domingo, julho 24, 2016


Agendas e Cortinas de Fumo
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Não há muitos anos um jornalista do DI publicava nestas páginas um artigo sobre projectos aeroespaciais e científicos previstos para S. Maria (assemelhada então a uma ilha de foguetões...).


Os tempos passaram e os planos da ESA (Agência Espacial Europeia) – envolvendo parcerias internacionais, nacionais e regionais – concretizaram-se.

– Depois, por via também dessas sofisticadas estruturas conjuntas, com inovações técnicas e tecnológicas de ponta e múltiplo alcance em várias áreas, aparelhos e complexos científico-industriais – que são ainda de monitorização, defesa avançada e vigilância das rotas transoceânicas e planetárias... – os Açores tentaram ganhar novas posições estacionárias (sempre negociais), co-presenças, créditos e mais-valias decisivas nos actuais e futuros horizontes de envolvimento naqueles domínios.




E isto embora os eixos da política, da diplomacia e da segurança operacional e preventiva europeias e norte-americanas (aliás em reconfiguração sensível) se tenham vindo a deslocar para as zonas do Pacífico e do Índico, sem que, contudo, se possam deixar desguardadas as costas e flancos euro-atlânticos (a Norte e a Sul!), na bacia do Mediterrâneo e no norte de África, para além, evidentemente das tradicionais (recorrentes porque quase “naturais” ou permanentes) fronteiras “internas” continentais europeias, – tanto mais quanto os últimos desafios e incertezas mundiais, e ainda face ao Terrorismo islâmico e suas mutações tácticas, toda a “reserva territorial” e de “intervenção e projecção de forças” (cada vez mais teleguiadas, rastreadas à distância/proximidade e altamente exigentes em termos de eficiência logístico-electrónica e armadura informática global) nunca deixarão vazias zonas nevrálgicas do chamado Ocidente, ou do que dele pode restar neste perigoso século XXI...



– A agenda ocidental (europeia e norte-americana) passa por aqui mesmo, e não será possível compreender tudo o decorre destes âmbitos cruciais sem a percepção integral e integrada de tais conjuntos e multifactoriais cenários de interesse, pensamento, acção. 



O resto, com mais ou menos rampas e foguetório provinciano (nacional e regional), nem para cortina de fumo dará!
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 23.07.2016):




























e Azores Digital:




sábado, julho 23, 2016


A Exemplar Biblioteca
de Adriano Moreira
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De Lisboa escreveu-me há uns meses um antigo colega da Universidade Católica e do Colégio Universitário Pio XII, dando-me conta de uma “bela visita” que fez a uma “admirável instituição”, e de como, pelo que viu e admirou, lhe chegaram à memória gratas reminiscências do convívio, magistério e estima que pudemos (e ainda gratamente podemos) manter com o saudoso Padre Joaquim António de Aguiar e com o Prof. Adriano Moreira (então assídua presença afectuosa e solidária no Colégio, e por assim dizer irmão laico daquele nosso sempre recordado e magnífico Director).

– Todavia, a carta do meu velho amigo (dirigente actual numa área jurídico-político e sociocultural de relevo no País), para além de factos que não cabe desenvolver nesta ocasião, e bem assim da congratulatória e fraternal surpresa que manifestou ao ter ali encontrado quatro livros meus, também veiculava outras pertinentes questões ligadas à sua revisitação transmontana.


Ora de entre esses assuntos retenho um, respeitante aos Açores em geral, à Terceira e a Angra do Heroísmo em particular. Assim, a dita missiva começava por descrever o projecto específico e exemplarmente concretizado do Centro Cultural de Bragança:


 Estrutura que remonta ao século XVI, foi sucessivamente Convento, Colégio dos Jesuítas, Seminário Episcopal, Liceu e Escola Preparatória; agora, recuperado em 2004, lá hospeda a Biblioteca Municipal, a Academia de Letras de Trás-os-Montes, o Conservatório de Música, Salas de Exposições, um Espaço de Memória da Cidade e a excepcional Biblioteca Adriano Moreira (que guarda dezassete mil livros doados pelo próprio, bem como as suas condecorações, diplomas e vestes académicas – tudo inventariado, descrito, catalogado, indexado, exposto e electronicamente acessível...).


 Finalmente, baptizado que também foi aquele integrado Centro com o nome do seu ilustre patrício (Prof. Adriano Moreira), nele justa e simbolicamente homenageou-se a grandeza dos transmontanos, enalteceu-se a sua identidade colectiva e as marcas da sua História!


 – E de facto, perante tudo isso, que tive oportunidade de observar posteriormente,  apenas posso realmente subscrever a admiração e a congratulação com que um “só visto!” conseguiu sinteticamente exprimir tão honrosa e dignificante obra!




 De resto, numa caracterização um pouco mais detalhada e que aqui fica somente de modo breve, devo assinalar que este Centro Cultural e Biblioteca Adriano Moreira, com duplo e complementar alcance pessoal e colectivo, material e simbólico, pluridimensional e multidisciplinar, é verdadeiramente precioso para o nosso País no seu todo, e pode contribuir para um mais aprofundado estudo e uma mais ampla compreensão da História, da Cultura e do Destino de Portugal no Mundo, a partir de uma espécie de cartografia crítica das leituras e do pensamento do insigne Professor e Estadista, tal como o seu acervo documenta e revela, ou pode ajudar a revelar, através dos sinais da sua eticidade – isto é, do seu tempo interior e pessoal, da sua histórico-civilizacional temporalidade vivida – que espelhada está nos seus livros, escritos, marcas de ideais, acções, sonhos e até das utopias, bem realçados no cruzamento espiritual e ideográfico, filosófico, jurídico-político, histórico-cultural, académico e religioso dos respeitosos e fraternos testemunhos dos homens que o conheceram e no praticamente unânime reconhecimento reverente da sua vida e obra, tão paradigmaticamente contidos nos textos, entre outros, de José da Cruz Policarpo, Almeida Santos, Marcelo Rebelo de Sousa, Anselmo Borges, Luís Salgado de Matos, Manuela Ramalho Eanes, Barbosa de Melo, Costa Andrade, Manuel Clemente, Joaquim Carreira das Neves, Rui Vilar, Cavaco Silva, Teresa Patrício Gouveia, António Montes Moreira e José Barata-Moura.




Ora a Biblioteca Adriano Moreira, conforme pode ser visualizado também através da respectiva Página Electrónica, está organizada de modo a permitir um acesso a vários núcleos temáticos, a partir dos quais podemos recolher todo um manancial de informação sobre “O Homem e a Obra” – Biografia, Textos e Livros publicados, Fundos Bibliográficos doados, Acervo da Biblioteca (Fundos, Classes e Dados organizados e pesquisáveis), Depoimentos Evocativos, etc. –, para além de disponibilizar in loco uma rica Galeria de objectos, peças e símbolos, imagens e artefactos culturais, artísticos, académicos e etnográficos coleccionados durante toda uma larga e profícua vida, ali abundantemente comprovada pelas muitas Condecorações nacionais e estrangeiras, Distinções Honrosas e outra Documentação Honorífica bem reveladoras da personalidade, do carácter e da alma do Prof. Adriano Moreira.




– Porém, depois, na referida carta daquele meu antigo colega universitário, logo de seguida me era perguntado se nas ilhas havia algo daquele género... E nem valeu a pena adiar e lastimar muito a resposta que todos bem sabemos, apesar das muitas e conhecidas valias das nossas Bibliotecas e Arquivos regionais açorianos.

Todavia, o que neste contexto e perante tal notável projecto, como é integral e integradamente aquele de Bragança, o que restaria inquirir por aqui é o seguinte:

– Já a propósito do previsto Centro de Interpretação de Angra do Heroísmo (Cidade Património Mundial), estará porventura previsto algum Núcleo Museológico-Documental (Municipal/Camarário), onde venham a constar as certamente muitas dezenas de elementos e peças (livros, medalhas, pratos, taças, moedas, diplomas, mapas, quadros, galhardetes, bandeiras, processos e objectos-recordação de visitas e geminações, prémios, condecorações, fotografias, etc.) que, provavelmente, como é tradicional, terão sido (ou não?) adquiridos, permutados ou oferecidos à Câmara de Angra (e/ou aos seus Gabinetes e Serviços oficiais dependentes) ao longo dos últimos anos (pelo menos desde 1980, ano do Sismo...), na certeza de que todo esse eventual património público e expectável acervo autárquico seria mais um valor devidamente devolvido à apreciação colectiva, e um preservado motivo de atracção para múltiplos fins de Cultura, História e Investigação, à semelhança possível (por mais pequena e proporcionada que fosse em quantidade e qualidade próprias...) daquele rico património e edificante projecto brigantino...


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domingo, julho 17, 2016


Indiferenças Históricas
e Demissões Actuais
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“A indiferença cresce. (...) É esta mesma apatia que encontramos também na área política (...).

“Não se trata, para falar com propriedade, de ‘despolitização’; os partidos, as eleições, continuam a ‘interessar os cidadãos, mas do mesmo modo (e em menor medida, aliás) que as apostas nas corridas, a meteorologia do fim-de-semana ou os resultados desportivos. A política entrou na era do espectacular, liquidando a consciência rigorista e ideológica em benefício de uma curiosidade dispersa, captada por nada e por tudo.


“(...) A res publica encontra-se desvitalizada, as grandes questões ‘filosóficas’, económicas, políticas ou militares suscitam mais ou menos a mesma curiosidade desenvolta de um qualquer fait divers; todos os cumes se abatem pouco a pouco, arrastados pela vasta operação de neutralização e banalização sociais”:

– Foi assim que um pensador francês actual (nascido em 1944, professor de Filosofia na Universidade de Grenoble e Doutor Honoris Causa pela Universidade de Aveiro em 2013) –, numa análise às sociedades ocidentais e à emergente civilização “pós-moderna” ou “hiper-moderna” – elencou algumas características da era do vazio, título onde compendiou tipificações das contemporâneas formações socio-históricas.


O tema é vigente e merece ser revisto a partir de tudo o que nos cerca e bate à porta, para mais face à constatável deriva diária das nossas comunidades profundamente marcadas não só por bloqueios viscerais face à possibilidade da sua própria auto-consciencialização crítica – a única que poderia levar à procura de modelos e valores alternativos daqueles que ora as condicionam, regem e determinam de modo hegemónico, e que as conduzem a estados de sujeição, vassalagem e não-reconhecimento (isto é, de total alienação subjectiva e objectiva) –, de tal modo que até as percepções antropológico-críticas do antigo niilismo trágico (clássico interrogador da condição humana e de todas as discrepantes e contingentes formas de saber e existência (fossem como radical protesto libertador ou evolutivas superações de Consciência possível, Razão e Moral), se revelam elanguescidas e metamorfoseadas em insignificantes figuras de apatia frívola, sonambulismo larvar, anomia face aos riscos, negação das alteridades e fugas ao pensamento e à acção, “a despeito das realidades catastróficas largamente exibidas e comentadas”!


– Formas, afinal, de incompetências sistemáticas, preguiças de zelo patriótico, ausência de elites e de lideranças esclarecidas, ignorâncias e menoridades em série, com recorrentes indiferenças seculares e históricas demissões cívicas, culturais e político-institucionais, agora “democraticamente” próximas dos provinciais arranjos pré-eleitorais que se seguem e das sub-repticiamente tentadas “diplomacias de pé de orelha”...


E tudo aquilo, repita-se, poderia ser dito e aplicado igualmente a propósito das presentes teses in abstracto, com foguetes políticos e foguetões de ciência à mistura (à maneira da Guiana, ou de alguns dos seus congéneres e co-implicados consórcios, aparelhos e complexos técnicos, tecnológicos, industriais e militares?), com outros, alternativos e novos interesses geoestratégicos sobre o ar e os mares dos Açores e da Base das Lajes, ao aparente serviço (inocente ou intencionalmente neutralizante por telecomando?) de agências e agendas muito pouco claras, pouco debatidas e nada legitimadas, a nível regional e nacional também!
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 17.07.2016):



























RTP-Açores:

e Azores Digital:





















Primeira versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 16.07.2016):





segunda-feira, julho 11, 2016


Os Balões do Regime
ou Pistões e Servo-freios
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Continuam os palpites sobre as Lajes a trepar por crípticos ares, dando sopros de falso entendedor ou sabido ignorante pelos hertzianos ou reais tipos atmosféricos deles (quem sabe se já a par de interpolados ventos estratosféricos...) –, como se vê por aí a par de flatos de voz, discurso ou entrevista que parecem provir apenas de camaradagens, compadrios ou lengalengas caseiras, conquanto outros levianamente garantam que são propícios e “mais que muitos” os seus próprios projectos (apesar de irrealistas ou lunáticos, receia-se, conforme a “esquerda” de certa canhota os sonha em bloco, por entre neblinas que nestes dias só empapam mentes e corpos).


 – Entretanto na alta-roda das hostes norte-americanas fazem-se duelos pré-presidenciais (onde tudo vale, mesmo a nossa rebaixada ou despromovida Base, face aos trunfos britânicos na rede planetária da western intelligence)!

Porém, cá mais pela baixa Europa (muito na onda cavalgante de compreensíveis patriotismos futebolísticos verde-rubros, conquanto amiúde passageiros, de mera compensação ou esporádicos), continuam tais tiradas a atravessar canais e oceanos, descendo colateralmente à terra os reports das guerras de Bush, Blair, Aznar e Durão Barroso (esse luso-artista do mais abjecto carreirismo da política, agora em nicho conselheiral e topo de firma e carreira na Golden Sachs!), sem acusações formais formuladas ainda pelos seus delitos de conivência, à revelia de transparência e num lodaçal de retóricas e subterfúgios de oportunidade!




Por outro lado, jornalistas, comentadores e analistas críticos bem que alertam para o rodopio de balões de ensaio (como bem escrevia o “Diário Insular”) nos nublados céus açóricos, perante intencionais recusas institucionais e político-partidárias em assentar cabeça e pés num chão (segundo a incisiva imagem usada aqui no “Diário dos Açores”) que era preciso ter medido há muito, despindo-o de alçapões históricos e retóricas enganadoras para consumo indígena (como se fôssemos, mais do que às vezes toscamente parecemos, uma qualquer Guiana ultraperiférica)...


 – Mas não tem sido fácil tal esforço, porquanto, no engate para o arranque das geringonças e carriolas do regime e do sistema “democrático e autonómico” estabelecidos, já se vão ligando motores de rotação costumeira nas máquinas eleitorais hegemónicas, onde encaixotar-se-ão servo-freios para pistão de assentimento dócil no denunciado cilindro das manigâncias partidárias, com a agravante de vermos novas subserviências serem oferecidas aos neo-intocáveis de Lisboa, a troco de um carreirismo de oportunidade e de alienadas consciências, já sem lembrança daquelas promessas, ilusões e recepções pacóvias aos BENS deste mundo e do outro, sem recordação dos comícios de rua, das arrogantes ameaças de quarentenas água (e de luz e de circulação...), e sem promoção de faixas de afrontamento indiscriminado a tudo e todos nas pontes e canadas de acesso à pista aeronáutica (não aeroespacial!) que temos no quintal das nossas casas!


Realmente, para quem tanto esbracejou às portas da velha e sabidona toca dos paços de Passos Coelho, é um tal fiar-se agora bem fininho e de mansinho junto aos santos camaradas dos terreiros de lá e de cá, dependendo todos esses e essas (com seus boys & girls) dos temíveis e cesarianos domínios e guarda-costas de Costa...


 – Voltarei a este tema, que aliás bem mereceria um por enquanto sempre adiado e amplo debate público regional e nacional, por outro exemplo na sequência daquilo que na Terceira o IHIT tentou, porém sem consequência e talvez de modo espartilhado e pouco trabalhado. Porém, perante a passividade quase geral das instituições e dos partidos (veja-se até o silêncio atroz ou a cumplicidade de quase todos eles, da direita à “esquerda”!), esperemos que o IHIT não desista e que seja a maior câmara da ilha, perante as actuais cedências ou incapacidades dos próceres praienses, a fomentar um processo de discussão fundamentada e de desmistificante debate público aprofundados sobre um problema que diz respeito a Terceira, aos Açores e ao País!


E por falar em casas (as nossas e a honra real, histórica e simbólica delas!), relembro o que aqui escrevi em Dezembro de 2013 a propósito do levantamento geo-cadastral e da destruição habitacional e patrimonial a que os ingleses aqui procederam após o seu desembarque com armas e bagagens (em 1943), processo depois diversamente continuado pelos norte-americanos no pós-guerra e, com conhecidas e comprovadas variantes geo-ambientais e humanas mais radicais ainda, durante a guerra fria e até há bem pouco tempo...


 – E foi isso mesmo que então aconteceu com muitos prédios, terrenos e moradias, que se situam identificadamente em zonas, ruas e canadas da freguesia das Lajes, Serra das Lajes, Santa Luzia, Juncal, Santa Rita e Serra da Praia, sendo – enfim… – que os respectivos donos ou moradores (pelo menos os daquelas propriedades que acabaram demolidas e das quais os donos foram forçosamente desalojados ou se viram desapossados) – acabaram depois por ser realojados em novos bairros circunvizinhos criados em redor da gigantesca pista de asfalto aeronáutico, em implacável e imperioso crescimento administrativo-militar (e político-diplomático...), num beligerante takeover da “moda da gasolina” que, como versejou Vitorino Nemésio, “Secou o trigo do chão”, e do “avião da carreira/ Carregadinho de bombas”, “Dando nicões de aço fino, / Traques de fogo de guerra!”…


 Voltarei certamente – como o fiz noutras abordagens académicas e várias vezes antes – a falar destes temas e do seu valor histórico-político, antropológico-cultural e sociológico, cujas virtualidades temáticas e de leitura científica multidisciplinar são imensas, e devem ser reactivadas hoje perante o sub-reptício, emaranhado e interesseiro foguetório de delírios aeroespaciais que vão povoando os nossos espectrais espaços!




– Mas, para já, o que aqui torno a deixar é somente um convite para que o leitor observe, sinta e reflicta bem e a fundo na verdade dramática e inspiradora da importância memorial e projectiva da existência e destruição real e simbólica daquelas casas, e das almas e corpos que as rondaram em vida, e que povoam ainda o nosso imaginário, na certeza do vasto e responsabilizante significado histórico-político, social, cultural e moral que ainda hoje tem para os Açores, para a Terceira, para a Praia da Vitória e – inegavelmente – para a trémula soberania de Portugal, com as suas tantas vezes estranhas, vendidas ou compradas honras e proveitos nacionais e regionais...
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 12.07.2016):



sábado, julho 09, 2016


Textos de Açorianidade
e Títulos da Autonomia
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1. Não fora a atenção de uma amiga faialense e talvez só daqui a mais alguns dias é que eu iria ler, como o faço habitualmente, a Newsletter da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (http://www.alra.pt/), na qual são sempre destacados eventos e marcos institucionais, culturais e artísticos directa ou indirectamente ligados ao Parlamento e à vida açoriana, sendo que aí é também geralmente seleccionado um Documento (livro, artigo ou publicação) cuja existência é significativa e consta dos Fundos ou Espólios existentes na Biblioteca da ALRAA, na cidade da Horta.


 – E foi assim, desta vez, que na referida Newsletter (relativa ao corrente mês de Julho) da Assembleia Regional (agora presidida por Ana Luís) a obra escolhida foi o meu bem lembrado livro Açorianidade e Autonomia, trabalho que concebi e coordenei em 1989 e cuja publicação, naquele ano, preparei e dirigi para a Signo (projecto da Brumarte, então jovem e pioneira empresa editorial, infelizmente já extinta, que marcou o panorama cultural e jornalístico insular ao divulgar um bom rol de autores, estudos, ensaios, novelas, contos, poesia, álbuns de arte, intervenções sociopolíticas, etc.).


 Ora a Newsletter N.º 18 da ALRAA, que aqui trago hoje às anotações deste texto, não só reproduz a capa da edição original (e única) da obra como faz uma breve, rigorosa e adequada resenha do conteúdo da mesma, transcrevendo uma passagem da minha própria Nota Introdutória.

De resto, como é sabido, para a preparação daquele meu velho livro contei com a inestimável colaboração, que então escolhi e solicitei, fazendo questão para que tal devidamente constasse na respectiva ficha bibliográfica, dos meus amigos Carlos Cordeiro (historiador comprometido e empenhado colega professor na Universidade dos Açores) e José Mendonça Brasil e Ávila (afastado agora da nossa presença regular devido a impiedosa doença, porém incansável investigador e distinto bibliófilo a quem devo um valioso companheirismo académico, debatidas e partilhadas leituras, e longos e já saudosos anos de solidário e fraternal convívio na Praia da Vitória e em Angra do Heroísmo).

– E é por tudo isso que, tornando a olhar para aquela recordação documental de há 27 anos, não posso deixar de evocar de passagem alguns factos e pormenores ligados à génese e história da sua edição, à estruturação e critérios da mesma antologia (“Páginas Escolhidas” é o subtítulo da obra), ao seu lançamento e recepção, e bem assim, afinal, ao seu próprio destino à luz do passado e do presente, deixando para posterior ensejo um tratamento mais exaustivo das temáticas e problemáticas que ali ficaram apontadas.


 2. Quando nos começos de 1989 estava em preparação a Presidência Aberta de Mário Soares nos Açores (durante a qual seria comemorado o 10 de Junho, em Ponta Delgada, com uma bela cerimónia durante a qual foi entregue o “Prémio Camões” a Miguel Torga – “Guardião do fogo sagrado da identidade lusitana, escritor de enraizamento, mas também ele emigrante, homem de viagem e da peregrinação, a sua própria e a nossa, tão admiravelmente contada”... – como salientou o Presidente da República no Teatro Micaelense), logo se começou a preparar essa visita de 14 dias (que decorreria entre 29 de Maio e 11 de Junho daquele ano, percorrendo todas as nove ilhas do arquipélago).

E foi de facto todo um diversificado, rico e minucioso calendário que foi frutuosamente trabalhado, em conjunto e consensualmente no essencial, pela Presidência e Ministro da República (Rocha Vieira), Forças Armadas e todas as instituições e entidades públicas, governamentais, autárquicas, associativas e culturais da nossa Região, com destaque para o Governo, chefiado por Mota Amaral e para o Parlamento (liderado por Reis Leite, cujo discurso, aliás, foi sublinhado nas passagens mais insinuantes...).

Todavia, na programação das deslocações e observações locais, foram ainda planeadas Exposições temáticas e algumas iniciativas editoriais susceptíveis de coincidir com a Presidência Aberta, de modo a que todas pudessem ser inseridas ou articuladas, como viriam a ser de facto, no roteiro mais oficial de Mário Soares e da sua ilustre comitiva (que trouxe aos Açores, entre outros, Natália Correia, Pedro da Silveira, António Valdemar, Mário Ruivo, Luís Saldanha, Lyon de Castro, Maria Barroso, Luís de Albuquerque, Joel Serrão, Carvalho Homem, Alçada Baptista e Miguel Torga).


– Foi pois na vertente cultural que ocorreram os lançamentos dos livros Poetas dos Açores (de Ruy Galvão de Carvalho), do 1.º volume da Obra Poética de Nemésio, dos dois primeiros volumes das Obras Completas de Antero e do álbum Açores, Paisagem sem Mácula (com fotos de Ana Esquível, prefácio de David Mourão-Ferreira e Jorge Forjaz), o mesmo vindo a acontecer assim, de modo mais informal, com o nosso Açorianidade e Autonomia (apresentado por Onésimo Almeida e oferecido aos convidados do Presidente, durante uma cerimónia rica de peripécias surpreendentes, autógrafos para memória e outras lembranças que deixo para contar noutra ocasião...).


 3. Ora foi precisamente no campo das iniciativas editoriais que se inseriram as duas aqui nomeadas publicações simultâneas da Signo: o livro de Onésimo, Açores, Açorianos, Açorianidade (subvencionado pela Irmandade do Hospital da Maia e cuja revisão acompanhei de muito perto), e o nosso Açorianidade e Autonomia (qualificado depois por Mário Soares como “tão interessante livro”), uma edição patrocinada pela Presidência do Governo Regional dos Açores.

Essas duas obras viriam a ser devidamente elogiadas por Soares no texto “Memória e Testemunho” com que abre o seu livro (sobre a Presidência Aberta nos Açores) Quando o mar acaba, o coração começa..., – um óptimo arquivo histórico-textual organizado por José Manuel dos Santos, com as Intervenções do Presidente da República e um notável acervo fotográfico de Luís de Vasconcelos e Alfredo Cunha, que guardo como gentil oferta enviada de Belém pelo seu Chefe da Casa Civil, Alfredo Barroso.


“Numa altura – escrevi eu a dado passo da Introdução a Açorianidade e Autonomia, que Mota Amaral tanto acarinhou e incentivou, e que comigo concordou no nosso optado e indicativo título teórico-programático assente numa reunião em sua casa – em que as problemáticas culturais, sociais, político-institucionais, económicas e técnicas da regionalização e do regionalismo ganham novas premências planetárias, perante os riscos e as promessas da unificação civilizacional e da interdependência crescente de Regiões e Estados, Povos e Nações, a especificidade da Autonomia do Arquipélago dos Açores reclama novo alento precisivo das condicionantes, situações, custos e potencialidades presentes, e inovadoras capacidades e estilos de resposta aos reptos do futuro.

(...) Novo e experimental arranjo, os textos [de Natália Correia, Nemésio, Luís Ribeiro, Galvão de Carvalho, Pedro da Silveira, Morão Correia, Armando da Silva, Matos Bettencourt, Gervásio Lima, Rebelo Bettencourt, Carlos Cordeiro, Mendonça Dias, José de Lacerda, Branco Camacho, Bruno Carreiro, Mont’Alverne de Sequeira, Caetano Albuquerque, Moreira da Mota, Luiz Bettencourt, Faria e Maia, Paula Nogueira e José Enes] reunidos (...), assim entendidos, poderão tornar a servir de ponto de mira e de partida para subsequentes, virtualizantes e potencializadores esquemas de mais englobante e sistemático estudo dos paradigmas todos que entretecem a memorial mundividência e a prospectiva actualização dos modelos de pensamento, de sentimento e de acção do Povo dos Ilhas dos Açores”.

Ontem, tal como hoje, na verdade, devo sublinhar à distância (e à proximidade) de quase três décadas de textos de Açorianidade e títulos da Autonomia...


 – Assim estejam (ou estivessem) todos os propalados e tácticos “autonomistas” de hoje, nestes amiúde decadentes e renegados dias e nomes açorianos, à altura de tão exigente apelo de um renovado e mais digno futuro outro, para o qual, sem honra nem glória, infelizmente, muitos não tiveram, não têm, nem poderão ter o mais rudimentar talento ou a mais exigível e legitimada força de razão, como ideal de vida ético-política e validade de virtuoso e liberto coração, “ (...) pelo aro das estrelas/ A compasso retido em mente pura/ E avivado nos vidros das janelas”.
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 09.07.2016):



























e "Diário Insular" (12. 07. 2016):