sábado, junho 20, 2015


Autonomia e Realismo
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1. Não há dúvida nenhuma que estamos, para o bem e para o mal, como que condenados a voltar regularmente a textos que lemos, ouvimos ou escrevemos, tal a recorrência de temas e problemas com que nos defrontamos no dia a dia. E desta vez é ainda à causa e por causa da Autonomia Regional açoriana que regressamos, conforme adiantei a propósito do discurso do Representante da República na Cerimónia do 10 de Junho (onde foram notórias as presenças e as folgas...).


– E foi assim que, depois de relevarmos as primeiras partes daquela intervenção pública, logo sinalizámos as explícitas palavras do Embaixador Pedro Catarino no concernente às designadas questões de bloqueio institucional ou estatutário, em evidente resposta a alguns desenterrados e confluentes ditirambos contra o Estatuto e contra a existência mesma da figura do Representante da República, esquissos desta vez vindas a lume e fogacho retórico por parte do PS e do PSD regionais, qual deles tentando cobrir o lance do outro, até se chegar à nem sequer inédita alternativa e estapafúrdia proposta político-jurídica de substituir aquela entidade constitucional por um “Presidente” dos Açores, ente absurdo e dissimulado que o PCP e o BE recusarão e que ao CDS-A repulsa (embora o seu neo-aliado PPM o queira referendar...).


2. Recordemos contudo as passagens daquele discurso, no lugar que temos em atenção e que ajuizavam assim:

– “Não podia estar mais de acordo [com Cavaco Silva e Jorge Sampaio], de que não existe hoje nenhum bloqueio constitucional ou estatutário que impeça os órgãos de governo próprio de promover adequadamente, no dia-a-dia, o desenvolvimento económico-social da Região, satisfazendo as necessidades coletivas e melhorando a qualidade de vida das pessoas que nela vivem.

“ (...) Temos um quadro jurídico e institucional que se vai aperfeiçoando e consolidando através do seu efetivo exercício. Ele contém os mecanismos apropriados para assegurar, por um lado, que sejam respeitados em cada momento os limites constitucionais estatuídos e, por outro, para que, com a prudência, mas também, com a ambição desejável, se aprofunde o processo de autonomia regional.


“Mesmo no que respeita ao estatuto do Representante da República (...), estou firmemente convicto de que a existência desta figura constitucional representa uma solução mais descentralizadora e autonomista do que a sua própria extinção, uma vez que esta acarretaria inevitavelmente (...) a transferência para Lisboa dos respetivos poderes, mormente de controlo da constitucionalidade e da legalidade da normação regional. Em vez de exercidas localmente, numa relação de proximidade com a realidade insular, passariam a ser exercidas à distância, nos gabinetes dos órgãos de soberania, tendo como único respaldo os critérios jurídicos fornecidos pelas respetivas assessorias”.

3. Ora perante isto e repostas as coisas neste pé, que mais acrescentar ao que escrevi em “A Constitucionalidade Jurídica e o Demérito Político Regional” (19.01.2014), a não ser apelar à clarividência e à responsabilidade crítica de toda a sociedade açoriana e seus órgãos representativos, perante aquela confrangedora e (ex)contemporânea arremetida – a reboque da conjuntura ou a saldo de contestações intestinas? – contra a própria existência do Representante da República (figura que é logo formalmente mediadora e potencialmente “mais descentralizadora e autonomista” do que outra que decorresse da sua “extinção” e imponderável putativo revezamento...), tal como consta da irrealista e inconsequente proposta (dita “em prol da Autonomia”...) que foi re-destilada pelo PSD-A, pelo seu altissonante chefe (a prazo certo, depois das últimas “renovações”) e que, até maior prova, jungiu todas as mentes e ficções dos seus conselheiros em gabinete e lista...



– Todavia, à cautela, talvez não fosse totalmente despiciendo atenderem uns e outros à necessidade de matutar naquilo a que o presidente do PS (apesar de toda a sua truculência, mais avisado, arguto e hábil do que essa periclitante rapaziada ‘socialista’ toda junta) em tempos chamava de Plano B (!?) não fosse (ou vá!) a jangada autonómica, no meio do enevoado temporal que varre o País – e sob fantasistas bandeiras, com pombas e rolas a sonharem-se águias ou açores (para retomarmos uma sugestiva metáfora usada pelo nosso amigo José Reis Leite) – embater nos seus próprios alcantis, ou afundar-se em perigosos atoleiros, baixios regionais ou elevados espartilhos e conflitos nacionais que a nada de bom conduziriam, nem a ninguém consensualmente serviriam, num futuro próximo, cá e lá!

E depois, como já argumentei em “Autonomia e Estatutos de Menoridade” (14.08.2008), logo era de prever, pelo que se via e insinuava à data, que não seria (nem será!) assim que ganharemos novas e seguras asas, perdida, à toa, a noção da exiguidade do chão, dos recursos e do tempo histórico-político que trilhamos, sem o adequado senso dos limites e proporções, equilíbrios institucionais e verdadeiras e reais prioridades açorianas, enquanto à rebours se insiste, à falta de bem melhor, num tosco e distorcido encabeçamento naquele paradigmático “défice estratégico da ordenação constitucional das autonomias “...



Seja porém como for, certamente que continua a não ser por causa e/ou culpa do actual Estatuto – ou de qualquer limite intrínseco ou extrínseco à vigente Constituição da República como Estado unitário (e do que daí precisamente decorre em termos de princípios de solidariedade nacional e de prudencial divisão de poderes num Estado de Direito democrático como o nosso) – que os mais fundamentais objectivos da Autonomia e do Desenvolvimento ainda estão por justamente assumir e competentemente concretizar, – coisa que alguns dos supostos mentores ou retrógrados padrinhos dos actuais sistema e regime por demasiadas vezes esquecem ou escamoteiam, e em cujos erros básicos de imatura teoria político-jurídica, infantilismo técnico-social ou cínico logro programático, muitos arcos partidários, incauta e imprudentemente, se deixam amiúde enredar, tanto nas ilhas como em Lisboa!

– E já agora, valerá a pena recordar o que Mota Amaral, Reis Leite, Cunha de Oliveira, Álvaro Monjardino e outros, entre nós, com realismo, diplomacia e bom-senso, ainda recentemente, num Debate promovido pelo PSD-A (afinal apenas espectáculo e pré-anunciado golpe de prestidigitação para inútil e fortuito cenário?), testemunhavam, reflectiam e aconselhavam, em vão?!
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 20.06.2015):



























"Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 26.06.2015):



























e Azores Digital:



Uma Ecologia Integral
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A nova Encíclica do Papa Francisco (*), Laudato si’ (assim denominada a partir da conhecida e graciosa exclamação de um cântico de S. Francisco) – “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras”... – e programaticamente destinada ao “cuidado da casa comum” que é a nossa criada Terra, surge e desenvolve-se assumidamente na sequência de abordagens disseminadas por múltiplos documentos da História do Pensamento (S. Basílio, S. Tomás de Aquino, Dante, Teilhard de Chardin, Romano Guardini, Paul Ricoeur...), de Papas anteriores (nomeadamente João XXIII, Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI) e do Magistério Social da Igreja, ou recolhidas nas reflexões de “cientistas, filósofos, teólogos e organizações sociais” –, é um texto inovador, rigoroso e incisivo, tanto por tudo o que objectiva e empiricamente detecta, diagnostica e denuncia, como pelo carácter fundamental e sistemático dos horizontes, princípios e valores que propõe e assume teórica e praticamente.


 Teológica, moral, filosófica e poeticamente muito marcada de novo pela particular e específica formação religiosa, espiritual e intelectual, e pela sensibilidade social, ético-política, cultural e civilizacional deste Papa (numa linha de leituras e de tematizações que reúnem, harmoniosa e profeticamente, componentes próprias das suas heranças jesuíticas, franciscanas e latino-americanas), esta Encíclica retoma “argumentações que derivam da tradição judaico-cristã, a fim de dar maior coerência ao nosso compromisso com o meio ambiente”, procurando “chegar às raízes da situação actual, de modo a individuar não apenas os seus sintomas, mas também as causas mais profundas”...


– E logo depois, o documento papal propõe, em consequência e coerência sistémicas, “uma ecologia que, nas suas várias dimensões, integre o lugar específico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas relações com a realidade”, segundo tão críticos eixos como “a relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo está estreitamente interligado no mundo, a crítica do novo paradigma e das formas de poder que derivam da tecnologia, o convite a procurar outras maneiras de entender a economia e o progresso, o valor próprio de cada criatura, o sentido humano da ecologia, a necessidade de debates sinceros e honestos, a grave responsabilidade da política internacional e local, a cultura do descarte e a proposta dum novo estilo de vida”!


 Perfeitamente organizada numa sequência temática dividida em 6 Capítulos – “O que está a acontecer à nossa Casa”; “O Evangelho da Criação”, “A raiz humana da crise ecológica”; “Uma ecologia integral”; “Algumas linhas de orientação e acção” e “Educação e espiritualidade ecológica” –, a Encíclica Laudato si’ aborda assim, entre outras complexas e graves problemáticas planetárias e ecológicas, a Poluição e as Mudanças Climáticas; a Perda da Biodiversidade; a Desigualdade entre Povos e Nações; o Mistério do Universo e o Destino Comum dos Bens; o Poder, a Globalização e o Paradigma Tecnocrático; o Antropocentrismo Moderno e suas Consequências; a Ecologia Ambiental, Económica, Social, Cultural e da Vida Quotidiana; a Justiça Intergeracional e o Meio Ambiente; o Diálogo para novas políticas nacionais e regionais; as Religiões e a Ciência; a Transparência nos processos decisórios, e a Conversão ecológica,  salientando que tudo isto não é de ordem opcional mas sim uma “questão essencial de justiça”, – porque o Ambiente “situa-se no âmbito da recepção. É um empréstimo que cada geração recebe e deve transmitir à geração seguinte”, como exortava a Conferência Episcopal Portuguesa na sua Carta Pastoral “Responsabilidade solidária pelo bem comum” (15.09.2009), citada aqui pelo Papa Francisco...

– Por todas estas razões, esta Encíclica Laudato si’ – Sobre o Cuidado da Casa Comum é na verdade um magnífico, exigente e responsabilizante Tratado de Ecologia Integrada, aplicável àquele mesmo, único e universal Bem Comum de todas as formas de Vida e Consciência que é o nosso Planeta Terra, e que merece assim, por isso mesmo, de todos os Homens e Povos, uma prudencial e profunda meditação e a mais corajosa e urgente tradução prática!
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(*) Texto integral da Encíclica disponível aqui:
http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 23.06.2015):



























e RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/comentadores/eduardo-ferraz-da-rosa/uma-ecologia-integral_47216:




























Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 20.06.2015):



























e Azores Digital:



sábado, junho 13, 2015


Diplomacia e Bom-senso
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O discurso proferido no 10 de Junho pelo Representante da República para a Região Autónoma dos Açores, para além das referências aos agraciados deste ano (o Seminário Episcopal de Angra e o escritor João de Melo), foi ainda ocasião para uma série de considerações que deverão ser tomadas em conta por todos os mal aconselhados amanuenses, próceres partidários e seus actores institucionais – e pela opinião e vontade públicas dos cidadãos! – que novamente nesta crucial conjunção regional e nacional, vão ser chamados a intervir – tanto mais quanto se perfilham já nos horizontes eleitorais vizinhos opções que em muito determinarão a nossa vida colectiva (parlamentar, governativa, presidencial e jurídico-constitucional, mas também socioeconómica, cultural e político-ideológica) para os próximos anos, e em coincidência com exigentes, complexos e incertos desafios internos e (des)equilíbrios económico-financeiros e geoestratégicos europeus, atlânticos e mundiais.

– Ora é neste quadro realista e objectivo que deve ser lida, situada e reflectida a sensata, frontal e prevenida intervenção do Embaixador Pedro Catarino, não só na primeira e segunda partes do seu texto – respectivamente relativas ao historial da Autonomia (desde 1976 até hoje) e aos dois paradigmáticos e seleccionados juízos presidenciais (Jorge Sampaio e Cavaco Silva) sobre o modelo evolutivo e/ou já estabilizado da sua mesma arquitectura constitucional – estando aliás ambos fundamentados e bastamente obrigados a “concretizar as atribuições que a Constituição confere às Regiões” para “desenvolver no terreno os poderes que os órgãos de governo próprio possuem”, e aprofundando “a solidariedade entre as diferentes partes do todo nacional, num espírito de diálogo frutuoso entre os órgãos regionais e as autoridades da República” –, quanto logo depois no que se refere às recorrentemente ditas questões de bloqueio institucional ou estatutário, a par das (quase) obsessivas (e incautas!) investidas contra o estatuto e contra a própria existência da figura constitucional do Representante da República, questões igualmente ali abordadas e às quais voltaremos aqui.
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 16.06.2015):



























RTP-Açores:




























"Diário Insular" (Angra do Heroísmo (13,06.2015):



























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sábado, maio 30, 2015


A Correspondência de Fradique Mendes
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Eça, Canónico e Crítico


1. Há livros e autores aos quais sempre se volta, por dever e cumprimento de ofício ou pelo simples prazer de leitura e busca de quase infinitas reconfigurações para as suas tessituras de sentido, como propunha Barthes. E depois, tais obras, por tudo aquilo que exprimem, e mais podem manifestar, fazer descobrir ou revelar – tanto para estudiosos particulares e leitores reais como na formação dos cânones histórico-literários (veja-se Bloom e Borges...) – constituem peças de Cultura e de Pensamento (conquanto diversificadas e até problematizáveis temática, ideológica e estilisticamente...) daquele património chamado (e construído civilizacional e individualmente) como clássico, assim sendo guardado, transmitido e revisitável na vida das comunidades e nos tempos interiores ou íntimos dos leitores, como bem propôs Italo Calvino.


 Ora no caso que tenho hoje em vista é precisamente isso que acontece com um Autor e com um livro ao qual de modo cíclico retornamos, ou não fossem eles um Escritor clássico, no âmbito canónico da Literatura Portuguesa e Universal, e uma obra aberta, como a definia Eco, que exige também “características estruturais” que estimulam e ao mesmo tempo regulam “a ordem das suas interpretações”:

– Refiro-me ao nosso Eça de Queirós e à sua Correspondência de Fradique Mendes, livro acabado de publicar pela INCM (2014) em mais um precioso volume da Edição Crítica das Obras do imortal autor de Os Maias, O Crime do Padre Amaro, A Capital!, O Primo Basílio, O Mandarim, Alves & C.ª, A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras, etc. (estando algumas destas já editadas e outras projectadas nesta notável, única e qualificada série tão empenhadamente coordenada por Carlos Reis).



2. Inserida nas actividades do Centro de Literatura Portuguesa/FCT da Universidade de Coimbra, esta edição foi preparada por Carlos Reis, Irene Fialho e Maria João Simões, abrindo com uma “Nota prefacial” onde é explicitado o objectivo de um trabalho que foi efectuado com vista a facultar um texto “em muitos aspectos consolidado, relativamente ao que eram as edições que até agora dispúnhamos”, tanto mais quanto se trata de “um daqueles títulos que Eça de Queirós não chegou a publicar em vida, facto que arrasta consideráveis problemas e inseguranças”, desde logo por decorrerem do facto de estarmos em presença de “um texto semipóstumo, que foi projectado e em boa parte organizado pelo próprio Eça”, mas que “contou com outras intervenções, logo depois do desaparecimento do seu autor” e na sequência, ainda por cima, de ter sido “a escrita e a publicação original destes textos (...) acidentada e sobretudo dispersa”, com uma evidente história marcada por “reescritas”, “emendas” e até lamentáveis “oscilações de critério editorial” (subtil mas incisivamente, denunciadas aqui...).



– Esta edição crítica (que é também antológica de Poemas primevos e Cartas fradiquistas habitualmente desenquadradas) começa com um minucioso ensaio sobre A Correspondência de Fradique Mendes, onde os organizadores retomam reflexões não só sobre a génese e evolução da sua figura e estilística quanto também sobre o “cânone queirosiano”, o “estatuto ontológico de Fradique” e “uma certa fortuna cultural” da obra de Eça, após o que procedem a uma análise estrutural, comparativa e selectiva das diversas presenças e ausências, manuscritos e espólios do consagrado escritor, nomeadamente do “manuscrito Salema Garção” (adquirido pela Biblioteca Nacional em 2004 e catalogado como BN Esp. E1/310), posto em elucidativo confronto e cotejo com versões anteriores das Cartas, com os manuscritos Alberto de Serpa e Menéres Campos, para além, como não podia deixar de ser, das versões originárias vindas a público na Gazeta de Notícias, em O Repórter e na Revista de Portugal.



3. Não tem faltado – porém nem tanto quanto seria de desejar da nossa cultivada academia lusa, do publicismo culturalista e das suas revistas especializadas ou de mera divulgação, e do tão letrado jornalismo cultural luso... – elogios criteriosos e construtivas apreciações a este meritório projecto editorial (de alcance luso-brasileiro), onde para além de Carlos Reis e das suas Colaboradoras neste volume, merecem referência Elena Soler, Ana Peixinho, Maria Helena Santana e Maria do Rosário Cunha, para além do excepcional desempenho de Fagundes Duarte – e nisto numa significativa linhagem de estudos e estudiosos açorianos sobre Eça (Alberto Machado da Rosa, Pedro da Silveira, Machado Pires, Frank Sousa, etc.), como salientei em O Risco das Vozes (2006) e em “Insularidade, Modernidade e Figuras dos Açores em Eça de Queirós” (2012), – a quem coube a dificílima incumbência de preparar a edição crítica de A Capital!, mas que mais tem produzido – com o grande especialista queirosiano que é Carlos Reis – uma reflexão teórico-crítica sobre o mesmo trabalho crítico subjacente às textualidades e às edições histórico-críticas, numa linha de análise e compreensão não só estritamente formal, filológico-textual ou estilístico-gramatical quanto hermenêutica (e assim aplicável a outros domínios e registos discursivos, conceptuais e poéticos, tais o da Filosofia e aos demais da Linguagem e da Teoria da Literatura, da Língua, da História, da Linguística e até da Tradução).




– É claro que especialmente no caso do Eça de A Correspondência de Fradique Mendes, por todas as razões que aí criticamente confluem e pelas específicas potencialidades interpretativas da obra e do seu autor, do seu pensamento e das suas complexas, intrincadas e pluridisciplinares facetas, horizontes e contextos (existenciais, histórico-literários, sociopolíticos, estéticos, psicológicos e filosóficos), também por via deste regresso a essa figura semi-ficcional, semi ou proto-heteronímica (onde narrador, personagens e personificações se entremeiam...), mais se acentuam traços, heranças e vigências de uma espécie de recorrente Modernidade, ainda criticamente nossa (Cesário e Pessoa, Mário Cláudio, Agualusa e Saramago...), como se tem procurado pensar, repensar e (des)construir na aura e das “auréolas mais refulgentes” desse “homem genial” que Eça, dele  e com Fradique – isto é, de si próprio e ao(s) outro(s) de si... –, e a nós também, “vincam a alma – e jamais esquecem”!

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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 30.05.2015):



























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Eça, Clássico e Crítico
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Há livros e autores aos quais sempre se volta, por dever e cumprimento de ofício ou pelo simples prazer de leitura e busca de reconfigurações para as suas tessituras de sentido. E depois, tais obras, por tudo aquilo que exprimem, e sempre e mais podem manifestar, fazer descobrir ou revelar, constituem peças de Cultura e de Pensamento daquele património clássico que assim vai sendo guardado, transmitido e revisitável na vida das comunidades e nos tempos interiores ou íntimos dos leitores. Ora no caso que tenho em vista é precisamente isso que acontece com um Autor e um livro ao qual de modo cíclico retornamos, ou não fossem eles um Escritor clássico, no âmbito canónico da Literatura Portuguesa e Universal, e uma obra aberta...

– Refiro-me ao nosso Eça de Queirós e à sua Correspondência de Fradique Mendes, livro acabado de publicar (2014) numa edição preparada por Carlos Reis, Irene Fialho e Maria João Simões. – Ora não tem faltado elogios criteriosos e construtivas apreciações teoréticas, filológicas e formais a este meritório projecto da INCM, onde, para além de Carlos Reis e das suas Colaboradoras neste volume, merecem referência Elena Soler, Ana Peixinho, Maria Helena Santana e Rosário Cunha, para além do excepcional desempenho de Fagundes Duarte a quem coube a dificílima incumbência de estruturar a edição crítica de A Capital! (mas que mais tem produzido – com o grande e maior especialista queirosiano que é Carlos Reis – uma reflexão teórico-crítica sobre o mesmo trabalho crítico subjacente às textualidades e às suas edições histórico-críticas).

É claro que especialmente no caso do Eça de Fradique Mendes, também por via deste regresso a essa figura semi-ficcional, semi ou proto-heteronímica mais se acentuam os traços, heranças e vigências de uma espécie de recorrente Modernidade, ainda criticamente nossa contemporânea (Cesário e Pessoa, Mário Cláudio, Agualusa e Saramago...), como se tem procurado pensar, repensar e (des)construir desse “homem genial” cujas “auréolas mais refulgentes”, como ele(s) escrevem, “vincam a alma – e jamais esquecem”!
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 30.05.2015):







sábado, maio 23, 2015

As Tribos da Capital

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Os recentes acontecimentos de violência e destruição que ocorreram em Lisboa e Guimarães por ocasião das comemorações da conquista do campeonato português de futebol constituíram novamente manifestações de toda uma complexa situação social que ciclicamente aflora e explode um pouco por toda a parte (e entre nós também, como se verificou agora), com as consequências e os custos que todos conhecemos e que constituíram motivo de informação, transmissão ou cobertura mediáticas para grandes audiências, às quais não faltaram amplas perorações do habitual e interessado nacional-comentarismo mais ou menos passional e epidérmico que temos, num quadro quase idêntico àqueles que vem galvanizando a nação e preenchendo manchetes, paixões míticas e arroubos de patriotismos, regionalismos ou clubismos mais ou menos de substituição ou transferência, numa série de mecânicas do imaginário em consonância com euforias de alienadas massas, de modo totémico…





– Ora apesar de continuarmos a não exercer sobre tal fenómeno uma urgente e aprofundada reflexão, e de persistirmos em não procurar implementar as medidas que, mesmo que em parte ou pontualmente apenas, o prevenissem ou minorassem, o certo é que as tribos do futebol (como Desmond Morris lhes chamou num livro famoso, bem a par das temáticas por ele confluentemente abordadas no Zoo Humano e no Macaco Nu e louco...), o que vemos é instalar-se somente uma polémica política e securitária entre hostes partidárias, forças policiais e poderes autárquicos, qual deles procurando maiores dividendos ou passa-culpas que os desresponsabilizem desta barbárie real, simbólica, cívica e desportiva a que especialmente na capital a populaça ensandecida se entregou, instigada!



Porém o mal tem raízes profundas e vem de longe, pelo que deste neo-tribalismo sistémico aonde nos atolámos dificilmente nos livraremos dentro do sistema e dos valores que estão na sua própria génese, e na lógica inerente ao hibridismo decadentista que aliás o perpetuará sempre em cadeia, em todas as práticas do nosso quotidiano cultural e civilizacional, e nos espaços e discursos públicos e privados que nos cercam.   
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 23.05.2015):



















RTP-Açores:
"Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 23.05.2015):



























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http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=2900:



sábado, maio 16, 2015



Um Açoriano no Orpheu

ou A Expatriação de Violante


1. Com os Açores revendo-se demasiado em triviais e rotineiros subprodutos político-culturais espelhados em liras de vulgar sonoridade, ou pasmados em adoração de navios, aviões, tasquinhas e toiros..., está-se comemorando este ano em Portugal e no Brasil o I Centenário do surgimento de Orpheu, cujo primeiro dos dois únicos Fascículos, então aparecidos, foi lançado no primeiro trimestre de 1915 (embora um terceiro, retomado por Arnaldo Saraiva, tenha acabado por chegar aos prelos, um pouco extemporaneamente, em 1984).


 – “Revista de Literatura”, de início em sintonia luso-brasileira, editada por António Ferro e propriedade de Orfeu, L.da, esta publicação, no seu N.º 1, tinha uma Direcção bicéfala (Luís de Montalvôr, em Portugal; Ronald de Carvalho, no Brasil), depois substituídos por Fernando Pessoa e Mário Sá-Carneiro.

Órgão do movimento chamado de Modernismo, nas páginas de Orpheu colaboraram, para além de Pessoa e Sá-Carneiro, Alfredo Guisado, Côrtes-Rodrigues e a sua Violante de Cysneiros, Almada Negreiros (com “Frizos”, em prosa), José Pacheco (autor do famoso desenho da capa inaugural), Ângelo de Lima, Eduardo Guimarães, Raul Leal e Santa Rita Pintor.


 – Confluência de várias sensibilidades pessoais e de diversos ideários e modelos estético-literários, nem sempre muito definidos e delimitados nas suas fronteiras estilísticas, perfis, formas, conteúdos temáticos e imaginários accionados (Modernismo, Simbolismo, Futurismo, Sensacionismo, Paúlismo...), tinham todavia em comum aqueles escritores e artistas da chamada Geração do Orpheu uma declarada e turbulenta intenção anti-tradicionalista (logo vincada em Pessoa, na sequência dos diferendos com Pascoaes e A Águia), muito marcados que estavam aqueles jovens por ascendências europeístas, anti-saudosistas, anti-românticas, “vanguardistas”, “progressistas” e parisienses (mais dramaticamente vividas por Sá-Carneiro), manifestamente iconoclastas, poeticamente recriadoras e de afrontamento social e estético, todas afinal assumidas ou inovadoramente experimentadas num Portugal e numa Europa cujas sombras finisseculares e crises decadentistas tomavam novas projecções, contornos e proporções naqueles (a)celerados anos que antecederam – e depois herdaram e consumaram... – (i)memoráveis catástrofes da Guerra, auroras e declínios filosóficos, literários, existenciais e psíquicos, a par dos mecânicos rodopios das velozes rodas de ferro, fogo e aço da moderna Civilização Europeia e do seu Progresso (fatal progressão!) em direcção aos Abismos da matéria, do espírito e do mundo que estavam já ali em trágica gestação e cujos gemidos, visões e delírios ecoavam nas esotéricas tertúlias portuguesas...


2. Ora é neste contexto civilizacional e histórico-cultural, e neste grupo literário-artístico que se integrará o nosso Armando Côrtes-Rodrigues – “Transcendências nublóticas, metafísicas raras, [...] Bizantinos jardins, onde a tarde agoniza”..., com a sua Violante de Cyneiros (2.º Número de Orpheu) –, esse poeta, amigo, correspondente e confidente maior e íntimo de Pessoa, que mais tarde reconheceria terem então os seus projectos constituído “inesperada primavera literária, que alarmou o convencionalismo pacato em que dormitavam as letras daquela época”...




De resto, assim mesmo recordará depois o escritor micaelense, numa assaz curiosa sinalização da sua posterior conversão insularmente reconfigurada:

“Entenda-se por Primavera, não uma quadra de serenidade florida, que irrompe de um dia para o outro em terras do continente, mas antes uma desvairada estação como a nossa, destas Ilhas, de sol radioso ou de céu cinzento, de mistura com chuvadas grossas, brumas, granizo e vento, todo o destempero de um inverno que estrebucha, por o forçarem a acordar de vez e a ir-se embora”.


E depois – mais evoca o escritor açoriano –, a revista Orpheu “trazia na capa, em desenho de José Pacheco, uma mulher nua, de cabelos soltos, entre dois grandes círios, altos e acesos. A má língua dos cafés, atenta sempre a tudo o que se passa, logo a apelidou de ‘Enterro da Arte’! Afinal o enterro redundou em apoteose estrondosa de indignação e protesto”... –, enfim, tal qual lhe dissera um eufórico Pessoa, em carta de 4.4.1915:

– “Somos o assunto do dia em Lisboa; sem exagero lhe digo. O escândalo é enorme. Somos apontados na rua, e toda a gente – mesmo extraliterária – fala do Orpheu”...


 E de tal modo o alvoroço fora, como chocadamente escrevia “A Capital” ao remeter aquelas coisas e os seus excêntricos autores para os pavilhões artísticos de Rilhafoles (quais produtos e casos de “paranóia” de “indivíduos que a ciência definiu e classificou dentro dos manicómios”), que “O Século Cómico” afiançava ficar a avaliação de tais “maluquices” para outro ensejo, caso alguns dos redactores das críticas literárias conseguissem “ler o folheto até ao fim sem percalço de maior” e tanto mais quanto já então quatro deles, “ao tentarem a empresa, recolheram ao hospital com terríveis indícios de alienação; [e] dois outros faleceram de apoplexia fulminante às primeiras letras”!

3. Mas é claro que o Orpheu representava e foi simbólica e mentalmente muito mais do que tudo isso.

– E nele, embora com um bastante diferenciado percurso literário, ético e espiritual (que deixaremos para outra ocasião abordar), lugar importante, por múltiplas razões, ocupa Côrtes-Rodrigues, – aliás, não há muito tempo, tão ridícula, desatenta ou ignorantemente naturalizado ou repatriado como “madeirense” por uma turma de “representantes” da nossa contemporânea nação (entre os quais um eleito pelos Açores!), na Assembleia da República, no dia 8.3.2008, como vale a pena rever para crer:

De facto, num “Voto de Pesar” pela morte de um grande historiador da Cultura Portuguesa (Joel Serrão), diz-se que a sua primeira obra foi uma edição “das cartas de Pessoa ao poeta madeirense (sic) Armando Cortes Rodrigues, colaborador da revista Orpheu”.


 E a fantástica Proposta (*), depois aprovada por unanimidade, tinha sido previamente subscrita e apresentada ao selecto Parlamento luso, então presidido por Jaime Gama, pelos senhores deputados Guilherme Silva (PSD), Hugo Velosa (PSD), Ricardo Rodrigues (PS), Jorge Strecht (PS), Sónia Sanfona (PS), Diogo Feio (CDS-PP), Correia de Jesus (PSD) e Luís Fazenda (BE), assim sendo que, por entre mediocridades de formação e outras leviandades na função, lá aqueles paúlicos deputados do reino e ilhas adjacentes – “No seio negro e profundo/ Da noite, em treva dormindo”... – expatriaram o nosso bem lembrado Armando Côrtes-Rodrigues e a sua querida Violante...

(*) :















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Publicado em "Diário dos Açores", 
(Ponta Delgada, 16.05.2015):



























Azores Digital:

























e RTP-Açores:
























Outra versão em "Diário Insular", 
(Angra do Heroísmo, 16.05.2015):