segunda-feira, junho 29, 2015



Coincidências e Traições
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1.  A notícia, seguida de declarações, entrevistas e comentários – que foram nacionalmente (não sei se regionalmente...) audíveis – do afastamento da vida político-parlamentar do Dr. José Ribeiro e Castro, não pode deixar de merecer registo, embora sem outras análises que não apenas as que os factos conhecidos deixam suficientemente evidenciados, ou mais ou menos reservadamente divulgados também no âmbito das processualidades da Assembleia da República, dos grupos parlamentares ali estabelecidos e – enfim – da própria vida (ou semi-vida...) dos partidos que (entre)tecem as redes, teias, clientelismos e (in)confessáveis interesses do apodrecido regime em que vegetamos, decaímos e nos degradamos como País e como Povo, naquele repugnante, revoltante e cadavérico estado de decomposição de um corpo sem alma que vai todavia procriando, metastizado no seu próprio adiamento, como paradigmaticamente dizia o poeta da Mensagem...

Este advogado de profissão e ilustre deputado do CDS-PP – nascido em 1953, em Lisboa (a cuja Câmara seu pai, que foi também Governador-Geral de Angola, presidiu) –, é um democrata-cristão assumido no partido que chegou a liderar, ajudou a criar, prestigiar e consolidar, de cuja Juventude foi líder e pelo qual foi deputado e vice-presidente da Comissão do Emprego e Assuntos Sociais do Parlamento Europeu.


 2.  Deputado à Assembleia da República em cinco legislaturas, Ribeiro e Castro foi prestigiado presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades e é um dos mais respeitados membros da bancada do CDS-PP, nesta qualidade tendo integrado a X Comissão de Inquérito à Tragédia de Camarate, agora reafirmada, em coincidência de contextos, como a sua “última obrigação moral nesta Legislatura”, porquanto no encerramento dos seus trabalhos e respectivo Relatório se apurou (melhor, voltou a apurar-se!) precisamente que a queda do avião que matou Sá Carneiro e Amaro da Costa “deveu-se a um atentado”, ali comprovadamente esmiuçado por entre uma secreta e intrincada história perversa (e pervertida, há décadas!), envolvendo Justiça, Polícia, Ministérios e – com ramificações e comprometimentos inter-nacionais... – quase todas as estruturas governamentais sucessivas, técnico-militares, policiais e políticas do Estado Português, ao ponto de, num dos episódios criminosos deste processo, a acção da autoridade instituída ser julgada “deficitária, com gritantes e evidentes lacunas, sendo igualmente difícil crer que se tenha devido, apenas, a eventuais descuidos”!


– De facto, o Relatório da X Comissão Parlamentar de Inquérito à Tragédia de Camarate (procedendo a uma análise de questões fulcrais que envolveram o Fundo Militar do Ultramar, as Forças Armadas (CEMGFA), a exportação e comércio de armas e o manuseamento de fundos, etc., até às mortes de José Moreira e Elisabete Silva), é um documento que, retomando “um trabalho exaustivo por parte da Assembleia da República nas últimas três décadas” e depois de reiterar “os principais factos apurados pelas Comissões de Inquérito – designadamente a renovação das conclusões e, em particular, as das V, VI e VIII Comissões de Inquérito” – procede a uma detalhada revisão e contextualização histórico-institucional e testemunhal de todo o caso, porém salientando logo de início que “não se debruçou exaustivamente sobre questões técnicas nem sequer sobre a discussão acidente vs. atentado, [porquanto] dá-se por concluído e provado de forma inequívoca, na senda das últimas Comissões, que se tratou de um atentado. Não se tendo apurado nada de novo neste campo, a X CPITC não deixou de ouvir dois depoimentos que, de forma categórica, reiteram que a queda do Cessna que levava, entre outros, o Primeiro-Ministro e o Ministro da Defesa, se deveu a um atentado”!


3.  Ora não sabendo nós da real ligação entre esses factos e a presente decisão de Ribeiro e Castro, por hoje fica somente a coincidência dos seus dramáticos períodos e sinistros sinais...


– Seja como for, a decisão do político centrista deu entretanto azo a uma série de pronunciamentos, não só sobre o caso de Camarate quanto também sobre o seu posicionamento perante o partido e o próprio sistema político português. E destes depoimentos, para além das Entrevistas do próprio, creio valer a penas citar dois...

Assim, escreve o Embaixador Seixas da Costa: “Nos últimos anos, foi patente o progressivo isolamento de Ribeiro e Castro no partido que ajudou a criar, um pouco como tem acontecido com Mota Amaral no PSD. Os partidos convivem mal com quem tem ideias próprias, com quem pensa pela sua cabeça e, por vezes, não está disposto a aceitar que a cega obediência à estratégia conjuntural ponha em causa princípios por que se bateu por muitos anos. Não há nada que mais irrite as ‘nomenklaturas’ do que pessoas que, perante algumas questões concretas, tendem a vocalizar o que muito bem entendem, não apenas porque é essa a sua opinião mas porque acham que essa deveria ser a orientação da formação política a que historicamente estão ligados”.


 Por seu lado, e de outro quadrante ideológico, Baptista-Bastos, num texto que aliás evoca diversos ambientes político-informativos de outrora, acentuava: “Ribeiro e Castro, fundador do CDS, abandonou o partido, ‘livre como um passarinho’, disse, de um ‘sistema doente’. É uma defecção não só importante como significativa. Ele sempre se pautou por um rigor moral e por uma concepção democrata-cristã, que, notoriamente, se antagonizavam com as derivas do CDS, a que tinham aposto o acrónimo PP. Curioso verificar que este acrescento correspondia à abreviatura do nome de Paulo Portas, e fora este quem o propusera. (...) O CDS deixou de ser democrata-cristão para ser uma trapalhada de feiras e romarias, com uma dúzia de rapazolas a trepar no que julgam ser a estrutura social, à cata de emprego e de consideração, presenças constantes nas televisões, a balbuciar baboseiras inacreditáveis. (...) Na decisão de Ribeiro e Castro não há nenhuma derrota; há, isso sim, o protesto inconformado de quem percebeu que pouco pode fazer contra a traição do tempo e a cedência dos homens”.


 – E como havia de ser de outro modo com Ribeiro e Castro, ele que tão intimamente encarnou a figura e a alma do seu saudoso e modelar amigo e companheiro Amaro da Costa, representando-o, em 2001, num dramático filme sobre Camarate?
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 30.06.2015):





























RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/comentadores/eduardo-ferraz-da-rosa/coincidencias-e-traicoes-_47339:






























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Primeira  versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 27.06.2015):


sábado, junho 20, 2015


Autonomia e Realismo
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1. Não há dúvida nenhuma que estamos, para o bem e para o mal, como que condenados a voltar regularmente a textos que lemos, ouvimos ou escrevemos, tal a recorrência de temas e problemas com que nos defrontamos no dia a dia. E desta vez é ainda à causa e por causa da Autonomia Regional açoriana que regressamos, conforme adiantei a propósito do discurso do Representante da República na Cerimónia do 10 de Junho (onde foram notórias as presenças e as folgas...).


– E foi assim que, depois de relevarmos as primeiras partes daquela intervenção pública, logo sinalizámos as explícitas palavras do Embaixador Pedro Catarino no concernente às designadas questões de bloqueio institucional ou estatutário, em evidente resposta a alguns desenterrados e confluentes ditirambos contra o Estatuto e contra a existência mesma da figura do Representante da República, esquissos desta vez vindas a lume e fogacho retórico por parte do PS e do PSD regionais, qual deles tentando cobrir o lance do outro, até se chegar à nem sequer inédita alternativa e estapafúrdia proposta político-jurídica de substituir aquela entidade constitucional por um “Presidente” dos Açores, ente absurdo e dissimulado que o PCP e o BE recusarão e que ao CDS-A repulsa (embora o seu neo-aliado PPM o queira referendar...).


2. Recordemos contudo as passagens daquele discurso, no lugar que temos em atenção e que ajuizavam assim:

– “Não podia estar mais de acordo [com Cavaco Silva e Jorge Sampaio], de que não existe hoje nenhum bloqueio constitucional ou estatutário que impeça os órgãos de governo próprio de promover adequadamente, no dia-a-dia, o desenvolvimento económico-social da Região, satisfazendo as necessidades coletivas e melhorando a qualidade de vida das pessoas que nela vivem.

“ (...) Temos um quadro jurídico e institucional que se vai aperfeiçoando e consolidando através do seu efetivo exercício. Ele contém os mecanismos apropriados para assegurar, por um lado, que sejam respeitados em cada momento os limites constitucionais estatuídos e, por outro, para que, com a prudência, mas também, com a ambição desejável, se aprofunde o processo de autonomia regional.


“Mesmo no que respeita ao estatuto do Representante da República (...), estou firmemente convicto de que a existência desta figura constitucional representa uma solução mais descentralizadora e autonomista do que a sua própria extinção, uma vez que esta acarretaria inevitavelmente (...) a transferência para Lisboa dos respetivos poderes, mormente de controlo da constitucionalidade e da legalidade da normação regional. Em vez de exercidas localmente, numa relação de proximidade com a realidade insular, passariam a ser exercidas à distância, nos gabinetes dos órgãos de soberania, tendo como único respaldo os critérios jurídicos fornecidos pelas respetivas assessorias”.

3. Ora perante isto e repostas as coisas neste pé, que mais acrescentar ao que escrevi em “A Constitucionalidade Jurídica e o Demérito Político Regional” (19.01.2014), a não ser apelar à clarividência e à responsabilidade crítica de toda a sociedade açoriana e seus órgãos representativos, perante aquela confrangedora e (ex)contemporânea arremetida – a reboque da conjuntura ou a saldo de contestações intestinas? – contra a própria existência do Representante da República (figura que é logo formalmente mediadora e potencialmente “mais descentralizadora e autonomista” do que outra que decorresse da sua “extinção” e imponderável putativo revezamento...), tal como consta da irrealista e inconsequente proposta (dita “em prol da Autonomia”...) que foi re-destilada pelo PSD-A, pelo seu altissonante chefe (a prazo certo, depois das últimas “renovações”) e que, até maior prova, jungiu todas as mentes e ficções dos seus conselheiros em gabinete e lista...



– Todavia, à cautela, talvez não fosse totalmente despiciendo atenderem uns e outros à necessidade de matutar naquilo a que o presidente do PS (apesar de toda a sua truculência, mais avisado, arguto e hábil do que essa periclitante rapaziada ‘socialista’ toda junta) em tempos chamava de Plano B (!?) não fosse (ou vá!) a jangada autonómica, no meio do enevoado temporal que varre o País – e sob fantasistas bandeiras, com pombas e rolas a sonharem-se águias ou açores (para retomarmos uma sugestiva metáfora usada pelo nosso amigo José Reis Leite) – embater nos seus próprios alcantis, ou afundar-se em perigosos atoleiros, baixios regionais ou elevados espartilhos e conflitos nacionais que a nada de bom conduziriam, nem a ninguém consensualmente serviriam, num futuro próximo, cá e lá!

E depois, como já argumentei em “Autonomia e Estatutos de Menoridade” (14.08.2008), logo era de prever, pelo que se via e insinuava à data, que não seria (nem será!) assim que ganharemos novas e seguras asas, perdida, à toa, a noção da exiguidade do chão, dos recursos e do tempo histórico-político que trilhamos, sem o adequado senso dos limites e proporções, equilíbrios institucionais e verdadeiras e reais prioridades açorianas, enquanto à rebours se insiste, à falta de bem melhor, num tosco e distorcido encabeçamento naquele paradigmático “défice estratégico da ordenação constitucional das autonomias “...



Seja porém como for, certamente que continua a não ser por causa e/ou culpa do actual Estatuto – ou de qualquer limite intrínseco ou extrínseco à vigente Constituição da República como Estado unitário (e do que daí precisamente decorre em termos de princípios de solidariedade nacional e de prudencial divisão de poderes num Estado de Direito democrático como o nosso) – que os mais fundamentais objectivos da Autonomia e do Desenvolvimento ainda estão por justamente assumir e competentemente concretizar, – coisa que alguns dos supostos mentores ou retrógrados padrinhos dos actuais sistema e regime por demasiadas vezes esquecem ou escamoteiam, e em cujos erros básicos de imatura teoria político-jurídica, infantilismo técnico-social ou cínico logro programático, muitos arcos partidários, incauta e imprudentemente, se deixam amiúde enredar, tanto nas ilhas como em Lisboa!

– E já agora, valerá a pena recordar o que Mota Amaral, Reis Leite, Cunha de Oliveira, Álvaro Monjardino e outros, entre nós, com realismo, diplomacia e bom-senso, ainda recentemente, num Debate promovido pelo PSD-A (afinal apenas espectáculo e pré-anunciado golpe de prestidigitação para inútil e fortuito cenário?), testemunhavam, reflectiam e aconselhavam, em vão?!
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 20.06.2015):



























"Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 26.06.2015):



























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Uma Ecologia Integral
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A nova Encíclica do Papa Francisco (*), Laudato si’ (assim denominada a partir da conhecida e graciosa exclamação de um cântico de S. Francisco) – “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras”... – e programaticamente destinada ao “cuidado da casa comum” que é a nossa criada Terra, surge e desenvolve-se assumidamente na sequência de abordagens disseminadas por múltiplos documentos da História do Pensamento (S. Basílio, S. Tomás de Aquino, Dante, Teilhard de Chardin, Romano Guardini, Paul Ricoeur...), de Papas anteriores (nomeadamente João XXIII, Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI) e do Magistério Social da Igreja, ou recolhidas nas reflexões de “cientistas, filósofos, teólogos e organizações sociais” –, é um texto inovador, rigoroso e incisivo, tanto por tudo o que objectiva e empiricamente detecta, diagnostica e denuncia, como pelo carácter fundamental e sistemático dos horizontes, princípios e valores que propõe e assume teórica e praticamente.


 Teológica, moral, filosófica e poeticamente muito marcada de novo pela particular e específica formação religiosa, espiritual e intelectual, e pela sensibilidade social, ético-política, cultural e civilizacional deste Papa (numa linha de leituras e de tematizações que reúnem, harmoniosa e profeticamente, componentes próprias das suas heranças jesuíticas, franciscanas e latino-americanas), esta Encíclica retoma “argumentações que derivam da tradição judaico-cristã, a fim de dar maior coerência ao nosso compromisso com o meio ambiente”, procurando “chegar às raízes da situação actual, de modo a individuar não apenas os seus sintomas, mas também as causas mais profundas”...


– E logo depois, o documento papal propõe, em consequência e coerência sistémicas, “uma ecologia que, nas suas várias dimensões, integre o lugar específico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas relações com a realidade”, segundo tão críticos eixos como “a relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo está estreitamente interligado no mundo, a crítica do novo paradigma e das formas de poder que derivam da tecnologia, o convite a procurar outras maneiras de entender a economia e o progresso, o valor próprio de cada criatura, o sentido humano da ecologia, a necessidade de debates sinceros e honestos, a grave responsabilidade da política internacional e local, a cultura do descarte e a proposta dum novo estilo de vida”!


 Perfeitamente organizada numa sequência temática dividida em 6 Capítulos – “O que está a acontecer à nossa Casa”; “O Evangelho da Criação”, “A raiz humana da crise ecológica”; “Uma ecologia integral”; “Algumas linhas de orientação e acção” e “Educação e espiritualidade ecológica” –, a Encíclica Laudato si’ aborda assim, entre outras complexas e graves problemáticas planetárias e ecológicas, a Poluição e as Mudanças Climáticas; a Perda da Biodiversidade; a Desigualdade entre Povos e Nações; o Mistério do Universo e o Destino Comum dos Bens; o Poder, a Globalização e o Paradigma Tecnocrático; o Antropocentrismo Moderno e suas Consequências; a Ecologia Ambiental, Económica, Social, Cultural e da Vida Quotidiana; a Justiça Intergeracional e o Meio Ambiente; o Diálogo para novas políticas nacionais e regionais; as Religiões e a Ciência; a Transparência nos processos decisórios, e a Conversão ecológica,  salientando que tudo isto não é de ordem opcional mas sim uma “questão essencial de justiça”, – porque o Ambiente “situa-se no âmbito da recepção. É um empréstimo que cada geração recebe e deve transmitir à geração seguinte”, como exortava a Conferência Episcopal Portuguesa na sua Carta Pastoral “Responsabilidade solidária pelo bem comum” (15.09.2009), citada aqui pelo Papa Francisco...

– Por todas estas razões, esta Encíclica Laudato si’ – Sobre o Cuidado da Casa Comum é na verdade um magnífico, exigente e responsabilizante Tratado de Ecologia Integrada, aplicável àquele mesmo, único e universal Bem Comum de todas as formas de Vida e Consciência que é o nosso Planeta Terra, e que merece assim, por isso mesmo, de todos os Homens e Povos, uma prudencial e profunda meditação e a mais corajosa e urgente tradução prática!
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(*) Texto integral da Encíclica disponível aqui:
http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 23.06.2015):



























e RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/comentadores/eduardo-ferraz-da-rosa/uma-ecologia-integral_47216:




























Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 20.06.2015):



























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sábado, junho 13, 2015


Diplomacia e Bom-senso
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O discurso proferido no 10 de Junho pelo Representante da República para a Região Autónoma dos Açores, para além das referências aos agraciados deste ano (o Seminário Episcopal de Angra e o escritor João de Melo), foi ainda ocasião para uma série de considerações que deverão ser tomadas em conta por todos os mal aconselhados amanuenses, próceres partidários e seus actores institucionais – e pela opinião e vontade públicas dos cidadãos! – que novamente nesta crucial conjunção regional e nacional, vão ser chamados a intervir – tanto mais quanto se perfilham já nos horizontes eleitorais vizinhos opções que em muito determinarão a nossa vida colectiva (parlamentar, governativa, presidencial e jurídico-constitucional, mas também socioeconómica, cultural e político-ideológica) para os próximos anos, e em coincidência com exigentes, complexos e incertos desafios internos e (des)equilíbrios económico-financeiros e geoestratégicos europeus, atlânticos e mundiais.

– Ora é neste quadro realista e objectivo que deve ser lida, situada e reflectida a sensata, frontal e prevenida intervenção do Embaixador Pedro Catarino, não só na primeira e segunda partes do seu texto – respectivamente relativas ao historial da Autonomia (desde 1976 até hoje) e aos dois paradigmáticos e seleccionados juízos presidenciais (Jorge Sampaio e Cavaco Silva) sobre o modelo evolutivo e/ou já estabilizado da sua mesma arquitectura constitucional – estando aliás ambos fundamentados e bastamente obrigados a “concretizar as atribuições que a Constituição confere às Regiões” para “desenvolver no terreno os poderes que os órgãos de governo próprio possuem”, e aprofundando “a solidariedade entre as diferentes partes do todo nacional, num espírito de diálogo frutuoso entre os órgãos regionais e as autoridades da República” –, quanto logo depois no que se refere às recorrentemente ditas questões de bloqueio institucional ou estatutário, a par das (quase) obsessivas (e incautas!) investidas contra o estatuto e contra a própria existência da figura constitucional do Representante da República, questões igualmente ali abordadas e às quais voltaremos aqui.
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 16.06.2015):



























RTP-Açores:




























"Diário Insular" (Angra do Heroísmo (13,06.2015):



























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sábado, maio 30, 2015


A Correspondência de Fradique Mendes
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Eça, Canónico e Crítico


1. Há livros e autores aos quais sempre se volta, por dever e cumprimento de ofício ou pelo simples prazer de leitura e busca de quase infinitas reconfigurações para as suas tessituras de sentido, como propunha Barthes. E depois, tais obras, por tudo aquilo que exprimem, e mais podem manifestar, fazer descobrir ou revelar – tanto para estudiosos particulares e leitores reais como na formação dos cânones histórico-literários (veja-se Bloom e Borges...) – constituem peças de Cultura e de Pensamento (conquanto diversificadas e até problematizáveis temática, ideológica e estilisticamente...) daquele património chamado (e construído civilizacional e individualmente) como clássico, assim sendo guardado, transmitido e revisitável na vida das comunidades e nos tempos interiores ou íntimos dos leitores, como bem propôs Italo Calvino.


 Ora no caso que tenho hoje em vista é precisamente isso que acontece com um Autor e com um livro ao qual de modo cíclico retornamos, ou não fossem eles um Escritor clássico, no âmbito canónico da Literatura Portuguesa e Universal, e uma obra aberta, como a definia Eco, que exige também “características estruturais” que estimulam e ao mesmo tempo regulam “a ordem das suas interpretações”:

– Refiro-me ao nosso Eça de Queirós e à sua Correspondência de Fradique Mendes, livro acabado de publicar pela INCM (2014) em mais um precioso volume da Edição Crítica das Obras do imortal autor de Os Maias, O Crime do Padre Amaro, A Capital!, O Primo Basílio, O Mandarim, Alves & C.ª, A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras, etc. (estando algumas destas já editadas e outras projectadas nesta notável, única e qualificada série tão empenhadamente coordenada por Carlos Reis).



2. Inserida nas actividades do Centro de Literatura Portuguesa/FCT da Universidade de Coimbra, esta edição foi preparada por Carlos Reis, Irene Fialho e Maria João Simões, abrindo com uma “Nota prefacial” onde é explicitado o objectivo de um trabalho que foi efectuado com vista a facultar um texto “em muitos aspectos consolidado, relativamente ao que eram as edições que até agora dispúnhamos”, tanto mais quanto se trata de “um daqueles títulos que Eça de Queirós não chegou a publicar em vida, facto que arrasta consideráveis problemas e inseguranças”, desde logo por decorrerem do facto de estarmos em presença de “um texto semipóstumo, que foi projectado e em boa parte organizado pelo próprio Eça”, mas que “contou com outras intervenções, logo depois do desaparecimento do seu autor” e na sequência, ainda por cima, de ter sido “a escrita e a publicação original destes textos (...) acidentada e sobretudo dispersa”, com uma evidente história marcada por “reescritas”, “emendas” e até lamentáveis “oscilações de critério editorial” (subtil mas incisivamente, denunciadas aqui...).



– Esta edição crítica (que é também antológica de Poemas primevos e Cartas fradiquistas habitualmente desenquadradas) começa com um minucioso ensaio sobre A Correspondência de Fradique Mendes, onde os organizadores retomam reflexões não só sobre a génese e evolução da sua figura e estilística quanto também sobre o “cânone queirosiano”, o “estatuto ontológico de Fradique” e “uma certa fortuna cultural” da obra de Eça, após o que procedem a uma análise estrutural, comparativa e selectiva das diversas presenças e ausências, manuscritos e espólios do consagrado escritor, nomeadamente do “manuscrito Salema Garção” (adquirido pela Biblioteca Nacional em 2004 e catalogado como BN Esp. E1/310), posto em elucidativo confronto e cotejo com versões anteriores das Cartas, com os manuscritos Alberto de Serpa e Menéres Campos, para além, como não podia deixar de ser, das versões originárias vindas a público na Gazeta de Notícias, em O Repórter e na Revista de Portugal.



3. Não tem faltado – porém nem tanto quanto seria de desejar da nossa cultivada academia lusa, do publicismo culturalista e das suas revistas especializadas ou de mera divulgação, e do tão letrado jornalismo cultural luso... – elogios criteriosos e construtivas apreciações a este meritório projecto editorial (de alcance luso-brasileiro), onde para além de Carlos Reis e das suas Colaboradoras neste volume, merecem referência Elena Soler, Ana Peixinho, Maria Helena Santana e Maria do Rosário Cunha, para além do excepcional desempenho de Fagundes Duarte – e nisto numa significativa linhagem de estudos e estudiosos açorianos sobre Eça (Alberto Machado da Rosa, Pedro da Silveira, Machado Pires, Frank Sousa, etc.), como salientei em O Risco das Vozes (2006) e em “Insularidade, Modernidade e Figuras dos Açores em Eça de Queirós” (2012), – a quem coube a dificílima incumbência de preparar a edição crítica de A Capital!, mas que mais tem produzido – com o grande especialista queirosiano que é Carlos Reis – uma reflexão teórico-crítica sobre o mesmo trabalho crítico subjacente às textualidades e às edições histórico-críticas, numa linha de análise e compreensão não só estritamente formal, filológico-textual ou estilístico-gramatical quanto hermenêutica (e assim aplicável a outros domínios e registos discursivos, conceptuais e poéticos, tais o da Filosofia e aos demais da Linguagem e da Teoria da Literatura, da Língua, da História, da Linguística e até da Tradução).




– É claro que especialmente no caso do Eça de A Correspondência de Fradique Mendes, por todas as razões que aí criticamente confluem e pelas específicas potencialidades interpretativas da obra e do seu autor, do seu pensamento e das suas complexas, intrincadas e pluridisciplinares facetas, horizontes e contextos (existenciais, histórico-literários, sociopolíticos, estéticos, psicológicos e filosóficos), também por via deste regresso a essa figura semi-ficcional, semi ou proto-heteronímica (onde narrador, personagens e personificações se entremeiam...), mais se acentuam traços, heranças e vigências de uma espécie de recorrente Modernidade, ainda criticamente nossa (Cesário e Pessoa, Mário Cláudio, Agualusa e Saramago...), como se tem procurado pensar, repensar e (des)construir na aura e das “auréolas mais refulgentes” desse “homem genial” que Eça, dele  e com Fradique – isto é, de si próprio e ao(s) outro(s) de si... –, e a nós também, “vincam a alma – e jamais esquecem”!

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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 30.05.2015):



























Azores Digital:




























Eça, Clássico e Crítico
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Há livros e autores aos quais sempre se volta, por dever e cumprimento de ofício ou pelo simples prazer de leitura e busca de reconfigurações para as suas tessituras de sentido. E depois, tais obras, por tudo aquilo que exprimem, e sempre e mais podem manifestar, fazer descobrir ou revelar, constituem peças de Cultura e de Pensamento daquele património clássico que assim vai sendo guardado, transmitido e revisitável na vida das comunidades e nos tempos interiores ou íntimos dos leitores. Ora no caso que tenho em vista é precisamente isso que acontece com um Autor e um livro ao qual de modo cíclico retornamos, ou não fossem eles um Escritor clássico, no âmbito canónico da Literatura Portuguesa e Universal, e uma obra aberta...

– Refiro-me ao nosso Eça de Queirós e à sua Correspondência de Fradique Mendes, livro acabado de publicar (2014) numa edição preparada por Carlos Reis, Irene Fialho e Maria João Simões. – Ora não tem faltado elogios criteriosos e construtivas apreciações teoréticas, filológicas e formais a este meritório projecto da INCM, onde, para além de Carlos Reis e das suas Colaboradoras neste volume, merecem referência Elena Soler, Ana Peixinho, Maria Helena Santana e Rosário Cunha, para além do excepcional desempenho de Fagundes Duarte a quem coube a dificílima incumbência de estruturar a edição crítica de A Capital! (mas que mais tem produzido – com o grande e maior especialista queirosiano que é Carlos Reis – uma reflexão teórico-crítica sobre o mesmo trabalho crítico subjacente às textualidades e às suas edições histórico-críticas).

É claro que especialmente no caso do Eça de Fradique Mendes, também por via deste regresso a essa figura semi-ficcional, semi ou proto-heteronímica mais se acentuam os traços, heranças e vigências de uma espécie de recorrente Modernidade, ainda criticamente nossa contemporânea (Cesário e Pessoa, Mário Cláudio, Agualusa e Saramago...), como se tem procurado pensar, repensar e (des)construir desse “homem genial” cujas “auréolas mais refulgentes”, como ele(s) escrevem, “vincam a alma – e jamais esquecem”!
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 30.05.2015):







sábado, maio 23, 2015

As Tribos da Capital

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Os recentes acontecimentos de violência e destruição que ocorreram em Lisboa e Guimarães por ocasião das comemorações da conquista do campeonato português de futebol constituíram novamente manifestações de toda uma complexa situação social que ciclicamente aflora e explode um pouco por toda a parte (e entre nós também, como se verificou agora), com as consequências e os custos que todos conhecemos e que constituíram motivo de informação, transmissão ou cobertura mediáticas para grandes audiências, às quais não faltaram amplas perorações do habitual e interessado nacional-comentarismo mais ou menos passional e epidérmico que temos, num quadro quase idêntico àqueles que vem galvanizando a nação e preenchendo manchetes, paixões míticas e arroubos de patriotismos, regionalismos ou clubismos mais ou menos de substituição ou transferência, numa série de mecânicas do imaginário em consonância com euforias de alienadas massas, de modo totémico…





– Ora apesar de continuarmos a não exercer sobre tal fenómeno uma urgente e aprofundada reflexão, e de persistirmos em não procurar implementar as medidas que, mesmo que em parte ou pontualmente apenas, o prevenissem ou minorassem, o certo é que as tribos do futebol (como Desmond Morris lhes chamou num livro famoso, bem a par das temáticas por ele confluentemente abordadas no Zoo Humano e no Macaco Nu e louco...), o que vemos é instalar-se somente uma polémica política e securitária entre hostes partidárias, forças policiais e poderes autárquicos, qual deles procurando maiores dividendos ou passa-culpas que os desresponsabilizem desta barbárie real, simbólica, cívica e desportiva a que especialmente na capital a populaça ensandecida se entregou, instigada!



Porém o mal tem raízes profundas e vem de longe, pelo que deste neo-tribalismo sistémico aonde nos atolámos dificilmente nos livraremos dentro do sistema e dos valores que estão na sua própria génese, e na lógica inerente ao hibridismo decadentista que aliás o perpetuará sempre em cadeia, em todas as práticas do nosso quotidiano cultural e civilizacional, e nos espaços e discursos públicos e privados que nos cercam.   
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 23.05.2015):



















RTP-Açores:
"Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 23.05.2015):



























e Azores Digital
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=2900: