sexta-feira, outubro 16, 2015


Svetlana Aleksievitch:
Desenganos da Utopia
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A atribuição do Prémio Nobel 2015 da Literatura à escritora Svetlana Aleksievitch chamou a atenção do mundo para uma obra singular, que tem vindo a ganhar crescente notoriedade na Europa, não só pelo seu carácter propriamente literário, vertente ensaística e estilo narrativo quanto também pelos conteúdos da problemática sociopolítica, cultural e filosófica que a atravessa e profundamente modela.


Nascida em 1948 na Ucrânia, então pertencente à URSS, o difícil (e arriscado...) trabalho de Svetlana Aleksievitch, mormente através da recolha de entrevistas, arquivo de confissões e registo de histórias de vida, oscilando sempre entre textos profundamente realistas (alguns quase surrealistas e para-ficcionais de tão cruamente contados...), numa espécie de investigação antropológica de campo que é igualmente um talentoso misto de pesquisa etnológica e de reportagem jornalística –, tem vindo a permitir-lhe abordar (denunciando...) a experiência histórica, ética, espiritual, ideológica e psico-existencial da chamada era pós-soviética e das verdadeiramente traumáticas implicações modernas e contemporâneas que as suas mais relevantes fracturas sociopolíticas (Perestroika), ambientais (Chernobyl), bélicas (Guerras Mundiais, Afeganistão e Chechénia), institucionais e morais, atingindo quase todas as classes, camadas e etnias populacionais da extinta URSS, provocaram na dramática reconfiguração destinal e simbólica do “homem soviético” da sua mentalidade e desencantos “saudosistas”, patrióticos ou nacionalistas, num quadro – digamos – de “ocidentalização” pelo pior, por entre derivas juvenis, “boom” consumista, guetização e proliferação de drogas, violências urbanas, manifestações racistas e iconoclastas, – enfim –, de todos os mitos soviéticos, pós-soviéticos e... neo-soviéticos, essencialmente irmanados com os vícios, perversidades e taras seculares e mundanas (e metafísicas!) de um Ocidente decadente e impotente em sua cancerígena e já universal podridão...



– E é evidente que, neste caso, para Svetlana Aleksievitch, tais motivos próximos foram e são ainda, entre outros, o regime de Loukachenko e o voraz czarismo neoimperial de Putin (como escreveu em 2014 no Le Monde, a propósito da anexação da Crimeia e do “histerismo” neonacionalista russo); as causas dos descendentes das purgas estalinistas e do actual controlo, instrumentalizações e propagandas dos media; as vítimas do Gulag; as aberturas da era Gorbatchev; o golpe de 1991; a acumulação neocapitalista das grandes fortunas, monopólios e grémios empresariais; a criação dos gangs mafiosos russos e seus ajustes de contas criminosos; o desemprego dos universitários ou a sua única sobrevivência possível no mercado dos pequenos serviços, trabalhos no comércio ou em biscates precários, e a global degradação das condições de vida, saúde, habitação, educação, etc.  





Porém, acima de tudo e paralelamente a tudo isso (amiúde por isso mesmo!), Aleksievitch tem testemunhado na sua obra todo um universo de fixações utópicas naquele passado “comunista” (soviético), conquanto objectivamente perdido e volatilizado hoje, porém re-activo e constatável nos interstícios do desenvolvimento sofredor (pático e amiúde patológico) de mecanismos compensatórios e ilusórios (ressentidos, frustrados e desenganados), ao mesmo tempo quase delirantes, regressivos e até suicidários, conforme os seus livros vem revelando, desde 1983-85 (com o impressionante repositório narrativo de vivências de soldados e testemunhos femininos da II Grande Guerra) até ao O Fim do Homem Soviéticoúnica publicação sua traduzida em português, na Porto Editora, por António Pescada –, obra vencedora do Premio Médicis Ensaio e Livro do Ano escolhido pela Revista Lire, em 2013.


– “Escrevo a história das almas”, assim se exprimia num depoimento concedido a Michel Eltchanioff (antigo professor universitário, especialista em Dostoievski e actual chefe-de-redacção adjunto da Philosophie Magazine), onde a bielorrussa, após recordar a infância, formação universitária e intelectual, leituras e primeiros ideários e influências ideológicas (Gramsci, Freud, Nietzsche, Adamovitch), caracteriza o método da sua escrita por relação ao mundo que lhe tem sido dado viver, sofrer e observar, deste modo: 

“Não procuro – diz, recusando assumir tanto o papel de jornalista como o de historiadora – produzir um documento mas esculpir a imagem de uma época. É por isso que levo entre sete a dez anos para redigir cada livro. Registo centenas de pessoas. Torno a ver a mesma pessoa várias vezes. Com efeito, é preciso, antes de mais, libertá-la da banalidade que ela possui”, como se se tratasse de um mal que ela tenha, ou tivesse, em si mesma ou por si própria...


Ora é certamente por essas marcas narrativas (e éticas!), onde tantas vozes se erguem e cruzam, que a Academia Sueca lhe atribuiu agora um Nobel, mais salientando o carácter polifónico de uma obra que pode ser vista como “um memorial ao sofrimento e à coragem na nossa época”. De resto, segundo me parece, os livros desta escritora deveriam valer também para a elaboração de uma complementar perspectivação daquilo a que François Furet chamou de O Passado de uma Ilusão – Ensaios sobre a Ideia Comunista no Século XX, que aliás e já de si, de certo modo, parafraseava, para analogar sob um fundo comum, muito daquilo que pode estar na base de fenómenos próximos como o totalitarismo, o fanatismo, o fascismo, o militarismo, outras e demais pulsões de morte pessoal e colectiva, e poder de Estado e Vontade de Poder, Destino e Cultura, Violência e Civilização, Crença, Utopia e (des)Ilusão, e Desengano, como na famosa obra de Freud O Futuro de uma Ilusão...


Finalmente, da obra de Svetlana Aleksievitch poder-se-á dizer que nos traz não só um retrato trágico da grande História e da Ideia do “comunismo”, tal como foram historicamente tentados na falhada experiência soviética, como também nos revela o interior existencial, concreto e real das pequenas histórias individuais da vida de cada um dos milhões de homens que acreditaram num (nesse?) Ideal de Humanidade nova e “reconciliada consigo mesmo”, como teorizava Marx, – sonho imemorial de uma sociedade justa e perfeita, desejo afinal latente naquele subconsciente ideologicamente construído e condicionado e hoje ainda nostalgicamente latente no heróico e messiânico Povo russo, mesmo face ao fracasso, ou pelo próprio falhanço, do modelo real de sociedade e de regime politico-historicamente impostos e/ou assumidos, com temor e terror concentracionários também, na URSS e seus domínios ou satélites, conforme Aleksievitch espantosamente revela à luz crua da realidade ou da sua negação!


– Assim, nos tempos conturbados que vivemos, a obra de Svetlana Aleksievitch contém tanto um aviso de perigo como uma esperança realista, quer para quem nunca acreditou como para quem sempre sonhou e confiará nos valores civilizacionais de um projecto outro, humanista e humanizante, face a tudo o que degrada o Homem e aliena a prudente rectidão reguladora das unicamente necessárias utopias integrais que podem fazer avançar o Mundo, crescer a Justiça e assegurar a Liberdade.
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Em "Diário dos Açores", Ponta Delgada (17.10.2015):



sexta-feira, outubro 09, 2015

Utopia e Desenganos
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A atribuição do Prémio Nobel 2015 da Literatura à escritora Svetlana Aleksievitch chamou a atenção do mundo para uma obra singular, que tem vindo a ganhar crescente notoriedade na Europa não só pelo seu carácter propriamente literário e estilo narrativo quanto pela problemática sociopolítica, cultural e filosófica que a atravessa e profundamente modela na vertente ensaística.



– Nascida em 1948 na Ucrânia, então pertencente à URSS, o seu difícil (e arriscado...) trabalho de pesquisa e escrita (mormente recolha de entrevistas, arquivo de confissões e registo de histórias de vida), oscilando sempre entre textos profundamente realistas (alguns quase surrealistas e para-ficcionais de tão cruamente contados...), numa espécie de investigação antropológica de campo, misto de pesquisa etnológico-civilizacional e de reportagem jornalística –, tem vindo a permitir a Svetlana Aleksievitch abordar, denunciando, fundamentalmente a experiência histórica, ética, espiritual, ideológica e psico-existencial da chamada era pós-soviética e das implicações que as suas mais relevantes fracturas sociopolíticas (Perestroika), ambientais (Chernobyl), bélicas (II Guerra Mundial e guerra do Afeganistão) e institucionais (nomeadamente o regime de Loukachenko e o novo czarismo imperial de Putin), atingindo todas as classes e camadas populacionais da extinta URSS, provocaram na dramática reconfiguração destinal e simbólica do chamado “homem soviético”, na sua mentalidade e desencantos patrióticos ou nacionalistas, porém acima de tudo na sua fixação “utópica” num passado “comunista” perdido e volatilizado, 



– naquilo que afinal se traduz no desenvolvimento sofredor (pático e amiúde patológico) de uma série de mecanismos compensatórios e ilusórios (ressentidos, frustrados, desenganados mas ao mesmo tempo quase delirantes e regressivos), conforme todos os livros de Aleksievitch o revelam, desde 1985 (sobre testemunhos femininos da II Grande Guerra) até ao mais recente O Fim do Homem Soviético (único livro seu traduzido em português, obra vencedora do Premio Médicis Ensaio e Livro do Ano escolhido pela Revista Lire em 2013), títulos de uma obra muito apelativa e à qual voltaremos aqui.
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 10.10.2015):








sexta-feira, outubro 02, 2015


Um Tratado Histórico
e Político-Eleitoral
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Quando no ano de 64 a.C. o notável retórico, advogado, político e filósofo Marco Túlio Cícero (03.01.106 a.C. – 07.12-43 a.C.), então com 43 anos, resolveu candidatar-se ao alto cargo de cônsul da República Romana, o seu irmão – Quintus Tullius Cícero – terá achado por bem escrever para uso dele (e bem ao clássico e sempre actual estilo de ad usum delphini) um elucidativo manual político, guia ou carta recheada de conselhos, truques e expedientes pragmáticos sobre como orientar a sua propaganda eleitoral...


– Intitulado Commentariolum petitionis e também conhecido como De petitione consulatus, conquanto a respectiva autoria não seja unanimemente atribuída ao próprio Quinto Cícero, esse modelo de tratado de estratégia político-eleitoral (que é ao mesmo tempo um documento histórico e um filosófico ensaio pessimista sobre a natureza humana...) foi recentemente reeditado entre nós em publicação bilingue (Latim e Português) feita a partir da tradução inglesa da obra por Philip Freeman (How To Win an Election: An ancient guide for modern politicians).


A nova versão portuguesa deste texto, realizada por Pedro Saraiva (Lisboa, Gradiva, 2015), traz o título de Como Ganhar Eleições: Um Guia Clássico para Líderes Actuais e inclui igualmente – tal como aquela edição-fonte usada, que é de 2012 (da Princeton University Press, omitida da ficha), e também da autoria de Freeman – uma Introdução, uma Observação (“relativa à tradução para inglês”), uma nota sobre O resultado das eleições, um Glossário e um breve repertório de Bibliografia “para saber mais” (“Further Reading”).


– De resto, relembre-se, esta mesma obra latina, em conhecida edição de bolso, já havia tido uma anterior edição portuguesa, na qual incorrectamente se afirmava que o título “original” (sic) da mesma era Petit Manuel de Campagne Électorale, naquilo que foi julgado como uma “completa fraude”, conforme assinalou António Rocha da Silva na sua Tese de Mestrado em Estudos Clássicos apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (2010) sob orientação da Prof.ª Maria Cristina de Sousa Pimentel:


– Trata-se, aqui, de um minucioso trabalho académico, compreendendo uma outra tradução portuguesa integral e crítica da referida obra latina de Quinto Túlio, e que vem acompanhada de “um conjunto de notas que visam esclarecer aspectos civilizacionais e prosopográficos importantes para a plena compreensão do texto por parte de um leitor do séc. XXI, em geral, e infelizmente, bastante afastado dos realia do mundo romano”.


Ora o Commentariolum petitionis daquele tão impiedoso e cruel (quanto premonitório e paradigmaticamente maquiavélico...) irmão do grande, exuberante e ambicioso orador e político Marcus Tullius Cícero – ele próprio emanação e reconhecido espelho de uma época instável e turbulenta, como bem é reproduzido na interessante edição agora lançada em Portugal – e logo numa conjuntura eleitoral inspiradora de leituras sobre as várias fortunas e infortúnios que bem quadram e decorrem das propostas cinicamente arquitectadas, ou apenas realisticamente constatadas em tão desmistificadora e pessimista narrativa! –, traz-nos um retrato humano (uma caricatura sociopolítica, ética e moral...), e traça-nos um expressivo cenário histórico, simultaneamente realista e céptico, que é revelado através de “fragmentos intemporais de sabedoria [sic] política, desde a importância de prometer tudo a todos até à evocação de escândalos sexuais que envolvem os adversários, passando por se ser camaleão, dar um bom espectáculo às massas e rodear-se sempre de apoiantes acérrimos.


“ (...) Todo e qualquer idealismo ou ingenuidade são [ali] postos de lado quando Quinto fala ao irmão – e a todos nós – sobre a forma baixa e suja como realmente se processa uma campanha eleitoral vitoriosa.


“ (...) É fascinante verificar que, tendo a República Romana desaparecido há dois mil anos, e apesar de todas as mudanças entretanto ocorridas, está tudo na mesma”...


– Assim, por todas estas razões, mais aquelas recorrências que o leitor de certeza deliciosamente identificará naquela época – e mais dramaticamente ainda reconhecerá nos discursos e práticas das respectivas e reais réplicas contemporâneas... –, é esta uma leitura propiciatória de profunda reflexão crítica, para estes chuvosos dias e noites de campanhas eleitorais e expectativas políticas que só o futuro dirá aonde levarão, por entre tantas das continuadas ou adiadas (des)esperanças do País inteiro e as muitas, históricas e cansadas (des)ilusões do Povo!


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Em “Diário dos Açores”
(Ponta Delgada, 03.10.2015):



























Azores Digital:

















e RTP-Açores (no prelo).




Um Manual Histórico
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Quando no ano de 64 a.C. o notável retórico, advogado, político e filósofo Marco Túlio Cícero (106 a.C. – 43 a.C.) resolveu candidatar-se a cônsul da República Romana, o irmão – Quintus Tullius Cícero – escreveu para uso dele um elucidativo manual político, guia ou carta recheada de conselhos, truques e expedientes pragmáticos sobre como orientar a sua propaganda eleitoral.


Intitulado Commentariolum petitionis, esse tratado de estratégia político-eleitoral (que é ao mesmo tempo um documento histórico e um filosófico ensaio pessimista sobre a natureza humana) foi reeditado entre nós a partir da tradução inglesa de Philip Freeman. A versão portuguesa, por Pedro Saraiva (Gradiva, 2015), traz o título de Como Ganhar Eleições: Um Guia Clássico para Líderes Actuais e inclui também a Introdução, o Glossário e a Bibliografia da publicação, não citada, da Princeton University Press (2012).


Ora esta obra daquele tão impiedoso e cruel quanto premonitório e paradigmaticamente maquiavélico irmão de Marcus Cícero – ele próprio emanação e reconhecido espelho de uma época instável e turbulenta – e logo numa conjuntura eleitoral inspiradora de leituras sobre fortunas e infortúnios que bem quadram e decorrem de propostas cinicamente arquitectadas ou realisticamente constatadas em tão desmistificadora e pessimista narrativa! –, traz-nos um impiedoso retrato-caricatura sociopolítica, ética e moral, e faz-nos um expressivo cenário histórico, realista e céptico, revelado através de “fragmentos intemporais de sabedoria [sic] política, desde a importância de prometer tudo a todos até à evocação de escândalos sexuais que envolvem os adversários, passando por se ser camaleão, dar um bom espectáculo às massas e rodear-se sempre de apoiantes acérrimos”...


– Por todas estas razões, mais aquelas recorrências que o leitor deliciosamente identificará (e dramaticamente reconhecerá nas suas reais réplicas contemporâneas), é este um livrinho bem propiciatório de profunda reflexão crítica, para estes dias e noites de campanhas e expectativas que só o futuro dirá aonde levarão, por entre continuadas ou adiadas (des)esperanças e cansadas (des)ilusões!
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Em “Diário Insular”
(Angra do Heroísmo, 03.10.2015):


sábado, setembro 26, 2015


A Urna e os Farsantes
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1. Não há nada mais propício a uma série de boas farsas sociais do que as Campanhas Eleitorais tal como as conhecemos, vimos, vivemos já, ouvimos contar e lemos desde Mestre Gil a Saramago, sem esquecer aqueles primeiros modelos e paradigmas cénicos de algumas brasílicas séries telenovelescas, tão distantes e próximas de nós afinal ainda, como Asa Branca, com seus Santeiros, ou o inesquecível e fabuloso Ilhéus de Jorge Amado, mesmo que aqui sem ou com novos Coronéis, Mundinhos e Marias Machadão gerindo o que resta dos dias e das noites mais gloriosas e devotas da já extinta, mas então neófita e revolucionante vida partidária nacional, lá por aqueles vertiginosos (e talvez inocentes, autênticos e esperançosos) anos do pós-25 de Abril, apesar de tudo...


2. Mas agora, nestes mansos tempos absentistas e rotineiros da Autonomia do século XXI, tudo é tão diferente e diverso do que era naqueles anos amorosos de Portugal à portuguesa, como diria o nosso romântico Dantas, quando por lá ainda alguns clérigos e leigos (com seus fâmulos em réplicas mais intelectuais, militantes, conspiradoras ou palacianas...) davam um arzinho da sua graça, de suas paixões e dos faisões das suas mesas, onde mais do que algumas rolhas ficavam sempre para testemunho dos seus simpósios socráticos (os genuínos...) e dos seus passos leves em sapatinhos de alto brilho e fivela, que não, por aqueles tempos, felizmente nisso ao menos, de sapatilha Prada! Mas seja como for, chegámos foi aqui, e deste modo jazemos no estado onde nos encontramos e havemos de continuar a repastar:


 – E assim é um nunca visto rol de gestos de simpatia em parada comunitária; afectos vindo à flor da pele e dos tambores da outra banda; interesses por causas e injustiças de séculos, ou de há semanas apenas; insólitas ternuras para com velhinhos, crianças e pobres; compunção perante reais injustiças e misérias; assomos e afiançamentos de moralização; denúncia ou remédios prometidos para situações clamorosas, e – claro – tudo isto a par de retóricas balofas e discursatas de compromisso (sem qualquer réstia de possibilidade de garantia no futuro, evidentemente, portanto, portanto, portanto como declama um actual agente da educação ilhoa, enquanto empeça nas espinhas do peixe que academicamente vai vendendo...), porém numa roda viva por auditórios, cantinas, ruas e arruadas, comícios embandeirados, jantares e almoços, caravanas em buzinada, visitas a feiras e mercados e academias e empresas e empresários de sucesso (à mistura com os falidos na crise e à espera do que resta de subsídios ou adjudicações salvadoras...), e a autarquias também, e câmaras de comércio, indústrias e serviços; e logo a mais dignitários e caciques e servos e bandoleiros político-partidários, e a senhores eclesiásticos de batina e venal cabeça (ou sem cabeção para perfeita e moderníssima secularização, sem roupagens, simbólicas sequer de qualquer jaez), e etc. por aí fora, cantando, dançando e rindo numa rodopiante folia “democrática” (ritual imenso de “participação cívica”, sem dúvida...), com líderes e suas populaças e popularuchas adesões ao credo da causa pública e ao invocado “bem comum”, todavia contando-se amiúde pelos dedos as excepções, como aos dedinhos das mãos numa cantilena (para enganar incautos ou adormecer catraias, mentecaptos ou incultos e anjinhos do céu...), desde aquela dedo mindinho da lista das mais sérias primas-donzelas e seus varões candidatos, com seus potenciais e esclarecidos e disponíveis eleitores, até ao controleiro do mata-piolho, passando pelos seus vizinhos do aparelho, pelo grande pai de todos e pelo para-todo-o-terreno e sítio do fura-bolos (que dele melhor até se diria penetrante fura-olhos e fura-vidas), quando para outros e maiores talentos e validades não prestariam, nem a tanto se deram nunca, nem hoje valem para mais nada, – neste reciclado tempo de lixos políticos e papéis de falsários, por muito que queiramos acreditar no contrário, e por mais que se faça a única desmontagem merecida daquelas outras ou semelhantes urnas onde, desde há muito, se vem alienando a possibilidade mesma de uma alternativa credível para o estado em que o País caiu, e para onde, mais fundo ainda, pode o arrebanhado Povo “soberano” desta terra (re)volver...


3. A Crónica de hoje não era para sair propriamente nos termos e no estilo em que acabou por ficar ao ser quase automaticamente escrita, e disto mesmo talvez se admirará o habitual e fiel leitor que se dignou seguir-nos até quase ao fim do texto de hoje, a meio de campanhas, debates, marchas e desfiles, e já a uma semaninha só das próximas, ditas decisivas e auspiciosas Eleições...


– Mas como poderia ser de outro modo, à beira quase das urnas (fatídico termo este, nunca se sabe para quem...), quando são tantos os farsantes em cena, rede social e reportagem mediática, que para pouco mais nos deixaram todos hoje que não fosse o da vontade para deixar livremente correr a pena e o teclado por sobre o triste espectáculo com que diariamente deparamos no espaço público e no resto que daí nos veio à memória, neste tempo de farsas que são a prova provada da ficção democrática em que vivemos!
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 26.09.2015):



























RTP-Açores:



























Azores Digital:





Os Farsantes e a Urna

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Não há nada mais propício a boas farsas sociais do que as Campanhas Eleitorais tal como as conhecemos, vimos, vivemos já, ouvimos contar e lemos desde Mestre Gil a Saramago...


 – E assim é um nunca visto rol de gestos de simpatia; afectos vindo à flor da pele e dos tambores da banda; interesses por causas e injustiças de séculos, ou de há semanas apenas; insólitas ternuras para com velhinhos, crianças e pobres; compunção perante injustiças e misérias; assomos e afiançamentos de moralização; denúncia ou remédios prometidos para situações clamorosas, e – claro – tudo isto a par de retóricas e compromissos (sem réstia de possibilidade de garantia, evidentemente, portanto, “portanto”, como declama um actual agente da educação ilhoa, enquanto empeça no peixe que vai vendendo), porém tudo numa roda viva por auditórios, cantinas, ruas e arruadas, comícios, jantares e almoços, buzinadas, visitas a feiras, mercados, academias, empresas e empresários de sucesso (à mistura com falidos, à espera de subsídios ou adjudicações), e autarquias também, e câmaras de comércio, indústrias e serviços; e logo a dignitários, caciques, servos e bandoleiros político-partidários, e a senhores eclesiásticos de batina e venal cabeça (ou sem cabeção para perfeita e moderníssima secularização), e etc. por aí fora, cantando, dançando e rindo em folia “democrática” (ritual imenso de “participação cívica”!), com líderes, populaça e popularuchas adesões à causa pública e ao invocado “bem comum”, todavia contando-se pelos dedos as excepções, como aos dedinhos das mãos em cantilena (para enganar incautos ou adormecer catraias, mentecaptos ou incultos e anjinhos...), desde o dedo mindinho da lista das primas-donzelas e seus varões candidatos, até ao controleiro do mata-piolho, passando pelos vizinhos do aparelho, pelo grande pai de todos e pelo para-todo-o-terreno do fura-bolos (que dele melhor até se diria penetrante fura-olhos e fura-vidas), quando para outros e maiores talentos e validades não prestariam nenhuns, nem a tanto se deram nunca, nem hoje valem, – neste reciclado tempo de lixos e papéis de falsários na mesma urna!
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Em "Diário Insular",
Angra do Heroísmo, 26.09.2015:


sábado, setembro 19, 2015


Os Remédios do Vigário
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1. O provérbio “Quem conta um conto acrescenta um conto” é conhecido e usado por múltiplos actores e falantes em diversos campos e instâncias, servindo em geral para significar ou querer dizer que toda e qualquer história, historieta ou narrativa – abonada palavra da Linguística... – ao ser reproduzida de mão e ouvido, ou de língua em língua, quando não ela mesma representação primeira ou procriação “langagière” (como diziam os semiólogos franceses) de ocorrências ou situações –, sempre lhes ajunta, enquanto relato, algum pormenor (talvez) não muito fiel, preciso ou exactamente traduzido, enquanto descrição narrada de eventos através desse inevitável meio.

– É claro que o destino ou condenação das falas (de toda a linguagem e narração afinal, e mais ainda delas quando – sempre? – interpretativas) acarreando carências (por excesso ou defeito) de adequação total a coisas, figuras e elementos do mundo, é uma marca insuperável e um risco inerente a toda a comunicação humana, – e mais o será ainda quando os artífice ou receptores de estórias forem destituídos de talento expressivo, domínio do linguajar, ou, pior, de veracidade ética, como por cá temos insularmente presenciado à exaustão nos despautérios de tantos contos e lendas que se vem debitando à conta da partidocracia cega e surda deste sistema falhado, pese embora muitos desses efabulatórios discursos e realidades não terem exclusividade autonómica, tal como, descontando proporções e plateias, ainda há pouco se comprovava nos gémeos pontos trazidos às ficcionadas rábulas de um afoito politiqueiro nacional, ainda hoje venerado “espólio” do PS e feroz artista jumelé de “comentador” (quando não de outras artes e ofícios, sortudas vigarias e desengaioladas manhas...).

Porém vem tudo isto agora mais a propósito é de uma daquelas medicinais prestações de quem toma conta e receita mezinhas e contos para as graves maleitas da Saúde nos Açores, – tão recordativas de outros proverbiais aviamentos, desde o presente vesgo ponto a outros paliativos e improvisados cuidados e contos antigos, que melhor dir-se-iam do vigário, conforme a seu tempo rolarão para diagnóstico, então com peso e medida, das tamanhas, entarameladas e anestésicas pontuações dos cata-ventos governamentais!


2. Por outro lado, mas tendo ainda em vista esta mesma e interessante recordação de pontos e contos... – todavia desta feita bem de vigário mesmo! –, como não lembrar aquela peça literária de Fernando Pessoa que o poeta da Mensagem publicou pela primeira vez, com o título de “Um Grande Português”, no número inaugural (30.10.1926) do jornal lisboeta “Sol” e que tornaria a imprimir três anos depois no “Notícias Ilustrado” (Lisboa, 2ª. Série, 18/08/1929) com o título «A Origem do Conto do Vigário»?


– A história, claro está, não tem qualquer relação directa com as fantásticas sessões do nosso parlamento ilhéu ou com os miméticos desmandos palavrosos com que, à falta de melhores bancadas para bate-papo, debates e passa-culpas (outro vocábulo muito em moda na gíria inter-acusatória dos partidos na capital...), os nossos actores políticos vão enchendo tempos de antena e cumprindo calendário pré-eleitoral. Porém, nem por isso o referido Conto de Pessoa deixa de ter atractivos, desde logo pelo texto em si, mas depois também por um outro escrito, inédito esse, que o mesmo autor teria tido intenção de dirigir ao director do citado O Notícias Ilustrado, aparentemente protestando (ou fingindo protestar...) contra o seu próprio texto sobre Manuel Peres Vigário...


E é assim que, se numa das redacções Fernando Pessoa conta a história de como aquele “pequeno lavrador e negociante de gado”, envolvido com “certo fabricante ilegal de notas falsas”, acabou por ludibriar a dois irmãos não menos gananciosos do que ele, e apesar disso (à custa de um expedito “recibo” trocado em dia de feira e à mesa de avinhado jantar “numa taberna escura”) acabou escapando à alçada da polícia e da Justiça, já no segundo texto-missiva, personificado (mascarando-se...) em vigarista ficcional, escreve o mesmo Pessoa o seguinte:

– “Pois quê? É lá possível que uma publicação (...) venha lançar aos quatro ventos da publicidade uma historieta sem pés nem cabeça, impingindo-a aos seus leitores como a origem do celebérrimo conto que tantos papalvos tem levado no embrulho e tanto vigarista tem guindado às mais altas e rútilas esferas da Fama? (...). Aquilo que em ‘O Notícias Ilustrado’ se vê e lê, é vigário... sem ‘conto’, vigário grotesco, sem fila, sem grupo, sem baratim (...). Não, sr. Director! Os vigaristas são homens de linha (...) e sabem trajar como dandys e apresentar-se como aristocratas... O ‘conto do vigário’ é bem diferente (...) e isso de notas falsas, pagamentos com notas de cem como se fossem de cinquenta, passamento de recibos e mais lérias pode ser tudo menos ‘conto do vigário’ e nenhuma relação tem com a sua pretendida origem. No ‘conto do vigário’ – tirante os pobres, porque esses não têm dinheiro para cair – tem caído gente de todas as classes sociais – médicos, lavradores, advogados, padres e juízes, representando garbosamente o clero, a nobreza e o povo... Até agentes da pasma têm levado com o paco pelos crachos – e está bem de ver que a história da corrente de latão fingindo oiro, sobre ser de mínima importância para produzir dinheiro de monta, é demasiadamente ingénua para levar à certa personagens de tão alto coturno mental...”.


3. Por todas estas razões, que são de patologia vária mas também de textos literários, e porque as levam morais de política, sociedade e história, merecem pois as mesmas ser relidos nestes novos velhos tempos de vigaria e vigarices esconsas mas conjugadas, como bem viu Bagão Félix ao comentar no seu Prefácio a um deles (edição do Centro Atlântico, Lisboa, 2011), nestes sugestivos e profilácticos termos:

– “Os contos viraram euros, mas o conto ainda o é. Na essência. E o senhor Vigário (...) metamorfoseou-se num ambiente de globalização e de exuberância tecnológica. É claro que continua a haver o vigário doméstico ou local, com uma métrica modestamente artesanal de enganar o parceiro. Mas a sofisticação da trapaça é agora universal, sem muros ou obstáculos. Há os vigários tóxicos, os vigários prolixos e os vigários que passam entre os pingos da chuva. Seguramente todos são nocivos. Há, também, os vigários políticos e eleitorais que prometem sem cumprir, para crédulos e votantes sempre disponíveis para cair no conto-do-vigário.

“ (...) Para ele, os fins justificam, sem pestanejar, qualquer meio”...
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 19.09.2015):