quinta-feira, fevereiro 20, 2014



As carapuças de Capucho


O teatro político-partidário nacional foi há dias animado pela expulsão de uma leva de filiados no PSD, com destaque para o seu dirigente “histórico” António d’Orey Capucho, – facto que motivou comentários a rodos nos órgãos de Comunicação Social e nas Redes Sociais, não faltando até, em alarmado coro, inúmeras análises, protestos e/ou congratulações de grupos, comentadores e lobbies vindos à cena denunciar mais uma das degenerescências da partidária vida lusa (facto em si indiscutível!), e mais purgas anti-democráticas, benfeitorias e/ou saneamentos, zelos jurídico-penais e insólitos exageros de letra, – tudo conforme as bitolas, juízos e interesses em jogo na costumeira febre com que tais dramas sempre tangem sensíveis cordas e nervos num país que quotidianamente se esfrangalha...


– E assim foi, tanto mais quanto, no caso António Capucho, dourados são os seus lembrados brasões, emblemática figura que ele é do nosso democrático panteão ante (oposicionistas tempos da CEUD e da CDE) e pós-abrilino (fundação do PPD de Sá Carneiro)..., pelo que ainda a propósito das suas probas barbichas e/ou méritos não faltaram ditirambos abonatórios pelo tanto que ele lavrou em altos serviços dedicados à governação, à Pátria e ao mundo (detentor que aliás é da Grã-Cruz da Ordem do Infante e Comendador das Ordens de Mérito do Luxemburgo e Espanha)!

Acontece porém que este cavalheiro da velha guarda social-democrata resolveu alinhar eleitoralmente contra o seu próprio partido, em cujas listas antes desejou concorrer para vir a ser nada mais nada menos que presidente da Assembleia da República (ambição ardente e perdida a favor de Fernando Nobre, também este iluminado cidadão, ainda hoje, tal como ele, insistindo em que tem “perfil” para Presidente da República, o mais alto grau e a mais excelsa magistratura da Nação)...



Porém, fatalmente, lá acabou António d’Orey Capucho banido da impoluta falange de Passos, Relvas, Isaltino & Cia. Lda. (conforme estipulam Estatutos do partido que ele bem conhece e que ajudou a tecer), por ter andado dentro e fora, faca na liga, olho na Lapa, fisga aqui, mira acolá, lutando contra a sua própria camisola interior (encoberta por outra provisoriamente envergada, até ver), mas... enfim, ligado ao PSD, filiado a balancé (ou apenas em suspensão preventiva, sabática ou temporária, pouco adiantando aqui tão subtis véus?).


– Ao menos, por ora, quem ficou de capuz enfiado quando o PSD tentou “punir” os nossos Deputados Açorianos (de resto em coerência totalmente diferente!), não terá pio a abrir em toda esta carapuçada, já entretanto a caminho e ensaiando novos fracassos institucionais e pessoais no seu carnavalesco bailinho partidocrático...
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 21.02.2014):



sábado, fevereiro 15, 2014



Ordem para Destroçar!


– Não há dúvida que causou muito alvoroço a Entrevista do Tenente-General José Eduardo Garcia Leandro a Maria Flor Pedroso na Antena 1, podendo ser consultada aqui:

http://www.rtp.pt/antena1/?t=Entrevista-a-Garcia-Leandro.rtp&article=7432&visual=11&tm=16&headline=13



Decorrido pouco tempo sobre a oportunidade que tive de escutar a sua distinta intervenção da Sessão de Homenagem (Lisboa, 25.11.2013) ao General Ramalho Eanes, foi novamente com atenção e agrado que pude seguir esse frontal depoimento, atendendo tanto à conhecida personalidade e distinta folha de serviços técnico-militares, político-institucionais e académicos daquele ilustre Oficial General, quanto ao bem pertinente conteúdo das suas análises sobre a vida do nosso País.

– Nascido em Luanda (1940), aluno do Colégio Militar (1950-57), tendo servido em Angola (1962/64 e 70/72, Guiné (65/67) e Timor (68/70), o TGEN Garcia Leandro foi ainda Governador de Macau (1974/79).


Professor dos Institutos de Estudos Militares, Ciências Sociais e Políticas, Ciências de Informação e Administração, e das Universidades Nova, Autónoma e Católica; Director dos Altos Estudos Militares; Vice-Chefe do EME; Director do IDN e Presidente do Conselho Coordenador do Ensino Superior Militar, Garcia Leandro desempenhou altas funções junto da NATO e como Comandante da Componente Militar da Missão ONU para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO).




– Investigador e especialista em Estratégia, Relações Internacionais, Gestão de Crises e Missões de Apoio à Paz, este Tenente-General do Exército é também autor de diversos estudos, ensaios, artigos e livros sobre Sistemas Colectivos de Segurança e Defesa Nacional.



O General Garcia Leandro é ainda prestigiado Membro do Conselho de Curadores do IDP – Instituto da Democracia Portuguesa (http://idportuguesa.pt/), participante em inúmeras acções no âmbito deste Instituto e seu representante na PASC (Plataforma Activa da Sociedade Civil).


Ora de todas as matérias abordadas na referida Entrevista (na quase totalidade sobre os múltiplos, interligados e graves problemas com que se debatem a Instituição Militar e os militares portugueses, no quadro geral da organização, funcionamento e responsabilidades do Estado...), acabaram por ganhar destaque político-mediático as duríssimas (impiedosas!) críticas que o General Garcia Leandro fez ao Ministro da Defesa, acusando-o de falhar “em tudo”, e dando conta, alegadamente confessada pelo próprio, do seu – dele, Aguiar Branco, evidentemente – total desconhecimento e impreparação para o cargo que agora ocupa, porquanto o mesmo Ministro de Passos e Portas até lhe teria mesmo confiado que de Defesa nada percebia, coisa que, branco no cinzento, logo o seu gabinete veio mesmo jocosamente desmentir, nos seguintes termos:

– “O ministro da Defesa Nacional teve o prazer da sua companhia uma única vez, ao longo do mandato e em momento algum foi proferida a frase que bombasticamente lhe é imputada ou as restantes considerações relatadas pelo senhor Tenente-General”!


E depois, mais ironicamente ainda se adiantou:

– “O Tenente-General Garcia Leandro não é seu assessor, amigo pessoal ou confidente", e "reconhece[-se] não ter sido possível acomodar, no processo de reforma em curso, as muitas vontades do senhor Tenente-General mas lembra[-se] que não é ministro com a tutela das preferências pessoais do senhor Tenente-General Garcia Leandro"...


De facto, o assunto, como ali foi dito, não passaria de azedas trocas de acusações por entre “asneiras” em série de uns e justificadas “desesperanças” de outros, não fosse o muito descontentamento que pelas nossas competentes Chefias Militares e pela actual Defesa Nacional vai marchando e desfilando, desde surpreendentes escolhas paisano-partidárias (como a de Berta Cabral – por muito que nos custe dizê-lo aqui... – que também deve perceber tanto – ou um pouco mais? – de Defesa que Aguiar Branco...), até às negociações político-diplomáticas e militares que envolvem Acordos de Cooperação internacional por conta (e risco!) da Base das Lajes... –, porém igualmente passando pelas rebaixadas carreiras, recursos e periclitantes assistências aos militares e ex-combatentes –, de tal calibre que, por estas e equiparadas manobras, sem sequer ser preciso consultar, entre outras, a AOFA (Associação de Oficiais das Forças Armadas), com novas e acrescidas evidências diárias e em crescendo... se comprova que estamos mesmo bem entregues e defendidos, como País “soberano” e como Região “autónoma”, sem qualquer dúvida e com certeza, na casa portuguesa, nos quartéis e nas casernas guardadas por estes graduados e arrogantes políticos de punho de papelão...


 – Ou não será que a estes rasos, sem continência sequer, mandá-los já destroçar da parada governamental em Lisboa, ainda era pouco?! 
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Em RTP-Açores:















Azores Digital:



















e “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 15.02.2014):




Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 15.02.2014):



segunda-feira, fevereiro 10, 2014



Um Cenário de Debates
com Sentimento de Pertença




1. Sábado, 8 de Fevereiro, com o workshop “Evolução e Futuro da Autonomia Açoriana”, iniciou o PSD-A na ilha Terceira (Angra do Heroísmo) uma série de anunciados diálogos abertos e debates públicos, certamente com vista a mais dotar o partido (dirigentes, activistas e quadros actuais, um ou outro dos seus ideólogos ou teóricos em funções, e alguns dos seus simpatizantes e eleitores em geral) com restaurada reflexão e aprofundado acervo de valores sobre a Autonomia, no quadro de tudo o que vem emergindo e evoluindo no mapa global e integrado da Europa e do Mundo.

– Trata-se de um projecto que tem justificação e mérito expectáveis em princípio, embora a sua modelação, prioridade temática e respectivos efeitos práticos e estratégicos permaneçam ainda por clarificar, tanto mais quanto a chamada à mesa de certos nomes, actores e intervenientes político-institucionais e partidários de vários quadrantes (na maioria, por ora, com díspares percursos e empenhos sobejamente conhecidos e comprometidos nas reais voltas, reviravoltas e rumos desde sempre decisórios na Região, com excepção do PCP), traz a esta ronda tanto potenciais de reflexão crítica quanto riscos de acabar por traduzir-se em novel cenário, mais ou menos competentemente moderado, apenas para mediatização e só à medida daquilo que já antes se determinou, ou venha a querer depois, alegadamente por consenso, consumar.

De resto, a verdade é que alguns efémeros e somente convencionados ensaios prévios de agitação de ideias, ideais e acções na roda de similares ementários nunca propiciaram frutuosa colheita entre nós, ou, tendo-a armazenado em acomodadas e furadas arcas, dela pouco se viu ou tirou partido nos partidos e fora deles...

– Ou valerá a pena lembrar o sobrevindo com tantos Gabinetes “de Estudo” e Grupos “de Trabalho” para isto, aquilo e aqueloutro, a sério ou para mera propaganda de cartilhas e tabuadas, num devoto coaxar à beira de tanques (think tanks...) eticamente secos ou mentalmente estagnados, aonde as águas continuam paradas, com idêntico lodo ao fundo!?

Seja como for, parece razoável dar a tais iniciativas (esta do PSD e depois as do PS...) um esperançoso voto de sucesso, para bem dos Açores e apuro de quem mais digno e capaz se revelará para fazer progredir, com justiça, racionalidade e firmeza, a nossa Autonomia!


2. Já depois de escrito este texto, tive oportunidade de assistir, com gosto e por amável convite do Organização, ao Colóquio aqui referido, que contou, nos respectivos Painéis, com os apreciáveis e mutuamente complementares contributos de Álvaro Monjardino, Carlos Raulino, Cunha de Oliveira, Dionísio Sousa, José Decq Mota, Mota Amaral, Reis Leite e Weber Machado, com moderação de José Lourenço e Vítor Alves.

– Pelo nível intelectual e cordialidade política e democrática, pertinência crítica, seriedade cívica e sinceridade pessoal dos trabalhos ali apresentados, não posso deixar de pronunciar aqui uma palavra de justo reconhecimento e justificado louvor a Duarte Freitas e ao meu colega e amigo Carlos Pacheco Amaral, empenhado Coordenador deste positivo e motivador projecto do PSD-Açores.

Independentemente de posteriores considerações possíveis – algumas mais globalmente apenas balanceáveis a quando da publicação integral em livro (de Actas, digamos assim, ou similar, dos textos lidos e das comunicações orais proferidas nesta Conferência sobre Evolução e Futuro da Autonomia Açoriana, conforme muito recomendado entre nós todos assistentes e participantes, e depois confirmadamente anunciado por Carlos Amaral) –, algumas breves notas finais quero todavia e a propósito ainda adiantar já hoje.


3. Assim, o primeiro registo que faço é para a feliz constatação de que, pesem embora todos os acidentes, avanços, recuos, impasses, erros, discordâncias internas e conquistas externas da progressiva caminhada autonómica açoriana no pós-25 de Abril de 1974, permanece e sente-se em ocasiões como aquela que se viveu naquele Colóquio um intenso sentimento de pertença aos Açores e ao Povo Açoriano (conceito aliás ali aflorado), – sem esquecer porém os desafios insulares cruciais que a Autonomia teve de enfrentar (e enfrenta novamente agora, mas noutros termos...) a todos os níveis, desde os bem lembrados primeiros embates e rebates constituintes e político-constitucionais sobre o Estado Unitário e as Autonomias Regionais, passando pelas várias configurações pensadas ou propostas sobre um (in)desejado Estatuto Político-Administrativo para o nosso Arquipélago (como Região a construir...), até aos entraves e contrariedades de toda a ordem porque passámos aqui, com tentativas de bloqueio e garrotes que correram pelas – esquecidas ou escamoteáveis? – campanhas nacionais e regionais da famosa 5.ª Divisão, do Copcon, dos cercos a assembleias e congressos, do arbítrio de patrulhas militares e para-policiais, tentações totalitárias, prisões e detenções abusivas do Direito e à revelia da Justiça, atentados bombistas e expatriações de cunho separatista, processos contra a liberdade de Imprensa e de Opinião – que nós próprios pessoalmente sentimos e também um dia destes haveremos de recordar (como aqueles, entre outros conhecidos, que sobre o “Diário Insular” se abateram...) –, enquanto no então recém-eleito Parlamento Constituinte acesos eram os debates em Plenário e dentro dos vários Partidos e sectores político-partidários sobre tanto e muito de tudo aquilo que também respeitava aos Açores e que temos bem presente, documentado e sempre novamente analisável (como algo historicamente situado e ao final democraticamente superado por todos, ou quase todos...).


Finalmente, não pude deixar de ouvir com emoção a referência feita pelo Dr. Cunha de Oliveira a uma viagem de estudo e trabalho (para a então Junta Regional dos Açores) que ele fez, em meados da década de 70 e em lembrada companhia de meu pai, às laboriosas e prósperas Comunidades Portuguesas na Califórnia, tal como ficou aliás assinalado na elucidativa série de Crónicas (depois reunidas em livro prefaciado por Jorge de Sena e posfaciado por Eduardo Mayone Dias), que o jornalista Hélder Pinho produziu para o jornal “A Capital” (Lisboa, Editorial Notícias, 1978).

– Aí, mais do que aquilo que familiarmente nos foi dado recordar, está também, acima de tudo e para além do resto que se omite agora, paradigmaticamente assinalado muito daquilo com que sucessivas (quase já três...) gerações de Açorianos sucessivamente idealizaram, diligenciaram, trabalharam e tentaram (tantas vezes ingloriamente, em vão, sem autêntico aproveitamento pragmático, nem reconhecimento de quase ninguém!) fazer implementar nas nossas ilhas com a Autonomia Constitucional democrática que o Povo Açoriano (com o seus melhores líderes, esclarecidas elites e cidadãos empenhados...) tanto vinha (e continua ainda...) apenas sonhando (des)acordado ou – como foi ali incisivamente dito – sonâmbula e abulicamente sempre e sempre tropeçando na História, qual cego conduzido por outros não só ainda mais cegos quanto voluntária e culpadamente néscios e impunes!
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 11.02.2014):





Um Sentimento de Pertença


1. Já depois de escrito e publicado no DI o texto da habitual Crónica de sábado, tive oportunidade de assistir, com gosto e por amável convite do Organização, ao Colóquio “Evolução e Futuro da Autonomia Açoriana”, promovido pelo PSD-A em Angra do Heroísmo e que contou, nos respectivos Painéis, com os apreciáveis e mutuamente complementares contributos de Álvaro Monjardino, Carlos Raulino, Cunha de Oliveira, Dionísio Sousa, José Decq Mota, Mota Amaral, Reis Leite e Weber Machado, com moderação de José Lourenço e Vítor Alves.

– Pelo nível intelectual e cordialidade política e democrática, pertinência crítica, seriedade cívica e sinceridade pessoal dos trabalhos ali apresentados, não posso deixar de pronunciar aqui uma palavra de justo reconhecimento e justificado louvor a Duarte Freitas e ao meu colega e amigo Carlos Pacheco Amaral, empenhado Coordenador deste positivo e motivador projecto do PSD-Açores.

Independentemente de posteriores considerações possíveis – algumas mais globalmente apenas balanceáveis a quando da publicação integral em livro (de Actas, digamos assim, ou similar, dos textos lidos e das comunicações orais proferidas nesta Conferência sobre Evolução e Futuro da Autonomia Açoriana, conforme muito recomendado entre nós todos assistentes e participantes, e depois confirmadamente anunciado por Carlos Amaral) –, algumas breves notas finais quero todavia e a propósito ainda adiantar já hoje.


2. Assim, o primeiro registo que faço é para a feliz constatação de que, pesem embora todos os acidentes, avanços, recuos, impasses, erros, discordâncias internas e conquistas externas da progressiva caminhada autonómica açoriana no pós-25 de Abril de 1974, permanece e sente-se em ocasiões como aquela que se viveu naquele Colóquio um intenso sentimento de pertença aos Açores e ao Povo Açoriano (conceito aliás ali aflorado), – sem esquecer porém os desafios insulares cruciais que a Autonomia teve de enfrentar (e enfrenta novamente agora, mas noutros termos...) a todos os níveis, desde os bem lembrados primeiros embates e rebates constituintes e político-constitucionais sobre o Estado Unitário e as Autonomias Regionais, passando pelas várias configurações pensadas ou propostas sobre um (in)desejado Estatuto Político-Administrativo para o nosso Arquipélago (como Região a construir...), até aos entraves e contrariedades de toda a ordem porque passámos aqui, com tentativas de bloqueio e garrotes que correram pelas – esquecidas ou escamoteáveis? – campanhas nacionais e regionais da famosa 5.ª Divisão, do Copcon, dos cercos a assembleias e congressos, do arbítrio de patrulhas militares e para-policiais, tentações totalitárias, prisões e detenções abusivas do Direito e à revelia da Justiça, atentados bombistas e expatriações de cunho separatista, processos contra a liberdade de Imprensa e de Opinião – que nós próprios pessoalmente sentimos e também um dia destes haveremos de recordar (como aqueles, entre outros conhecidos, que sobre o “Diário Insular” se abateram...) –, enquanto no então recém-eleito Parlamento Constituinte acesos eram os debates em Plenário e dentro dos vários Partidos e sectores político-partidários sobre tanto e muito de tudo aquilo que também respeitava aos Açores e que temos bem presente, documentado e sempre novamente analisável (como algo historicamente situado e ao final democraticamente superado por todos, ou quase todos...).


3. Finalmente, não pude deixar de ouvir com emoção a referência feita pelo Dr. Cunha de Oliveira a uma viagem de estudo e trabalho (para a então Junta Regional dos Açores) que ele fez, em meados da década de 70 e em lembrada companhia de meu pai, às laboriosas e prósperas Comunidades Portuguesas na Califórnia, tal como ficou aliás assinalado na elucidativa série de Crónicas (depois reunidas em livro prefaciado por Jorge de Sena e posfaciado por Eduardo Mayone Dias), que o jornalista Hélder Pinho produziu para o jornal “A Capital” (Lisboa, Editorial Notícias, 1978).

– Aí, mais do que aquilo que familiarmente nos foi dado recordar, está também, acima de tudo e para além do resto que se omite agora, paradigmaticamente assinalado muito daquilo com que sucessivas (quase já três...) gerações de Açorianos sucessivamente idealizaram, diligenciaram, trabalharam e tentaram (tantas vezes ingloriamente, em vão, sem autêntico aproveitamento pragmático, nem reconhecimento de quase ninguém!) fazer implementar nas nossas ilhas com a Autonomia Constitucional democrática que o Povo Açoriano (com o seus melhores líderes, esclarecidas elites e cidadãos empenhados...) tanto vinha (e continua ainda...) apenas sonhando (des)acordado ou – como foi ali incisivamente dito – sonâmbula e abulicamente sempre e sempre tropeçando na História, qual cego conduzido por outros não só ainda mais cegos quanto voluntária e culpadamente néscios e impunes!
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Em RTP-Açores:
http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?article=35335&visual=9&layout=17&tm=41:



















e "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 11.02.2014):





O Cenário dos Debates

Inicia hoje o PSD-A uma série de anunciados diálogos e debates públicos, certamente com vista a mais dotar o partido (dirigentes, activistas e quadros actuais, um ou outro dos seus ideólogos ou teóricos em funções, e alguns dos seus simpatizantes e eleitores em geral) com restaurada reflexão e aprofundado acervo de valores sobre a Autonomia, no quadro de tudo o que vem emergindo e evoluindo no mapa global e integrado da Europa e do Mundo.

– Trata-se de um projecto que tem justificação e mérito expectáveis em princípio, embora a sua modelação, prioridade temática e respectivos efeitos práticos e estratégicos permaneçam ainda por clarificar, tanto mais quanto a chamada à mesa de certos nomes, actores e intervenientes político-institucionais e partidários de vários quadrantes (na maioria, por ora, com díspares percursos e empenhos sobejamente conhecidos e comprometidos nas reais voltas, reviravoltas e rumos desde sempre decisórios na Região, com excepção do PCP), traz a esta ronda tanto potenciais de reflexão crítica quanto riscos de acabar por traduzir-se em novel cenário, mais ou menos competentemente moderado, só para mediatização e apenas à medida daquilo que já antes se determinou ou venha a querer depois, alegadamente por consenso, consumar.

De resto, a verdade é que alguns efémeros e somente convencionados ensaios prévios de agitação de ideias, ideais e acções na roda de similares ementários nunca propiciaram frutuosa colheita entre nós, ou, tendo-a armazenado em acomodadas e furadas arcas, dela pouco se viu ou tirou partido nos partidos e fora deles.

– Ou valerá a pena lembrar o sobrevindo com tantos Gabinetes “de Estudo” e Grupos “de Trabalho” para isto, aquilo e aqueloutro, a sério ou para mera propaganda de cartilhas e tabuadas, num devoto coaxar à beira de tanques (think tanks...) eticamente secos ou mentalmente estagnados, aonde as águas continuam paradas, com idêntico lodo ao fundo!?


Seja como for, parece razoável dar a tais iniciativas (do PSD e depois do PS) um esperançoso voto de sucesso, para bem dos Açores e apuro de quem mais digno e capaz se revelará para fazer progredir, com justiça, racionalidade e firmeza, a nossa Autonomia!
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Em Diário Insular" (Angra do Heroísmo,, 08.02.2014):























Azores Digital:






domingo, fevereiro 09, 2014



Dos Lugares Imaginários
aos Desafios Insulares




«É um velho costume marítimo que uma nova embarcação seja lançada ao mar com um pedido de bênção para si e para todos os seus tripulantes. Agora que o nosso Dicionário de Lugares Imaginários passará a navegar as desconhecidas águas de Portugal, também pedimos que o abençoem as almas generosas de intrépidos viajantes imaginários (...). Eles entenderão, melhor do que ninguém, a honra que representa para uma obra como a nossa, de viagens a lugares sonhados, partilhar a estante com as crónicas dessas outras viagens a lugares que chamamos, sabe-se lá porquê, verdadeiros.»
                                                                                        Alberto Manguel




1. Publicou recentemente a editora Tinta da China (Lisboa, 2013) com o título literal de Dicionário de Lugares Imaginários e em tradução conjunta de Carlos Vaz Marques e Ana Falcão Bastos a famosa obra de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi The Dictionary of Imaginary Places (original de 1980).

– Já disponível entre nós, que o vimos e consultámos em Angra do Heroísmo nos atentos escaparates da Livraria In Folio, o livro – com cerca de mil páginas em papel Bíblia, esmeradamente impresso na Gráfica de Coimbra – inclui sugestivos mapas de James Cook e outras ilustrações de Graham Greenfield e Eric Beddows, contendo, para além de um belo e valorizante Prefácio de Manguel para esta revista e aumentada edição portuguesa, ainda o elucidativo Prefácio original e uma esclarecedora Nota dos autores a outra anterior versão da mesma.


Os autores deste fabuloso Dicionário são relativamente conhecidos, com natural destaque para Alberto Manguel – este já com diversos livros traduzidos e editados em Portugal, v. g. na Presença (Uma História da Leitura), Dom Quixote (No Bosque do Espelho), Gradiva (A Cidade das Palavras), Asa (Um Diário de Leituras) e Teorema (O Regresso, O Amante Extremamente Minucioso e Todos os Homens São Mentirosos). Todavia, vale a pena reproduzir aqui também e em síntese as suas bio-bibliografias:


Alberto Manguel nasceu em 1948, em Buenos Aires, e cresceu em Telavive e na Argentina. Teve como línguas maternas o inglês, o espanhol e o alemão (que aprendeu com a ama). Aos 16 anos, trabalhava na livraria Pygmalion, em Buenos Aires, quando Jorge Luis Borges, cego, lhe pediu que lesse para ele em sua casa; e deste modo tornou-se leitor de Borges entre 1964 e 1968... Frequentou depois o Colégio Nacional de Buenos Aires e, em 1968, mudou-se para a Europa.



– Tendo vivido em Espanha, França, Itália e Inglaterra, Manguel foi ganhando a vida como leitor e tradutor para várias casas editoras, publicando depois uma dúzia de antologias de contos sobre temas tão díspares quanto o fantástico e a literatura erótica. É ensaísta, romancista premiado e autor de múltiplos «best-sellers» internacionais, nomeadamente da já referida Uma História da Leitura (notável e fascinante viagem pela evolução do leitor e da leitura). Actualmente, Manguel é cidadão canadiano e vive em França, num antigo priorado do interior do país transformado em residência onde instalou a sua biblioteca de trinta mil livros...

Quanto a Gianni Guadalupi, entretanto falecido (2007), nasceu em 1943, em Itália. Historiador e escritor, traduziu para italiano autores como Kipling, Borges, Jodorowsky, Molina, Allende e Benedetti. Escreveu e editou dezenas de livros e antologias dedicados ao tema das viagens, reais e imaginárias.


– Especializado em temas como os Jesuítas na China, os viajantes setecentistas na Pérsia e no Oriente, as viagens espaciais, a presença dos Portugueses na Índia, a descoberta da América e os pioneiros aeronáuticos italianos, Guadalupi definiu-se como um «viajante sedentário». Também grande bibliófilo, coleccionou mais de treze mil livros sobre viagens de todos os tipos...

2. No seu Prefácio a este Dicionário de Lugares Imaginários, Alberto Manguel retoma e explana toda uma teoria do imaginário, começando por realçar que a nossa imagem do mundo contemporâneo, com todos os seus possíveis e inéditos pormenores planetários, sofreu uma profunda alteração devido aos novos instrumentos e tecnologias de observação da Terra, sendo que, por via disto, tornou-se “impossível zarpar rumo ao desconhecido, a não ser sob vigilância”, tanto mais quanto, desde a mais ampla escala espacial ou geo-estacionária até à mais doméstica intimidade, toda a privacidade foi anulada, com ela simultaneamente desaparecendo assim a própria possibilidade de imaginarmos já, “em algumas regiões dispersas”, qualquer terra incognita com que sonhar ou a procurar alcançar na distância, no mistério ou na demanda de novos e afortunados Descobrimentos.


– Todavia, antes desses e de todo e qualquer desvendamento concreto, positivista e realmente empírico do mundo terrestre, sugere e salienta Manguel (embora por outras palavras), haver sempre um diferente mapa mundi, outra cartografia da imaginação feita de substâncias ou materialidades outras, apenas existentes na alma ou no espírito (na consciência, diz o autor) e numa esfera ou dimensão por assim dizer etérea, como aquela povoada por criaturas angélicas (“cujas hierarquias os nossos antepassados debatiam”) e por outras “como o unicórnio e a manticora”, ou por conceitos como os “de democracia perfeita e de boa vontade para com todos os homens”, lugares da mente, da Utopia, do Maravilhoso (e do Terrível ou Pavoroso...), enfim, do Lendário, do Fantástico, do Extraordinário ou do Sublime, – quase todos eles afinal anteriores ao próprio real e dele determinantes ou indutores, porquanto é “seguindo as geografias imaginárias que construímos o nosso mundo: o resto é apenas confirmação”…

E depois, na mesma linha de abordagem, escreve ainda o autor, conforme vamos sublinhar:

– “Como no caso de qualquer língua, uma construção imaginária como a Atlântida precede sempre, para o bem ou para o mal, os vocabulários geográficos e arquitectónicos. Talvez alberguemos no nosso íntimo um antigo desejo de migração e colonização, de grutas pintadas e copas de árvores protegidas, a partir do qual desenhamos as representações cartográficas. E, quer se tornem ou não edifícios sólidos, esses mapas exigem, antes que se dê o primeiro passo ou que se aviste o primeiro horizonte, uma ideia preconcebida do espaço, do tempo e da viagem. (…) A imaginação salva a realidade do reino inefável dos fantasmas”…

3. Ora é exactamente a partir destes núcleos interpretativos dos fenómenos míticos e do imaginário (às vezes do mitológico e do puramente ficcional, outras do poético-literário, do prospectivo positivo ou do projectivo negativo e do ucrónico...) que Manguel e Guadalupi procederam a esse notável e ímpar repositório de lugares e espaços imaginários e quimeras que integram e povoam consciências e inconscientes pessoais e colectivos (memórias históricas, mitológicas, textuais e iconográficas) tão vasta e sugestivamente guardados neste tão assim conatural léxico, dicionário e enciclopédia de imaginários que percorrem não só espaços quanto tempos espantosos, numa excepcional e rica viagem por símbolos, representações, ficções, ícones, linguagens e narrativas exemplares, perdas e ganhos do (des)conhecido, (re)invenções de mundos e universos quase (ir)reais, errâncias individuais, peregrinações, odisseias, reclusões, escatologias bíblicas e êxodos iniciáticos e topográficos (como em Calvino, Caim e Abel, Ulisses, Gulliver, Defoe, Kafka, De Maistre, Campanella, Huxley, Swift, Tolkien, Dante, C. S. Lewis, Verne, Melville, Xu Fu, Eco, S. Agostinho, etc., entre tantos e muitos dos nossos próprios intrépidos viajantes imaginários, como Manguel em outros depoimentos e entrevistas assinalará mais de passagem – Camões, Pessoa, Sophia, Lobo Antunes, Mendes Pinto, Saramago …), por mares, terras, palácios de Ventura e ilhas…


– Aqui, como seria de esperar, as Ilhas – e às nossas, omissas neste (con)texto, noutra ocasião me referirei... –, ocupam portanto um relevante posto e uma paradigmática cartografia, ou não fosse com a Utopia de Thomas More que se criou “o primeiro arquétipo insular: uma ilha cujo sistema sugere um modelo ideal, didáctico – simultaneamente positivo e negativo – a raiar a alegoria, que pode servir (ou não) para pôr em causa os nossos próprios sistemas de governo”, pelo que até não deveria surpreender-nos “que fossem, literalmente, os habitantes de uma ilha a povoar o mar com ilhas inexistentes, para as quais inventaram histórias e geografias específicas”!


Para nós, insulares açorianos – para além, como é evidente, do seu conteúdo enciclopédico e universalmente referencial para uma grande e apaixonante variedade de estudos e abordagens multidisciplinares –, esta obra vale sobremaneira pelas inúmeras pistas, sugestões, analogias e ilustrações pluri-civilizacionais que arquiva, a par, numa dimensão outrossim já mais profunda e filosófica, de tudo aquilo que subsidiariamente vem acrescentar à vasta e conhecida bibliografia temática sobre a dimensão ontológica e mesmo metafísica das ilhas e dos ilhéus onde quer que existam e vivam, porquanto uma ilha é como um corpo humano, e o corpo a própria “corporização do eu, a essência de um lugar singular” no meio do Mar e do Oceano do Ser:

– “É por esse motivo que os anglo-saxões, a fim de fazerem surgir outros modos de ser, inventaram ilhas invisíveis, sempre situadas para além do horizonte, que podem ou não ser descobertas, mas que não exigem presença física para existir. Essa cartografia imaginária tem uma pré-história na Grécia e no mundo árabe”, reconhece Alberto Manguel, mas pode ter também uma plena actualidade enquanto espaço político permitindo e deixando crescer ora a Esperança ora as suas contrárias e contraditórias alternativas, através da “criação de sociedades perfeitamente eficazes e perfeitamente atrozes, lugares onde tudo é possível (...) e onde nos podemos ver como outras pessoas, na nossa condição humana de eternos sobreviventes de um naufrágio ou como cidadãos de um estado feliz ou desditoso”...


4. De resto, também por tudo isto – e nem que a propósito derradeiro como comentário já politicamente à margem deste e de outros glossários insulares... –, é que não posso deixar de finalizar por hoje sem recordar aquilo que, a propósito de um outro bem exigente, nada então imaginário nem fantasista desafio insular tive oportunidade de reescrever no respectivo Prefácio à obra homónima (Ponta Delgada, 19902) de um convicto, estimado e respeitável homem das nossas ilhas, cujo ideário reflecte afinal tantos daqueles sinais do Tempo e suas potenciais riquezas espirituais para uma plena, progressiva e consequente humanização da Cidade dos homens, em cidadania personalista e eticamente alicerçada:

– As nossas ilhas prestam-se bem à indiciação mostrativa da condição humana, aí incluída a dimensão política... E assim, numa altura em que as problemáticas culturais, sociais, político-institucionais, económicas e técnicas da Regionalização e do Regionalismo ganham novas premências planetárias, perante os riscos e as promessas da unificação civilizacional e da interdependência crescente de Regiões e Estados, Povos e Nações, a especificidade da Autonomia do Arquipélago dos Açores reclama também e novamente novo alento precisivo das condicionantes, situações, custos e potencialidades presentes, e inovadores estilos e capacidade de resposta aos reptos do futuro!
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Publicado em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 08.02.2014):



e "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 09.02.2014):



sábado, fevereiro 01, 2014



A Cárie das Consciências

Possivelmente não longe da mesma génese protofascista de outras praxes sadomasoquistas, há prédicas, actuações tribunícias e acções mediáticas de alguns efémeros ou provisórios chefes político-partidários e ideológicos que tem levado instituições e respectivas imagens à mais preocupante e degradada descredibilização, podendo constatar-se – trazendo esse aspecto à reflexão – que, com tais actos e omissões, vem fenómenos, actores, agentes e representantes da classe política (e de classes sociais em sintonia representadas) não só contribuindo para a estagnação ou retrocesso da Autonomia Regional, quanto ainda para semear divisionismos larvares inter-ilhas, como é verificável observando princípios, programas e ardis na arrumação de tutelas e lideranças, para já não falarmos em indigências de pensamento e linguagem que moldam, por impreparação ou subcultura, sintomáticas incoerências de discurso e prática!




– Ora bastas têm sido as ocasiões em que tão confrangedoras peças têm sobressaído com bazófias, argumentações híbridas ou sofismas de arremetidas que já não colhem ninguém (a não ser aqueles a quem tais investidas valem para dianteiro prosseguimento em incríveis trupes de quadrilheiros úteis ou seus inebriados moços de estrebaria.

Todavia, aquilo que presenciamos parece ultrapassar todas as barreiras, não tendo paralelo anterior nem, pelos menos na Terceira, nos tempos e imaginários áureos de outras hegemonias (melhor: do total e concentrado domínio da vida local) por parte de felizmente arrumados cabecilhas ou velhos caciques, tanto mais quanto, como hoje se torna evidente, em última instância e apesar de tudo, lá estavam o talento de outros líderes (e a pessoal qualificação ético-política de Mota Amaral) para travar alguns vícios e moralizar valias…


– Talvez por isso é que andem muitos sem mãos para firmar o leme, outros sem setas para alcançar alvos justos e os restantes sem dentes sãos para as nozes (cada vez mais esbanjadas…) que lhes caíram no prato à custa de imerecidos méritos alheios, porquanto, mais até do que com coragem e inteligência rombas, é a própria consciência que lhes está cariada! 
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 01.02.2014):

















Azores Digital:

















RTP-Açores.
http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?headline=14&visual=10:




















e "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 01.02.21014):



segunda-feira, janeiro 27, 2014



Veneno e inocências nos Açores

com lembranças de Lisboa



Foram as últimas semanas férteis em temas envolvendo novamente e em conjunto os Açores, a FLAD, a Base das Lajes e a Praia da Vitória, em especial por causa de uma súbita e escusada projecção do nosso Arquipélago devido à político-noticiosamente alimentada hipótese (proposta, sugestão ou disponibilização nacional, ainda não perfeitamente esclarecida por ninguém…) da hipotética e vendida ideia da realização, no porto daquela cidade terceirense, de um transbordo de produtos químicos (nomeadamente gás mostarda) vindos do Médio Oriente (Síria), que foram, ou seriam, utilizados e utilizáveis como armas e que agora serão sujeitos, num navio americano (o “MV Cape Ray”) especialmente preparado para esse efeito, a um processo de tratamento técnico-laboratorial (hidrólise) antes de serem, pelos menos alguns deles, incinerados na Alemanha (detentora, tal como a Rússia, o Canadá e os EUA, de capacidade para tal, embora outros países também a possuam…).

– Todavia permanecem pouco definidos a rota, o destino e o processamento finais de todos esses produtos e seus efluentes (depois de tratados), conforme qualquer cidadão atento poderá livremente acompanhar e avaliar – por exemplo na acessível página da OPCW (Organização para a Proibição de Armas Químicas), em http://www.opcw.org/ – sem ter de deixar-se levar por propagandas mais ou menos insidiosas, arenosas camuflagens de interesses ou supostamente sofisticadas análises de alguns ditos e encartados “especialistas” em (des)informação disto e daquilo…

E é assim que também começaram a ser quantificadas as verbas financeiras envolvidas no “Syria Trust Fund” (conforme já aqui referimos) e as ajudas e facilidades logísticas concedidas pelos vários países envolvidos nesta operação das Nações Unidas (nomeadamente a Itália, que acabou por ceder, para o pretendido transbordo, o seu porto de Gioia Tauro, depois de ter contribuído com 3 Milhões de Euros para aquele Fundo e de ter disponibilizado um avião militar para transporte da primeira equipa de inspectores da OPCW que se deslocou à Síria…

– De resto, ainda por essa possível via, talvez não seja descabido, lendo nos interstícios e embaraços de fala e nos engulhos portuguesinhos de Rui Machete, achar por lá uma lingueta de explicação para a atitude – não sei se metediça, se voluntariosa, se interesseira, se apenas generosa de Portugal… – ao oferecer os Açores (e não poderia ter-se oferecido Sines, Leixões ou o Alfeite, que ficam mais perto da Alemanha? …), para o tão “seguro” transbordo dos ditos químicos!



Mas é claro que cada um oferece ou troca, vende ou abre o que quer ou tem, ou julga ter, à mão e ao pé de semear (neste caso, mais longe…) da porta ou do quintal da continental casa portuguesa, quando não mesmo ao lado de outras canadas, cancelas e quejandas que muita servidão historicamente deram – ou não fossem as ilhas as tais famosas e serviçais “poldras” do Atlântico … – para os jardins da FLAD (que Rui Machete muito bem conhece e onde foi grande senhor…, rodado político, gestor e investidor que é, questões à parte de um qualquer quid pro quo que às vezes parece ter com os Açores, com Açorianos e até, veja-se lá, com os próprios Americanos)…


– E se dos nossos aliados e hóspedes na Base das Lajes não será preciso tornar a lembrar aqui o que do actual MNE de Passos Coelho e Paulo Portas foi dito pelos seus próprios responsáveis e mais altos agentes diplomáticos, o que não vem directamente ao caso, nem por isso podemos deixar de recordar, porque menos divulgado, no contexto de todo um largo pano de fundo que envolve a FLAD, o quase diferendo que, em 2009, nasceu entre Mota Amaral e Rui Machete quando aquele líder histórico açoriano e social-democrata, antigo Presidente do Governo Regional e ex-Presidente da Assembleia da República, questionou o Governo central sobre a polémica participação  da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento no Banco Privado Português (BPP), procurando apurar, num Requerimento também assinado por Joaquim Ponte, se, em caso de falência desse Banco, com a consequente perda de valores pelos respectivos accionistas (entre os quais se contava a FLAD), correria esta Fundação algum risco.



Assim, ainda a este mesmo propósito – como pode ser relido em http://www.dn.pt/especiais/interior.aspx?content_id=1284854&especial=Caso+BPP&seccao=ECONOMIA – Mota Amaral dizia claramente, o seguinte: “Os capitais da FLAD – oriundos de verbas entregues pelo governo dos EUA ao abrigo do acordo sobre a concessão de facilidades militares nos Açores – estão assim ameaçados de redução, agravando as perdas derivadas da queda dos mercados financeiros internacionais", conforme noticiava então o “Diário de Notícias” que, por seu lado, acrescentava estarem os deputados açorianos “essencialmente preocupados com uma eventual redução nos programas da FLAD já previstos para a região”…


Ora evidentemente que tudo isto, e muito mais, andará sempre muito por aí presente na memória dos OCS (mas nem tanto nas manchetes e alarmes da velha e fadistinha Lisboa…) – com destaque, verdade seja dita, para o discernimento crítico dos editorialistas e colunistas açorianos, a par de alguns discursos e textos político-parlamentares bem mais prudentes do que certas inocências, bondades ou ignorâncias governamentais e autárquicas insulares actuais, demasiadas vezes já a cair em esparrelas ou pressurosas ingenuidades a descoberto…

E para terminar por hoje quanto à preciosa FLAD, o que neste ensejo vivamente recomendo aos colegas académicos, aos nossos moços e modernaços políticos e aos velhos e antigos politiqueiros nacionais e regionais, é que ao menos revejam e apreendam tudo o que consta daquele que é talvez o melhor documentário televisivo (feito em 2007, para a RTP-Açores, pela jornalista Isabel Gomes) sobre aquela tão controvertida Fundação, conforme está disponível para proveitosa, ainda actual e elucidativa visualização, em três sequências reproduzíveis a partir de http://www.youtube.com/watch?v=IfzBQLQdyXs#t=188:

– Muitas caras e descaradas máscaras (des)conhecidas ali estarão por certo para comprovação de tudo aquilo que escrevemos e que todos deveremos continuar a ter em conta para defesa dos Açores (e talvez, no fundo, igualmente para maior prestígio de Portugal junto dos nossos amigos e aliados internacionais, sem cairmos em logros nem nos deixarmos iludir, inocente ou levianamente, pelas cantigas e envenenadas areias que amiúde nos atiram aos ouvidos (surdos?) e aos olhos (míopes?) e cansados…

Entretanto foi competentemente confirmada a constitucionalidade do Decreto n.º 24/2013, ficando aberta “a via” para o PS e o Governo Regional prosseguirem, sem entraves legais, as suas sancionadas e orçamentadas pragmáticas, podendo assim ambos clamar vitória e capitalizar o que não ficará sem reinvestimento a decoroso tempo… Mas antes assim, pois deste modo ao menos, como corre, a verba suplementar não irá para projectos falidos, negócios e investimentos ruinosos, subsídios viciados, favoritismos de administração para “boys & girls”, foguetórios-propaganda, inenarráveis jogatinas de economia, gestão, financiamento, cultura de sardinhada e outras superavitárias favas em arraial, com molho de unha e cerveja a capote!

– Todavia – pese o precaucional passo intermédio, afinal proveitosa e a contrario dado pelo Representante da República e que, devendo ter sido acolhido com senso e serenidade, logo descaiu em mesclada controvérsia e arremetidas contra a própria existência da figura (abdicando-se até de um outrossim consequente acometimento à governação PSD-CDS/PP/Troika) –, agora subiram de tom indistintas retóricas, conquanto se tenha vindo, ainda à outrance, a comprovar da proficiência mediadora de tão malquisto lugar… E não fosse essa uma relevância moderadora, ou estivessem as respectivas competências ad extra (PR, AR ou TC…), não é difícil imaginar a rota de colisão nacional na qual estaríamos directamente metidos, a menos que, por extensão secessionista, não se quisesse (ou não se queira) acatar nenhum órgão ou instância unitariamente fiscalizadora última da Autonomia, tendo as ilhas – mas isso é outra agenda-guião… –, à revelia do modelo de Estado vigorante, Estatuto (quase ou mesmo) equivalente, enquanto quadro jurídico fundamental, à própria Constituição da República!


Porém hoje, ultrapassado este operático e distorcido imbróglio (que está gerando previsíveis ou sabidamente concertadas mobilizações e cesuras contra-constitucionais), o que resta é governar os Açores, com ponderação, justiça, racionalidade e verdade, até porque, rareando por cá (e por lá ainda mais!) muitos destes parâmetros, não será por culpa da Constituição e/ou do Estatuto que eles não estão salvaguardados nas governanças que suportamos, nem (ainda menos) na cultura do quotidiano vivido, penhorada que está a Região à letra, à palavra e ao espírito de um tal (esquecido?) Memorando de Entendimento assinado a 2 de Agosto 2012, onde – no respectivo § 7 –, entre outros compromissos firmados pelo Governo Regional dos Açores (GRA) e dados como garantia para a contracção de um empréstimo da ordem efectiva dos 135 Milhões de Euros (montante eventualmente extensivo aos 185 Milhões!), ficou bem assente o seguinte:

– “Durante a vigência do presente Memorando, o GRA compromete-se a aplicar (…) todas as medidas previstas em Lei do Orçamento do Estado, que respeitem, direta ou indiretamente, a quaisquer remunerações dos trabalhadores em funções públicas, bem como aos demais trabalhadores do Sector Público Empresarial Regional, comprometendo-se ainda a não aplicar medidas compensatórias que visem aumentar os níveis de despesa projetada em resultado daquelas medidas”…


Claro que se pôde argumentar que a global “despesa projectada” se mantém ainda no caso corrente; e todavia, como a gestão interna do “bolo financeiro” açoriano é sempre político-programática, teria sido mesmo por aí que haveria de ter-se começado a demarcação dos méritos, critérios e prioridades governamentais do PS, sem prejuízo da mais insuspeita, prevenida e pacífica preservação da respectiva e estrita constitucionalidade, como foi feito! Mas por isso mesmo é que, apurada, felizmente pela positiva, essa vertente do Orçamento Regional para 2014, permanece ainda politicamente discutível todo o seu restante conteúdo.
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 25.01.2014):

















 "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 26.01.2014):



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e Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=2522: