sábado, setembro 13, 2014



A Dança das Danças

Merece leitura, reflexão e respeito a recente Entrevista que Mário Cabral (MC) concedeu ao jornal "Diário Insular" (DI) no passado dia 9 de Setembro.

– Seu amigo e vizinho em S. Mateus (onde, tal como na minha Praia, não se tolera que nos vomitem à porta ou conspurquem os barcos...), partilho com MC a fé e a inteligência da fé do Cristianismo e o gosto por Filosofia, Literatura, Teologia e Arte, apesar das diferentes formações e linhas de pensamento e acção; todavia, reconheço-lhe seriedade pessoal, integridade e nobreza de carácter, assumpção de crenças e ideias próprias, qualificação intelectual e méritos académicos e profissionais.



As lúcidas respostas de MC às pertinentes e incisivas perguntas do DI mostram íntegro entendimento da complexa e articulada conjugação das problemáticas ali em presença (situações e valores culturais, religiosos, civilizacionais, artísticos, simbólicos, museológicos, memoriais, patrimoniais e identitários), para além – evidentemente – de complementares questões cívicas, de ética social, responsabilidade institucional e de política e gestão públicas da Cultura e da Educação (escolar e de cidadania!).


Porém essa Entrevista, que em consequência mais deveria ter sacudido e despertado já, contra incríveis alheamentos político-parlamentares e governamentais que persistem, a reabertura e resolução imediatas do inadmissível protelamento do velho e pendente imbróglio jurídico-político que se arrasta há décadas sobre o Museu de Angra e a igreja de Nossa Senhora da Guia (conforme competentemente historiado e clarificado pelo Dr. Álvaro Monjardino, em 05.02.1994, num Parecer talvez (des)conhecido e/ou ainda recordado pela Administração Regional e pela Diocese)...


– Mas se muitos dos alheados cidadãos e medíocres agentes e actores partidários (medrando nesta indigente sociedade), a par de outros tantos cegos e néscios clérigos (que por aí pastoreiam rebanhos de fiéis abúlicos ou sonâmbulos (sem liderança nem pastores à altura), conscientemente pensassem e agissem mais, dançando menos na corda bamba dos seus larvares umbigos ou no varão das suas infecundas cobardias, talvez nunca tivéssemos chegado aos escândalos, afrontas, impunidades e impasses que a todos agora comprometem, revoltam e envergonham!
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 13.09.2014):



























Azores Digital:

e RTP-Açores:

quarta-feira, setembro 10, 2014


Os Declínios do Ocidente



Niall Ferguson, nascido em Glasgow (1964), é um conhecido historiador inglês, professor em Harvard e investigador em Oxford. Colunista habitual da Newsweek, documentarista na BBC e autor de livros já famosos e artigos de referência sobre a História da Civilização (especialmente a partir de abordagens político-institucionais, jurídicas e geoeconómicas), a sua obra The Great Degeneration: How Institutions Decay and Economies Die (original de 2012) foi traduzida e editada há poucos meses em Portugal pela D. Quixote com o título – um pouco abusivamente ajeitado e até indevidamente plagiador do clássico, monumental e homónimo estudo de Spengler... – O Declínio do Ocidente, sendo que, em todo o caso e para o que esta Crónica importa, o respectivo subtítulo desse livro ajuda a clarificar o seu horizonte temático (“Como as Instituições se degradam e a Economia morre”), tal como também o índice dos capítulos sugestivamente aponta e desenha dos pressupostos e núcleos ali em análise (“A colmeia humana”, “A economia darwinista”, “A paisagem jurídica” e “Sociedade civil e sociedade sem civismo”). 


– A obra, como em nota de contracapa vem sintetizado, pretende de facto ser “uma acusação polémica e poderosa a uma era de desleixo e complacência” da “outrora dominante civilização ocidental”, hoje vitimada por “crescimento económico lento, dívidas galopantes, populações envelhecidas e comportamentos anti-sociais”, tudo sintomas que são atribuídos a uma deterioração das melhores instituições paradigmatizadas por ele, enquanto pilares das sociedades livres e prósperas da Europa Ocidental e da América do Norte (mas não por “vantagens geográficas ou climáticas”...) pela existência e papel histórico-jurídico e axiológico do Governo Representativo, da Economia de Mercado, do Estado de Direito e da Sociedade Civil), o que as teria colocado, desde cerca de 1500, “na rota do domínio global” (sic) do Mundo...


 Pese embora o notório e conhecido quadro das (díspares e discutíveis...) filiações, proximidades e/ou (contra)posições teóricas e ideológicas de Ferguson (Davis Landes, Fukuyama e Jared Diamond, Adam Smith e Darwin, Mandeville e Locke, Burke e Tocqueville, Gibbon e Toynbee, Hobbes e Hayek, Friedman e Keynes, etc.), a sua obra merece leitura e reflexão, nesta era de colapsos societários globais, caótica degradação político-institucional e reacendido conflito de Civilizações e Culturas!

– Essa reflexão, com olhos críticos, evidentemente, será bem proveitosa para todos, ou não estivéssemos, para além do mais e dos cenários onde globalmente nos inserimos (e também amiúde declinamos e regredimos...), sob aquilo a que Niall Ferguson apelida de “o primado dos advogados” (ou da primazia antidemocrática, alienante e (coisa bem diferente do primado da Lei e da Justiça!) e sob o domínio hegemónico e neo-colonizante dos farsantes e agiotas do Capital monopolista e explorador, da Banca usurária e da Alta Finança corrupta e corruptiva (aparelhos estes identicamente bem diferentes de uma estruturação e finalidade outras da Economia, do Trabalho e do Desenvolvimento)...


A preocupação de Ferguson, nesta The Great Degeneration, como ele salienta precisamente, “não tem a ver com o desenvolvimento económico, mas antes com o processo inverso da degeneração institucional. A minha pergunta mais abrangente é a seguinte: o que foi exactamente que correu mal no mundo ocidental dos nossos dias? Respondo a essa pergunta na crença de que, enquanto não compreendermos a verdadeira natureza do nosso declínio, estaremos a perder tempo, a aplicar remédios de charlatão ao que não passa de sintoma. Sou também acicatado pelo medo de que, paradoxalmente, o estado económico estacionário possa ter consequências políticas assustadoramente dinâmicas”.

– Assim sendo, neste quadro de profunda degeneração e de explosivos cenários de caos à escala planetária, o autor pode concluir, avisadamente, com as seguintes palavras, cuja aplicação concreta ao caso de Portugal, nomeadamente no que concerne às relações entre Política, Economia, Sociedade, Direito e Justiça não pode deixar de ser considerada, em toda a linha de verdade e de mentiras que caracterizam o nosso dramático presente e comprometem o incerto futuro do nosso País.


Enfim, aonde Ferguson diz “advogados”, os seja os potenciais defensores primeiros da Lei e do Estado de Direito – mas podendo, talvez, ali ler-se intelectuais ou pensadores realmente livres (não “orgânicos” nem ao mentecapto serviço carreirista, táctico e laudatório de todos os viciados aparelhos partidários), cidadãos atentos, responsáveis, empenhados, participativos e limpos, e líderes cívicos, culturais e morais –, valeria por inteiro o seguinte:


“Os países chegam ao estado estacionário (sublinhado meu) quando, como defendeu Adam Smith, as respectivas ‘leis e instituições’ degeneram a tal ponto que as elites ávidas de rendas passam a dominar o processo económico e político. Tentei sugerir que é esse o caso em partes importantes do mundo ocidental contemporâneo. A dívida pública – expressa e implícita – tornou-se uma forma de as gerações mais velhas viverem à custa das gerações mais novas e dos nascituros. A regulação tornou-se disfuncional ao ponto de acentuar a fragilidade do sistema. Os advogados, que podem desempenhar um papel revolucionário em sociedades dinâmicas, tornam-se parasitas numa sociedade estacionária. E a sociedade civil vegeta numa mera terra de ninguém entre os interesses e o estado invasivo. Todas juntas, estas são as coisas a que chamo O Grande Declínio”!
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Em "Diário dos Açores" 
(Ponta Delgada, 11 de Setembro de 2014):
























sábado, setembro 06, 2014


Medo e Sementes de Violência

Como se não bastasse tudo aquilo que a nível internacional nos chega através dos OCS e das Redes Sociais cada vez com maior intensidade e crescentes contornos de brutalidade – como são agora as imagens das decapitações de jornalistas ocidentais por parte de assassinos a soldo de guerra e crença do “estado islâmico” –, estão as mesmas páginas mediáticas recheadas (de modo não só objectivo, proporcionado e realista, quanto também, amiúde, num empolamento estratégico e/ou apenas comercialmente movido...) de notícias, relatos de confrontos e versões de feiíssimas manifestações de agressividade, crimes atrozes e outras demenciais demonstrações de violência física, psicológica, social, discursiva e simbólica que vem ocorrendo cada vez mais próxima na nossa sociedade.


O fenómeno não é certamente novo, mas aparece agora projectado e difundido a uma escala nunca dantes atingida e para efeito da qual muito contribui a conjugação de profundas e dilacerantes crises morais, societárias, culturais e civilizacionais com a disseminação em massa que é proporcionada pelos novos sistemas de telecomunicações móveis, transmissão da informação e partilha quase planetariamente instantânea de mensagens verbais, imagens e valores...

– E neste quadro de cruzamentos e sobreposições reais e ficcionais de linguagens, comportamentos e técnicas (e assim, fundamentalmente, de tempos e espaços cognitivos e sensórios, privados e públicos), como é sabido e quotidianamente se revela potenciado a todos os níveis e modos possíveis, desempenham os Telemóveis um papel preponderante e paradigmático, conforme tem vindo a ser estudado também entre nós, v.g. no qualificado âmbito da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica (cujas teses e estudos a Editora Paulus tem ajudado a divulgar, publicando-os).

O tema tem premência, tanto mais quanto não há muitas semanas assistimos a mais uma consumada encenação conflitual (logo pré-anunciada para nova réplica de “rolezinho” à portuguesa...) daquela espécie de “mobilização” (verdadeira “convocatória” de mob nas Redes Sociais, em computadores, telemóveis, iphones, ipads, etc.), para um outro dito, mas depois gorado, “meet” ou meeting (ajuntamento, encontro, reunião) de jovens em diversos locais e centros comerciais de Lisboa!


– A nada disto será estranho toda uma catastrófica acumulação de explosivas “sementes de violência” (numa análoga linha de filiação e montagem que Evan Hunter e Richard Brooks bem documentaram em 1954/55, como se fosse ontem), e todavia na sequência de tal problema e face à recorrência de factos relativos aos mesmos “meets” e respectivas convocatórias para ajuntamentos e mobilizações na área metropolitana de Lisboa através das redes (e teias…) sociais e de telemóveis –, valerá a pena adiantar hoje ainda mais algumas das perspectivas críticas ligadas a esses tão mediatizados acontecimentos.

Ora, mais do que sobre esse complexo fenómeno societário (que todos os dias ganha, ou deveria suscitar, maior atenção e novas premências de observação, estudo, acompanhamento inter-institucional e aprofundada procura de soluções integradas…), e tendo eu aqui um significativo conjunto de textos (opiniões, comentários e pequenos ensaios) sobre os referidos “encontros”, suas origens, contornos, métodos, objectivos e consequências (à semelhança dos chamados “rolezinhos” à brasileira e com traços das similares concentrações de “teenagers” nos “centers and shopping malls” norte-americanos), deste fenómeno, que – repita-se – não é propriamente inédito, de última moda ou novidade (enquanto manifestação grupal de dinâmicas lúdicas juvenis potencialmente conflituais, antes cuja generalização exponencial se vem mimando em certas áreas urbanas e suburbanas...), convirá precisar o seguinte:


– Naqueles fenómenos confluindo múltiplos e diferentes factores psicossociais, culturais, sociopolíticos e económicos, a par de valores e práticas que roçam a para-delinquência criminal, os assédios ameaçadores, os prenúncios de insegurança em pessoas e bens, e que assim, por isso mesmo, provocam e reclamam acrescidas e consequentes medidas securitárias (algumas geradoras de riscos para a liberdade dos cidadãos), é certo porém que, a não serem as mesmas tomadas a devido e proporcional tempo, medida e conta, talvez que a sua ausência, irreflexão ou protelamento mais contribuam antes para a gestação larvar de estados de inquietação, violência e medos colectivos e privados, para cujo tratamento, mais tarde ou mais cedo, o remédio há-de então ser depois pedido a um outro Estado forte, disciplinador e muito mais policial e policiado, – coisa que talvez devesse constituir motivo de prioritária ponderação para alguns pressurosos colunistas de sofá e analistas de palanque que mais preocupados se tem manifestado com não sei que supostas securitites (sic) estivais, ou com a ausência (real essa, mas não pela mesma via) de espaços de inscrição social para alguns segmentos populacionais, quando tal ideal e projecto de vida em comunidade pacífica e pacificada, urbana e pessoal, com a inerente inscrição, deve ser dirigida a todas as classes, raças, idades e condições!



Também por isso é que esta premente questão (que permanece também intimamente ligada ao vício do medo urbano e à sua especulativa e lucrativa gestão enquanto “capital do medo”...), não podendo ser pensada nem resolvida à margem dos novos desafios que se colocam às urgências de uma Democracia justa, à renovação do Estado Social, à Cidadania, à Educação e à Cultura, à articulação entre o Global e o Local e à Convivencialidade – entre a mixofilia e a mixofobia, como reflectiu Bauman –, sendo muito mais grave do que possa pontualmente parecer, deve entrar de imediato nas agendas nacionais e regionais, enquanto há tempo para apagar os rastilhos que esta mesma sociedade ateou...
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 06.09.2014):


sexta-feira, setembro 05, 2014


As Degradações do Ocidente



Niall Ferguson, nascido em Glasgow (1964), é um conhecido historiador inglês, professor em Harvard e investigador em Oxford. Colunista habitual da Newsweek, documentarista na BBC e autor de livros já famosos e artigos de referência sobre a História da Civilização (especialmente a partir de abordagens político-institucionais, jurídicas e geoeconómicas), a sua obra The Great Degeneration: How Institutions Decay and Economies Die (original de 2012) foi traduzida e editada há poucos meses em Portugal com o título – um pouco abusivamente ajeitado e até indevidamente plagiador do clássico, monumental e homónimo estudo de Spengler... – O Declínio do Ocidente, sendo que, em todo o caso e para o que esta Crónica importa, o respectivo subtítulo desse livro ajuda a clarificar o seu horizonte temático (“Como as Instituições se degradam e a Economia morre”), tal como também o índice dos capítulos sugestivamente aponta e desenha dos pressupostos e núcleos ali em análise (“A colmeia humana”, “A economia darwinista”, “A paisagem jurídica” e “Sociedade civil e sociedade sem civismo”).


 A obra, como em nota de contracapa vem sintetizado, pretende de facto ser “uma acusação polémica e poderosa a uma era de desleixo e complacência” da “outrora dominante civilização ocidental”, hoje vitimada por “crescimento económico lento, dívidas galopantes, populações envelhecidas e comportamentos anti-sociais”, tudo sintomas que são atribuídos a uma deterioração das instituições (paradigmatizadas por ele, enquanto pilares das sociedades livres e prósperas do Ocidente, no papel histórico-jurídico e axiológico do Governo Representativo, da Economia de Mercado, do Estado de Direito e da Sociedade Civil).


 – Pese embora o notório e conhecido quadro das (díspares e discutíveis...) filiações e/ou (contra)posições de Ferguson (Fukuyama e Jared Diamond, Adam Smith e Darwin, Mandeville e Locke, Burke e Tocqueville,  Gibbon e Toynbee, Hobbes e Hayek, Friedman e Keynes, etc.), a sua obra merece leitura e reflexão, nesta era de colapsos societários globais, caótica degradação político-institucional e reacendido conflito de Civilizações e Culturas! 
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 06.09.2014):




























e Azores Digital:




sexta-feira, agosto 29, 2014


AS INSCRIÇÕES SOCIAIS

Na sequência de um tema já visado (*) ­ – e face à recorrência de factos relativos aos “meets” convocados para ajuntamentos e mobilizações na área metropolitana de Lisboa através das redes (e teias…) sociais e de telemóveis –, retomo hoje algumas das perspectivas críticas ligadas a esses tão mediatizados acontecimentos.

– Todavia, mais do que sobre esse complexo fenómeno societário (que todos os dias ganha, ou deveria suscitar, maior atenção e novas premências de observação, estudo, acompanhamento inter-institucional e aprofundada procura de soluções integradas…), tenho aqui um significativo conjunto de textos (opiniões, comentários e pequenos ensaios) sobre os referidos “encontros”, suas origens, contornos, métodos, objectivos e consequências...


Ora – à semelhança dos “rolezinhos” à brasileira e com traços das similares concentrações de “teenagers” nos “centers and shopping malls” norte-americanos –, neste fenómeno, que não é propriamente inédito, de última moda ou novidade (enquanto manifestação grupal de dinâmicas lúdicas juvenis potencialmente conflituais, antes cuja generalização exponencial se vem mimando em certas áreas urbanas e suburbanas...), confluem múltiplos e diferentes factores psicossociais, culturais, sociopolíticos e económicos, a par de valores e práticas que roçam a para-delinquência criminal, os assédios ameaçadores, os prenúncios de insegurança em pessoas e bens, e assim, por isso mesmo, provocam e reclamam acrescidas e consequentes medidas securitárias, algumas geradoras de riscos para a liberdade dos cidadãos, é certo, mas que, a não serem tomadas a devido e proporcional tempo, medida e conta, talvez mais contribuam para a gestação larvar de estados de inquietação, violência e medos colectivos e privados, para cujo tratamento, mais tarde ou mais cedo, o remédio há-de então ser depois pedido a um Estado forte, disciplinador e muito mais policial e policiado, coisa que talvez devesse constituir motivo de prioritária ponderação para alguns pressurosos colunistas e analistas de divã que mais preocupados se tem manifestado com não sei que supostas securitites (sic) estivais, ou com a ausência (real essa, mas não pela mesma via) de espaços de inscrição social (para todas as classes, raças, idades e condições, não será?)!
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"Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 30.08.2014):




























e RTP-Açores:
http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?article=37340&visual=9&layout=17&tm=41:



sábado, agosto 23, 2014


Sementes de Violência


Como se não bastasse tudo aquilo que a nível internacional nos chega através dos OCS e das Redes Sociais, cada vez com maior intensidade e crescentes contornos de brutalidade, estão as mesmas páginas mediáticas recheadas (de modo não só objectivo, proporcionado e realista, quanto também, amiúde, num empolamento estratégico e/ou apenas comercialmente movido...) de notícias, relatos de confrontos e versões de feiíssimas manifestações de agressividade, crimes atrozes e outras demenciais demonstrações de violência física, psicológica, social, discursiva e simbólica!


O fenómeno não é novo, mas aparece agora projectado e difundido a uma escala nunca dantes atingida e para efeito da qual muito contribui a conjugação de profundas e dilacerantes crises morais, societárias, culturais e civilizacionais com a disseminação massificada de novos sistemas de telecomunicações móveis, transmissão da informação e partilha quase planetariamente instantânea de mensagens verbais, imagens e valores...


– E neste quadro de cruzamentos e sobreposições reais e ficcionais de linguagens, comportamentos e técnicas (e assim, fundamentalmente, de tempos e espaços cognitivos e sensórios, privados e públicos), como é sabido e quotidianamente se revela potenciado a todos os níveis e modos possíveis, desempenham os Telemóveis um papel preponderante, conforme tem vindo a ser estudado também entre nós, v.g. no qualificado âmbito da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica (cujas teses e estudos a Paulus tem ajudado a divulgar, publicando-os).


 O tema tem premência, tanto mais quanto acabámos de assistir a mais uma consumada encenação conflitual (já pré-anunciada para nova réplica de “rolezinho” à portuguesa...) daquela espécie de “mobilização” (verdadeira “convocatória” de mob nas Redes Sociais, em computadores, telemóveis, iphones, ipads, etc.), para um dito “meet” ou meeting (ajuntamento, encontro, reunião) de jovens em diversos locais e centros comerciais de Lisboa!



 – A nada disto será estranho toda uma catastrófica acumulação de explosivas “sementes de violência”, numa análoga linha de filiação e montagem que Evan Hunter e Richard Brooks bem documentaram em 1954/55, como se fosse ontem...



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Em Azores Digital:




















RTP-Açores:
http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?article=37270&visual=9&layout=17&tm=41:


e “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 23.08.2014):




























sábado, agosto 16, 2014


Réplicas de O Mandarim
na casa de Madame Augusta



1. Sem qualquer dúvida, foi por uma curiosa sobreposição de puras coincidências que ao decorrer a passagem do presidente da República Popular da China pela ilha Terceira estava eu acabando de tornar a reler o nosso Eça – e assim o confesso com toda a sinceridade e gosto –, quando praticamente em simultâneo se me deparou ali nas sempre apelativas, clássicas e actualizadas estantes de uma livraria angrense (a nossa sempre actualizada e informada "In Folio") a bem sugestiva chegada e colocação em merecido destaque da última obra de Jorge Luís Borges traduzida e editada em português (Lisboa, Quetzal, 2014).




 –  Biblioteca Pessoal, assim se chama esse atractivo livro onde o consagrado autor de Ficções, História da Eternidade, O Aleph, etc., regista um magistral, apesar de selectivo e sucinto, repertório daquilo que foram as suas leituras memoriais ao longo do tempo, numa espécie de “biblioteca díspar, feita de livros, ou de páginas, cuja leitura foi uma felicidade”, escreve ele e nós com ele em idêntico gesto o partilhamos e retomamos aqui “por razão clara”..., conquanto nem sequer, por outro lado mas a propósito, deixando de chegar-nos à lembrança a novamente debatida e complexa questão dos programas, autores e conteúdos dos curricula nacionais e regionais na área da Literatura e das Humanidades:

Velho, arrastado e indefinido empeço que continua a flutuar ao sabor luso-açórico de muita falta de conhecimentos estruturados e de visões estruturantes, quando não em incríveis sequências e protelamentos de dossiers, pastas e secretárias, toscas “task forces” de educação, ciência e cultura, e por aí adiante e para trás, conforme as modas e manias mais ou menos instrumentalizadas ou proteladas de acordo com a conjuntura político-ideológica ou a mera táctica do arremedo (e do arremesso...) nacional e/ou regionalista ad hoc!

–  E isto para já nem referir a mais incompetente oscilação histórica, metodológica e temática entre modelos científicos e epistemológicos que sempre tem coxeado entre uma espécie de residual positivismo regionalista, mais ou menos serôdio, fechado e passadista, e um discutível figurino de uniformidade nacional (às vezes material, formal e pragmaticamente necessária, é certo, mas cujas linhas gerais, obrigatórias e/ou facultativas, deixam sempre alguma potencial margem de entendimento e criatividade às tutelas e aos desempenhos regionais  – e nacionais, igualmente–, quando e se bem trabalhados, credíveis e reconhecidos como tal...).





Porém – vinha a dizer, lá acrescentava então Borges –, os professores “que são quem dispensa a fama, interessam-se menos pela beleza do que pelos vaivéns e pelas datas da literatura e pela prolixa análise de livros que se escreveram para essa análise, não para prazer do leitor.


– “ (...) Um livro é uma coisa entre as coisas, um volume perdido entre os volumes que povoam o indiferente Universo, até que encontra o seu leitor, o homem destinado aos seus símbolos. Acontece então a emoção singular chamada beleza, esse mistério belo que nem a psicologia nem a retórica decifram”...


2. No seu Prólogo a esta obra, Jorge Luís Borges fez também questão de salientar que os seus íntimos eleitos não o foram para esta antologia, um pouco iniciática aliás, por serem “forçosamente famosos”, nem em função dos seus próprios “hábitos literários”, nem sequer “de uma determinada tradição, de uma determinada escola, de tal país ou de tal época”, antes manifestando desejo que esta proposta e confluentemente assumida Biblioteca Pessoal fosse “tão diversa como a não saciada curiosidade que me induziu, e continua a induzir-me, à exploração de tantas linguagens e de tantas literaturas”...

– Em nota inserta nas badanas deste pequeno mas fascinante volume, bem sinalizado vem o perfil do autor, lembrando que nasceu em Buenos Aires (1899), de onde partiu em 1914 para uma viagem pela Europa, até 1921, ano em que regressa ao seu país e começa a participar activamente na vida cultural da Argentina.

Professor de Literatura, director da Biblioteca Nacional de Buenos Aires (1955-1973) e Prémio Formentor (1961), a par da poesia, Borges escreveu ficção, crítica e ensaio, sendo a sua obra “um mise en abîme de uma enorme biblioteca, uma construção fantástica e metafísica que cruza todos os saberes e os grandes temas universais: o tempo, o ‘eu e o outro’, Deus, o infinito, o sonho”, todos vistos ou apenas entrevistos ou vislumbrados, para além da cegueira física que cedo o atingiu, ou talvez devido a ela mesma, até à sua morte em Genebra, em 1986.




3. Ora no início desta Crónica dizia eu que a minha leitura desta Biblioteca Pessoal de Jorge Luís Borges coincidira com uma saborosa releitura de Eça de Queirós, logo por acaso na mesma altura em que Xi Jinping passava na Terceira e sendo que, de entre os 63 autores e obras seleccionadas por Borges (incluindo os Evangelhos Apócrifos, Hesse, Kafka, Kierkegaard, Flaubert, Bloy, Poe, Blake, Voltaire, Heródoto, Frei Luís de Léon...) para aquele seu cânone singular (que tem algumas semelhanças com um outro livro seu, Prólogos com um Prólogo dos Prólogos, editado em português no Brasil pela Rocco, em 1985, mas que se diferencia por exemplo das selecções de Harold Bloom...), lá encontrei precisamente nomeado o nosso imortal autor de Os Maias:

– E nem que por admirável sortilégio, precisamente escolhido e apreciado pela sua tantas vezes minorada novela O Mandarim (importante “novidade” no contexto da “escrita narrativa queirosiana”, “no plano da linguagem e tendo em vista as estratégias narrativas que nela emergem”, como entre nós precisou Carlos Reis, mas também importante pelo conteúdo estético-literário da Carta, em jeito de Prefácio, que Eça escreveu, em Agosto de 1884, para a respectiva edição francesa, para além de todas as outras dimensões e alcances morais, éticos, civilizacionais e sociais, e das potencialidades interpretativas, até psicanalíticas, que a obra pode proporcionar...)!



 
Enfim, de Eça traça Jorge Luís Borges uma subtil resenha biográfica, situando a sua vida e obra na nossa “pequena e ilustre pátria”, onde ficou famoso, embora tenha morrido “quase ignorado pelas outras terras da Europa”, apesar de ter sido postumamente consagrado pela “tardia crítica internacional” (que o reconheceu, depois, “como um dos primeiros prosadores e romancistas da sua época”):

“ (...) Eça de Queirós – continua Borges – foi esta coisa um tanto melancólica: um aristocrata pobre. (...) Cada oração que Eça de Queirós publicou foi limada e temperada, cada cena da vasta obra múltipla foi imaginada com probidade. O autor define-se como realista, mas esse realismo não exclui o quimérico, o sardónico, o amargo e o piedoso. Como o seu Portugal, que amava com carinho e com ironia, Eça de Queirós descobriu e revelou o Oriente. A história de O Mandarim (1880) é fantástica (...). A mente do leitor hospeda com alegria essa impossível fábula”...

– Agora, não me parecendo necessário nem possível entrar aqui em aberturas e pormenores sobre o enredo e a “Moralidade discreta” dessa notável e sempre, sempre muito recomendável peça literária, até porque, ao contrário do que o seu autor simula teatralizar numa espécie de epígrafe preambular, estes “calores do Estio” não deixam derivar muito nem embotar nenhuma ponta de sagacidade, tal como não nem poderiam fazer-nos repousar de um outro ainda mais “áspero estudo da Realidade humana”!




Porém, se isto e aquilo, que em Eça e Borges tão bela e gostosamente apreciamos, pode e deve merecer todo o nosso comprazimento literário e cultural, para além do prazer intelectual de os ler e reler ficcional ou realisticamente, como não despistar, pelo direito ou no avesso simbólico de O Mandarim, novos sinais premonitórios e igualmente sábios sobre os antigos e contemporâneos riscos e tentações de vermos tanto “amanuense do Ministério do Reino” a vender a alma e a pátria ao Diabo, dê-se também o nome que se der aos Teodoros (perpétuos, paradigmáticos ou recorrentes “mangas de lustrina à carteira” do Estado...), aos milhões sonhados nos oblíquos olhos de Ti Chin-Fu, às oníricas alianças com as generalas de toda a casta política, aos Camilloffs da geoestratégia mundial, ou até – vá lá... – à euro-lusa casa de hóspedes de Madame Augusta?!

–  De facto, ainda, e com condescendência:

“ – Portugal é um belo país...

“ Eu exclamei com secura e firmeza:

“ – É uma choldra, general”... 
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 17 de Agosto de 2014):





















e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 13.09.2014):


sábado, agosto 09, 2014


A Imagem e o Espelho



O Editorial do “Diário Insular” (DI) de anteontem (07.08.2014) é um excepcional texto de análise e fundamentada problematização dos modelos hegemónicos da programação televisiva que enxameia e mentalmente conspurca o nosso espaço público.

– Trata-se de um artigo que honra este jornal, tanto quanto constitui ensaio de reflexão e registo crítico sobre o modo, dimensão e alcance daquela tão massiva exposição mediática “nas tomadas de decisão quotidianas, quer na vida pessoal [...], quer na vida em comunidade”.


Assim, começando pela questão da influência efectiva que nas percepções e acções do povo terá tão sistemática e panóptica programação (“mesmo pimba e mesmo pró reles”), o DI alveja de seguida os agiotas e oportunistas esquemas de negociata de catálogo e pérfido figurino que, sobrepondo-se aliás à já de si amiúde indigente, subserviente e pindérica produção local, “uma vez por outra aterram [...] aí pelos Açores, certamente onde são dadas condições (...) para que tais desatinos ocorram. Incautos, como em muitas outras circunstâncias, os açorianos lá criam as condições, certamente na esperança de o seu concelho, a sua terra, ganharem notoriedade, serem vistos ou coisa parecida”...

– E verdade é que o que está “em causa não é apenas o retorno para os Açores. É também o aleijão ético e moral de participar num processo que provavelmente estará a transformar este país numa espécie de ‘freak show’ dos pobrezinhos”!


Ora para quem presenciou o último “Verão Total” (tele-subproduto, provinciano e rafeiro, vendido à RTP pela “Coral”, numa tosca e aviltante parceria, neste caso, com a Câmara da Praia e com a serventia habitual – desde há tempos ainda mais medíocre e subserviente – da sua Delegação na Terceira), em nada o cenário denunciado pelo DI seria menos adequado!

– E depois, entre as potencialidades imensas de um (ausente e desperdiçado!) retrato fiel e honroso da Cidade e do Concelho, das suas gentes, valores e patrimónios, e aquela arrivista e humilhante pimbalhada toda (político-institucionalmente cozinhada e irresponsavelmente consentida aqui!), a distância é tão grande como a que separa as imagens reais dos aleijões engendrados à exacta e burlesca medida dos espelhos que cegamente a reflectem e pagam...

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Em Azores Digital:





















RTP-Açores:



























e “Diário Insular” (Angra do Heroísmo (09.08.2014):