sexta-feira, novembro 13, 2015


Os brilhos da Glacial
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Na Imprensa regional portuguesa e no Suplementarismo açoriano – a par, em modos diferenciados, da Pensamento, da Artes e Letras do “DI” e da Gávea, sem levarmos em conta os nossos Institutos, naturalmente –, talvez não tenha havido projecto editorial, literário e artístico (e de cidadania intelectualmente empenhada e socialmente comprometida) tão arrojado e marcante como o desenvolvido ao longo de anos (15.07.1967 – 23.06.1973, e depois, noutra forma, em 74) pela GlacialPágina de Literatura e Pensamento, originariamente das Letras e das Artes de “A União” (na altura liderada por Cunha de Oliveira, director, e Artur Goulart, chefe-de-redacção).



Ora perfeitamente integrada no espírito informativo e formativo daquele jornal – nessa distante (em parte saudosa...) época do passado século terceirense, e ali concebida e produzida de modo aberto, conscienciosamente livre e autónomo – foi a Glacial coordenada e dirigida pelo poeta e escritor Carlos Faria, um infatigável viajante, apaixonado das ilhas, continental nascido na Golegã, porém açoriano de inteligentes afectos e universais poéticas a quem os Açores e todos nós tanto devemos (mais, aliás, do que a tantos dos que abusivamente de tal estatuto se reclamam!).



– Mas vem isto a propósito da notável, merecida e justa difusão que tem vindo a ser feita da obra e da vida de Carlos Faria em vários Sítios da Net, especialmente através e no seguimento das previdentes e meritórias digitalizações documentais da Biblioteca Pública de Angra (sob orientação de Marcolino Candeias), e bem assim através dos esmerados empenhos de divulgação graciosamente desenvolvidos, entre outros, por Costa Brites e Carlos Nuno Faria (na página dedicada a seu pai, Carlos Faria, no Facebook).

Mas depois, ainda neste sentido e neste âmbito, merece certamente um registo especial toda a bela e relevante documentação (textos e imagens) que tem sido disponibilizada e está acessível para consulta nos próprios Blogues pessoais de Costa Brites:


– O primeiro deles (em https://karlosfaria.wordpress.com/) guardando escritos de Urbano Bettencourt, Artur Goulart, Onésimo Teotónio de Almeida e Eduardo Bettencourt Pinto, para além de um magnífico repertório sobre a Glacial, sua história, percursos e colaborações, incluindo um precioso arquivo praticamente integral das suas edições fac-similadas em “A União”, para além de uma relação e antologia do movimento da Gávea/Glacial, da entrevista/manifesto Rogério Silva/Gávea (1971), da transcrição (no jornal “Açores” de 23.01.1970) de um memorável depoimento de Carlos Faria ao programa “Vertical” da emissora “Asas do Atlântico, de uma reconhecida nota e link para o trabalho académico de Lusa Ponte, e – enfim – de uma narrativa pessoal de Costa Brites sobre Carlos Faria, as suas ligações, encontros, influências (Arrabal, Lorca...), círculos de amigos, companheiros ou camaradas de letras e artes (entre outros, Rogério Silva,  Dias de Melo, Ernesto do Canto da Maia, Armando Côrtes-Rodrigues, Tomaz Borba Vieira, Santos Barros e Ivone Chinita).

Por seu lado o segundo Blogue/Página (em (https://costabrites.wordpress.com/) – incidindo variada mas primordialmente sobre as criações e obras artísticas de Costa Brites (com destaque para as figurações espaciais, desenhos e pinturas de Coimbra), os seus laços familiares, viagens, presenças e produções teórico-críticas, etc. –, deixa igualmente bem manifestas todas as suas proximidades ou aproximações aos Açores, nomeadamente por via de Carlos Faria e de Rogério Silva.


– Todavia, sobre a Glacial e o seu ímpar e integrado significado como factor de afirmação histórico-cultural, artística e sociopolítica “do campo literário açoriano”, a partir da aplicação de categorias críticas de Pierre Bourdieu, não posso deixar de tornar a recordar e mais novamente recomendar aqui, para concluir esta sucinta lembrança de tantos nomes, ideais e realidades que nos foram e são próximos, convivenciais e inspiradores, a tantas vezes (indevida e injustamente) esquecida Tese de Doutoramento apresentada na Sorbonne (2010) por Lusa de Melo Ponte (veja-se o respectivo texto integral, disponível aqui:  http://www.e-sorbonne.fr/sites/www.e-sorbonne.fr/files/theses/De-Melo-Ponte_Lusa-Maria_2010_these.pdf), – admirável investigação, recolha sistemática e tratamento sério de quanto paradigmaticamente confluiu nos projectos e nos legados da nossa Glacial, e do quanto desde ali permanece vivo e vigente, na presença ou na ausência do seu brilho, sobre a gélida indiferença deste obscuro tempo actual...
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 21.11.2015):




























Primeira versão em "Diário Insular" 
(Angra do Heroísmo, 14 de Novembro, 2015):









sábado, outubro 24, 2015



Os Distintivos da SATA
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Para quem muito viajou e conviveu com a SATA – com os seus míticos pilotos, aeronaves, tripulações, funcionários e estruturas, pelo meio de descolagens e aterragens, ventos e nevoeiros, esperas e pernoitas, fugas ao caprichoso e às vezes traiçoeiro clima das ilhas –, a relação com essa companhia não é isenta de paixão, expectativas e (des)confianças, num ambivalente círculo de situações e geografias (ainda marcadas por angústias e turbulências “atmosféricas”, poços de ar, cegueira de radares e vórtices que nascem de oscilações conjunturalmente variáveis...).




– Ora neste contexto referira-se o quanto de real e simbolicamente está embarcado no redireccionamento e renomeação da SATA Internacional para Azores Airlines. Assim e atendendo somente ao novel e parabólico design – no momento em que imbróglios e inquirições pendem sobre projectos, dívidas e prestação de contas da empresa! – o que veremos doravante no seu bojo serão sintomáticos e emblemáticos cetáceos (baleias ou cachalotes, para o caso tanto faz).



É claro que desses distintos mamíferos (também ligados à memória e imaginação das fainas, ficções, caçadas, indústrias, sensibilidades e mercados neo-turísticos) muito haveria a expressar e contradizer, atendendo à equivocidade das suas figurações e díspares conotações.


– Deixando porém mais para diante tal exercício de simbologia aplicada, ficaremos hoje apenas na lenda de Jonas e na alegoria do Moby Dick de Melville, mas sem esquecer o paralelo e potencial sentido, disforme e ameaçador, do Leviatã – tudo coisas que os padrinhos e madrinhas da SATA porventura ignoram ou terão descurado, lá pelos subidos ares e fundos mares que os seus aparelhos e máquinas cruzam (certamente com gente conformando-se aos novos esguichos, barbas, entranhas, vísceras e espermacetes daqueles herdeiros dos pássaros da velha companhia), esses que hibridamente voarão para destinos incertos, elegantes mas travestidos ou tatuados com pesados cetáceos, à semelhança do resto que nos rodeia, porém de barbatanas roídas (“caudas de palha”...) e olhos falidos nos abismos (empresariais e não só...) que nos cercam, com os “vigias da baleia” dormindo na falésia...
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Em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 24.10.2015):





























Azores Digital:


















e RTP-Açores (no prelo).

segunda-feira, outubro 19, 2015



As Baleias e o Leviatã
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Cerca de seis anos após ser concebida e planeada como pioneira Sociedade de Estudos aeronáuticos, aeroportuários e de transportes aéreos indubitavelmente situada na conjuntura daqueles conturbados, desafiantes e promissores tempos, cenários e horizontes que marcaram os Açores no início da II Guerra, e depois efectivamente concretizada em meados dos anos 40 do século passado (1947) como Sociedade Açoriana de Transportes Aéreos, pode dizer-se que a SATA determinou desde então as ligações inter-ilhas, constituindo referencial do quotidiano e presença viva no imaginário dos nossos transportes, de modo só comparável ao dos navios e iates que antes sulcavam os mares das ilhas. Comprada depois, em 1980, ao Grupo Bensaude, a SATA passou de companhia privada a empresa regionalizada/nacionalizada, e com nova designação (Serviço Açoriano de Transportes Aéreos) mas sob o mesmo acrónimo, viu as suas acções e responsabilidades de serviço público serem divididas entre a TAP e Governo regional.


– Ora para quem muito viajou e conviveu de perto com a SATA, com os seus míticos pilotos, aeronaves, tripulações, funcionários, escritórios exíguos e progressivamente modernizados, a par de descolagens e aterragens, por entre ventos e nevoeiros, esperas de aeroporto, reservas e acomodamentos e redireccionamentos, com pequenas e grandes fugas por entre abertas e fechos do caprichoso e às vezes traiçoeiro tempo das ilhas atlânticas, a relação com essa companhia não é isenta de uma certa paixão, de expectativas e confianças, de um certo ambiente de família, proximidade de sentimentos e partilha de condições de vida, apesar de algumas angústias, desencantos e desilusões (algumas motivadas pelos muitos poços de ar e descaminhos e indefinições que estão na base e decorrem de oscilações de uma Política Aérea pouco transparente, pouco racional, incoerente e amiúde até pouco justa).
Por outro lado, os felizmente raros mas dramáticos e traumáticos acidentes com os seus aviões ainda mais solidificaram os laços que memorialmente ligam as ilhas e o nosso povo à SATA, fazendo crescer um envolvimento singular, simbolicamente identificativo, que gerou mecanismos de confiança – por assim dizer, uma certa açorianidade em viagem (dentro dos Açores e fora deles, por e para todo o mundo onde vão ou de onde regressam os Açorianos) –, quase com sentimentos tácitos e julgados maiores direitos de acolhimento, expectativas de solidariedade e mesmo alguma esperança (conquanto nem sempre correspondida!) de união de esforços e partilhas de pátria ou expatriação...

A sobra das notáveis (e também das infelizmente trágicas) histórias da SATA é mais ou menos conhecida, e não vale a pena, nem é propósito desta Crónica, tratá-las hoje, muito embora muitas das peripécias a que estamos assistindo hoje pudessem ser bem mais claramente situadas, explicadas e compreendidas à luz dos percursos, rotas e cumplicidades em escala e cadeia... – de onde ninguém poderá atirar primeiras pedras às rodas e trens da empresa... – dessa e de outras “parcerias” mais ou menos “estratégicas”, envolvendo nomeações, administrações, gestão, negócios, financiamentos, subsídios e políticas, favores e escolhas de ocasião e conveniência, jogos de gabinete e secretaria, corredor, cabine, porão, lobbies profissionais e técnicos, concorrências e concursos e vagas e promoções, etc., – como cada vez é mais evidente aos olhos de quem por aí quiser observar (e sindicar) a fundo, em terra e no ar, onde dos serviços e amabilidades do velho slogan da SATA às vezes já pouco resta por esses balcões e voos adiante e atrás, nas ilhas e na diáspora, onde a alguns yuppies e fedelhos e fedelhas de gravatinha, farda e calças de fino toque mas pouca transparência, civilidade e cortesia, melhor fora que os chamassem ou despedissem um a um...
– Mas pior do que isso é a criminosa e demencial audácia de quem veio agora (impunemente!?) propalar a existência (fictícia ou real?) de gravíssima insegurança potencial (e de esterco pouco higiénico alegadamente à mistura) nos aviões da SATA onde todos viajamos à guarda e ao zelo exigíveis a todas as companhias de aviação, sejam elas privadas ou públicas, porém aqui sem que a verdade tenha sido radicalmente apurada e a confiança reposta, antes que as nossas asas e o chão que pisamos mais se confundam e invertam!


Neste contexto – e talvez bem mais real e figurativamente ligado a tudo o que aqui dizemos... – não posso finalmente deixar de referir o quanto directa e indirectamente decorre, ou pode deixar transcorrer, da recentíssima e última iniciativa da SATA, ao renomear o seu desdobramento de SATA Internacional para Azores Airlines (o que obrigará por certo a repintar/redecorar/reeditar todas as aeronaves nesse serviço, e bem assim, provavelmente, todo o material icónico ligado à mesma frota), com certeza em obediência a calculados, estudados, orçamentados e opcionais ditames rentabilizadores e com prioridades comerciais e técnicas sérias, a custo/benefício calculado para o marketing, a imagem e as promoções decorrentes... No essencial, e do aparatoso e novel grafismo e respectiva reelaboração integrada, portanto, o que veremos doravante no bojo dos aviões da Azores Airlines (SATA?) será uma gigantesca baleia (ou cachalote, para o caso tanto faz) cuja concepção estética (ao menos esta...) é bastante discutível, de todos os pontos de vista.


É claro que desse gigante dos oceanos – mamífero marinho muito ligado à ancestral história das fainas, ficções literárias, belos artesanatos, caçadas arrojadas, indústrias desaparecidas, hodiernas sensibilidades ecológicas e observações neo-turísticas nos mares e faunas dos Açores, pelos Açorianos e pelos tão desejados, necessários e putativos visitantes nacionais e da estranja – muito haverá que se lhe diga e contradiga, conforme a perspectiva, não fora a diversidade e mesmo o contraditório e – claro, para bom ou mau entendedor – ainda a inerente equivocidade simbólica daquela figuração, carregada que está de muitas e díspares conotações, como devia saber-se com prudência e arte dos signos...


– Todavia, ficará esse exercício de simbologia aplicada (a um terreno que é também económico-empresarial, financeiro, técnico-operacional e de mercado), para outra ocasião, enquanto por hoje ficaremos apenas reflectindo na lenda bíblica de Jonas e na confluente alegoria do Moby Dick de Melville, mas sem esquecer o paralelo e potencial sentido oposto, disforme e aterrador, do Leviatã, – tudo coisas que os imaginativos ilustradores da Azores Airlines porventura ignoram ou terão descurado, e que os seus administradores, gestores, “public-relations” ou agentes de marketing muito pouco terão levado em sabida conta, lá para os altos ares e fundos mares que os nossos aviões vão cruzar, com muita gente acomodando-se aos esguichos, barbas, entranhas, vísceras e espermacetes daqueles tecnologicamente avançados irmãos (?) dos belos e saudosos pássaros açorianos das brilhantes e solares asas da antiga e elegante SATA, – esses que agora hibridamente vão voar travestidos de pesados cetáceos, à semelhança de tudo o resto que nos rodeia, com barbatanas roídas e olhos fixados nos abismos que nos cercam no ar, no mar e em terra também!
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Em "Diário dos Açores",
Ponta Delgada, 20.10.2015:


sábado, outubro 17, 2015



No Ar e em Terra
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Cerca de seis anos após ser concebida e planeada sob cenários e horizontes que marcaram os Açores no início da II Guerra, e depois concretizada em meados dos anos 40 do século passado (1947) como Sociedade Açoriana de Transportes Aéreos, pode dizer-se que a SATA marcou desde então todas as ligações inter-ilhas, constituindo referencial do quotidiano e presença viva no imaginário dos nossos transportes, de modo só comparável ao dos navios e iates que antes sulcavam os mares das ilhas.

– Comprada em 1980 ao Grupo Bensaude, a SATA passou de companhia privada a empresa regionalizada/nacionalizada, e com nova designação (Serviço Açoriano de Transportes Aéreos) mas sob o mesmo acrónimo, viu as suas acções e responsabilidades de serviço público serem divididas entre a TAP e Governo regional.

O resto das suas histórias é mais ou menos conhecido e não vale a pena, nem este é o propósito desta Crónica, tratá-las hoje, embora muitas das peripécias a que estamos assistindo pudessem ser bem mais claramente situadas, explicadas e compreendidas à luz dos percursos, rotas e cumplicidades dessa e outras “parcerias” mais ou menos ditas “estratégicas”, envolvendo nomeações, administrações, gestões, negócios, financiamentos, subsídios e política, favores e escolhas de ocasião e conveniência, jogos de gabinete e secretaria, corredor, cabine, porão, lobbies profissionais e técnicos, concorrências e concursos e vagas e promoções, etc., etc., – como cada vez é mais evidente aos olhos de quem por aí quiser observar (e sindicar) a fundo, em terra e no ar, onde dos serviços e amabilidades do velho slogan da SATA às vezes já pouco resta por esses balcões e voos adiante e atrás, nas ilhas e na diáspora, onde a alguns yuppies e fedelhos e fedelhas de gravatinha, farda e calças de fino toque mas pouca transparência, civilidade e cortesia, melhor fora que os chamassem ou despedissem um a um...

– Mas pior do que isso é a criminosa e quase demencial audácia de quem veio agora propalar a (fictícia ou real?) insegurança dos aviões onde todos viajamos, sem que a verdade seja radicalmente apurada e a confiança reposta, antes que as nossas asas e o chão que pisamos mais se confundam e invertam!
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e "Diário Insular", Angra do Heroísmo (17.10.2015):



























Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=3043:























e "Diário dos Açores" (no prelo).

sexta-feira, outubro 16, 2015


Svetlana Aleksievitch:
Desenganos da Utopia
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A atribuição do Prémio Nobel 2015 da Literatura à escritora Svetlana Aleksievitch chamou a atenção do mundo para uma obra singular, que tem vindo a ganhar crescente notoriedade na Europa, não só pelo seu carácter propriamente literário, vertente ensaística e estilo narrativo quanto também pelos conteúdos da problemática sociopolítica, cultural e filosófica que a atravessa e profundamente modela.


Nascida em 1948 na Ucrânia, então pertencente à URSS, o difícil (e arriscado...) trabalho de Svetlana Aleksievitch, mormente através da recolha de entrevistas, arquivo de confissões e registo de histórias de vida, oscilando sempre entre textos profundamente realistas (alguns quase surrealistas e para-ficcionais de tão cruamente contados...), numa espécie de investigação antropológica de campo que é igualmente um talentoso misto de pesquisa etnológica e de reportagem jornalística –, tem vindo a permitir-lhe abordar (denunciando...) a experiência histórica, ética, espiritual, ideológica e psico-existencial da chamada era pós-soviética e das verdadeiramente traumáticas implicações modernas e contemporâneas que as suas mais relevantes fracturas sociopolíticas (Perestroika), ambientais (Chernobyl), bélicas (Guerras Mundiais, Afeganistão e Chechénia), institucionais e morais, atingindo quase todas as classes, camadas e etnias populacionais da extinta URSS, provocaram na dramática reconfiguração destinal e simbólica do “homem soviético” da sua mentalidade e desencantos “saudosistas”, patrióticos ou nacionalistas, num quadro – digamos – de “ocidentalização” pelo pior, por entre derivas juvenis, “boom” consumista, guetização e proliferação de drogas, violências urbanas, manifestações racistas e iconoclastas, – enfim –, de todos os mitos soviéticos, pós-soviéticos e... neo-soviéticos, essencialmente irmanados com os vícios, perversidades e taras seculares e mundanas (e metafísicas!) de um Ocidente decadente e impotente em sua cancerígena e já universal podridão...



– E é evidente que, neste caso, para Svetlana Aleksievitch, tais motivos próximos foram e são ainda, entre outros, o regime de Loukachenko e o voraz czarismo neoimperial de Putin (como escreveu em 2014 no Le Monde, a propósito da anexação da Crimeia e do “histerismo” neonacionalista russo); as causas dos descendentes das purgas estalinistas e do actual controlo, instrumentalizações e propagandas dos media; as vítimas do Gulag; as aberturas da era Gorbatchev; o golpe de 1991; a acumulação neocapitalista das grandes fortunas, monopólios e grémios empresariais; a criação dos gangs mafiosos russos e seus ajustes de contas criminosos; o desemprego dos universitários ou a sua única sobrevivência possível no mercado dos pequenos serviços, trabalhos no comércio ou em biscates precários, e a global degradação das condições de vida, saúde, habitação, educação, etc.  





Porém, acima de tudo e paralelamente a tudo isso (amiúde por isso mesmo!), Aleksievitch tem testemunhado na sua obra todo um universo de fixações utópicas naquele passado “comunista” (soviético), conquanto objectivamente perdido e volatilizado hoje, porém re-activo e constatável nos interstícios do desenvolvimento sofredor (pático e amiúde patológico) de mecanismos compensatórios e ilusórios (ressentidos, frustrados e desenganados), ao mesmo tempo quase delirantes, regressivos e até suicidários, conforme os seus livros vem revelando, desde 1983-85 (com o impressionante repositório narrativo de vivências de soldados e testemunhos femininos da II Grande Guerra) até ao O Fim do Homem Soviéticoúnica publicação sua traduzida em português, na Porto Editora, por António Pescada –, obra vencedora do Premio Médicis Ensaio e Livro do Ano escolhido pela Revista Lire, em 2013.


– “Escrevo a história das almas”, assim se exprimia num depoimento concedido a Michel Eltchanioff (antigo professor universitário, especialista em Dostoievski e actual chefe-de-redacção adjunto da Philosophie Magazine), onde a bielorrussa, após recordar a infância, formação universitária e intelectual, leituras e primeiros ideários e influências ideológicas (Gramsci, Freud, Nietzsche, Adamovitch), caracteriza o método da sua escrita por relação ao mundo que lhe tem sido dado viver, sofrer e observar, deste modo: 

“Não procuro – diz, recusando assumir tanto o papel de jornalista como o de historiadora – produzir um documento mas esculpir a imagem de uma época. É por isso que levo entre sete a dez anos para redigir cada livro. Registo centenas de pessoas. Torno a ver a mesma pessoa várias vezes. Com efeito, é preciso, antes de mais, libertá-la da banalidade que ela possui”, como se se tratasse de um mal que ela tenha, ou tivesse, em si mesma ou por si própria...


Ora é certamente por essas marcas narrativas (e éticas!), onde tantas vozes se erguem e cruzam, que a Academia Sueca lhe atribuiu agora um Nobel, mais salientando o carácter polifónico de uma obra que pode ser vista como “um memorial ao sofrimento e à coragem na nossa época”. De resto, segundo me parece, os livros desta escritora deveriam valer também para a elaboração de uma complementar perspectivação daquilo a que François Furet chamou de O Passado de uma Ilusão – Ensaios sobre a Ideia Comunista no Século XX, que aliás e já de si, de certo modo, parafraseava, para analogar sob um fundo comum, muito daquilo que pode estar na base de fenómenos próximos como o totalitarismo, o fanatismo, o fascismo, o militarismo, outras e demais pulsões de morte pessoal e colectiva, e poder de Estado e Vontade de Poder, Destino e Cultura, Violência e Civilização, Crença, Utopia e (des)Ilusão, e Desengano, como na famosa obra de Freud O Futuro de uma Ilusão...


Finalmente, da obra de Svetlana Aleksievitch poder-se-á dizer que nos traz não só um retrato trágico da grande História e da Ideia do “comunismo”, tal como foram historicamente tentados na falhada experiência soviética, como também nos revela o interior existencial, concreto e real das pequenas histórias individuais da vida de cada um dos milhões de homens que acreditaram num (nesse?) Ideal de Humanidade nova e “reconciliada consigo mesmo”, como teorizava Marx, – sonho imemorial de uma sociedade justa e perfeita, desejo afinal latente naquele subconsciente ideologicamente construído e condicionado e hoje ainda nostalgicamente latente no heróico e messiânico Povo russo, mesmo face ao fracasso, ou pelo próprio falhanço, do modelo real de sociedade e de regime politico-historicamente impostos e/ou assumidos, com temor e terror concentracionários também, na URSS e seus domínios ou satélites, conforme Aleksievitch espantosamente revela à luz crua da realidade ou da sua negação!


– Assim, nos tempos conturbados que vivemos, a obra de Svetlana Aleksievitch contém tanto um aviso de perigo como uma esperança realista, quer para quem nunca acreditou como para quem sempre sonhou e confiará nos valores civilizacionais de um projecto outro, humanista e humanizante, face a tudo o que degrada o Homem e aliena a prudente rectidão reguladora das unicamente necessárias utopias integrais que podem fazer avançar o Mundo, crescer a Justiça e assegurar a Liberdade.
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Em "Diário dos Açores", Ponta Delgada (17.10.2015):



sexta-feira, outubro 09, 2015

Utopia e Desenganos
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A atribuição do Prémio Nobel 2015 da Literatura à escritora Svetlana Aleksievitch chamou a atenção do mundo para uma obra singular, que tem vindo a ganhar crescente notoriedade na Europa não só pelo seu carácter propriamente literário e estilo narrativo quanto pela problemática sociopolítica, cultural e filosófica que a atravessa e profundamente modela na vertente ensaística.



– Nascida em 1948 na Ucrânia, então pertencente à URSS, o seu difícil (e arriscado...) trabalho de pesquisa e escrita (mormente recolha de entrevistas, arquivo de confissões e registo de histórias de vida), oscilando sempre entre textos profundamente realistas (alguns quase surrealistas e para-ficcionais de tão cruamente contados...), numa espécie de investigação antropológica de campo, misto de pesquisa etnológico-civilizacional e de reportagem jornalística –, tem vindo a permitir a Svetlana Aleksievitch abordar, denunciando, fundamentalmente a experiência histórica, ética, espiritual, ideológica e psico-existencial da chamada era pós-soviética e das implicações que as suas mais relevantes fracturas sociopolíticas (Perestroika), ambientais (Chernobyl), bélicas (II Guerra Mundial e guerra do Afeganistão) e institucionais (nomeadamente o regime de Loukachenko e o novo czarismo imperial de Putin), atingindo todas as classes e camadas populacionais da extinta URSS, provocaram na dramática reconfiguração destinal e simbólica do chamado “homem soviético”, na sua mentalidade e desencantos patrióticos ou nacionalistas, porém acima de tudo na sua fixação “utópica” num passado “comunista” perdido e volatilizado, 



– naquilo que afinal se traduz no desenvolvimento sofredor (pático e amiúde patológico) de uma série de mecanismos compensatórios e ilusórios (ressentidos, frustrados, desenganados mas ao mesmo tempo quase delirantes e regressivos), conforme todos os livros de Aleksievitch o revelam, desde 1985 (sobre testemunhos femininos da II Grande Guerra) até ao mais recente O Fim do Homem Soviético (único livro seu traduzido em português, obra vencedora do Premio Médicis Ensaio e Livro do Ano escolhido pela Revista Lire em 2013), títulos de uma obra muito apelativa e à qual voltaremos aqui.
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 10.10.2015):