sexta-feira, fevereiro 19, 2016


Desafios de uma Entrevista
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A Entrevista que o meu amigo Mário Cabral concedeu à RDP-RTP-A – e à qual o "Diário Insular" (de Angra do Heroísmo) na sua edição da passada sexta-feira deu justificado destaque – constituiu um relevante e significativo momento para a divulgação de um testemunho pessoal e de reflexão partilhada sobre a recente experiência vivida da doença oncológica que atingiu aquele escritor, poeta e professor de Filosofia na Escola Secundária Jerónimo Emiliano de Andrade.


– De resto, quem não conseguiu acompanhar esse trabalho dirigido pelos jornalistas Luciano Barcelos e Armando Mendes, nem pôde ler a citada, alusiva e subsequente reportagem, por certo, como recomendamos, não deixará de o fazer ainda, ou no em breve certamente disponibilizado arquivo de vídeo da TV regional açoriana.


Ora o depoimento de Mário Cabral veio a lume tanto na ocasião em que foram reveladas novas e preocupantes estatísticas sobre a incidência, variedade e prevalência global e específica do Cancro, como também numa altura em que se tem multiplicado nos OCS e nas Redes Sociais toda uma série de registos e narrativas pessoais sobre o impacto que o diagnóstico clínico, o tratamento, os percursos terapêuticos, os efeitos e os desenlaces dessa doença geram nos pacientes e suas famílias, nos profissionais de saúde, nos cuidadores e nos decisores político-sociais, – sendo também esta uma matéria que tem vindo a suscitar crescente atenção e diversificada abordagem no campo das investigações e estudos biomédicos, psicológicos, filosóficos, teológico-pastorais e antropológico-culturais, a par de tematizações confluentes e complementares nos domínios da literatura e das artes.


– Todavia, a Entrevista de Mário Cabral, para além das questões afloradas em resposta proporcionada às perguntas dos dois jornalistas, deixou ainda pendentes muitas outras questões profundas e complexas que merecerão certamente ulterior, sistemático e integrado tratamento crítico, tanto do ponto de vista antropológico-filosófico, ético, psíquico e metafísico, quanto numa perspectiva médico-clínica, socio-assistencial e de prestação de cuidados continuados e paliativos (cuja concepção, operacionalização em rede e extensão integrada continuam leviana e irresponsavelmente dissipadas de modo injusto e dilatório, estruturalmente inabilitado ou pura e simplesmente sujeito às consabidas e desgovernadas improficiências que ameaçam os sistemas de Saúde...). 
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Em Azores Digital:

























"Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 20.02.2016):





sexta-feira, fevereiro 12, 2016



As Cinzas do Carnaval
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Segundo a tradição do Calendário católico (ou do que dele resta), idos os dias de Entrudo e entrando-se na Quaresma, propício é o tempo para balanços e possíveis reconversões pessoais e sociais, conforme decorre da real simbologia dos ritos, cultos, celebrações e leituras litúrgicas deste ciclo que começou na quarta-feira passada.


 – Assim decorre há séculos com profundas meditações e gestos exercendo-se nesse “círculo que fazemos de pó a pó”, enquanto duramos na “roda que anda e desanda [e] juntamente sempre nos vai moendo”, porque, como dizia o Padre António Vieira na igreja de S. António dos Portugueses, nessa Roma de 1672 – fazendo uns “círculo maior, outros menor, outros mais pequeno, outros mínimo” – seja o caminho “largo, ou breve, ou brevíssimo”, “sempre e em qualquer parte da vida somos pó”. Memento homo, portanto!

Todavia, para além dessas reflexões de carácter espiritual, moral e existencial, outras análises mais seculares e sociológicas podem e devem ser feitas sobre o cíclico voltear de festas e paródias que pautam certas “Coisas do Carnaval” terceirense, especialmente essas demonstrações típicas e representações habituais que são as Danças e Bailinhos.


– Foi o que o jornal “Diário Insular” fez no seu Editorial (*) da última terça-feira (dia 9) com um texto pertinente, objectivo e certeiro cuja releitura nunca será de mais recomendar a todos quantos se interessam, acompanham, realizam, estudam e promovem essa grande manifestação da chamada “cultura popular”...



De facto foi detectada e apontada ali uma série de “sinais negativos” que se vem acumulando (com nomeáveis e conhecidas excepções!) sobre “o evoluir do fenómeno”, desde a degradação das linguagens, narrativas e poéticas (amiúde de estilo duvidoso, roçando o dichote burgesso, sórdido ou de caserna), até à banalização e facilitismo expressivos, passando pelo quase desaparecimento (imposto ou nem sequer concebido?) de uma desejável e informada “crítica social” livre e atenta, com o resultado de “tudo isto mina[r] a credibilidade desta forma de teatro popular”, apesar dos seus constatados progressos estéticos, instrumentais, corais e coreográficos!



– Mas se, ainda por cima, as transmissões televisivas (cartaz de grande potencial!) são mal geridas, só resta mesmo pó de propaganda e folclore decadente...
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(*) Editorial do DI:




















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Em Azores Digital:






















"Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 13.02.2016):






sexta-feira, fevereiro 05, 2016


Temporadas Teatrais
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No previsível quadro da configuração e desfecho das últimas Eleições Presidenciais, a bem reflectida caminhada do candidato Marcelo Rebelo de Sousa tinha de fazer-se com segurança, naturalidade vencedora e indesmentível mérito, apesar das incertezas e oscilações da sua personalidade e das afinidades e hipotecas que conseguiu alijar ou obscurecer, mas também com notável empatia (mediaticamente catalisada anos a fio), e (enfim) com um tipo de carisma ou aura popular (sociologicamente indicativa e sintomática) que lhe advêm, conjugadamente, por berço, família, escola, estatuto académico, docência, cultura, percurso partidário, catolicismo (algo beato, mas não clericalista), talento jornalístico, inteligência, auto-confiança, e até com um à-vontade mágico que, em simultâneo, lhe consentiram aparecer engraçadinho no teatro de massas, fazer micro-retórica neutra, ser ajeitadamente populista, comunicativo e consensualista, e depois fechar em apoteose encenando entradas triunfais e assumindo solenes poses de Estado, como naquela messiânica representação, em sacralidade emblemática, na Faculdade de Direito de Lisboa, onde nem É a Hora pessoana faltou!


 – Tão populista, de facto, e engraçado este nosso novo Presidente que, conseguindo ir à tarde à Festa do Àvante, poderá, se quiser, à noite, reavivar (renovando na continuidade...) antigas lições e conversas mediático-familiares do seu homólogo padrinho, apesar das óbvias e profundas diferenças entre os tempos e modos de ambos e do País, porém sem esquecer as potenciais semelhanças e impasses históricos da profunda crise em que a vida portuguesa, europeia e internacional estão mergulhadas, com a recorrente mediocridade e cobardia das classes políticas e das instituições vigentes condicionando a vizinha década para o bem e para o mal, e com as promessas e limites revertíveis das nossas específicas (des)graças, mutáveis semânticas e (des)afeições de patriotismo e soberania, justiça social e equilíbrio financeiro, austeridade consequente e desenvolvimento económico, reactivados já hoje e a conjugarem-se para dramáticas cenas talvez logo a seguir às mascaradas, folias e danças desta época carnavalesca...


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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 06.02.2016):




























RTP-Açores:

http://www.rtp.pt/acores/comentadores/eduardo-ferraz-da-rosa/temporadas-teatrais-_49458:




























e "Azores Digital":
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=3112:



















terça-feira, fevereiro 02, 2016


A Semântica dos Afectos
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1. Na primeira apreciação ao resultado das Presidenciais, o secretário-geral do PCP fez afirmações que tiveram o condão de provocar comentários repetidos em cadeia e juízos interpretativos por uma enfiada de pressurosos “analistas”, jornalistas em praça, historiadores com tarimba e preceptores do espaço público, a par de articulistas e politiqueiros de quadrantes menores.
  
 O pomo da indignação, como é sabido, de tão zelosos cavalheiros-guardiães e feminis-guardiãs da “honra” feminina – em coro de proverbial e simétrico “anti-machismo” – foram as palavras que transcrevo e sublinho, até porque apareceram amiúde truncadas, quando não arbitrariamente sinonimizadas para intencionais apertões de sentido, conforme calhou ao argumentário de tão desobrigados actores (decerto tenazes defensores de todos os direitos e deveres de todas as mulheres)!

– Disse Jerónimo: “Nós podíamos apresentar um candidato ou uma candidata assim mais engraçadinha (...). Em que fosse fácil, com um discurso ajeitadamente populista (...), aumentar o número de votos. São opções e eu não quero criticá-las. Mas (...) nós partimos sempre para estes combates, onde se travam combates de ideias, combates com ideias políticas, com princípios”.



Ora onde de facto se referiu “candidato” ou “candidata” (embora com a adjectivação caindo apenas no singular feminino) muitos quiseram ouvir as finezas e os trejeitos criticados (bem notórios no identificável pendor populista, ilusionista e até circense de certas actuações histriónicas mas sem substância...) como se visando o BE, apesar do franco sorriso, entre surpreendido e embaraçado, de Edgar, talvez a sonhar, em indubitável esperança, com aqueles horizontes sérios – quem disse que “impossíveis”? – de vida e sociedade novas, que ele, sincero mas visionário, recolheu e citou de Ernst Bloch, sem que ninguém o tivesse sequer retido e relevado nos púlpitos do PCP...

– Ao menos Catarina, Marisa e Mariana, inteligentes e graciosas, mostraram enxergar os (reais) alvos, sem que tivesse sido necessário a um calejado e sofrido Jerónimo vir desculpar-se, humilde no recuo e na elucidação semântica daquele seu inusitado sentido de humor...



2. É claro que no meio de todas as gramáticas da desgraça que o PCP arrecadou neste combate – e que, depois daquela improvisada, dúbia, desajeitada e ao final pouco engraçada argumentação de Jerónimo, o Comité Central do seu partido viria precisar em termos mais sociopoliticamente objectivos e de análise inter-partidária... –, não pode deixar de reconhecer-se que, para a vitória do candidato Marcelo, em muito contribuiu a divisão gerada (quando não promovida...) entre e pelos diferentes sectores da chamada “esquerda”, a começar (evidentemente!) pelo PS.

– E de facto, cindido entre grupos e facções, tendências ideológicas (amiúde sem réstia de perspectiva ou consistência estratégica, teórica, prática e ética), oscilando ao sabor de intriga e vinganças de grupelhos tácticos (com manobras de navalhada à esquina dos seus permanentes e recorrentes interesses pessoais, profissionais e de carreirismo institucional), o PS mostrou-se incapaz de definir, assumir e assegurar uma posição clara perante as várias candidaturas e candidatos, à espera que uma distante e mirabolante “segunda volta” lhe permitisse então, em salto oportunista e hipócrita, ir cavalgar o cavalinho, jumento ou mula da vitória, deixando, até aí, lavadas as mãos, com o sacrifício dos outros entregues às sortes e roletas da arena político-eleitoral, no encarniçamento da refrega (mesmo que entre “camaradas” e confrades, velhos cúmplices ou recentes e supostas irmandades de ideal “de esquerda democrática”, quiçá apelidadas de “socialistas”)!



Todavia, cabe notar em abono da verdade, que nem todos os próceres do PS se comportaram levianamente assim, e muitos alinharam visivelmente com candidaturas (formalmente ou por herança e discurso históricos) vindas da área da Esquerda, como foi o caso de César perante e com Sampaio da Nóvoa – pessoa íntegra (aliás tal como Edgar, Marcelo e Marisa!), que reuniu adesões autênticas, sinceras e coerentes, mas que calculou mal os condicionalismos ancestrais, “timings”, projectos e programas dos seus nobres ideais e ideários de Justiça e de Liberdade, obviamente, avaliando mal (digo, sobreavaliando) o estofo ético-político de alguns dos seus debuxados “compagnons de route”, como penosamente se viu no início, a meio e, com pequeno interregno penúltimo, na própria noite dos fatídicos desenlaces, onde alguns, antes tão “convictos apoiantes” (?), logo meteram a viola no armário do Largo do Rato, escondendo-se com as encolhidas caudas entre as acostumadas pernas, pisgando-se, rasteiros e lépidos, para os distantes e balofos cadeirões, cobertores e confortáveis rotinas de secretária, cama e mesa, com as suas genuínas motivações e individualíssimas crenças “democráticas e socialistas”...


3. Naturalmente que neste desde cedo previsível quadro, a caminhada de Marcelo tinha de fazer-se com segurança, naturalidade vencedora e indesmentível mérito, apesar das incertezas e oscilações da sua personalidade política, das afinidades e hipotecas partidárias (que conseguiu alijar ou obscurecer), mas também com notável capacidade empática (mediaticamente catalisada anos e anos a fio), e (enfim...) com uma espécie de carisma ou aura popular (a vários títulos sociologicamente indicativa e sintomática) que lhe advém, conjugadamente, por berço, família, escola, estatuto académico, docência universitária, cultura, percurso social-democrata, catolicismo (algo beato, mas não clericalista), talento jornalístico, inteligência, auto-confiança, e até com o tal à-vontade mágico que lhe consentiram, todos em conjunto, ser simultaneamente engraçadinho no teatro de massas, fazer micro-retórica neutra, ser ajeitadamente populista, comunicativo e consensualista, para fechar em apoteose e encenar entradas triunfais, assumindo solenes poses de estadista, como naquela messiânica representação de sacralidade emblemática na Faculdade de Direito de Lisboa, onde nem É a Hora pessoana faltou!


 – Tão populista, efectivamente, e engraçado este novo Presidente que, conseguindo ir à tarde à Festa do Àvante, poderá, se quiser, na noite do mesmo dia, tentar reavivar (actualizar e renovar na continuidade...) antigas lições jurídico-constitucionais e conversas mediático-familiares do seu homólogo padrinho, apesar das óbvias e profundas diferenças entre os tempos e modos de ambos e do País, porém sem esquecer as potenciais semelhanças e os impasses históricos da profunda crise em que a vida portuguesa, europeia e internacional estão mergulhadas, com a recorrente mediocridade e cobardia da classe política e das instituições vigentes duplamente condicionando a próxima década do Mundo para o bem e para o mal, com as promessas e os limites revertíveis das nossas específicas (des)graças concretas, (des)afectos e (i)mutáveis semânticas, já reactivados hoje e mais ainda a partir do Carnaval... 
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 02.02.2016):



sábado, janeiro 30, 2016


Desgraças da Semântica
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Na primeira apreciação ao resultado das Presidenciais, o secretário-geral do PCP fez afirmações que tiveram o condão de provocar comentários repetidos em cadeia e juízos interpretativos por uma enfiada de pressurosos “analistas”, jornalistas em praça, historiadores com tarimba e preceptores do espaço público, a par de articulistas e políticos de quadrantes menores.

O pomo da indignação de tão zelosos cavalheiros-guardiães e feminis-guardiãs da “honra” feminina – em coro de proverbial e simétrico “anti-machismo” – foram as palavras que transcrevo e sublinho, até porque foram amiúde truncadas, quando não arbitrariamente sinonimizadas, para intencionais apertões de sentido, conforme calhou ao argumentário de tão desobrigados actores (certamente tenazes defensores de todos os direitos e deveres de todas as mulheres)!

– Disse Jerónimo: “Nós podíamos apresentar um candidato ou uma candidata assim mais engraçadinha (...). Em que fosse fácil, com um discurso ajeitadamente populista (...), aumentar o número de votos. São opções e eu não quero criticá-las. Mas (...) nós partimos sempre para estes combates, onde se travam combates de ideias, combates com ideias políticas, com princípios”.


 Ora onde de facto se referiu “candidato” ou “candidata” (embora com a adjectivação caindo apenas no singular feminino) muitos quiseram ouvir as finezas e os trejeitos criticados (bem notórios no identificável pendor populista, ilusionista e até circense de certas actuações histriónicas mas sem substância...) como se visando o BE, apesar do franco sorriso, entre surpreendido e embaraçado, de Edgar (talvez a sonhar, em indubitável esperança, com aqueles horizontes sérios – quem disse que “impossíveis”? – de vida e sociedade novas, que ele, sincero mas visionário, até recolheu e citou de Ernst Bloch, sem que ninguém o tivesse sequer retido e relevado nos púlpitos do PCP...).


 – Ao menos Catarina, Marisa e Mariana, inteligentes e graciosas, mostraram enxergar os (reais) alvos, sem que tivesse sido necessário a um calejado e sofrido Jerónimo vir desculpar-se, humilde no recuo e na elucidação semântica daquele seu inusitado sentido de humor...
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 30.01.2016):



























Azores Digital:

























e RTP-Açores:



sábado, janeiro 23, 2016



Os Ditados do Tempo
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Não sei se devido a remota herança de corpo, alma e vida vivida, talvez não se passe nenhum Inverno em que não recorde a alta figura de António Silveira Pacheco, meu bisavô faialense, ali à varanda da antiga casa das Angústias, emprestados que eram por ele à minha curiosa investigação infantil os seus belos binóculos de Faroleiro-Chefe com os quais nas férias do Verão pesquisava as mansas águas do Porto Pim, a Fábrica da Baleia e o Monte da Guia, enquanto ouvia os seus relatos sobre os fantásticos Faróis das ilhas onde ele tinha estado tantos anos a vigiar a travessia dos barcos e a manter acesas e limpas as luzes da terra sobre a noite do mar e a passagem do Tempo... 


Até aí nunca tinha ouvido a misteriosa evocação do nosso protector anticiclone insular e do vasto adagiário popular da Meteorologia, que só depois vi científica e minuciosamente explicados pelos nossos distintos meteorologistas José Agostinho (terceirense: 1888-1978) e Anthimio de Azevedo (micaelense: 1926-2014) – e mais tarde ainda, a relembrar também o sentido interpretativo de alguns daqueles Provérbios que meu bisavô do Capelo me recitava – na sugestiva antologia Mudam os Ventos, mudam os Tempos de Manuel Costa Alves (especialista do Instituto de Meteorologia de Portugal e apresentador de informação meteorológica), da qual o académico Pinto Peixoto salientara que recolhia manifestações “de aculturamento e de observação do mundo real e do comportamento, (...) sínteses de acumulação e de sedimentação da inteligência que soube reflectir sobre a fenomenologia do real”!

E depois de salientar que esse repertório prestava um grande serviço à Cultura (ou às “duas culturas, como diria Sir Charles P. Snow, [porque estas] se fundem num conceito universal e abrangente”), o antigo presidente da Academia das Ciências de Lisboa, professor do MIT e das universidades de Yale e Princeton, mais referia:



– “É que, com a emigração em massa e os ventos de uniformidade e de descaracterização soprados por alguns meios de comunicação, tende a destruir-se este património, este bem colectivo, que tem, em grande parte, permanecido como uma relíquia nos nossos povos e aldeias. (...)

"Com o advento do positivismo científico, a meteorologia desenvolveu-se muito como ciência. As observações de empiriologia do real transformaram-se em medições que utilizam, hoje, equipamentos evoluidíssimos que estão na fronteira das tecnologias. E esses avanços observacionais, iniciados por Galileu, Torricelli e outros, isto é, estas medidas, levaram à aplicação das leis da física e da química”.


Neste livro de Costa Alves os Açores também estão presentes ao analisar o autor, entre outros, o nosso provérbio "Com baleias no canal terás temporal", ditado aliás não muito distante do universo simbólico que Nemésio exprimiu no título Mau Tempo no Canal. Ainda assim, relembrando a paradigmática quarentena de abastecimentos e o impedimento de qualquer tentativa de apoio ou socorro por meios marítimos habituais (ou aéreos, como há poucos dias mortalmente tornou a ocorrer!) a que as Flores e o Corvo estiveram sujeitas em Março de 1991, logo relembra que "Quando o mar zurra, atrás vem quem no empurra"...


 – E do mesmo modo, conquanto deixando para posterior ensejo uma abordagem específica e desenvolvida do extremamente rico Adagiário Popular açoriano – mas recordando-me logo aqui dos avisos prenunciadores que o Pico gera, mostrava e não deitava, com o seu capelo, barrete, penacho, boca de lobo, nuvem da Prainha, etc., e que meu bisavô Pacheco evocava tão amiúde ali junto à perigosa cisterna do nosso quintal no Pasteleiro, face aos calhaus para onde eu queria correr à força para navegar até às grutas do Monte dianteiro, com a mochila da Campanha da França às costas e o oscilante e pesado capacete de meu avô Eduardo Medeiros da Rosa (Horta, 1891-1963) marcado pelas balas (e pelas fundas feridas e cicatrizes carnais e espirituais!) da I Primeira Grande Guerra (onde ele estivera e servira com o General Gomes da Costa, seu ídolo militar, com direito a honras fidedignas naquela enorme fotografia pessoal, autografada e pendurada em lugar de honra na sala da nossa casa nas Angústias)...


Em consonância – vinha a dizer – Costa Alves regista uma série de outros ditados profundamente ligados às condições existenciais e ambientais, geo-bio-físicas e psíquicas insulares: “Vento sudoeste brandinho e panga, é tremer dele quando se zanga”; “Gaivotas pelas portas, água pelas grotas”; “Nuvens do sul para o norte vão, mau tempo de inverno, bom tempo de verão”; “Não te fies em céu estrelado, nem em amigo reconciliado”; “Vento norte, três dias forte”, etc.

– Ora nestas horas do Alex em que nos vimos envoltos, mas já informáticos observadores e participantes pelos OCS e pelas Redes planetárias da Internet e suas aplicações, nesse “sistema natural constituído pelo mar oceano de ar que nos rodeia, que não vemos, mas que respiramos, e à sua matematização, permitindo uma justificação lógica quantitativa da sabedoria dos provérbios”, – como não relembrar outro tempo de catástrofes e medos cíclicos (sabe-se lá se replicáveis em novos riscos e ameaças por alterações climáticas e ambientais)!? E tudo isto, apesar do Adagiário selecto não integrar sequer o anticiclone dos Açores, porém sabendo que “Qual o tempo, tal o tento”...


Porém – conhecendo-se que os nomes das tempestades ciclónicas e dos violentos e ameaçadores fenómenos naturais (ao fechar e abrir os anos, e de prioridade em sequência baptismal) vão de Arlene a Wilma, Alberto a William, Andrea a Wendy, Arthur a Wilfred, Ana a Wanda, e de Alex, talvez em 2016 (quem o pressagiará?) a Walter..., saltando-se pois alternadamente de belos mas impiedosos nomes femininos para outros de mansos senhores que acabam nominalmente regulando desgraças e eleições do clima – conforme no seu livro O Anticiclone dos Açores (com imagens do talentoso fotógrafo que foi Alexandre D. O’Neill, filho do poeta Alexandre O’Neill) sinalizou o nosso geofísico e meteorologista Anthimio de Azevedo (aliás ultimamente, e bem avisado, queixando-se das mudanças climáticas e da vadiagem do nosso anticiclone!) –, como não estarmos hoje atentos e acautelados para aquilo que nos pode sair na roleta do boletim meteorológico ou na presidência dos nossos destinos..., – ou não bastassem já todos os demais desterros, ventos e esquecimentos do tempo e da sorte a que fomos e estamos geo-historicamente votados, para bem e para mal dos nossos pecados e virtudes de gerações, neste frágil e precário arquipélago de almas incarnadas em nove pequenas ilhas, no meio de um imenso Oceano...
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 23.01.2016):

A Roleta dos Boletins
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No livro de Costa Alves sobre o Adagiário Meteorológico português aqui recordado antes, os Açores também estiveram presentes, como quando foi analisado o provérbio “Com baleias no canal, terás temporal”, ditado não alheio ao universo simbólico que Nemésio exprimiu no título de Mau Tempo no Canal, conquanto usado em Mudam os Ventos, mudam os Tempos para relembrar a paradigmática quarentena e o recorrente impedimento de qualquer tentativa de apoio ou socorro de urgência a que estiveram sujeitas as Flores e o Corvo em 1991 – ou como há pouco, e desta vez mortalmente, tornou a ocorrer! –, repetindo-se então a oeste que Quando o mar zurra, atrás vem quem no empurra!


– De resto, em consonância e de idêntico modo, Costa Alves ainda seleccionou uma série de outros aforismos profundamente ligados às condições existenciais e ambientais, geobiofísicas e psíquicas insulares...


Ora conhecendo-se que nomes de tempestades ciclónicas e de violentos e ameaçadores fenómenos naturais, ao fechar e abrir os anos, e de prioridade em sequência baptismal, vão de Arlene a Wilma, Alberto a William, Andrea a Wendy, Arthur a Wilfred, Ana a Wanda, e de Alex, talvez em 2016 (quem o pressagiará?), a Walter – saltando-se alternadamente de belos mas impiedosos nomes femininos para outros de menos malvados senhores que nominalmente regulam desgraças e eleições do ambiente, conforme em O Anticiclone dos Açores sinalizou Anthimio de Azevedo (aliás ultimamente, e como bem avisado geofísico açoriano, queixando-se das mudanças climáticas e da vadiagem do nosso anticiclone...) –, como não estarmos hoje atentos e acautelados para aquilo que nos pode sair amanhã na prospectiva roleta do boletim meteorológico e nas histriónicas urnas da provável presidência dos nossos destinos... –, como se não bastassem todos os demais desterros, derrocadas, ventos e esquecimentos do tempo e da sorte a que fomos condenados e estamos geo-historicamente votados, para bem e para mal dos pecados e virtudes de tantas gerações, neste frágil país e no precário arquipélago de almas incarnadas em nove pequenas ilhas, no meio de um imenso Oceano.
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 23.01.2016):




























Azores Digital:

























e RTP-Açores: