamente preparadas, ou em estado de menoridade de consciência e submissão de vontades (segundo parâmetros objectivos de livre e justa existência societária e personalista, obviamente), como escrevia Julien Freund – é sempre aos agentes e actores políticos que caberá, enquanto ocupantes transitórios de um poder democraticamente instituído mas parcialmente delegado, a principal assumpção das decorrentes responsabilidades, pelo que o mais que se pode dizer aqui, no que concerne a colectividade, enquanto comunidade de eleitores, é que, também ela há-de suportar essa responsabilidade na medida em que primeiramente, ela própria, é que sofrerá “a consequência das decisões inábeis ou más dos seus governantes” escolhidos…
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Em “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 05.10.2013);
Azores Digital:
Outra versão: Escolhas e Responsabilidades,
em «Diário Insular» (Angra do Heroísmo, 05.10.2013).

quinta-feira, setembro 26, 2013


  
As Despedidas de Setembro



Escrevendo a 23 de Setembro, agora, quando já reunia palavras para a evocação de Pablo Neruda (12.07.1907-23.09.1973) – entre nós quase apenas recordado e celebrado pela Fundação José Saramago, em Lisboa –, chega-me a notícia do desaparecimento de António Ramos Rosa (17.10.1924-23.09.2013), um dos grandes Poetas que atravessaram tantos daqueles dias e noites de outrora, de um passado de outra (?) “pátria em trevas”, então com negras condenações e o arrastar opressivo de um pendular “tempo do homem sem melancolia nem extermínio, do tipo arremessado longe do oceano”…, mas onde, todavia, líamos, do primeiro, o seu Canto Geral e as Odes (ao Livro, ao Pão, à Poesia, ao Espaço Marinho, a Walt Whitman…), na tradução de Fernando Assis Pacheco (aliás “muito ajudada” pelo nosso talentoso florentino Pedro da Silveira…), enquanto acompanhávamos, jovens, convictos, graves, comovidos e esperançados, os 20 Poemas de Amor e uma Canção Desesperada do mesmo chileno que dedicaria a Amália Rodrigues um saudoso “querer de amor” (No te quiero sino porque te quiero), depois cantado por Violeta Parra…




Quanto a António Ramos Rosa – também fino ensaísta e crítico de Poesia, Liberdade Livre, e muito notável poeta, referencial e “contenso e vigilante” (como o qualifica António José Saraiva) autor de O Grito Claro, Sobre o Rosto da Terra, A Construção do Corpo, Nos seus Olhos de Silêncio ou Animal Olhar (entre outros) – cuja poética completa revela um puro exercício de escrita lírica, existencial e mesmo metafísica, e uma quase obsessiva procura de visão luminosa e de corporal escuta das coisas, seres, espaços, relevos, proximidades e distâncias movidas todas (como bem notou Eduardo Lourenço) por uma mística vontade “de se unir ao seu próprio corpo para se unir ao corpo do mundo e inversamente” –, dele podendo dizer-se que a interior figura, unida àquela espécie de matura aura (que a respectiva alma em avançada e ascética idade conjuntamente vinha revelando à transparência…), era já bem a incarnada imagem simultaneamente real e ilustrativa daquilo mesmo que na sua última metamorfose ôntica se insinuara nos seus próprios, futuríveis ou antecipados, porém definitivos versos, e se patenteava sempre, como aqui:

Sem palavras, uma palavra o anima
Ao fim da primeira silenciosa descida.
Depois a brancura rodeia-o como uma capa (…).
A cegueira branca não o vence.
(…) A rede em que se enreda e se liberta
reafirma a soberania polar
da inalterável página que desvenda.

– E como havia de não ser assim, nestas despedidas de Setembro, para ambos os Poetas (e para todos os homens afinal), desde os mirantes e alcantis daquela paradigmática Ilha Negra de Pablo Neruda, até aos telúricos promontórios e areais de António Ramos Rosa, identicamente aos daqui abertos sobre os abismos rutilantes do Mar, porém ainda fechados numa Pátria outonal “que sussurra de presença e lonjura”…
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Publicado em Azores Digital:

RTP-Açores:

e Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 28.09.2013):



Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 28.09.2013):


sexta-feira, setembro 20, 2013

O Almanaque dos Rituais
ou A Temporada dos Tartufos



Se há época no almanaque dos rituais ou no calendário do cerimonial cíclico dos modelos de actividade e de militância próprios do desacreditado regime em que vivemos – aliás cada vez mais rotineiro, dispendioso, pouco credível. nada convincente (nem sequer na medonha estética “criativa” de um marketing importado por atacado, de algures!) e aonde um incomparavelmente delirante e patético jogo de imagens e mensagens ganha sempre mais desproporcionado corpo mediático, conquanto oscilando bastante entre a catalisada revelação objectiva de insofismáveis realidades nuas e cruas e a delirante construção ficcional, artificial e mistificadora de factos outrossim sérios, objectivos e exactos…


– Se há assim, vinha a dizer, tal género de temporada (arremedo menor de uma cidadania já de si esquiva e bem pobre!), no estipulado e imposto nosso quadriénio oficial, político-administrativo e autárquico, essa quadra é certamente a das pré-campanhas e tempos eleitorais de propaganda dos partidos e coligações, como esta que agora estamos a atravessar (“cívica e democraticamente”, mas por linhas travessas…), ou que vimos apenas mirando com maior ou menor proximidade, descrença, desinteresse, alheamento ou distância, como se da encenação de um mero espectáculo socio-institucional alienante (já de si alienado!) se tratasse…


E como se não bastasse a preponderante sensação generalizada de que tudo não passa de mais um simulacro ou repetição de antigas operetas, enredos já vistos ou desfechos análogos a outras anteriores “narrativas teatrais”, ainda por cima são-nos tais preclaras peças ensaiadas umas e representadas outras por actores selectos e artistas de carreira e cartaz, oportunistas servos ou trânsfugas recauchutados das sucatas e lixeiras políticas do costume, todos eles (ou, vá lá, muitos deles…) com versáteis talentos para tácticos “roulement” ou alternância apenas nos papéis, telas e teias em urdidura, no chega-te atrás ou adiante dos elencos arrebanhados à má fila, e – enfim – na desfaçatez, ou à-vontade, com que os básicos farsantes desta parada de tipo “lean in” ou “go ahead” prometem vir a prestar-se aos mesmos subsequentes e fiéis seguimentos das vozes (escamoteadas ou escondida do público) no ponto dos seus donos!


De resto, quanto aos tais róis de “lean in” e “go ahead”, bastaria conferir o mimetismo dos ditos slogans, mais ou menos imaginativamente traduzidos, conforme ao que por aí na Net (por exemplo em http://vimeo.com/58176001...) abundante e documentadamente circula em certas ETICs (até com cursos e idênticas nomenclaturas de “Chega-te à frente”…), e tudo assim mesmo dito para espanto de propagandistas de pacotilha e outros originais “criativos”…, para já nem falarmos nas pastiches neo-gestionárias de manuais como o de Sheryl Sandberg (talentosa e dinâmica administradora do Facebook, única mulher no seu conselho de administração e uma das poucas ladies que chegaram a lideranças em Silicon Valley) …

– Não que tenhamos, com certeza, por cá qualquer mítico Vale de Silício, evidentemente, embora não nos faltem, em barda, réplicas menores de directores executivos (chief executive officers/CEOs) e outras versões razoavelmente cosmopolitas ou provincianas, mas sempre de vocação yuppie (young urban professional/jovem profissional urbano), nos conhecidos “nichos de empresas” (públicas e associadas ou mistas), “reprodutivos empreendorismos” e outras pérolas dos fatais destinos e poleiros económico-financeiros que enxameiam o nosso modelo (português continental e autónomo insular, “europeu” e neo-capitalista) de (sub)desenvolvimento – com o qual suposta e saloiamente nos “modernizámos”, crescemos, progredimos e chegámos endividados à crise vigente e galopante… –, até baquearmos, humilhados, de joelhos esfolados, chapéu roto na mão e tutelados, por menoridade culpada, à porta da troika e ao longo desses terminais 25 anos em que recebemos da Europa 156 mil milhões (178 até final deste ano), ou seja 9 milhões de euros por dia, situação agora escalpelizada e debatida em Lisboa num fórum promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Porém o mais grave, no meio deste nacional circo todo e mais proximamente ao pé de nós, é o que, amiúde por demais, fica muito esquecido ou silenciado:

– Endividamentos crescentes das autarquias (a Câmara da Praia da Vitória lá foi a mais 1 milhão!); hipotecas e falências por décadas; estagnação comercial e empresarial; obscurantismos de gestão e inversão de prioridades; falares de barato e impunidades políticas e pessoais de toda a ordem; subserviências partidárias e pessoais; carreirismos planeados e premiados a prazo; entronização de actores medíocres e agentes governamentais de arrepiar; farsas, sofismas e subterfúgios de palmatória (na Saúde o fiasco governamental, consabido mas negado, ultrapassa até o mais elementar receituário do senso comum); o imbróglio, nunca profundamente avaliado, da Universidade dos Açores (conforme muito bem apontou há dias Américo Natalino Viveiros); o inadmissível e já histórico desacompanhamento nacional, regional e terceirense da questão da Base das Lajes (agora foi o caso das demolições!), raiando o escandaloso (veja-se a perceptível e quase completa desatenção e sepulcral omissão na opinião pública e na participação crítica institucional açorianas perante o último Relatório de Ana Gomes à Comissão dos Assuntos Externos do Parlamento Europeu sobre a Dimensão Marítima da Política Comum de Segurança e Defesa (cujo § 37 é mesmo de extrema importância e envolvência para os Açores!), etc., etc., – tudo tristemente entre a coabitação podre de incompetências com absurdas e imprudentes megalomanias (demasiado vazias, vezeiras e abusivas retóricas pseudo-autonómicas), apenas ou quase somente calculadas a curto termo, talhe de foice táctica ou improvisado fio de navalha…


O que resta, o que nos espera e preocupa assim, é o que veremos provavelmente a seguir (e talvez mais depressa do que se imagina), no Almanaque das colheitas e sementeiras do Outono – o dos patriarcas e o dos seus sucessores e herdeiros também … – que, de lá e cá, vem já a caminho e não prometem, nem auguram, nem tangem nada de bom para ninguém!
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Em RTP-Açores:
e Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 21.09.2013).
Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 21.09.2013).

sexta-feira, setembro 13, 2013

As Dívidas e as Remissões

 Conforme previsto, realizou-se no passado dia 11 em Lisboa, na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica (FCH-UCP), uma Mesa-Redonda, subordinada ao pertinente e actual tema “Dívida e Perdão”.

Organizada e promovida pela Área Científica de Filosofia da FCH-UCP – sob a empenhada e competente coordenação de Américo Pereira, Maria Inês Bolinhas e Cecília Tomás (moderadora na transmissão vídeo) –, esta Conferência, que suscitou grande adesão presencial e acompanhamento on-line à distância em Portugal e no Brasil, no sentido de procurar confrontar e integrar diversas abordagens daquela problemática numa perspectiva interdisciplinar, contou com as participações de Mendo Henriques, António Cortês, Vítor Bento, Jerónimo Trigo e César das Neves:

– E foi assim que a referida temática acabou por ser analisada e debatida de modo singular neste fórum aberto, ou não fossem diversas, e por vezes até bem antagónicas, como então ali ficou claramente evidenciado (ou escamoteado!), algumas das mais conhecidas posições teórico-críticas (abstractas e concretas…) habitualmente assumidas e defendidas pelos Conferencistas presentes e academicamente oriundos das áreas da Economia, Direito, Teologia e Filosofia. 



No entanto, apesar da amplitude esboçada nas abalizadas e respectivas exposições, parece que aquele proposto assunto da Dívida (e do seu “Perdão”) mais devia ter suscitado também um outro aprofundamento fundamental e fundamentado da questão da Culpa pela contracção da dita…

– Aliás, mesmo que (intencional ou provisoriamente?) tivesse sido possível retirar dali a questão moral (ou ética) da “culpa” – individualmente perspectivável, e não como qualquer, outro e diferente, mal metafísico original que fosse… –, restaria sempre e ainda um natural imperativo de tematização do apuramento da responsabilidade (sócio-jurídico, política, técnica, estrutural, económica e financeira) e das implicadas e inerentes causas, pressupostos, processos e factores reais (e realistas!) da contracção mais ou menos (in)conscientemente deliberada ou induzida (quando não mesmo objectivamente especulativa, usurária, fraudulenta e criminosa) da visada dívida nossa e da Dívida enquanto fenómeno genérico, como muito bem tentaram apontar alguns dos oradores.

Porém, tanto quanto se constatou, nenhum destes níveis foi ali muito enfrentado, tal como não o foi o problema da “culpabilidade” ou da “culpa” (e também o da sanção propriamente penal…), ao contrário do que vem acontecendo, na penalizadora realidade da crise empírica e quotidiana dos portugueses, com o imposto pagamento comum (digo, pelo Bem Comum, ou – talvez melhor – pelo sistémico mal comum…) e o tutelado resgate colectivo do mesmo endividamento, dito globalmente “nacional”, por parte (tantas e bastas vezes pouco equitativa) de todo o País…

– De resto, tanto à luz do Direito quanto à sombra de um (outro) manto desresponsabilizante, ou de indistinta retribuição tácita – apenas qualificável como Perdão ou Solidariedade por mor de branqueamentos nacionais ou de equidades internacionais dúbias… –, como é que seria moralmente legítimo, ou sequer politico-económicamente justificável, perdoar uma dívida nacional soberana (como a portuguesa) sem um apuramento prévio de imputações jurídico-políticas (ou até jurídico-penais!), estruturais, pessoais e especificamente grupais (partidos e programas políticos, grupos económicos, quadrilhas financeiras, etc.), e sem que antes se consumasse uma espécie de kantiana Crítica da Responsabilidade Impura, ou da Dívida (supostamente) Pura, – a única propedêutica social que talvez pudesse, com Verdade então, ao menos fazer consensual e pacificamente aceitar a partilha dos sacrifícios desta crise, mobilizando então consensual e credivelmente o País para a construção real de um futuro com sentido minimamente promissor e digno para as gerações futuras?

E isto deixando de parte a utopia religiosa ou a esperança messiânica (mais próprias ambas dos frutos e obras de um fraternal e festivo Império do Espírito Santo…)!

– Mas certamente que, para a necessária e urgente reflexão sobre este vasto e plurifacetado tema, a Filosofia (política, moral e económica) muito tem ainda a contribuir, ajudando a mais criticamente pensar para melhor agir, como de novo na nossa UCP exemplarmente o revelaram Mendo Henriques, António Cortês, Vítor Bento e até, na singeleza quase extemporânea (intemporal?) do seu humilde discurso evangélico, o Padre Jerónimo Trigo, – todos eles, como propunha o ali a propósito citado Bernard Lonergan, afinal atentos àquela única comunidade de responsabilidade espiritual e personalista, que firma a Palavra, a Liberdade, a Justiça, a Ética, o Trabalho, a Cultura, a Tradição e a Igualdade essencial de todos homens numa Antropologia não cínica, generosa, compassiva e – enfim, por isso mesmo – autenticamente Cristã.

Porém esse ideário só poderá ser afiançado, sem alienação ou demagogia de interesses, histriónicas gratuidades ou subterfúgios de retorcida (ou falsificada…) teoria económico-financeira, à margem e contra uma retórica neo-liberal, amiúde insolentemente retomadas e apenas banhadas naquelas conhecidas e velhas fórmulas, receitas historicamente falidas e cruelmente predatórias, que oprimem as vidas pobres ou exploradas, ultrajam os rostos frágeis do próximo e tentam subjugar a resistente e memorial consciência dos Povos.
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Publicado em Azores Digital:

RTP-Açores:
e Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada).
Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 14.09.2013).

quinta-feira, setembro 05, 2013

Açorianos José Enes e Daniel de Sá
evocados na Revista “Nova Águia”




A Revista “Nova Águia”, publicada em Lisboa pelas Edições Zéfiro, irá evocar nos seus próximos números doze (a lançar dentro de um mês) e treze (a sair no início de 2014) a vida e obra dos açorianos José Enes e Daniel de Sá, com textos dos ensaístas e investigadores Miguel Real e Eduardo Ferraz da Rosa.

A “Nova Águia” – Revista de Cultura para o Século XXI, actualmente dirigida por Renato Epifânio, Miguel Real e Luísa Janeirinho, é uma publicação que retoma o ideário do chamado Movimento da Renascença Portuguesa  (que integrou e foi liderado, entre outros grandes vultos poéticos e intelectuais portugueses do Século XX, por Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, António Carneiro, António Sérgio, Fernando Pessoa, Leonardo Coimbra e Agostinho da Silva).

Órgão do Movimento Internacional Lusófono (MIL), a “Nova Águia” (http://novaaguia.blogspot.pt/), conforme consta no seu Site e respectivo Índice divulgado, dedicará esta próxima edição (nº. 12) especialmente, com mais de uma dezena de ensaios temáticos e outra documentação inédita, ao pensador, escritor e filósofo português António Quadros (1923-1993), cujo vigésimo aniversário da morte decorre este ano e que é ali considerado como o “rosto mais visível da filosofia portuguesa”.

– Licenciado em Histórico-Filosóficas, António Quadros fundou o Instituto de Arte, Decoração e Design (IADE), foi director das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Gulbenkian e dirigiu as revistas de cultura Acto,  57 e Espiral. Autor de vasta obra histórico-literária, filosófica, estética, crítica e ficcionista, tendo pertencido ao Grupo da Filosofia Portuguesa entre outros, com Álvaro Ribeiro, José Marinho, Afonso Botelho e Cunha Leão), foi tradutor de Camus, Maurois, Cocteau e Duhamel, correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Brasileira de Filosofia, e membro da INSEA (International Society for Education Through Art), órgão consultivo da UNESCO, da qual foi delegado em Portugal até 1981.

Todavia e a par do autor de O Movimento do Homem (1963) e Memórias das Origens, Saudades do Futuro (1992), relembrados são também nas suas mais de 250 páginas outros autores, significativas efemérides e obras culturais, filosóficas, poéticas e históricas: Silvestre Pinheiro Ferreira (bicentenário das Prelecções), Orlando Vitorino, Eduardo Abranches de Soveral, Kierkegaard, António José Saraiva, José Mattoso, Cesário Verde, Fernando Pessoa, Dalila Pereira da Costa, Heraldo Barbuy, Daniel de Sá e José Enes, que são abordados, entre muitos e diversos Colaboradores deste número da revista por Pinharanda Gomes, Afonso Rocha, José Gama, Rodrigo Sobral Cunha, Miguel Real, Samuel Dimas, António Braz Teixeira, Nuno Sotto Mayor Ferrão, José Lança-Coelho, António Telmo, Manuel Ferreira Patrício, Eduardo Ferraz da Rosa e Adriano Moreira (com um texto sobre “O Futuro de Portugal”).

– No que se refere a Daniel de Sá (1944-2013) e José Enes (1924-2013) as suas vidas e obras são assim e agora ali retomadas (e continuarão a ser depois sucessivamente evocadas) na “Nova Águia” por Eduardo Ferraz da Rosa (que escreve neste nº. 12 sobre Daniel de Sá e no nº. 13 sobre José Enes), e por Miguel Real, nesta edição já com o artigo “Arte e Moral: No Ano da Morte de José Enes”, onde é analisada a reflexão estética do filósofo açoriano de A Autonomia da Arte.

O lançamento deste nº. 12 da “Nova Águia” terá lugar dia 15 de Outubro próximo, no Palácio da Independência (Largo de S. Domingos) em Lisboa, sede da Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP) e do Movimento Internacional Lusófono (http://movimentolusofono.wordpress.com/).
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Publicado em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 06.09.2013):
http://www.diariodosacores.pt/:


Azores Digital:




domingo, setembro 01, 2013

José Enes ou A Filosofia
como Projecto de Vida

1. Mal sabia eu ao rumar à ilha de Ramon Llull que o meu querido Prof. José Enes deixaria nesse dia a terrena casa do ser, – aquela que na mais profunda raiz da nossa condição existencial tanto configura o sentido contingente, o destino e o estatuto ontológico da “finitude dos limites” do homo viator, como é condição de possibilidade do acesso novíssimo à Porta daquele Futuro Absoluto em cuja Transcendência cremos e confiamos, enquanto na consciência reflexa e nos seus signos – no silêncio matutino da Poesia ou nos verbos e metáforas da Filosofia – expectantemente questionamos se “a aridez deste deserto/chamará pelas fontes”…

Agora – para breve testemunho deste excepcional pensador português, para além do que antes escrevi –, que mais hei-de evocar dos anos em que privei e do muito que académica e cientificamente aprendi, culturalmente trabalhei e partilhei com ele, na Universidade, na sociedade e na fraterna intimidade da Família?

– Na impossibilidade de o dizer aqui de outro ampliado modo, como ele o merecerá sempre, saudosamente relembro hoje a lucidez orientadora das suas palavras generosas, os gestos paternais, a luminosidade inspiradora do pensamento vivo, a brilhante recriação hermenêutica das linguagens, a firmeza ética do carácter pessoal e institucional, – todos na exemplaridade cônscia do seu espírito filosófico, do seu universal saber integrado e da sua inquieta e inconsútil alma açoriana.




2. Passam agora mais de 20 anos sobre a justíssima Homenagem que a Câmara de Ponta Delgada prestou ao Prof. José Enes, concedendo-lhe então (1992) o merecido estatuto de Cidadão Honorário daquela maior cidade dos Açores – louvável iniciativa que aliás viria a ser seguida, em 1999, pelas Lajes do Pico (em cujo concelho, na freguesia da Silveira, o homenageado nascera a 18.08.1924) – e dando depois, em 2005, o nome daquele verdadeiro fundador, primeiro e Magnífico Reitor da nossa Universidade a uma das novas praças da zona “Urbe Oceanus” do município, sendo sua presidente Berta Cabral, – entidades autárquicas açorianas que assim figuram entre todas as que reconhecida e publicamente o louvaram em vida.

Por outro lado e a par ainda daqueles justos agraciamentos, recordo os do Corpo Nacional de Escutas (que lhe atribuiu, em 1958, a Medalha de Ouro de Gratidão pela sua liderante introdução do Escutismo Católico no Seminário de Angra); da Universidade de Rhode Island (Doutoramento Honoris Causa, em 1978); da Universidade Aberta (da qual Vice-Reitor e que lhe concedeu a respectiva Medalha de Ouro, em 1994), e – enfim … – da Presidência da República Portuguesa, que o condecorou sucessivamente com os Graus de “Grande Oficial da Ordem do Infante” (1964) e da “Ordem da Instrução Pública” (1983).

Quanto à Universidade dos Açores, saliente-se os louvores académicos que lhe foram prestados em 2005 (sendo Reitor Avelino Meneses), altura em que foi publicado, sob coordenação de José Luís Brandão da Luz, o esmerado e significativo volume Caminhos do Pensamento, Estudos de Homenagem ao Professor José Enes, no qual colaboraram alguns dos estudiosos da sua Obra, e outros discípulos, colegas e amigos nossos.

3. Hoje, estando a decorrer exactamente um mês sobre a data do falecimento (1 de Agosto) daquele que foi uma das mais distintas personalidades intelectuais, literárias, institucionais, académicas, sociais, culturais e espirituais da sociedade açoriana da segunda metade do Século XX, e não tendo eu podido deixar antes o solicitado e devido testemunho sobre a Vida e Obra do Prof. José Enes, a quando e a propósito daquela triste ocorrência, aqui ficam então agora estas palavras, intencionalmente retomando para tal e quase na íntegra também o texto mesmo de uma anterior e já distante evocação de há 20 anos, porém relido e novamente subscrito o seu conteúdo à luz das presentes circunstâncias e na planeada sequência daquilo que, semanas atrás, nestas colunas vinha abordando sobre algumas das mais relevantes dinâmicas societárias da vida dos Açores, onde José Enes desempenhou um papel absolutamente ímpar e talvez insuperável!

De resto e para além do mais, estas notas não podem esquecer – mas todavia ressalvam a preceito da respeitável efeméride actual – muito daquilo que, por entre ventos e marés, foi tantas vezes invejosa ou despeitadamente movido ao Prof. José Enes – intolerantes dissensões doutrinárias e ideológicas, incompreensões e tentativas de incendiários libelos (recordáveis por entre machadadas obscuras…), venenos à falsa fé ou a coberto de seráficas e invertebradas letras e tretas, etc. –, todos a modos de ignóbeis, rasteiros e quase expatriantes golpázios, apenas para escusado e interesseiro conluio ou tentativa frustrada de silenciamento pessoal e político-institucional por parte de tantos daqueles que, agora, deixam cair no proscénio do cinismo nacional, regional e local a hipócrita lágrima da mais repugnante compunção póstuma sobre os seus inegáveis e aproveitados legados, fundamentados projectos ou indicativas utopias concretas…

4. Assistente que fui do Prof. José Enes, durante anos, na Universidade dos Açores (na leccionação das Cadeiras de Ontologia e Axiologia e Ética); orientado por ele para Provas de Aptidão Pedagógica e Capacidade Científica; companheiro e acompanhante de prospectivos trabalhos no seu tão empenhativo CERIE (Centro de Estudos de Relações Internacionais e Estratégia); privilegiado merecedor da sua generosa, paternal e fraterna Amizade, daquela espécie de íntima e sapiente tutoria filosófica e humana do seu profundo e complexo saber comprometido, e da sua densa e partilhada experiência de vida, – é-me difícil dar, em poucas linhas, depoimento adequado à estatura do Filósofo de À Porta do Ser (1969), Linguagem e Ser (1983) e Noeticidade e Ontologia (1999); do Crítico e Ensaísta de Estudos e Ensaios (1982) e Autonomia da Arte (1965); do Poeta de Água do Mar e do Céu; do sistemático estudioso, teórico comprometido e prático militante da dominância das origens da Açorianidade e na Autonomia, para já nem falar nas suas propedêuticas teoréticas e reflexões exegéticas nas esferas da Teologia, Fenomenologia da Religião, Poética Literária (Roberto Mesquita, Pessoa e Nemésio), Sociologia, Filosofia da Ciência, História da Cultura e Filosofia Social e Política.

– De resto, tanto na Educação e no Ensino diocesanos e no Magistério Universitário (Universidade Católica, Universidade dos Açores e Universidade Aberta), quanto através de Conferências, Traduções e Investigações filosóficas e multidisciplinares, sempre José Enes ocupou e ocupará lugar cimeiro na inteligência da Cultura e da Identidade portuguesas, nomeadamente no particular horizonte temático de um original e inovador jeito de Pensar, perspectivado a partir de problematizáveis primórdios e prosseguimentos escolásticos e tomistas (Aristóteles, Tomás de Aquino, Pedro da Fonseca, Suárez, António Cordeiro, Hoenen…), mas depois logo, como identicamente detectou Gustavo de Fraga, num “diálogo filosófico de que ficarão resultados e vestígios seguros na nossa linguagem filosófica e literária”, mormente no confronto crítico, categorial e discursivo, com Heidegger, Kant, Descartes, Hegel e Ricoeur.


5. Figura cimeira, liderante e referencial de uma geração de Açorianos ilustres e empenhados na nossa comunidade insular e autonómica, e na nossa comunidade de destino, pátria e civilização, a ele se deve, a par do imenso labor da reflexão intelectual, uma esforçada e multímoda acção prática, ambas conseguidas no contexto possível das diferentes e mutáveis circunstâncias orgânicas e das conjunturas históricas e mentais do tempo em que viveu…

E assim aconteceu ainda, como já aqui salientei anteriormente, no âmbito pioneiro das Semanas de Estudos dos Açores, nos círculos e centros pedagógicos e associativos diocesanos da renovação conciliar e socio-espiritual Católica (Cursos de Cristandade, especialmente), no Suplementarismo Cultural (“A União”), na produção e no movimento editorial e artístico nacional e dos Institutos Culturais dos Açores, etc., aonde a contribuição de José Enes foi decisiva (e mantém-se contemporaneamente válida!) para aquilo que ele próprio definiu e sintetizou como sendo a elaboração do pensamento da nossa sociedade.

– Ora todo esse projecto comunitário e institucional, simultaneamente teórico, técnico e prático, também foi, é e deve continuar a ser, uma procura de formulação explícita e sistemática da experiência histórica de sociedade açoriana, com vista à sua integral evolução e ao seu desenvolvimento cultural, científico e educativo, socioeconómico, político-administrativo e espiritual!

Porém, mais do que a minha discursividade valerá ouvir a sua, na formulação da intencionalidade precisiva das dinâmicas e das virtualidades de um saber integrado e de uma prática lúcida, para fundamentação segura e competente efectivação de tudo aquilo que neste domínio pode e deve emancipadoramente ser esperado:

– “No processo histórico as decisões são tomadas mediante a interpretação das potencialidades que estabelecem o fluxo causativo dos acontecimentos. O devir do acontecer histórico é formalmente constituído pelo discurso da razão hermenêutica e pelo discurso da razão prática. E são as razões fundamentantes da razão hermenêutica e as razões motivantes da razão prática que formam e dão consistência àquilo a que se costuma chamar o destino de uma sociedade ou a sua vocação histórica, ou o seu papel na história, entendidas, é claro, estas expressões como denotativas de entidades formalmente históricas.

“Ao longo do seu percurso histórico e sob o aguilhão dos obstáculos e dos percalços, vão-se aquelas razões armando com as categorias e os argumentos dos seus respectivos discursos.
“E à medida que o nível cultural da sociedade sobe e que no seu seio surgem homens dotados de alto poder de cerebração, aqueles conceitos e raciocínios se vão explicitamente formalizando e tendendo para a recíproca integração num sistema. Assim se vai formando aquilo a que se dá o nome de pensamento de uma sociedade. Isto é: o pensamento da sociedade sobre si mesma e que ela forma através da sua experiência histórica”.

E concluía o Prof. José Enes no texto que venho tendo em atenção:

“Parafraseando [Unamuno] nós poderemos chamar aos Açores o miradoiro atlântico da nossa visão de Portugal. Por força da em nós vigente transcendentalidade da proto-história dos Açores, para usar a expressão nemesiana, a nossa perspectiva atlântica é de facto essencial para a descoberta dos vectores mais autênticos da historicidade portuguesa”.

E também assim, por tudo e para tudo isto, é que toda a Obra de José Enes representa um legado precioso e será sempre um factor de enriquecimento e um ponto de luminosa referência na construção e na ultrapassagem históricas da consciência e da auto-consciência dos Açores, perante todos os desafios, impasses ou retrocessos do presente ou do futuro… Mas para tal é necessário conhecê-la, estudá-la, divulgá-la e pensar com ela, para – na medida do possível (face a tantas das condicionantes e indigências actuais a que estamos amarrados…) – levá-la à vantajosa e crítica frutificação real, renovada e sistemática!

– Será essa certamente a melhor homenagem que o País, os Açores e os Açorianos de boa e racional vontade lhe poderão gratamente vir a prestar, respeitando a sua memória e partilhando a força meditativa e crítica do seu espírito, quando ele já não está – apenas ao (a)parecer fenoménico, digo, como não sendo do mesmo modo, isto é, ontológica e existencialmente configurado como dantes – agora, ainda vivo e presente, entre nós…

Angra do Heroísmo, 1 de Setembro de 2013
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Em Jornal "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 01.09.2013).
Versão parcial em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 01.09.2013).
Um extracto deste texto (§ 1) foi também publicado no Suplemento de Homenagem ao Prof. José Enes, publicado pelo Jornal "Correio dos Açores" (Ponta Delgada, 01.09.2013), com o título A Exemplaridade do Espírito.

sábado, agosto 31, 2013

Os Idiomas e as Labaredas

Denominada “silly season”, esta época é assim chamada para adjectivar o Verão e os seus ritmos calmosos, como se existências activas e consciências despertas ficassem tolhidas por sonolências lentas ou abúlicas, com perda de noção das realidades e alienação de problemas quotidianos.


– Porém, nesta altura em que muitos procuram usufruir de retemperante e merecido descanso, aquela denominação é sobretudo usada na gíria social e jornalística para designar uma quadra em que nada de importante e decisivo supostamente se mostraria, ou aparenta (não) acontecer, enquanto a classe política (capital actora da dita silliness, idiotia ou folly, quando não crónica loucura…) vai a banhos ou vem de vilegiaturas desopilantes, até ao inescapável regresso àquela prudente queda na real (que dá pelo teatral nome de “rentrée”).



Ora neste final de Agosto, com o País ardendo e queimando vidas e bens, por cá (onde fica, accionável a todo o momento, a Base das Lajes…) – para não falarmos já das frenéticas ideias, peregrinas mensagens e belas declarações de intenção autárquica (das quais os discursos e cartazes vão ficando já recheados e as labaredas do inferno estão sempre cheias…) –, aquilo a que de mais dramático vamos assistindo – não tanto de palanque (como nas nossas remansosas touradas) quanto possivelmente a caminho de mundialmente tornarmos o orbitar aquele olho do furacão muito bem analisado no Editorial do jornal terceirense “Diário Insular” de 30 de Agosto – é o que sobre a Síria cresce a todo o segundo, por entre desencontradas e contraditórias versões diplomáticas e estratégicas, enquanto se aguarda o resultado das investigações da ONU e crescem contestações e reservas relativamente às inclinações, ditas “punitivas” do regime totalitário de Assad, pelos teleguiados drones, mísseis e aviões dos EUA e da França, conquanto ambos vacilantes (ou retardatários…) e em impasse (isolamento…) acelerado face ao recuo britânico, às demarcações árabes, russas e iranianas, às cautelas israelitas e às incertezas e riscos globais de tal campanha militar!


– Por tudo isso é que convém permanecermos atentos e críticos, por entre todos os idiomas alheios e as labaredas próprias deste final de Verão que não augura nada de bom…
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Em Azores Digital:
Jornal “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 31.08.2013);
RTP-Açores:
http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?headline=14&visual=10
e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 03.09.2013).



sexta-feira, julho 26, 2013


As manchetes de Machete


O desenlace (ou sua continuação, por meios alternativos…) do real ou simulado conluio (conúbio ou tácito acordo prático e de princípios, pressupostos ideológicos, afinidades programáticas e sintonias jurídico-institucionais) do rocambolesco episódio irresponsavelmente gerado no próprio seio do governo PSD/CDS-PP, entre outros efeitos quase inesperados, conquanto mais ou menos previsíveis – se é que não até sub-repticiamente induzidos com cálculo preciso, naquilo e da forma como se constatou –, conduziu agora à sintomática, última e significativa remodelação do executivo da coligação no poder em Portugal.



– E foi assim que tal remexida político-partidária (muito para consumo e tentativa de apaziguamento internos) acabou levada (qual “farinha Amparo”…) das mós da Lapa e do Caldas até Belém, onde acabou vendida e distribuída para todo um atónito País (sob a forma de apadrinhados pastéis de Belém…), e desde o Largo do Rato (onde coabitam Seguros e Pintos de Sousa a mútuo prazo) até às nossas baías insulares (onde desembarcaram e ainda pululam as mais desvairadas gentes)!

Todavia, de entre todos os nomes recém ministriados, o que maior manchete tornou a granjear foi certamente o de Rui Machete (Negócios Estrangeiros), o todo poderoso e controverso ex-senhor da FLAD, de quem os norte-americanos, há dois ou três anos apenas, diziam do piorio que imaginar se vira – conforme ainda se consegue (re)ler aqui,
para já nem recontar o que Vamberto Freitas recordou dos seus tempos de correspondente do DN na Califórnia…


– Mas seja como for, de todos os ministros e secretários de Estado de Lisboa, não há dúvida que Rui Machete, a par dos das Finanças e da Defesa (onde permanece Berta Cabral), há-de certamente merecer dos Açores uma dialogada atenção (e uma redobrada vigilância…), ou não se cruzassem nos seus corredores nacionais e gabinetes internacionais muitas das pistas, créditos, descréditos, rotas estratégicas e diplomáticas que sobre as nossas Lajes se cruzam e descruzam!
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sexta-feira, julho 19, 2013

As Filosofias de V. Gaspar



Numa muito significativa Entrevista concedida no passado mês de Abril ao programa “Sociedade das Nações” (transmitido e conduzido na SIC pelo politólogo Nuno Rogeiro e pelo jornalista Martim Cabral), Vítor Gaspar – antigo ministro das Finanças do já então periclitante governo do PSD/CDS-PP (e dos ainda actuais líderes daqueles partidos, Passos Coelho e Paulo Portas) – desenvolveu todo um notável e pouco vulgar (conquanto não totalmente surpreendente…) discurso técnico, político-económico, cultural e pontualmente filosófico, cujos vários conteúdos argumentativos (mais ou menos retóricos…), conquanto incidindo em especial sobre Economia (especialidade académica, área profissional e pelouro da sua entretanto demitida governança), em muito ultrapassaram os cingidos horizontes daquela ciência social e também o vulgar arrazoado (lugares comuns, frases feitas e chavões) da gíria quotidianamente papagueada nos espaços públicos (nacionais, regionais e locais!), sem real domínio da matéria falada, pela maior parte da baixa classe político-partidária que vem conduzindo o nosso País, há décadas, para ruínas de soberania e dívidas soberanas, ambas historicamente suicidárias e de dramático sacrifício para as futuras gerações!

– Todavia e para além do mais, aquele diálogo televisivo constituiu excelente documentário sobre o entendimento e as estratégias teórico-práticas que V. Gaspar liderava e vinha fazendo assumir pela coligação de centro-direita no poder, embora, pelos vistos e pelo menos parcialmente, nem ele tenha hoje as mesmas ideias, certezas ou esperanças sobre as ditas e conjugadas crises europeias e nacionais; sobre o corrente (e não sabemos até quando, nem em que moldes, vigente) programa de assistência financeira e de tutela político-económica ao nosso País, e – enfim – sobre as perspectivas de austeridade e consolidação orçamental que Portugal e os restantes Estados da zona euro enfrentam a curto, médio e longo prazo…

E é assim que, tanto apesar de, como, precisamente, por essa mesma qualidade, aquele testemunho do ex-ministro das Finanças continua a merecer ser visto e muito mais detalhadamente analisado do que surpreendentemente o (não) foi em nenhum órgão da lusa praça e dos seus estafados, oficiais ou oficiosos lugares de “comentário”…, – desde as inefáveis congeminações palpitantes (supostamente sempre doutas, argutas e objectivas!) do prof. Marcelo, às expeditas previsões/anúncios premonitórios de M. Mendes, ou à desfaçatez canalizada do reencenado poiso do J. Sócrates (com as suas respectivas, ressabiadas ou serôdias refutações, obscuros ressentimentos e desmemoriados arroubos tácticos “socialistas”, dos quais, aliás, um PS minado e reincidente foi, é, e tornará a ser primeira vítima culpada)!

– Mas seja como for, verdade é que aquele debate é mesmo digno de ser visionado por todos e por tudo o que revela, oculta ou dissimula daquilo que, à oscilante beira do embuste ou da patética e improvisada (des)informação, não há muito, se tentou fazer circular por entre moedas verdadeiras e patacos falsos!

Porém, se quanto ao (in)sucesso autoconfessado da política económica e social do governo – que naquele ministro teve um dos seus mais plenipotenciários e cimeiros oficiantes encartados – estaremos entendidos, restar-nos-ia ainda curiosamente rever as sintomáticas declarações e cruzadas cartilhas – imagine-se! – da teoria económica e financeira (Michael Mussa, Walter Bagehof e Nouriel Roubini…), da familiar (?) literatura filosófica (Habermas e Foucault…) e da música barroca (a ópera Ariodante, de Haendel…), – (todas) citadas e com as quais o nosso intelectual ministro demissionário tanto fidedignamente confessou amiúde conviver…, pesem evidentemente os lapsos ou imprecisões (como aquela, por ele inventada, história de um suposto “debate” em Berkeley – que de facto nunca chegou sequer a existir… – entre os autores de O Discurso Filosófico da Modernidade e de O Governo de Si e dos Outros, para além, segundo esteve também apenas previsto, de Charles Taylor, Rorty, H. Dreyfus e Paul Rabinow, em 1984, ano da própria morte de Foucault...)!

– Contudo e mesmo assim, por entre pistas e despistes que à nossa volta se teceu e entretecem de novo, talvez que com isso compreendamos melhor a agenda perdida, aleijada e alijada de V. Gaspar, farto e desencantado das alegadas omissões e tergiversações do meio caudilho que hoje é Passos Coelho (para demérito do saudoso partido de Sá Carneiro), e do outro, esse pequeno dândi feirante que é Portas (politicamente travestido e empolado no que lhe falta de credibilidade até para réplica menor de um passional e ambicioso condottieri…), deslustrado ou mal disfarçado embaraço que se tornou ele próprio para um atordoado e amordaçado CDS (que já foi de Adelino Amaro da Costa e Adriano Moreira…)!
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