sábado, setembro 15, 2012

O Golpe do Coelho




1. No vocabulário clínico, biomecânico e da sinistralidade ortopédica e neurológica é usada a expressão “pancada ou golpe do coelho” para denominar um grave impacto (geralmente pela retaguarda, popularmente dito pelas costas ou no lombo, e tecnicamente designado whiplash: à letra, chicotada, choque, embate de chibata ou vergasta) e a eventualmente decorrente letal lesão cervical ou lombar que, na sequência desse violento golpe, é gerada com a desarticulação ou destruição de vértebras, desagregando-as, destroçando-as e podendo assim até provocar o esmagamento profunda da própria medula espinal.

Ora – conquanto sem culpa nenhuma dos mimosos e adoráveis bunnies domésticos, pascais ou outros que magicamente saem das cartolas dos prestidigitadores… –, e pese embora a real carga arrepiante que a metáfora aqui lembrada contém (além da efectiva praga que os ditos mamíferos orelhudos podem às vezes consumar…), foi essa analogia, de entre muitas, aquela que mais exactamente me ocorreu ao ler e cotejar selectos depoimentos – cinco ao todo, como os dedos diferenciados de uma mesma mão –, a propósito das últimas medidas fiscais anunciadas pelo governo PSD/CDS-PP de Lisboa & Troika…

Na verdade, as antinómicas intervenções e os respectivos conteúdos, exemplares cada um a seu modo – de Passos Coelho e Vítor Gaspar, por um lado, e de Marcelo Rebelo de Sousa (na TVI), Pacheco Pereira (com o notável artigo "A mudança do tempo político", no Público de 8 de Setembro) e Manuela Ferreira Leite (na sua excepcional entrevista à TVI 24), por outro –, constituem outros tantos documentos preciosos para a caracterização político-institucional, socioeconómica, crítico-ideológica e ético-política dos cruciais e controversos tempos históricos que Portugal dramática e agonicamente calcorreia, a modos de uma procissão de penitentes, desfile de condenados ou coro de escravos…, porém quando já despontam ao final da avenida as marchas da resistência e da justa revolta do Povo e da Nação!

– E tudo isto é tanto mais espantoso quanto, para além daquilo que os restantes partidos unanimemente condenaram com todo o fundamento (e mais tornaram a repudiar após a patética entrevista do Primeiro Ministro à RTP), foi mesmo de dentro do PSD (nacional) e do CDS-PP (nacional e regional açoriano…) que se levantaram agora as mais altas vozes contra o descalabro político e a hecatombe social com que a incompetência, imaturidade, insensibilidade, casmurrice, autismo e fraudulenta retórica e prática do (des)governo de Coelho e Portas golpearam Portugal e os Portugueses.

Mas isto é também uma boa lição para quem aparou todas as irresponsabilidades de antigas e execráveis lideranças políticas, ou ainda lhes venera a miserável memória dentro do Partido Socialista – cuja história e nobreza de ideais ao serviço de Portugal e da Democracia, felizmente, estão muito para além da vulgaridade interesseira de alguns daqueles que dele famigerada e conjunturalmente se serviram – e amiúde ainda se servem! – para desonra ou hipoteca de nós todos…, o que aliás explica muitas das conhecidas relações turbulentas de tantos e tantos Socialistas verdadeiros e sérios com o seu e nosso partido, como quando o PS estiolou e se afundou sob a regência de medíocres sofistas, oportunistas encartados ou expeditos carreiristas!

– E depois, finalmente, é por isto mesmo que também sempre senti, como escrevi antes e posso novamente subscrever hoje, as límpidas e corajosas palavras do meu velho e estimado amigo e camarada José Medeiros Ferreira sobre um tal de Sócrates e o seu pesado e obscuro legado nacional e partidário: – “Nunca o apoiei. […] Não fazia parte da minha cultura política. Uma diferença de natureza”!
                                              

2. Agora, e postas as coisas no decisivo e esclarecido ponto em que estão após a autêntica ameaça que as opções do PSD/CDS-PP acrescida e comprovadamente representam para o País inteiro, mais importante então será garantir uma alternativa vitória nos Açores, de modo a ser dada aqui, simbólica e estrategicamente também e por este meio democrático, mais um sinal de resistência e uma firme voz de protesto – uma espécie de convocatória cívica – para regeneração urgente, retoma da esperança, desenvolvimento justo e gradual libertação de todos os Portugueses, em novos moldes…

De facto e neste contexto, caberá aos Açores desempenhar e cumprir um duplamente exigente papel:

– Vencer os partidos que suportam e se suportam (n)o actual governo reaccionário, insensato e discricionário de Lisboa, e assegurar, com generosidade, solidariedade, humildade, seriedade e transparência, uma nova etapa e o relançamento de um modelo efectivo e sustentável de desenvolvimento integral, isto é, de crescimento económico, de emprego, de equilíbrio financeiro, de empreendimentos produtivos e rentáveis, de promoção humana e cultural sistemáticas, de aplicação criativa e de valorização prioritária do trabalho, da saúde, da educação e da justiça social e fiscal – enfim –, do possível, necessário e merecido para uma vida mais digna, mais próspera, mais culta e mais feliz para os Açorianos, através da reafirmação efectivamente renovadora de valores e dos ideais da nossa identidade pessoal e colectiva, na construção de uma confluente Autonomia progressiva!

Todavia tal desiderato não poderá, evidentemente, deixar de atender auto-criticamente aos recorrentes falhanços institucionais, programáticos e individuais de sucessivas governações, bancadas e governanças, reequilibrando finanças, pagando dívidas, acertando contas, saneando e corrigindo vícios, gerindo e aproveitando virtudes, e chamando os melhores para pensar e dialogar, dirigir e administrar com consciência e mãos limpas o que é de todos e o Bem Comum, sem tentações de vender almas ao diabo e a palavra aos açaimes, e sem corromper, por abastardamento violento ou alienante, ou com tratamentos de choque mortal, todo o corpo societário e moral da nossa sociedade, já de si tão vulnerável, empobrecida, confusa, amedrontada, descrente e ferida por tantos (suicidários, intencionais ou incautos, vergonhosos e quase identicamente patéticos) golpes de coelho…

           
3. Entretanto e já depois de escrita uma primeira parte deste artigo (14 de Setembro), tiveram lugar as mais do que expressivas, impressionantes e gigantescas manifestações populares nacionais contra a política do governo de Passos Coelho (que falam por si!), a par da continuação das já esperadas ou previsíveis e consabidas tomadas de posição por parte dos partidos, parceiros e formações sociais, das quais é justo salientar o exercício de equilíbrio político-partidário (com algum denunciado mas notável e controlado malabarismo à mistura…) de Paulo Portas, e bem assim os reacendidos argumentos de Manuela Ferreira Leite (no jornal i do dia 15) e de Vítor Bento (em entrevista à TVI).

Quanto a esta última intervenção, mesmo sem entrarmos de pleno em âmbitos fundamentais e próprios da Filosofia Política, ou logo em questões ideológicas (conquanto estas nunca possam ser escamoteadas nas respectivas funções e escalas!), deve ser dito aqui que muitas das suas reflexões, vindas aliás na linha de abordagens prévias (v.g. em http://www.youtube.com/watch?v=TaXilMs8250&feature=related), já haviam sido feitas anteriormente também por outros, embora com variantes de discurso e argumentos.

– De qualquer modo, como seria de aguardar de um Economista tão sério, ponderado e consciencioso como Vítor Bento, é sempre bom repensar, frontalmente e sem falsificações iníquas, as doenças do País, o remédio e o seu sucedâneo, como ele diz… Coisa que Passos Coelho, infeliz, irresponsável e incompetentemente, não soube, nem nunca certamente saberá fazer nem transmitir!

De resto, muitas das questões teóricas e práticas, quase todas afinal as aqui abordadas, andam irrecusavelmente centradas naquilo que na obra Economia, Moral e Política (Lisboa, FFMS, 2011) vem assumido assim:

– “Como se poderá verificar […], sustento, nomeadamente, que a Economia, enquanto estudo da realidade ou, mais propriamente, do comportamento humano relacionado com a actividade económica, é uma ciência positiva e, como tal, (praticamente) autónoma de considerações morais. Mas que a economia, enquanto actividade humana, funciona sempre em contextos morais. E que toda a acção que visa influenciar o funcionamento da economia, ou mesmo os juízos formulados sobre esse funcionamento e os seus resultados, são, sempre e por natureza, moralmente orientados e dependentes da escala de valores morais de quem julga ou de quem age (ou quer agir). E que uma tal acção pertence, também por natureza, à Política.

“ […] É claro que, quanto mais diversas foram as escalas dos intervenientes, mais difícil será a eficácia da acção política, quer se trate da sua formulação, quer se trate da sua concretização. Por isso, as sociedades que melhor conseguem articular o seu funcionamento e a sua acção política são aquelas em que é possível criar consensos morais para a acção política”…

– Lúcidas e prudentes palavras estas para os perigosos e abismais dias que correm, aonde, na inversão exacta da expectável e paciente ordem das coisas, dos valores e dos sacrifícios, quiseram vender lebre por gato a todo um adiado e agora revolto País …


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Em “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 16.09.2012);
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Regressos à Escola


Com o início do ano escolar regressam estudantes e professores às suas labutas, deixadas para trás as férias grandes, com saudosos dias de praia e campo, noites (ou noitadas…) de Verão, amores e desamores estivais de um tempo cujo ritmo apenas se deixa medir pelo brilho solar ou pelo envolvimento enluarado do sonho, da viagem, das batidas e passos livres do olhar, do corpo e da alma, pelos mais reais ou imaginários caminhos e atalhos da terra e das suas simbólicas matérias ou físicas paragens, e dos céus e das mais variadas leituras, geografias e poéticas, numa proporcionada conjugação de Clássicos, Modernos e Contemporâneos (Calvino, Borges, Onfray, Lévi-Strauss ou Theroux, ao lado de Camões, Mendes Pinto, Pessoa, Saramago, Aquilino, Alçada, Garrett ou Nemésio, entre tantos outros, para peregrinações distantes ou interiores, e regressos de mundos outros ao quintal da casa…).

Entre nós, a estação que agora declina a par dos dias que encurtecem, ficou como sempre marcada pelos cíclicos festejos, correrias e corridas de gente e toiros – festas e folguedos (profanos e religiosos cada vez mais híbridos!) – por estas ilhas fora e em quase todas as freguesias, paróquias e lugarejos da Terceira.

– E depois ainda as célebres e celebradas Sanjoaninas e as Festas da Praia articuladas com renovados roteiros inter-ilhas e encadeados Festivais de mochila, tenda, chinelo e demais apetrechos para dormir ou apenas superficialmente passar pelas brasas de esquivas rêveries, talvez em busca de um tempo já perdido ou ainda para chegar das brumas de uma crise que a todos atinge e reflexamente condiciona…

Porém regresso à Escola são também, cruamente, livros caros, mega-escolas contra freguesias e comunidades locais (“pólos de desenvolvimento”, qual o quê!?), desemprego ou desmotivação de professores e famílias inteiras, desadequação de programas, indisciplina, sobrelotação e miscigenação etária corrosivas, proliferação de droga, horários saturantes, subculturas reinantes e preguiças de estudar, aprender e ensinar!

– Assim, o resto e o que nos resta é só mesmo a Esperança, igual à alegria dos desenhos das crianças no quadro negro da Escola que os vai receber, sabe Deus como…
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sábado, setembro 08, 2012

UMA EVOCAÇÃO
DE ADRIANO MOREIRA 



Na passada quinta-feira, dia 6 de Setembro, comemorou o Prof. Adriano Moreira o seu nonagésimo aniversário de vida, efeméride justamente lembrada em diversos círculos intelectuais, académicos e mediáticos, com especial destaque para o Jornal de Letras e para a RTP1 (com as Entrevistas respectivamente feitas por Soromenho Marques e Fátima Campos Ferreira), para o Público (com a publicação de um belo texto de Isabel Moreira sobre o seu Pai) e para as redes sociais (v.g. no Facebook, onde temos e vimos acrescidamente agora partilhados, com outros reconhecidos amigos, depoimentos e apreços pela sua exemplar figura).

Por mim – que tive, há cerca de trinta anos, a feliz possibilidade de conhecer Adriano Moreira e de poder contar desde então com a generosidade honrosa da sua Amizade pessoal e da sua colaboração institucional –, não podia deixar passar esta significativa ocasião sem, também aqui e a partir destas insulares paragens, evocar a sua longa Vida e a sua vasta e rica Obra, mesmo que apenas na circunstância de um breve e localizado testemunho.

– E é assim que estou a vê-lo chegar, vezes sem conta e anos e anos a fio, ao gabinete de trabalho do Padre Aguiar (seu irmão de peito, trabalho e cosmovisão…), lá no nosso saudoso Colégio Universitário Pio XII, para dialogar, desabafar, ensinar, conferenciar, moderar, animar e partilhar tantos e tantos sonhos, certezas, medos, desencantos e persistentes projectos alternativos ou complementares, ajudando a pensar sempre e a agir a par e em consequência para a frente e para cima (como recolhera de Teilhard de Chardin), naquele seu carismático e testemunhal misto de sapiente e vivo olhar crítico, simultaneamente esperançoso, céptico, ansioso e utópico sobre o Mundo e a História, a Política e a Estratégia, a Cultura e a Fé Cristã (nomeadamente face ao “desafio que a doutrina conciliar trazia ao legado humanista europeu” e não só…), – enfim, sobre a Identidade e a comunidade de Destino de Portugal e dos Portugueses (afinada com Agostinho da Silva), numa incansável, inquebrável, indomável e amiúde crucificante procura agónica e redentora dos sinais do Tempo (categoria histórico-civilizacional e metafísica sempre presente em toda a sua pujante reflexão intelectual e nas suas narrativas literárias, memoriais e espirituais, como A Espuma do Tempo, Memórias do Tempo de Vésperas paradigmaticamente revela).

Numa época tão indigente como a nossa, evocar o Prof. Adriano Moreira, gratamente escutar a sua palavra e atentamente auscultar a memória das suas experiências e lições, configura um dever de exercício de verdadeira cidadania universal e um direito de apelo à inteligência nacional, – como ele escreveu, para a urgente “nova definição do estatuto de Portugal, [actualmente] mais resultado colateral do globalismo do que da responsável governação”…
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sábado, setembro 01, 2012

O Poder das Teias


Em finais de Novembro do ano passado, tive oportunidade de publicar nestas páginas um texto intitulado “As Colunas do Poder”, onde registava a grande notoriedade – especialmente em importantes OCS nacionais – que haviam então merecido conjugadamente a Maçonaria e a Política lusas, numa “significativa, ampla e desusada abordagem, à qual não faltaram muitos dos atraentes motivos e ingredientes que sempre estiveram, e ainda estão, associados àquela aureolada instituição”, não deixando de reparar ainda que causava alguma estranheza o facto de ser precisamente em época de crises generalizadas que entre nós esses temas tivessem sido trazidos ao espaço e ao conhecimento da generalidade da opinião pública da forma como o foram, sendo porém que o que mais terá motivado muita da oferta de tal produto mediático fora certamente o rol de nomes dos “irmãos” por ali e na ocasião elencados como pertencentes à dita associação secreta, – para além, naturalmente, do facto de tal tema ser mesmo apaixonante, revestindo-se de inusitados alcances, directos e indirectos, para o estudo da História e das Mentalidades.

Ora agora, conquanto nada disto sendo novidade de maior, cá vemos outra vez o assunto nas manchetes dos OCS e nas redes sociais, só que desta feita com a divulgação confluente, no Blogue “Casa das Aranhas” (http://casadasaranhas.wordpress.com/), de uma vasta lista (cerca de 1.400 membros da Maçonaria), onde figuram, embora pela ordem alfabética divulgada apenas até à inicial “M”, nomes, provavelmente reportáveis a 2004/5, de figuras públicas nacionais e de alguns reconhecidos indivíduos dos Açores e da Terceira (v.g. na Loja “Vitorino Nemésio) …

– Todavia a relevância do caso advirá talvez, para alguns, ou da comprovação daquilo que já era de há muito mais ou menos sabido, ou então, por outro lado, conforme já afirmaram António Reis e António Arnault (antigos Grão-Mestres do GOL), devido a esta divulgação ser “muito preocupante” por assinalar uma “intrusão” no sistema informático da sociedade secreta a que pertencem, ter sido obra de um “infiltrado” ou fruto de uma “imprudência”!

Seja lá como for, do elenco dos tão ilustres maçons vindos presentemente à luz do dia creio poder tornar a concluir-se que na Maçonaria, como em todas as instituições, haverá gente de bem, de mérito e de genuína valia, a par de outros – como hoje é mais do que evidente continuar a poder ser constatado! –, cuja errática e oportunista carreira, mediocridade humana, intolerantes práticas e pérfidas jogatinas de poder, influências e fortuna serão mesmo o contra-testemunho contínuo e recorrente de quaisquer tipos de nobres ideais fraternos e humanistas (ou assim pretensamente assumidos como tal nas cabeças trianguladas e nas pedreiras brutas daquelas lojas e lojecas) …

– E depois ainda, como escrevi antes, se este é um assunto também profunda e propriamente filosófico, político-institucionalmente muito crítico e cujos contornos sistemáticos, teóricos e práticos devem ser sempre relembrados com frontalidade –, não menos importantes, fundamentais e decisivos são os problemas do secretismo institucional, do conflito de interesses e até da hipocrisia pessoal e do cinismo ético e convivencial que estão aqui profundamente co-implicados, – passando até e amiúde (ou imaginando passar…) os ditos “irmãos” a toda a restante sociedade civil e à livre comunidade cívica comum um repugnante e inadmissível atestado de menoridade mental, cultural e espiritual, quando não até a reivindicação de um estatuto de excepção, intolerável à luz da transparência social e democrática do Direito, da Justiça e da Verdade!
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sexta-feira, agosto 24, 2012


O Sono das Responsabilidades


Numa Democracia parlamentar, cabe (ou deveria caber…) aos partidos políticos um importante papel em toda a actividade directa ou indirectamente ligada à governação, ao exercício livre e responsável da cidadania, e à participação individual e colectiva na vida institucional, cultural e cívica do respectivo País ou Região…

– E isto tanto mais quanto essas organizações (legalmente constituídas, reconhecidas e funcionalmente financiadas em retroacção com e pelo Estado…) costumam deter um controlo quase absoluto sobre todos os mecanismos e instâncias do Poder, numa teia imensa, complexa, co-implicada e inter-urdida de agentes, factores e interesses que depois e na prática são quem e o que domina os aparelhos, formações, estratégias e mecanismos decisórios, ideológicos e materiais da sociedade!

Por outro lado, e como é natural, neste e noutros âmbitos da existência humana em comum, são muitos e variáveis os valores, os princípios, os objectivos e as configurações que essas estruturas representam, assumem, medeiam e executam segundo lógicas díspares e até conflituais, mas sempre fundamentalmente dirigidas à tomada das rédeas e redes de governo ou à sua perpetuação hegemónica nos mais sortidos centros e tutelas do mando societário, político-jurídico, psicossocial e espiritual das nações e dos cidadãos.

– Nada disto é historicamente novo e sempre foi pensado, reflectido e ensinado desde os clássicos, tanto para prevenir como para remediar os males civis e morais, o correlativo descrédito do político e a desordem ou a desorganização social, fenómenos que já o bem lembrado personalista Emmanuel Mounier reconhecia como próprios do descrédito e da decadência da própria Política, – então aí e assim arrastada “pelas mais baixas zonas da ideologia, do sentimentalismo e da intriga”, e aonde a vida pública (como aliás também a vitalidade da vida privada) degenera, recalcada “num domínio fechado, tão estranho ao homem interior que aqueles que conservam o sentido da pessoa e o que nós chamámos o sentido do próximo adquiriram pouco a pouco uma invencível repugnância por ela”, – sentimento talvez só equiparável à triste indiferença que um povo livre (quando tornado escravo…) manifesta ao dormir o sono solto “da abjecção e da ignomínia”, como ainda perto do espírito das nossas insulares, injustas e recorrentes realidades muito bem denunciou o nosso Antero!
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sábado, agosto 18, 2012

Uma Dança de Cadeiras


Berta Cabral, ao ser confrontada – e fazendo frente a um gesto-alvitre nada inocente… – com a possibilidade de Maria do Céu Patrão Neves poder vir a deixar o lugar para que foi eleita (como é sabido, na altura em substituição inusitada, forçada e então muito mal aceite no PSD-A, de Duarte Freitas), de modo a vir a integrar um eventual futuro executivo regional, logo se apressou a afastar tal hipotético cenário, dizendo mesmo que a actual deputada europeia permaneceria mas era muito bem onde presentemente está, e que, portanto, o seu casual ingresso num governo do partido de Passos Coelho nos Açores, presidido por si, lhe estaria vedado!

O caso, por si apenas, não traz novidade nenhuma e tem importância nula para a governação açoriana, qualquer que ela venha a ser, até porque Patrão Neves, quiçá injustamente, nunca foi figura muito implantada no PSD local, por razões e impressões pessoais, até talvez de uma certa inveja ou ciumeira pouco abonatórias, mas acima de tudo porque muitos sociais democratas açorianos ainda não se esqueceram de todo o processo que levou à candidatura europeia daquela predilecta mandatária e conselheira de Cavaco Silva…

– Por outro lado ainda, a ninguém que a conheça minimamente passará pela cabeça imaginar aquela tão activa, insinuante e cativante nova especialista e tirocinada em Agricultura e Pescas, depois da sua tão fulgurante carreira política nacional e internacional, regressando a prazo, de pastinha debaixo do braço, aos seus pequenos, conquanto luzidios, canteiros departamentais e intelectuais púlpitos na UAç…

Porém e seja lá como for que as coisas andem ou desandem nos jogos internos de uns e outros, o que importa retirar da lógica inerente a estes sinais e premonitórias peripécias – e nisso Berta Cabral tem toda a razão! – é que, mais do que antecipar ou atender a ensaios de dança para certas cadeiras do poder, valerá pensar, fazer pensar, decidir e trabalhar autenticamente para os Açores e com os Açorianos – com verdade, inteligência, isenção e generosidade – naquilo que a Autonomia, a Democracia e o Desenvolvimento de nós exigem renovadamente hoje, deixando o resto e o ajuste das contas da mercearia insular para segundo plano de intenções, ou para o balcão do fundo da loja…

– Se é que esse inferior nível de compra e venda de títulos passageiros e bugigangas institucionais já não desterrou ou usurpou de vez, em todos os partidos e nas suas listas (negras ou em branco, tanto faz…), a real importância de tudo o mais e do melhor que, desse outro modo irracionalmente enquistado, civicamente obscurantista e político-partidariamente degenerado, com toda a certeza lhes faltará sempre em créditos, credibilidade e mérito!
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sábado, agosto 11, 2012

A Saúde da Nação


Embora algumas das principais abordagens até agora feitas na Comunicação Social e em certos fóruns partidários a propósito da Política de Saúde – com raras, previdentes e cautelares excepções individuais – tenham sido especialmente urdidas por força de meras argumentações tácticas, interesses conjunturais e tendenciosas, parcelares e obsessivas fixações em questões relativamente pontuais – ou apenas político-partidariamente usadas como recorrente arma de arremesso para-eleitoral –, não há dúvida que uma frontal, isenta e profunda reflexão crítica sobre esta e outras questões essenciais da nossa vida institucional e colectiva (como a Educação, a Cultura, o Trabalho e o Emprego, a Segurança Social, o Desenvolvimento Económico, o Controlo e o Equilíbrio Financeiro, a Democraticidade e a Transparência da Governação…) é cada vez mais necessária, urgente e prioritária!

Entretanto e ainda sobre a dita problemática da Saúde, novamente nos últimos dias, voltámos a assistir – e desta feita com grande destaque – na imprensa da capital, a impressivas e empolgantes notícias sobre aludidas e “catastróficas dívidas” regionais açorianas que, segundo as mesmas indistintas, pouco clarificadas e clarificantes fontes originais (e secundárias também…), teriam já atingido “montantes astronómicos”… 

E logo, como seria de esperar, o teor e as quantificações das referidas “denúncias” – na sequência aliás de outras identicamente tecidas no Arquipélago desde há algum tempo… – motivaram uma série de contraposições, cálculos alternativos e contra-fundamentações económico-financeiras, orçamentais e políticas…

– O problema, quer se queira quer não, é sério e complexo, pelo que merecia um corajoso levantamento e uma rigorosa resposta integrada, cujos perfis e contornos – enquanto os mesmos dizem integral respeito à mesma Política e Gestão da Saúde e dos respectivos sistemas e subsistemas – deveriam ir desde os financeiros e técnico-científicos aos da gestão administrativa e da formação profissional dos seus agentes, passando pelos, amiúde bem díspares, diferenciados, conflituais e até desmemoriados interesses corporativos, comerciais e deontológicos que neste terreno se digladiam (demasiadas vezes por cima dos bem sensíveis e reais corpos sociais e pessoais dos doentes e demais utentes dos serviços públicos e privados da Saúde …).

Porém, uma coisa seria a análise objectiva, serena e isenta de todas estas importantes e nucleares questões, e outra, bem diversa, é o aproveitamento e a distorção táctica das realidades quantitativas e qualitativas que também neste campo se entrecruzam, com intenções e fins de veracidade e interesse duvidosos para os Açores, para quem aqui governa e/ou pretende vir a governar (ou continuar a administrar) a nossa Região Autónoma! 

E depois, diga-se já, mesmo que de passagem apenas, que quem se mostra principalmente direccionado à destruição gradual, planeada e concertada do próprio Sistema Nacional de Saúde enquanto tal não parece muito vocacionado para a correcção das suas maleitas, desvios ou desvarios!

– Finalmente, quanto a certos OCS e a alguns infames políticos que pululam na choldra em que o País se tornou desde há muito, já sabemos do que gastam, reproduzem e vendem por lá e por cá, demasiadas vezes numa espécie de voyeurismo em marketing vicioso, impotente e irresponsável, que tanto desnuda e dá desrespeitosa e quase impúdica capa aos públicos e familiares factos e fatos de banho e toalhas do primeiro-ministro de Portugal e sua família, quanto oculta, omite ou falseia, sem dó nem piedade nem compostura solidária (ou apenas ética que fosse!) de qualquer espécie, os mais essenciais problemas, direitos, deveres, aspirações, medos, impasses e fragilidades dos nossos cidadãos e das suas vidas a arder ou imoladas nos altares do mais abjecto capitalismo neoliberal, financeiro, predatório e agiota que devora tudo e quase todos os povos e países do Globo!

A situação não é, infelizmente, nova, e já Eça, em 1871, testemunhava assim e do que via: 

“O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os carácteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências”…

– E como haveria de ser de outro modo, ainda contemporaneamente, por parte de quem, externa e internamente, ao longo da História da Nação e da Autonomia, sempre nos tratou sob regimes de canga (ou “como se andássemos de tanga”…), e nos pretendeu institucional, material e simbolicamente submissos, incautamente alinhados ou politicamente coniventes com os alienantes e conhecidos ditames de controlo e exploração em múltiplos terreiros (nacionais e regionais) do Poder, sem a devida e proporcionada partilha de custos e culpas a pagar pelas afinal comuns e discriminatórias heranças, a par de outras equivalentes menoridades histórico-geográficas, político-ideológicas, mentais e morais?!
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Publicado em Azores Digital: 
"Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 12.08.2012):
 - http://jornal.diariodosacores.pt/;
Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 11.08.2012):
 - http://www.diarioinsular.com/.

sábado, agosto 04, 2012


As Espumas da Praia


Na ilha Terceira, as Festas da Cidade da Praia da Vitória tem um historial mais ou menos vasto e conhecido, apesar de reincidentes omissões e de pequenos e forjados mitos que – amiúde – rodeiam certas e (des)ajeitadas narrativas individuais e algumas protocolares e retóricas evocações institucionais (demasiadas vezes feitas conforme vai convindo aos conjunturais, variáveis e mutáveis interesses de indivíduos e grupos hegemónicos na vida política, associativa, comercial e económica dessa antiga, nobre Vila e sede do Concelho do mesmo nome).

O caso, de resto, não é exclusivo dali e bastaria aliás uma simples compaginação dos seus aproveitamentos e sucessivos programas, discursos, comissões, orçamentos, propagandas, divulgações promocionais, feiras, reportagens e imagens documentativas ou publicitárias para fazer-se uma ideia mais rigorosa e proporcionada dos seus a seus donos e donas, e das respectivas e reais aferições de custo-benefício ou contrapeso de despesa-investimento-ganho a diversos níveis de avaliação quantitativa e qualitativa…

Porém seja lá como for – até porque não será esta a ocasião adequada para balanço das contas desse rosário – a verdade é que as chamadas “Festas da Praia” vem gerando uma notória e crescente expectativa, tem efectivamente granjeado uma medrante popularidade na ilha, alcançaram um significativo impacto regional e junto das nossas comunidades imigradas, e conseguiram pontuar alguma inovação e qualidade estética (especialmente nos seus Cortejos e Marchas) que é justo registar e salientar, apesar do esbatimento ou inexistência de muitas outras, desejáveis e regulares componentes que uma regrada programação festiva, sociocultural, artística e lúdica deste (digo, de outro alternativo ou, pelo menos complementar…) jaez vem reclamando desde há demasiado tempo!

Todavia, de todo e qualquer modo, estas Festas parecem mesmo conseguir avivar uma genuína e ciosa intuição de pertença memorial e de dilatada identificação espácio-temporal de e entre os Praienses, envolvendo-os a todos e àquelas num particular sentimento saudoso (embora nem sempre muito criticamente consciencializado, mas que por si só é positivo, humanamente compreensível e acaba justificado).

– E como não haveria de ser assim? – quando, para além do mais que fica para outra Crónica –, como dizia um dos seus filhos mais afectiva e intelectualmente pródigos – “bendito seja o deus do encontro, / O mar que nos criou […], Pois fica-se sabendo/ Que da espuma do mar sai gente e amor também”…
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Publicado em:
“Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 05.08.2012) – http://www.diariodosacores.pt/n/
Outra versão em:
“Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 04.08.2012) – http://www.diarioinsular.com/

sábado, julho 28, 2012


As Tendas da “Silly Season”



“Silly Season” é uma expressão anglo-saxónica muito usada, corrente e já globalmente tradicional para identificar a época de Verão e os respectivos tempos e ritmos calmosos, mais ou menos supostamente letárgicos e modorrentos, de pasmaceira ou torpor, como se a existência activa, as sensibilidades e as consciências ficassem então possuídas de uma espécie de sonolência lenta ou abúlica que fizesse perder a noção das realidades e dos problemas do quotidiano…

E tudo isto, paradigmaticamente, sob a torreira do sol, as ondulações do mar, as mornas envolvências da areia das praias, a abençoada frescura das árvores, a pacífica e pacificante sombra das pazes campestres, ou a trepidante e frenética dança de cinturas e cabeças que longos dias e cálidas noites – entre refrescos e alguns cocktails (em salgalhada de mau gosto partidário amiúde inseridos em pepineira fanática nas redes sociais, com músicas vivaças ou cantigas ao luar e à mistura…) – vão fazer abanar e talvez cair a alguns, por entre sorrisos de conquista, assédio, pequenas e grandes tentações ou fantasias para todos os gostos, e muitas tendinhas e grandes barracas em velhos e novos acampamentos de interesse!

– Todavia, nesta altura em que todos procuram usufruir de um retemperante descanso estival ou gozar das chamadas “férias grandes”, aquela denominação (à letra: estação tonta ou imbecil…) continua a ser especialmente usada na gíria política e jornalística para significar a quadra do ano em que nada de importante e decisivo se mostra ou aparenta (não) acontecer na vida social e institucional, enquanto a chamada “classe política” vai a banhos ou a outras vilegiaturas de tipo turístico e desopilante, após um ano de pesados (mas não necessariamente forçados) trabalhos e ciclópicas canseiras executivas, parlamentares, tribunícias, autárquicas, etc.

Ora, como é sabido, essa e esta, a nossa, também cosmopolitamente assumida estação ocorre num ritual intocável e impoluto, aonde corpos e almas vão buscar urgente alento (e, às vezes, bem necessária e real inspiração) para aquele outro ciclo da vida pessoal, ou das (suas) carreiras políticas, que dá pelo outonal e suave nome francês de “rentrée”…

– E não há mesmo partido que se preze que não tenha até já planeado o seu palco de animações, ou um parque de diversão, para tão fatalmente previsto, grandioso e mobilizador desfile de actores institucionais e de exímios protagonistas da política-espectáculo que temos, enquanto o País arde e desespera com maus agoiros e ventos cruzados de todos os quadrantes, como naquela parábola do incêndio na Cidade, ao lado da autista tenda do grande Circo (como o filósofo Kierkegaard lúcida e previdentemente contava).

E todavia, a par de idênticos alheamentos nossos contemporâneos, cá temos o mesmo Povo, cada vez com menos Pão mas batendo palmas entre alienações e festarolas de Verão, já nas vésperas das pateadas e da fuga às responsabilidades, quando as contas forem tiradas a limpo, depois de tanta incauta e irresponsável brincadeira com o fogo durante sucessivas, acumuladas e arriscadas silly seasons, – bem armadas todas à tradicional moda portuguesa, desde Belém ao Caldeirão do Corvo, passando ali pelas sedes partidárias à portinhola de cujas barracas as primeiras cabecinhas a despontar não auguram nada de promissor…

– E assim parece que iremos de imaturidade em casmurrice crescentes até aos derradeiros desplantes e à derrota final, coisa aliás bem adequada ao espírito da presente quadra, e da outra que, daqui a um ano, promete trazer do mesmo ou pior, perante a cobarde claudicação dos créditos de quem deveria, sem miopia partidária ou estupidez política, ver muito mais e melhor para cada uma das nossas ilhas e para a Região no seu todo! 
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sábado, julho 21, 2012


As Representações da Autonomia



Se todos os actos eleitorais, a todos os níveis, se revestem de grande importância – enquanto modos formalmente concretizadores do exercício da Democracia e meio mais ou menos eficiente de e para manifestação da vontade popular e individual, assim e por isso mesmo, em tal regime ou sistema de organização da vida social dita soberana e legitimada pelo voto dos cidadãos –, não menos decisivo para a autenticidade dos processos institucionais dessa particular forma de participação política e cívica é o próprio mecanismo integrante e decorrente de tais actos, nomeadamente naquilo que desde sempre e mais historico-filosoficamente a propósito da Democracia foi fundamentalmente pensado.

Na verdade, desde a problemática da natureza mesma da Democracia e da condição natural do Homem como um ser social e político, até às problemáticas das possíveis e várias configurações que na prática esse sistema do governo já se arrogou – ou pode ainda vir a assumir –, passando pela magna e essencial questão das delegações do Poder e das suas várias modalidades de contratualização ou contrato para a produção da Lei e da ordenação da Sociedade, estas questões continuam tão merecedores de análise e reflexão quanto o foram nos primórdios gregos da História do Pensamento Ocidental.

– Por outro lado e ao longo da própria evolução das sociedades, cada vez maior acuidade ganhou a percepção de que em todos os actos político-eleitorais livres, ou assim exponencialmente desejáveis, em jogo entra toda uma complexa série de factores que entroncam em outros tantos sistemas de entendimento filosófico, político-jurídico, social, moral e simbólico, cujas mútuas coordenadas nunca deveriam esquecidas nem escamoteadas!

No caso dos Açores, com a proximidade das eleições regionais do próximo Outono, de um ou de outro modo, embora à pequena escala da Autonomia democrática que em parte conquistámos e em parte nos foi outorgada, estas problemáticas também podem e devem ser pensadas, – para mais numa altura em que, nunca talvez como durante a última década, nada do que se passa e passará no País importará tanto à nossa Região, a começar pelo próximo Orçamento do Estado…

Ora, pelo que se ouviu dos principais partidos do regime e sistema que temos, a(s) data(s) proposta(s) ao Presidente da República para a marcação das Eleições Regionais são mesmo importantes para uma rigorosa avaliação, um mais transparente delineamento e uma mais esclarecida capacidade de escolha popular entre os vários modelos, agentes e programas em presença actual e implementação futura. E neste caso, francamente, toda a razão assiste à devidamente justificada proposta do Partido Socialista! E se mais não houvesse que escutar para reflectir, bastaria talvez apenas observar bem as fotografias das delegações partidárias do PS e do PSD que se deslocaram a Belém, levando as respectivas moções de calendarização para o aguardado, importante e exigente acto eleitoral que já está a bater à porta das ilhas…

– E foi assim que o PSD-A lá se apresentou ao PR com Berta Cabral, ao lado de dois organicamente tutelares dirigentes nacionais do partido de Passos Coelho, numa representação muito lacunarmente açoriana, com uma imagem um pouco gasta e até parcamente autónoma e autonómica, quando, desde Mota Amaral até Duarte Freitas, Joaquim Ponte, Costa Neves, Lídia Bulcão ou mesmo Patrão Neves, para referir apenas alguns nomes sociais-democratas, não lhe teriam faltado figuras de prestígio regional e nacional para a dita auscultação-propositura a Cavaco Silva. Mas, ao contrário do que o mais elementar senso político e intuição partidária recomendariam, a líder regional micaelense lá se ficou, subalternizada e sob um desnecessário e contraproducente protectorado simbólico do PSD nacional, apenas acompanhada por Jorge Moreira da Silva e José Matos Correia!

Porém, ao contrário do PSD, muito bem – na forma, no elenco e na fundamentação do conteúdo da mensagem transmitida – esteve a delegação açoriana, exemplarmente autónoma e autonómica do PS (Vasco Cordeiro, Maria João Carreiro, Berto Messias e Ana Luís), com uma atractiva imagem de frescura, segurança e representatividade real:

– Um óptimo sinal partidário e um capital simbólico altamente precioso, renovado e personalizado para os combates políticos que se avizinham, aqui nas nossas ilhas e em Lisboa, ao mesmo tempo e quem sabe se contra concertados e poderosos adversários na Lapa, em S. Bento, no Caldas, em Belém e até nalgumas conhecidas e velhas armadilhas de outros bairros da capital, à velha moda do pior que já passou pelo Rato e por outros largos e ruas semelhantes na nossa própria terra!
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“Diário dos Açores” Ponta Delgada, 22.07.2012)  – http://jornal.diariodosacores.pt/;
“Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 21.07.2012) – http://www.diarioinsular.com/;


sábado, julho 14, 2012


Uma Tragédia Provinciana




Fernando Pessoa, numa parelha de textos exemplarmente polémicos sobre Portugal e os Portugueses, defendeu que, se quiséssemos, ou, como ele, “quisermos resumir numa síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo”, “igual doença [da qual] enfermam muitos outros países” e que o mesmo “consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela – em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz”.

 

Todavia, não se pense que o nosso grande poeta e pensador da Portugalidade e da própria existencialidade desassossegada do Homem – e das suas fragmentárias e fragmentadas dimensões ônticas, socio-históricas, civilizacionais e discursivas (talvez todas afinal originariamente decaídas, conquanto não sob uma redutora exegese e categorização do pecado original como alguns teólogos tentam desenhar a traços superficiais…) – se estava referindo somente a uma daquelas chamadas três camadas mentais, organicamente distintas e apenas em parte coincidentes “com a divisão em camadas sociais” em todo e qualquer País, e portanto também em Portugal.




 – Não! Aquilo que Pessoa diagnostica, caracteriza e classifica como de mais intrínseco ao caso mental português – o Provincianismo – atravessa transversalmente, como agora na gíria vigente é habitual ouvir-se dizer, todos os campos e partículas da vida e da semi-vida portuguesas, aí incluídas naturalmente as esferas políticas e as suas mais incríveis capacidades e talentos para a carambola…

 

E depois, dessas camadas, afirmava Fernando Pessoa que as mesmas constituem ou entretecem a respectiva e específica vida mental do nosso país, estando assim estruturadas:

 

– “a camada baixa, a que é uso chamar povo;


– "a camada média, a que não é uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia;


         – e "a camada alta que vulgarmente se designa por escol, ou traduzindo para estrangeiro, para melhor compreensão, por elite”.

 


Não sendo aqui o lugar apropriado para muito amplas e aprofundadas explanações críticas sobre a aludida tese pessoana, não consegui deixar de relembrar-me dela, ao ouvir, penosamente e outra vez, esse tal de Relvas, numa comissão parlamentar da República que temos em Lisboa, usando e inglesando provincianamente do termo 
adviser, para referir-se aos consultores, conselheiros, ou lá o que são da clarividente, estratégica e profética equipa do pai de todos eles e da sua governança, no que mereceu aliás um merecido e linguístico puxão de orelhas por parte de um parlamentar do PCP, pesem embora a reincidência do lusofonamente licenciado e burlesco ministro e a cobertura dos seus lances por parte de outro parlamentar, ao logo de seguida linguajar outros, não menos cosmopolitas, termos do mesmo quilate e quejando vocabulário técnico de yuppies, boys e demais managers da coisa pública que governa Portugal, pela mão férrea e pela calculadora soberana de uma qualquer estrangeira troika!

 

Mas, em muitos casos, o uso – supostamente erudito ou especializado, de certos vocábulos, expressões e acrónimos (off-shore, CEO, benchmarking, rating, etc., etc.), se bem que já especialmente legitimado no universo discursivo provindo e reinante nas áreas das jovens ciências e modernos actores da economia política e da gestão da nossa actual falência e subserviência colectiva – também poderia ser detectado noutros campos aonde o seu expedito, provinciano, insólito ou enfatuado debitar ainda anda mais a par do encobrimento do sentido do que da desejável e rigorosa precisão da verdade!


 Porém isso ficará para outra Crónica, mais regionalmente (de)cifrada e  contemporaneamente actualizada…


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Publicado em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 13.07.2012),
“Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 14.07.2012),
RTP-Açores:
e Networked Blogs:

sexta-feira, julho 06, 2012

O Canudo de Relvas


Não há dúvida que um dos casos que maiores atenções chamaram à opinião pública nacional nos últimos dias – desde aquilo que foi veiculado pelos OCS e pelas redes sociais, até ao muito mais que espontânea e indignadamente tem sido dito e ouvido por tudo o que é sítio de voz popular, entre registos de indignação, repulsa ou as mais ridicularizantes e anedóticas narrativas… –, foi o da já famosa graduação universitária atribuída a Miguel Relvas, ministro-adjunto, dos assuntos parlamentares e da condicente e reiterada confiança do nosso primeiro oficiante executivo e político-partidário, Passos Coelho!

O acontecimento não é para menos, porquanto, quase a modos de uma pasmosa categoria escolar concedida de mão beijada à dita personagem de relevo na nossa queirosiana nação, e quase por analogia abstrusa com outra estrambólica, mas menor e inexistente figura de Licenciatura Honoris Causa… – conquanto apenas aqui (e bem bom…) apenas com uns 11 valorzinhos por reconhecimento de saberes e práticas “políticas” e “técnicas” (sic), imagine-se… –, lá foi finalmente publicitado agora que a prestimosa Universidade Lusófona (UL) lhe concedera, em 2007, catando e cinzelando bem, sabe-se lá com que lentes e becas científicas de aumento, alguma pedras e pepitas naquele capim de prestações empiricamente atestadas, entre outras brutas matérias-primas que legal e soberanamente se entendeu depois reconverter, quase alquimicamente e a requerimento, em outros tantos créditos incrustáveis num expedito canudinho de equivalências bolonhesas, fitas da respectiva praxe e decorrente diploma de licenciatura, para que esse prestigiante tirocínio (certamente em muito logo credibilizante para a própria UL…) pudesse emoldurar e ser exibido exibir no pano de parede dos gabinetes e folhas de serviço à Pátria e à Sabedoria, e no assim mais consentâneo currículo da tão reconhecida carreira pessoal, política e universitária daquele dito estudante e estudioso Relvas!

– Sem adiantar muito mais ao que nesta coluna já escrevi sobre o dito super-político do PSD (cujos talentos e verve os Açores já conheciam dantes e noutros campos e domínios…), somente hoje mais me ocorreu que o lema da mesma UL que o licenciou, a par do propagandeado marketing das suas várias e indiscutíveis excelências de oferta e procura docente e discente no mercado do Ensino Superior privado em Portugal, é “Humani nihil alienum”, curiosamente o mesmo ex-líbris que é usado, desde 1955 – e talvez aí mais adequadamente por via directa do ilustre Terêncio… – em idêntico lema de uma Escola Secundária presbiteriana em Trinidad e Tobago (o Hillview College), estabelecimento de ensino desse país que fica lá para as bandas das Caraíbas, onde também e ainda há muitos piratas, reais e ficcionais corsários a navegar, pestífera e impunemente, à vista grossa ou com a conivência de alguns navios-almirante sem pavilhão de honra, firmes mãos ao leme do conselho da nau capitã, bússola bem regulada e limpos óculos para abertura nas linhas do horizonte…

Porém, o caso de Relvas não será propriamente inédito no que respeita a cursos académicos e recursos políticos superiores em Portugal, pelo que se compreende muito bem alguns dos inseguros passos, silêncios, desforras ou embaraços presentes, especialmente por parte de quem antes mandou muito pó ao vento, encobriu as mazelas indignas dos seus ex-líderes e queridos chefes de fila, ou atirou pedras aos telhados de vidro fosco de vizinhos e companheiros! E desses, infelizmente, estão todos os partidos bem recheados…

– Todavia, o mal, evidentemente, é muito mais profundo (como há dias José Adelino Maltez, sem subterfúgios, apontou incisivamente e com justeza num programa-debate da SIC), estando o mesmo na raiz de todo um instalado sistema de favorecimento de mediocridades e incompetências, jogo de interesses e mercadejar de influências a todos os níveis das nossas referenciais mas decadentes ou já tetra-mundistas instituições e corporações, e assim também nas Universidades e na vida Política, aonde o poder do Dinheiro e os capitais simbólicos e financeiros do Poder, entre nós e desde há muito, demasiado tempo – embora com honrosas excepções – corromperam a única nobreza e a autonomia teórica e ética do Pensamento, do Saber, da Ciência, do Mérito e das próprias consciências pessoais e colectivas de grande parte dos Portugueses e das suas supostas ou impostas “elites”…

Numa altura em que o nosso Povo, injustiçada e angustiosamente, pena os olhos da cara e sofre aflições de morte para ganhar e pagar o pão de cada dia, arranjar emprego e ir sustentando a saúde do corpo e do espírito; quando tantas famílias e tantos verdadeiros estudantes trabalharam anos e anos a fio para conseguirem as suas habilitações, enquanto outros, em todos os escalões do Ensino, ainda permanecem hoje sem dinheiro suficiente para cantinas, transportes, propinas e livros; e – enfim – quando tantos e tantos trabalhadores qualificados, técnicos geniais e inteligências brilhantes tem de emigrar, ficam para trás ou à margem daquilo a que deveriam ter direito e justo e merecido acesso por mérito próprio, – jogadas sorrateiras ou descaradas, mesmo que cobertas por leis (iníquas e retrógradas!), como algumas das que vamos cada vez mais presenciando em Portugal – e de entre as quais a de certos pobres diabos políticos nem sequer mereceriam o custo uma palavra de reprovação ou repugnância formal –, atingem as raias do escândalo e são um ultraje científico, jurídico, político, cívico e moral ao País inteiro!


– Oxalá que, a somar a todas as outras congéneres fraudes, às quais directa ou indirectamente se assemelham, também mais esta cínica e abusiva desfaçatez político-académica não deixe de ficar, na altura certa, sem a merecida resposta correctiva, coisa da qual se duvida, tão baixo o nível a que gente sem escrúpulos atirou a credibilidade da Pátria e da Lei!

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Publicado em:
- "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 07.07.2012). Versão reduzida.
- "Diário dos Açores (Ponta Delgada, 08.07.2012):



sábado, junho 30, 2012

Fogueiras e Fogaréus

Nenhum observador minimamente atento à realidade política regional e nenhum ativo participante razoavelmente dotado de preparação e senso a condizer com responsabilidades e cargos assumidos (às vezes bem levianamente…) para tomadas de posição, análise e implementação de linhas de pensamento estratégico e medidas práticas decorrentes das opções de um justo e competente entendimento daquela mesma realidade política – mormente no que diz respeito a atos da governação, ao comportamento deontológico dos seus membros e ao devido (e exigível!) acompanhamento crítico, suporte solidário e elucidação precaucional por parte dos vários agentes e atores institucionalmente ali envolvidos –, poderá deixar de encarar com muita apreensão todos aqueles, sucessivos, multiplicados e acumulados casos e temas que tem, a esses mesmos diversos mas confluentes propósitos, vindo a inundar exponencialmente (e ainda mais nas últimas semanas e dias) o inteiro panorama político-informativo da Região Autónoma dos Açores, nos OCS e nas redes sociais (locais e nacionais…).

– Não valerá a pena, creio eu, inventariar aqui o leque dos ditos temas e casos em triste vista e alcance, tão percetíveis são eles, apesar da quase inacreditável série de miopias, arritmias de coordenação e nucleares ausências de terapia firme com que as referidas úlceras (algumas de grande pressão…) tem sido padecidas e geridas por quem, assim, até parece estar deixando cavar a sua própria cárie político-partidária e, talvez, conquanto inadvertida e involuntariamente, levantando ventos para uma eventual borrasca outonal cujos sintomas de contágio, suficientemente alarmantes pelo que prenunciam (e nalguns casos comprovam!), são mesmo risco de fósforo e fumo de fogueiras que poderão vir a chamuscar muitos dos fundilhos e rodas de saia que andaram a passear-se pela ilha Terceira durante as Festas Sanjoaninas, em visitações de caravana cortesã, em varandas acolchoadas, na calçada molhada ou no improvisado palanque de muita fatuidade, conforme o valor do cicerone, a música da marcha ou o ferro do curro…

A outra hipótese para o que se vê, lê e ouve é a de, novamente, querer-se arranjar fogaréu expiatório para um mal que antes provém, acima de tudo e de todos, da falta de inteligência política, de poder decisório esclarecido e da paralela e interesseira aniquilação da democraticidade partidária interna, – formas convergentes e larvares de reincidentes desculpabilizações pessoais e político-partidárias que não deixarão, desta vez e na devida altura, de ser objetivamente acentuadas!
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Em “ Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 30.06.2012):
“Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 01.07.2012):
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