sexta-feira, novembro 27, 2015


Da Alma ao Supraceleste

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Pode parecer metafísico o título desta Crónica – talvez entre poético, antropológico-filosófico, cosmológico e teológico, quando não (ou precisamente) porque o poderíamos ter recolhido ao deambularmos entre revisitações de memória, discursos e colóquios nos jardins e pátios da Academia e do Liceu da velha Grécia, ou então nos saborosos Comentários de S. Tomás às obras do Estagirita, ou até mesmo, já ao fechar do Século XVIII, calcorreando kantianas avenidas de Konisberg ao bater das horas no puro cômputo da Razão crítica, fossem aqui evocados patronos tão afeitos e dados a coisas como as que estão no Fédon, no Banquete, na República, no Timeu, no De Anima, no De Caelo et Mundo ou na Allgemeine Naturgeschichte und Theorie des Himmels... –, mas não!

– A frase de abertura de hoje conjuga apenas numa expressão o título de duas fabulosas Crónicas com que abre (“Sobre a alma”) e fecha (“O Lugar Supraceleste”) o belíssimo livro O Lugar Supraceleste de Frederico Lourenço, publicado há pouco pela Cotovia (Lisboa, 2015).

Nascido em 1963, este notável classicista e professor da Universidade de Coimbra – tradutor premiado da Ilíada e da Odisseia – é também autor, entre outros, dos ensaios reunidos em Grécia Revisitada, da antologia Poesia Grega de Álcman a Teócrito, do romance Pode Um Desejo Imenso, dos contos de A Formosa Pintura do Mundo e do também recente O Livro Aberto: Leituras da Bíblia.



– Confessadamente sem ser obra de Filosofia ou de Teologia – diríamos nós, ao modo abstruso e pretensamente “académico” dos maçudos tratados delas (porquanto, ou melhor, porque delas o autor diz não ter “competência”, talvez porque a tenha de outro mais autêntico modo que é não tê-lo daquele trejeito) –, começa Frederico Lourenço por falar-nos da sua própria alma e do corpo que nela amigavelmente co-existe, na “limpidez autêntica da verdade, [como] em todos os nossos actos, gestos e palavras”, e assim em Deus, no Divino, na Música, na Pintura, no Amor, na Poesia, na Filiação e na Paternidade, na Dança, na Oração, etc., e em todos os superiores “patamares sucessivos” daquela sublime e iniciática experiência aprofundada que é afinal a da nossa humanidade no que ela tem e é de essencial e excelso, apesar e para além do que nela resta de maligno ou maléfico, como exemplarmente dizia o seu dilecto Schopenhauer perante o sofrimento animal ou animado dos seres vivos, face à crueldade desalmada do homem ainda sublunar...




As Crónicas reunidas em O Lugar Supraceleste foram inicialmente inseridas, entre Setembro de 2014 e Janeiro de 2015, na “plataforma muito sui generis que é o Facebook”, explica Frederico Lourenço no seu Prefácio e esta obra que abre sob um aforismo do “fascinante” Livro Azul do nosso também predilectíssimo Wittgenstein (“O processo de falarmos connosco mesmos pode ser substituído por falarmos em voz alta ou então pela escrita”), nos seguintes termos:


– “À semelhança de muitas outras pessoas que vivem sós e, por esse motivo, passam a maior parte do seu tempo tendo os próprios pensamentos como principal companhia, tenho-me tornado nos últimos anos um cismador meditabundo diariamente dedicado a remoer sozinho ideias, leituras, manias, reminiscências e projecções fantasiosas sobre o futuro. Pode ser que se dê o caso de me pôr a falar sozinho em voz alta, mas por enquanto a escrita ainda surge aos meus olhos como o melhor canal de extravasamento para este tipo de cogitação supranumerária: pois há um momento em que o ‘disco’ mental está cheio e é preciso deslocar de lá a acumulação de cismações, de modo a criar espaço para novos pensamentos e para novos caminhos de reflexão.



“Transferir as minhas meditações do espaço fechado da minha mente para o espaço aberto de um livro acessível à leitura e crítica alheias foi uma viagem especial (...). Desses textos – que representam aquilo que actualmente vou pensando sobre a minha vida passada, sobre filosofia, música, literatura, sexo e outras coisas soltas – escolhi aqueles de que mais gosto e cuja leitura me pareceu poder interessar a um leque mais amplo de leitores”.




E depois, percorrendo então temas, acontecimentos, vivências, audições, gestos e hábitos do quotidiano, representações, relacionamentos pessoais e familiares, etc., retoma sempre o autor uma permanente reflexão como retorno a si e aos seus concomitantes actos de escrita, ele que tanto se fundiu e recriou traduzindo as linguagens e os sentidos das palavras tecidas no tear dos outros, ou entretecidas, sem retroversão possível, nas rocas, fusos e fios da nossa Língua, e no singular mundo existencial que a nossa radical finitude incarnada marca para o Bem e para o mal, tanto no que dizemos como no que silenciamos, ou tanto no que apenas esperamos que nos eleve a uma Verdade Outra, talvez a Única capaz de nos redimir do Tempo e das cruzes dos nossos caminhos esquivos, desesperados ou somente misteriosos:

– “A palavra ‘texto’ evoca pela sua etimologia a ideia de tecelagem, pelo que é frequente a analogia entre o escritor e o tecelão. (...) A vida faz sentido? Refiro-me em concreto à minha. É uma pergunta que me coloco desde sempre. Estarei aqui por alguma razão definida?”.



A estas, como a muitas outras questões que o seu livro testemunha ou levanta, Frederico Lourenço responde (procura animar...) com a mente e com o coração, com Goethe e ainda com Schopenhauer, por entre o desejo e a contemplação (“porque a lua é apenas objecto de contemplação, nunca objecto de desejo”):

– “É por isso – escreve assim o autor, aliás numa indisfarçável tonalidade simultaneamente kantiana e agostiniana... – que a contemplação da beleza inalcançável das estrelas nos acalma e eleva, ao passo que nos descentra e inquieta a contemplação da beleza teoricamente alcançável de corpos não celestes. Pensemos, em concreto, num corpo bem terrestre que momentaneamente nos atrai, mas que as circunstâncias tornam mais inalcançável do que a estrela mais remota da última galáxia. Que inquietação...”. Supraceleste!?

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Em "Diário dos Açores" (01.12.2015):



























NOTA: 
Uma primeira versão deste texto foi publicada em "Diário Insular" 
(Angra do Heroísmo, 28.11.2015):










domingo, novembro 22, 2015


Os Aventais e a Tanga
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A recente realização de um grande evento da Maçonaria portuguesa, promovido e organizado pelo Centro de Estudos Maçónicos, com o suporte da Câmara Municipal e da Cooperativa Cultural da Praia da Vitória, constitui feito digno de registo por tudo o que significou, revela e esconde, para mais tendo-se em conta a atenção e cobertura que granjeou (ou não...) nas Redes e OCS [1], as reacções que provocou nos cidadãos e nas instituições, e as análises que (des)motivou do ponto de vista político-cultural, filosófico, ético, ideológico, cívico e socio-histórico na colectividade local (de resto mais fadada e aparelhável para a tanga do que para o avental)!


– Ora tal certame, variante de cimeira inter-pares, tendências e lojas (ainda para doutrinação, aliança e propaganda), como fora habilmente pretendido e ficou à vista de quantos não andam por cá de olhos vendados, apesar de a muitos dos organizadores, patrocinadores e simulados “compagnons de route”, provavelmente ornados de meias viseiras ou antolhos para vesgos aprendizes de rito e ideários da dita “sociedade secreta”, talvez lhes terem, em dia solar, ilusoriamente soado badaladas de distante consciência em afinados sinos e tinos de intenção programática, se é que não foram, em noite de quarto escuro, sem lua na faixa ou na martelada do almofariz limpo, sujeitos a investiduras de luva, com toda a dimensão “iniciática” que cartilhas, juras e compassos debitam, e a “irmandade” depois se encarregará de cobrar para “o bem e o progresso da humanidade”, sob o olho vigilante do supremo arquitecto...


Porém, por entre tanta hipócrita e cínica maçãzinha escondida nesse cesto e toca de secretismo e poder de seita – vantagens à parte nos comércios e tráficos de almas, corpos e influências... –, o mais espantoso e repugnante é o podre silêncio, mais ou menos pacóvio, comodista, cobarde, levianamente cúmplice ou apenas acéfalo de toda uma outra comunidade e suas instituições e organismos historicamente relevantes e responsáveis – incluindo a Igreja [2] com os seus clérigos tão catequizantes e zelosos, pastores e pastoralistas, “teólogos” e leigos “empenhados”, ou (des)comprometidos nos bons combates ideológicos, morais e práticos (e certamente não por falta de doutrinas claras), conquanto às vezes aparentemente ignorados ou esquecidos... –, hoje cada vez mais reduzidos e decadentes em expressão fútil, indefinida, nula ou oca (estulta e até amiúde paganizada nalguns casos), para além da objectiva traição de uns banais “académicos”, inocentes úteis ou débeis “intelectuais” (que os há por aí, mesmo que semicultos e encanastrados), e de certos líderes, agentes e actores políticos (que nadam, pululam e nidificam rotineira e instaladamente como parasitas e camaleões em pântano, com as suas moscas partidárias à ilharga do umbigo ou das orelhas...).


– De resto, como já tive ocasião de referir aqui mesmo em 2011 e 2012 [3], num cenário não muito diferente (e de certa maneira antecipatório do actual...), com notoriedade mediática mereceram assim, agora novamente nos últimos dias, a Maçonaria portuguesa e a Política lusa, conjugadamente, uma significativa, ampla e desusada abordagem, à qual não faltaram muitos dos atraentes motivos e ingredientes que sempre estiveram, e ainda estão, associados àquela aureolada instituição e àquele decisivo (e decisório…) domínio da vida do País.

E depois não deixa – talvez, mas apenas à primeira vista… – de causar alguma estranheza o facto de ser precisamente nesta época de crises generalizadas que entre nós esse tema tenha sido trazido, da forma como o foi, ao espaço, à divulgação e ao conhecimento da opinião pública, curiosa e até potencialmente cativante, tanto mais quanto isso mesmo foi efectivado com a precisa, minuciosa e planeada revelação doseada (parcial!) de alguns documentados e ilustrados pormenores (afinal, nem sequer tão secretos ou reservados como se poderá ter querido fazer parecer) da história, génese, características, ritualidades, simbologias e práticas daquela instituição e dita “sociedade secreta”, que assim e por este meio viu provavelmente mais polidas e potencialmente levantadas algumas das suas novas e pretendidas colunas unidas...


No entretanto, e para além daqueles sucintos dados, o que mais acentuadamente terá motivado muita da referida e conseguida oferta e procura de tão rentável produto foi certamente o rol de meia dúzia de nomes dos ditos “irmãos” bem (des)aparecidos (alguns porém fugindo àquela praiana mesa e plateia da família...) como pertencentes à relembrada Maçonaria (nas suas diversas obediências, tendências, Lojas e preponderantes filiações ideológicas e político-partidárias, com destaque aqui, como é sabido, para ilustres dirigentes históricos do PS e do PSD) [4], a par, naturalmente, do facto de tal tema ser apaixonante, revestindo-se de inusitados alcances, directos e indirectos, para o estudo da História e das Mentalidades.


– Todavia e em todo o caso não poderá deixar de tornar a constatar-se que na Maçonaria, como em todas as instituições, haverá realmente gente de bem, mérito e genuína valia (a quem Portugal e os Açores muito deveram e devem)[5], a par de outros – como hoje é mais do que evidente continuar a poder ser constatado! –, cuja errática e oportunista carreira, mediocridade intolerante e pérfidas jogatinas de poder e fortuna interligados são o próprio contra-testemunho contínuo de quaisquer apregoados ideais fraternos e humanistas (ou assim pretensamente assumidos como tal), nas cabeças trianguladas e nas pedreiras brutas daquelas lojas e lojecas estratégicas, por entre muita tanga a servir de avental...


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NOTAS:


[1] Veja-se a divulgação e os tratamentos, para além dos diversos artigos de Opinião, publicados no jornal angrense “Diário Insular”, entre outras, nas suas edições do dia 17.11.2015 e no seu noticiário de 14.11.2015. Este jornal tem-se debruçado com detalhe e pertinência sobre as actividades da Maçonaria nos Açores... Atenda-se nomeadamente às edições de 18.04.2010 (sobre “O templo de Angra”); de 22 e 23.11.2011; de 01 e 02.03.2012, e de 01.09.2012 (sobre a Loja maçónica terceirense “Vitorino Nemésio”), etc.


[2] Para além de uma abordagem crítica e detalhada desta ampla problemática filosófica, ética, teológica, religiosa, simbólica e politica que a partir da Doutrina e do Pensamento da Igreja poderia ser feita noutro ensejo – retomando as teses católicas oficiais desde a Humanum Genus (1884) de Leão XIII até Declaração sobre a Maçonaria de 1983)... –, relembro a não distante polémica que envolveu o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo e a sua Nota Pastoral da Quaresma de 2005, onde são sucintamente expostas e confrontadas as visões do Cristianismo e da Maçonaria sobre o sentido da História.

Dois artigos do “Diário de Notícias” de então (08.09.2004 e 06.02.2005) davam conta do assunto, nos seguintes termos:

– “CERIMÓNIA MACÓNICA NA BASILICA DA ESTRELA: O presidente do Tribunal Constitucional, Luís Nunes de Almeida, que morreu segunda-feira vítima de ataque cardíaco, em Espanha, recebeu ontem exéquias maçónicas na Basílica da Estrela. O caso não é inédito, mas desde a morte do antigo primeiro-ministro da monarquia, António Rodrigues Sampaio, em 1882, que não se realizava uma cerimónia deste género num templo da Igreja Católica. Surgiram surpresas e até protestos junto do Patriarcado, mas o grão-mestre do Grande Oriente Lusitano (GOL), António Arnaut, desdramatizou: «A Maçonaria não tem hoje nenhum conflito com a Igreja Católica.» E mais: «Tratou-se de uma cerimónia sagrada, num local sagrado, da homenagem de homens bons a outro homem bom», frisou ao DN. Mas o grão-mestre também não nega os factos históricos e fala das incompatibilidades com a Igreja, com o Estado e com a monarquia. Mas isso são tempos que já lá vão: «Hoje não temos conflitos com ninguém, trabalhamos em paz.» De resto, fez questão de explicar que a homenagem do GOL (a maior obediência maçónica em Portugal) a Luís Nunes de Almeida se realizou no respeito pela vontade expressa em vida pelo presidente do TC – um dia quando morresse queria ficar em câmara ardente no palácio maçónico, ao Bairro Alto, em Lisboa. Acontece que Luís Nunes de Almeida era o presidente do TC em exercício, logo a quarta figura do Estado. E o seu funeral também exige honras formais. A Maçonaria, a Presidência da República e a família consideraram então que se o corpo ficasse em câmara ardente na Basílica da Estrela seria possível a prestação das honras de Estado e a homenagem maçónica”.


– “O grão-mestre do Grande Oriente Lusitano (GOL) refutou ontem as críticas do cardeal-patriarca de Lisboa à Maçonaria, relacionando a iniciativa de D. José Policarpo com o actual ambiente na Igreja Católica em torno da sucessão do Papa. Em nota pastoral sobre a Quaresma, divulgada sexta-feira, D. Policarpo reafirmou a posição tradicional do Vaticano sobre a Maçonaria, dizendo que "um católico, consciente da sua fé e que celebra a eucaristia, não pode ser mação". Interpelado ontem pela Lusa, o grão-mestre do GOL, António Arnaut, recordou um português, membro da Igreja de Roma, frei Francisco Saraiva, que foi no século XIX cardeal de Lisboa, entre 1840 e 1845, "depois de ter sido grão-mestre da Maçonaria do Sul", em 1837, integrada depois no GOL. Na nota pastoral, D. José Policarpo explicou que a referência à Maçonaria está relacionada com o ritual maçónico efectuado em Setembro de 2004, na capela mortuária da Basílica da Estrela, em Lisboa, antes do funeral do ex-presidente do Tribunal Constitucional (TC), Luís Nunes de Almeida. "Esta iniciativa, que considero imprudente e indevida, provocou indignação em muitos católicos, que incessantemente têm pedido esclarecimentos da hierarquia da Igreja", segundo o cardeal-patriarca. António Arnaut, grão-mestre do GOL e fundador do PS, disse ontem compreender as afirmações de D. José Policarpo "pela necessidade de dar uma explicação aos católicos conservadores, que não compreendem o sentido espiritual das exéquias fúnebres do mação Luís Nunes de Almeida". Arnaut associou também a iniciativa do prelado ao "momento especial que se vive no Vaticano", com a doença do Papa João Paulo II e as movimentações para a sua eventual sucessão”.

[3] Cf. “O Poder das Teias” (01.09.2012) e “As Colunas do Poder” (20.11.2011), disponíveis no Blogue “Os Sinais da Escrita”, respectivamente em:

[4] Veja-se, por exemplo, Segredos da Maçonaria Portuguesa de António José Vilela (Lisboa, Esfera dos Livros, 2013). Ainda, a partir de uma grande investigação do “Diário de Notícias”, O Poder da Maçonaria em Portugal (Lisboa, Gradiva, 2012), e o recente trabalho de Catarina Guerreiro, O Fim dos Segredos, Lisboa, Esfera dos Livros, 2015, com novas referências à Maçonaria nos Açores.


[5] Já tive oportunidade de salientar nos artigos antes citados os méritos académicos de toda a obra histórica (especialmente por relação à implantação da República, do Prof. António Ventura sobre a Maçonaria em Portugal, e cujo livro Os Constituintes de 1911 e a Maçonaria (Lisboa, Círculo de Leitores, 2011) recenseei, escrevendo:


– “E assim merece hoje e aqui referência, também pelos dados que no respeitante aos Açores contém, o recente livro do historiador António Ventura, aonde é sucintamente analisado o papel da Maçonaria e dos Maçons na Primeira República e na Assembleia Constituinte de 1911, entre os quais figuravam alguns açorianos e eleitos pelos Açores (António Joaquim Sousa Júnior, Augusto de Almeida Monjardino, Eduardo Augusto da Rocha de Abreu, Faustino da Fonseca, Francisco Luís Tavares e Manuel Goulart de Medeiros), e bem assim alguns outros cuja vida familiar e profissional de algum modo se ligou ao Arquipélago e à Maçonaria nas ilhas. A obra tem pois um especial interesse histórico-biográfico, complementando deste modo outros estudos conhecidos e de maior fôlego sobre o mesmo conturbado período da história de Portugal”. 

De resto e sobre temas histórico-maçónicos, são referenciáveis, entre outras, as obras de Manuel Borges Grainha, A. H. Oliveira Marques, Maria Manuela Cruzeiro, Luís de Matos, António Reis, António Arnaut, José Sebastião da Silva Dias, José Eduardo Franco e António Lopes.
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A primeira versão deste texto, sem as Notas de rodapé, foi publicada 
no jornal  "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 21.11.2015):







sexta-feira, novembro 20, 2015


O Avental e a Tanga
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 A recente realização de um evento maçónico, promovido e organizado pelo Centro de Estudos Maçónicos, com o suporte da Câmara e Cooperativa Cultural da Praia da Vitória, constitui feito digno de registo por tudo o que significou, revela e esconde, tendo-se em conta a atenção, cobertura e reacções que granjeou e as análises que (não) suscitou na colectividade local (de resto mais fadada para a tanga do que para o avental), do ponto de vista político-cultural, filosófico, doutrinal, ético, ideológico, cívico e socio-histórico!


Ora tal certame, variante de cimeira inter-pares, tendências e lojas (ainda para catequização, aliança e propaganda), como fora habilmente pretendido e ficou à vista de quantos não andam por cá de olhos vendados ou vendidos, apesar de a muitos dos seus organizadores, patrocinadores e “compagnons de route”, provavelmente ornados de meias viseiras ou antolhos para vesgos aprendizes de rito e ideário da dita “sociedade secreta”, talvez lhes terem, em dia solar, ilusoriamente soado badaladas de distante consciência em sinos e tinos de intenção programática, se é que não foram, em noite de quarto escuro, sem lua na faixa ou martelada de almofariz, sujeitos a investiduras de luva, com toda a dimensão “iniciática” que cartilhas, juras e compassos debitam (e a “irmandade” cobrará para “o bem e o progresso da humanidade”, sob o triangular olho vigilante do supremo arquitecto...).


Porém, por entre tanta hipócrita e cínica maçãzinha escondida nesse cesto e toca de secretismos e poder – vantagens em comércios e tráficos de almas, corpos e influências à parte –, o mais espantoso e repugnante é o podre silêncio, mais ou menos pacóvio, comodista, cobarde, levianamente cúmplice ou apenas acéfalo de toda uma comunidade e suas instituições historicamente relevantes e responsáveis (v.g. a Igreja, que doutrina tem sobre o tema!), cada vez mais reduzidas a expressão fútil, indefinida, nula ou oca (estulta e até paganizada nalguns casos), para além da objectiva traição de banais “académicos”, pastores, inocentes úteis, débeis “intelectuais” (conquanto incultos e encanastrados), e de certos próceres políticos (que nadam, pululam e nidificam como parasitas e camaleões em pântano, com moscas partidárias à ilharga do umbigo e das orelhas...).
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Em Azores Digital:






















"Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 21.11.2015):




























e RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/comentadores/eduardo-ferraz-da-rosa/o-avental-e-a-tanga_48773.








sexta-feira, novembro 13, 2015


Os brilhos da Glacial
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Na Imprensa regional portuguesa e no Suplementarismo açoriano – a par, em modos diferenciados, da Pensamento, da Artes e Letras do “DI” e da Gávea, sem levarmos em conta os nossos Institutos, naturalmente –, talvez não tenha havido projecto editorial, literário e artístico (e de cidadania intelectualmente empenhada e socialmente comprometida) tão arrojado e marcante como o desenvolvido ao longo de anos (15.07.1967 – 23.06.1973, e depois, noutra forma, em 74) pela GlacialPágina de Literatura e Pensamento, originariamente das Letras e das Artes de “A União” (na altura liderada por Cunha de Oliveira, director, e Artur Goulart, chefe-de-redacção).



Ora perfeitamente integrada no espírito informativo e formativo daquele jornal – nessa distante (em parte saudosa...) época do passado século terceirense, e ali concebida e produzida de modo aberto, conscienciosamente livre e autónomo – foi a Glacial coordenada e dirigida pelo poeta e escritor Carlos Faria, um infatigável viajante, apaixonado das ilhas, continental nascido na Golegã, porém açoriano de inteligentes afectos e universais poéticas a quem os Açores e todos nós tanto devemos (mais, aliás, do que a tantos dos que abusivamente de tal estatuto se reclamam!).



– Mas vem isto a propósito da notável, merecida e justa difusão que tem vindo a ser feita da obra e da vida de Carlos Faria em vários Sítios da Net, especialmente através e no seguimento das previdentes e meritórias digitalizações documentais da Biblioteca Pública de Angra (sob orientação de Marcolino Candeias), e bem assim através dos esmerados empenhos de divulgação graciosamente desenvolvidos, entre outros, por Costa Brites e Carlos Nuno Faria (na página dedicada a seu pai, Carlos Faria, no Facebook).

Mas depois, ainda neste sentido e neste âmbito, merece certamente um registo especial toda a bela e relevante documentação (textos e imagens) que tem sido disponibilizada e está acessível para consulta nos próprios Blogues pessoais de Costa Brites:


– O primeiro deles (em https://karlosfaria.wordpress.com/) guardando escritos de Urbano Bettencourt, Artur Goulart, Onésimo Teotónio de Almeida e Eduardo Bettencourt Pinto, para além de um magnífico repertório sobre a Glacial, sua história, percursos e colaborações, incluindo um precioso arquivo praticamente integral das suas edições fac-similadas em “A União”, para além de uma relação e antologia do movimento da Gávea/Glacial, da entrevista/manifesto Rogério Silva/Gávea (1971), da transcrição (no jornal “Açores” de 23.01.1970) de um memorável depoimento de Carlos Faria ao programa “Vertical” da emissora “Asas do Atlântico, de uma reconhecida nota e link para o trabalho académico de Lusa Ponte, e – enfim – de uma narrativa pessoal de Costa Brites sobre Carlos Faria, as suas ligações, encontros, influências (Arrabal, Lorca...), círculos de amigos, companheiros ou camaradas de letras e artes (entre outros, Rogério Silva,  Dias de Melo, Ernesto do Canto da Maia, Armando Côrtes-Rodrigues, Tomaz Borba Vieira, Santos Barros e Ivone Chinita).

Por seu lado o segundo Blogue/Página (em (https://costabrites.wordpress.com/) – incidindo variada mas primordialmente sobre as criações e obras artísticas de Costa Brites (com destaque para as figurações espaciais, desenhos e pinturas de Coimbra), os seus laços familiares, viagens, presenças e produções teórico-críticas, etc. –, deixa igualmente bem manifestas todas as suas proximidades ou aproximações aos Açores, nomeadamente por via de Carlos Faria e de Rogério Silva.


– Todavia, sobre a Glacial e o seu ímpar e integrado significado como factor de afirmação histórico-cultural, artística e sociopolítica “do campo literário açoriano”, a partir da aplicação de categorias críticas de Pierre Bourdieu, não posso deixar de tornar a recordar e mais novamente recomendar aqui, para concluir esta sucinta lembrança de tantos nomes, ideais e realidades que nos foram e são próximos, convivenciais e inspiradores, a tantas vezes (indevida e injustamente) esquecida Tese de Doutoramento apresentada na Sorbonne (2010) por Lusa de Melo Ponte (veja-se o respectivo texto integral, disponível aqui:  http://www.e-sorbonne.fr/sites/www.e-sorbonne.fr/files/theses/De-Melo-Ponte_Lusa-Maria_2010_these.pdf), – admirável investigação, recolha sistemática e tratamento sério de quanto paradigmaticamente confluiu nos projectos e nos legados da nossa Glacial, e do quanto desde ali permanece vivo e vigente, na presença ou na ausência do seu brilho, sobre a gélida indiferença deste obscuro tempo actual...
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 21.11.2015):




























Primeira versão em "Diário Insular" 
(Angra do Heroísmo, 14 de Novembro, 2015):









sábado, outubro 24, 2015



Os Distintivos da SATA
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Para quem muito viajou e conviveu com a SATA – com os seus míticos pilotos, aeronaves, tripulações, funcionários e estruturas, pelo meio de descolagens e aterragens, ventos e nevoeiros, esperas e pernoitas, fugas ao caprichoso e às vezes traiçoeiro clima das ilhas –, a relação com essa companhia não é isenta de paixão, expectativas e (des)confianças, num ambivalente círculo de situações e geografias (ainda marcadas por angústias e turbulências “atmosféricas”, poços de ar, cegueira de radares e vórtices que nascem de oscilações conjunturalmente variáveis...).




– Ora neste contexto referira-se o quanto de real e simbolicamente está embarcado no redireccionamento e renomeação da SATA Internacional para Azores Airlines. Assim e atendendo somente ao novel e parabólico design – no momento em que imbróglios e inquirições pendem sobre projectos, dívidas e prestação de contas da empresa! – o que veremos doravante no seu bojo serão sintomáticos e emblemáticos cetáceos (baleias ou cachalotes, para o caso tanto faz).



É claro que desses distintos mamíferos (também ligados à memória e imaginação das fainas, ficções, caçadas, indústrias, sensibilidades e mercados neo-turísticos) muito haveria a expressar e contradizer, atendendo à equivocidade das suas figurações e díspares conotações.


– Deixando porém mais para diante tal exercício de simbologia aplicada, ficaremos hoje apenas na lenda de Jonas e na alegoria do Moby Dick de Melville, mas sem esquecer o paralelo e potencial sentido, disforme e ameaçador, do Leviatã – tudo coisas que os padrinhos e madrinhas da SATA porventura ignoram ou terão descurado, lá pelos subidos ares e fundos mares que os seus aparelhos e máquinas cruzam (certamente com gente conformando-se aos novos esguichos, barbas, entranhas, vísceras e espermacetes daqueles herdeiros dos pássaros da velha companhia), esses que hibridamente voarão para destinos incertos, elegantes mas travestidos ou tatuados com pesados cetáceos, à semelhança do resto que nos rodeia, porém de barbatanas roídas (“caudas de palha”...) e olhos falidos nos abismos (empresariais e não só...) que nos cercam, com os “vigias da baleia” dormindo na falésia...
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Em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 24.10.2015):





























Azores Digital:


















e RTP-Açores (no prelo).

segunda-feira, outubro 19, 2015



As Baleias e o Leviatã
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Cerca de seis anos após ser concebida e planeada como pioneira Sociedade de Estudos aeronáuticos, aeroportuários e de transportes aéreos indubitavelmente situada na conjuntura daqueles conturbados, desafiantes e promissores tempos, cenários e horizontes que marcaram os Açores no início da II Guerra, e depois efectivamente concretizada em meados dos anos 40 do século passado (1947) como Sociedade Açoriana de Transportes Aéreos, pode dizer-se que a SATA determinou desde então as ligações inter-ilhas, constituindo referencial do quotidiano e presença viva no imaginário dos nossos transportes, de modo só comparável ao dos navios e iates que antes sulcavam os mares das ilhas. Comprada depois, em 1980, ao Grupo Bensaude, a SATA passou de companhia privada a empresa regionalizada/nacionalizada, e com nova designação (Serviço Açoriano de Transportes Aéreos) mas sob o mesmo acrónimo, viu as suas acções e responsabilidades de serviço público serem divididas entre a TAP e Governo regional.


– Ora para quem muito viajou e conviveu de perto com a SATA, com os seus míticos pilotos, aeronaves, tripulações, funcionários, escritórios exíguos e progressivamente modernizados, a par de descolagens e aterragens, por entre ventos e nevoeiros, esperas de aeroporto, reservas e acomodamentos e redireccionamentos, com pequenas e grandes fugas por entre abertas e fechos do caprichoso e às vezes traiçoeiro tempo das ilhas atlânticas, a relação com essa companhia não é isenta de uma certa paixão, de expectativas e confianças, de um certo ambiente de família, proximidade de sentimentos e partilha de condições de vida, apesar de algumas angústias, desencantos e desilusões (algumas motivadas pelos muitos poços de ar e descaminhos e indefinições que estão na base e decorrem de oscilações de uma Política Aérea pouco transparente, pouco racional, incoerente e amiúde até pouco justa).
Por outro lado, os felizmente raros mas dramáticos e traumáticos acidentes com os seus aviões ainda mais solidificaram os laços que memorialmente ligam as ilhas e o nosso povo à SATA, fazendo crescer um envolvimento singular, simbolicamente identificativo, que gerou mecanismos de confiança – por assim dizer, uma certa açorianidade em viagem (dentro dos Açores e fora deles, por e para todo o mundo onde vão ou de onde regressam os Açorianos) –, quase com sentimentos tácitos e julgados maiores direitos de acolhimento, expectativas de solidariedade e mesmo alguma esperança (conquanto nem sempre correspondida!) de união de esforços e partilhas de pátria ou expatriação...

A sobra das notáveis (e também das infelizmente trágicas) histórias da SATA é mais ou menos conhecida, e não vale a pena, nem é propósito desta Crónica, tratá-las hoje, muito embora muitas das peripécias a que estamos assistindo hoje pudessem ser bem mais claramente situadas, explicadas e compreendidas à luz dos percursos, rotas e cumplicidades em escala e cadeia... – de onde ninguém poderá atirar primeiras pedras às rodas e trens da empresa... – dessa e de outras “parcerias” mais ou menos “estratégicas”, envolvendo nomeações, administrações, gestão, negócios, financiamentos, subsídios e políticas, favores e escolhas de ocasião e conveniência, jogos de gabinete e secretaria, corredor, cabine, porão, lobbies profissionais e técnicos, concorrências e concursos e vagas e promoções, etc., – como cada vez é mais evidente aos olhos de quem por aí quiser observar (e sindicar) a fundo, em terra e no ar, onde dos serviços e amabilidades do velho slogan da SATA às vezes já pouco resta por esses balcões e voos adiante e atrás, nas ilhas e na diáspora, onde a alguns yuppies e fedelhos e fedelhas de gravatinha, farda e calças de fino toque mas pouca transparência, civilidade e cortesia, melhor fora que os chamassem ou despedissem um a um...
– Mas pior do que isso é a criminosa e demencial audácia de quem veio agora (impunemente!?) propalar a existência (fictícia ou real?) de gravíssima insegurança potencial (e de esterco pouco higiénico alegadamente à mistura) nos aviões da SATA onde todos viajamos à guarda e ao zelo exigíveis a todas as companhias de aviação, sejam elas privadas ou públicas, porém aqui sem que a verdade tenha sido radicalmente apurada e a confiança reposta, antes que as nossas asas e o chão que pisamos mais se confundam e invertam!


Neste contexto – e talvez bem mais real e figurativamente ligado a tudo o que aqui dizemos... – não posso finalmente deixar de referir o quanto directa e indirectamente decorre, ou pode deixar transcorrer, da recentíssima e última iniciativa da SATA, ao renomear o seu desdobramento de SATA Internacional para Azores Airlines (o que obrigará por certo a repintar/redecorar/reeditar todas as aeronaves nesse serviço, e bem assim, provavelmente, todo o material icónico ligado à mesma frota), com certeza em obediência a calculados, estudados, orçamentados e opcionais ditames rentabilizadores e com prioridades comerciais e técnicas sérias, a custo/benefício calculado para o marketing, a imagem e as promoções decorrentes... No essencial, e do aparatoso e novel grafismo e respectiva reelaboração integrada, portanto, o que veremos doravante no bojo dos aviões da Azores Airlines (SATA?) será uma gigantesca baleia (ou cachalote, para o caso tanto faz) cuja concepção estética (ao menos esta...) é bastante discutível, de todos os pontos de vista.


É claro que desse gigante dos oceanos – mamífero marinho muito ligado à ancestral história das fainas, ficções literárias, belos artesanatos, caçadas arrojadas, indústrias desaparecidas, hodiernas sensibilidades ecológicas e observações neo-turísticas nos mares e faunas dos Açores, pelos Açorianos e pelos tão desejados, necessários e putativos visitantes nacionais e da estranja – muito haverá que se lhe diga e contradiga, conforme a perspectiva, não fora a diversidade e mesmo o contraditório e – claro, para bom ou mau entendedor – ainda a inerente equivocidade simbólica daquela figuração, carregada que está de muitas e díspares conotações, como devia saber-se com prudência e arte dos signos...


– Todavia, ficará esse exercício de simbologia aplicada (a um terreno que é também económico-empresarial, financeiro, técnico-operacional e de mercado), para outra ocasião, enquanto por hoje ficaremos apenas reflectindo na lenda bíblica de Jonas e na confluente alegoria do Moby Dick de Melville, mas sem esquecer o paralelo e potencial sentido oposto, disforme e aterrador, do Leviatã, – tudo coisas que os imaginativos ilustradores da Azores Airlines porventura ignoram ou terão descurado, e que os seus administradores, gestores, “public-relations” ou agentes de marketing muito pouco terão levado em sabida conta, lá para os altos ares e fundos mares que os nossos aviões vão cruzar, com muita gente acomodando-se aos esguichos, barbas, entranhas, vísceras e espermacetes daqueles tecnologicamente avançados irmãos (?) dos belos e saudosos pássaros açorianos das brilhantes e solares asas da antiga e elegante SATA, – esses que agora hibridamente vão voar travestidos de pesados cetáceos, à semelhança de tudo o resto que nos rodeia, com barbatanas roídas e olhos fixados nos abismos que nos cercam no ar, no mar e em terra também!
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Em "Diário dos Açores",
Ponta Delgada, 20.10.2015: