domingo, novembro 27, 2011

Os Plátanos e o Outono do Patriarca


A polémica à volta dos destinos a dar a uma conhecida e formosa alameda de plátanos junto à vila da Povoação, na ilha de S. Miguel, é exemplar a todos os títulos e bem pode servir como parábola ou paradigma de muitas outras ocorrências técnico-institucionais (e de outras tantas implantações…) que se verificam aos mais diversos níveis e diferentes campos, jardins, estradas e atalhos regionais, conforme a servidão ou o préstimo dos acessos…

Assim, tal modelo de desacertos, carências de coordenação dialogada e disparidade de interesses – e de graves faltas de bom senso e visão patrimonial, cultura de desenvolvimento e civilidade ecológica –, logo levou a situações caricatas (como se antes não tivessem já sido de tragicomédia emproada, mediaticamente denunciada…), bem reveladoras do lastimável estado de espírito, piso ou berma dos caminhos que vamos penosamente trilhando, à deriva e na ausência de rumos e bosquejos coerentes e credíveis!

Por outro lado e como é sabido, nestas questões relativas à Ecologia, aos Patrimónios Naturais, à Política para o Meio Ambiente, à Protecção dos Habitats, à Defesa das Espécies, à Protecção dos Animais, ao Turismo Ecológico, Paisagístico e Histórico-Cultural, etc. – realidades e potencialidades afinal todas interligadas –, sempre aparecem em presença, e recorrentemente em confronto, múltiplas posições e sensibilidades, às quais não são alheias outros tantos interesses e filosofias da Vida.

Porém, diga-se que o que se está abordando e propondo hoje como horizonte para reflexão não é só, nem sequer principalmente, uma estrita abordagem de políticas de ambiente, antes uma verdadeira e mais ampla ecopolítica (não confundível com a acepção “essencialmente organizativa e institucional” que àquela se encontra associada), porquanto, como muito bem já assinalou Viriato Soromenho Marques, poderemos afirmar que à concepção de ecopolítica se “deve vincular o projecto de uma crítica da política dominante, (…) de um outro modo de ver a política, de uma crítica essencial da teoria e da praxis política, baseada numa tomada de posição ao nível dos princípios”!

Ora tudo isto, que o caso da alameda dos plátanos micaelenses tipifica, só não teve, desta vez, um imediatamente infeliz, desordenado e irremediável desfecho técnico-ambiental e político devido à pronta e precaucional intervenção do presidente do Governo, o único verdadeiramente primeiro e último decisor de toda uma série de medidas tomadas na governação socialista açoriana (e também nas outras deixadas sem implementação!) por uma grandemente medíocre e incompetente galeria de humanos arbúsculos e demais plantas de mera decoração de gabinete (porém, e mesmo aí, sempre em sustentada estimação executiva e parlamentar…).

– Mas tudo isto ainda e finalmente, é tanto mais imperdoável, à medida que o tempo passa e se esgota, quanto, por entre tantas outras alternativas possíveis e outras melhores e mais emblemáticas hortênsias autonómicas, foram crescendo e continuarão parasitando até ao fim nesta insular árvore de patacas e de contemporâneos Malucos, como ervas daninhas ou viçosos esgalhados dos piores cepos partidários (ou das suas híbridas enxertias de conjuntura oportunista e lucrativa…), muitos daqueles troncos a que já nem a camuflagem das folhas tutelares e douradas, mas em declínio protector, do “grande senhor” dos plátanos – como no Outono do Patriarca de Gabriel García Marquez…) – consegue esconder os ramos gastos, reduzidos à sua real e improdutiva natureza, e na sua provavelmente penúltima floração.
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ttp://www.auniao.com/noticias/ver.php?id=26119
e "Diário dos Açores (27.11.2011)