sexta-feira, outubro 19, 2018



Um Debate frutuoso:
Indigências políticas
destroem a Autonomia

[ Entrevista com Eduardo Ferraz da Rosa ]



Passadas duas semanas sobre a realização do Debate, promovido pelo Grupo Parlamentar do CDS-PP nos Açores, sobre “Liberdade de Expressão e Sociedade Democrática”, que balanço faz das abordagens e repercussões dessa iniciativa?

Em primeiro lugar devo renovar palavras de congratulação por esta iniciativa, conforme aliás foi unanimemente salientado pelos membros da Mesa e por todos os participantes e intervenientes no debate, tal como depois também se constatou pelas repercussões e testemunhos expressos nos jornais e nas redes sociais.

Esta sessão teve não só uma significativa adesão presencial quanto mais se revestiu de um carácter aberto, pluripartidário e livre, desde logo reconhecível pelo timbre plural dos principais intervenientes e seus depoimentos.



– O tema do debate, no presente contexto da nossa vida cívica, sociopolítica, cultural e técnico-científica, estava bem sinalizado à partida, na induzida relação universal entre intervenção e participação societária e cívica; comunicação social e sistemas censórios; mecanismos de ocultação da verdade ou de condicionamento de opinião; papel dos jornalistas e recrutamento, estatuto e desempenhos dos assessores de Imprensa; prenúncios fragilizadores e dificuldade da comunicação social privada, etc.

Ora todas estas perspectivas foram abordadas a partir de leituras sectoriais e interdisciplinares, desde o Direito Constitucional à Legislação vigente (v.g. Lei de Finanças das Regiões Autónomas) e ao Direito Autonómico, da Filosofia e da Acção Social e Política à Ética e à Deontologia da Comunicação, passando pela análise e documentação de casos concretos e actuais, manifestações reais e diariamente constatadas de problemas interligáveis...



Na abertura do Colóquio, salientou que um “pano de fundo” do actual Debate seria o conhecido caso do Prof. Félix Rodrigues. Como vê a declarada intenção da Câmara da Praia ao anunciar que iria instaurar-lhe um processo-crime?

O Debate foi pontualmente também catalisado pelo caso referido, que constituiu, como era previsível e expectável, um horizonte imediato e próximo dos temas propostos, na medida em que a dita e anunciada intenção camarária logo gerou relevo justificado, não fosse o visado, coincidentemente, um universitário activista e um militante político.

– Todavia, a questão fundamental, que ultrapassou qualquer delimitação individual ou cingidamente político-partidária (embora não devendo escamoteá-las!) prendia-se e prende-se essencialmente com o exercício público da liberdade de opinião, criação, investigação, denúncia, pronunciamento crítico e precaucional, e obviamente de manifestação técnico-científica, para mais num domínio que entronca em áreas de especialidade, estudo e habilitação que até o próprio Parlamento Regional havia antes reconhecido!

Parece-lhe que esse hipotético processo judicial tem pernas para andar?

Não sabemos! Talvez que seja mesmo e apenas um arremesso hipotético, fruto de delírios passageiros, como se diz popularmente, sem tino ou “sem cabeça para andar”, ou então com pernas e pés mas para mancar, em jeito de intimidação ou condicionamento, quiçá na continuidade de cominações anteriores...

Já a adesão ou o implícito suporte parlamentar (regional, concelhio ou paroquial) do PS a tais pulsões ziguezagueantes da banda da Praia é sintoma lamentável e preocupante, não augurando nada de positivo!

Aliás, é manifesta a reserva e prudente distanciamento de outros sectores do PS, face às reincidentes e extemporâneas investidas do novel e imaturo elenco camarário “socialista” praiense...




– Porém, não fora a dura redacção das moções do CDS-PP (que acabaram por ter a virtude de fazer cada um mostrar o que era capaz de assumir!), possivelmente as suas propostas não teriam sido totalmente inviabilizadas... Ao menos a da ALRAA talvez não tivesse sido repudiada daquele modo, no que aliás se teria evitado a tristíssima manifestação de submissão colectiva de consciência, indigência político-jurídica e até cultural, das quais aquela orante bancada, balbuciante e aplaudente do PS, deu sobejas provas, outra vez...

Ao fazer a Apresentação do tema e ao participar no Debate, teve oportunidade de formular várias das suas próprias ideias sobre a problemática em análise. Quais as principais perspectivas que expôs e que salientaria para reflexão futura?

Comecei por salientar que a Liberdade de Expressão é uma conquista histórico-civilizacional das modernas sociedades democráticas, um direito fundamental constitucionalmente garantido e integrado no âmbito de todos os outros direitos, liberdades e garantias, de tal modo que a democraticidade de uma dada sociedade e de um Estado de Direito se pode aferir pelo grau de liberdade de expressão enquanto correlativo exercício de Cidadania.




Tal direito, em Portugal, está explicitamente consagrado no artigo 37.º da Constituição, devendo porém ser articulado com outros direitos constitucionais paralelos, confluentes e complementares, como sejam os consignados nos artigos 42.º (criação técnico-científica) e 64.º (saúde), todos eles mutuamente apeláveis para cabal entendimento e discussão do grave e pendente problema da contaminação dos nossos solos e aquíferos... Estas perspectivas foram conjugadamente muito bem traduzidas por Zuraida Soares e Arnaldo Ourique!

– No que à Comunicação Social diz respeito, sinalizei ocorrências marcantes da recorrente dificuldade de coabitação dos poderes políticos hegemónicos com a Liberdade de Expressão e de Informação, antes e depois do 25 de Abril de 74, salientando que os OCS são campos mediadores do mundo social, das suas instituições e agentes públicos e privados, recordando, com Bourdieu, que “o jornalismo é uma das profissões onde encontramos mais pessoas inquietas, insatisfeitas, revoltadas ou cinicamente resignadas”, o que ajudará a compreender fragilidades e bloqueios como os que foram alvejados por Armando Mendes.

Finalmente, no que concerne a globais configurações críticas, epistemológicas, éticas, políticas e científicas, tive ensejo de abordar em síntese o que constitui um campo mais avançado e exigente do Conhecimento, da tematização filosófica e da prática situada da produção de Ciência, nas suas conaturais dimensões sociopolíticas e precaucionais, tal como tem sido reflectido e assumido por técnicos e especialistas “tout court”, cientistas e pensadores sociais, decisores político-institucionais e pelos diversos actores sociais e cívicos, em comunidades locais e de pares, para partilha de informação, resistência e emancipação...




De resto, a incontestável e comprovada contaminação dos solos e aquíferos da Terceira – de novo confirmada nas prosaicas pautas do Orçamento de Estado 2019, e para cujas quantificações e traduções executivas devemos estar atentos! – representa e materializa um paradigmático repto para estudos de caso, entendimento multidisciplinar e consequências práticas, no domínio da ciência pós-normal ou pós-moderna que corre a par e no encalço de riscos sistémicos e de alargados desafios político-jurídicos (mesmo em cenários de Direito Internacional e da Diplomacia entre Estados soberanos...), com incidência nos patrimónios ambientais, ecológicos e de saúde pública, através também de ensaios epidemiológicos sistemáticos e de outros estudos independentes, sujeitos a contraditório, revisão constante e falseabilidade...


Toda esta matéria é de urgente e superior interesse regional e nacional, pelo que não poderá continuar a ser enfrentada com indigência política, pequenez de horizontes, arrogância, irresponsabilidade, comodismo, medo, ignorâncias ou conivências cúmplices...



– Nem, menos ainda, com vergonhosa cedência a toscas tentações cuja viciosa supremacia ameaça destruir pela base os próprios fundamentos constitucionais da Autonomia, sobremaneira atingindo a dignidade presente e futura do nosso Povo e das nossas Instituições, subalternizando a vida e a morte das vítimas da História e todos os direitos fundamentais do Homem, a começar pelo direito àquela Verdade que única e genuinamente garante alguma da tão esperada e sempre adiada Justiça!
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 19.10.2018):






















Azores Digital:



















e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 20.10.2018):







segunda-feira, setembro 24, 2018

Um Diplomata Singular:
Memórias e Visões de Franco Nogueira


O corrente centenário do nascimento de Franco Nogueira tem vindo a granjear inusitados destaques. Tendo conhecido, dialogado pessoalmente e estudado o pensamento e a acção deste ministro do Estado Novo, que sentido e importância vê nesses realces actuais?


Tendo presente a pessoa e a obra do Dr. Franco Nogueira (1918-1993) e o relevo que por estes dias o seu legado histórico-documental, crítico-ensaístico, cultural e político-diplomático justamente mereceu em diversas instituições e em alguns meios intelectuais e mediáticos, constato nessa renovada atenção – mas também em outras meras curiosidades de um falso, diletante e fútil suposto “escol” muito afim de uma massa sonâmbula de cidadãos e eleitores, e de mais ou menos levianos operadores e agentes da comunicação social...

(E neste parênteses relembro mesmo a mirabolante e sintomática inserção de uma imagem do galego generalíssimo Franco a ilustrar ali uma orelhuda notícia televisiva sobre o nosso antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros!)...




– Todavia, constato, vinha a dizer, nas verdadeiras, justificadas e merecidas atenções à sua distinta figura e acção, e concomitantemente ao período histórico-político, sociocultural, civilizacional e espiritual em que viveu, mais um potencial factor para estudo objectivo e aprofundado conhecimento de uma época tão crucial e decisiva na existência nacional como aquela que o País atravessou no Pós-Guerra, aí radicalmente comprometidas de modo real, pragmático-racional, doutrinário, filosófico e axiológico (porém ainda segundo categorias imaginárias, míticas e retóricas...) as representações e as mutações planetárias, neste caso mormente as nossas ancestrais configurações coloniais e ultramarinas, no complexo, acelerado e perigoso contexto euro-atlântico, americano, africano e asiático com que Franco Nogueira teve de lidar, primeiro como diplomata de carreira e depois, durante quase uma década, nos anos 60, como ministro de Salazar e de Portugal.


Comemorações e Homenagens



Entretanto, devo salientar, nesta efeméride do centenário do seu nascimento (17.09.1918), promoveu anteontem, em Lisboa, a Associação de História do Estado Novo (ASHNO), em colaboração com a SHIP (Sociedade História da Independência de Portugal), uma Sessão Solene de Homenagem ao Embaixador Franco Nogueira, nela tendo participado e intervindo também Aida Franco Nogueira e Joana F. N. Estrela (respectivamente sua filha e neta), com alocuções do Tenente-General José Batista Pereira (presidente da Mesa da Assembleia Geral da SHIP), Dr. José Alarcão Troni (presidente da Direcção da SHIP), Dr. Alexandre Lafayete, Prof. António N. Lorena, Prof. Jaime Nogueira Pinto (“Alberto Franco Nogueira, Um itinerário político-ideológico”), Coronel Brandão Ferreira (“O mundo conturbado em que Franco Nogueira viveu”), Embaixador António Tânger Corrêa (“Uma abordagem diplomática e pessoal”) e Dra. Joana Franco Nogueira Estrela (“Testemunho”).



Na mesma sessão foi relançado o livro Homenagem e Evocação ao Embaixador Alberto Franco Nogueira, obra editada pela nossa SHIP e então apresentada pelo General Manuel Themudo Barata no primeiro aniversário da sua morte, com textos memoriais de Joaquim António de Aguiar, António Martins da Motta Veiga, Henrique Martins de Carvalho, Joaquim Veríssimo Serrão, Jorge Borges de Macedo, João Hall Themido, António Ricciardi, José Alarcão Troni, Jaime Nogueira Pinto, José Valle de Figueiredo e Carlos da Silva Gonçalves.




Um Espólio notável

Por outro lado, a doação do monumental Espólio, ainda não trabalhado, de seu pai, que Aida Franco Nogueira acaba de fazer ao Arquivo do Instituto Diplomático do MNE (Ministério dos Negócios Estrangeiros), a cobertura jornalística de tal evento (nomeadamente no “Público”) e a publicação de algumas crónicas alusivas ao evento (como a de Nuno Rogeiro na “Sábado”), recolocaram, ou podem vir a proporcionar, novas abordagens à acção e ao pensamento de Franco Nogueira.



E isto na mesma medida em que uma reavaliação criteriosa dos seus desempenhos diplomáticos, ministeriais e parlamentares, a par de uma releitura interpretativa do seu situado pensamento fundante e da sua filosofia política, tal como subjacente ou expressa nos seus ensaios e reflexões (A Luta pelo Oriente, Terceiro Mundo, Debate Singular, As Crises e os Homens, Juízo Final, etc.), até mesmo como “doutrinação política de inegável alcance e profundidade”, nas palavras de Jaime Gama, que partilho, poderiam – talvez... – ajudar-nos a pensar e agir de modo a procurar conciliar a “tradição nacional na condução dos interesses do estado e a perspectiva democrática como base ética de legitimar qualquer modalidade de poder”.



Mas devo salientar que, apesar dos trabalhos já feitos e desenvolvidos, que bem conheço, sobre a vida e a obra de Franco Nogueira – e que sobremaneira nos interessam de vários pontos de vista ... –, muito haverá ainda a desbravar e descobrir em tão vasto, complexo e sugestivo campo.

Em que circunstâncias, que recordações pessoais e que impressões reteve de Franco Nogueira e da sua obra?

Conheci-o na década de 80, em Lisboa, no Colégio Universitário Pio XII, onde o Embaixador era visita e conviva praticamente semanal do nosso Director, Padre Dr. Joaquim António de Aguiar, seu indefectível amigo e confiante confidente, que a ele me apresentou e com quem, em comum, partilhei memórias e ideias.



– A sua presença ali vinha desde 1960 e prolongou-se até à sua morte, apenas tendo sido interrompida durante o exílio de Franco Nogueira, em Londres, de Setembro de 1975 a Abril de 81, e naturalmente enquanto esteve preso abusivamente durante 7 meses no Forte de Caxias, no rescaldo revolucionário do 28 de Setembro, após ter sido ignobilmente detido pelo COPCON a ordens do chamado “Serviço de Coordenação da Extinção da PIDE/DGS e LP”, na altura chefiado por Guilherme Conceição Silva (oficial da Armada, militar do MFA e Secretário de Estado da Comunicação Social, irmão de Tomás Conceição Silva, futuro ministro da República para os Açores). O Embaixador detido foi libertado a 13 de Maio de 1975, sem julgamento...

Foi-me pois assim dado conhecer, conviver e dialogar muito próxima e assiduamente com o Dr. Franco Nogueira, além de ter podido receber e consultar as suas publicações e assistir às suas notáveis Conferências, no âmbito dos programas preparatórios dos Encontros Internacionais de Estudos Europeus.

– A este propósito, por exemplo, remeto ainda para os Textos Evocativos (1999) e as confissões diárias de Um político confessa-se (1986) de Franco Nogueira, e para o volume Educação e Cidadania, em Memória do Padre Joaquim António de Aguiar (Coimbra, Almedina, 2017), livros que serão sempre testemunhos inolvidáveis de vida, cultura, pensamento e solidariedades muito para além de pontuais convergências ou divergências de ordem ideológica, política ou meramente interpretativa da História e dos Homens imersos nas crises do Tempo ou em tempo de Vésperas...



Mas Franco Nogueira foi não só um profundo conhecedor do nosso País e do Mundo – incluindo os Açores que estão presentes na sua vida e nos seus combates diplomáticos, mas cuja abordagem específica e de relação multimodal deixo para outra ocasião e desenvolvimento futuro... –, quanto ainda foi um cultor da escrita, de finas análises de leitura e cultivo das letras, crítico literário, historiador, observador acutilante, frontal e amiúde humorista, por vezes “imperial e impassível” (como o definiu um membro da conflitual administração Kennedy...).



Dele guardo pois a lembrança viva de um temperamento rijo, republicanamente timbrado desde cedo, estoicamente religioso, porém sem qualquer beatice clericalista, enfim, um carácter íntegro e patriótico, uma personalidade clássica e como que filosoficamente dialogante mas autónoma, homem prudente, reservado e resistente nos seus firmes princípios e valores, e nos seus sonhos por igual, quase angustiadamente debruçado sobre os sinais do Abismo da humanidade, os ventos do Tempo e as grades da História:



– Daqueles ventos e grades (O Vento e as Grades é o título do livro de poemas que escreveu naquele incomunicável fecho físico da sua clausura prisional...), que ele sentia estarem a desaparecer num mundo em mudança, sem remissão de partida ou retorno, para si e talvez para a Pátria, quem sabe se simplesmente a entristecer numa qualquer praia lusíada, ou nas muralhas naquele mítico forte de S. António, face ao Oceano e sob um fantástico Céu estrelado de Portugal, como ele narra, tão visionária e poeticamente, numa espécie de antiga e iniciática vigília de armas, ao lado do seu Príncipe...
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(*)  Texto revisto da Entrevista concedida ao jornal “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 22. 09. 2018). 

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Em “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 29. 09. 2018):





Jornal "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 22. 09. 2018):






















Azores Digital:

http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=3354




sexta-feira, junho 22, 2018


ARTUR CUNHA DE OLIVEIRA:

UMA FIGURA MARCANTE 

NA CONSCIÊNCIA DOS AÇORES



DIÁRIO INSULAR (DI) – Conviveu de perto e conhece bem a vida e obra do Dr. Artur Cunha de Oliveira. Como vê os seus legados e o seu desaparecimento?

EDUARDO FERRAZ DA ROSA (EFR) –Vejo com muito pesar o seu desaparecimento e sinto com profunda tristeza a sua ausência como perdas para toda a sociedade açoriana e para os estudiosos do seu pensamento e heranças intelectuais, cívicas e culturais.

– O Dr. Cunha de Oliveira foi e será sempre inolvidável referência na história contemporânea do nosso Arquipélago, na reflexão dos Açores sobre si próprios, na sua consciência societária e suas derivas, modelos e projectos de afirmação e desenvolvimento sociopolítico, mental e socio-religioso.

Trata-se, enfim, de uma figura cimeira daquela ilustre geração que marcou a vida e os destinos das ilhas, especialmente no período do pós-guerra (época que sobremaneira possibilitou e moldou a sua formação teológica em Roma), e que até ao final do Século XX potenciou todo o seu múnus eclesial e o seu corajoso, continuado e persistente envolvimento cívico e militâncias ideográficas, doutrinárias e sociológicas (Semanas de Estudo, Cursos de Cristandade e Planeamento Regional), para além de compromissos associativos, político-partidários, parlamentares e socio-comunicativos, com destaque para o jornal “A União”, que dirigiu com Artur Goulart, e sob cuja saudosa direcção, lá pelos idos anos 70 do século passado, tive acesso livre e aonde dei os primeiros passos numa situada e arriscada escrita de intervenção, apesar da Censura política, eclesiástica ou clerical, então (embora maior do que a de hoje...), hegemónica, retrógrada e opressiva!




DI – Quais as áreas ou campos temáticos que mais salientaria em Cunha de Oliveira?

EFR – Em primeiro lugar, o seu trabalho exegético e a muito minuciosa e precisa hermenêutica bíblica (que cultivou desde cedo na sequência de estudos especializados e da apreensão e adopção de decisivas categorias perfilhadas pelas novas escolas pré e pós-conciliares, que continuou a acompanhar de perto e que foram dogmaticamente cerceadas, entre nós e no País em geral, pelas hierarquias diocesanas e suas proverbiais conezias, ou não fossem tais teses inquietantes para a ordem estabelecida e a medíocre rotina clerical, teológica, pastoral e social imperantes...).

– Reveja-se a este propósito apenas o teor do famoso caso local da Gruta e do Presépio, ou mais recentemente as suas derradeiras e sistemáticas abordagens desmistificadoras, desconstrutivas ou desmitologizantes no complexo, intrincado e melindroso campo interpretativo e orto/heterodoxo da Escatologia, da Cristologia, da Antropologia Bíblica, da Ética, da Moral, da Mariologia e da Dogmática Católica.

Em segundo lugar, como salientei no Elogio Cívico e Académico que lhe fiz a quando da cerimónia pública de justa e merecida atribuição da Medalha de Honra Municipal angrense (2005), devo tornar a realçar o travejamento propriamente filosófico do seu pensamento, de resto inseparável de uma sólida, ou ao menos tentada, Teologia Transcendental, historicamente pós-kantiana conquanto ainda Tomista, como nela costumávamos dialogar à sombra do nosso predilecto teólogo Karl Rahner, mas passando pelos chamados “mestres da suspeita”, pela análise do Discurso, da Linguagem, do Sistema dos Mitos, Ritos e Crenças, da História das Religiões, da Economia da Salvação e da Economia Política...

– Mantenho aliás também presente haver ali salientado que Artur Cunha de Oliveira fora também um dos primeiros, se é que não o primeiro intelectual ou académico, teólogo e biblista português, a estudar a obra de Paul Ricoeur, por exemplo.

Finalmente, relevo o seu empenhamento nas pioneiras estruturações político-administrativas e na visão prospectiva de uma plural e progressiva Autonomia Regional possível (entre social-democrata, socialista democrática e democrata-cristã, se é que tal conjugação se poderá ou poderia harmonizar...), desde os alvores do 25 de Abril aos ocasos vigentes e vegetantes daquilo a que hoje estamos decadente e sonambulamente sujeitos...




DI – Como gostaria que Cunha de Oliveira fosse lembrado entre nós?

EFR – Gostaria que fosse através da sua paradigmática coragem e força crítica e emancipadora, da sua capacidade de trabalho e reflexão, da sua lucidez sonhadora ou utópica...

– E depois, para quem fosse ou seja crente, que tivesse presente e olhasse para o essencial da Mensagem de humanidade que se reflecte e incarna no ressurrecto testemunho daquele a quem, um pouco como os grandes teólogos protestantes, ele afectuosamente chamava “Senhor Jesus”, o mesmo que estará afinal sinalizado na apelativa e iluminativa porta de toda a sua obra (tão injusta e intencionalmente ignorada na Região e no País!), como exemplar Presença e Manifestação no Tempo, daquele outro Mistério que é o do Futuro Absoluto, apenas (quem sabe se somente agora, talvez...) já vislumbrado por ele... 
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(*) Texto, especialmente revisto da Entrevista originalmente concedida ao jornal “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 22 de Junho de 2018).





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Idem em Azores Digital: http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=3342

e jornal "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 26 de Junho de 2018):














domingo, maio 13, 2018

Um Projecto Crítico na Praia da Vitória 



A Câmara Municipal da Praia da Vitória começou a promover uma série de Debates sobre a sua cidade. Como encara essa iniciativa?

Vejo esse projecto de modo positivo e com expectativa, tanto mais quanto o mesmo parece, em declarado princípio, pretender contribuir para pensar e fazer pensar o futuro, de modo participado, aberto, livre e público.

– Esse primeiro e promissor sinal, apelo e convite à participação da sociedade civil, poderá talvez constituir, tanto pelos temas formulados como pelos participantes e moderadores, por certo intencionalmente escolhidos para os diferentes painéis, uma relativa garantia para encarar desafios realmente existentes e construir “soluções exequíveis e consensuais”.


Devo ainda salientar o facto dos membros dos painéis não serem reconhecidamente afectos aos sectores político-partidários que vêm sustentando e governando ultimamente o concelho da Praia...

– Tal projecto deverá assim, com certeza, ultrapassar um mero concurso de ideias para marcar efemérides ou campanhas pontuais...

Parece-lhe poder tratar-se de um projecto equívoco ou artificioso?

Não creio, e oxalá não o seja, atendendo ao perfil cívico, técnico e ético das pessoas envolvidas.


– Trata-se, porém, indiscutivelmente, de uma arma de dois gumes, que poderá ser interpretada, aproveitada ou instrumentalizada, de vário modo, para cerceamento de possíveis demarcações críticas a assumir face às comprometedoras agendas institucionais e pendentes imbróglios que esta Câmara herdou, quando não até em confronto com a poderosa e hegemónica dominação do aparelho terceirense, regional e nacional do PS!

O futuro da Praia passará inevitavelmente pela ultrapassagem dos problemas actuais. Como caracterizaria a presente situação?

Esta complexa e difícil conjuntura é resultado de um longo processo histórico-político, socioeconómico e sociocultural, cujas raízes e causas assentam em remotos factores endógenos e exógenos, proximamente acumulados e vigentes desde meados do século XX, passando pela Revolução de 74 e por todas as governações da Autonomia!



– Desses relembro apenas, a estudar para compreender, os seguintes:



A chegada (agora downsizing) de tropas, instalações e estruturas logísticas estrangeiras, ligadas à concessão de facilidades e contrapartidas nacionais e regionais na Base das Lajes, com abdicações de soberania e episódios predadores de territórios identitários e patrimónios naturais (veja-se a contaminação ambiental), a par da colateral edificação de um microcosmos desenvolvimentista, de desejável vida melhorada e prosperada mas arriscadamente efémera ou provisória porque sem confluente reinvestimento de fundo reprodutivo, prospectivo e autosustentado;



- consumação de opções e ditames inconsequentes das sucessivas e controversas governações açorianas e continentais (de todas, repito, sem excepção!);

- esvaziamento do papel liderante, ou ausência de elites concelhias e de ilha na discussão e definição dos planos e planeamentos locais e do arquipélago (bastas vezes apenas esboçado no populismo de uma inócua retórica bairrista), com a inexistência, falência ou dependência de um sólido tecido social, empresarial, cultural e cívico envolvente;



- reprodução de mecanismos de condicionamento e governamentalização do espaço público, privado, mediático e decisório;

- partidarização totalitária das formações, organismos, agentes e atores socioprofissionais e político-administrativos,


e – enfim – tudo isso e o mais que fica para outra ocasião referir, num (previsível e aliás anunciado...) quadro internacional, geoestratégico e diplomático desfavorável às especificidades da Praia e da Terceira, atirando esta terra para situações de impasse, incerteza, bloqueio ou decadência societária, que as suas gentes angustiadamente sofrem e da qual legitimamente se ressentem, apesar da sua resiliência, aspirações realistas (e utópicos sonhos...) de desenvolvimento, respeito e dignidade!


– O primeiro e urgente passo para solucionar esta crise deveria pois passar pela percepção aprofundada e pelo rigoroso estudo sistemático dos factores e condicionantes aqui apontados, para que, a partir daí, se pudesse então tentar superar o triste estado de coisas a que chegámos, fazendo e cumprindo o que está longe de ser sequer pensado...
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Idem Entrevista ao "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 08 de Maio, 2018):




"Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 13. 05.2018):




Em Azores Digital: