sábado, abril 12, 2014


As formas da Tortura

Com lançamento anunciado para o próximo dia 16, a 2.ª edição do livro de José Sócrates A Confiança no Mundo inclui um posfácio novo de Eduardo Lourenço, texto este que o “Público” divulgou no passado dia 6 sob o título de “O desejo amoroso do mal”.


– A obra, como é sabido, aborda o problema teórico e a consumação prática da Tortura em regimes democráticos, defendendo o autor que esse fenómeno constitui, claro, não só um atentado à intrínseca e inerente dignidade dos seres humanos, quanto é um índice da profunda degenerescência e falsificação a que todos os regimes políticos – mesmo os liberais ou jurídico-formalmente estruturados como Estados de Direito – podem estar sujeitos, no que assim se instituem em aparelhos destituídos de legitimidade ético-política e de autoridade moral!

A tese – cuja perspectiva crítica de abordagem, embora não sendo propriamente inédita, traz alguns sugestivos contributos sintéticos para uma mais articulada questionação do fenómeno da Tortura no pensamento tradicional e na história política, securitária, colonial e militar-imperial recente das democracias europeias e norte-americana (aqui, nomeadamente após aos atentados terroristas do 11 de Setembro, com as contra-posições tácticas e estratégicas assumidas pelos EUA a nível jurisdicional, penitenciário e torcionário...).

– Este livro de Sócrates, sendo agora mais filosoficamente lido (e legível...) de modo generoso, como o faz Eduardo Lourenço, poderia porém não só trazer à reflexão uma mais ampla e referencial evocação ética e quase metafísica do problema (e do Mistério?) do Mal – tanto no que ele absolutamente opõe, ou tenta derivadamente sub-trair, ao Bem...–, quanto deveria ainda estender a sua mesma visão criteriosa a tudo o que, por entre a barbárie radical da violência universal sádica e niilista da Tortura e seus (suposta ou alegadamente) banais (e menores?) actos maléficos quotidianos (a mentira, a injustiça, a opressão e a simulação ocultante da verdade...) ainda permanece, quase inocentemente, fruto da tal invocada (desculpabilizante?) inumanidade de que (todos?) somos, ou parecemos ser, parte integrante...
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 12.04.2014):






















Azores Digital:


terça-feira, abril 08, 2014

Jornal "Diário dos Açores"
(Ponta Delgada, 08.04.2014)



domingo, abril 06, 2014


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Arquivo "Diário Insular" 
(Angra do Heroísmo, 06.04.2014)
TEXTO: HÉLIO VIEIRA
FOTOGRAFIA: ANTÓNIO ARAÚJO
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A ARTE DE EDUARDO FERRAZ DA ROSA

FORÇA DA ESCRITA


Poeta e ensaísta, Eduardo Ferraz da Rosa tem utilizado a escrita como forma de transmissão do seu pensamento humanista.

Eduardo Ferraz da Rosa viveu, desde muito novo, rodeado de livros, possuindo, atualmente, uma das maiores bibliotecas particulares dos Açores, especialmente nas suas áreas preferenciais de estudo (Filosofia, Teologia, Ciências Sociais e Literatura).

Nasceu da Praia da Vitória, em 1954, e desde a infância que tem mantido contato com diferentes vertentes da cultura por influência familiar.

"Tive a sorte de nascer e crescer no seio de uma família que me deu a possibilidade de acesso às artes, em grande parte por ação e influência da minha mãe e do meu pai. Cresci numa casa da Praia onde sempre houve muitos livros e interesse por diferentes artes e pelo pensamento. Sempre cultivámos no meio familiar um especial gosto pela literatura portuguesa e, ao longo do meu percurso escolar, tive sorte de ter bons e grandes professores que me influenciaram nas opções que fui tomando na minha vida", referiu.

Ao longo do seu percurso como estudante do ensino superior, Eduardo Ferraz da Rosa frequentou diversas universidades. Estudou, em Braga, na Universidade Católica, em Lisboa, na Universidade Nova, em Coimbra, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de novo, em Lisboa, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e completou, mais tarde, os seus estudos em Filosofia na Universidade Católica de Lisboa.

"O facto de ter estado em diversas universidades permitiu que tivesse acesso a um mundo muito vasto do pensamento, o que foi decisivo para a minha formação", afirmou.

O interesse pela escrita surgiu quando ainda frequentava a escola primária, altura em que redigiu pequenas crónicas sobre temas do quotidiano e alguns poemas, tendo, ao longo do tempo, publicado vários livros sobre diferentes temáticas.

Entre as obras editadas por Eduardo Ferraz da Rosa estão "E o Mar este Silêncio" (poemas), com carta-prefácio de Vitorino Nemésio (1980)," Vitorino Nemésio, Uma Poética da Memória", com prefácio de José Enes (1989), a coordenação de "Açorianidade e Autonomia"(1989), "Memória Bibliográfica Vieiriana" (2000), "Heranças da Terra" (2000), "Memorial da Praia da Vitória" (2002), "O Risco das Vozes", com prefácio de Carlos Reis (2006) e "Sombras - Fotomemória" (2008).

Estudioso da obra de Vitorino Nemésio, conheceu aquele que é um dos maiores vultos da cultura portuguesa, ainda muito novo e por via da ligação familiar.

"Tive a sorte de conviver com Vitorino Nemésio na Praia e em Lisboa, o que fez com que tivesse com ele alguns diálogos sobre a sua obra que ainda hoje guardo com muito agrado. Através do estudo da sua obra é possível entender a ligação à terra dos açorianas e a transcendência da alma que molda o espírito do homem das ilhas", adiantou.

O interesse pelo pensamento de Vitorino Nemésio fez com que Eduardo Ferraz da Rosa escolhesse a obra do escritor nascido na Praia da Vitória para a sua tese de licenciatura em Filosofia.

Por outro lado, tem-se destacado também como colaborador de longa data, de quase todos os jornais que se publicam nos Açores, escrevendo artigos sobre diversos temas e dirigindo vários suplementos de Cultura, Arte e Ciência.

PERCURSO PROFISSIONAL

No que se refere à sua atividade profissional, foi professor de Filosofia na Universidade dos Açores, tendo também lecionado na Escola Superior de Enfermagem de Angra do Heroísmo e no Centro Integrado de Formação de Professores do Campus de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores.

Conselheiro Nacional de Educação em representação da Região, Eduardo Ferraz da Rosa também foi consultor do Governo Regional e das câmaras de Angra e Praia da Vitória, investigador na Biblioteca e Arquivo Regional de Angra do Heroísmo e diretor da Biblioteca e Centro de Documentação do Hospital de Santo Espírito da Ilha Terceira.

Investigador associado do Serviço Especializado de Epidemiologia e Biologia Molecular do Hospital da Ilha Terceira, é doutorando em Ciências Biomédicas no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto.

di. 06.04.2014

sexta-feira, abril 04, 2014


Bibliotecários da Humanidade


Publicado em Portugal nos finais do ano passado mas já na sua 3.ª edição (Lisboa, 2014), A Bibliotecária de Auschwitz é um livro da autoria de António G. Iturbe premiado a nível mundial e que tem granjeado merecida apreciação positiva, justificando mesmo, no “DN” a qualificação de “uma das leituras mais marcantes de todo o ano [2013]”, ou não se tratasse, de facto, como a respectiva editora o apresenta, de “um romance avassalador, hipnotizante, que toca o coração dos leitores”, baseado na história verídica de Dita Dorachova/Adlerova – então uma jovem checa de 14 anos, bibliotecária do Bloco 31 de Auschwitz-Birkenau –, com quem o autor teve agora, passados tantos anos, oportunidade de falar, para poder assim justamente resgatar do esquecimento “uma das mais comoventes histórias de heroísmo cultural”.


 – A heroína do livro, de seu nome verdadeiro Dita Kraus, hoje com 84 anos, sobrevivente ao Holocausto e vivendo actualmente em Israel, esteve realmente encarcerada em Auschwitz entre 1944-45 e é viúva do escritor italiano Otto B. Kraus (1921-2000), autor de A Parede Pintada, Terra sem Deus, Vento da Montanha e outros livros que abordaram também o fenómeno do Nazismo e o Holocausto dos Judeus, na linha de Primo Levi e Eli Wiesel.


A obra – rigorosamente documentada e cuja narrativa ultrapassa a mera ficção – conta de modo muito realista e pungente a vida naquele campo de concentração e extermínio, a suprema brutalidade dos guardas SS, dos oficiais alemães e comandantes militares e do sinistro e sádico médico Josef Mengele, cujas acções são contrapostas à coragem sofredora, à esperançosa audácia e à espantosa capacidade de resistência de Dita e de Fredy Hirsh (o instrutor judeu do Bloco 31), cujas vidas passadas e infância são intercaladas na narrativa.


– A história foi inicialmente recolhida por Iturbe no livro A Biblioteca à Noite do nosso já conhecido, e aqui em Crónica anterior também abordado, Alberto Manguel, conforme ele próprio confessou em Entrevista ao jornal “Público”, revelando o percurso feito e as respectivas referências seguidas:

“Alberto Manguel escreveu um Dicionário de Lugares Imaginários, mas esta obra é sobre bibliotecas que existiram de facto. É verdade que me surpreendeu muito quando, em poucas linhas, ele explica, que num barracão de Auschwitz – o lugar mais terrível que existiu –, conseguiram criar aquela que terá sido a biblioteca pública mais pequena do mundo, com apenas oito volumes. Mas, sim, acreditei completamente, porque o dizia Alberto Manguel e porque vi na bibliografia a fonte onde ele tinha ido buscar a informação, que era outro livro. Li este livro, com artigos sobre temas variados relacionados com Auschwitz, e havia umas 15 páginas sobre o campo familiar”. E assim, logo a abrir A Bibliotecária de Auschwitz, o autor cita Manguel:


– “Enquanto durou, o Bloco 31 (no campo de extermínio de Auschwitz ) albergou quinhentas crianças, vários prisioneiros que tinham sido nomeados ‘conselheiros’ e, apesar de toda a vigilância a que estava sujeito e contra todas as probabilidades, uma biblioteca infantil clandestina. Era minúscula: consistia em apenas oito livros, entre os quais Uma Breve História do Mundo, de H.G. Wells, um livro de texto russo e outro de geometria analítica [...]. No fim de cada dia, os livros, com outros tesouros, como medicamentos ou alguma comida que houvesse, eram confiados a uma das meninas mais velhas, que tinha o encargo de escondê-los todas as noites num lugar diferente”... Porém a esses, Iturbe acrescenta ainda, real e paradigmaticamente, entre alguns outros mais que ali existiram, um livro de Freud (Novos Caminhos da Terapia Psicanalítica), As Aventuras do Bravo Soldado Svejk de Jaroslav Hasek, um Atlas Universal, o Conde de Montecristo de Dumas, todos constituindo afinal um sinal de Esperança e um ícone de Humanidade, naquele laboratório de morte e ignomínia:


– “Dita olhava os livros, mas sobretudo acariciava-os. Estavam rasgados e riscados, manuseados, com cercaduras avermelhadas de humidade, alguns deles mutilados... mas eram um tesouro. E a fragilidade tornava-os ainda mais valiosos. Apercebia-se de que tinha de cuidar daqueles livros como se fossem velhinhos sobreviventes de uma catástrofe porque tinham uma importância crucial: sem eles, podia perder-se a sabedoria de séculos de civilização. A geografia, que nos mostrava como era o mundo; a arte da literatura, que multiplicava por dezenas a visa do leitor, o progresso científico, que a matemática representava; a história, que nos recordava de onde vínhamos e talvez nos ajudasse a decidir para onde deveríamos ir; a gramática, que permitia urdir os fios da comunicação entre as pessoas... mais do que uma bibliotecária, a partir daquele dia converteu-se em enfermeira de livros”.


Entretanto, numa longa e sugestiva Entrevista recente ao jornalista brasileiro Herbert Moraes, a própria Dita Kraus pronunciou-se comovidamente sobre o romance de António Iturbe, que todavia ainda não lera, afirmando que, apesar das reservas que o mesmo lhe colocava pessoalmente (“Primeiramente, porque me qualifica como heroína”), lhe diziam ser “um bom livro. Muito bem escrito. Daqueles que não se consegue parar de ler”...


– E tinha certamente razão! Até porque, apesar daquilo que tão tragicamente escreveu Adorno, depois de Auschwitz e de todos os Holocaustos da História, ou por isso mesmo, é que embora não seja mais possível toda e qualquer forma de Poesia inocente, certamente que caberá sempre à Literatura e ao Pensamento livres e comovidos, tentar impedir que eles se repitam às mãos de todos aqueles para quem a Humanidade vale tanto como um “lodaçal de corpos onde os vivos e os mortos não se distinguem, caídos por terra...”.
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 05.04.2014):






















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Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 05.04.2014):



sábado, março 29, 2014



Primores e Cardos da Terceira


1. A cerimónia de Homenagem ao Padre Manuel Coelho de Sousa, com a atribuição que lhe foi feita, a título póstumo, da Medalha de Honra do Município de Angra do Heroísmo, constituiu marcante e muito significativo acontecimento, embora por bem díspares motivos, conforme tem sido referido e também – em boa oportunidade – foi corajosamente escrito e felizmente registado aqui no “Diário dos Açores”(1), em textos que igual e inteiramente subscrevo, tanto por Dionísio Sousa como por Cláudia Cardoso.

Na verdade, – pelo conteúdo das Conferências proferidas (que reconhecida e mutuamente se complementaram em conteúdo temático, perspectiva de estudo e desenvolvimento dos núcleos mais relevantes e profundos da Obra e da Vida de Coelho de Sousa; – pelo louvável empenho que a Câmara de Angra colocou na organização e realização do evento; e, enfim, pelo envolvimento e carinhosa presença que a Vila de S. Sebastião e o esmerado e bonito Coro da sua Santa Casa da Misericórdia artisticamente levaram àquela cerimónia no Salão Nobre dos Paços dos Concelho de Angra, não poderia eu deixar de fazer nova referência a tal acontecimento, para registo dos feitos, defeitos e desfeitas do nosso quotidiano terceirense e açoriano...


 – De resto e assim, para além da recomendação que vivamente faço da leitura integral e da reflexão urgente que o depoimento de Dionísio Sousa deve suscitar, aqui cito ainda as exemplares palavras de Cláudia Cardoso a propósito do mesmo despautério que todos presenciámos: 

“Esta cerimónia (...) Valeu por si, pela justíssima homenagem, mas de facto, surpreendeu pelas ruidosas ausências, demasiadas e injustificáveis, que não explicam nada. Só denunciam uma apatia social grave e uma demissão institucional completamente inaceitável. O governo, a igreja, o jornalismo, a sociedade civil, a quem o homenageado serviu durante tanto tempo, estiveram ausentes. Isto não se explica, constata-se, e lamenta-se...”!


2. Várias foram as homenagens anteriormente prestadas ao Padre Coelho de Sousa na sua dilecta e natal Vila de S. Sebastião (onde nasceu a 30.09.1924), mas também ali na mesma Câmara que, em 2001, lhe concedera o título de Cidadão Honorário de Angra do Heroísmo, atribuindo-se na ocasião o seu nome a uma Rua daquela Vila, na mesma altura em que foi inaugurado um Monumento-Busto em sua memória, – tudo integrado num Programa Cultural e Artístico, ao qual o jornal “A União” se associou com a publicação de um Suplemento Especial sobre o seu antigo Director, já lá vão 13 rápidos anos...


Porém, anteriormente, em 1988 haviam já sido assinalados os 64 anos de vida do Padre Coelho, 4 décadas do seu Sacerdócio e 25 anos de trabalho pastoral naquela então freguesia e Paróquia onde ele fora colocado em 1963 (e onde exerceu até à morte, no dia 2 de Setembro de 1995, com 71 anos). Para trás foram entretanto ficando sucessivas etapas e marcos da sua vida:




– A infância rural, com a família, em S. Sebastião, e os primeiros contactos com esse pequeno mundo circundante, laboral e socialmente polarizado a meio caminho entre Angra e a minha antiga Praia da Vitória (aquela mesma que lhe pedi recordasse, como solidariamente o fez em 1982, para os nossos primeiros números do “Jornal da Praia”); os estudos eclesiásticos e a Ordenação Sacerdotal em 1948; a profícua e marcante docência de Língua Portuguesa no Seminário Maior da nossa Diocese, durante quatro anos; a ida para Espanha, a frequência do Curso e o Bacharelato em Filologia Românica na Universidade de Salamanca, entre 1951-53; o antecipado e definitivo retorno, por razões de saúde, à Terceira; a Capelania em S. Rafael (em 54) e a chefia da redacção em “A União”, desde 1956 até 63; a leccionação no Seminário-Colégio dos Padres Damião, na Praia da Vitória, e mais tarde no Liceu de Angra, hoje Escola Secundária Jerónimo Emiliano de Andrade; por fim, o regresso ao jornal “A União”, primeiro coadjuvando Monsenhor José Machado Lourenço, entre 1976 e 1978, data em que assumirá, até 1994, o cargo de Director daquele venerável, histórico-informativo, cultural, doutrinal, eclesial e tão fecundo vespertino diocesano (recentemente e em muito má hora irresponsavelmente extinto)... E foi até naquela tão difícil época do pós-25 de Abril, coincidindo com os finais do politicamente chamado “Verão Quente”, com a primeira estabilização constitucional portuguesa e com o arranque das labutas para a primaveril consolidação da Autonomia Regional, que Coelho de Sousa, escreveu e proclamou, de novo e em coerência constante, o seu recorrente posicionamento de valores e os seus permanentes e indomáveis ideários de missão de formar e informar:

– “Servirei respeitando as autoridades legitimamente constituídas. Livre de qualquer pressão interna ou externa de governos, movimentos ou partidos, grupos ou qualquer outra força impositiva ou interesseiramente paternalista. Servirei pelos direitos e deveres que se deduzem do Evangelho e da doutrina actual da Igreja, rectamente interpretados. Servirei pelos Direitos do Homem, a Constituição da República e a Lei de Imprensa, que aqui e agora nos conferem”.


3. Pregador, Orador, Escritor, Professor, Artista e Jornalista – com quinze variadas e múltiplas facetas de valência, na contagem recente de Dionísio Sousa... –, talento de reconhecidos méritos portanto, Coelho de Sousa levou a sua palavra tocante a púlpitos, encontros de espiritualidade e tribunas de todo o Arquipélago, do País e das nossas Comunidades imigradas, que visitou com apreço e dedicação atenta, conforme está documentado num seu belo livro de Crónicas de Viagem (Na Rota da Emigração Amiga, publicado em 1983).


 – Ora na cerimónia de Homenagem a Coelho de Sousa que venho referindo, tive grata ocasião de recordar várias das suas dimensões existenciais, sociais e poéticas, mas não pude deixar de terminar aquela evocação saudosa e grata como se a sua viva imagem nos estivesse, entre tantas outras, tão presente como dantes:

– Agora, vejo-o e logo o reconheço, ali na Praça, junto ao Império da Vila de S. Sebastião, pintando e desenhando hinos em cor e traço e devoção ao Senhor Espírito Santo das Ilhas dos Açores, para que nos sejam dados sempre o Pão e o Vinho da abundância do Coração e da fraternidade da Paz! E como nas invocações de outrora, fechei então, e encerrarei do mesmo modo o meu álbum de reminiscências...


– Não tenho a certeza, mas parece-me que o Padre Coelho, com a chegada da Primavera, ainda lá irá mais algumas vezes, acenando de longe, um pouco vaidoso e sorridente para os amigos e confidentes que o escutaram, nele confiaram e o quiseram homenagear, mas também, distantemente triste e ofendido com os que dele maldisseram, o menosprezaram ou o esqueceram em vida e na própria morte... –, porém a todos convidando a olhar com olhos de ver, dando, recebendo e partilhando na comum e frágil humanidade de todos, como ele escreveu, “as flores dos jardins de Deus”...

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(1) Cf. "Diário dos Açores" de 28.03.2014):















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Publicado em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 29.03.2014): 






















Outra versão em Azores Digital:



















RTP-Açores:


















e "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 29.03.2014):

 

segunda-feira, março 24, 2014



A Regionalização da Fome


A Semana da Cáritas foi este ano motivada pelo tema “Unidos no Amor, Juntos contra a Fome”. Trata-se, sem dúvida, de um problema duplamente perspectivável, com o qual se pretendeu focar o crescente e dramático fenómeno da Fome!


Aliás, como aqui escrevemos há poucos meses – e nunca será de mais recordar... –, já na Mensagem do Papa destinada à Caritas Internacional e à “Campanha contra a fome no mundo”, lançada por esta organização e desenvolvida em unidade com as suas 164 filiadas em 200 países e territórios, fora salientado ser um escândalo mundial estarmos ainda – ou, talvez melhor, já hoje – perante a existência de quase mil milhões de pessoas que passam fome, sendo esta uma realidade à qual “não podemos virar a cara para o lado”, fingindo que não existe

Este flagelo – atingindo agora também largas camadas da classe média caída ou retornada a uma vida pobre e faminta de tudo – fora profeticamente abordado em macro-dimensão objectiva pelo médico, político e professor universitário brasileiro Josué de Castro na sua memorável Geografia da Fome (1946), reforçando-se aí a ideia de que a Fome não se resolve apenas, nem sequer principalmente, com “esmolas de caridade” nem com lenitivas “assistências sociais”, apesar destas serem tão necessárias e urgentes hoje como o foram em violentos tempos de guerra, ou durante séculos de opressivo subdesenvolvimento, vil exploração e opressiva penúria!


– Esse livro marcou indelevelmente gerações de homens de Estado e políticos de Consciência, tal como Adriano Moreira que recentemente tornou a afirmar a propósito de um oportuno inquérito da RTP sobre livros e leituras marcantes ter sido a obra de Josué de Castro aquela que escolheria entre várias, na medida em que “mais tem a ver com a situação trágica, que se agrava diariamente, nesta Europa que governou o mundo, e no país que é nosso e sofre as consequências do novo-riquismo que se foi sobrepondo às diferenças ideológicas invocadas durante meio século de Guerra Fria”, – citando de seguida um Nobel de Literatura (Pearl Buck) que analogamente confessara assim ser aquele “o livro mais encorajador, mais esperançoso e mais cordial” que já lera em toda a sua vida: “ler este livro tão expressivo, tão claro em seu pensamento, tão racional na exposição dos factos científicos, tão sábio em suas sugestões acerca de novas formas de conhecimento, é encontrar uma renovada esperança para a humanidade”.

 “ Todavia – mais ressaltou Adriano Moreira, remetendo também para as investigações do teólogo Hans Kung e para a chamada “nova evangelização” do Papa Francisco – nesta crise que globalmente se agrava (...), não pode ignorar-se a responsabilidade que governanças ineficazes e mal esclarecidas assumiram pela situação a que a população, com dimensão crescente no globo, agora também entre os ocidentais, foi conduzida, porque as vozes encantatórias capazes de movimentar o esforço cívico das sociedades civis foram caladas por uma teologia de mercado sem paradigma ético reconhecido”.
E em Portugal, concluía aquele distinto professor em consequência, perante as “notícias sobre a validade da ciência em que se baseia a imposta política de austeridade, e a fadiga tributária que atinge a sociedade civil, convém não esquecer que anteriores às obrigações perante a troika existem sérias obrigações internacionais a que o Estado português também está obrigado”...

– Manifestação pois de um profundo e escandaloso desequilíbrio, quando não de absoluta negação ou desfalque dos mais elementares Direitos do Homem, a Fome, tal como a Pobreza (mas ultrapassando-a no grau de desumanidade e desumanização que revela e concretiza), não é todavia já um acontecimento afastado de nós, visível ou audível como lancinante grito ou eco à distância de continentes, paragens inóspitas, áridas zonas vagamente tribais, ou em metrópoles empestadas, longínquos redutos e periferias de si mesmas nos subúrbios da Terra. (1)

 

Mas de facto, não é esta a sofrida realidade, nem a feição daquilo que nos atinge de perto, qual calvário de amarguras e carências à porta, nas ilhas e redondezas das nossas habitações e habituações..., pese embora o que não há muito tempo vimos e ouvimos na ALRAA ainda a este propósito da Fome, da problemática do rendimento escolar dos estudantes açorianos e da relação que o processo de aprendizagem e desempenho dos nossos alunos possa ter (como é mais do que sabido que efectivamente também tem!) com a problemática dos hábitos de alimentação e das respectivas e integrantes possibilidades e práticas de nutrição.


– E isto, como então salientei, apesar da seriedade deste mesmo tema da Fome ter podido constituir uma boa oportunidade para se ter ali mostrado mais dignidade, competência, compostura e até mesmo alguma exigível fidelidade ideológica e ética, perante fenómenos e factos cada vez mais indesmentíveis (conquanto complexos), e perante princípios e valores intocáveis, cujo esquecimento ou falsificação não podem, em circunstância alguma, continuar a ser levianamente aceites, quando não pura e simplesmente subtraídos à evidência gritante também nos Açores, sejam lá quais forem os defensivos ou agressivos pretextos trazidos à riça político-partidária, institucional ou outra de parecido e intencional jaez...


Ora nos Açores – e porque a situação é crescentemente alarmante, como, entre outros tem sido bem mostrado pela Cáritas diocesana (na Terceira e em S. Miguel), e pelos sempre tão frontais testemunhos de Mons. Weber Machado –, na passagem destes dias muitas foram as campanhas, debates, programas e justas denúncias a que tornámos a assistir, sendo que tais acções de sensibilização foram oportunidade para novos alertas e revelações, apresentação de dados estatísticos e comprovação de degradantes e vergonhosos impasses corajosamente trazidos a maior visibilidade, infelizmente porém tantas vezes por entre ignorâncias políticas intencionais, cumplicidades sistemáticas e escamoteamentos socio-estruturais, alguns até aceites com complacência cúmplice, quietação espiritual, alienação ética, cegueira histórica e desculpabilização religiosa, comunicacional e socialmente acomodadas!
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(1) Segundo as indicações do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento (EU-SILC), realizado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) em 2013 sobre rendimentos do ano anterior, 18,7% das pessoas estavam em risco de pobreza em 2012, mais 0,8 p.p. do que em 2011 (17,9%).



A taxa de risco de pobreza das famílias com crianças dependentes foi de 22,2% em 2012, aumentando novamente a desvantagem relativa face ao valor para o total da população residente. As taxas de risco de pobreza mais elevadas foram estimadas para os agregados constituídos por um adulto com pelo menos uma criança dependente (33,6%), por dois adultos com três ou mais crianças (40,4%) e por 3 ou mais adultos com crianças (23,7%), que ao longo da série enfrentam pela primeira vez um risco de pobreza superior ao das pessoas que vivem sós (21,7%).
O risco de pobreza para a população em situação de desemprego foi de 40,2% em 2012, com um aumento de 1,9 p.p. face ao ano anterior, e a proporção da população com menos de 60 anos que vivia em agregados familiares com intensidade laboral per capita muito reduzida aumentou 2,0 p.p., de 10,1% para 12,2% em 2012.
A assimetria na distribuição dos rendimentos entre os grupos da população com maiores e menores recursos manteve a tendência de crescimento verificada nos últimos anos.

Cf. texto integral do Relatório do INE, aqui:

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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 25.03.2014):








domingo, março 23, 2014




Um Leitor dos Sinais da Fé


1. No passado dia 12, vitimado por um aneurisma da aorta abdominal, faleceu D. José da Cruz Policarpo, Cardeal e XVI Patriarca (Emérito) de Lisboa (a cuja titularidade, assumida em 1998, resignara em 2011 por limite de idade). Irmão mais velho dos nove filhos de um casal de agricultores, nascera a 26.02.1936 (Alvorninha, Caldas da Rainha, Leiria), tendo estudado Filosofia e Teologia em Santarém, Almada e no famoso Seminário dos Olivais, onde depois seria Reitor (1970-1997).

– Sacerdote em 15.08.1961; director (1961-66) do Seminário de Panafirme (Torres Vedras); Bispo (Auxiliar) de Lisboa (1978) e Cardeal em 2001, José Policarpo foi Professor de Teologia na Universidade Católica (UCP) desde 1970, Magnífico Reitor (1988/92 e 92/1996) e seu Magno Chanceler desde 1996.


2. Em Roma, onde viveu (1966-70), licenciou-se em Teologia Dogmática (com a Dissertação: Teologia das Religiões Não-Cristãs, 1968) e doutorou-se (1970) pela mesma Pontifícia Universidade Gregoriana com uma inovadora e importante Tese (“Sinais dos Tempos” – Génese Histórica e Interpretação Teológica, publicada em 1971 pela Editora Sampedro), que é reconhecidamente uma abordagem temática de “rara qualidade, tanto na parte positiva como na parte sistemática”.

– Nesse último e referencial trabalho, que mantém pleno interesse teológico, socio-pastoral, sociológico e filosófico, aborda e refaz o seu autor tanto a génese histórica, com um duplo critério de ordem cronológica e ideológica, da evolução da famoso Esquema XIII e da Gaudium et Spes, quanto os principais aspectos da obrigação de interpretar os sinais dos tempos: “justificação teológica dessa possibilidade, à luz das relações entre salvação e história; os problemas postos pelo discernimento desses sinais; as implicações práticas na vida da Igreja e dos cristãos”.

De resto, aquele mesmo tema dos “sinais dos tempos” – que vinha despertando reflexão em Portugal, como se comprova nomeadamente pela edição, também pela Livraria Sampedro (Lisboa, 1969), da obra A Igreja no Mundo de Hoje, traduzida por Manuel do Carmo Ferreira e que incluía notáveis Comentários àqueles Documentos, por conhecidos teólogos da craveira de Karl Rahner, Chenu, Schillebeeckx, Dondeyne, Calvez, Dubarle, etc. –, continua, a todos os níveis, sendo cada vez mais actual e urgente com vista ao seu discernimento e em simultâneo tanto para uma observação objectiva da História como para a sua real e efectiva transformação libertadora, tal qual D. José Policarpo acentuara da primeira:

– “A primeira condição para poder interpretar os sinais dos tempos, é ter o sentido da objectividade histórica. Todo o discernimento deve necessariamente começar por uma observação paciente e uma análise rigorosa dos acontecimentos e fenómenos humanos, que é preciso captar na sua objectividade de realidades terrestres. É preciso inventariar o mais exaustivamente possível os fenómenos observáveis sociologicamente, fenómenos que, sem serem necessariamente universais, sejam suficientemente generalizados para poderem ser característicos de uma época. Este sentido da objectividade histórica é absolutamente necessário para uma verdadeira interpretação dos sinais dos tempos”...


3. Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (1999-02, 2002-05 e 2011-2014), tendo pertencido ainda ao Conselho Pontifício da Cultura, Congregação de Educação Cristã e Conselho Pontifício para os Leigos, D. José Policarpo era detentor de sólida Cultura teológica e filosófica, fé e inteligência da fé inabaláveis, solicitude pastoral e capacidade de diálogo (recordo o seu notável diálogo crítico com Eduardo Prado Coelho...), atributos bem comprovados nas causas, missões e projectos que abraçou na Igreja e no nosso País, e cujos princípios e delineamentos doutrinais, eclesiais, socioculturais e teórico-práticos (com “verdadeiro valor teológico tanto para a teologia histórica como para a teologia sistemática”) estiveram sempre bem marcados e assim foram logo justamente reconhecidos em 1970 pelos seus orientadores jesuítas (R. Latourelle e F. Pastor)!

– Por tudo isso, por ter sido meu estimado Reitor na UCP e presidente da sua então Superior Congregação (à qual pertenci, durante dois anos lectivos, em eleita representação dos colegas do nosso Curso de Filosofia), mas depois também pelas memoráveis I Jornadas de Solidariedade Social dos Açores (1991) – nas quais, entre outros, com Francisco Pimentel (então director regional da Segurança Social e seu principal promotor), Adelaide Batista, Álamo Oliveira, António Rego, Armando Leandro, Bagão Félix, Cinelândia Cogumbreiro e Sousa, Conceição Estrela, Daniel de Sá, Fernanda Mendes, Fernando Campos, José Hermano Saraiva, Manuela Eanes, Margarida Moniz, Piedade Lalanda, Reis Leite e Vítor Melícias, estivemos então novamente juntos e em frutuoso diálogo aqui em Angra do Heroísmo –, recordo-o hoje com saudade, respeito e admiração institucional, gratidão académica e a muita estima que guardo da sua obra cultural, do seu pensamento intelectual e da sua própria pessoa.

E depois, por estes dias de memória e despedida, como dele tão profundamente disse Eduardo Lourenço, concorde-se ou não com tudo o que defendeu ou problematizou na Sociedade e na Igreja em Portugal, D. José da Cruz Policarpo, independentemente de ser um homem de Fé (ou talvez, digo eu, por isso mesmo) – “e ninguém ficará insensível à reiteração sentida e grave dela”... – foi um homem de escolha:

– “Da única que, para ele, recebe esse nome: a irreversível, aquela que só uma aposta transcendente explica e só o Amor legitima. Aquela que encerra alguém na redoma de Deus”!
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 22.03.2014):






















e "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 23.02.2014):


sábado, março 22, 2014



As Penúrias da Fome


A Semana da Cáritas foi este ano motivada pelo tema “Unidos no Amor, Juntos contra a Fome”. Trata-se, sem dúvida, de um problema duplamente perspectivável, com o qual se pretendeu focar o crescente e dramático fenómeno da Fome!


– Manifestação de um profundo e escandaloso desequilíbrio, quando não de absoluta negação ou desfalque dos mais elementares Direitos do Homem, a Fome, tal como a Pobreza (mas ultrapassando-a no grau de desumanidade e desumanização que revela e concretiza), não é todavia já um acontecimento afastado de nós, visível ou audível como lancinante grito ou eco à distância de continentes, paragens inóspitas, áridas zonas vagamente tribais, ou em metrópoles empestadas, longínquos redutos e periferias de si mesmas nos subúrbios da Terra...


De facto, não é esta a sofrida realidade, nem a feição daquilo que nos atinge de perto, qual calvário de amarguras e carências à porta, nas ilhas, redondezas das nossas habitações e habituações...


– Ora na passagem destes dias muitas foram as campanhas, debates, programas e justas denúncias a que assistimos, sendo que tais acções de sensibilização foram oportunidade para novos alertas e revelações, dados estatísticos e degradantes e vergonhosos impasses corajosamente trazidos a maior visibilidade, conquanto por entre ignorâncias políticas intencionais, cumplicidades sistemáticas e escamoteamentos socio-estruturais, alguns até aceites com complacência, apaziguamento, alienação ética, cegueira histórica e desculpabilização religiosamente acomodada!


Este flagelo, atingindo agora também largas camadas da classe média caída ou retornada a uma vida pobre e faminta de tudo, foi profeticamente abordado em macro-dimensão objectiva por Josué de Castro na sua memorável Geografia da Fome (1946), reforçando-se aí a ideia de que a Fome não se resolve apenas, nem sequer principalmente, com “esmolas de caridade” nem com lenitivas “assistências sociais”, apesar destas serem tão necessárias e urgentes hoje como o foram em violentos tempos de guerra, ou durante séculos de opressivo subdesenvolvimento, vil exploração e opressiva penúria...
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Em "Azores Digital":


















RTP-Açores:


















e "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 22.03.2014):








segunda-feira, março 17, 2014



BAIRRISMO E RESPONSABILIDADE


Tem os últimos dias sido marcados por inusitada – conquanto não inédita nem surpreendente, nem sequer imprevisível... – onda de serôdio bairrismo (tomado o conceito e sua tradução prática no pior sentido).


 – Todavia, a par desse escorregadio e viciosamente escamoteado terreno ilhéu – que excede os inocentes remoques com os quais outrora, como ironizava Vitorino Nemésio, “entretínhamos a nossa concorrência humaníssima nos penhascos”... –, também não faltaram, nos diversos e antagónicos flancos feridos desta envenenada contenda, tanto razões fundamentadas quanto meras sensibilidades epidérmicas (muitas delas de pouco servindo a não ser para iludir o fundo da questão, à beira de precipícios e despudoradas retóricas corporativas, com as quais aliás se procurou enganar tolos com percentagens e bolos, enquanto a outros, ingénuos ou inocentes úteis, se pretendeu colocar bibes ou antolhos para lides espicaçadas à força de falácias, contas (des)afortunadas ou tabuadas combinadas só para estratégica redistribuição de traficâncias, prebendas, subsídios, cargos, assentos, representações e outros jobs para boys & leggy girls deste insular regime (dito e redito adulto e saudável nas diversas “vias” com que o vão crismando à vontade e voz dos donos)!

Porém, deste negativo imbróglio e lastimável refrega, com arreigados afãs de (des)conversa e (des)compromisso em todos os lados da barricada onde que os nossos politiqueiros se montam ensandecidos e em despique (na praça pública ou à socapa nas capitanias sonsas onde saltitam como murganhos...), muitos dos reais culpados e mandantes permanecem na toca das suas jogatinas e demissões...


– Ora antes perspectivassem o futuro, com profunda reflexão sobre o modelo de Desenvolvimento que os Açores precisam, com racionalidade, rigoroso planeamento, justiça, equidade, diálogo e solidariedade, sem complexos de hegemonia ou de inferioridade (perante os quais, no circunscrito alforge de recursos que temos, do Corvo a Santa Maria, não haverá unidade de espírito açoriano nem economia de matérias e meios que resistam à acefalia sistémica e à irresponsabilidade geracional que estão aniquilando uma Autonomia tão esperançosa, histórica e esforçadamente conquistada)!

De resto, tal como clara e firmemente salientei na minha Conferência de Encerramento da X Semana de Estudos dos Açores (Angra do Heroísmo, Março de 1992), permanecem hoje válidas – e afinal crescentemente revestidas de maior pertinência e inadiável retoma de reflexão colectiva, institucional e individual, para aguentarmos e levarmos a bom porto “Essas lanchas, aí, na carneirada”... – as seguintes conclusões:

– “Em parte total, a continuidade e a garantia do sucesso possível da Autonomia dos Açores assentam na preservação e no incremento fraterno da unidade dos Açorianos, de todas as Ilhas e das Comunidades Imigradas.

“Porque, e disso não tenhamos qualquer dúvida, divididos, antagonizados e encurralados, seríamos rapidamente vencidos!


“Tal desencantado espectro de fracasso das nossas energias, tal retrocesso cívico e cultural, sendo sinónimo antecipado de uma anemia sistémica das nossas comunidades, representaria um baquear geracional face às dificuldades, e teria consequências desmobilizadoras e degradantes, durante muito tempo inferiorizantes para o Arquipélago e para o País”...

– Mas para que tudo isto seja assegurado com transparência e lealdade é também necessário fortalecer novamente, ou recriar, uma sólida e crítica cultura de identidade colectiva, de comunidade e projecto de destino comum, de trabalho solidário, de estudo rigoroso e de desenvolvimento autêntico, cultivando-se em simultâneo apego e amor à terra e à sua gente, tal como ficou dito antes e vale ainda agora reler numa pequena grande obra de reflexão insular açoriana de 1989 (O Desafio Insular, de João Bosco Mota Amaral, obra que tive o gosto de prefaciar e que me ocorre citar muitas vezes):

“O desenvolvimento para ser completo e alcançar as suas finalidades humanistas – desenvolver o Homem todo e todos os homens – tem de ser feito, em qualquer comunidade, de dentro para fora. (...) É impossível, e ineficaz, pretender desenvolver as ilhas de fora para dentro, segundo esquemas pensados longe do meio insular e sem participação das respectivas populações”.

“ (...) Considero que o segredo da resistência e sobrevivência, no passado, em condições por vezes incríveis, de miséria e opressão, e também da vitalidade no futuro, está, para os povos insulares, na força da sua identificação cultural e na relação desta com a ilha.


“Assim, alcançados padrões razoáveis de qualidade de vida, e apesar do natural desnível com outras áreas, as ilhas onde floresça uma cultura própria continuarão a mostrar possuir força vital, fixando a população, inclusivamente jovem, em níveis razoáveis, mantendo laços e estreito intercâmbio com núcleos de naturais residentes no exterior, fortemente ligados à realidade insular, e enriquecendo a Humanidade com o seu contributo de diversidade”...
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Em RTP-Açores:






































e "Diário dos Açores (Ponta Delgada, 18.03.2014):























Primeira versão ("Acefalia e responsabilidade") 
em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 15.03.2014):