sexta-feira, maio 09, 2014



Agendas Escondidas?




Há uma semana retomei matérias aqui antes afloradas sobre a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), – tema sobremaneira problemático e que merece renovada atenção por tudo o que envolve (de modo nem sempre transparente), tanto no que global, estatutária e genericamente abrange de relações Portugal/EUA, quanto mais em particular no que programática e político-administrativamente diz respeito aos Açores...

– E neste âmbito, entre outros, apontámos:

1) As polémicas que desde início e até hoje envolveram a constituição dos sucessivos órgãos da FLAD, sempre preenchidos ao sabor de mutantes conveniências partidárias e proveitos conjunturais dos governos de Lisboa;


2) a variável, mas preponderante, subalternização permanente das questões regionais, no quadro das iniciativas e esferas de intervenção da Fundação, apesar das meritórias e pontuais correcções que lá foram recentemente introduzidas, a custo;

3) exigências institucionais açorianas (desde o Parlamento às Autarquias), articuladas e secundadas pela sua tradução e amplificação nos OCS e na opinião pública, no sentido de trazer/aproximar a FLAD à RAA, fosse pura e simplesmente colocando-lhe sede nos Açores ou apenas procedendo à instalação de uma sua “secção”, “gabinete” ou “extensão” (serviços e préstimos de proximidade!) na Terceira (Praia da Vitória);

4) o controverso e longo consulado (mais de 20 anos!) de Machete à frente da Fundação, bem documentado nos juízos, dúvidas e reservas que sobre a respectiva gestão e postura foram sendo expandidos (v.g. pelos EUA e por Mota Amaral...), – tudo isso até


 5) às óbvias injunções de Passos Coelho/VascoRato;


6) à não explicada renúncia de Miguel Monjardino, e


7) à visivelmente amistosa recepção que Cavaco concedeu há dias a Vasco Rato e Jorge da Silva Gabriel (seu braço direito na FLAD), todavia intrigantemente sem a presença de Michael Baum (membro do conselho de administração indicado pela Embaixada dos EUA)...


– Voltarei ao tema, porém registando já as declarações de Freitas do Amaral (na Ribeira Grande) a propósito da liberalização do comércio transatlântico, agenda complexa da TTIP, onde a FLAD anda metida, mas onde os Açores, ao que se nota, não filam nem refilam!


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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 10.05.2014):
























RTP-Açores:




















e "Diário dos Açores" (11.05.2014).

As Malhas da Fundação

1. Em texto anterior salientámos que a renúncia de Miguel Monjardino ao desempenho de Curador da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) havia gerado não só grande curiosidade e expectativa, quanto tivera o condão de fazer levantar algumas pontas, véus, capas e aventais com que em misteriosos gabinetes, corredores, galerias e emblemáticos capitais daquela Fundação, desde há muito tempo, vem tecendo estratégicas molduras e bons préstimos...

– O tema mais continua ainda a interessar aos Açores, como foi dito, porque, tal como Mário Mesquita (que lá permanece, segunda consta, por insistência do Governo regional...), Miguel Monjardino é açoriano, e ainda porque, sendo conhecidas as qualidades e diplomáticas afinidades deste conhecido e mediático terceirense (a par, evidentemente, da sua honorabilidade pessoal e qualificação intelectual indiscutíveis, conforme acentuei!), o seu inesperado afastamento da FLAD pode estar relacionado com factos e outras supostas coincidências – alegadamente não envolvendo directamente os Açores – mas verosimilmente reflectindo uma situação interna da Fundação que é marcada por uma série de nebulosas, intrigas, armadilhas, subtis ratoeiras e já indisfarçáveis conflitos...



2. Ora a FLAD é uma “instituição portuguesa”, “de direito privado” e “financeiramente autónoma”, que tem por missão “contribuir para o desenvolvimento de Portugal através do apoio financeiro e estratégico à cooperação entre a sociedade civil portuguesa e americana”. Criada em 1985, esta Fundação nasceu para promover múltiplas relações Portugal/EUA e foi logo dotada à nascença de cabedais vastos – a partir de um pecúlio inicial (85 Milhões de Euros) constituído “através de transferências monetárias feitas pelo Estado Português e provenientes do Acordo de Cooperação e Defesa entre Portugal e os EUA (1983)”, isto é, fundamentalmente, ao abrigo ou à sombra, da Base das Lajes! –, declarando-se depois a viver, desde 1992, “exclusivamente do rendimento do seu património” e de valores que recentemente reacenderam polémicas à volta de Rui Machete (que a dirigiu durante cerca de 20 anos) e de velhos dissídios gestionários entre tutelares agentes, confrades, sócios, demais parceiros envolvidos e duros desagrados diplomáticos norte-americanos...


Por outro lado ainda, como aqui também comentámos anteriormente, as últimas escolhas para os órgãos sociais da FLAD tornaram-se de imediato uma questão controversa e que se pode resumir, no essencial e no que se refere à posição dos Açores (e de Mário Mesquita e Miguel Monjardino...) – ladeando-se naturalmente o supremo jogo de interesses político-partidários, estratégico-diplomáticos, pessoais e outros que não vem ao caso retomar, por exemplo, as colaterais e putativas acções de várias agências e sociedades, v.g. o Centro Português para a Cooperação (que integrou Marques Mendes, Ângelo Correia, Vasco Rato, Júlio Castro Caldas e outras destacadas figuras do PSD), o IPRI, a Loja maçónica “Mozart”, etc.) –, entre voltas labirínticas e reviravoltas públicas ou de bastidores, do seguinte modo:


– Os Açores pretendiam um representante formal, ou alguém que informalmente assegurasse uma representação efectiva dos Açores no Conselho Executivo da FLAD (onde tinha estado Mário Mesquita), o que não se conseguiu; e foi depois, com o afastamento forçado da ex-ministra socialista Maria de Lurdes Rodrigues (nomeada por José Sócrates) e sua substituição na presidência da FLAD por Vasco Rato (escolha directa de Passos Coelho), que fomos chegando ao imbróglio actual... Porém, dizíamos, no que se refere especificamente aos Açores, o assunto parece ter ficado por ali, gerido com algum cuidado e consenso projectivos por Vasco Rato (tanto em Lisboa como nas reuniões mantidas nos Açores com Vasco Cordeiro, e entre os dois na presença de Mesquita, que aliás mantém, conquanto em piso inferior, um asseado gabinete na Fundação, apesar de ter, ao que o “Expresso” escreveu, sido “dispensado”, “com grande agressividade”, de uma “contribuição mais empenhada na Fundação”...).


3. Ora é neste contexto – que aparenta, pretende dissimular ou simula envolver várias vertentes... – que vem à ribalta de alguns OCS: 1) a renúncia e consequente afastamento de Miguel Monjardino; 2) o despedimento de José Sá Carneiro (agravado com a instauração judicial de um processo disciplinar contra este ex-secretário-geral da FLAD durante a chefia socialista de Lurdes Rodrigues), e 3) a dispensa de uma outra Curadora da Fundação, a conceituada cientista Elvira Fortunato (que se tem pronunciado criticamente em relação à política para a investigação científica imposta pelo governo de Passos Coelho), por alegada “desavença com a novo presidente do Conselho Executivo” da FLAD (Vasco Rato), ainda segundo fontes invocadas por aquele semanário, manifestada “num episódio [...] muito desagradável, desnecessário, inexplicável e institucionalmente incompreensível”!

– Todavia, pese embora alguma deriva acrescida ou compósita inflexão causal, a verdade é que, conforme já havíamos escrito aqui, a FLAD, ao sabor dos novos (des)alinhamentos e agenciamentos político-partidários e governamentais portugueses, luso-americanos e açorianos continua ainda em parto de profundas e controversas recomposições executivas, curadoras, técnicas e individualmente representativas, quase todas e todos afigurando-se ali pouco claros e justificados, sabe-se lá se numa série em crescendo de (des)acertos ou (des)ajustes de contas, nos quais os melhores róis, como em ratoeira armadilhada, estarão apenas à espreita de quem os desembrulhe, mordendo a isca (ou atirando-a a mar largo, como o dos Açores, mesmo a calhar...), para desvio na rota das malhas gradas de outras redes, das quais o peixe mais pequeno, previdente e ágil, ter-se-á estrategicamente escapulido a tempo e antes que a embarcação adorne!



Finalmente, enquanto tudo isto continua a arrastar-se, ameaçando atingir proporções maiores a diversos níveis institucionais, administrativos e diplomáticos, é sabido que Vasco Rato (acompanhado de Jorge da Silva Gabriel, seu braço direito na FLAD) foi entretanto recebido pelo Presidente da República (todavia intrigantemente sem a presença de Michael Baum, membro do conselho de administração indicado pela Embaixada dos EUA...), sendo mais que certo ter Cavaco Silva querido inteirar-se de toda esta conflitual situação, a qual – para além dos Açores – imbrica na complexa e delicada rede global das relações luso-americanas, de onde a nossa Região não pode nem deve deixar que a ponham à margem, apenas servindo para dar cobertura – de corpo presente, boca calada e olhos fechados? – sabe-se lá a quê e para quê, afinal... 
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 11.05.2014):






















e Azores Digital":
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=2624:


sábado, maio 03, 2014



As Redes e as Ratoeiras
da Fundação Luso-Americana




.1. Embora não tenha, por enquanto, suscitado aprofundados comentários e merecidas análises contextualizadas, a renúncia de Miguel Monjardino ao desempenho de Curador da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) – lugar que acabara de ocupar e para o qual fora directamente indigitado pelo Primeiro-Ministro –, não deixou, mesmo assim, como seria e mais será de esperar, de levantar não só grande curiosidade e expectativa, quanto teve o condão de começar já, conquanto em círculos sintomática e discretamente bem informados, a fazer levantar pontas, véus, capas e aventais com que tantos dos misteriosos gabinetes apalaçados, atapetados corredores, artísticas galerias, frondosos jardins e emblemáticos capitais daquela Fundação, desde há muito tempo, vem tecendo em estratégicas molduras e bons préstimos...

– O tema, evidentemente, interessa aos Açores, por um lado porque, tal como Mário Mesquita (que lá permanece...), Monjardino é açoriano – embora não tenha sido nem em condição de representação nossa, nem, que se saiba, para outra qualquer deputação político-governamental que lá foi parar –, e ainda por outro, sendo que, conhecidas as suas qualidades e diplomáticas afinidades (a par de honorabilidade pessoal e qualificação intelectual indiscutíveis!), o seu afastamento da FLAD, na sequência de um pedido consumado há cerca de um mês, porém agora divulgado (por quem e com que intuitos?), pode estar relacionado com algo daquilo que o “Expresso” e a “Sábado”, em articulável concatenação de factos e supostas coincidências – que alegadamente não envolverão os Açores – quiseram publicar! 

Todavia, o que não se narrou é o que talvez se conte amanhã, por entrepostas intrigas, armadilhas e subtis ratoeiras...



2. A FLAD é uma “instituição portuguesa”, “de direito privado”, “financeiramente autónoma” e tendo por missão “contribuir para o desenvolvimento de Portugal através do apoio financeiro e estratégico à cooperação entre a sociedade civil portuguesa e americana”.

Criada em 1985, esta Fundação nasceu assim para promover relações Portugal/EUA e foi logo dotada de cabedais vastos – a partir de um pecúlio inicial (85 Milhões de Euros) constituído “através de transferências monetárias feitas pelo Estado Português, e provenientes do Acordo de Cooperação e Defesa entre Portugal e os EUA (1983)”, isto é, fundamentalmente, ao abrigo ou à sombra, da Base das Lajes! –, declarando-se depois a viver, desde 1992, “exclusivamente do rendimento do seu património” e de valores que recentemente reacenderam polémicas à volta de Rui Machete (que a dirigiu durante cerca de 20 anos) e de velhos dissídios gestionários entre tutelares agentes, confrades, sócios, outros parceiros envolvidos e duros desagrados diplomáticos norte-americanos...

Por outro lado ainda, como já aqui comentámos, as últimas escolhas para os órgãos sociais da FLAD tornaram-se de imediato uma questão controversa e que se pode resumir ao seguinte, no essencial e no que se refere à posição dos Açores, de Mário Mesquita e de Miguel Monjardino – ladeando-se naturalmente o jogo de distintos interesses político-partidários, estratégico-diplomáticos, pessoais e outros que não vem ao caso retomar – por exemplo, as colaterais e putativas acções de várias agências e sociedades, v.g. o Centro Português para a Cooperação (que integrou Marques Mendes, Ângelo Correia, Vasco Rato, Júlio Castro Caldas e outras destacadas figuras do PSD), o IPRI, a Loja maçónica “Mozart”, etc.), e cujo labirinto teve, entre voltas e reviravoltas públicas ou de bastidores, que são relevantes para a nossa Região:

– Os Açores pretendiam um representante formal, ou alguém que informalmente assegurasse uma representação efectiva dos Açores no Conselho Executivo da FLAD (onde tinha estado Mário Mesquita), o que não se conseguiu; e foi depois, com o afastamento forçado da ex-ministra socialista Maria de Lurdes Rodrigues (nomeada por José Sócrates) e sua substituição na presidência da FLAD por Vasco Rato (escolha directa de Passos Coelho), que fomos chegando ao imbróglio actual...

Porém, dizíamos, no que se refere especificamente aos Açores, o assunto parece ter ficado por ali, gerido com algum cuidado e consenso projectivos por Vasco Rato (tanto em Lisboa como nas reuniões mantidas nos Açores com Vasco Cordeiro, e entre os dois na presença de Mesquita, que aliás mantém um asseado gabinete na Fundação).



3. Ora é neste contexto – que aparenta, pretende dissimular ou simula envolver várias vertentes... – que vem à ribalta de alguns OCS: 1) a renúncia e consequente afastamento de Miguel Monjardino; 2) o despedimento de José Sá Carneiro (agravado com a instauração judicial de um processo disciplinar contra este ex-secretário-geral da FLAD), e 3) a dispensa de uma outra Curadora da Fundação, a conceituada cientista Elvira Fortunato (que se tem pronunciado criticamente em relação à política para a investigação imposta pelo governo de Passos Coelho), por alegada “desavença com a novo presidente do Conselho Executivo” da FLAD (Vasco Rato) – ainda segundo fontes invocadas por aquele semanário – manifestada “num episódio [...] muito desagradável, desnecessário, inexplicável e institucionalmente incompreensível”!

– Todavia, pese embora alguma deriva acrescida ou compósita inflexão causal, a verdade é que, conforme já havíamos escrito aqui, a FLAD, ao sabor dos novos (des)alinhamentos e agenciamentos político-partidários e governamentais portugueses, luso-americanos e açorianos continua ainda em parto de profundas e controversas recomposições executivas, curadoras, técnicas e individualmente representativas, quase todas e todos ali se afigurando (ou não!?) pouco claros e justificados, sabe-se lá se numa série em crescendo de (des)acertos ou (des)ajustes de contas, nos quais os melhores róis, como em ratoeira armadilhada, estarão apenas à espreita de quem os desembrulhe, mordendo a isca (ou atirando-a a mar largo, como o dos Açores, mesmo a calhar...), para desvio de rota nas malhas gradas de outras redes, das quais o peixe mais pequeno, previdente e ágil, ter-se-á estrategicamente escapulido a tempo e antes que a embarcação adorne... 
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 06.05.2014):























e RTP-Açores:




















Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 03.05.2014):























e "Azores Digital":
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=2619:





sexta-feira, abril 18, 2014


Da Ideação Suicidária
ou A Degeneração do Humor


 1. Não é fácil gerar e gerir o Humor, fenómeno complexo e sério que – tal como o Riso, o Cómico, a Ironia e outras manifestações próximas dele e das suas variadas facetas e configurações – tem sido objecto de aprofundados estudos temáticos.

– De resto, para além de ser uma manifestação não só mas especialmente humana, cultural e psicossocialmente situada, de sentimentos, percepções estéticas e juízos de valor sobre factos, pessoas, tipos, situações e comportamentos reais, ficcionais, físicos ou imaginários, que são transmissíveis ou transmitidos sob múltiplas formas de representação discursiva e simbólica (verbal, literária e gestual), o Humor e as suas categorias ou circunstâncias de exercício retórico, narrativo, teatral e iconográfico foi visto em conhecidas e tão diversas abordagens como as que foram desenvolvidas pelos filósofos, escritores, dramaturgos, psicólogos e comediantes clássicos, e mais recentemente ainda, a título de exemplos que apenas saliento, Bergson (numa obra sobre “a significação do cómico”), Darwin (que o estudou na perspectiva “das emoções no homem e nos animais”), ou por Freud e Lacan que o inseriram no quadro psicanalítico e intersticial da linguagem e das suas “contaminações” por relação ao inconsciente, ao desejo, à sexualidade, ao poder, etc., como no caso dos ditos espirituosos (“mots d’esprit”), chistes, anedotas, cantigas, graças ou dichotes...
  

Por outro lado, toda a trama expressiva e crítica que o Humor e suas variantes paradigmáticas contêm e veiculam estão bem presente no folclore dos povos e culturas, disso até sendo amostra muita rica o caso dos dizeres das nossas Velhas (que abordei em Heranças da Terra – Leituras de Etnografia e Outros Textos), enquanto modalidade genericamente filiada numa tradição remontável às Cantigas de Escárnio e Maldizer.

E é assim, conforme mais salientei, serem intenção ou intencionalidade de As Velhas a sátira de casos, vivências e situações individuais ou comunitárias transpostas para uma ou várias insólitas ocorrências aonde um certo teatro de costumes, gestos e falas é sintetizado numa relação ou tendencial relacionamento entre pessoas (homens e mulheres idosas), desenhando-se aí uma dupla cena-padrão envolvendo um jogo imagético, libidinal e amoroso de absurdo e de desejo, sendo também o mesmo suportado por uma lógica de duplo sentido que efectua uma transgressão do registo normalizado das morais e das linguagens socialmente avalizadas e toleradas...

2. Vem isto também a propósito de um programa – intitulado Melhor do que Falecer – da autoria de Ricardo Araújo Pereira (RAP), figurinha estelar do nacional-humorismo em voga e alta cotação nos canais da TV que encharca o País com as suas criatividades espirituosas...


A dita peça – que é para arrastar por três meses... –, terá a duração de longos e penosos 5 minutos, sendo transmitida em horário nobre, a seguir ao Telejornal do Canal que lhe dará guarida, tal como já começou a acontecer na passada 2.ª-feira com uma inacreditável e repugnante encenação, enredada numa lengalenga barata mas insinuante e sugestiva – e assim irresponsavelmente indutora, propedêutica, quando não quase apologética! –, de uma série de transes suicidários, documentados, à laia de reportagem sensacionalista (trágica, porém!), com uma série de saltos para a morte a partir de uma varanda de um prédio citadino, de onde, acompanhados de gritos em fundo, jovens se atiravam, invocando, ou sendo-lhes subliminar ou abertamente relevados desesperos, desesperanças e outras pulsões violentas e auto-destrutivas, que os levava a projectarem-se filmicamente no vazio, para acabarem por cair, corpos mortos, no chão da rua!

– Ora aquela cena é tão destituída de qualquer réstia de sentido de humor, ou de outro qualquer sentido do que quer que seja para além da sua inconsciência, ignorância e leviandade, que é difícil encontrar adjectivos para classificá-la até ao osso da respectiva imprudência comunicacional e televisiva, menoridade racional e brutal demência ética!


 3. Já não é a primeira vez que tamanhos experimentalismos recebem acolhimento e encómios em OCS lisboetas, sendo até tidos por coqueluche e supostos modelos de criatividade humorística aplicada ao actual campo da vida sociopolítica do proverbial e ajardinado “rectângulo” do massificado Zé Povinho, podendo mesmo dizer-se de tal esterco televisivo o que aqui se dizia, há perto de cinco anos atrás, a propósito de outras façanhas de igual jaez e grupal fedorência de RAP&Cia, porquanto sempre “há humor e humores” conforme os talentos, virtudes e níveis culturais em cena ou pantalha (desde os ditos à Charlot, Cantiflas, Solnado ou Badaró, ao ordinário à Herman, ao inglês de Mr. Bean ou Yes Minister, até ao Allo! Allo!, ao Gendarme de Funès, ao brasileiro do Gordo ou às sitcoms norte-americanas, sem esquecer os Palhaços dos Circos e as nossas populares Danças e Bailinhos de Carnaval, mesmo sem Ratão em audiovisual…). 

Porém – e para já não referirmos outras exemplares e bem duvidosas graçolas antigas do tal ido “Gato Fedorento”, como as de um bolçado escarro sobre as devoções marianas em Fátima, o achincalho ao pouco alfabetizado candidato a autarca açoriano ou outros pretendidos catalisadores de risota ou gargalhada em estúdio, com chocarrices pegadas nos equívocos desses pequenos mitos untados nas vascas da mediocridade nacional aonde se manifestaram e persistem desalmadas e quiçá impiedosas lógicas de violência simbólica  e do acanalhamento cívico, moral e espiritual que a nossa burgessa e fútil classe político-partidária e seus actores económicos e agentes mediático-culturais fomentam sem apelo nem agravo!


– Agora, porém, vinha a dizer, temos essa inacreditável encenação de ideação suicida, (apologia e motivação suicidária!) que é tão mais grave e profundamente celerada quanto faz evocar no imaginário colectivo dolorosas e dramáticas cenas do quotidiano do mundo e da nossa própria Pátria, envolvendo jovens, crianças, pais e mães, toxicodependentes e outros seres humanos apenas mas fatalmente tocados pela fascinante atracção do vazio e pela tentação do nada de si e do Outro, à beira dos precipícios todos que levam à aniquilação última da Vida e da Esperança!


Por tudo isto – e pelo que ainda fica para ser dito depois – é que esse programa (talvez não por acaso guardado pela sombra estilizada da gadanha da Morte...) – seja afinal e para além do mais, sinal e prova provada não só da degenerescência do Humor dos supostos criativos e apalhaçados humoristas lusos, quanto da degeneração e falecimento total da responsabilidade de Portugal e dos Portugueses perante todos os que, de um modo ou de outro, conivente e complementarmente, lhes assassinam o Futuro, vendendo-lhes “artístico-humoristicamente” (?), sem graça nem alegria nem amor, a desgraça triste e angustiada do próprio falecimento do corpo e da alma na alienação do Presente...

Angra do Heroísmo, 17 de Abril de 2014
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Publicado em "Diário dos Açores (Ponta Delgada, 18.04.2014):





































Azores Digital:



















e "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 27.04.2014):



segunda-feira, abril 14, 2014



O Silenciamento das Torturas



1. Com lançamento anunciado para o dia 16 de Abril na Biblioteca Nacional em Lisboa, a 2.ª edição do livro de José Sócrates A Confiança no Mundo inclui um posfácio novo de Eduardo Lourenço, texto que o “Público” divulgou sob o título de “O desejo amoroso do mal” e onde o reputado professor e ensaísta – salientando fundamentalmente que esse trabalho denuncia “uma função problematizadora da própria mitologia democrática sob a qual, em princípio, assenta a ordem ideal da chamada Civilização Ocidental e não só” –, escreve subtilmente assim:

– “A questão da tortura no mundo actual é tratada pelo nosso antigo primeiro-ministro numa perspectiva assumidamente política, sociológica e cultural, não apenas como uma realidade e um escândalo ético de um passado memorial em perpétua repetição, mas como escândalo e contradição ética intolerável na perspectiva de uma ordem propriamente democrática tal como algumas das nações mais ilustres – e ilustradas – do nosso mundo contemporâneo quase miticamente a apresentam”.


E mais adiante, ao subscrever que “Cada homem é a condição humana na sua integridade”, Eduardo Lourenço salienta: “Esta é a linha vermelha que separa todo o respeito que se deve a essa ‘identidade’ universal e particular ao mesmo tempo, de todas as tentações de a converter em ‘objecto’ sobre o qual qualquer se humano creia ter direitos.

“Dessas tentações (...) a do uso da tortura é a mais inumana. Denunciar abstractamente o seu uso não é pequeno mérito. Não isentar dele os actores mesmos que ocasionalmente violaram ou violam ainda o pacto democrático que por excelência a exclui e a si mesmo se nega é mais arriscado. E por isso mesmo mais meritório. Não é um combate contra um inimigo imaginário”...


2. Esta obra, logo a quando do lançamento da sua primeira edição, provocou várias e muito díspares reacções políticas, culturais e ideológicas, às quais não foram alheias, evidentemente, as anteriores actividades pessoais e as responsabilidades partidárias e governativas de Sócrates e do PS, o mesmo sendo talvez de esperar novamente agora e apesar dos implícitos ou explícitos avales que lhe foram dando, por exemplo e entre outros, personalidades tão política e intelectualmente distintas como Lula da Silva (que a prefaciou), Mário Soares (que a apresentou), Vital Moreira (que sobre ela escreveu) e agora Eduardo Lourenço (que agora lhe dispensou um posfácio).


 Todavia, vinda de outro quadro de leitura filosófica e ética, e a partir ainda de diferenciadas categorias e tradições de pensamento, parece-me digna de ser assinalada aqui – até porque menos consensual, ou menos mediatizada... – também aquela que foi desenvolvida pelo meu colega filósofo Paulo Borges, argumentando precisamente do seguinte modo:

– «José Sócrates,  Lula da Silva e Eduardo Lourenço têm obviamente razão e a maioria de nós reconhece-se nas suas palavras e sentimentos de indignação perante um acto tão bárbaro e inumano como a tortura. Mas infelizmente, eles e muitos de nós, vítimas do preconceito antropocêntrico e especista que domina a nossa cultura, esquecemos que a tortura de que são vítimas os seres humanos tem sido e é cada vez mais nos nossos dias uma manifestação apenas da inimaginavelmente mais ampla e cruel tortura que infligimos aos animais.

«Com efeito, pense-se em como são criados, (mal)tratados e abatidos os biliões de animais que anualmente usamos para nossa alimentação, vestuário, divertimento, experiências ditas científicas e trabalho. Biliões de vidas que, como as nossas, se manifestam em corpos e mentes sensíveis e vulneráveis à dor, ao medo e à angústia. 

«Biliões de vidas que, como as nossas, aspiram à liberdade, à segurança e ao bem-estar e são arrancadas aos seus habitats naturais ou produzidas numa demência industrial para serem instrumentalizadas, violentadas, torturadas e destruídas sem a menor consideração pela sua alteridade e pelo seu estatuto de seres conscientes e sencientes. 


«Ou seja, precisamente o mesmo, mas em muito maior escala, que atrás se definiu como a quinta-essência da tortura, expressão do ‘Inumano’ e ‘acto por excelência que se assume como pura vontade do Mal, quer dizer, da negação do estatuto do Outro como outro’, que muitas vezes, como nos circos, touradas e demais espectáculos, ainda é ‘acompanhado pelo prazer do mesmo acto que anula o outro e em que nós nos anulamos suprimindo inocentemente a nossa essência humana’».

3. Por seu lado, em A Confiança no Mundo, como é sabido, sendo abordado o problema teórico e a consumação prática da Tortura em regimes democráticos, defende o seu autor que esse fenómeno constitui – claro! – não só um atentado à intrínseca e inerente dignidade dos seres humanos, quanto (ou conquanto) é um índice da profunda degenerescência e falsificação a que todos os regimes políticos – mesmo os liberais ou jurídico-formalmente estruturados como Estados de Direito – podem estar sujeitos, no que assim se instituiriam em aparelhos destituídos de legitimidade ético-política e de autoridade moral.



– Esta tese, cuja perspectiva de abordagem, embora não sendo academicamente inédita, traz alguns sugestivos contributos sintéticos para uma mais articulada questionação do fenómeno da Tortura no pensamento tradicional e na história política, securitária, colonial e militar-imperial recente das clássicas democracias europeias e norte-americana (aqui, nomeadamente após aos atentados terroristas do 11 de Setembro, com as contra-posições tácticas e estratégicas assumidas pelos EUA a nível jurisdicional, penitenciário e torcionário...), – mas reclamaria porém igualmente uma incisiva aplicação à História de Portugal, por maioria de razão agora nesta atribulada passagem e comemoração dos quarenta anos do 25 de Abril, quando, entre muitas outras coisas, conviria não esquecer a indomável resistência de tantos militantes anti-fascistas e democratas (que sofreram e de variado modo definharam ou morreram às mãos de carcereiros impiedosos e de agentes assumidamente serventuários da Ditadura), cujos testemunhos vivos e pungente memória psicofísica, moral, sociopolítica, narrativa e espiritual – a não silenciar nunca! – permanecem como outros tantos avisos e desafios à nossa incauta ou desarmada confiança no mundo e nos homens de hoje e de amanhã...

      Foto Alfredo Cunha


4. Este livro de Sócrates, sendo pois agora mais filosoficamente lido (ou legível...) de modo generoso, como o faz Eduardo Lourenço, poderia porém e justificadamente assim não só trazer à reflexão uma mais ampla e referencial evocação ética e quase metafísica do problema (e do Mistério?) do Mal – tanto no que ele absolutamente opõe, ou tenta, digo, derivadamente sub-trair, ao Bem... –, quanto mais sistemática, criteriosa e consequentemente deveria estender a sua crítica visão a tudo o que, em recorrente incidência, por entre a barbárie radical da violência universal sádica e niilista da Tortura e seus suposta ou alegadamente banais (e menores?) actos maléficos quotidianos – como a mentira, a injustiça, a opressão, a exploração e todas as outras simulações ocultantes da verdade... –, ainda permanece intencional e quase inocentemente fruto da tal invocada (e desculpabilizante?) inumanidade ou desumanidade de que (todos e em que medida?) alegadamente seríamos, ou parecemos ser, parte integrante ou interessada...


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Publicado em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 15.04.2014): 



sábado, abril 12, 2014


As Figurações do Instante

no Olhar de António Araújo

1. O retentivo olhar de António Araújo e a figuração artística das suas correlativas imagens fotográficas – representado aquele e servido estas por um amadurecido, apropriado e muito seguro manuseamento e domínio técnico de específicos equipamentos e especializados recursos –, têm vindo a afirmar e projectar este notável Fotógrafo e a sua Arte como um dos mais qualificados nomes da Nova Fotografia (chamemos-lhe assim...) feita nos Açores, porém em revelação crescente e confirmado reconhecimento em todo o País...


2. Nascido em Matosinhos (1971), António Araújo concluiu o Curso Técnico-Profissional de Artes Gráficas e Comunicação na Escola Soares dos Reis (Porto, 1991) licenciando-se depois (2000) em Design de Comunicação na Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos (onde leccionaria Fotografia e Fundamentos do Design Bidimensional).

Casado com uma terceirense, este Fotógrafo (por assim dizer já açoriano por adopção afectiva e espaço de mundo...) vive e trabalha em Angra do Heroísmo há mais de vinte anos, aqui tendo exercido docência até 2001 como Professor de Educação Visual, Expressão Plástica e Oficinas de Arte. Formador em Artes Gráficas e Fotografia na Escola Profissional da Santa Casa da Misericórdia de Angra (2001-2014) e Designer free lancer, sua actividade principal desde 1989, António Araújo colabora com o jornal “Diário Insular”, sendo responsável pela concepção gráfica e fotográfica do DI Revista.

 3. Tendo recentemente participado (com José António Rodrigues, Rui Soares e Rui Vieira) na belíssima Exposição Colectiva “4 Visões, 4 Pintores” organizada pela Câmara Municipal da Lagoa, António Araújo desde cedo viu a Fotografia surgir nos seus horizontes de interesse artístico e dedicação profissional, conforme é salientado na nota biográfica incluída no prospecto da referida mostra que dá ainda conta de vários dos seus anteriores trabalhos e bem assim da respectiva co-autoria fotográfica nas seguintes edições em livro: Graciosa, Ilha Serena (Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa), As cores do Dragão – Ilha de São Jorge (Câmaras Municipais das Velas e Calheta), Dragoeiros do Museu do Vinho (Direcção Regional da Cultura), e Angra, Cidade Transatlântica (Câmara Municipal de Angra do Heroísmo).


 4. Numa obra já clássica (Photographie et Societé), publicada em Portugal com tradução e prefácio de Pedro Frade, a autora, Gisèle Freund – famosa fotógrafa documental, ensaísta e retratista (Malraux, Joyce, Borges, Neruda, Mitterand...), discípula de Norbert Elias e Karl Manheim e socióloga próxima das abordagens críticas da Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer...) –, salientou que a Fotografia, sendo “originária da cooperação da ciência e de novas necessidades de expressões artísticas, tornou-se logo à nascença objecto de violentos litígios. Saber se a máquina fotográfica era apenas um instrumento técnico, capaz de reproduzir de modo puramente mecânico as aparências, ou se era preciso considerá-la como um verdadeiro meio de exprimir uma sensação artística individual, inflamava os espíritos dos artistas, críticos e fotógrafos”, – quando não, digo, como sempre acontece (tal o seu poder sobre a realidade e o seu fascínio sobre-real...), com políticos, propagandistas, ideólogos, estrategas e manipuladores das consciências, das vontades e das mais nobres ou dissimuladamente abjectas causas...

E é assim, da verosimilitude ao índice (perspectiva tratada por Dubois), que cada vez mais, desde a loucura fotográfica do turista (mais ou menos “voyeur” dos sítios, monumentos e exotismos de toda a ordem...), à sua mesma proliferação nas redes sociais, no fotojornalismo sério e/ou sensacionalista, ou desde a geral acessibilidade massificada e banalizada que os novos artefactos em série e facilitado formato de registo e arquivo viabilizam, até à última (agora dita patológica) moda dos selfies, que toda a Fotografia (seja pela qualidade documental, sentido artístico e espírito inventivo, ou falta deles...) faz parte natural do nosso sistema moderno e pós-moderno de leitura e inserção na realidade (e na irrealidade e na hiper-realidade, por igual e conjuntamente pela fixação, representação, codificação, função memorial, nostalgia, projecção onírica, utópica ou ucrónica da existência real ou imaginária...).


 – E todavia cabe não esquecer que no cerne e essência mesma da fotografia e do acto fotográfico está implícito todo um complexo jogo de linguagens e signos, percepções, sentimentos, pensamentos, mensagens e raciocínios, onde oscila a verdade e a falsidade do Mundo e do Homem, da Sociedade (como acentuou Barthes), da Natureza e da História, nelas, conforme precisou Sontag, coabitando sempre uma gramática do real e uma ética da visão...

5. Ora é de tudo isto que nos falam, e a tudo isto nos reconduzem esplendidamente as imagens deste Fotógrafo:


 – Figuração e captação de instantes, momentos e espaços únicos que o seu olhar prendeu na fugaz ou fugidia procissão dos seres, rostos, corpos, coisas, cores, sombras, luzes e penumbras (talvez na busca daquele instante suspenso, poeticamente cantado por Emanuel Félix...), as suas objectivas figurações, como imagens que a Objectiva trouxe e revelou – ainda recorrentemente aqui numa paradigmática fixação insular ora cativante do pormenor e do fragmento, ora suspensa sobre os abismos do mar –, fazem da arte de António Araújo a expectante visualização de uma via crucis outra, talvez afinal idêntica à da própria Vida que passa em direcção ao Mistério que o Fotógrafo, com a Humanidade inteira à janela, procura ansiosamente decifrar...
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 12. 04. 2014):






















e "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 13. 04. 2014):









As formas da Tortura

Com lançamento anunciado para o próximo dia 16, a 2.ª edição do livro de José Sócrates A Confiança no Mundo inclui um posfácio novo de Eduardo Lourenço, texto este que o “Público” divulgou no passado dia 6 sob o título de “O desejo amoroso do mal”.


– A obra, como é sabido, aborda o problema teórico e a consumação prática da Tortura em regimes democráticos, defendendo o autor que esse fenómeno constitui, claro, não só um atentado à intrínseca e inerente dignidade dos seres humanos, quanto é um índice da profunda degenerescência e falsificação a que todos os regimes políticos – mesmo os liberais ou jurídico-formalmente estruturados como Estados de Direito – podem estar sujeitos, no que assim se instituem em aparelhos destituídos de legitimidade ético-política e de autoridade moral!

A tese – cuja perspectiva crítica de abordagem, embora não sendo propriamente inédita, traz alguns sugestivos contributos sintéticos para uma mais articulada questionação do fenómeno da Tortura no pensamento tradicional e na história política, securitária, colonial e militar-imperial recente das democracias europeias e norte-americana (aqui, nomeadamente após aos atentados terroristas do 11 de Setembro, com as contra-posições tácticas e estratégicas assumidas pelos EUA a nível jurisdicional, penitenciário e torcionário...).

– Este livro de Sócrates, sendo agora mais filosoficamente lido (e legível...) de modo generoso, como o faz Eduardo Lourenço, poderia porém não só trazer à reflexão uma mais ampla e referencial evocação ética e quase metafísica do problema (e do Mistério?) do Mal – tanto no que ele absolutamente opõe, ou tenta derivadamente sub-trair, ao Bem...–, quanto deveria ainda estender a sua mesma visão criteriosa a tudo o que, por entre a barbárie radical da violência universal sádica e niilista da Tortura e seus (suposta ou alegadamente) banais (e menores?) actos maléficos quotidianos (a mentira, a injustiça, a opressão e a simulação ocultante da verdade...) ainda permanece, quase inocentemente, fruto da tal invocada (desculpabilizante?) inumanidade de que (todos?) somos, ou parecemos ser, parte integrante...
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 12.04.2014):






















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