sábado, julho 09, 2016


Textos de Açorianidade
e Títulos da Autonomia
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1. Não fora a atenção de uma amiga faialense e talvez só daqui a mais alguns dias é que eu iria ler, como o faço habitualmente, a Newsletter da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (http://www.alra.pt/), na qual são sempre destacados eventos e marcos institucionais, culturais e artísticos directa ou indirectamente ligados ao Parlamento e à vida açoriana, sendo que aí é também geralmente seleccionado um Documento (livro, artigo ou publicação) cuja existência é significativa e consta dos Fundos ou Espólios existentes na Biblioteca da ALRAA, na cidade da Horta.


 – E foi assim, desta vez, que na referida Newsletter (relativa ao corrente mês de Julho) da Assembleia Regional (agora presidida por Ana Luís) a obra escolhida foi o meu bem lembrado livro Açorianidade e Autonomia, trabalho que concebi e coordenei em 1989 e cuja publicação, naquele ano, preparei e dirigi para a Signo (projecto da Brumarte, então jovem e pioneira empresa editorial, infelizmente já extinta, que marcou o panorama cultural e jornalístico insular ao divulgar um bom rol de autores, estudos, ensaios, novelas, contos, poesia, álbuns de arte, intervenções sociopolíticas, etc.).


 Ora a Newsletter N.º 18 da ALRAA, que aqui trago hoje às anotações deste texto, não só reproduz a capa da edição original (e única) da obra como faz uma breve, rigorosa e adequada resenha do conteúdo da mesma, transcrevendo uma passagem da minha própria Nota Introdutória.

De resto, como é sabido, para a preparação daquele meu velho livro contei com a inestimável colaboração, que então escolhi e solicitei, fazendo questão para que tal devidamente constasse na respectiva ficha bibliográfica, dos meus amigos Carlos Cordeiro (historiador comprometido e empenhado colega professor na Universidade dos Açores) e José Mendonça Brasil e Ávila (afastado agora da nossa presença regular devido a impiedosa doença, porém incansável investigador e distinto bibliófilo a quem devo um valioso companheirismo académico, debatidas e partilhadas leituras, e longos e já saudosos anos de solidário e fraternal convívio na Praia da Vitória e em Angra do Heroísmo).

– E é por tudo isso que, tornando a olhar para aquela recordação documental de há 27 anos, não posso deixar de evocar de passagem alguns factos e pormenores ligados à génese e história da sua edição, à estruturação e critérios da mesma antologia (“Páginas Escolhidas” é o subtítulo da obra), ao seu lançamento e recepção, e bem assim, afinal, ao seu próprio destino à luz do passado e do presente, deixando para posterior ensejo um tratamento mais exaustivo das temáticas e problemáticas que ali ficaram apontadas.


 2. Quando nos começos de 1989 estava em preparação a Presidência Aberta de Mário Soares nos Açores (durante a qual seria comemorado o 10 de Junho, em Ponta Delgada, com uma bela cerimónia durante a qual foi entregue o “Prémio Camões” a Miguel Torga – “Guardião do fogo sagrado da identidade lusitana, escritor de enraizamento, mas também ele emigrante, homem de viagem e da peregrinação, a sua própria e a nossa, tão admiravelmente contada”... – como salientou o Presidente da República no Teatro Micaelense), logo se começou a preparar essa visita de 14 dias (que decorreria entre 29 de Maio e 11 de Junho daquele ano, percorrendo todas as nove ilhas do arquipélago).

E foi de facto todo um diversificado, rico e minucioso calendário que foi frutuosamente trabalhado, em conjunto e consensualmente no essencial, pela Presidência e Ministro da República (Rocha Vieira), Forças Armadas e todas as instituições e entidades públicas, governamentais, autárquicas, associativas e culturais da nossa Região, com destaque para o Governo, chefiado por Mota Amaral e para o Parlamento (liderado por Reis Leite, cujo discurso, aliás, foi sublinhado nas passagens mais insinuantes...).

Todavia, na programação das deslocações e observações locais, foram ainda planeadas Exposições temáticas e algumas iniciativas editoriais susceptíveis de coincidir com a Presidência Aberta, de modo a que todas pudessem ser inseridas ou articuladas, como viriam a ser de facto, no roteiro mais oficial de Mário Soares e da sua ilustre comitiva (que trouxe aos Açores, entre outros, Natália Correia, Pedro da Silveira, António Valdemar, Mário Ruivo, Luís Saldanha, Lyon de Castro, Maria Barroso, Luís de Albuquerque, Joel Serrão, Carvalho Homem, Alçada Baptista e Miguel Torga).


– Foi pois na vertente cultural que ocorreram os lançamentos dos livros Poetas dos Açores (de Ruy Galvão de Carvalho), do 1.º volume da Obra Poética de Nemésio, dos dois primeiros volumes das Obras Completas de Antero e do álbum Açores, Paisagem sem Mácula (com fotos de Ana Esquível, prefácio de David Mourão-Ferreira e Jorge Forjaz), o mesmo vindo a acontecer assim, de modo mais informal, com o nosso Açorianidade e Autonomia (apresentado por Onésimo Almeida e oferecido aos convidados do Presidente, durante uma cerimónia rica de peripécias surpreendentes, autógrafos para memória e outras lembranças que deixo para contar noutra ocasião...).


 3. Ora foi precisamente no campo das iniciativas editoriais que se inseriram as duas aqui nomeadas publicações simultâneas da Signo: o livro de Onésimo, Açores, Açorianos, Açorianidade (subvencionado pela Irmandade do Hospital da Maia e cuja revisão acompanhei de muito perto), e o nosso Açorianidade e Autonomia (qualificado depois por Mário Soares como “tão interessante livro”), uma edição patrocinada pela Presidência do Governo Regional dos Açores.

Essas duas obras viriam a ser devidamente elogiadas por Soares no texto “Memória e Testemunho” com que abre o seu livro (sobre a Presidência Aberta nos Açores) Quando o mar acaba, o coração começa..., – um óptimo arquivo histórico-textual organizado por José Manuel dos Santos, com as Intervenções do Presidente da República e um notável acervo fotográfico de Luís de Vasconcelos e Alfredo Cunha, que guardo como gentil oferta enviada de Belém pelo seu Chefe da Casa Civil, Alfredo Barroso.


“Numa altura – escrevi eu a dado passo da Introdução a Açorianidade e Autonomia, que Mota Amaral tanto acarinhou e incentivou, e que comigo concordou no nosso optado e indicativo título teórico-programático assente numa reunião em sua casa – em que as problemáticas culturais, sociais, político-institucionais, económicas e técnicas da regionalização e do regionalismo ganham novas premências planetárias, perante os riscos e as promessas da unificação civilizacional e da interdependência crescente de Regiões e Estados, Povos e Nações, a especificidade da Autonomia do Arquipélago dos Açores reclama novo alento precisivo das condicionantes, situações, custos e potencialidades presentes, e inovadoras capacidades e estilos de resposta aos reptos do futuro.

(...) Novo e experimental arranjo, os textos [de Natália Correia, Nemésio, Luís Ribeiro, Galvão de Carvalho, Pedro da Silveira, Morão Correia, Armando da Silva, Matos Bettencourt, Gervásio Lima, Rebelo Bettencourt, Carlos Cordeiro, Mendonça Dias, José de Lacerda, Branco Camacho, Bruno Carreiro, Mont’Alverne de Sequeira, Caetano Albuquerque, Moreira da Mota, Luiz Bettencourt, Faria e Maia, Paula Nogueira e José Enes] reunidos (...), assim entendidos, poderão tornar a servir de ponto de mira e de partida para subsequentes, virtualizantes e potencializadores esquemas de mais englobante e sistemático estudo dos paradigmas todos que entretecem a memorial mundividência e a prospectiva actualização dos modelos de pensamento, de sentimento e de acção do Povo dos Ilhas dos Açores”.

Ontem, tal como hoje, na verdade, devo sublinhar à distância (e à proximidade) de quase três décadas de textos de Açorianidade e títulos da Autonomia...


 – Assim estejam (ou estivessem) todos os propalados e tácticos “autonomistas” de hoje, nestes amiúde decadentes e renegados dias e nomes açorianos, à altura de tão exigente apelo de um renovado e mais digno futuro outro, para o qual, sem honra nem glória, infelizmente, muitos não tiveram, não têm, nem poderão ter o mais rudimentar talento ou a mais exigível e legitimada força de razão, como ideal de vida ético-política e validade de virtuoso e liberto coração, “ (...) pelo aro das estrelas/ A compasso retido em mente pura/ E avivado nos vidros das janelas”.
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 09.07.2016):



























e "Diário Insular" (12. 07. 2016):



Pistões e Servo-freios
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Continuam os palpites sobre as Lajes a trepar por crípticos ares, dando sopros de falso entendedor ou sabido ignorante pelos hertzianos ou reais tipos atmosféricos deles (quem sabe se já a par de interpolados ventos estratosféricos...) –, como se vê por aí a par de flatos que parecem provir apenas de camaradagens ou lengalengas caseiras, conquanto outros levianamente garantam que são propícios e “mais que muitos” os seus próprios projectos (apesar de irrealistas ou lunáticos, receia-se, conforme a “esquerda” de certa canhota os sonha em bloco, por entre neblinas que nestes dias só empapam mentes e corpos). 

– Entretanto na alta-roda das hostes americanas fazem-se duelos presidenciais (onde tudo vale, mesmo a nossa rebaixada ou despromovida Base, face aos trunfos britânicos na rede planetária da western intelligence)!


 Porém, cá mais pela baixa Europa (muito na onda de patrioteirismos futebolísticos verde-rubros), continuam a descer colateralmente à terra os reports das guerras de Bush, Blair, Aznar e Durão (esse luso-artista da política, agora em nicho conselheiral na Golden Sachs!), sem que acusações formais sejam formuladas pelos seus delitos, revelias e subterfúgios!


 Por outro lado, jornalistas, comentadores e analistas críticos bem que alertam para o rodopio de balões de ensaio nos nublados céus açóricos, perante intencionais recusas institucionais e político-partidárias em assentar cabeça e pés num chão que era preciso ter medido há muito, despindo-o de alçapões históricos e retóricas enganadoras para consumo indígena (como se numa Guiana ultraperiférica)...


 – Mas não tem sido fácil tal esforço, porquanto, no engate para o arranque das geringonças e carriolas do regime e do sistema “democrático e autonómico” estabelecidos, já se vão ligando motores de rotação costumeira nas máquinas eleitorais hegemónicas, onde encaixotar-se-ão servo-freios para pistão de assentimento no cilindro das manigâncias partidárias, com a agravante de vermos novas subserviências aos neo-intocáveis de Lisboa, já sem recepções pacóvias aos BENS deste mundo, sem comícios e sem faixas de afrontamento nas pontes e canadas de acesso à pista aeronáutica (não aeroespacial!) que temos no quintal das nossas casas!
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Em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo”, 09.07.2016):



























RTP-Açores:




























e Azores Digital:





















sábado, julho 02, 2016


Foguetes e Foguetões
nas ilhas dos Açores?
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As últimas notícias vindas a expresso lume até aos Açores por terra, mar e ar acerca de uma série de arrojados projectos e planos (alguns de pólvora, se molhada ou seca é o que veremos) – e já alegada ou supostamente com guia de marcha ou ditos em “maturação” e cobertura institucional político-partidária, governamental, académica, científica e empresarial do mais alto nível (?) internacional, nacional e regional –, continuam a gerar justificadas dúvidas, legítimas apreensões e indeclináveis deveres de denúncia pública, exigência de transparência e rigorosa e previdente assumpção de responsabilidades!



De resto e para mais, honrosas excepções feitas ao PSD e a uma tentativa nascida no seio do Instituto Histórico da Ilha Terceira (porém logo ali meteorológica, convulsiva e vergonhosamente boicotada por entre ventos e marés de interesses gagos, tremeliques de argumentação careca de fundamento sólido e outras proverbiais abdicações de mau e bom pagador) – às quais, enfim e somente, se juntaram com pertinência e razão as posições assumidas no jornal terceirense “Diário Insular” a propósito de todo aquele similar voltejar em redor do tal e qual e famigerado Air Center (que sendo de borboletas tontas à volta de lâmpadas, de fraca voltagem ou mesmo fundidas, resta apurar...), também o é de moscas em redor de uma série de velhos dejectos negociais portugueses (e açorianos!) –, tudo decorrendo à socapa, por entre acocoramentos histórico-políticos, diplomáticos, militares e geoestratégicos idênticos àqueles que, desde há décadas, pouco ou nada tem prestigiado o nome de Portugal e as suas (unicamente possíveis?) formais soberanias, retóricas de patriotismo gratuito e vantajosas posses, domínio e moeda de troca com e por estas suas “poldras” atlânticas...



– E depois não é só sobre esse aéreo centro (para mais, como se deduz, acomunado a conjugadas extensões, valências ou facilities por igual rastreáveis em várias das nossas ilhas, por entre nuvens, correntes marítimas, ondas oceânicas e outras de maior calibre, cifra ou monitorização sofisticada), porquanto ainda por aí andam fumos de maior potencial de fogo (como sempre unidos no segredo e nos negócios...).




E tudo isto, por ora, sem desvendar-se o mistério da rampa dos foguetões e dos satélites, guardados os foguetes, as bombas-foguete e as roqueiras para depois das Eleições, antes que todas essas peças rebentem de novo por cima das nossas cabeças, ilhoas, debaixo das pastagens e do solo poluído, ou no fundo das águas turvas que perigosamente nos cercam, enganam e querer de novo instrumentalizar!
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Em Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=3161;

"Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 03.07.2016):



























e RTP-Açores (a publicar).

1.ª versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 02.07.2016):







quarta-feira, junho 22, 2016

Um despeito de Angra
ou Salomão e a Torah
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Ao ler o que Maduro-Dias sentenciou no DI do passado sábado, foi como se estivesse a ouvi-lo exclamar – “Ah é? Pois então que passem mas é a Torah para cá!”.

O assunto opinado (1) aqui, como se compreende, prende-se com um desejo ardente, que por estes quentes dias sanjoanínicos se levantou inflamadamente bairrista, dramática e paradigmaticamente reivindicando – em nome de uma arrazoada e insólita “complementaridade entre ilhas e testemunhos” versus o amiúde fantasmaticamente agitado e temido “concentracionismo” regional (micaelense?) – a vinda (ida ou regresso?) para a Terceira de uma Torah que supostamente fora da família judaica Abohbot (durante anos residente na cidade de Angra do Heroísmo).


– A história em si é mais ou menos conhecida, porém, ao que sabemos, deverá ainda vir a ser bem mais elucidada pelo Dr. José de Almeida Mello, historiador e respeitado director da muito notável e estimável Sinagoga de Ponta Delgada...

Ora é evidente que a questão – tal como nos interessa realmente – estando para além do agora extemporaneamente reclamado, mas não o escusando, vale também a pena ser retomada sem subterfúgios em mais amplo debate, tanto mais quanto foi por lá defendida a estupenda ideia de (re)meter imediatamente a dita Torah para os depósitos e guarda da abstrusa nova/velha Biblioteca Pública de Angra – obra lindeza de consecutivos projectos, adjudicações, empreitadas, dinheiros e prazos sucessivamente descambados e denunciados por fim pelo próprio Tribunal de Contas (2) –, para além das generalizadas avaliações negativas, duvidosas ou reprovadoras da sua arquitectura, estética e volumetria, implantação na malha urbana citadina, previsão de custos futuros de funcionamento, funcionalidade e manutenção, etc.:



– Tudo coisas mais do que polémicas, como é sabido, mas que importa não deixar de contextualizar, mesmo sem ser preciso avançar muito para sistematizar desta feita o resto das vergonhas que por aí pairam à má sombra e rédea solta da mediocridade político-institucional instalada (a quase todos os níveis e interesses corporativos, de classe e partido), e bem assim vegetando em praticamente todos os remanescentes domínios da paisagem monumental, industrial, comercial, turística, associativa e patrimonial terceirense em geral (e angrense em particular), desde as seculares políticas aeroportuárias e universitárias aos Celeiros e ao Hospital (ao velho e ao novo); da Pronicol e da Estalagem da Serreta aos noveis empreendimentos sazonais no turismo; das lavouras e casas arruinadas, devolutas ou abandonadas, aos impasses estruturais e sociais (como os do “cerrado grande” das Lajes e da Praia da Vitória, ainda no adro), e das artimanhas estatísticas (inesperadamente avalizadas...), sem discriminação técnico-política de pressupostos e conclusões, até à heróica e psicologicamente compensatória beleza da neo-estatuária planetária e suas afins resoluções culturais em Angra....




E como se não bastasse o que acima se percorreu, também agora – com laivos de artística performance rudimentar à mistura –, lá temos outros honrosos emblemas, desde o artístico e arcaico curral estilizado nas Portas de S. Pedro às alfandegárias portinhas do mar e da marina, passando pelas rotundas das Avenidas, entre belas amarrações de rede e pedregulho, possantes atributos da nossa proverbial taurinidade (civilizacionalmente hegemónica?) e um atónito Álvaro Martins Homem roído pelos ventos das glorietas esquecidas desta terra no pedestal da sua secular e nobre capitania de antanho (sozinho para ali, a esfarelar-se...), não muito longe da em tempos sonhada pelo IHIT, mas adiada, estátua evocativa da gesta dos nossos Corte-Reais pelo nosso Canto da Maia, suplantado este também, ao nível de certas cachimónias locais, por aquela réplica de figura gâmica em apressado chão raso no famigerado Pátio da Alfândega, rodeada que está, nestes dias e noites de festarola de arromba, por paritárias tascas e geminadas tasquinhas, veraneantes de permeio e turistas em convivência cosmopolita, num arraial de happenings artísticos com caracóis, bifanas, cerveja e frenéticos selfies, em redor da esplêndida representação que nem à laia de peça de arte efémera provincianamente tivesse sido retirada de algum carro de desfile ou alegórico quadro, para cenário estético-popular, castiço e idêntico ao de um Portugal de pequeninos nautas, ilustradas baronesas e alegretes barões falidos mas cheios de bazófia de confraria bairrista, sempre por aqui muito ornada de retórico, vazio e gratuito ressentimento sibilino...






– E mais, digo – voltando ao assunto principal, para concluir – é que determinadas “reivindicações” terceirenses, provindas às vezes e esporadicamente também de certas (ditas) “elites” (?) locais, há anos e anos em lugares de medíocre, submisso ou cabisbaixo Poder político-social e partidário, só tem levado a (in)acção institucional, comodismo histórico-cultural e alienação decisória, coabitando a maior parte do tempo com silêncios e alinhamentos confrangedores (sabe-se lá até se tecidos de cobardias, conivências e ambições inconfessáveis...).

Ora é por essas e outras razões que concordei com uma proposta (nascida aliás há uma dezena de anos, e que retomei junto de tanta boa gente açoriana) sobre a legitimada, propícia e adequada criação nos Açores de um Centro de Estudos Judaicos, a sediar (por direito e merecimentos éticos, culturais e espirituais próprios!), na Sinagoga Sahar Hassamain (carinhosa, promissora e exemplarmente recuperada e reaberta em S. Miguel, com os inexcedíveis zelos e empenhos, dentro e fora do Arquipélago (no País e nos Estados Unidos), de Almeida Mello e da Câmara Municipal de Ponta Delgada (3)!



– E é por tudo isso, finalmente ainda, que volto a discordar hoje, à margem e contra qualquer tipo de bairrismo serôdio (incoerente, inconsequente, tardio ou em lei e letra mortas), daquela inusitada e abusiva reivindicação de (v)ir-se a arrecadar em Angra a famosa Torah (vulgarmente apelidada “de Rabo de Peixe”), que está hoje preservada e acessível na Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada após uma série de peripécias que, esperemos, hão-de ser sistematicamente clarificadas e esclarecidas em breve, para descanso de consciência e proveito autêntico, generoso e transparente de todos os competentes e habilitados estudiosos e amantes das heranças e destinos do Judaísmo no Mundo e entre nós, e bem assim dos genuínos e verdadeiros Amigos da nossa derradeira e honrosamente salva Sinagoga açoriana.


 De resto e na verdade, muitas vezes a substituição de uma letra por outra, como no Talmude, pode fazer toda a diferença de sentido, por entre vícios de princípio ou recalcamentos de berço... Tal como do respeito pelos justos direitos (e sérios deveres!) da gente difere aquele despeito apenas movido por uma má fé rasteira e por esganiços que não compadecem ninguém, antes sendo merecedores, para além de desprezo, de uma outra amadurecida, racional e afectiva sentença à Salomão...
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(1) - A propósito deste assunto e de uma abordagem satírico-política e ficcional na Secção "Maria Corisca" do jornal "Correio dos Açores" (Ponta Delgada, 19.06.2016), veja-se o texto "Uma Exigência de Angra", aqui:
http://sinaisdaescrita.blogspot.pt/2016/06/uma-exigencia-de-angra-ou-salomao-e.html


(3) - Ver em "As Heranças Hebraicas":
e "Duas Obras Admiráveis":

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Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 22.06.2016):




























RTP-Açores:
e Azores Digital:

segunda-feira, junho 20, 2016


Uma exigência de Angra
ou Salomão e a Torah
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Recebi de uma amiga terceirense, a residir em S. Miguel, uma ficcional cartinha de opinião satírico-política destinada a várias amizades e parentelas açorianas comuns e já divulgada publicamente no “Correio dos Açores” (CA) de domingo passado, com um picante, compreensível e crítico espírito de cumplicidade corisca... 

O assunto, opinado no “Diário Insular” de sábado último, prende-se com um desejo ardente, que por estes quentes dias sanjoanínicos se levantou inflamadamente bairrista, dramaticamente reivindicando, em nome de uma arrazoada e insólita “complementaridade entre ilhas e testemunhos” (sic), versus o sempre temido “concentracionismo” regional (micaelense?), a vinda (ida ou regresso?) para a ilha Terceira de uma Torah que supostamente fora da família Abohbot (durante anos residente na cidade de Angra do Heroísmo)!


– A história é conhecida, mas – ao que sabemos – deverá ainda vir a ser bem mais elucidada pelo Dr. José de Almeida Mello, historiador e respeitado director da muito notável e estimável Sinagoga de Ponta Delgada...


 É evidente, como se dizia no CA, que a questão, embora estando para além do agora extemporaneamente reclamado, vale também a pena ser retomada sem subterfúgios, tanto mais quanto foi por lá defendida a estupenda ideia de (re)meter imediatamente a dita Torah para os depósitos e guarda da abstrusa nova/velha Biblioteca Pública de Angra (obra lindeza dos sucessivos projectos, adjudicações, empreitadas, dinheiros e prazos sucessivamente descambados e denunciados pelo Tribunal de Contas (1), para além das generalizadas avaliações negativas, duvidosas ou reprovadoras da sua arquitectura, estética e volumetria, implantação na malha urbana citadina, previsão de custos futuros de funcionamento, funcionalidade e manutenção, etc.:


 – Coisas todas mais do que polémicas, como é sabido e a cartinha no CA também acentuava, mas sem sequer chegar a fazer referência ao resto das vergonhas que por aí pairam, à má sombra e rédea solta da mediocridade político-institucional instalada a quase todos os níveis e interesses corporativos ou de classe, e bem assim em praticamente todo o remanescente da paisagem monumental, industrial, comercial, turística, associativa e patrimonial terceirense em geral (e angrense em particular), desde a política aeroportuária e universitária aos Celeiros e ao Hospital velho; da Pronicol à Estalagem da Serreta e os noveis empreendimentos no turismo; das casas arruinadas ou abandonadas no centro da cidade aos impasses estruturais e sociais com o “cerrado grande” das Lajes e a Praia da Vitória (crises ainda no adro...), e até com a heróica e psicologicamente compensatória beleza da neo-estatuária planetária e suas afins resoluções culturais em Angra, desde o artístico e velho curral estilizado nas Portas de S. Pedro às alfandegárias portinhas do mar e da marina, passando pelas rotundas das Avenidas, entre belas amarrações de rede e pedregulho, possantes atributos da nossa proverbial taurinidade (civilizacionalmente hegemónica...) e  um atónito Álvaro Martins Homem, roído pelos ventos das glorietas esquecidas deste terra, no pedestal da sua secular e nobre capitania de antanho, para ali a esfarelar-se não muito longe da (sonhada pelo IHIT, mas adiada?) estátua evocativa da gesta dos nossos Corte-Reais pelo nosso Canto da Maia... – suplantado agora, também esse até, por aquela réplica de figura gâmica em apressado chão raso no famigerado Pátio da Alfândega e rodeado, por estes dias e noites, de paritárias tascas e tasquinhas com caracóis, bifanas, cerveja e animados selfies, à laia de peça de arte efémera provincianamente retirada de algum carro de desfile ou quadro alegórico, em cenário popular e castiço para um idêntico Portugal dos pequeninos nautas e dos alegretes brasões ilhéus.

E mais, digo – voltando ao assunto principal! – que tudo aquilo foi mesmo ali apontado no CA com fundamento sociológico e institucional bastante, que subscrevo aliás, tendo sido perpetrado, novamente, como infeliz e recorrentemente acontece, perante o silêncio (cobarde, cúmplice e demissionário?) de certas (ditas) “elites” (?) locais, há anos e anos em lugares de medíocre, submisso ou cabisbaixo Poder político-social e partidário, (in)acção institucional, comodismo histórico-cultural e alienação decisória...


 – Ora é por essas e outras razões (a tempo devidamente tratadas e sempre reabordáveis) que concordei logo com a citada proposta (nascida há uma dezena de anos e que também ouvi reafirmar, e identicamente retomei junto de tanta boa gente açoriana) sobre a legitimada, propícia e adequada criação nos Açores de um Centro de Estudos Judaicos, a sediar (por direito e merecimentos éticos, culturais e espirituais próprios!), na Sinagoga Sahar Hassamain (carinhosa, promissora e tão exemplarmente recuperada e reaberta em S. Miguel, com os inexcedíveis zelos e empenhos, entre outros, dentro e fora do Arquipélago (no País e nos Estados Unidos), de Almeida Mello e da Câmara Municipal de Ponta Delgada, conforme testemunhei em diversas ocasiões aqui mesmo (2) , e como aquela “corisca”, nossa amiga e correspondente no “Correio dos Açores”, mostrou ter ouvido e aquiescido também...).



E é por tudo isso, finalmente ainda, que volto a discordar hoje, à margem de qualquer tipo de bairrismo serôdio (incoerente, inconsequente, tardio ou em lei e letra mortas de qualquer alcance sério), daquela inusitada, abusiva, injusta e descarada reivindicação – apenas caprichosa (revanchista e invejosamente?) museológico-arquivística, bem merecedora, por esse lado, de outra mais amadurecida sentença à Salomão... – de (v)ir-se a arrecadar em Angra a famosa Torah (vulgarmente apelidada “de Rabo de Peixe”) que está hoje, devidamente preservada e acessível, na Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada, após uma série de peripécias que, esperemos, hão-de ser sistematicamente clarificadas e esclarecidas em breve, para descanso de consciência e proveito autêntico, generoso e transparente de todos os competentes e habilitados estudiosos e amantes das heranças e destinos do Judaísmo no Mundo e entre nós, e bem assim dos genuínos e verdadeiros Amigos da nossa derradeira e honrosamente salva Sinagoga açoriana.
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 21.01.2016):




sexta-feira, junho 17, 2016


Uma Alegoria pedestre
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A implantação da estátua evocativa de Vasco da Gama (obra do artista Duker Bower) no ataviado Pátio da Alfândega de Angra do Heroísmo tem gerado curiosidade, humorismo e atracção mediática, tanto mais quanto o seu solene e aparatoso descerramento foi inserido nas Comemorações do 10 de Junho.


Tradicionalmente concebidas, promovidas e ordenadas aquelas cerimónias do Dia de Portugal pelo Representante da República nos Açores, desta feita porém foram os eventos nelas constantes diluídos (subordinados?) a uma programação sensivelmente acoplada a acções autárquicas encenadas, à excepção da Recepção na Madre de Deus, em áreas ou facilidades municipais (Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo, e Convento de S. Francisco de Angra, para além do controverso átrio fronteiriço às proverbiais portinhas do mar e escadarias da marina da cidade de Angra do Heroísmo).

– Lembrar-se-ão disso, indiferentes ou cabisbaixos, os institutos locais e os partidos amorfos? Todavia e apesar de tudo, não há mal nenhum nessas parcerias socioculturais, ou em outras confluências de vário interesse análogo e mútuo proveito, porquanto assim em pragmática cooperação potenciam-se recursos, protagonismos e flamâncias...


Quanto à escultura do irmão de Paulo da Gama – enterrado este desde 1499 numa capela da igreja de Nossa Senhora da Guia (anexa ao Museu de Angra) e representado aquele em postura de animado caminhar (após o seu historiado desembarque, provavelmente na zona circundante da Prainha) –, remontava (conforme na altura o “Diário dos Açores” de 1 de Abril noticiou) o respectivo projecto já a 2013, oferta pródiga, meritória e empenhada, de Victor Baptista, um imigrante açor-americano de sucesso, entretanto agraciado com o grau de Comendador da Ordem de Mérito e que já havia brindado Portugal com a oferta de uma estátua do futebolista Eusébio.


 – Ora independentemente de retomarmos mais tarde este multifacetado tema, registe-se que as primeiras discordâncias ou reservas sobre aquela promissora ideia (quase perdulária e minorada presentemente, enquanto concretização material e implante in situ) – a par de um denunciado alheamento de uma outrossim exigível avaliação crítica e de coerente reflexão estético-arquitectural (v.g. sobre que critérios para marcação e inscrição física e simbólica em espaços públicos e urbanos de objectos e narrativas memoriais com potencial de impacto imaginário e honorífico, didactismo crível, encenação cívica e mediação interactiva!), prendem-se duplamente com a muito discutível fixação em raso da dita figura alegórica naquele lugar, como há dias fez deduzir, em Editorial, o jornal terceirense “Diário Insular”, ao lobrigar que, devido a tão “precário assentamento no chão, a não haver comedimento (e os excessos potenciais são mais que muitos agora que se aproximam as Sanjoaninas), podemos um dia destes acordar com a estátua vergada de joelhos”...


 Na verdade, tratar daquele tão incauto e provinciano modo um ícone tão glorioso (como se fosse peça retirada de um carro de desfile ou de um quadro alegórico sanjoanínico...), feito elemento meramente decorativo e de arte fantasista e efémera, e posto ali à acessível mão do disparo de selfies turisteiros ou das poses mais ou menos infantis de grupos e caravanas em alegre passeio e folia (para mais tarde se recordarem todos dos brasões da nossa mundial e patrimonial Angra, popularizada então como angra e ancoradouro de um brejeiro e regressivo Portugal de pequeninos, com motivos açóricos de honras perdidas, complexos de centralidade oceânica e presunções de grandeza antiga... –, não lembraria nem aos cortesãos de outras paragens, noutras ilhas de encanto e maravilha, ou de pesadelo exótico, lá por quaisquer Quíloas, Mombaças ou Sofalas que tivessem sido para aqui transplantadas, para contentamento de caciques balofos, conselheiros medíocres, castiços bairristas ou cidadãos já apenas sazonalmente folgazões!


 – Mas agora, que às Musas alheias de antanho somente agradeça “o nosso Gama/ O muito amor da pátria, que as obriga/ A dar aos seus, na lira, nome e fama/ De toda a ilustre e bélica fadiga”...
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 18.06.2016):



























Azores Digital:

Primeira versão em "Diário Insular",
Angra do Heroísmo, 18.06.2016: