sábado, janeiro 23, 2016


A Roleta dos Boletins
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No livro de Costa Alves sobre o Adagiário Meteorológico português aqui recordado antes, os Açores também estiveram presentes, como quando foi analisado o provérbio “Com baleias no canal, terás temporal”, ditado não alheio ao universo simbólico que Nemésio exprimiu no título de Mau Tempo no Canal, conquanto usado em Mudam os Ventos, mudam os Tempos para relembrar a paradigmática quarentena e o recorrente impedimento de qualquer tentativa de apoio ou socorro de urgência a que estiveram sujeitas as Flores e o Corvo em 1991 – ou como há pouco, e desta vez mortalmente, tornou a ocorrer! –, repetindo-se então a oeste que Quando o mar zurra, atrás vem quem no empurra!


– De resto, em consonância e de idêntico modo, Costa Alves ainda seleccionou uma série de outros aforismos profundamente ligados às condições existenciais e ambientais, geobiofísicas e psíquicas insulares...


Ora conhecendo-se que nomes de tempestades ciclónicas e de violentos e ameaçadores fenómenos naturais, ao fechar e abrir os anos, e de prioridade em sequência baptismal, vão de Arlene a Wilma, Alberto a William, Andrea a Wendy, Arthur a Wilfred, Ana a Wanda, e de Alex, talvez em 2016 (quem o pressagiará?), a Walter – saltando-se alternadamente de belos mas impiedosos nomes femininos para outros de menos malvados senhores que nominalmente regulam desgraças e eleições do ambiente, conforme em O Anticiclone dos Açores sinalizou Anthimio de Azevedo (aliás ultimamente, e como bem avisado geofísico açoriano, queixando-se das mudanças climáticas e da vadiagem do nosso anticiclone...) –, como não estarmos hoje atentos e acautelados para aquilo que nos pode sair amanhã na prospectiva roleta do boletim meteorológico e nas histriónicas urnas da provável presidência dos nossos destinos... –, como se não bastassem todos os demais desterros, derrocadas, ventos e esquecimentos do tempo e da sorte a que fomos condenados e estamos geo-historicamente votados, para bem e para mal dos pecados e virtudes de tantas gerações, neste frágil país e no precário arquipélago de almas incarnadas em nove pequenas ilhas, no meio de um imenso Oceano.
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 23.01.2016):




























Azores Digital:

























e RTP-Açores:



sábado, janeiro 16, 2016


Os Faróis do Tempo
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Não sei se devido a remota herança de corpo, alma e vida vivida, talvez não se passe nenhum Inverno em que não recorde a alta figura de António Silveira Pacheco, meu bisavô faialense, ali à varanda da antiga casa das Angústias, emprestados que eram por ele à minha curiosa investigação infantil os seus belos binóculos de Faroleiro-Chefe com os quais nas férias do Verão sempre pesquisava as mansas águas do Porto Pim, a Fábrica da Baleia e o Monte da Guia, enquanto ouvia os seus relatos sobre os fantásticos Faróis das ilhas onde ele tinha estado tantos anos a vigiar a travessia dos barcos e a manter acesas e limpas as luzes da terra sobre a noite do mar e a passagem do Tempo... 


– Até aí nunca tinha ouvido a misteriosa evocação do nosso protector anticiclone insular e do vasto adagiário popular da Meteorologia – que aliás só depois vi científica e minuciosamente explicados pelos nossos distintos meteorologistas José Agostinho (1888-1978) e Anthimio de Azevedo (1926-2014), e mais tarde ainda, a relembrar também o sentido interpretativo de alguns daqueles Provérbios que meu bisavô do Capelo me recitava, na sugestiva antologia Mudam os Ventos, mudam os Tempos de Manuel Costa Alves, da qual o académico José Pinto Peixoto salientara que recolhia manifestações “de aculturamento e de observação do mundo real e do comportamento, (...) sínteses de acumulação e de sedimentação da inteligência que soube reflectir sobre a fenomenologia do real”!


Ora nestas horas do Alex, em que nos vimos envoltos, mas já informáticos observadores e participantes – pelos OCS e pelas Redes planetárias da Internet e suas aplicações tecnológicas – nesse “sistema natural constituído pelo mar oceano de ar que nos rodeia, que não vemos, mas que respiramos, e à sua matematização, permitindo uma justificação lógica quantitativa da sabedoria dos provérbios”..., – como não relembrar outro Tempo de catástrofes e medos cíclicos (sabe-se lá se replicáveis com novos riscos e ameaças por alterações climáticas e ambientais)!?


– E tudo isto, apesar do Adagiário, não conhecendo sequer o anticiclone dos Açores, saber porém que “Qual o tempo, tal o tento”...
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 16.01.2016):



























Azores Digital:





















RTP-Açores:









sábado, dezembro 19, 2015


Uma Igreja em Diálogo

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Acaba de ser apresentado em S. Miguel (Ponta Delgada, Igreja do Colégio) e na ilha Terceira o livro A Igreja em Diálogo com o Mundo, da autoria do Bispo coadjutor de Angra D. João Lavrador.

– Em Angra do Heroísmo esta edição da Paulus (Lisboa, 2015) foi lançada na Livraria do Seminário Episcopal de Angra (SEA) com a presença e intervenções do autor, do Bispo D. António Sousa Braga e da jornalista Carmo Rodeia. Presentes vários sacerdotes, seminaristas e alguns leigos que compuseram o acolhedor espaço daquela livraria diocesana, onde actuou e abrilhantou a cerimónia o Coro do Seminário.



A obra, prefaciada pelo Bispo do Porto (D. António Francisco dos Santos), reúne oitenta e seis Crónicas publicadas no conceituado semanário Voz Portucalense (entre Junho de 2009 e Julho de 2015) pelo então Bispo auxiliar daquela prestigiada diocese do norte de Portugal, conforme o próprio, na sua Introdução, programaticamente a define e objectivamente fundamenta:

– “Há alguns anos fui convidado a escrever regularmente algumas reflexões sobre acontecimentos que a meu critério mereciam ser iluminados. (...). Fi-lo com gosto, como desafio pessoal e como prova do meu apreço pelo meritório trabalho que os jornalistas realizam na edificação da opinião pública e na promoção de uma cultura que seja digna da pessoa humana e dos valores que darão consistência à harmonia social.



“ (...) Em tempos de crise cultural e civilizacional, na busca de novas coordenadas que orientarão a humanidade para os verdadeiros valores dignos do ser humano, a comunicação social, sobretudo de inspiração cristã, é convidada a ler os sinais dos tempos.

“ (...) Foi a esta luz que periodicamente seleccionava um acontecimento que a meu juízo deveria ser iluminado pela luz da fé cristã e lido através dos documentos do magistério da Igreja”.


 – Ora se foi sob essa luz orientadora que o projecto eclesial e pessoal do nosso novo Bispo acompanhou “a voragem do tempo e da história” – ordenando reflexões críticas segundo áreas temáticas que correspondem justamente ao conteúdo dos textos seleccionados e constantes dos sete capítulos deste livro (com edificante destaque para Evangelho e Cultura, Justiça, Paz, Testemunho, Alegria, Renovação Comunitária, Ministérios, Educação e Mariologia) –, desígnio ainda mais expectável é o mesmo aqui e agora, face às responsabilidades e desafios da actual missão de D. João Lavrador ao serviço da Igreja e Povo dos Açores, idêntica e fielmente aguardando-se a sua mais profunda, coerente e autêntica ortopraxia evangelizadora (religiosa, espiritual, pastoral, moral, teológica, existencial, social, cultural e eclesiástica) neste arquipélago...


Várias vezes, ao longo deste livro, salientou o prefaciador de A Igreja em Diálogo com o Mundo – “somos interpelados sobre o lugar da Igreja na sociedade e sobre a missão dos cristãos no percurso da história”. E na verdade, porque a “intenção do autor dos textos não é académica nem apenas jornalística”, o que acima de tudo preside à respectiva elaboração é um confessado “desejo de ajudar o leitor a ser protagonista da evangelização mais do que seu destinatário, interventor num mundo em mudança mais do que recetor da mudança do mundo, comprometido com a missão da Igreja mais do que espectador passivo do que diariamente acontece”.


Assim, sempre ao longo de todas as Crónicas aqui reunidas, é também notória a intenção do autor em propor chaves de leitura da realidade a partir não só da Teologia e das Doutrinas Conciliares, dos Documentos da Igreja e dos Ensinamentos (Discursos, Cartas e Encíclicas) dos Papas (mormente dos últimos Pontífices, desde João XXIII e Paulo VI a Francisco), mas também em diálogo aberto com o mundo da Cultura e do Pensamento, aonde se reflecte e se projecta metódica, histórica e decisivamente sobre o Homem, a sua natureza e o seu destino transcendentes, e desse modo então sobre os Valores da Humanidade e da Pessoa, como se lê, por exemplo, no texto sobre o lugar ético “do pensamento altruísta”, paradigmática e categorialmente abordado e construído (ou desconstruído...), de modo unicamente fundamental, e na medida do possível sistemático, em Antropologia Filosófica e Teológica...


– “ O grande debate – refere D. João – dá-se na idade moderna e corresponde à rutura na concepção antropológica sobre o ser humano. Esta designação deve-se a Comte e contrasta com uma visão pessimista sobre o homem e a sua incapacidade para o altruísmo teorizada por Freud., Hobbes e outros autores.

“A antropologia tem uma marca secular e profunda que foi absolutamente beneficiada pelo cristianismo que lhe deu não só o seu conteúdo mais sublime como também a sua fundamentação mais autêntica através do amor e da caridade.


“ (...) No século XX dá-se uma aproximação ao conceito de altruísmo através da visão bíblica (...). A benevolência, expressão para oferecer a visão altruísta do ser humano na modernidade mas insuficiente, é conjugada com a visão cristã (...), para uma verdadeira visão antropológica. Exemplo disto é Lévinas, como filósofo, e teólogos como Rahner e Urs Von Balthasar”.

– Depois e finalmente, devo salientar que em todas estas Crónicas é possível vislumbrar a visão da Igreja e do Mundo que o novo Bispo dos Açores necessária e firmemente trará consigo (a partir de novos e mais amplos horizontes...), e que bastante prenuncia (e exigirá!) a uma Diocese como a nossa, regionalmente tão carenciada e problemática, a todos os níveis da Fé, da Inteligência e da Vida comunitária e individual, nestas nove ilhas e na diáspora açoriana...



Por tudo isto, estes empenhados, lúcidos e indicativos textos cristãos de memórias e esperanças de D. João Lavrador devem legitimamente merecer consequentes meditações, solidários diálogos, compromissos comuns e caminhos partilhados na mesma terra, mas com os olhos do espírito e do coração no Futuro!


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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 19.12.2015):



Luzes e Caminhos da Igreja
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Acaba de ser apresentado nos Açores o livro A Igreja em Diálogo com o Mundo, da autoria do Bispo coadjutor de Angra D. João Lavrador.


– A obra, prefaciada pelo Bispo do Porto (D. António Francisco dos Santos), reúne oitenta e seis Crónicas publicadas no semanário Voz Portucalense (Junho de 2009-Julho de 2015) pelo então Bispo auxiliar daquela diocese nortenha, conforme o próprio, na sua Introdução, programaticamente a define e objectivamente fundamenta:

“Há alguns anos fui convidado a escrever regularmente algumas reflexões sobre acontecimentos que a meu critério mereciam ser iluminados. (...).

“Fi-lo com gosto, como desafio pessoal e como prova do meu apreço pelo meritório trabalho que os jornalistas realizam na edificação da opinião pública e na promoção de uma cultura que seja digna da pessoa humana e dos valores que darão consistência à harmonia social.

“ (...) Em tempos de crise cultural e civilizacional, na busca de novas coordenadas que orientarão a humanidade para os verdadeiros valores dignos do ser humano, a comunicação social, sobretudo de inspiração cristã, é convidada a ler os sinais dos tempos.

“ (...) Foi a esta luz que periodicamente seleccionava um acontecimento que a meu juízo deveria ser iluminado pela luz da fé cristã e lido através dos documentos do magistério da Igreja”.


 Ora se foi sob essa luz orientadora que o projecto eclesial e pessoal do nosso novo Bispo acompanhou “a voragem do tempo e da história” – ordenando reflexões críticas segundo áreas temáticas que correspondem justamente ao conteúdo dos textos seleccionados e constantes deste livro (com edificante destaque para Evangelho e Cultura, Justiça, Paz, Testemunho, Alegria, Renovação Comunitária, Ministérios, Educação e Mariologia) –, desígnio ainda mais expectável é o mesmo aqui e agora, face às responsabilidades e desafios da missão de D. João ao serviço da Igreja e Povo dos Açores, idêntica e fielmente aguardando-se a sua mais profunda, coerente e autêntica ortopraxia evangelizadora neste arquipélago...

– Por tudo isto, estes empenhados, lúcidos e indicativos textos de memórias e esperanças devem legitimamente merecer consequentes meditações, solidários diálogos, compromissos comuns e caminhos partilhados na mesma terra, mas com os olhos do espírito e do coração no Futuro!
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Em Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=3094:

























e "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 19.12.2015):
"Igreja, Luzes e Caminhos":


sexta-feira, dezembro 18, 2015


Dos Arquivos do Vaticano
para a História dos Açores
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Publicada já há alguns anos pela Esfera do Caos (Lisboa, 2011) mas ainda felizmente disponível em Angra do Heroísmo na Livraria In Folio, a obra Arquivo Secreto do Vaticano, Expansão Portuguesa – Documentação, como o seu título indica, reúne documentação, descrita e sumariada do Fundo da Nunciatura de Lisboa patente no Arquivo Secreto do Vaticano e relativa ao período da Expansão Portuguesa – feito histórico-civilizacional que promoveu, como se entende na Introdução ao primeiro dos três volumes que integram esta bela edição encadernada e guardada em caixa-arquivo, “aquela que podemos chamar a primeira globalização do Cristianismo na sua forma confessional católica desde a modernidade”.



Prefaciada por Roberto Carneiro (Presidente do Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa da Universidade Católica) – que no seu texto explica os diferentes faseamentos e as sucessivas fases de trabalho, financiamento e coordenação desta obra organizada sob a Coordenação de José Eduardo Franco –, este excepcional repertório documental constitui um indispensável instrumento de trabalho para quem queira estudar o Catolicismo em Portugal e no Mundo, enquanto e como “experiência de implantação e afirmação da Fé Cristã confessionalizada numa estrutura modeladora com uma história que não é desligável da história dos países, das culturas e das derivas internacionais da religião e da política.

“Ler estas fontes documentais – salienta precisamente José Eduardo Franco – é encetar, de facto, uma aventura de compreensão que deve ser, em primeiro lugar, a missão da construção da história como revisitação do passado, guiada por uma insistente interrogação”.  



– O Plano dos 3 Volumes desta obra está organizado por relação aos espaços geográficos da Costa Ocidental de África e Ilhas Atlânticas (Tomo I, com coordenação científica de Arnaldo do Espírito Santo e Manuel Saturino Gomes), do Oriente (Tomo II, com coordenação científica de João Francisco Marques e José Carlos Lopes de Miranda), e do Brasil (III Tomo, com coordenação científica Luís Machado de Abreu e José Carlos Lopes de Miranda).

A primeira fase de elaboração deste projecto iniciou-se, sob a coordenação do Professor Teodoro de Matos, em 1998, com um projecto financiado pela Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (Inventariação da Documentação relativa a Portugal existente nos Arquivos do Vaticano), ao qual se seguiram uma segunda (2005) e terceira (2008) fases, mas sendo que, ao final, o seu Investigador Responsável (José Eduardo Franco) entendeu por bem reunir os intervenientes das equipas de ambas as fases do projecto que se disponibilizaram para o efeito. Devido à sua dimensão ainda era necessário muito trabalho adicional para tornar o resultado capaz de publicação com coerência e rigor de critérios, pelo que os membros das referidas equipas das duas fases aceitaram apoiar e, alguns deles, colaborar em conjunto na preparação da versão final na forma que aqui se publica, da qual todos eles são, na verdade, autores e colaboradores”.

“Este empenho conjunto – ainda segundo salientou Roberto Carneiro – pretendeu fazer justiça ao trabalho efectivamente desenvolvido por todos os intervenientes nas diferentes etapas e garantir que o produto científico do considerável investimento em recursos humanos e materiais, feito por prestigiadas instituições de financiamento do Estado Português e da União Europeia, se tornasse acessível a um público interessado e o mais alargado possível”.



– Entretanto, em Outubro de 2011, a quando da apresentação desta obra em Lisboa, o actual Cardeal Patriarca D. Manuel Clemente, então Bispo do Porto (ele próprio historiador de mérito) teve também oportunidade de salientar a importância, os recursos e as potencialidades que um programa desta natureza contém, com a particularidade – para nós indicativa… –, do mesmo se ter precisamente debruçado, com alguma atenção, sobre a problemática conflitual, para si dilecta e da qual é um especialista, do Liberalismo, do primeiro Republicanismo, do Movimento Católico Português e das suas paradigmáticas configurações, ecos e ilustrações nas nossas ilhas, para tanto respigando, por exemplo, do 1º volume, um documento (datado de “sete anos antes da revolução liberal”) onde um prelado já dava notas do outro tempo que naqueles tempos chegava, ao referir “apreciar a religiosidade das pessoas do campo em oposição à cidade, onde se diz que residem os libertinos e os maçons”..., bem assim ali variada e abundantemente constando também muitas e preciosas informações e pistas sobre os Açores, a Igreja, a Monarquia, etc. E deste modo é depois salientado o alcance histórico-temático desta obra por Arnaldo Espírito Santo, que escreve o seguinte:


– “Tomemos como caso notável a história regional e local das comunidades açorianas. Das centenas de pedidos de dispensa de impedimentos canónicos do matrimónio entre familiares, consanguíneos e afins, ressalta a verificação de que era restrito, no século XVII, o número de famílias do arquipélago, em grande parte descendentes daquelas que iniciaram o povoamento das ilhas. A prática religiosa é intensa. A enquadrar as comunidades urbanas e com uma grande inserção entre elas, exercem o seu fascínio os conventos e os institutos de várias famílias religiosas. Muitos e muitas acorrem a engrossar as suas fileiras. Seja por inadaptação ou por insatisfação, chovem os pedidos de mudança de lugar, uns alegando desejo de maior austeridade, outros denunciando dificuldades pontuais de convivência e conflitos pessoais. Uma abadessa solicita a exoneração do cargo; uma freira, já idosa, pretende licença para ter uma criada. A autoridade eclesiástica competente vai despachando conforme os casos, ora acedendo aos pedidos, ora recusando para não criar precedentes. Há matéria abundante que roça o romanesco. Uma freira foge do convento para Inglaterra com um marinheiro inglês. Outra salta o muro, dizem que com conivência do confessor. Um escândalo que fez correr rios de tinta e de documentos”…


De tudo isto e do muito mais que ali consta, para encantadoras incursões e revisitações socio-históricas, institucionais, culturais e existenciais, pelos caminhos do passado da nossa vida colectiva nos Açores – enfim –, no entrecruzamento de gentes, mentalidades e destinos do Mundo, estamos perante uma obra fascinante e plena de atractivos inter e pluridisciplinares, indispensável portanto nas nossas estantes, bibliotecas e arquivos regionais e pessoais, para estudo, investigação e reprodutivo conhecimento do que fomos e daquilo que, de modo profundo, mesmo quando não reflectido nem criticamente assumido, nos molda ainda e condiciona contemporaneamente…
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 18.12.2015):


sábado, dezembro 12, 2015


Uma Herança Sonhada
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Na arca de livros, papéis e outras peças documentais e particulares de família que me coube em sonhada herança receber de meu tio-bisavô Eduardo Ferraz de Meneses – nascido 70 anos antes de mim, ou seja em 1884 –, encontrava-se um Caderno com anotação de memórias, um pequeno Álbum com fotos e postais, e um Maço (pacientemente alinhado e atado com cuidadoso nastro) contendo diversos escritos seus (Bilhetes e Cartas), sendo alguns destes uma cópia, por vezes reconhecível ou aparentemente em rascunho e outras esboçadas versões, de textos enviados ou apenas hipoteticamente mandados e/ou supostamente recebidos de amigos e familiares com quem se correspondeu ao longo desses anos tão pessoalmente cruciais e historicamente decisivos como aqueles que decorreram, e do modo como foram vividos por ele, desde a proclamação da República até aos finais da II Grande Guerra e à sua própria morte prematura, em 1947.




Todavia – para além daquelas gravuras e dos muitos livros da sua rica e variada biblioteca particular (romances, contos, novelas, biografias históricas, tratados filosóficos, médicos e esotéricos, dois volumes com Instruções maçónicas, publicações científicas, manuais técnicos de Metrologia, hagiografias, dicionários, etc. –, lá estava ainda aquele tal fabuloso embrulho de endereçadas e/ou recebidas missivas como o mais apelativo legado (talvez porque o seu misterioso conteúdo estivera sujeito durante longo tempo a total restrição de divulgação pública, como que em quarentena...), – e tanto assim que nem agora, cumprida a respectiva cláusula testamental, poderão vir as respectivas peças a granjear integral publicação (por prudencial dever de razão futurível ou de reminiscência imaginária, quando não por razões que o simples bom senso e a contenção de linguagem mais aconselham...).


– Ora segundo fui apurando, tais escritos (os que sobreviveram, pois muitos foram destruídos por ele próprio), chegaram do ou foram enviados para o Brasil (Rio de Janeiro e Bahia), Macau, Lisboa e Porto, mas também de outras ilhas (S. Miguel, Santa Maria, Faial, S. Jorge e Flores), e da Terceira (v.g. a Agualva, de onde os meus ramos maternos eram ambos originários; Angra; Porto Martim, onde vivia o seu amigo Sousa Júnior, Cabo da Praia e Praia da Vitória, lugares que foram os derradeiros da sua residência).

Mas a todos esses documentos meu tio havia-os claramente arquivado e quase escondido de olhares curiosos, furtivos ou indiscretos (quando não até denunciadores ou comprometedores de pessoas, ideias e realidades, e bem a par de ficções e factos contemporâneos e próprios daqueles sítios e do imaginário da nossa antiga Vila vilória...), e certamente também sem possível conhecimento ou expressamente manifestada vontade lógico-temporal de vir a ser eu o fiel depositário de tudo isso (como se deduzirá das cronologias implicadas nesta diegese e na dita epistolografia).


 – E depois, não há a mínima dúvida que fora intencional aquela reserva de segredos em tão recônditos compartimentos da sua alma, como o prova o seu cuidadoso arrumo na mítica escrivaninha da nossa casa da Praia, conforme um dia, quase a medo, por mão de minha avó, me foi dado desvendar e conhecer em parte, mas com a promessa dessa dita herança, então apenas legado futuro (ou seja, da mesma revelação a que me reporto aqui), sob compromisso de sigilo que honrei sempre, permanecer absolutamente inédita até à presente e propícia data!

De resto, a existência do quadro (in)temporal dessas memórias da Praia – excepção feita à evocada arca, e mais ainda à restante epistolografia trazida agora a esta confidência narrativa – já fora aliás por mim contada num texto sobre o “Café do Cipriano” que publiquei no livro Heranças da Terra (Praia da Vitória, 2000), quando ali o evoquei também num cenário de recordações para inserção na galeria dos espaços e dos tempos simbólicos que cifram as nossas mais reais cartografias e temporalidades, assim:


– Em cima, em casa, minha avó Maria ia costurando um vestido de noiva para a cidade, com a tia do tio Domingos à janela do quarto grande rezando e olhando o nosso oratório conventual, dividida entre o seu recato e um prezamento todo subtil na atenção aos movimentos que chegavam da outra Loja aonde meu tio Eduardo ainda experimenta o alambique, as suas curiosas iniciações na dialéctica das operações homeopáticas e os afinos finais nas peças das suas aferições camarárias.

Ali ao lado, na mesa da velha escrivaninha, aguardava resposta a apostila versejada com que o seu amigo Doutor Sousa Júnior o brindara, havia dias, lá na catedrática venda do Porto Martim, em paga do encaixe pela provocadora multa de aposta feita à balança do balcão, tal como aquele bisturiado texto que o nosso vizinho Armando Santos (poeta de rasgo, primo de Nemésio), me havia de recriar, recitando, absolutamente idêntico ao original, tantos anos depois, em Lisboa, também ele revolto no sonho das Ilhas, naquele distante e sombrio bairro labiríntico da capital, de pé e teatral no banco baixo da sua sala, como que visionário e no mais perfeito virtuosismo praiano:


Ó meu amigo Eduardo, / Ó Ferraz da cambitola, / Vinte paus vão ter contigo, / Idos da minha sacola! // São “ordes”, me dirás tu; / Sim, são “ordes” mas do [...]. // Medidas, mando-te seis; / Às outras, tempo as levou...

A tão assombroso espólio desse meu tio-bisavô – mais precioso do que as suas queirosianas bengalas de verdadeiro e rijo pau-brasil encastoadas com românticas mãos de prata boémia... –, valendo o texto neste século e a pena no passado, voltarei doravante ocasionalmente, ao sabor destes cíclicos tempos e das espantosas afinidades de destino que neles moram, como em dramático crepúsculo ou esperançosa aurora – quem o saberá ao certo? – de outro ano de vida participada...
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 12.12.2015):





























Primeira versão (parcial) em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 12.12.2015):





RTP-Açores:





























e Azores Digital:






























sexta-feira, novembro 27, 2015


Da Alma ao Supraceleste

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Pode parecer metafísico o título desta Crónica – talvez entre poético, antropológico-filosófico, cosmológico e teológico, quando não (ou precisamente) porque o poderíamos ter recolhido ao deambularmos entre revisitações de memória, discursos e colóquios nos jardins e pátios da Academia e do Liceu da velha Grécia, ou então nos saborosos Comentários de S. Tomás às obras do Estagirita, ou até mesmo, já ao fechar do Século XVIII, calcorreando kantianas avenidas de Konisberg ao bater das horas no puro cômputo da Razão crítica, fossem aqui evocados patronos tão afeitos e dados a coisas como as que estão no Fédon, no Banquete, na República, no Timeu, no De Anima, no De Caelo et Mundo ou na Allgemeine Naturgeschichte und Theorie des Himmels... –, mas não!

– A frase de abertura de hoje conjuga apenas numa expressão o título de duas fabulosas Crónicas com que abre (“Sobre a alma”) e fecha (“O Lugar Supraceleste”) o belíssimo livro O Lugar Supraceleste de Frederico Lourenço, publicado há pouco pela Cotovia (Lisboa, 2015).

Nascido em 1963, este notável classicista e professor da Universidade de Coimbra – tradutor premiado da Ilíada e da Odisseia – é também autor, entre outros, dos ensaios reunidos em Grécia Revisitada, da antologia Poesia Grega de Álcman a Teócrito, do romance Pode Um Desejo Imenso, dos contos de A Formosa Pintura do Mundo e do também recente O Livro Aberto: Leituras da Bíblia.



– Confessadamente sem ser obra de Filosofia ou de Teologia – diríamos nós, ao modo abstruso e pretensamente “académico” dos maçudos tratados delas (porquanto, ou melhor, porque delas o autor diz não ter “competência”, talvez porque a tenha de outro mais autêntico modo que é não tê-lo daquele trejeito) –, começa Frederico Lourenço por falar-nos da sua própria alma e do corpo que nela amigavelmente co-existe, na “limpidez autêntica da verdade, [como] em todos os nossos actos, gestos e palavras”, e assim em Deus, no Divino, na Música, na Pintura, no Amor, na Poesia, na Filiação e na Paternidade, na Dança, na Oração, etc., e em todos os superiores “patamares sucessivos” daquela sublime e iniciática experiência aprofundada que é afinal a da nossa humanidade no que ela tem e é de essencial e excelso, apesar e para além do que nela resta de maligno ou maléfico, como exemplarmente dizia o seu dilecto Schopenhauer perante o sofrimento animal ou animado dos seres vivos, face à crueldade desalmada do homem ainda sublunar...




As Crónicas reunidas em O Lugar Supraceleste foram inicialmente inseridas, entre Setembro de 2014 e Janeiro de 2015, na “plataforma muito sui generis que é o Facebook”, explica Frederico Lourenço no seu Prefácio e esta obra que abre sob um aforismo do “fascinante” Livro Azul do nosso também predilectíssimo Wittgenstein (“O processo de falarmos connosco mesmos pode ser substituído por falarmos em voz alta ou então pela escrita”), nos seguintes termos:


– “À semelhança de muitas outras pessoas que vivem sós e, por esse motivo, passam a maior parte do seu tempo tendo os próprios pensamentos como principal companhia, tenho-me tornado nos últimos anos um cismador meditabundo diariamente dedicado a remoer sozinho ideias, leituras, manias, reminiscências e projecções fantasiosas sobre o futuro. Pode ser que se dê o caso de me pôr a falar sozinho em voz alta, mas por enquanto a escrita ainda surge aos meus olhos como o melhor canal de extravasamento para este tipo de cogitação supranumerária: pois há um momento em que o ‘disco’ mental está cheio e é preciso deslocar de lá a acumulação de cismações, de modo a criar espaço para novos pensamentos e para novos caminhos de reflexão.



“Transferir as minhas meditações do espaço fechado da minha mente para o espaço aberto de um livro acessível à leitura e crítica alheias foi uma viagem especial (...). Desses textos – que representam aquilo que actualmente vou pensando sobre a minha vida passada, sobre filosofia, música, literatura, sexo e outras coisas soltas – escolhi aqueles de que mais gosto e cuja leitura me pareceu poder interessar a um leque mais amplo de leitores”.




E depois, percorrendo então temas, acontecimentos, vivências, audições, gestos e hábitos do quotidiano, representações, relacionamentos pessoais e familiares, etc., retoma sempre o autor uma permanente reflexão como retorno a si e aos seus concomitantes actos de escrita, ele que tanto se fundiu e recriou traduzindo as linguagens e os sentidos das palavras tecidas no tear dos outros, ou entretecidas, sem retroversão possível, nas rocas, fusos e fios da nossa Língua, e no singular mundo existencial que a nossa radical finitude incarnada marca para o Bem e para o mal, tanto no que dizemos como no que silenciamos, ou tanto no que apenas esperamos que nos eleve a uma Verdade Outra, talvez a Única capaz de nos redimir do Tempo e das cruzes dos nossos caminhos esquivos, desesperados ou somente misteriosos:

– “A palavra ‘texto’ evoca pela sua etimologia a ideia de tecelagem, pelo que é frequente a analogia entre o escritor e o tecelão. (...) A vida faz sentido? Refiro-me em concreto à minha. É uma pergunta que me coloco desde sempre. Estarei aqui por alguma razão definida?”.



A estas, como a muitas outras questões que o seu livro testemunha ou levanta, Frederico Lourenço responde (procura animar...) com a mente e com o coração, com Goethe e ainda com Schopenhauer, por entre o desejo e a contemplação (“porque a lua é apenas objecto de contemplação, nunca objecto de desejo”):

– “É por isso – escreve assim o autor, aliás numa indisfarçável tonalidade simultaneamente kantiana e agostiniana... – que a contemplação da beleza inalcançável das estrelas nos acalma e eleva, ao passo que nos descentra e inquieta a contemplação da beleza teoricamente alcançável de corpos não celestes. Pensemos, em concreto, num corpo bem terrestre que momentaneamente nos atrai, mas que as circunstâncias tornam mais inalcançável do que a estrela mais remota da última galáxia. Que inquietação...”. Supraceleste!?

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Em "Diário dos Açores" (01.12.2015):



























NOTA: 
Uma primeira versão deste texto foi publicada em "Diário Insular" 
(Angra do Heroísmo, 28.11.2015):