domingo, outubro 19, 2014


Ébola com Falcon no Quintal?
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Crescendo a justificada apreensão mundial (4.447 mortos, mortalidade média na ordem nos 50% e milhares de infectados ainda não apurados) pela propagação exponencial do Ébola – a par dos avisos da OMS e ONU, de especialistas em Saúde Pública e de credenciados Epidemiologistas (v.g. Paul Farmer e Laurie Garrett) –, e quando a propagação viral (gravíssima em África!) começa a alastrar com o surgimento de ocorrências, erros sistémicos, contaminações e (im)previsões globais (em Portugal, ouça-se Francisco George...), o caso açoriano (para nós imediatamente relevante, comprometedor e próximo!) não poderia deixar de merecer atenção prática, acompanhamento integrado, coordenação sistemática e avaliação crítica permanente!


 Entretanto a nível nacional continuam a grassar divergências tanto sobre a nossa preparação para lidar com o Ébola quanto sobre a possibilidade de Portugal poder vir a ter contaminações desse vírus, sendo este o maior risco e admitindo mesmo o director-geral da Saúde, perante a Comissão de Saúde da Assembleia da República, que isso pode verificar-se – “até ao fim do mês” –, em “2, 3, 4 casos (...) importados”, muito embora Francisco George insista simultaneamente na afirmação de que o país está preparado para lutar com esse desafio, precisamente ao contrário do Colégio da Especialidade de Saúde Pública:


– Na verdade, segundo um (entretanto já controvertido) Parecer deste organismo (disponível na íntegra no respectivo Portal Oficial da Ordem dos Médicos), “ o risco teórico de virmos a ter casos de Ébola em Portugal é alto. Se isso acontecer, a dimensão (...) que o problema poderá atingir em termos numéricos (casos e mortes) e de impacto social, depende inteiramente da capacidade dos serviços de Saúde e da sociedade em geral lidarem com o problema”, sendo que esse mesmo risco é especialmente potenciado devido “posicionamento de Portugal como país integrante” dos PALOP, ao qual, do ponto de vista geográfico, humano, estratégico, “pode ainda adicionar-se, como elemento satélite a pesar no fardo do problema, o facto de termos ébola em Espanha, país vizinho e com o qual não existem fronteiras facilmente controláveis, pelo que em termos de circulação de pessoas (do vírus) se pode considerar a península como um só país”.



E depois de analisar, país a país, situação a situação, os contextos da Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Moçambique, o documento do Colégio da Especialidade de Saúde Pública da Ordem dos Médicos analisa bastante criticamente a (im)preparação de Portugal para lidar com o Ébola, tanto de uma perspectiva teórica quanto de uma perspectiva real, articuladas ambas com um suposto “Plano de contingência nacional”, no qual “o modo, confuso e cheio de pontas soltas, como a realidade geralmente se apresenta” e onde o “enfatizar que a tónica na intervenção centrada apenas em serviços hospitalares é errada e que a sua comunicação nos media, centrada em técnicas médicas de ponta e cuidados milagrosos de assistência, produz na população a tal falsa sensação de segurança já invocada”.


– Finalmente este Parecer chega ao ponto de descrever um imaginário (hipotético, mas realista!) panorama, cuja analogia, sem entrar em linha de conta com os portos e as marinas, com um análogo cenário insular açoriano não é difícil de estabelecer, assim:

“O que será lógico esperar – como qualquer epidemiologista experimentado ou qualquer médico de saúde pública sensato sabe desde os tempos do Professor Ricardo Jorge – é que o tal caso de ébola não vai chegar com uma bandeirinha a assinalá-lo ao aeroporto da Portela [das Lajes, ou de outro qualquer aeroporto das ilhas], onde logo chegará uma ambulância [devidamente preparada?] do INEM [dos Bombeiros ou do SRPCBA], que o levará sem demora ao Curry Cabral [ou a outro Hospital de referência, mas fora dos Açores, a partir desse tal aeroporto], onde espera por ele [primeiro...] um quarto [um casulo, talvez...] isolado e apetrechado [eventualmente num helicóptero, e depois num avião Falcon...].



“O que a realidade nos tem demonstrado (designadamente nos casos ocidentais desta epidemia, mas antes disso na história de qualquer surto ou epidemia) é que um (ou mais) caso infectado chegará silenciosamente ao aeroporto num voo fora de horas, em perfeito estado aparente, onde (...) onde um carro cheio de familiares saudosos o esperará para o levar (...), onde há um almoço de celebração do regresso dele (...) marcado para o dia seguinte e onde estarão presentes cerca de cinquenta pessoas que ele, emocionado, abraçará fortemente. E no dia seguinte ao almoço sentir-se-á, pela primeira vez, febril e com dores articulares, cansado, mas irá pensar que tudo isso é fruto da viagem, das horas mal dormidas, da emoção... É isto que poderemos esperar na maioria das situações, não com uma realidade que se molda aos manuais ou aos monitores com algoritmos de uma sala de controlo de emergências”!

– Ora a auscultação de profissionais, decisores, estudiosos, especialistas e operacionais, directa ou indirectamente cientes desta exigente, complexa e pluridisciplinar situação, mais fundamenta e evidencia, também aqui, idêntica e proporcionada preocupação!

Por outro lado continuamos a assistir a orientações nacionais (e regionais?) pouco definidas ou em sobreposição e atropelamento de práticas de duvidosa segurança e pouca viabilidade prática, como aquelas que prevêem a criação, nos Centros de Saúde, de “espaços para isolar temporariamente [“por horas” (sic)] doentes suspeitos” de terem Ébola, ou as outras, emanadas da Autoridade Nacional de Protecção Civil, avisando os Bombeiros de que não devem transportar casos suspeitos de Ébola, mas sim contactar o INEM ou a linha de Saúde, perante as questões da Liga dos Bombeiros Portugueses que tinha manifestado dúvidas sobre o papel destes profissionais no âmbito da prevenção do vírus do Ébola em Portugal...



Assim e para mais ainda, perante a leviandade nacional, face às potenciais vulnerabilidades que a indigitação das Lajes contém como Aeroporto (apenas e só placa?!) de passagem para emergências e operações com o Ébola; e agora – com a inadmissível menorização institucional açoriana atingindo o cúmulo da pura ficção (para não dizer temerária falsidade), de que se poderia “ter confiança no dispositivo montado [?] ao nível da Região” e cujo planeamento estaria “a decorrer em estreita articulação” com a DGS e com o SRPCBA – alegando-se até que o Arquipélago possuiria um “plano de contingência regional para casos específicos, dado que a Região tem características distintas do continente, mas integra-se do plano nacional” –, vemos que se fez um investimento de “20 mil euros em equipamento de proteção e nos casulos para transporte de doentes” (quais?), sendo todavia que logo depois se confirma que “não houve [sequer!] formação das equipas médicas” nos Açores, e que esta (pasme-se!) “É uma situação nova. Sabemos a teoria, mas não a prática” (sic)!




– Realmente, tudo neste caso é um perigoso retrocesso (médico-hospitalar, e não só), comparado, por exemplo, com as ameaças do H5N1, onde ao menos não esperávamos (em ambulância?!) que um Falcon de Lisboa, chamado pelo 112, viesse aterrar no nosso quintal, porquanto, à semelhança do que foi feito no Continente para a gripe pandémica de 2006/07, “ uma estrutura foi montada, circuitos foram criados de novo e a máquina de enfrentar uma epidemia (...) ficou oleada.



“ (...) Parece-nos que essa experiência anterior pouparia – imediatamente também aqui nas nossas ilhas e Região Autónoma dos Açores... – na ameaça de crise actual, tempo e dores de cabeça”, tanto mais quanto, “salvo melhor informação que, até agora, não chegou ao conhecimento do público ou da generalidade dos profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, profissionais de laboratório, pessoal administrativo, pessoal auxiliar de apoio a cuidados médicos) nenhuma orientação, integrada e global, que inclua desde uma estratégia nacional para lidar com o problema até à emissão de informação que responda às perguntas e ansiedades do público em geral e dos profissionais de saúde em particular”!
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 21.10.2014):




Azores Digital:






























sábado, outubro 18, 2014


Um Falcon no Quintal?
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Crescendo justificada apreensão (4.447 mortos, mortalidade média na ordem nos 50% e milhares de infectados ainda não apurados) pela propagação exponencial do Ébola – a par dos avisos da OMS e ONU, de especialistas em Saúde Pública e de credenciados Epidemiologistas (v.g. Paul Farmer e Laurie Garrett) –, e quando a propagação viral (gravíssima em África!) começa a alastrar com o surgimento de ocorrências, erros sistémicos, contaminações e (im)previsões globais (em Portugal, ouça-se Francisco George...), o caso açoriano (para nós imediatamente relevante, comprometedor e próximo!) não poderia deixar de merecer atenção prática, acompanhamento integrado, coordenação sistemática e avaliação crítica permanente!



– Aliás, a auscultação de profissionais, decisores, estudiosos, especialistas e operacionais, directa ou indirectamente cientes desta exigente, complexa e pluridisciplinar situação, mais fundamenta e evidencia, também aqui, idêntica e proporcionada preocupação!


Assim, perante a leviandade nacional, face às potenciais vulnerabilidades que a indigitação das Lajes contém como Aeroporto (apenas e só placa?!) de passagem para emergências e operações com o Ébola; e agora – com a inadmissível menorização institucional açoriana atingindo o cúmulo da pura ficção (para não dizer temerária falsidade), de que se poderia “ter confiança no dispositivo montado [?] ao nível da Região” e cujo planeamento estaria “a decorrer em estreita articulação” com a DGS e com o SRPCBA – alegando-se até que o Arquipélago possuiria um “plano de contingência regional para casos específicos, dado que a Região tem características distintas do continente, mas integra-se do plano nacional” –, vemos que se fez um investimento de “20 mil euros em equipamento de proteção e nos casulos para transporte de doentes” (quais?), sendo todavia que logo depois se confirma que “não houve [sequer!] formação das equipas médicas” nos Açores, e que esta (pasme-se!) “É uma situação nova. Sabemos a teoria, mas não a prática” (sic)!




– Realmente, tudo neste caso é um perigoso retrocesso (médico-hospitalar, e não só), comparado, por exemplo, com o do H5N1, onde ao menos não esperávamos (em ambulância?) que um Falcon de Lisboa, chamado pelo 112, viesse aterrar no nosso quintal!
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Em "Diário Insular" (18.10.2014):




























Azores Digital:




RTP-Açores:























e "Diário dos Açores" (no prelo).



sábado, outubro 11, 2014



A Ternura e o Vigor de Assis
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Atendendo ao actual contexto (e com uma compreensível dose de bom humor...), pede-me um “irmão franciscano” – apesar, diz ele, com alguma razão, da minha “formação ser mais acentuadamente próxima e de predilecção pelos autores tomistas da Escola filosófica e teológica dos Jesuítas” (sic) –, que recupere hoje o tema de fundo da minha Crónica sobre S. Francisco que o DI publicou há uma semana, e que pelo seu carácter relativamente sucinto e sumariado “talvez valesse a pena retomar”!

É o que farei com gosto, desenvolvendo hoje um pouco mais o mesmo assunto .[Nota prévia inserta na publicação deste mesmo texto na edição do jornal "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 12 de outubro de 2014)].


1. Numa feliz coincidência de calendários litúrgicos, técnico-profissionais e societários, comemorámos no passado dia 4 de Outubro a Memória de S. Francisco, o Dia Mundial do Médico Veterinário e o Dia Mundial dos Animais – data (neste último caso) escolhida em Florença, em 1931, durante uma Convenção de Ecologistas, atendendo ao característico e universalmente consagrado “padroado” do poverello de Assis.

– E é assim que para além do profundo significado e alcance ético e deontológico (que naquele dia se relembra e devia traduzir-se nas práticas do quotidiano, no respeito ontologicamente proporcionado por todas as criaturas e eco-bio-sistemas, e identicamente no desempenho daquela especialidade biomédica), a todos se exortou e convidou à renovação (dir-se-ia propriamente trans-física e trans-especista, quando não mesmo metafísica) da sensibilidade racional e antropológica, da atenção afectuosa, da inteligência compassiva e do cuidado vital que à espécie humana cabe, de e para com todos os outros seres e forças da Vida e da Consciência que povoam e co-habitam o planeta Terra...


2. Todavia, no que a S. Francisco particular e referencialmente respeita – como se dizia no pórtico de uma bela Antologia organizada por Frei Adelino Pereira) com Testemunhos Contemporâneos das Letras Portuguesas (Lisboa, INCM, 1982)   sobre o autor dos Fioretti –, caberia logo recordar que “o Pobrezinho que deixou marcas indeléveis na história religiosa e cultural do mundo pós-medieval e especialmente na portuguesa [e também, acrescentemos aqui, de modo muito relevante, no Povoamento, na Evangelização e no Imaginário das Ilhas dos Açores]”, propôs-nos fundamentalmente uma “maneira singularíssima de ser homem e de viver a vida”, uma “forma original de estar no mundo, de pensar a existência e de valorar as coisas”, naquilo que constitui a exemplar visão franciscana da vida!


Ora verdadeiramente naquela obra – que reúne personalidades tão diferentes como Sophia e Urbano Tavares Rodrigues, Raul Rego e Amândio César, Jacinto do Prado Coelho e João Maia, Agostinho da Silva e Manuel Alegre, Agustina e Fernando Namora, Borges de Macedo e António Borges Coelho, Gama Caeiro e Vergílio Ferreira, Moreira das Neves e Miguel Torga, etc. –, não faltam eloquentes textos (e insuspeitas confissões em prosa e verso...) da presença interior, histórico-cultural, religiosa, humanística, simbólica e espiritual daquele filho do rico comerciante Bernardone, primeiro chamado João, lá desde os fins do século XII e daquela cidade de Assis, na antiga Úmbria, com “um pouco de sol da Provença, de terra lavrada pelo encanto trovadoresco, pela ternura delicada e fidalga, pela saudável e casta alegria das Cortes de Amor”.


– E foi mesmo desse modo que entre nós escreveu o filósofo Leonardo Coimbra, a par de tantos outros em múltiplos tempos e lugares, estilos e modos, na reminiscência colectiva popular e erudita, e nas narrativas e múltiplas representações de tudo quanto em Francisco, conforme dizia outro Leonardo [o teólogo Boff], confluiu e permanece de ternura e vigor e de um novo enraizamento afectivo, compassivo e cósmico: humilde e paciente (mas sem resignação perante o Mal e os males do mundo); pobre (mas não submisso face à exploração dos Pobres); resistente ao Sofrimento (mas sem dolorismos masoquistas nem cumplicidade com sadismos opressivos), e – enfim – simultaneamente amante (integrativo mas diferenciador) do varonil e do feminino (sem misoginia nem feminismos estéreis), tal como fascinantemente afinal podemos ver espelhado na pura e transfigurante relação enamorada de Francisco (1182-1226) e da sua tão dilecta Clara (1193-1253), ela própria que, quando jovem donzela, “desejava com frequência senti-lo e vê-lo”, tanto as palavras do seu amado lhe pareciam “chamas”, quanto as obras dele se lhe revelavam quase “sobre-humanas”...


De resto, como muito bem sinalizaram António Quadros e Jaime Cortesão, o Franciscanismo é efectivamente “uma das componentes da alma portuguesa”, sendo que – com Santo António de Lisboa – até houve uma original e primaveril contribuição portuguesa, “quase desde a origem, para a formação do ideal franciscano”, para além de ser a Língua Portuguesa natural e expressivamente “lírica, franciscana, repassada de ternura e piedade”.


– Infelizmente, com certeza por involuntário desconhecimento ou lamentável esquecimento, na excepcional galeria de nomes constantes da bela Antologia que atrás referi, dos Açores, dos nossos autores e das nossas paradigmáticas heranças franciscanas apenas consta um poema joaquimita de Natália Correia (“Tu que do Espírito em clara humanidade/ o núncio foste de melhor idade, / vem com teu óleo sarar as nossas feridas”...), porém (sem ir sequer aos mais antigos Cronistas, Diogo das Chagas, Monte Alverne...) ou, mais próximo, a Côrtes-Rodrigues, ainda restavam, para a contemporaneidade seleccionada, as evocações memoriais e os cânticos de Vitorino Nemésio, como este que sempre trago bem vivo, com a sua profundamente sentida poética confessional: “Do Cristo ao Servo, irmão do lobo e da água, /Cinco fios de sangue tensos vão, / Alto Morse da mágoa, / [...] Teia de amor, será gemido ou uivo o ouvido/ Clamor da doce aceitação?”)...



3. Em todo o caso, e para o que aqui sobremaneira importa relevar – na visão radicalmente assumida da existência humana e da respectiva posteridade universal –, de Francisco de Assis ficou-nos até hoje uma impoluta e timbrada aura (ímpar, luminosa e transcendental...) projectada nos séculos, e para além deles, nas gestas e carismas do Alter Christus (e dos seus dolorosos estigmas...), tal como, embora a outro nível mas em confluente horizonte, a mesma germinou naquela alta expressão de Humanismo que a Civilização do Ocidente, através dos seus melhores espíritos, procurou apontar, assumir e amiúde incarnar como possíveis caminhos e valores alternativos para toda uma Humanidade decaída e dramaticamente perpetradora daqueles grandes crimes e pecados que desvirtuaram tantas vezes, por acção ou omissão, a Mensagem de Jesus, através de uma culpada e demencial violência religiosa, filosófico-teológica, sociopolítica, económica e psico-simbólica que explorou, sacrificou ou destruiu – mas também libertou! – vidas, consciências, classes, raças, espécies, culturas e povos inteiros em todos os continentes da Terra...).


– Talvez por isso, esperançosamente num Dia Novo, só a Graça, o Perdão e a Misericórdia do seu Senhor conseguirão – com as obras e a fé dos Homens... –, redimi-la e justamente salvar!
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 11.10.2014):



























e "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 12.10.2014):



































Os Embustes Paliativos e o Ébola
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Como é (ou devia ser!) mais do que sabido – embora se duvide cada vez mais do minimamente sistemático conhecimento e exigível empenho de facto dos nossos governantes e políticos (nacionais e regionais!) neste importante domínio da Saúde –, os Cuidados Paliativos (CP), tanto no âmbito que lhe é específico quanto no campo que lhe é próximo, conatural e confluente dos Cuidados Continuados Integrados – e apesar da sua crescente importância (humana, técnica e societária) – continuam a não merecer em Portugal qualquer tipo de incremento sério, planeado e relevante, pese embora a já abundante existência de imperativa legislação incidente (v.g. Leis de Base e diplomas, como o recente Despacho n.º 10429/2014, rectificado pela Declaração 848/2014 de 12 de Agosto, do Gabinete do Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde, publicado no “Diário da República”, 2.ª série, N.º 154, de 12 de Agosto último)... 


– E isto para além de muitos outros documentos indicativos, regulamentações, “guidelines”, estudos, relatórios, memorandos e recomendações de todo o género, e de uma já repugnante panóplia nominalista, rotineira, preguiçosa, proteladora e empapelada que, à mistura com indisfarçáveis olhares esquivos, retóricas e farsas para injecção semi-gaga de propaganda anestesiante e paleio tosco em doses maciças e seringa fina, que não tem ido além de meras prosas de intenção programática, cuja implementação competente, responsável e credível não passou ainda para fora dos esconsos limbos do adiamento, da inoperância, da incapacidade e da mais miserável, superiormente acobertada e impune simulação político-governamental, político-partidária e parlamentar!


Depois, como se não bastasse toda essa enfermaria de descuidos e desleixes recorrentes e persistentes – para desencanto, revolta, descrença, desmotivação, sofrimentos e agonias de vida e de morte por parte de doentes, famílias, prestadores de cuidados domiciliários, hospitalares e institucionalizados – temos cada vez mais evidentes alertas e descontentamentos dos especialistas, cientistas sociais e estudiosos nestas áreas socio-médicas, a par, naturalmente, dos profissionais de saúde e da assistência social, de autarcas, dirigentes associativos, animadores comunitários, IPSS, etc., etc.


– E sem entrarmos, por enquanto e novamente, aqui, no vergonhoso e intolerável caso particular dos Açores (zero equipas estruturadas, integradas e devidamente reconhecidas!), basta dizer que das cerca de (pelo menos) 110 equipas de Cuidados Paliativos necessárias, apenas existem (no máximo) 11, em todo o País!


De facto, embuste idêntico só agora, por estes dias dramáticos, nas perigosas patranhas, mentiras tácticas e criminosas leviandades que tem sido irresponsavelmente afiançadas (e regionalmente consentidas e silenciadas!) sobre o Ébola! 

– Mas isto fica já aprazado para tratamento (não paliativo!) noutra Crónica...
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Em Azores Digital:






















RTP-Açores:

























“Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 11.10.2014):



























e “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 12.10.2014):



domingo, outubro 05, 2014



Origem e Destinos do CDS-PP
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1. Está o CDS-PP comemorando o seu 40.º Aniversário com uma série de iniciativas nacionais e locais, tendo cabido há uma semana a vez aos Açores. Na altura em que escrevi uma primeira versão abreviada deste texto, cumpria-se agenda da visita do seu actual presidente nacional (Paulo Portas) à ilha Terceira (Angra do Heroísmo), durante a qual tiveram lugar visitas de trabalho e reuniões, para além de uma Sessão Solene onde foram homenageados os primeiros dirigentes eleitos em congressos regionais do partido, e bem assim os seus ex-presidentes Rui Meireles, José António Monjardino e Alvarino Pinheiro. 


2. Fundado em 19.07.1974 por um referencial grupo de personalidades situadas numa área que abrangia democratas-cristãos, conservadores e liberais (v.g. Freitas do Amaral, Amaro da Costa, Basílio Horta, Sá Machado e Xavier Pintado), a instâncias de diversos membros das Forças Armadas (nomeadamente de Almeida Bruno, um heróico combatente da guerra na Guiné e chefe da casa militar de Spínola), o CDS foi tendo crescente, conquanto não linear, importância na vida político-partidária, parlamentar e governativa portuguesa, aliás marcada pela evolução (e também pela regressão...) da Democracia, pelas trajectórias e dinâmicas conjugadas dos partidos, movimentos e restantes corpos sociais, a par dos seus sucessivos percursos estratégicos, reconfigurações identitárias e estilos de liderança (Freitas do Amaral, Lucas Pires, Adriano Moreira, Manuel Monteiro, Ribeiro e Castro, e Paulo Portas).


Como podemos reler no seu próprio livro O Antigo Regime e a Revolução: Memórias Políticas (1941-1975), Freitas do Amaral – cujo pai tinha sido secretário de Salazar e deputado da União Nacional (UN) e da ANP (Acção Nacional Popular) entre 1957 e 74 – era na altura no 25 de Abril um jovem professor de Direito (tendo aliás depois sucedido a Marcello Caetano em cujo reformismo acreditara e a quem pessoalmente fora leal), após ter sido membro da Câmara Corporativa, embora tenha sempre recusado aderir àquelas organizações do Estado Novo, tal como não aceitara o cargo de ministro da Justiça em 1973.

– Porém, na criação deste partido, como é sabido, a par de Diogo Freitas do Amaral coube a Adelino Amaro da Costa desempenhar um papel nuclear na orientação ideológica e estratégica do CDS, dando-lhe, embora em diferentes medidas e tonalidades, tal como consta do seu primeiro Programa, uma original feição “centrista” e democrata-cristã, defensora de «uma sociedade mais justa onde as pessoas possam ser tratadas em pé de igualdade, sem discriminações, nem privilégios», reclamando-se mesmo de inspirações recolhidas do notável “humanismo personalista” de Mounier – identicamente também partilhadas por largas faixas do então também recém-criado PPD (06.05.1974) de Francisco Sá Carneiro – e em parte significativa decorrentes da excepcional e talentosa influência teórico-prática do próprio Amaro da Costa (membro do Opus Dei).




 3. Nos Açores, nos últimos tempos tendo de certo modo elegido a Saúde, a Educação e os Transportes como áreas preferenciais das suas atenções e das suas intervenções político-parlamentares regionais, de ilha e autárquicas, apesar de uma evidente e tendencial quebra eleitoral, com oscilações de implantação estável no todo do arquipélago (especialmente em S. Miguel, mas ainda em alguns dos seus tradicionais “bastiões” concelhios e de freguesia), o CDS-PP nos Açores continua ainda marcar pontualmente, conforme pode e sabe, certas agendas e debates importantes.

– E isto apesar de um notório decaimento da sua dinâmica de participação e reflexão conjuntas a nível interno, e do trânsito, em fuga interesseira e carreirista, ou de mero deslocamento (v.g. para as hostes “socialistas” do PS!) oportunista, de descarados trânsfugas inter-partidários (fauna infelizmente residente em quase todos, muitos, clientelismos de partido e seus aparelhos, domínios, serventias e proventos, alguns deles efémeros e desonrosos, é certo, conquanto conjunturalmente lucrativos enquanto duram, para mal de todos e descrédito ético e axiológico da Democracia e da Autonomia...


Todavia, nas ilhas açorianas e nesta Região Autónoma, é justo lembrar e assim aqui se pretende avivar acima de tudo – nesta incentivadora passagem do 40.º Aniversário da sua fundação – todos os empenhos e trabalhos regionais dos centristas e democratas-cristãos, desde aquele Memorando (30.12.1975) de contra-posição crítica ao Ante-projecto de Estatuto Político-Administrativo elaborado pela Junta Regional, e logo depois, desde as pioneiras Legislaturas (1976-80, 80-84 e 84-88), então com destaque e méritos para Rogério Contente, Fernando Monteiro, Rui Meireles e Alvarino Pinheiro (deputado este entre 1984 e 2006, e grande e incansável impulsionador do relançamento, consolidação eleitoral e credibilização político-institucional do CDS-PP no Arquipélago) –, até hoje, que este partido, agora dirigido por Artur Lima – concorde-se ou não com os seus ideários e práticas ao longo destes anos –, tem um passado balanceado de consideráveis contributos positivos para a construção e defesa da Autonomia e para o prestígio das instituições insulares, a todos os níveis da nossa vida colectiva!


 – Como se disse antes (e nunca será de mais repetir...), oxalá assim fosse sempre sobremaneira evocado e merecidamente reconhecido, talvez desse modo evitando-se algumas detectáveis descoordenações e outros menosprezos de atendimento ou deslizes de gestão política real e simbólica que, mais dia menos dia, cairão afinal (como noutros quadrantes partidários identicamente acontece!) em cima das costas (eleitorais, político-partidárias, profissionais, pessoais e familiares) de tantos dedicados dirigentes e militantes que convicta e esforçadamente permanecem no terreno, lutando, contra ventos e marés, por aquilo em que acreditam ser o melhor para a sua terra, porém bastas vezes em troca de nenhum ganho particular, quando não até penalizados por revanchismos, olhares displicentes, ouvidos moucos e históricas ingratidões, na Região e no País, entre os seus próprios camaradas, amigos e companheiros, só aparentemente fiéis aos ideais de origem e raramente solidários face aos desafios do destino...
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Em "Diário Insular" (05.10.2014):