sábado, outubro 06, 2012

As Obscuridades da EDA


Não há dúvida que a formosa Empresa de Electricidade dos Açores (EDA) tem um invejável historial de bem servir e alumiar os seus clientes, proporcionando, há décadas, na ilha Terceira – e provavelmente também em todo o nosso restante Arquipélago – uma produção, distribuição e assistência de alto gabarito energético!

– Por aqui e hoje, na mesa de trabalho e estudo onde esta Crónica costuma ser escrita, já foram várias as vezes em que subidas e descidas de corrente deram sinal dessa excepcional e fiável prestação pública, atirando sistemas e programas abaixo e acima, enquanto as luzes, apitos e aparelhos de toda a casa ganham inusitada agitação e parecem ir finar-se a espaços oscilantes e imprevistos, sendo que nem sequer os normalmente suficientes estabilizadores e suas precaucionais e acopladas unidades UPS (outro acrónimo, mas este de “Uninterruptible Power Supply”…) conseguem haver-se em conta com tão eficiente abastecimento…

E o caso, nesta circunstância, até se ficou por menos, não tendo o diabo vindo tecê-las para ficarmos em apagão, horas a fio, como ainda há poucos dias voltou a suceder!

– É claro que aos prejuízos, avarias, incómodos, arrelias, atrasos, indemnizações e avultadas despesas de manutenção, que desses negrumes técnicos recorrentemente decorrem, nem vale a pena contabilizar, ao lado daquilo que tanto tem sido dito, escrito e protestado em vão, desde as associações de Comércio, Serviços e Indústria à mais pequena e bucólica casinha dos contribuintes açorianos.

Todavia, este caso não poderia ficar desfocado e sem mais uma achega face a alguns velhos e conhecidos papéis, arquivos, relatórios e recortes onde não faltam números, potências, centrais, geradores, redes e demais panóplia para registo do brilhante cadastro empresarial da dita EDA, a par de alguns bem recordáveis, co-responsabilizáveis e sucessivos administradores, delegados, antigos e actuais responsáveis planeadores, gestores, “public-relations”, imparciais e ajuizantes conselheiros de sentença sempre oportuna, iluminados académicos e/ou ressabiados e descansados comissários político-administrativos de alta e baixa tensão…, – todos eles já em postos de transformação para melhores diferenciais (e sem choques nos respectivos e inocentados padrinhos institucionais, nem curto-circuito nos fusíveis das suas condensadas memórias, ascensionais carreiras ou douradas reformas…), atirando pedras, calhaus, raios e coriscos aos filamentos virgens das lampadazinhas dos outros, agora que a luz se apaga, ou alguma baixa nos débitos cúmplices de outrora recomeça a manifestar-se com as ventanias e ameaças deste inseguro e eleitoral Outono dos patriarcas e suas luminárias!
___________
Publicado em:
"Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 06.10.2012);
"Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 05.10.2012);

sábado, setembro 29, 2012

O RACIONAMENTO 
da Vida e da Morte




O Parecer que acaba de ser emitido (64/CNECV/2012) pelo Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida sobre Um Modelo de Deliberação para Financiamento do Custo dos Medicamentos – e sobre o qual logo se quis dar conferência de imprensa “para esclarecimento de todas as questões relativas a esta temática” (sic) –, teve o condão de começar a gerar todo um salutar e expectável coro de indignados protestos, críticas e repulsas, desde a Ordem dos Médicos (que o rotula de “redutor e desumano”, interrogando: “Vamos regressar ao princípio Ceausescu de que o mais barato é o doente morto? Quem vai perguntar aos doentes se prescindem de viver mais dois meses porque é caro?”), a Liga Portuguesa Contra o Cancro (que o dá como “desnecessário, inócuo e perigoso na medida em que isso pode abrir a porta para que tratamentos, que estão perfeitamente aceites do ponto de vista mundial, possam ser cortados", adiantando: "Penso que o Conselho deveria ter dito que era que todos os medicamentos que fossem comprovadamente úteis na cura, sobrevivência e na qualidade de vida não deveriam ser cortados aos doentes"), e a coordenação do Plano Nacional de Prevenção das Doenças Oncológicas (precisando que racionamento é "utilização limitada de um medicamento"), até às reacções – que assumidamente mais quero relevar e que politicamente partilho – de António Arnaut (“O Estado não tem autoridade moral para cortar naquilo que é essencial à vida e à dignidade humana”; “uma discricionariedade perigosa”; “uma aberração ética e um absurdo médico”) e de Maria de Belém Roseira (“a estratégia de comunicação, que fala em racionamento em vez de racionalização, é o pior que há. O sublinhado no racionamento é extraordinariamente perigoso, sobretudo na presente época”; “o direito à saúde é um bem social e o pior que pode acontecer é que se transmita às pessoas a ideia de que estar doente é um peso social, ou que estar com uma doença grave é algo que tem de ser visto ponderando os custos da pessoa, esquecendo completamente os princípios éticos que devem presidir a qualquer decisão”; “Eu não quero viver num país onde a mensagem que se transmite é que os velhos são um peso para a sociedade, porque são pensionistas, e em que os doentes são considerados um peso para a sociedade, porque gastam muito dinheiro”)!

– Ora já não é a primeira vez que este órgão consultivo (cujos regime jurídico, constituição, produção doutrinal, etc., podem ser consultados em http://www.cnecv.pt/index.php) emite opiniões que se revestem de evidente carácter controverso, sabendo-se ainda e para mais muito bem qual o tipo de dissensões e diferenciações internas (disciplinares, filosóficas, técnico-científicas, políticas, religiosas e éticas) que dividem os seus 17 membros (dos quais, aliás, só 11 estiveram presentes na reunião que aprovou – e quantos deles reprovam ou subscrevem? – o dito Parecer…).

Porém, neste documento – apesar dos facetamentos que a sua leitura integral não deixa de ressalvar parcialmente, conquanto mesmo assim de modo dúbio –, a verdade é que o juízo ético-político, a percepção global e a decorrente prática técnico-institucional, real ou potencialmente ali desenhados e acolhidos, encontram mesmo nele uma aberrante fundamentação (e cobertura!) para quanto perspectivam e avaliam sobre a vida humana e sobre as suas derradeiras temporalidades neste mundo, a enfermidade e o sofrimento crónicos e – por fim e implicitamente – sobre a própria prestação de cuidados médicos, clínicos, de enfermagem, paliativos, continuados e outros afins, que aos cidadãos nessas condições deveriam ser sempre imperativamente proporcionados!

Fruto de uma visão distorcida da condição humana e da justa ordenação sociopolítica, jurídico, económica e ética – aliás denunciadora de uma alienante e alienada perspectiva materialista, economicista e até eugenista da doença e da gestão da Saúde e da Assistência Social –, este papel do CNECV, elaborado no seguimento e para satisfação do “pedido formulado por Sua Excelência o Ministro da Saúde [e] diz[endo] respeito à elaboração de um Parecer sobre a fundamentação ética para o financiamento de três grupos de fármacos, a saber retrovirais para doentes VIH+, medicamentos oncológicos e medicamentos biológicos em doentes com artrite reumatóide” (sic) –, é bem revelador de todo um conjunto de outros e idênticos racionamentos (sic) ou cortes nos direitos e deveres das pessoas e das instituições, na dignidade constitucional dos cidadãos, na justiça social e até na garantia do exercício ético, técnico e espiritual da compaixão, da competência, da salvaguarda da vida e da protecção dos mais fragilizados, indefesos ou dependentes, para não dizer da preservação do direito à vida e à morte, sem tortura, padecimento, agonia, sadismo ou para-assassinato psicofísico (e metafísico, evidentemente, para quem desta dimensão tiver o mais ínfimo vislumbre antropológico, religioso ou apenas moral…)!

– Pior do que tudo isto que agora parece tecer-se, ao que se entende, de facto, só mesmo a legalização da eutanásia, coisa que talvez não deixará de vir a caminho e de seguida, enquanto paira já nas mentes e nas cartilhas das causas “fracturantes”, como o reverso incoerente e conspurcado daquilo que hoje se irá condenar e mais há-de servir para arremesso apenas táctico nas campanhas eleitorais do costume, para entretenimento de espíritos entorpecidos e canalização dos votos incautos dos mais cegos, ou dos mais estúpidos…

E assim aqui chegámos, nesta desgraçada e ignara Pátria, nestes tempos de decadência, de opressão desumana e de irresponsabilidade:

– Gasta-se uma vida inteira de trabalhos, descontos, sacrifícios, impostos e contratualizadas e legítimas expectativas, para, ao final dela, uma qualquer corja política de uma qualquer série de governos de pacotilha e seus celerados ministros e conselheiros, poderem aplicar ao Povo, depois de lhe tirarem a saúde e a esperança, o trinco na corrente do soro, ou a última injecção letal!

E enquanto tudo isto se passa, o outro, coitado, na sua assustada plástica de mandarete a prazo, vai recitando Camões, como se o tivesse lido e compreendido, com a cabeça dentro da toca… 
_____________
Em “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 30.09.2012).
Id. em Azores Digital:
RTP-Açores:
e Networkedblogs:
Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 29.09.2012).




terça-feira, setembro 25, 2012

Economia, Moral e Política



           Depois de escrito e publicado neste jornal a nossa habitual Crónica da semana passada, tiveram lugar as mais do que expressivas, impressionantes e gigantescas manifestações populares nacionais (que falaram por si!) contra a política do governo de Passos Coelho, a par da continuação das já esperadas ou previsíveis e consabidas tomadas de posição por parte dos partidos, parceiros e formações sociais, das quais é justo salientar o exercício de equilíbrio político-partidário (com algum denunciado mas notável e controlado malabarismo à mistura…) de Paulo Portas, e bem assim os reacendidos argumentos de políticos, economistas, sociólogos e analistas sociais, e de entre eles os de Manuela Ferreira Leite (no jornal i do dia 15) e de Vítor Bento (https://www.youtube.com/watch?v=QVscITlSkTY&feature=player_embedded), em entrevista à TVI.

Quanto a esta última intervenção, mesmo sem entrarmos de pleno em âmbitos fundamentais e próprios da Filosofia Política, ou logo em questões ideológicas (conquanto estas nunca possam ser escamoteadas nas respectivas funções e escalas!), deve ser dito aqui que muitas das suas reflexões, vindas aliás na linha de abordagens prévias (v.g. em http://www.youtube.com/watch?v=TaXilMs8250&feature=related), haviam já sido feitas anteriormente também por outros, embora com variantes de discurso e argumentos.

– De qualquer modo, como seria de aguardar de um economista (e Conselheiro de Estado) tão sério, ponderado e consciencioso como Vítor Bento, é sempre bom repensar, frontalmente e sem falsificações iníquas, as doenças do País, o remédio e o seu sucedâneo, como ele diz… Coisa que Passos Coelho, infeliz, irresponsável e incompetentemente, não soube, nem nunca certamente saberá fazer!

De resto, muitas das questões teóricas e práticas aqui e ali abordadas andam irrecusavelmente centradas naquilo que na obra Economia, Moral e Política (Lisboa, FFMS, 2011) vem assumido assim:

– “Como se poderá verificar […], sustento, nomeadamente, que a Economia, enquanto estudo da realidade ou, mais propriamente, do comportamento humano relacionado com a actividade económica, é uma ciência positiva e, como tal, (praticamente) autónoma de considerações morais. Mas que a economia, enquanto actividade humana, funciona sempre em contextos morais. E que toda a acção que visa influenciar o funcionamento da economia, ou mesmo os juízos formulados sobre esse funcionamento e os seus resultados, são, sempre e por natureza, moralmente orientados e dependentes da escala de valores morais de quem julga ou de quem age (ou quer agir). E que uma tal acção pertence, também por natureza, à Política.

“ […] É claro que, quanto mais diversas forem as escalas dos intervenientes, mais difícil será a eficácia da acção política, quer se trate da sua formulação, quer se trate da sua concretização. Por isso, as sociedades que melhor conseguem articular o seu funcionamento e a sua acção política são aquelas em que é possível criar consensos morais para a acção política”…

– Lúcidas e prudentes palavras estas para os perigosos e abismais dias que correm, aonde, na inversão exacta da expectável e paciente ordem das coisas, dos valores e dos sacrifícios, quiseram vender lebre por gato a todo um adiado e agora revolto País …
Por outro lado e entretanto foram-se sucedendo as mais diversas tomadas de posição sobre a muita crítica e real situação do País, para a qual, aliás, não é fácil encontrar uma solução equilibrada, justa e minimamente prestigiante, tanto interna como externamente e face ao essencial que importa salvaguardar, como todos os portugueses puderam certamente tornar a constatar hoje perante a cegueira, a surdez e o mutismo invertido (ou de substituição) que se verificaram no debate realizado na Assembleia da República!

Porém, nos Açores, o tempo tem sido de tempestade, de esgalhar árvores e apresentação de listas de candidatos, sabe-se lá qual das tormentas a mais difícil de suportar, gerir e remediar no futuro, – seja ela o dos anticiclones autonómicos, a dos ventos e assentos parlamentares, a da dança das pastas executivas próximas ou a das Autárquicas do ano que vem (para onde muitos dos ditos estariam de facto e estrategicamente tão bem posicionados como dedos numa luva à medida…), – mesmo sem levar em linha de conta as produções, talentos mediáticos, audiovisuais ou quejandos que as mais ou menos felizes ou conseguidas feituras de dobragem de voz, enredo e legendagem – nas máquinas partidárias ou em outros centros de propaganda e contra-propaganda anónima, clandestina ou apenas mafiosa e incautamente (en)coberta… –, vão vendendo à porta de cada um e nas redes sociais, à falta de melhor e mais assumido meio e assinatura, entre pequenos grandes ramos e areias atiradas aos olhos dos eleitores e contribuintes…

E para tal nem será sequer necessário abrir o YouTube, o Facebook ou os sítios partidários que muito em moda e alta estatística de acesso e recomendação de consulta vão granjeando por aí:

        – Basta abrir a portinhola da caixa do correio, a janela de casa ou a do carro, para sentir no ar um antigo cheiro a pólvora, como antigamente se dizia e fazia em Ilhéus, no tempo recorrente ou remoçado dos velhos e duros coronéis, capitães do mato, jagunços e suspirantes moças românticas e passionais, todos à espera da hora da telenovela dos outros, quando não ou afinal eles mesmos já propriamente dentro dela, como figurantes inocentes (?) mas úteis de uma tragicomédia, insularmente repetida ad nauseam, porém que tornará a ultrapassá-los irremediavelmente de novo e mais depressa do que se imagina!
___________
Publicado em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 23.09.2012).

sábado, setembro 22, 2012


Um Filme de Ilhéus



Nos últimos dias, nos Açores, o tempo tem sido de grande tempestade, de esgalhar árvores e apresentação de listas de candidatos, sabe-se lá qual das tormentas a mais difícil de suportar, gerir e remediar no futuro, – seja ela verdadeiramente a dos anticiclones autonómicos, a dos ventos e assentos parlamentares, a da dança das pastas executivas próximas ou a das Autárquicas do ano que vem (para onde muitos dos ditos estariam de facto e estrategicamente tão bem posicionados como dedos numa luva à medida…).

– E isto mesmo sem levar em linha de conta as produções, talentos mediáticos, audiovisuais ou quejandos que as mais ou menos felizes ou conseguidas feituras de dobragem de voz, enredo e legendagem – nas máquinas partidárias ou em outros centros de propaganda e contra-propaganda anónima, clandestina ou apenas mafiosa e incautamente (en)coberta… – vão vendendo à porta de cada um e nas redes sociais, à falta de melhor e mais assumido meio e assinatura, entre pequenos grandes ramos e areias atiradas aos olhos dos eleitores e contribuintes…

De resto, para tal nem será sequer necessário abrir o YouTube, o Facebook ou os sítios partidários que muito em moda e alta estatística de acesso e recomendação de consulta vão granjeando por aí:

– Basta abrir a portinhola da caixa do correio, a janela de casa ou a do carro, para sentir no ar um antigo cheiro a pólvora, como antigamente se dizia e fazia em Ilhéus, no tempo recorrente ou remoçado dos velhos e duros coronéis, capitães do mato, jagunços e suspirantes moças românticas e passionais, todos à espera da hora da telenovela dos outros, quando não ou afinal eles mesmos já propriamente dentro dela, como figurantes inocentes (?) mas úteis de uma tragicomédia, insularmente repetida ad nauseam, porém que tornará a ultrapassá-los irremediavelmente de novo e mais depressa do que se imagina!   

_____________
Publicado em RTP-Açores:
“Diário Insular” (Angra do Heroísmo” (22.09.2012):
Azores Digital:
e Networked Blogs:
http://www.networkedblogs.com/blog/os-sinais-da-escrita?parent_page_name=source

sábado, setembro 15, 2012

O Golpe do Coelho




1. No vocabulário clínico, biomecânico e da sinistralidade ortopédica e neurológica é usada a expressão “pancada ou golpe do coelho” para denominar um grave impacto (geralmente pela retaguarda, popularmente dito pelas costas ou no lombo, e tecnicamente designado whiplash: à letra, chicotada, choque, embate de chibata ou vergasta) e a eventualmente decorrente letal lesão cervical ou lombar que, na sequência desse violento golpe, é gerada com a desarticulação ou destruição de vértebras, desagregando-as, destroçando-as e podendo assim até provocar o esmagamento profunda da própria medula espinal.

Ora – conquanto sem culpa nenhuma dos mimosos e adoráveis bunnies domésticos, pascais ou outros que magicamente saem das cartolas dos prestidigitadores… –, e pese embora a real carga arrepiante que a metáfora aqui lembrada contém (além da efectiva praga que os ditos mamíferos orelhudos podem às vezes consumar…), foi essa analogia, de entre muitas, aquela que mais exactamente me ocorreu ao ler e cotejar selectos depoimentos – cinco ao todo, como os dedos diferenciados de uma mesma mão –, a propósito das últimas medidas fiscais anunciadas pelo governo PSD/CDS-PP de Lisboa & Troika…

Na verdade, as antinómicas intervenções e os respectivos conteúdos, exemplares cada um a seu modo – de Passos Coelho e Vítor Gaspar, por um lado, e de Marcelo Rebelo de Sousa (na TVI), Pacheco Pereira (com o notável artigo "A mudança do tempo político", no Público de 8 de Setembro) e Manuela Ferreira Leite (na sua excepcional entrevista à TVI 24), por outro –, constituem outros tantos documentos preciosos para a caracterização político-institucional, socioeconómica, crítico-ideológica e ético-política dos cruciais e controversos tempos históricos que Portugal dramática e agonicamente calcorreia, a modos de uma procissão de penitentes, desfile de condenados ou coro de escravos…, porém quando já despontam ao final da avenida as marchas da resistência e da justa revolta do Povo e da Nação!

– E tudo isto é tanto mais espantoso quanto, para além daquilo que os restantes partidos unanimemente condenaram com todo o fundamento (e mais tornaram a repudiar após a patética entrevista do Primeiro Ministro à RTP), foi mesmo de dentro do PSD (nacional) e do CDS-PP (nacional e regional açoriano…) que se levantaram agora as mais altas vozes contra o descalabro político e a hecatombe social com que a incompetência, imaturidade, insensibilidade, casmurrice, autismo e fraudulenta retórica e prática do (des)governo de Coelho e Portas golpearam Portugal e os Portugueses.

Mas isto é também uma boa lição para quem aparou todas as irresponsabilidades de antigas e execráveis lideranças políticas, ou ainda lhes venera a miserável memória dentro do Partido Socialista – cuja história e nobreza de ideais ao serviço de Portugal e da Democracia, felizmente, estão muito para além da vulgaridade interesseira de alguns daqueles que dele famigerada e conjunturalmente se serviram – e amiúde ainda se servem! – para desonra ou hipoteca de nós todos…, o que aliás explica muitas das conhecidas relações turbulentas de tantos e tantos Socialistas verdadeiros e sérios com o seu e nosso partido, como quando o PS estiolou e se afundou sob a regência de medíocres sofistas, oportunistas encartados ou expeditos carreiristas!

– E depois, finalmente, é por isto mesmo que também sempre senti, como escrevi antes e posso novamente subscrever hoje, as límpidas e corajosas palavras do meu velho e estimado amigo e camarada José Medeiros Ferreira sobre um tal de Sócrates e o seu pesado e obscuro legado nacional e partidário: – “Nunca o apoiei. […] Não fazia parte da minha cultura política. Uma diferença de natureza”!
                                              

2. Agora, e postas as coisas no decisivo e esclarecido ponto em que estão após a autêntica ameaça que as opções do PSD/CDS-PP acrescida e comprovadamente representam para o País inteiro, mais importante então será garantir uma alternativa vitória nos Açores, de modo a ser dada aqui, simbólica e estrategicamente também e por este meio democrático, mais um sinal de resistência e uma firme voz de protesto – uma espécie de convocatória cívica – para regeneração urgente, retoma da esperança, desenvolvimento justo e gradual libertação de todos os Portugueses, em novos moldes…

De facto e neste contexto, caberá aos Açores desempenhar e cumprir um duplamente exigente papel:

– Vencer os partidos que suportam e se suportam (n)o actual governo reaccionário, insensato e discricionário de Lisboa, e assegurar, com generosidade, solidariedade, humildade, seriedade e transparência, uma nova etapa e o relançamento de um modelo efectivo e sustentável de desenvolvimento integral, isto é, de crescimento económico, de emprego, de equilíbrio financeiro, de empreendimentos produtivos e rentáveis, de promoção humana e cultural sistemáticas, de aplicação criativa e de valorização prioritária do trabalho, da saúde, da educação e da justiça social e fiscal – enfim –, do possível, necessário e merecido para uma vida mais digna, mais próspera, mais culta e mais feliz para os Açorianos, através da reafirmação efectivamente renovadora de valores e dos ideais da nossa identidade pessoal e colectiva, na construção de uma confluente Autonomia progressiva!

Todavia tal desiderato não poderá, evidentemente, deixar de atender auto-criticamente aos recorrentes falhanços institucionais, programáticos e individuais de sucessivas governações, bancadas e governanças, reequilibrando finanças, pagando dívidas, acertando contas, saneando e corrigindo vícios, gerindo e aproveitando virtudes, e chamando os melhores para pensar e dialogar, dirigir e administrar com consciência e mãos limpas o que é de todos e o Bem Comum, sem tentações de vender almas ao diabo e a palavra aos açaimes, e sem corromper, por abastardamento violento ou alienante, ou com tratamentos de choque mortal, todo o corpo societário e moral da nossa sociedade, já de si tão vulnerável, empobrecida, confusa, amedrontada, descrente e ferida por tantos (suicidários, intencionais ou incautos, vergonhosos e quase identicamente patéticos) golpes de coelho

           
3. Entretanto e já depois de escrita uma primeira parte deste artigo (14 de Setembro), tiveram lugar as mais do que expressivas, impressionantes e gigantescas manifestações populares nacionais contra a política do governo de Passos Coelho (que falam por si!), a par da continuação das já esperadas ou previsíveis e consabidas tomadas de posição por parte dos partidos, parceiros e formações sociais, das quais é justo salientar o exercício de equilíbrio político-partidário (com algum denunciado mas notável e controlado malabarismo à mistura…) de Paulo Portas, e bem assim os reacendidos argumentos de Manuela Ferreira Leite (no jornal i do dia 15) e de Vítor Bento (em entrevista à TVI).

Quanto a esta última intervenção, mesmo sem entrarmos de pleno em âmbitos fundamentais e próprios da Filosofia Política, ou logo em questões ideológicas (conquanto estas nunca possam ser escamoteadas nas respectivas funções e escalas!), deve ser dito aqui que muitas das suas reflexões, vindas aliás na linha de abordagens prévias (v.g. em http://www.youtube.com/watch?v=TaXilMs8250&feature=related), já haviam sido feitas anteriormente também por outros, embora com variantes de discurso e argumentos.

– De qualquer modo, como seria de aguardar de um Economista tão sério, ponderado e consciencioso como Vítor Bento, é sempre bom repensar, frontalmente e sem falsificações iníquas, as doenças do País, o remédio e o seu sucedâneo, como ele diz… Coisa que Passos Coelho, infeliz, irresponsável e incompetentemente, não soube, nem nunca certamente saberá fazer nem transmitir!

De resto, muitas das questões teóricas e práticas, quase todas afinal as aqui abordadas, andam irrecusavelmente centradas naquilo que na obra Economia, Moral e Política (Lisboa, FFMS, 2011) vem assumido assim:

– “Como se poderá verificar […], sustento, nomeadamente, que a Economia, enquanto estudo da realidade ou, mais propriamente, do comportamento humano relacionado com a actividade económica, é uma ciência positiva e, como tal, (praticamente) autónoma de considerações morais. Mas que a economia, enquanto actividade humana, funciona sempre em contextos morais. E que toda a acção que visa influenciar o funcionamento da economia, ou mesmo os juízos formulados sobre esse funcionamento e os seus resultados, são, sempre e por natureza, moralmente orientados e dependentes da escala de valores morais de quem julga ou de quem age (ou quer agir). E que uma tal acção pertence, também por natureza, à Política.

“ […] É claro que, quanto mais diversas foram as escalas dos intervenientes, mais difícil será a eficácia da acção política, quer se trate da sua formulação, quer se trate da sua concretização. Por isso, as sociedades que melhor conseguem articular o seu funcionamento e a sua acção política são aquelas em que é possível criar consensos morais para a acção política”…

– Lúcidas e prudentes palavras estas para os perigosos e abismais dias que correm, aonde, na inversão exacta da expectável e paciente ordem das coisas, dos valores e dos sacrifícios, quiseram vender lebre por gato a todo um adiado e agora revolto País …


___________________

Em “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 16.09.2012);
Azores Digital:
“Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 18.09.2012):
RTP-Açores:
e Networked Blogs:


Regressos à Escola


Com o início do ano escolar regressam estudantes e professores às suas labutas, deixadas para trás as férias grandes, com saudosos dias de praia e campo, noites (ou noitadas…) de Verão, amores e desamores estivais de um tempo cujo ritmo apenas se deixa medir pelo brilho solar ou pelo envolvimento enluarado do sonho, da viagem, das batidas e passos livres do olhar, do corpo e da alma, pelos mais reais ou imaginários caminhos e atalhos da terra e das suas simbólicas matérias ou físicas paragens, e dos céus e das mais variadas leituras, geografias e poéticas, numa proporcionada conjugação de Clássicos, Modernos e Contemporâneos (Calvino, Borges, Onfray, Lévi-Strauss ou Theroux, ao lado de Camões, Mendes Pinto, Pessoa, Saramago, Aquilino, Alçada, Garrett ou Nemésio, entre tantos outros, para peregrinações distantes ou interiores, e regressos de mundos outros ao quintal da casa…).

Entre nós, a estação que agora declina a par dos dias que encurtecem, ficou como sempre marcada pelos cíclicos festejos, correrias e corridas de gente e toiros – festas e folguedos (profanos e religiosos cada vez mais híbridos!) – por estas ilhas fora e em quase todas as freguesias, paróquias e lugarejos da Terceira.

– E depois ainda as célebres e celebradas Sanjoaninas e as Festas da Praia articuladas com renovados roteiros inter-ilhas e encadeados Festivais de mochila, tenda, chinelo e demais apetrechos para dormir ou apenas superficialmente passar pelas brasas de esquivas rêveries, talvez em busca de um tempo já perdido ou ainda para chegar das brumas de uma crise que a todos atinge e reflexamente condiciona…

Porém regresso à Escola são também, cruamente, livros caros, mega-escolas contra freguesias e comunidades locais (“pólos de desenvolvimento”, qual o quê!?), desemprego ou desmotivação de professores e famílias inteiras, desadequação de programas, indisciplina, sobrelotação e miscigenação etária corrosivas, proliferação de droga, horários saturantes, subculturas reinantes e preguiças de estudar, aprender e ensinar!

– Assim, o resto e o que nos resta é só mesmo a Esperança, igual à alegria dos desenhos das crianças no quadro negro da Escola que os vai receber, sabe Deus como…
____________________

sábado, setembro 08, 2012

UMA EVOCAÇÃO
DE ADRIANO MOREIRA 



Na passada quinta-feira, dia 6 de Setembro, comemorou o Prof. Adriano Moreira o seu nonagésimo aniversário de vida, efeméride justamente lembrada em diversos círculos intelectuais, académicos e mediáticos, com especial destaque para o Jornal de Letras e para a RTP1 (com as Entrevistas respectivamente feitas por Soromenho Marques e Fátima Campos Ferreira), para o Público (com a publicação de um belo texto de Isabel Moreira sobre o seu Pai) e para as redes sociais (v.g. no Facebook, onde temos e vimos acrescidamente agora partilhados, com outros reconhecidos amigos, depoimentos e apreços pela sua exemplar figura).

Por mim – que tive, há cerca de trinta anos, a feliz possibilidade de conhecer Adriano Moreira e de poder contar desde então com a generosidade honrosa da sua Amizade pessoal e da sua colaboração institucional –, não podia deixar passar esta significativa ocasião sem, também aqui e a partir destas insulares paragens, evocar a sua longa Vida e a sua vasta e rica Obra, mesmo que apenas na circunstância de um breve e localizado testemunho.

– E é assim que estou a vê-lo chegar, vezes sem conta e anos e anos a fio, ao gabinete de trabalho do Padre Aguiar (seu irmão de peito, trabalho e cosmovisão…), lá no nosso saudoso Colégio Universitário Pio XII, para dialogar, desabafar, ensinar, conferenciar, moderar, animar e partilhar tantos e tantos sonhos, certezas, medos, desencantos e persistentes projectos alternativos ou complementares, ajudando a pensar sempre e a agir a par e em consequência para a frente e para cima (como recolhera de Teilhard de Chardin), naquele seu carismático e testemunhal misto de sapiente e vivo olhar crítico, simultaneamente esperançoso, céptico, ansioso e utópico sobre o Mundo e a História, a Política e a Estratégia, a Cultura e a Fé Cristã (nomeadamente face ao “desafio que a doutrina conciliar trazia ao legado humanista europeu” e não só…), – enfim, sobre a Identidade e a comunidade de Destino de Portugal e dos Portugueses (afinada com Agostinho da Silva), numa incansável, inquebrável, indomável e amiúde crucificante procura agónica e redentora dos sinais do Tempo (categoria histórico-civilizacional e metafísica sempre presente em toda a sua pujante reflexão intelectual e nas suas narrativas literárias, memoriais e espirituais, como A Espuma do Tempo, Memórias do Tempo de Vésperas paradigmaticamente revela).

Numa época tão indigente como a nossa, evocar o Prof. Adriano Moreira, gratamente escutar a sua palavra e atentamente auscultar a memória das suas experiências e lições, configura um dever de exercício de verdadeira cidadania universal e um direito de apelo à inteligência nacional, – como ele escreveu, para a urgente “nova definição do estatuto de Portugal, [actualmente] mais resultado colateral do globalismo do que da responsável governação”…
__________________________

Em RTP-Açores:
Azores Digital:
“Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 08.09.2012):
e Networked Blogs:
Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 08.09.2012):
http://www.diarioinsular.com/

sábado, setembro 01, 2012

O Poder das Teias


Em finais de Novembro do ano passado, tive oportunidade de publicar nestas páginas um texto intitulado “As Colunas do Poder”, onde registava a grande notoriedade – especialmente em importantes OCS nacionais – que haviam então merecido conjugadamente a Maçonaria e a Política lusas, numa “significativa, ampla e desusada abordagem, à qual não faltaram muitos dos atraentes motivos e ingredientes que sempre estiveram, e ainda estão, associados àquela aureolada instituição”, não deixando de reparar ainda que causava alguma estranheza o facto de ser precisamente em época de crises generalizadas que entre nós esses temas tivessem sido trazidos ao espaço e ao conhecimento da generalidade da opinião pública da forma como o foram, sendo porém que o que mais terá motivado muita da oferta de tal produto mediático fora certamente o rol de nomes dos “irmãos” por ali e na ocasião elencados como pertencentes à dita associação secreta, – para além, naturalmente, do facto de tal tema ser mesmo apaixonante, revestindo-se de inusitados alcances, directos e indirectos, para o estudo da História e das Mentalidades.

Ora agora, conquanto nada disto sendo novidade de maior, cá vemos outra vez o assunto nas manchetes dos OCS e nas redes sociais, só que desta feita com a divulgação confluente, no Blogue “Casa das Aranhas” (http://casadasaranhas.wordpress.com/), de uma vasta lista (cerca de 1.400 membros da Maçonaria), onde figuram, embora pela ordem alfabética divulgada apenas até à inicial “M”, nomes, provavelmente reportáveis a 2004/5, de figuras públicas nacionais e de alguns reconhecidos indivíduos dos Açores e da Terceira (v.g. na Loja “Vitorino Nemésio) …

– Todavia a relevância do caso advirá talvez, para alguns, ou da comprovação daquilo que já era de há muito mais ou menos sabido, ou então, por outro lado, conforme já afirmaram António Reis e António Arnault (antigos Grão-Mestres do GOL), devido a esta divulgação ser “muito preocupante” por assinalar uma “intrusão” no sistema informático da sociedade secreta a que pertencem, ter sido obra de um “infiltrado” ou fruto de uma “imprudência”!

Seja lá como for, do elenco dos tão ilustres maçons vindos presentemente à luz do dia creio poder tornar a concluir-se que na Maçonaria, como em todas as instituições, haverá gente de bem, de mérito e de genuína valia, a par de outros – como hoje é mais do que evidente continuar a poder ser constatado! –, cuja errática e oportunista carreira, mediocridade humana, intolerantes práticas e pérfidas jogatinas de poder, influências e fortuna serão mesmo o contra-testemunho contínuo e recorrente de quaisquer tipos de nobres ideais fraternos e humanistas (ou assim pretensamente assumidos como tal nas cabeças trianguladas e nas pedreiras brutas daquelas lojas e lojecas) …

– E depois ainda, como escrevi antes, se este é um assunto também profunda e propriamente filosófico, político-institucionalmente muito crítico e cujos contornos sistemáticos, teóricos e práticos devem ser sempre relembrados com frontalidade –, não menos importantes, fundamentais e decisivos são os problemas do secretismo institucional, do conflito de interesses e até da hipocrisia pessoal e do cinismo ético e convivencial que estão aqui profundamente co-implicados, – passando até e amiúde (ou imaginando passar…) os ditos “irmãos” a toda a restante sociedade civil e à livre comunidade cívica comum um repugnante e inadmissível atestado de menoridade mental, cultural e espiritual, quando não até a reivindicação de um estatuto de excepção, intolerável à luz da transparência social e democrática do Direito, da Justiça e da Verdade!
____________________

Publicado em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 01.09.2012):  
Azores Digital:  
RTP-Açores:  
e Networked Blogs:  
Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 01.09.2012):

sexta-feira, agosto 24, 2012


O Sono das Responsabilidades


Numa Democracia parlamentar, cabe (ou deveria caber…) aos partidos políticos um importante papel em toda a actividade directa ou indirectamente ligada à governação, ao exercício livre e responsável da cidadania, e à participação individual e colectiva na vida institucional, cultural e cívica do respectivo País ou Região…

– E isto tanto mais quanto essas organizações (legalmente constituídas, reconhecidas e funcionalmente financiadas em retroacção com e pelo Estado…) costumam deter um controlo quase absoluto sobre todos os mecanismos e instâncias do Poder, numa teia imensa, complexa, co-implicada e inter-urdida de agentes, factores e interesses que depois e na prática são quem e o que domina os aparelhos, formações, estratégias e mecanismos decisórios, ideológicos e materiais da sociedade!

Por outro lado, e como é natural, neste e noutros âmbitos da existência humana em comum, são muitos e variáveis os valores, os princípios, os objectivos e as configurações que essas estruturas representam, assumem, medeiam e executam segundo lógicas díspares e até conflituais, mas sempre fundamentalmente dirigidas à tomada das rédeas e redes de governo ou à sua perpetuação hegemónica nos mais sortidos centros e tutelas do mando societário, político-jurídico, psicossocial e espiritual das nações e dos cidadãos.

– Nada disto é historicamente novo e sempre foi pensado, reflectido e ensinado desde os clássicos, tanto para prevenir como para remediar os males civis e morais, o correlativo descrédito do político e a desordem ou a desorganização social, fenómenos que já o bem lembrado personalista Emmanuel Mounier reconhecia como próprios do descrédito e da decadência da própria Política, – então aí e assim arrastada “pelas mais baixas zonas da ideologia, do sentimentalismo e da intriga”, e aonde a vida pública (como aliás também a vitalidade da vida privada) degenera, recalcada “num domínio fechado, tão estranho ao homem interior que aqueles que conservam o sentido da pessoa e o que nós chamámos o sentido do próximo adquiriram pouco a pouco uma invencível repugnância por ela”, – sentimento talvez só equiparável à triste indiferença que um povo livre (quando tornado escravo…) manifesta ao dormir o sono solto “da abjecção e da ignomínia”, como ainda perto do espírito das nossas insulares, injustas e recorrentes realidades muito bem denunciou o nosso Antero!
______________________

sábado, agosto 18, 2012

Uma Dança de Cadeiras


Berta Cabral, ao ser confrontada – e fazendo frente a um gesto-alvitre nada inocente… – com a possibilidade de Maria do Céu Patrão Neves poder vir a deixar o lugar para que foi eleita (como é sabido, na altura em substituição inusitada, forçada e então muito mal aceite no PSD-A, de Duarte Freitas), de modo a vir a integrar um eventual futuro executivo regional, logo se apressou a afastar tal hipotético cenário, dizendo mesmo que a actual deputada europeia permaneceria mas era muito bem onde presentemente está, e que, portanto, o seu casual ingresso num governo do partido de Passos Coelho nos Açores, presidido por si, lhe estaria vedado!

O caso, por si apenas, não traz novidade nenhuma e tem importância nula para a governação açoriana, qualquer que ela venha a ser, até porque Patrão Neves, quiçá injustamente, nunca foi figura muito implantada no PSD local, por razões e impressões pessoais, até talvez de uma certa inveja ou ciumeira pouco abonatórias, mas acima de tudo porque muitos sociais democratas açorianos ainda não se esqueceram de todo o processo que levou à candidatura europeia daquela predilecta mandatária e conselheira de Cavaco Silva…

– Por outro lado ainda, a ninguém que a conheça minimamente passará pela cabeça imaginar aquela tão activa, insinuante e cativante nova especialista e tirocinada em Agricultura e Pescas, depois da sua tão fulgurante carreira política nacional e internacional, regressando a prazo, de pastinha debaixo do braço, aos seus pequenos, conquanto luzidios, canteiros departamentais e intelectuais púlpitos na UAç…

Porém e seja lá como for que as coisas andem ou desandem nos jogos internos de uns e outros, o que importa retirar da lógica inerente a estes sinais e premonitórias peripécias – e nisso Berta Cabral tem toda a razão! – é que, mais do que antecipar ou atender a ensaios de dança para certas cadeiras do poder, valerá pensar, fazer pensar, decidir e trabalhar autenticamente para os Açores e com os Açorianos – com verdade, inteligência, isenção e generosidade – naquilo que a Autonomia, a Democracia e o Desenvolvimento de nós exigem renovadamente hoje, deixando o resto e o ajuste das contas da mercearia insular para segundo plano de intenções, ou para o balcão do fundo da loja…

– Se é que esse inferior nível de compra e venda de títulos passageiros e bugigangas institucionais já não desterrou ou usurpou de vez, em todos os partidos e nas suas listas (negras ou em branco, tanto faz…), a real importância de tudo o mais e do melhor que, desse outro modo irracionalmente enquistado, civicamente obscurantista e político-partidariamente degenerado, com toda a certeza lhes faltará sempre em créditos, credibilidade e mérito!
__________________
Azores Digital:

 RTP-Açores:
 Networked Blogs:
 “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 19.08.2012):
 « Diário Insular » (Angra do Heroísmo, 18.08.2012):

sábado, agosto 11, 2012

A Saúde da Nação


Embora algumas das principais abordagens até agora feitas na Comunicação Social e em certos fóruns partidários a propósito da Política de Saúde – com raras, previdentes e cautelares excepções individuais – tenham sido especialmente urdidas por força de meras argumentações tácticas, interesses conjunturais e tendenciosas, parcelares e obsessivas fixações em questões relativamente pontuais – ou apenas político-partidariamente usadas como recorrente arma de arremesso para-eleitoral –, não há dúvida que uma frontal, isenta e profunda reflexão crítica sobre esta e outras questões essenciais da nossa vida institucional e colectiva (como a Educação, a Cultura, o Trabalho e o Emprego, a Segurança Social, o Desenvolvimento Económico, o Controlo e o Equilíbrio Financeiro, a Democraticidade e a Transparência da Governação…) é cada vez mais necessária, urgente e prioritária!

Entretanto e ainda sobre a dita problemática da Saúde, novamente nos últimos dias, voltámos a assistir – e desta feita com grande destaque – na imprensa da capital, a impressivas e empolgantes notícias sobre aludidas e “catastróficas dívidas” regionais açorianas que, segundo as mesmas indistintas, pouco clarificadas e clarificantes fontes originais (e secundárias também…), teriam já atingido “montantes astronómicos”… 

E logo, como seria de esperar, o teor e as quantificações das referidas “denúncias” – na sequência aliás de outras identicamente tecidas no Arquipélago desde há algum tempo… – motivaram uma série de contraposições, cálculos alternativos e contra-fundamentações económico-financeiras, orçamentais e políticas…

– O problema, quer se queira quer não, é sério e complexo, pelo que merecia um corajoso levantamento e uma rigorosa resposta integrada, cujos perfis e contornos – enquanto os mesmos dizem integral respeito à mesma Política e Gestão da Saúde e dos respectivos sistemas e subsistemas – deveriam ir desde os financeiros e técnico-científicos aos da gestão administrativa e da formação profissional dos seus agentes, passando pelos, amiúde bem díspares, diferenciados, conflituais e até desmemoriados interesses corporativos, comerciais e deontológicos que neste terreno se digladiam (demasiadas vezes por cima dos bem sensíveis e reais corpos sociais e pessoais dos doentes e demais utentes dos serviços públicos e privados da Saúde …).

Porém, uma coisa seria a análise objectiva, serena e isenta de todas estas importantes e nucleares questões, e outra, bem diversa, é o aproveitamento e a distorção táctica das realidades quantitativas e qualitativas que também neste campo se entrecruzam, com intenções e fins de veracidade e interesse duvidosos para os Açores, para quem aqui governa e/ou pretende vir a governar (ou continuar a administrar) a nossa Região Autónoma! 

E depois, diga-se já, mesmo que de passagem apenas, que quem se mostra principalmente direccionado à destruição gradual, planeada e concertada do próprio Sistema Nacional de Saúde enquanto tal não parece muito vocacionado para a correcção das suas maleitas, desvios ou desvarios!

– Finalmente, quanto a certos OCS e a alguns infames políticos que pululam na choldra em que o País se tornou desde há muito, já sabemos do que gastam, reproduzem e vendem por lá e por cá, demasiadas vezes numa espécie de voyeurismo em marketing vicioso, impotente e irresponsável, que tanto desnuda e dá desrespeitosa e quase impúdica capa aos públicos e familiares factos e fatos de banho e toalhas do primeiro-ministro de Portugal e sua família, quanto oculta, omite ou falseia, sem dó nem piedade nem compostura solidária (ou apenas ética que fosse!) de qualquer espécie, os mais essenciais problemas, direitos, deveres, aspirações, medos, impasses e fragilidades dos nossos cidadãos e das suas vidas a arder ou imoladas nos altares do mais abjecto capitalismo neoliberal, financeiro, predatório e agiota que devora tudo e quase todos os povos e países do Globo!

A situação não é, infelizmente, nova, e já Eça, em 1871, testemunhava assim e do que via: 

O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os carácteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências”…

– E como haveria de ser de outro modo, ainda contemporaneamente, por parte de quem, externa e internamente, ao longo da História da Nação e da Autonomia, sempre nos tratou sob regimes de canga (ou “como se andássemos de tanga”…), e nos pretendeu institucional, material e simbolicamente submissos, incautamente alinhados ou politicamente coniventes com os alienantes e conhecidos ditames de controlo e exploração em múltiplos terreiros (nacionais e regionais) do Poder, sem a devida e proporcionada partilha de custos e culpas a pagar pelas afinal comuns e discriminatórias heranças, a par de outras equivalentes menoridades histórico-geográficas, político-ideológicas, mentais e morais?!
_____________________
Publicado em Azores Digital: 
"Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 12.08.2012):
 - http://jornal.diariodosacores.pt/;
Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 11.08.2012):
 - http://www.diarioinsular.com/.

sábado, agosto 04, 2012


As Espumas da Praia


Na ilha Terceira, as Festas da Cidade da Praia da Vitória tem um historial mais ou menos vasto e conhecido, apesar de reincidentes omissões e de pequenos e forjados mitos que – amiúde – rodeiam certas e (des)ajeitadas narrativas individuais e algumas protocolares e retóricas evocações institucionais (demasiadas vezes feitas conforme vai convindo aos conjunturais, variáveis e mutáveis interesses de indivíduos e grupos hegemónicos na vida política, associativa, comercial e económica dessa antiga, nobre Vila e sede do Concelho do mesmo nome).

O caso, de resto, não é exclusivo dali e bastaria aliás uma simples compaginação dos seus aproveitamentos e sucessivos programas, discursos, comissões, orçamentos, propagandas, divulgações promocionais, feiras, reportagens e imagens documentativas ou publicitárias para fazer-se uma ideia mais rigorosa e proporcionada dos seus a seus donos e donas, e das respectivas e reais aferições de custo-benefício ou contrapeso de despesa-investimento-ganho a diversos níveis de avaliação quantitativa e qualitativa

Porém seja lá como for – até porque não será esta a ocasião adequada para balanço das contas desse rosário – a verdade é que as chamadas “Festas da Praia” vem gerando uma notória e crescente expectativa, tem efectivamente granjeado uma medrante popularidade na ilha, alcançaram um significativo impacto regional e junto das nossas comunidades imigradas, e conseguiram pontuar alguma inovação e qualidade estética (especialmente nos seus Cortejos e Marchas) que é justo registar e salientar, apesar do esbatimento ou inexistência de muitas outras, desejáveis e regulares componentes que uma regrada programação festiva, sociocultural, artística e lúdica deste (digo, de outro alternativo ou, pelo menos complementar…) jaez vem reclamando desde há demasiado tempo!

Todavia, de todo e qualquer modo, estas Festas parecem mesmo conseguir avivar uma genuína e ciosa intuição de pertença memorial e de dilatada identificação espácio-temporal de e entre os Praienses, envolvendo-os a todos e àquelas num particular sentimento saudoso (embora nem sempre muito criticamente consciencializado, mas que por si só é positivo, humanamente compreensível e acaba justificado).

– E como não haveria de ser assim? – quando, para além do mais que fica para outra Crónica –, como dizia um dos seus filhos mais afectiva e intelectualmente pródigos – “bendito seja o deus do encontro, / O mar que nos criou […], Pois fica-se sabendo/ Que da espuma do mar sai gente e amor também”…
________________

Publicado em:
“Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 05.08.2012) – http://www.diariodosacores.pt/n/
Outra versão em:
“Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 04.08.2012) – http://www.diarioinsular.com/

sábado, julho 28, 2012


As Tendas da “Silly Season”



“Silly Season” é uma expressão anglo-saxónica muito usada, corrente e já globalmente tradicional para identificar a época de Verão e os respectivos tempos e ritmos calmosos, mais ou menos supostamente letárgicos e modorrentos, de pasmaceira ou torpor, como se a existência activa, as sensibilidades e as consciências ficassem então possuídas de uma espécie de sonolência lenta ou abúlica que fizesse perder a noção das realidades e dos problemas do quotidiano

E tudo isto, paradigmaticamente, sob a torreira do sol, as ondulações do mar, as mornas envolvências da areia das praias, a abençoada frescura das árvores, a pacífica e pacificante sombra das pazes campestres, ou a trepidante e frenética dança de cinturas e cabeças que longos dias e cálidas noites – entre refrescos e alguns cocktails (em salgalhada de mau gosto partidário amiúde inseridos em pepineira fanática nas redes sociais, com músicas vivaças ou cantigas ao luar e à mistura…) – vão fazer abanar e talvez cair a alguns, por entre sorrisos de conquista, assédio, pequenas e grandes tentações ou fantasias para todos os gostos, e muitas tendinhas e grandes barracas em velhos e novos acampamentos de interesse!

– Todavia, nesta altura em que todos procuram usufruir de um retemperante descanso estival ou gozar das chamadas “férias grandes”, aquela denominação (à letra: estação tonta ou imbecil…) continua a ser especialmente usada na gíria política e jornalística para significar a quadra do ano em que nada de importante e decisivo se mostra ou aparenta (não) acontecer na vida social e institucional, enquanto a chamada “classe política” vai a banhos ou a outras vilegiaturas de tipo turístico e desopilante, após um ano de pesados (mas não necessariamente forçados) trabalhos e ciclópicas canseiras executivas, parlamentares, tribunícias, autárquicas, etc.

Ora, como é sabido, essa e esta, a nossa, também cosmopolitamente assumida estação ocorre num ritual intocável e impoluto, aonde corpos e almas vão buscar urgente alento (e, às vezes, bem necessária e real inspiração) para aquele outro ciclo da vida pessoal, ou das (suas) carreiras políticas, que dá pelo outonal e suave nome francês de “rentrée”…

– E não há mesmo partido que se preze que não tenha até já planeado o seu palco de animações, ou um parque de diversão, para tão fatalmente previsto, grandioso e mobilizador desfile de actores institucionais e de exímios protagonistas da política-espectáculo que temos, enquanto o País arde e desespera com maus agoiros e ventos cruzados de todos os quadrantes, como naquela parábola do incêndio na Cidade, ao lado da autista tenda do grande Circo (como o filósofo Kierkegaard lúcida e previdentemente contava).

E todavia, a par de idênticos alheamentos nossos contemporâneos, cá temos o mesmo Povo, cada vez com menos Pão mas batendo palmas entre alienações e festarolas de Verão, já nas vésperas das pateadas e da fuga às responsabilidades, quando as contas forem tiradas a limpo, depois de tanta incauta e irresponsável brincadeira com o fogo durante sucessivas, acumuladas e arriscadas silly seasons, – bem armadas todas à tradicional moda portuguesa, desde Belém ao Caldeirão do Corvo, passando ali pelas sedes partidárias à portinhola de cujas barracas as primeiras cabecinhas a despontar não auguram nada de promissor…

– E assim parece que iremos de imaturidade em casmurrice crescentes até aos derradeiros desplantes e à derrota final, coisa aliás bem adequada ao espírito da presente quadra, e da outra que, daqui a um ano, promete trazer do mesmo ou pior, perante a cobarde claudicação dos créditos de quem deveria, sem miopia partidária ou estupidez política, ver muito mais e melhor para cada uma das nossas ilhas e para a Região no seu todo! 
_____________________
Publicado em: