sábado, março 08, 2014




Memória e Evocação

de João Afonso

No passado dia 22 de Fevereiro, faleceu em Angra do Heroísmo João Dias Afonso, distinto Jornalista, Escritor e Investigador natural desta cidade onde nasceu em 27 de Agosto de 1923. Detentor de uma assinalável e relevante carreira, a sua vida foi marcada por uma grande diversidade de trabalhos de escrita, estudos, arquivos e prospecções documentais, na sua maior parte dedicados à Literatura, à  História, à Cultura e aos patrimónios intelectuais e sociais desta sua tão querida terra natal!

– João Afonso, cidadão angrense que em finais de 2013 foi justamente homenageado pela Câmara Municipal desta sua terra natal, estudou em Angra do Heroísmo até à sua ida para Coimbra a fim de frequentar o Curso de Direito (que teve de abandonar depois, por graves motivos de saúde – detectados pelo seu então colega de residência universitária Hélio Flores Brasil, futuro médico e personalidade já brilhante nos seus conhecidos dons e dotes clínicos). Regressado à Terceira, concorreu e exerceu o cargo de Bibliotecário Municipal – chegando mesmo a exercer como Director da Biblioteca Municipal de Angra –, carreira técnico-profissional que prosseguiu na Biblioteca Pública e Arquivo de Angra, até 1978.


Poeta, Conferencista, Tradutor, Historiador, Etnógrafo e Ensaísta – desde os iniciais e quase inumeráveis textos de intervenção cultural, cívica e institucional em defesa desta terra e da promoção do seu povo, em jornais, livros, revistas e simpósios os mais diferentes e reputados, até à sua monumental Bibliografia Geral dos Açores – 3 tomos publicados (e outros 7 prontos, que ficaram para edição...), naquele que foi e é um projecto verdadeira e exem­plarmente continuador do paradigmático Diccionario Bibliographico Portuguez de Francisco da Silva Inocêncio (1810-1876), e assim ainda da Bibliotheca Lusitana de Diogo Barbosa Machado (1741-1759) e entre nós de Ernesto do Canto... –, passando pela poesia de Medieval (1953), Enotesco (1955), Pássaro Pedinte e Ruas Dispersas (1960), e Cantigas do Terramoto (1980), pela produção vultuosíssima da década de 50 (Centenário Garrettiano, fundação do Grupo "Amigos da Terceira"...) e pelos estudos e intervenções das décadas de 60 e 70 (Antero de Quental, João Baptista Machado, Etnografia e Patrimónios açorianos, políticas de Turismo, Transportes e Comunicações, etc.) –, praticamente sobre tudo o que diz respeito à nossa vida e interesses colectivos, identidade histórica e espiritual e direito das gentes a serem gente personalizada, desenvolvida, mais culta e autenticamente emancipada, escreveu muito e bem João Afonso, para tanto bastando consultar, apenas só até 1985, as mesmo assim seleccionadas 237 entradas da sua própria bibliografia!

Comendador da Ordem do Infante, Membro da Academia Portuguesa de História, da Sociedade de Geografia, do Instituto Histórico-Geográfïco de Santa Catarina (Brasil), do Instituto Açoriano de Cultura e do Instituto Histórico da Ilha Terceira, João Afonso foi também um empenhado e pioneiro promotor do intercâmbio institucional, social e cultural com as Comunidades Açorianas no Brasil e nos Estados Unidos (especialmente no movimento de aproximação a Tulare e Cidades Irmãs).


– Todavia este homem ainda encontrou tempo para ser chefe-de-redacção do jornal "Diário Insular" (do qual foi co-fundador e onde, durante dezenas de anos, coordenou – foram mais de 600 páginas... – o excepcional e ímpar Suplemento de Artes e Letras) e ainda para ir fazendo Gazetilhas e outros Versos e Prosas (suas e de outros, que também muito traduziu de inglês, espanhol e francês, bastando lembrar James Merril, David Morton e Blaise Cendrars), e muito prefaciou e incentivou e promoveu nas Letras e nas Artes locais...

Por outro lado, a conhecida ligação pessoal e estudiosa de João Afonso a Vitorino Nemésio – conforme tive grata ocasião de afirmar na Apresentação que fiz da Conferência que o convidei a proferir (Nemésio em Angra, Angra em Nemésio, realizada no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Angra, no dia l de Junho de 2001) – reflectiu-se nos seus múltiplos textos e conferências sobre o escritor de Mau Tempo no Canal e Corsário das Ilhas, editados que foram em jornais, revistas de especialidade e outras publicações regionais, nacionais e estrangeiras, de entre os quais saliento apenas o mano-a-mano (naquele escaldante Verão de 1975...) Açores – Actualidade e Destinos (artigos de Vitorino Nemésio e seus, com Prefácio de Nemésio), Silêncio é peso de Deus (1978) e Imagem Açoriana de Vitorino Nemésio (estes apresentados como Conferências na Califórnia, no Consulado de Portugal em Providence e na Universidade de Massachusets).


– Colaborador de Quatro Ventos (do seu grande amigo Amândio César) e Ocidente e das revistas e boletins das nossas Sociedades e Institutos Históricos e Culturais, e primeiro Delegado da RTP nos Açores (quando ainda nem sequer Televisão tínhamos...), João Afonso, apaixonado por mares e viagens, estudou e quase como que envergou todas as vestes da alma e da prosa insular terceirense, talvez por isso tão bem sabendo visar e visionar roupagens e velas, âncoras e arpões, rendinhas e tatuagens em osso e pedra, em madeirames ou frágeis papéis e fumos do seu inseparável cigarro de escritor... – como os sonhos, utopias, desencantos e mitos daquele seu esplêndido Mar de Baleias e de Baleeiros (1998) – ou no sugestivo e encantador O Trajo nos Açores (19872) e nos apropriados e justos Açores em novos papéis velhos (1980) que dedicou ao seu mestre e amigo Luís da Silva Ribeiro (cujas Obras Completas esmerada e meritoriamente aliás fez depois levar por diante no Instituto Histórico da Ilha Terceira).

Membro de uma geração tão decisivamente e contextualmente situada na vida cultural e artística, na sociedade, no jornalismo e na história político-institucional de Angra, da Terceira e dos Açores de meados do Século XX e do Pós-Guerra em Portugal – onde a diferentes níveis e modos descortinamos ainda Nemésio, António Dacosta, Cortes-Rodrigues, Carreiro da Costa, Maduro Dias, Viegas da Silveira, Baptista de Lima, Adriano Figueiredo, Iracema Moniz, Francisco Valadão, Jr., Ramiro Valadão, Pedro da Silveira, Dutra Faria, Cândido Pamplona Forjaz, Teotónio Pires, Pedro da Silveira, Frederico Lopes, José Agostinho e muitos outros que afinal foram ou eram seus declarados amigos (e também alguns opositores por ideologia, inveja ou mediocridade, factores por cá abundantes...) próximos, correspondentes e fraternais companheiros de leituras, escritas e demandas culturais e intelectuais –, e daí ainda por tudo isto é que entendi dever tornar a deixar aqui e hoje estas palavras (que ele já não lerá) em sua memória e grata evocação, tal como o fiz no Suplemento que lhe dediquei em vida nas saudosas, irresponsavelmente liquidadas mas não olvidadas páginas do nosso jornal “A União” de 14 de Julho de 2001.

– Não sei como, se ou quando a sua terra mais o recordará no muito que lhe deve (apesar do que recentemente puderam escrever, ou bem disseram, Álvaro Monjardino, Jorge Moreira Leonardo, Helena Fagundes e Jorge Forjaz)...


Mas afianço que no ingrato, acinzentado e decadente alheamento a que tanto e tão baixo chegámos (e onde a muitos outros vamos deixando, por idêntica bitola ou desmedida, custosa e insularmente marginalizar ou esquecer...), nem todos de entre nós nos deixaremos cair ou enredar!
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 01.03.2014):




















e "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 09.03.2014):



sexta-feira, março 07, 2014



Quotidianos intemporais




O tradicional costume terceirense de “correr danças e bailinhos” durante o Carnaval, ou agora, talvez melhor, de “esperar por elas e por eles” em salões comunitários ou frente a televisores e outros meios que ao vivo ou mediaticamente os levam e trazem ao interessado acompanhamento dos espectadores, tornou a repetir-se este ano por toda a ilha Terceira (desde clubes, sociedades e agremiações de freguesia, ou mesmo de lugar ou bairro, até às salas, anfiteatros ou auditórios de Angra do Heroísmo e Praia da Vitória, e assim enfim e afinal desde os Açores até às longínquas paragens da chamada diáspora açoriana onde esta quadra popular festiva é também mimada e seguida.


– E para quem, de um ou outro modo, conseguiu assistir a tais espectáculos e exibições certamente não terão faltado motivos vários para apreciação de tão fantástica manifestação da nossa Cultura e Arte Populares, onde Dança, Canto, Teatro, Música, Coreografia, Indumentária, Drama, Comédia, Humor, Cantigas de Maldizer, Crítica Social, Imaginários do Quotidiano, História, Mitos e Desconstrução de Mitos e Mitologias, Hagiografias, Amarguras, Dramas e Esperanças se fundem e confundem numa única e ímpar afirmação de Vida, Sonho e Fantasia, que tanto conseguem potenciar embrionários sentimentos de revolta e anseios de liberdade e justiça, como podem simplesmente servir de escapatória e descompressão de conflitualidades de outro modo não integráveis de modo pacífico (ou pacificado) na controlada ordem e no sistema de valores estabelecidos!



Todavia cá tornámos a ver e a sentir que quase nada escapa à pupila popular e à denúncia que a respectiva verbalização veicula, mesmo que apenas nos à partes ou nos interstícios de uma brilhante, sincopada e musicada declamação, onde as gramáticas se cruzam mas o alvo não escapa à certeira ou matreira rima:


– Talvez porque, como um dos seus mais esmerados artífices poéticos (Álamo Oliveira) tão paradigmaticamente escreveu no seu fabuloso Quixote, também este delírio saudoso de festa e de alegria triste, “nascido no mês intemporal dos homens” deixa sempre “terras de amor embrionário, para que cresça e amadureça e seja colhido ao fim do dia”...
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Azores Digital:
















RTP-Açores:
















“Diário Insular” (08.03.2014):























e “Diário dos Açores” (08.03.2014):



sábado, março 01, 2014



As máscaras da Praxe



Quando comecei a escrever esta Crónica estava agendada no Parlamento a discussão de 2 Projectos de Resolução (um do BE [1] – de 30.01, retomando o então chumbado em 2008; outro do PSD-CDS/PP – datado 20.02), ambos recomendando ao Governo a adopção de novas e moralizadoras medidas e a realização de um actualizado estudo com vista a mais profundo e alargado conhecimento das actuais “Praxes Académicas”, naturalmente com o esperável accionamento de regulamentações específicas, tanto mais urgentes quanto aqueles Projectos constatavam as múltiplas vertentes éticas, legais, cívicas, associativas, psico-comportamentais – e mesmo político-institucionais! – que confluem na grave matéria conhecida e apurada em prévios trabalhos de investigação (por credenciados cientistas sociais como Elísio Estanque, Arriscado Nunes, Rui Bebiano, Maria Eduarda Cruzeiro, Aníbal Frias, Álvaro Garrido, Miguel Cardina e Rita Ribeiro) e também diária e frontalmente denunciada em inúmeras análises e opiniões críticas (Pacheco Pereira, João Vila-Chã, Laura Ferreira dos Santos, Carlos Corrêa, Daniel Oliveira, etc.), e tal como ainda constava de idêntica reflexão apurada nos Relatórios oficiais do Observatório dos Direitos Humanos (2010) e da própria Comissão de Educação e Ciência da Assembleia da República (2008).


– Ora no caso da Proposta do BE fora a mesma entretanto até acompanhada de uma exemplar Moção subscrita por distintas personalidades da nossa vida académica, cultural, científica e artística (*)...

Porém, tudo testemunhos, factos e conteúdos apesar dos quais o documento do BE foi agora novamente chumbado na AR (apesar de 4 deputados centristas terem votado a favor dos pontos 3 e 4 do texto)! (**)


– Voltarei ao tema, passada esta veleira quadra de disfarces, máscaras, catarses e outras folias bailáveis, mais ou menos popularmente inocentes, divertidas ou (in)sondáveis, apesar, ou talvez exactamente devido à certeza das fatídicas cinzas que continuarão a atirar-nos aos olhos e à submissa e artificialmente pacificada cerviz do nosso chocarreiro e efémero quotidiano, já praxado a prazo certo...

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[1]http://app.parlamento.pt/webutils/docs/doc.pdf?path=6148523063446f764c3246795a5868774d546f334e7a67774c336470626d6c7561574e7059585270646d467a4c31684a535339305a58683062334d76634770794f5449354c56684a5353356b62324d3d&fich=pjr929-XII.doc&Inline=true

[2]http://app.parlamento.pt/webutils/docs/doc.pdf?path=6148523063446f764c3246795a5868774d546f334e7a67774c336470626d6c7561574e7059585270646d467a4c31684a535339305a58683062334d76634770794f5459334c56684a5353356b62324d3d&fich=pjr967-XII.doc&Inline=true
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(*) http://www.esquerda.net/artigo/bloco-recolhe-apoios-%C3%A0-iniciativa-para-p%C3%B4r-fim-%C3%A0-viol%C3%AAncia-da-praxe/31515;
 http://www.esquerda.net/dossier/praxes-humilha%C3%A7%C3%A3o-e-impunidade/31285

(**) http://www.esquerda.net/artigo/maioria-psdcds-pp-chumba-proposta-do-bloco-para-p%C3%B4r-fim-%C3%A0-viol%C3%AAncia-da-praxe/31545

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Publicado em Azores Digital:
















"Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 01.03.2014):























RTP-Açores:
http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?article=35558&visual=9&layout=17&tm=41,

e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 04.03.2014):



sábado, fevereiro 22, 2014




Pobreza e tempo de Justiça


  

“Dizer que há uma história não é de forma alguma a mesma coisa que dizer que há coisas que se passam...”. Emmanuel Mounier


“Existe evidentemente uma relação intrínseca entre os conteúdos históricos do bem comum e a configuração e funcionamento dos poderes públicos”. Pacem in Terris



Com o seu exemplar testemunho num recente encontro de reflexão, pessoa amiga e desde sempre empenhada em questões sociopolíticas e de Doutrina Social da Igreja fazia-me recordar um antigo texto (de 1991) no qual eram abordadas precisamente algumas daquelas mesmas problemáticas. Ora sendo que, passados já 23 anos, o assunto permanece não só bastante actual quanto merecedor de revisitação temática entre nós, retomo aqui o respectivo delineamento crítico, infelizmente de novo à luz crua de uma urgência societária cada vez mais gritante...


1. A par das múltiplas questões que se tem vindo a deparar à Região Autónoma dos Açores com o processo mesmo da sua Autonomia político-administrativa, às quais importa dar respostas cada vez mais prontas e eficazes na medida em que constituem outros tantos desafios às instituições e aos agentes pessoais da vida açoriana – e cuja pertinência conjuntural reclama imediata análise e revisão do sistema, práticas e valores estabelecidos no Arquipélago (e afinal em todo o País!) –, existem outros núcleos de constante expressão e universal significação que, embora intrinsecamente relacionados com os primeiros, de algum modo os ultrapassam, entretecendo uma espécie de horizonte de consciência permanente que diz respeito à essência da verdade do homem e ao seu fundamental estatuto social e ético.

– Assim, de entre esses recorrentes sinais dos tempos, que são afinal outros tantos lugares críticos da vida comunitária, há que dar relevo aos fenómenos da Pobreza.

2. Regiões de Pobreza, em áreas mais ou menos circunscritas do tecido sociológico, são todos aqueles espaços aonde uma qualquer real indigência representa alienação ou privação daquilo que é minimamente necessário para uma vida humana digna.

– Todavia e de facto a Pobreza não se reveste de uma só feição, nem é representável apenas a partir de parâmetros mais ou menos estanques, existindo efectivamente muitas e tantas formas de carência humana grave quantas as esferas, múltiplas, hierarquizadas e diferenciadas de actividade, condição ou dimensão da existência.

E assim nenhuma forma de Pobreza é politicamente inocente ou eticamente neutra, tal como nenhum pobre – antes e quase sempre um empobrecido ou um explorado... – é uma fatalidade advinda da pura natureza das coisas sociais, ou um produto de ordem social (e muito menos metafísica!) abstractamente determinada.


Mas a procura de compreensão das causas da Pobreza, único processo legítimo para um consistente e coerente acompanhamento de empenhadas tentativas de contra ela lutar e tentar debelá-la – construindo alternativas superadoras daqueles que são quadros estruturais geradores não só de Pobreza quanto de Injustiça... –, é sempre algo inseparável de uma percepção da realidade cujas categorias de Razão e de Sensibilidade se afirmam e se enraízam em valores não-cousistas nem coisificados de consciência e de eticidade, aliás radicalmente confluentes e mutuamente implicados nos patrimónios da natureza espiritual, social e material do Homem e da história da sua Humanidade!

3. Entre nós – e porque há regiões dentro da Região –, a uma visão globalística e meramente estatística, é pois necessário juntar uma diferenciação concreta, tal como a uma suposta e ilusória unicidade de interesses, afinal mistificadora das disparidades classistas, das prioridades sociais e amiúde até da própria “assistência social” (quase sempre por anulações, conflito ou inversão de interesse e ideologia...), haverá que conceber, contrapor e accionar uma acção política, laboral, económica, social e cultural que tenha como base de sustentação sistemática e sistémica – como propunha em 1971 a doutrina da Octagesima Adveniens (Carta Apostólica de Paulo VI por ocasião do 80.º Aniversário da Encíclica Rerum Novarum) – “um esquema de sociedade, coerente nos meios concretos que escolhe e na sua inspiração, a qual deve alimentar-se numa concepção plena da vocação do homem e das suas diferentes expressões sociais”.


Deste modo, só um tempo de Justiça, sacudindo a fixidez espacializante ou apenas formalmente constituinte ou estatutária dos modelos e custos institucionais vigentes – e aplicado aqui ao caso da nossa Autonomia político-administrativa e da Insularidade histórico-geográfica açoriana – veiculará o dinamismo comprometido e solidário que unicamente as poderá dialectizar, aprofundar e fazer progredir substancialmente, dando conteúdo verdadeiramente virtuoso ao Progresso das ilhas e ao auto-governo regional, enquanto estes forem, ou puderem ser, propiciadores de um maior e verdadeiro Desenvolvimento humano, social e moral dos Açorianos, com todas as exigências, responsabilidades, custos e esperanças que tudo isso fundamenta e exige à Sabedoria, à Política, ao Trabalho, ao Estudo, à Economia, aos multidisciplinares Saberes e até à Fé...

– Porém os últimos dados e acontecimentos, exactamente segundo os mesmos valores e perspectivas acima referidos, são sinais – preocupantes, agressivos e crescentes –, de que há (e continuará a haver) na casa açoriana sempre muito a faltar fazer, que é como quem diz, anos e anos já passados, que ainda é cedo para imaginar a tarefa sequer parcialmente cumprida (muito menos acabada...), quando não até sendo de questionar se a Autonomia vem seguindo e/ou irá prosseguir na via certa e no rumo democrático mais seguro e conscientemente assumido pelo Povo dos Açores!
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 23.02-2014):























e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 22.02.2014):  




























quinta-feira, fevereiro 20, 2014



As carapuças de Capucho


O teatro político-partidário nacional foi há dias animado pela expulsão de uma leva de filiados no PSD, com destaque para o seu dirigente “histórico” António d’Orey Capucho, – facto que motivou comentários a rodos nos órgãos de Comunicação Social e nas Redes Sociais, não faltando até, em alarmado coro, inúmeras análises, protestos e/ou congratulações de grupos, comentadores e lobbies vindos à cena denunciar mais uma das degenerescências da partidária vida lusa (facto em si indiscutível!), e mais purgas anti-democráticas, benfeitorias e/ou saneamentos, zelos jurídico-penais e insólitos exageros de letra, – tudo conforme as bitolas, juízos e interesses em jogo na costumeira febre com que tais dramas sempre tangem sensíveis cordas e nervos num país que quotidianamente se esfrangalha...


– E assim foi, tanto mais quanto, no caso António Capucho, dourados são os seus lembrados brasões, emblemática figura que ele é do nosso democrático panteão ante (oposicionistas tempos da CEUD e da CDE) e pós-abrilino (fundação do PPD de Sá Carneiro)..., pelo que ainda a propósito das suas probas barbichas e/ou méritos não faltaram ditirambos abonatórios pelo tanto que ele lavrou em altos serviços dedicados à governação, à Pátria e ao mundo (detentor que aliás é da Grã-Cruz da Ordem do Infante e Comendador das Ordens de Mérito do Luxemburgo e Espanha)!

Acontece porém que este cavalheiro da velha guarda social-democrata resolveu alinhar eleitoralmente contra o seu próprio partido, em cujas listas antes desejou concorrer para vir a ser nada mais nada menos que presidente da Assembleia da República (ambição ardente e perdida a favor de Fernando Nobre, também este iluminado cidadão, ainda hoje, tal como ele, insistindo em que tem “perfil” para Presidente da República, o mais alto grau e a mais excelsa magistratura da Nação)...



Porém, fatalmente, lá acabou António d’Orey Capucho banido da impoluta falange de Passos, Relvas, Isaltino & Cia. Lda. (conforme estipulam Estatutos do partido que ele bem conhece e que ajudou a tecer), por ter andado dentro e fora, faca na liga, olho na Lapa, fisga aqui, mira acolá, lutando contra a sua própria camisola interior (encoberta por outra provisoriamente envergada, até ver), mas... enfim, ligado ao PSD, filiado a balancé (ou apenas em suspensão preventiva, sabática ou temporária, pouco adiantando aqui tão subtis véus?).


– Ao menos, por ora, quem ficou de capuz enfiado quando o PSD tentou “punir” os nossos Deputados Açorianos (de resto em coerência totalmente diferente!), não terá pio a abrir em toda esta carapuçada, já entretanto a caminho e ensaiando novos fracassos institucionais e pessoais no seu carnavalesco bailinho partidocrático...
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 21.02.2014):



sábado, fevereiro 15, 2014



Ordem para Destroçar!


– Não há dúvida que causou muito alvoroço a Entrevista do Tenente-General José Eduardo Garcia Leandro a Maria Flor Pedroso na Antena 1, podendo ser consultada aqui:

http://www.rtp.pt/antena1/?t=Entrevista-a-Garcia-Leandro.rtp&article=7432&visual=11&tm=16&headline=13



Decorrido pouco tempo sobre a oportunidade que tive de escutar a sua distinta intervenção da Sessão de Homenagem (Lisboa, 25.11.2013) ao General Ramalho Eanes, foi novamente com atenção e agrado que pude seguir esse frontal depoimento, atendendo tanto à conhecida personalidade e distinta folha de serviços técnico-militares, político-institucionais e académicos daquele ilustre Oficial General, quanto ao bem pertinente conteúdo das suas análises sobre a vida do nosso País.

– Nascido em Luanda (1940), aluno do Colégio Militar (1950-57), tendo servido em Angola (1962/64 e 70/72, Guiné (65/67) e Timor (68/70), o TGEN Garcia Leandro foi ainda Governador de Macau (1974/79).


Professor dos Institutos de Estudos Militares, Ciências Sociais e Políticas, Ciências de Informação e Administração, e das Universidades Nova, Autónoma e Católica; Director dos Altos Estudos Militares; Vice-Chefe do EME; Director do IDN e Presidente do Conselho Coordenador do Ensino Superior Militar, Garcia Leandro desempenhou altas funções junto da NATO e como Comandante da Componente Militar da Missão ONU para o Referendo no Sahara Ocidental (MINURSO).




– Investigador e especialista em Estratégia, Relações Internacionais, Gestão de Crises e Missões de Apoio à Paz, este Tenente-General do Exército é também autor de diversos estudos, ensaios, artigos e livros sobre Sistemas Colectivos de Segurança e Defesa Nacional.



O General Garcia Leandro é ainda prestigiado Membro do Conselho de Curadores do IDP – Instituto da Democracia Portuguesa (http://idportuguesa.pt/), participante em inúmeras acções no âmbito deste Instituto e seu representante na PASC (Plataforma Activa da Sociedade Civil).


Ora de todas as matérias abordadas na referida Entrevista (na quase totalidade sobre os múltiplos, interligados e graves problemas com que se debatem a Instituição Militar e os militares portugueses, no quadro geral da organização, funcionamento e responsabilidades do Estado...), acabaram por ganhar destaque político-mediático as duríssimas (impiedosas!) críticas que o General Garcia Leandro fez ao Ministro da Defesa, acusando-o de falhar “em tudo”, e dando conta, alegadamente confessada pelo próprio, do seu – dele, Aguiar Branco, evidentemente – total desconhecimento e impreparação para o cargo que agora ocupa, porquanto o mesmo Ministro de Passos e Portas até lhe teria mesmo confiado que de Defesa nada percebia, coisa que, branco no cinzento, logo o seu gabinete veio mesmo jocosamente desmentir, nos seguintes termos:

– “O ministro da Defesa Nacional teve o prazer da sua companhia uma única vez, ao longo do mandato e em momento algum foi proferida a frase que bombasticamente lhe é imputada ou as restantes considerações relatadas pelo senhor Tenente-General”!


E depois, mais ironicamente ainda se adiantou:

– “O Tenente-General Garcia Leandro não é seu assessor, amigo pessoal ou confidente", e "reconhece[-se] não ter sido possível acomodar, no processo de reforma em curso, as muitas vontades do senhor Tenente-General mas lembra[-se] que não é ministro com a tutela das preferências pessoais do senhor Tenente-General Garcia Leandro"...


De facto, o assunto, como ali foi dito, não passaria de azedas trocas de acusações por entre “asneiras” em série de uns e justificadas “desesperanças” de outros, não fosse o muito descontentamento que pelas nossas competentes Chefias Militares e pela actual Defesa Nacional vai marchando e desfilando, desde surpreendentes escolhas paisano-partidárias (como a de Berta Cabral – por muito que nos custe dizê-lo aqui... – que também deve perceber tanto – ou um pouco mais? – de Defesa que Aguiar Branco...), até às negociações político-diplomáticas e militares que envolvem Acordos de Cooperação internacional por conta (e risco!) da Base das Lajes... –, porém igualmente passando pelas rebaixadas carreiras, recursos e periclitantes assistências aos militares e ex-combatentes –, de tal calibre que, por estas e equiparadas manobras, sem sequer ser preciso consultar, entre outras, a AOFA (Associação de Oficiais das Forças Armadas), com novas e acrescidas evidências diárias e em crescendo... se comprova que estamos mesmo bem entregues e defendidos, como País “soberano” e como Região “autónoma”, sem qualquer dúvida e com certeza, na casa portuguesa, nos quartéis e nas casernas guardadas por estes graduados e arrogantes políticos de punho de papelão...


 – Ou não será que a estes rasos, sem continência sequer, mandá-los já destroçar da parada governamental em Lisboa, ainda era pouco?! 
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Em RTP-Açores:















Azores Digital:



















e “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 15.02.2014):




Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 15.02.2014):