domingo, maio 08, 2016


Maio em Abril?
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Ao leitor poderá parecer que título desta Crónica altera ou parece trocar a sequência cronológica do repertório-padrão dos meses, baralhando as agendas com que usualmente preenchemos os dias e que nos diversos calendários, almanaques e devocionários vão registando o girar cíclico do Tempo, a sucessão das estações, ciclos festivos, acontecimentos memoráveis e todas as datas que são marcos culturais e histórico-existenciais dos indivíduos singulares, das comunidades e das várias, mutáveis e sucessivas civilizações.



Isto mesmo registou o nosso Eça, num notável texto de 1895, quando – começando por recordar uma antiquíssima lenda do Talmude sobre os dois sábios filhos de Seth que “naquele caminho perdido da Mesopotâmia, sob a tristeza imensa da tarde, determinaram arquivar, escrevendo em matéria imperecível, a Ciência que possuíam”, e que, “na derradeira madrugada, finda a Obra, (...) levantando as faces cansadas, louvaram o Senhor que lhes concedera tempo de cumprirem, para com os homens da outra Humanidade, aquele dever final de fraternidade magnífica” – observou que “cada povo que se organiza, e se prepara para a História, imediatamente organiza o seu Almanaque, com o cuidado e a previsão com que traça as ruas da sua cidade”, não só nos habilitando “a que vivamos bem, na larga vida social e espiritual, mas a que a vivamos bem, com doces facilidades, na vida pequenina e caseira”...


 – Ora vem este tema a propósito do título desta coluna (ou vice-versa que fosse, o que para o caso tanto faria), porque, especialmente longe dos lugares e quadras locais, se volvêssemos olhos para as coisas e loisas circunvizinhas, talvez não antevíssemos muita discrepância de factos e de sentidos quer começássemos por 1 de Abril, proverbial festejo da mentira ou peta, ou pelo 1.º de Maio, solene evocação da ternura e saudade das Mães do Mundo, da (amiúde espoliada) dignidade universal dos Trabalhadores e do Trabalho, e (enfim...) do arranque doméstico de (in)certos lustres brasonados, desde os castiçamente dependurados nos arraiais e cordas populares até aos suspensos em brasonadas bazófias e capotes, que como tal para pouco prestarão nos almanaques de hoje e nos do Futuro!
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Em "Diário Insular",
Angra do Heroísmo, 07.05.2016:























Azores Digital:






















RTP-Açores:



























e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 12.05.2016):






quinta-feira, abril 14, 2016


Imaginário Presidencial 

e Mitos Portugueses


É sabido que o nosso recém-eleito Presidente da República sempre captou e cultivou, com predilecção comunicacional e talento estratégico, as múltiplas dimensões simbólicas das palavras e dos gestos, – selectiva e intencionalmente accionadas por ele desde há anos e nos mais diversos contextos pessoais e sociais, privados e públicos, individuais e institucionais... 


– E foi assim logo a partir das daquelas suas tão famosas análises no “Expresso” (naquilo que evidentemente tinham ou reflectiam de factos objectivos e empiricamente constatados, e no que entreteciam ou arquitectavam em e como hábeis construtos imaginativos...), modelos bem lembrados e que, pese embora a passagem dos tempos, modos e vontades, persistem ainda no seu natural e estudado jeitos de formar argumentário e gizar acção, exprimir crenças, formular valores e propor ideais. 

De resto, tal pendor simbólico-actuante de Marcelo Rebelo de Sousa – sobremaneira vindo a acentuar-se nos últimos tempos, nas suas atractivas prestações radiofónico-televisivas e no encaminhamento tendencial (às vezes tendencioso) dessas sugestivas e consensualizantes exibições e peças para um projecto político autónomo que, enfim e por fim, se concretizou na almejada e inquebrantável resolução da sua candidatura vitoriosa a Belém – tornou a revelar-se paradigmaticamente presente e vivo na suas inaugurais falas e movimentos como Chefe de Estado, nomeadamente na alocução à Assembleia da República durante a cerimónia de Tomada de Posse, nas pontuais declarações à Comunicação Social e nas seguintes visitas ao Vaticano/Santa Sé Santa Sé e a Espanha...


É claro que o recurso a teses, narrativas, dimensões figuradas e símbolos (muitos deles, quando não todos) dotados de ambivalência ou plurivalência de significado, nunca é isento de riscos, na medida em que essa selectiva escolha e o seus correspondentes manuseamentos estratégicos (eles próprios real ou potencialmente míticos ou até mesmo mistificantes...) pressupõem, veiculam e transportam uma particular e pré-determinada interpretação convencionada de factos e factores cuja suposta (sempre relativa ou correlativa) “verdade” (enquanto mensagem crítica e historicamente situada...) é variável, quando não, e por isso mesmo, internamente conflitual, ou intrinsecamente conflituante, nos respectivos conteúdos, vigências e alcances!


– Ora apesar do honroso e indubitável sentimento nacional, foi o caso das sucessivas invocações patrióticas (e das razões políticas?) de Ourique, Mouzinho (ainda recitado no discurso às Forças Armadas), Lobo Antunes, Torga e da Bula Manifestis probatum... Para além, naturalmente das cerimónias de deposição de flores nos túmulos de Camões e de Vasco da Gama, cujas conjugações de sentido e de significado com as primeiras ainda mais acentuam as suas mútuas relevâncias...
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Em "Diário dos Açores",
Ponta Delgada, 09.04.2016:






sexta-feira, abril 01, 2016


Os Ditados do Tempo
em Fernando Aires
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Numa feliz iniciativa da editorial Opera Omnia (Guimarães, 2015), chegou-nos recentemente o livro Era uma vez o Tempo – Diário (1982-2010) de Fernando Aires. 


Prefaciada por Eugénio Lisboa – com posfácio de José Leon Machado e coordenação de Maria João Ruivo Sousa Franco –, esta volumosa obra reúne os Diários (I a VI) daquele escritor nascido e falecido em Ponta Delgada (1928-2010), estimado professor, jornalista e cronista que também publicou uma novela (A Ilha de Nunca Mais, 2000), contos – Histórias do Entardecer, 1988, “Prémio Nunes da Rosa 1988”; Memórias da Cidade Cercada (1995) – e ensaios – v.g. José do Canto – Subsídios para a História Micaelense (1820-1898); Faria e Maia e Antero (1961); Afonso Chaves (1982); Alice Moderno – A Mulher e a Obra (1985), e Delinquência e Emigração em S. Miguel na 1.ª metade do séc. XIX (1988).



– Com ligeireza tem às vezes a diarística (de facto nem sempre formal ou modelarmente praticada de maneira equivalente) sido vista como género, subgénero ou estilo menor (porque julgada demasiado “intimista”, “fechada” ou “auto-referenciada”), enquanto narrativa autobiográfica (que também é).


 Porém, cronologicamente sequenciado e pautado por registos de quotidianos singularmente experimentados, temporalmente revividos, subjectivamente interiorizados e selectivamente reflectidos, sempre os Diários, como salientaram Carlos Reis e Ana Cristina Lopes nos seus estudos narratológicos – e assim tão apelativa e admiravelmente se dá nesta excepcional obra –, revelam uma complexa fragmentação diegética e uma tendência para o confessionalismo (aqui simultaneamente crítico, poético e vital), ambos muito apelativos e exigentes...


 – Tenho bem presente a delicada figura, a sensível personalidade e a notável obra de Fernando Aires, com quem partilhei saudosos espaços de convívio cultural e de docência na Universidade dos Açores, e de quem releio hoje o que dele registaram amigos, colegas, companheiros e críticos (Almeida Pavão, Vamberto Freitas, Urbano Bettencourt, João de Melo, Nuno Costa Santos, Eduíno de Jesus, Assunção Monteiro, Adília Araújo...).


George Monteiro, no JL de 11 de Maio de 1994, já havia salientado que a obra de Fernando Aires se encontrava, na “muita boa companhia” de outros “autores de diários, concebidos e produzidos para publicação”, e no mesmo ano Eugénio Lisboa não hesitava em nomear o escritor micaelense, a par de Torga, Manuel Laranjeira, Irene Lisboa, Florbela, Régio, Vergílio Ferreira e Marcello Duarte Mathias, entre muitos outros certamente, como senhor de “um dos mais belos e sensíveis diários em língua portuguesa”, acentuando também agora no seu Prefácio:

– “A escrita deste diário é discreta mas quase sempre sedutora, eficaz e, não raro, reveladora de um cúmulo da arte de escrever. (...) Fernando Aires perscruta os segredos profundos da língua e da escrita e fá-lo, por si próprio, sem se agachar nem a escolas nem a modas. (...) O diário é rico de meditações, de percepções, de assombros que surgem no decorrer dos dias e que o escritor vai registando com pathos variado. O efémero da vida – o sic transit... surge de quando em quando, ou porque morre um amigo, ou, simplesmente, porque a evidência disso fulge inesperada e imperiosamente e magoa a alma assim visitada: ‘Se a finalidade da vida é apenas e só, viver, oh, vida que tão depressa te cumpres em cinza, pó e nada! Como dói a tua pressa em cada um que se cumpre e não voltará jamais a cumprir-se. Jamais. Jamais’. Raul Brandão não andará longe”.



– A abrir este livro, em “Nótula Biobibliográfica”, Maria João Ruivo Sousa, justamente assinala os percursos de Fernando Aires (seu pai), sinalizando a sua ligação às tertúlias literárias e jornalísticas de meados do século (com Eduíno de Jesus, Jacinto Soares de Albergaria, Fernando de Lima, Eduardo Vasconcelos Moniz e outros condiscípulos, “com quem viria a constituir, em 1946, o Círculo Literário Antero de Quental, que, pela sua actividade literária, contribuiu para a divulgação do Modernismo na ilha de S. Miguel:

“Os primeiros escritos deste grupo começaram a circular na imprensa de Ponta delgada a partir de então, primeiro na página literária do Diário dos Açores, coordenada por Oliveira San-Bento, e na do Correio dos Açores, coordenada por Ruy Galvão de Carvalho e Diogo Ivens, e logo depois no semanário A Ilha, dirigido por José Barbosa. Fernando Aires publicou nesses jornais alguns artigos e pequenos contos, assim como os primeiros parágrafos de um diário íntimo”.


– Ora é por tudo isso (mesmo atendendo ao conhecido património diarístico já existente) que estes Diários de Fernando Aires e as suas fascinantes leituras geram, ou podem suscitar, prazer espiritual e marcam nova, genuína e ímpar presença “salpicada de humanidade e ternura, paixão e compaixão” (como bem sentiu e exprimiu o Onésimo Almeida), seja por quanto neles se entretece e concretiza de fino discurso literário (dramaticamente dito, sincero, compartilhado, catártico, metamórfico e redentor...), seja pelos específicos mundos, incisos filosóficos, vivências histórico-culturais, memórias geo-humanas, amores e projecções de uma ditada existência insulada, porém transcendentalmente oceânica, na qual Vida, Morte, Passado, Destino e Esperança coabitam em rostos, terras, águas e palavras feridas nos enigmas do Tempo presente e dulcificadas na saudade do Porvir:


 Ponta Delgada, 18 de Dezembro de 1982: O Outono quase no fim. Um céu liquefeito como certos olhos azuis rasos de água. A luz pousando na terra sem ruído. Depois da manhã cheia de horas intermináveis e de gestos obrigatórios, este sabor de vida. Este pão tostado ao calor da intimidade. Esta migalha de tempo tantas vezes adiada.

(...) Lisboa, 13 de Maio de 1988: Só o que é fugaz conserva fascínio – assim como a vida que, se não fosse a morte, não seria o desejo que é”...
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 02.04.2016):



























Outras versões __________________________

Em "Azores Digital":

























RTP-Açores:




























e "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 02.04.2016):


terça-feira, março 15, 2016

A Devoção e os Cânticos
de Manuel Emílio Porto
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A oferta trazia dedicatória fraterna e assinalava, para além de indefectível amizade, uma gentil e pessoal recordação mariana ao lembrar-se da minha conferência (“Maria e a Ternura de Deus em Antero de Quental”) que o nosso mutuamente querido Padre Júlio da Rosa (Horta, 24.05.1924-03.11.2015) me pedira que fizesse, como de facto a proferi no “Amor da Pátria” (a 28.05.19929), e depois foi arquivada na Estrela da Manhã (N.º 2, Ano II, 1993), revista da Academia Mariana dos Açores que ele fundara em 1990, com o olhar naquela Senhora das Angústias a quem tantos laços de vida e reminiscência familiar faialense me ligam. 



– A dádiva, bela publicação ilustrada do IAC (Angra do Heroísmo, 2015), foi Maria na Música na constante da História Açoriana, de Manuel Emílio Porto, esmerada obra competentemente organizada e coordenada por Maria de Jesus Maciel, com o contributo e créditos de solidárias partilhas documentais e iconográficas de vários amigos devidamente identificados por ela.




Este livro, adiantara-me já com razão o meu atencioso e atento amigo, há-de juntar-se doravante, com todo o merecimento e justificado interesse, às “outras obras aplicadas ao apaixonante estudo antropológico-cultural, religioso e filosófico-teológico dos temas marianos que marcam a História dos Açores e o Catolicismo em Portugal”, tal como aliás voltei a salientar aqui, há poucos dias, a propósito da Mariologia e da recente visita ao nosso arquipélago da Imagem Peregrina de Fátima (1).



– E como haveria de não ser assim, atendendo agora ao rico conteúdo desta primorosa edição que ao simples folhear das suas cerca de centro e trinta páginas – por entre sugestivas imagens, significativas peças de escrita, notas de biografia, pesquisa e inventário de acontecimentos, sucintos ensaios histórico-musicais, musicológicos e religioso-cultuais, e curiosos apontamentos da epistolografia trocada precisamente entre Emílio Porto e Júlio da Rosa –, ainda inclui um minucioso registo de Invocações de Nossa Senhora nos Açores e uma Antologia de Composições/Pautas Marianas daquele picoense que foi um incansável e criativo Músico e Cidadão (compositor, mestre, regente coral e director artístico, professor, animador cívico-cultural e associativo, escritor, jornalista, teólogo e político da sua ilha-montanha), conhecido e considerado em todas as nossas ilhas e no País, ou aonde quer que cheguem as nossas vozes?



 Manuel Emílio Porto nasceu na ilha do Pico, lugar da Ribeirinha, freguesia da Piedade, a 20 de Dezembro de 1935. Estudou no Seminário de Angra, formou-se em teologia e foi ordenado sacerdote. Dispensado das Ordens Sacras em 1976, serviria mais tarde em Angola, como capelão militar, até ao seu regresso aos Açores um ano antes. Desempenhou funções políticas (Vereador da Câmara Municipal das Lajes e Deputado regional independente, eleito pelo PS, durante as duas primeiras legislaturas autonómicas, tendo sido secretário da Mesa e da Comissão de Assuntos Políticos e Administrativos do Parlamento açoriano). Docente de Língua Portuguesa e de Educação Musical no Externato Lacerda Machado e na Escola Preparatória e Secundária das Lajes, na sua ilha natal desenvolveu intenso magistério e labor, constituindo e ensaiando Grupos Corais infantis e juvenis, Ranchos de Natal e de Reis. Premiado em vários Festivais de Música na Região e no Continente, recebeu o Prémio de Melhor Música na Gala Internacional dos Pequenos Cantores da Figueira da Foz.



Tendo parte do seu vasto repertório e de múltiplas actuações, interpretações e colaborações ficado entretanto gravada em sucessivos registos e Discos Compactos – como minuciosamente ficou elencado no capítulo sobre a sua vida e obra, e na respectiva introdução justificativa e elucidativa das suas origens, vocação, percursos e relevos biográficos e de trabalho –, Emílio Porto, a par “da composição de textos sacros para liturgia, harmoniza e compõe um significativo número de temas, quer da música tradicional quer da nova música açoriana, quer do fado”, referência merecendo sempre a célebre harmonização das Ilhas de Bruma, bem como os arranjos corais do Hino Nacional, do Hino dos Açores e do Hino do Espírito Santo, entre outros.



– Condecorado em 2001 com o Grau de Comendador da Ordem de Mérito pelo Presidente da República Jorge Sampaio, e com a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico, dele mais realça Maria de Jesus Maciel: “Herdeiro de um sorriso franco e divertido, de gargalhadas sonoras que escarneciam e esconjuravam as situações mais ridículas, é a educação nos valores do trabalho e do estudo que lhe foram incutidos na infância, que pautam o caminho que lhe coube percorrer (...). Deixa a vida em pleno ensaio, regendo o seu Grupo Coral e cantando com ele: ‘Lá no cimo da Montanha’, na Filarmónica Liberdade lajense, às 22 horas, de 11 de Abril de 2012”.


 Por seu lado, evidenciando “o contributo deveras apreciável de Manuel Emílio Porto”, Artur Goulart – coordenador do Inventário do Património Artístico da Arquidiocese de Évora –, traça-nos um indicativo quadro sinóptico da Devoção Mariana (com especial referência para o fenómeno das Aparições, desde Lourdes, em 1856, a Fátima, em 1917) e para a história da Música Sacra em louvor da Virgem Maria, enquanto “reflexo de uma profunda devoção (...) que acompanhou desde sempre os açorianos, tal como foi sempre marcante em todo o país, desde a fundação da nacionalidade”, e assim assinalada, por exemplo, nos repositórios histórico-documentais, religiosos e testemunhais complementarmente presentes, entre muitos outros referenciáveis, em Alberto Sampaio (1899), Gaspar Frutuoso, António Cordeiro, Frei Agostinho de Santa Maria (1707/1723) e Carreiro da Costa, citados.




– “A história do culto a Maria, conclui com inteira justeza Artur Goulart, nas diversas invocações, merece um trabalho profundo e cuidado de investigação (...) A música está desde sempre incrustada na alma açoriana; natural seria, portanto, que na devoção à Virgem ela se manifestasse prodigamente”.


Ora é por receber este legado e o seu sentido – vividos e entoados ao longo de gerações e por isso mesmo, como mais deve ser realçado desta Maria na Música, na História, na Devoção e nos Cânticos do nosso Povo, que se nos retornam mais eminentes hoje, tal como assumidos pelo seu autor, o silêncio profundo, as afeições do coração, o louvor e a gratidão não só pela terna inspiração e simbologia marianas aqui exemplarmente preservadas e assumidas enquanto “linguagem da alma, do íntimo, daquilo que nos vai por dentro” –, quanto também pelas excepcionais expressões musicais e poéticas com que o nosso tão estimado Emílio Porto os acolheu, recriou e concelebrou, com alegria e esperança.

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(1) Cf.  Eduardo Ferraz da Rosa, "Devoção mariana congrega paradigmáticas significações", 
em http://sinaisdaescrita.blogspot.pt/2016/02/devocao-mariana-congrega-paradigmaticas.html

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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 15.03.2016):



























Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=3126
 e RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/comentadores/eduardo-ferraz-da-rosa/a-devocao-e-os-canticos-de-manuel-emilio-porto_49799.

domingo, março 13, 2016


O Silêncio e os Afectos
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A oferta trazia dedicatória fraterna e assinalava, para além de indefectível amizade, uma gentil e pessoal recordação mariana ao lembrar-se da minha conferência (“Maria e a Ternura de Deus em Antero de Quental”) que o nosso querido Padre Júlio da Rosa (Horta, 24.05.1924-03.11.2015) me pedira que fizesse (28.05. 1992) no “Amor da Pátria” e depois publicou na Estrela da Manhã (N.º 2, Ano II, 1993), revista da Academia Mariana dos Açores que ele fundara (em 1990) com o olhar naquela mesma Senhora das Angústias a quem tantos laços de vida e reminiscência familiar faialense me ligam. 

A dádiva, bela publicação ilustrada do IAC (Angra do Heroísmo, 2015), era Maria na Música na constante da História Açoriana, de Manuel Emílio Porto (Pico, 20.12.1935-11.04.2012), obra competentemente organizada e coordenada por Maria de Jesus Maciel. Este livro, adiantara-me já com razão o meu amigo, há-de juntar-se doravante, com todo o merecimento e justificado interesse, às outras obras aplicadas ao apaixonante estudo “antropológico-cultural, religioso e filosófico-teológico dos temas marianos que marcam a História dos Açores e o Catolicismo em Portugal”.


– E como haveria de não ser assim, atendendo ao rico conteúdo desta edição, que ao simples folhear de páginas, por entre sugestivas imagens, significativas peças de escrita, notas de biografia, pesquisa e inventário, ensaio histórico-musical, musicológico e religioso-cultual, e epistolografia (trocada precisamente entre Emílio Porto e Júlio da Rosa), ainda inclui um minucioso registo de Invocações de Nossa Senhora nos Açores e uma Antologia de Composições/Pautas Marianas daquele que foi um incansável e criativo Músico e Cidadão (compositor, mestre, regente e director artístico, professor, animador cívico-cultural e associativo, escritor, jornalista, teólogo e político picoense), conhecido e estimado em todas as nossas ilhas e no País?

Ora é de receber tudo isto, como bem realçam Maria Maciel e Artur Goulart (no “Prefácio”), que se nos retornam mais eminentes o silêncio, os afectos e a gratidão, não só pela terna inspiração e simbologia marianas quanto também pelas excepcionais expressões artístico-musicais e poéticas com que Emílio Porto as acolheu e concelebrou.
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 12.03.2016):






segunda-feira, março 07, 2016



Os Cerrados da Crise
(2.ª versão revista e aumentada)
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A anunciada descida do preço do leite aos produtores tem vindo a gerar justificadas apreensões em todas as ilhas (mormente na Terceira, como é sabido e era expectável!) e a todos os níveis da vida no arquipélago, por tudo quanto integradamente envolve e implica do ponto de vista político-económico-financeiro e empresarial, técnico-laboral, socio-familiar e cultural.



 – Esta preocupante situação, a somar a outras de uma crise global que tem tanto de estrutural quanto de conjuntural, embora não seja historicamente inédita, tem na sua configuração específica e no actual quadro das complexas e movediças realidades regionais, nacionais e internacionais (especialmente europeias...), uma série de contornos e parâmetros que devem ser pensados em conjunto para a urgente e exigível procura de soluções minimamente consistentes, consensuais e mobilizadoras, que assegurem, tanto quanto possível, uma saída clara para este perigoso estado de coisas.



Desde sempre os Açores viveram sob o signo de modelos produtivos caracterizados pela vigência de paradigmáticos ciclos “mineiros” (isto é, de monoculturas predominantes ou hegemónicas) – trigo, pastel, laranja, pastagem, carne e leite (estas últimas típicas da denominada “monocultura da vaca”) – com todas as causas e consequências resultantes de:



1) Imposições dos poderes estabelecidos (e do acatamento e subordinação aos mesmos!);

2) para mais condicionadas as ilhas por decisivos factores geo-humanos (demografia, emigração, qualificações, mentalidades e hábitos, rotinas ancestrais, socioeducativas e cívicas);



3) sucessivos condicionamentos histórico-políticos, comerciais, industriais, aduaneiros e logísticos;

4) dependências típicas de economias territoriais e de escala muito restritivas, e enfim


5) sujeições governamentais, legislativas e administrativas a divisionismos e desequilíbrios internos, abandonos, mercancias e trocas de favorecimentos nacionais e diplomáticos, militares e financeiros, numa constitucional adjacência (amiúde quase ou para-colonial...), apesar das mais-valias reais ou potenciais, das valências naturais e antropológico-culturais e dos progressos conseguidos...




– E tudo isto, permanecendo ainda hoje a nossa Região Autónoma numa plataforma e modelo de desenvolvimento bastante assente em fragilidades grandes, sustentabilidades precárias e narrativas dúbias, muitas delas derivadas de planos, práticas e opções políticas discutíveis!


Ora é por várias dessas vigências estruturais e super-estruturais que continua a parecer-nos adequada a supracitada expressão ciclos mineiros, que intencionalmente retomamos de um conhecido estudo sobre os Açores e que aqui usamos de modo análogo e crítico pelo que traduz da caracterização daquilo que é próprio de um sistema de aproveitamento, produção e comercialização de tipo intensivo, em regime de monocultura, à semelhança daqueles que moldaram (e moldam) histórica e sociologicamente os ciclos de exploração de matérias-primas (ditas ali como se de “minérios” em sentido material próprio, como é evidente, desde o ouro e a prata ao volfrâmio e ao urânio), em terra e no mar... 



 – Claro que, no nosso caso, as riquezas (e as falências...) produzidas, os minérios, as minerações e até as minas (que se foram redondamente esgotando em crises e saturações internas e externas consecutivas) eram de outros metais, amiúde explorados e comercializados em regimes de (des)medidas e pautadas correlações estruturais, de acordo ainda com mecanismos e lógicas quase ou para-colonialistas, capitalistas, liberais ou neo-liberais... E que, tal como com estes e aqueles, aliás, também foram abrindo e fechando ciclos produtivos e de exploração de produtos, recursos, terrenos, solos e subsolos, a par de toda uma arquitectura socioeconómica e sociopolítica que envolve sempre estruturas de poder e exercício do mando, classe, propriedade, mão-de-obra, detenção fundiária e dos meios de produção, conhecimento, etc., etc., cujas variações, estratégias, vigências e perpetuações históricas, sociológicas e ideológicas são sobejamente sabidas!



 De resto, neste contexto global e por andar insular, os presentes cerrados das ilhas (que oxalá, ainda por cima, não venham a atingir o conexo sistema bancário local!) são apenas mais um dos pastos em que – com maiores ou menores resgates e reconversões de práticas e teorias... – continuaremos caídos e peados, ao final das contas e das pessoas...
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Em "Diário dos Açores!" (Ponta Delgada, 08.03.2016):




























e RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/comentadores/eduardo-ferraz-da-rosa/os-cerrados-da-crise_49724.