sábado, março 10, 2012

As (contra)partidas das Lajes


A história da Base das Lajes – desde a sua instalação e usos pelas forças aéreas inglesas e americanas, e pelas Forças Armadas Portuguesas, desde a já distante época da II Guerra Mundial, passando por alguns nucleares marcos de projeção de força militar e bélica transcontinental, até à presente conjuntura mundial, nacional e regional – tem sido feita de uma série de factos político-militares, diplomáticos, geoestratégicos e aeronáuticos; de múltiplas implicações e variáveis societárias, económicas, laborais e socioculturais, e de variadas narrativas e representações configuradoras de memórias, discursos e imaginários institucionais e pessoais que, no respetivo conjunto único, constituem parte importante da História dos Açores e da História de Portugal, no contexto, naturalmente mais amplo, da História da Europa, das Relações Transatlânticas e da Geopolítica Global do Século XX e início do corrente.


Ora nas últimas semanas a Base das Lajes voltou a estar na ribalta das notícias regionais e nacionais, como é sabido, por causa da pretensamente discreta, cabisbaixa ou sorrateira deslocação de uma delegação ministerial lisboeta aos EUA, ao que parece, entre outras coisas, para começar a discutir (?) alguns dossiers bilaterais relacionados com a continuação da presença norte-americana na ilha Terceira, nomeadamente no que diz respeito às possíveis contrapartidas (a par das pequenas e grandes partidas…) para o nosso País desse estacionamento estrangeiro (conquanto amigo e aliado) em solo insular autónomo mas integrante de Portugal (Nação com soberania própria, apesar de mitigada, e Estado, que se saiba rigorosamente e apesar de tudo, ainda não pária nem falhado, apesar de dependente…).

– E foi assim que assistimos também, sintomaticamente em leituras divergentes, a opiniões sobre a importância e/ou o desinvestimento da relevância geoestratégica, técnico-militar, político-diplomática e económica da Base das Lajes, mormente por relação às ratoeiras do famigerado Acordo de 95 e à redefinição das áreas de hegemonia mundial das potências dominantes, emergentes ou regressivas

Porém, pena é que as mais competentes vozes e instituições açorianas nesta matéria a pouco ou nada, até hoje, tenham sido chamadas, neste baralho de intenções e interesses, camuflagem negocial e prestidigitação de armas e outros proventos…

– E tudo, em grande parte, de novo e infelizmente, por culpa nossa!
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As (contra)partidas) das Lajes:
Em “Diário Insular” Angra do Heroísmo, 10.03.2012),
“Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 11.03.2012),
http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2205&tipo=col,
http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?article=25807&visual=9&layout=17&tm=41,
e http://sinaisdaescrita.blogspot.com/

sábado, fevereiro 25, 2012

Diplomacias de Sirigaita

A notícia sobre a transferência para a Embaixada dos EUA em Paris dos serviços de concessão de Vistos para Emigrantes – com o decorrente encerramento de anteriores (e históricos!) desempenhos idênticos não só no Consulado em Ponta Delgada quanto ainda na Embaixada americana em Lisboa –, começou já a gerar grande mal-estar, indignação e justificados protestos nos Açores, nas Comunidades Açorianas imigradas nos USA e nalguns (por enquanto ainda poucos e insignificantes, impotentes ou pouco avisados…) meios diplomáticos e políticos portugueses!

Suspeições – embora não exatamente coincidentes com os factos agora consumados – haviam corrido já nos finais do ano passado, mas sendo então e antes as hipóteses alvitradas apenas e propriamente no sentido do encerramento daquele Consulado, e naquilo que foi aliás um aceno logo denunciado, contrariado e sujeito a várias diligências e petições impugnatórias, de entre as quais aquela que os Congressistas Barney Frank, Dennis Cardoza, David Cicilline, Jim Costa, James Langevin e Stephen Lynch dirigiram à Secretária de Estado Hillary Clinton, no dia 16 de setembro de 2011, e onde era afirmado constituir “um grave erro” o fecho daquele serviço diplomático, atendendo à componente luso-americana (incluindo a de proveniência açoriana) em significativas camadas populacionais e comunidades de Massachusetts, Rhode Island, Connecticut e Califórnia (Central Valley), aos respetivos laços económicos, culturais e pessoais, e bem assim – tudo isso! – reforçado pela existência de uma das mais importantes instalações militares americanas (Base das Lajes) na ilha Terceira! (*)

Porém – e a par da rigorosa e humanitária menção ao fenómeno das deportações e da alusão às implicações (mútuas vantagens…) económicas da manutenção de um serviço consular nestas ilhas muito distantes do Continente –, ainda no mesmo texto eram avisadamente relembradas outras reações da comunidade luso-americana a anteriores intenções (portuguesas essas!) de reformulação de redes consulares nos Estados Unidos…

– Mas, cá e lá, tudo mostra agora ter caído em saco roto e para muito pior do lado português continental e insular (e aqui por maioria de razões!), ao que parece perante inoperâncias nacionais, menoridade institucional, vexatória impotência ministerial e diplomática de Lisboa, ou da apenas espevitadamente feirante e caseira pesporrência de sirigaita dos nossos Estrangeiros!
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(*) - O Documento referido -- e bem assim algumas das movimentações que suscitou então --  pode ser consultado aqui:
http://myemail.constantcontact.com/Opposition-Letter-to-Closing-the-American-Consulate-in-Ponta-Delgada.html?soid=1102586872185&aid=LruqXFdY4Hs
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Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 25.02.2012),
"Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 26.02.2012),
http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2201&tipo=col
e http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?article=25527&visual=9&layout=17&tm=41

sábado, fevereiro 18, 2012

Os Barómetros do Entrudo

Com origens bem remotas na História das Civilizações e com particulares formas de manifestação no Ocidente – desde a Grécia e a Roma antigas (aí associado a desfiles navais chamados de currus navalis, de onde o nome Carnavale poderá ter derivado, e bem assim às licenciosas bacanales, lupercalia e saturnales), até à nossa dita “pós-moderna” Contemporaneidade, mas passando modelarmente por decisivas e paradigmáticas configurações várias de cariz popular ou palaciano (aqui especialmente nas sociedades de corte), mas com outras tantas formas híbridas de exteriorização folgazã ao longo da Idade Média, do Renascimento e do Barroco –, o Entrudo tem constituído ao longo dos tempos: 


 – 1) uma festa total ciclicamente comemorada (de base, génese e significação pagã e essencialmente inserida nos calendários propiciatórios e exorcizantes da primavera);

– 2) uma festividade tradicional pré e para-religiosa, intencional ou subliminarmente articulada com a assumida reversão simbólica do tempo litúrgico cristão do começo da Quaresma;

– 3) uma quadra cultural, artístico-teatral e turística, e

– 4) enfim, também pela conjugação de todas as referidas facetas e dimensões societariamente representativas, integrantes e relevantes, um legislativamente consagrado feriado (cuja novel subtração falhada e falaciosa, mesmo enquanto discutível matéria de “direito social”, tem vindo a ser contestada e parodiada como medida inócua e despicienda das zelosas, mas gravosas e abusivas, tontarias governamentais lisboetas…).

De tudo isto se poderia pois falar a propósito deste Entrudo, mas mais motivador para nós será mesmo tornar a evocar, recomendando para observação artístico-teatral, comunitária participação lúdica e estudo social o Carnaval destes dias nas nossas ilhas, enquanto e como fenómeno complexo, eclético e sincrético da vida do povo dos Açores, e em especial dos terceirenses.

– Nele genuína e primordialmente entroncando múltiplos, recriados e recreativos elementos patrimoniais dos universos expressivos, estéticos e sociais das culturas luso-afro-brasileiras e hispânicas, o nosso Carnaval constitui seguramente ainda um excecional laboratório e um barómetro indicativo daquilo que mais sensivelmente marcou o quotidiano, a memória e o imaginário da nossa gente ao longo do ano, pelo que oxalá ninguém fique alheio, ou indiferente, aos discursos e práticas da existência privada e pública que nele, conflitual ou pacificadoramente, se vão manifestar, mascarar ou transferir…
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Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 18.02.2012),
"Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 19.02.2012),




sábado, fevereiro 11, 2012

Ultimatos, Carlos César e a Kaiserin


Para quem tiver acompanhado com um mínimo de atenção, conhecimento geo-histórico ou perceção sociopolítica e económica-financeira o que nos últimos dias foi dito sobre Portugal por dois altos responsáveis da Europa atual – Herrin Merkel (Bundeskanzlerin) e Herr Schulz (presidente do parlamento da UE), ambos dignos filhos da impoluta Deutschland… –, certamente não terá deixado de sentir subir-lhe à memória (e, com decorrente certeza, também à indignação!) outros e anteriores acontecimentos pátrios e mundiais que afrontaram a consciência patriótica portuguesa e marcaram muitas das mais paradigmáticas configurações político-institucionais, ideológicas, culturais e filosóficas que as nossas respostas a idênticos estigmas e desafios assumiram ao longo de décadas e especialmente desde o ultrajante Ultimatum de 1890!

– Entretanto, a vários níveis e pela voz e pena de diversas personalidades políticas, observadores, analistas e intelectuais portugueses, algumas significativas, nobres e conhecidas reações a tais atrevimentos alemães já se fizeram notar, porém e  infelizmente a par de outras tantas ausências, fossem elas por oca magistratura “de influência”, cínica tática de miserável partidocracia, cobardia institucional ou mera preguiça na honra…

E veja-se mesmo que alguns dos enfatuados (quando não ridículos comediantes, menores ou trágicos atores) políticos que ao nosso País coube em decadente sina sustentar, foram até ao ponto de, algaraviando-se todavia um poucochinho contra Herr Schulz, praticamente encolherem os seus entrevados ombros ministeriais, dobradas cervizes de mente ou desirmanado discurso institucional português à metediça e afrontosa ingerência estrangeira no que à nossa constitucional e congénere Região Autónoma diz respeito, como se a Madeira fosse para aquela (e para estes últimos, afinal?!) somente um pequeno território suburbano de um “estado falhado” a ser tutelado pelos novos mandarins da Europa, ou então algum remanescente domínio, colónia ou zona de ocupação do que restasse (e está renascendo?) de um velho novo Reich (Paris-Berlim?), ou ainda de um outro novo velho Império boche!

– Ora é por isto mesmo, e pelo que ainda mais envolvido está neste tema (ao qual voltaremos depois), que daqui se envia uma palavra solidária para com a Madeira, e um louvor a Carlos César pela justeza da sua reação à intolerável diatribe daquela nada angélica Frau Angela!
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Publicado em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 11.02.2012),
“Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 12.02.2012),







sábado, fevereiro 04, 2012

Vasco Graça Moura ou As Desgraças da Ortografia




Para quem não conhece minimamente o temperamento e as múltiplas verves do novo director nomeado pelo Governo para o Centro Cultural de Belém (CCB), ou para quem, apesar de todo o talento e valor ensaístico, literário e cultural que Vasco Graça Moura (VGM) indiscutivelmente detém – muito embora, nas suas palavras mesmas, até ele ache que muitos “criadores”, e talvez não apenas esses como ainda possivelmente também todo o demissionário e não remunerado ex-Conselho Directivo do CCB (constituído por João Caraça, João Vieira de Almeida, António Rebelo de Sousa, Laborinho Lúcio, Clara Ferreira Alves e Lídia Jorge) –, o possa(m) encarar tal qual uma “espécie de monstro horrendo” (sic), – a verdade é que aquele distinto intelectual, (re)criador de notáveis poéticas e façanhas políticas, ainda mal se tinha sentado à sua nova escrivaninha belenense, e logo se envolveu numa previsível guerrilha de escrita e ortográficos desacordos…

– Só que, agora, tais persistências e recorrências foram exercidas segundo mais decisivos e decisórios modos, e assim para individualizada retoma de antigas causas e propostas próprias (e não só…), no que à dita matéria (de Lei?) do famigerado Acordo Ortográfico diz (des)respeito!

Porém, no que envolve o Governo, até ao momento, o Primeiro-Ministro Coelho apenas se desembrulhou da questão com informáticas cartolas de explicação para os tira-e-põe de correctores nos computadores e redes do CCB e/ou por VGM, ficando o resto por esclarecer e coerente e paradigmaticamente corrigir em acentos, consoantes e outras dissonantes articulações de Língua e fala

– O assunto é pertinente e significativo (embora um pouco quixotesco…), mas deve ser visto em toda a implicada linha das perspectivações linguísticas, culturais e político-jurídicas que o pespontam, até porque sabe-se o que nas escolas, nos manuais, nas repartições públicas, nos OCS e até nas redacções oficiais impostas (nalguns casos com impugnação proteladora de aprovação e vigência legislativas…) se mandou fazer, para que diplomas e outros textos tivessem as respectivas e decorrentes validações e aplicabilidades normativas e gramaticais devidamente homologadas! 
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Publicado em:
"Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 04.02.2012), "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 05.02.2012),


sexta-feira, fevereiro 03, 2012

SEEBMO publica estudo sobre Epilepsia nos Açores



O Serviço Especializado de Epidemiologia e Biologia Molecular (SEEBMO) do Hospital de Santo Espírito de Angra do Heroísmo (HSEAH) acaba de editar as Actas do Seminário do Projecto RIRCE que teve lugar em Angra do Heroísmo no passado mês de Abril (2011).

O livro, intitulado Contribuição para o Conhecimento da Epidemiologia da Epilepsia Pediátrica nos Açores – Relatório e Comunicações, reúne todas as intervenções, comunicações e estudos apresentados num Simpósio temático (realizado nos dias 29 e 30 de Abril de 2011, em Angra do Heroísmo) e produzidos no âmbito do Projecto do Registo Informatizado Regional de Crianças com Epilepsia na RAA efectuado no arquipélago dos Açores, entre 2008-2011, com o apoio do Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu (EEAGrants) através da Unidade Nacional de Gestão do Ministério do Ambiente, Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional, e que contou com a colaboração e patrocínios locais do Governo dos Açores (Direcção Regional da Educação) e da Caixa Económica da Santa Casa da Misericórdia de Angra do Heroísmo.

Esta publicação científica – dirigida, organizada e coordenada por Jácome Bruges Armas (director do SEEBMO e responsável pelo Projecto RIRCE na RAA) e por Eduardo Ferraz da Rosa (investigador associado do SEEBMO), com recolha e revisão documental de Paula Lourenço (técnica superior do SEEBMO) e Paula Pires (neurologista) –, inclui, para além do historial do Projecto, o respectivo Relatório Técnico-Administrativo (por Lígia Poim e Marco Rendeiro), uma caracterização estatístico-patológica dos Resultados Provisórios apurados nas ilhas Terceira, Graciosa, Pico, S. Jorge, Faial e Flores (por Fernando Fagundes, Adriana Pinheiro e Rita Lopes da Silva), e estudos e ensaios epidemiológicos sobre Epilepsia Pediátrica na Ilha da Madeira (por Joana Oliveira, Paulo Sousa e Rui Vasconcelos), Importância dos Registos Nacionais e Regionais (por Daniel Virela), Síndromes Genéticos e Epilepsia (por Rui Chorão), e Gestão Integrada da Epilepsia – Recomendações de Qualidade e Desempenho Assistencial (por J.M. Lopes Lima).

Segundo salienta Jácome Armas no “Preâmbulo” desta nova publicação epidemiológica do SEEBMO, a mesma tem como “principal objectivo dar a conhecer aos técnicos de saúde, professores e educadores alguns resultados obtidos com a implementação do Projecto RIRCE”, pretendendo-se assim “consolidar o relacionamento” entre todos os que lidam com a Epilepsia Pediátrica, “no sentido de completar e uniformizar metodologias para que o registo dos casos seja o mais fidedigno possível” no âmbito do Serviço Regional de Saúde da Região Autónoma dos Açores.
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Notícia publicada em "Diário Insular", "A União", "Diário dos Açores" (06.02.2012),
http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?article=25140&visual=3&layout=10&tm=6

sábado, janeiro 28, 2012

Causas Públicas e Manipulação de Massas


Há muitas formas de manipulação, alienação e exploração, mas uma delas, que se torna cada vez mais usual, é a de, em nome de uma alegada discussão, diálogo, apresentação e debate isentos, assumidos e transparentes de causas – amiúde efetivamente opostas –, logo à partida cair-se na tentação de proceder a uma mais ou menos velada manipulação das razões mesmas que a tais móbeis e seus agentes ou atores assistem…

– Porém, entre todos os campos sociais públicos aonde tal manipulação de causas é mais escandalosa e gravosa para a formação de uma opinião livre (também pública, mas esclarecidamente culta…) releva o dos OCS, nomeadamente daqueles que se inserem na tão exigente função de Serviço Público, e tanto mais
assim quanto ele e os seus essenciais conteúdos são exercidos e veiculados através de instrumentos mediáticos e mediadores tão poderosos como a Rádio e a Televisão!

Por outro lado, nem todos os Jornalistas – tantas vezes indevidamente sujeitos a múltiplos condicionamentos de ordem técnica, deontológica, profissional e de carreira – conseguem resistir à proverbial serventia dos interesses dos poderes hegemónicos que nesses órgãos e aparelhos do Estado conjuntural e diacronicamente se instalam e entrecruzam, sendo até muito comum, lá na gíria do meio, toda uma jogatina, sempre pouco limpa, daquilo a que vulgarmente se designa “de fretes”, frequentemente a troco, como é sabido, de prebendas várias e até, por vezes, à descarada cata de miríficos (en)cargos confluentes, mesmo que provisórios e promovidos “à Peter”…

– E isto, como é evidente, a par de outras modalidades de pequenos (e grandes!) “préstimos”, jeitos e trejeitos, assentes em diversas, sub-reptícias e subliminares estratégias de manipulação de informação, mensagem, ideias e sentidos do real e dos valores (desde os ideológicos ou político-partidários aos tacitamente promocionais de nomes, lobbies, confrarias, tertúlias e figuras institucionais ou particulares…).

Neste contexto, sem dúvida, é que podem e talvez devam também ser lidas as múltiplas, complexas e controversas questões que tem girado, de novo nos últimos dias, nos arraiais e redondéis locais, desde as primárias, castiças ou patéticas arremetidas, faenas e capotazos de arribação às mais ética e epistemologicamente confusas, híbridas e abstrusas teorizações de algumas (para mais, imponderadas e contraproducentes!) etnografias e biopolíticas de chocalho, vara e estoque, histórica, filosófica e tipicamente retrógradas, quando não mesmo reacionárias!
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Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 28.01.2012), "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 29.01.2012),

sábado, janeiro 21, 2012

O prato do ministro da Economia



Estamos quase a chegar ao Entrudo e as Danças e Bailinhos, após meses de ensaio, estão praticamente já prontos para o tradicional rodopio à volta da ilha Terceira.

– Todavia, e embora não se possa desejar que Carnaval seja todos os dias (como do Natal angelicamente se diz e suspira em cândidas loas), a verdade é que algo (ou muito, conforme as máscaras…) daquela quadra de pândega e disfarces nunca deixa de afluir quotidianamente a terreiro, palco de salão ou espaço público mediático, de acordo com o interesse do enredo, a verve do letrista e o histriónico virtuosismo ou expressividade teatral dos atores (desde o mais hamletiano ou vicentino figurante ao proverbial, escangalhado e improvisado ratão…).

Ora muito daquilo que temos observado bastante faz evocar autênticas facécias burlescas, que cómicas apenas seriam se, nalguns casos, dramáticas ou confrangedoras não fossem, e se mais penosos ainda não se franqueassem já os dias que antecedem uma próxima e mais sofrida Quaresma, com jejuns, abstinências e memórias do pó histórico a que todos estamos destinados…

– Mas vem isto hoje a propósito e retentiva devido às inspiradas, doutas e convincentes sugestões de filosofia e prática mercantis – para credenciadíssima venda de produtos de excelência, com garantia de desenvolvimentismo, almejada internacionalização e imaginativo marketing, de umas ditas e (re)produtivas coisas nacionais –, tal como o titular do cardápio da Economia que temos, melosa, transpirada e odorificamente as elencou e engrolou de tribuna, adoçando-as e pincelando-as com os seus seletos e fantásticos modelos de fisganço para verosímil exportação estratégica

A lista foi curta, mas atraente; a saber: os tão famosos pastéis de nata e o apetitoso frango de churrasco – à falta, certamente por plausível esquecimento seu, de outros dos famosos exemplos do quase mágico empreendorismo em voga por aí (e que, como tal, já constam até do livro cuja capa ilustra esta Crónica, indo lá desde a produção histórica de batinas e clerezias bracarenses até sanitas mui sexy (sic), conforme se pode ler a páginas 121-149 –, para já nem lembrar ao seu governo de pragmática ou ficcionalmente passar a internacionalizar, doravante um pouco mais, outros identicamente mundializáveis pitéus lusitanos (do género “postas de bacalhau à Simon Fraser”, “coelho à Troika” ou “ arroz chau chau com rebentos à Catroga”..., e tudo, ao final – pois então! – talvez castiçamente regadinho a genuíno garrafão de 5 do melhor tintol português…).

– Um mimo pois, em síntese, o novo, alvitrado e nobelizável Tratado de Economia Política esboçado na prédica ministerial do quase sempre sisudo, tímido e compenetrado Santos Pereira, como pode ser ainda apreciado em: http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=517711&headline=20&t=O-ministro-da-Economia-quer-exportar-os-pasteis-de-nata.rtp&tm=6&visual=9.

E assim, que belo prato aquele, o (do) nosso ministro…
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Publicado em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 22.01.2012),
 http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?headline=14&visual=10,
 http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2191&tipo=col
e http://www.auniao.com/noticias/ver.php?id=26732

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Leituras de Manuel Antunes, S.J.






Conhecido e estimado nos meios intelectuais e académicos portugueses, o pensador, professor e sacerdote jesuíta Manuel Antunes – nascido na Sertã (1918) e falecido em Lisboa a 18.01.1985 –, é uma daquelas figuras cujas dimensões humanas e espirituais (a par de uma grande erudição, prodigiosa capacidade pedagógica, notável labor de investigação e divulgação de saberes) granjearam ímpar admiração e raro e consensual reconhecimento cívico, ético, cultural, institucional e político.





Conselheiro do presidente Ramalho Eanes, viria a receber, merecidamente, a Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, em 1983.


Doutorado com uma Tese sobre a filosofia existencial (de S. Kierkegaard a Martin Heidegger), cedo porém se interessou especialmente pela História da Cultura Clássica, cuja temática disciplinar viria a ensinar (entre 1957 e 1983) na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a convite do seu amigo Vitorino Nemésio…






– Incansável colaborador (desde 1955) da Brotéria, que dirigiu depois durante vinte anos, nesta Revista, sob nome próprio (e com 124 pseudónimos…), deixou-nos uma produção ensaística imensa e diversificada (com relevo para assuntos de teor literário, filosófico, teológico, religioso e sociopolítico), em parte recolhida posteriormente na dezena e meia de notáveis livros seus e agora em merecida publicação completa pela Fundação Calouste Gulbenkian.





Ora depois do Congresso Internacional que lhe foi dedicado (2005) e da sucessiva edição de depoimentos sobre a sua Vida e admirável Obra, acaba de ser lançada uma nova e bela Antologia de diversíssimos e mutuamente iluminantes testemunhos pessoais – simultaneamente transhistóricos e intemporais (“Retratos e Memórias”) – sobre o nosso saudoso Padre Manuel Antunes como Um Pedagogo da Democracia, enquanto continuam a multiplicar-se os estudos e os testemunhos sobre  a sua obra e a sua vida.




– Do Cardeal Cerejeira a Eduardo Lourenço, de D. Manuel Clemente a Mário Soares, ou de Pinto Balsemão a Sophia de Mello Breyner, são textos que vale a pena ler ou reler, e por maioria de razão e sentido ainda mais em tempo de indigências culturais e outras assustadoras menoridades




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Nota do Autor (12.2020)
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Sobre Manuel Antunes, veja-se ainda o Programa "Ecclesia",
Católicos, 25 de Abril e um Pedagogo da Democracia.
Emissão do dia 25 de Abril, 2018. Disponível aqui: 
https://www.youtube.com/watch?v=V44VjpXxs4w&feature=emb_logo

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sábado, janeiro 14, 2012

Os Lixos da Choldra


É conhecida e ficou famosa a qualificação – “choldra” – com que Eça, real e ficcionalmente, se referiu a um perfil “ignóbil” e “torpe” como o mais essencial traço distintivo do nosso País, naquele tempo…

E embora a implícita leitura reativa de tal dramática condição sociocultural, económica, política e histórico-civilizacional tenha assumido colorações diferenciadas nos seus personagens romanescos e discursos literários, não deixa todavia de ser essa a mais recorrente e fundada representação textual queirosiana de Portugal!

– Porém, estivesse ele vivo e observando tudo o que nos é dado padecer hoje, neste “nosso canto, com a azulada doçura do nosso céu carinhoso”, como poetiza nas Notas Contemporâneas, e muito mais pessimista e profundamente se revoltaria de termos (ainda) “ao que parece, todas as enfermidades da Europa, em proporções várias”.

E todavia, “enquanto contra as tormentas sociais nas outras naus se trabalha, na nossa rota e rasa caravela tagarela-se! Tagarela-se num desabalado fluxo labial, cuja qualidade […] não tem deixado de decair, da eloquência degenerando na loquacidade – da verbosidade descambando na verborreia”…

Ora no atual bate-papo inócuo – por escrito ou em disserto falado nos OCS, Parlamentos, Redes Sociais, etc. – já nada deixa de nos enojar, desde as últimas lavagens de aventais, maços, maçons e massas secretistas aos desnudamentos das altas correntes salariais na baixa pilosidade das vergonhas escandalosamente prebendadas nas caras e coroas da EDP e na Águas de Portugal, passando pelos abomináveis e repugnantes atentados à dignidade e à vida humana que conspurcaram as quase inacreditáveis cogitações de Manuela Ferreira Leite (PSD) sobre a Hemodiálise no SNS!

– Assim, e sempre historicamente pelo mesmo, que nos resta, neste novo tempo de velhas podridões, a não ser uma permanente e firme resistência ativa e uma exigente e profunda reflexão crítica sobre alternativos rumos patrióticos, justos e limpos, para todos os Portugueses?
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 14.01.2012), " Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 17.01.2012)

As Estrelas da Candelária

Quando um dos principais cometas políticos do actual Governo de Lisboa – tal como alguns dos seus satélites e comparsas de gémea constelação
parlamentar e mais ou menos iluminados (ou em pedra bruta?) pela novamente tão martelada e triangulada Maçonaria em Portugal… – decidiu proclamar a redução das emissões próprias da RTP-Açores a um impreciso mas imperioso postigo insular de 240 minutos diários, logo o Presidente do nosso Governo Regional proferiu uma sugestiva declaração pública na qual se interrogava exemplificativamente sobre que destino dar, em tal hipotético mas aparado relvado de grelha, a transmissões e programas televisivos açorianos como o magazine Bom Dia Açores, as reportagens sobre as Festividades do Senhor Santo Cristo, as Festas Sanjoaninas, etc.


Por mim, e a propósito, devo dizer que sou espectador regular e matinal do citado programa apresentado por Pedro Moura, no qual aliás, por diversas vezes, já fui hospitaleiramente recebido...

– E isto mesmo devo confessar aqui e logo à partida, embora não propriamente sob a forma de declaração de interesse (figura de manifestação outrossim que bem obrigatória deveria ser para titulares de cargos públicos e decisórios, como nomeadamente acontece a tantos e diversos níveis científicos, profissionais e académicos), a par – evidentemente – da legítima assumpção pessoal e voluntária de (in)compatibilidades éticas e deontológicas e de outras, então aí já mais institucionalmente exigentes e relevantes pertenças, ou comum associação, a potencialmente sobreponíveis esferas, entidades de interesse parceiro ou conflitual cerceamento da liberdade de consciência e de manifestação da mesma (que, também essas, deveriam ser democrática e transparentemente bem mais reguladas por Lei, num Estado de Direito que se prezasse!).

Todavia e por outro lado, vem isto hoje a Crónica de jornal por causa do que vi e ouvi com gosto numa recente edição do programa Bom Dia Açores, onde se deu justo e merecido destaque ao excelente trabalho desenvolvido pela Banda Lira Nossa Senhora da Estrela (http://www.liraestrela.com/) da freguesia da Candelária (ilha de S. Miguel), tal como o mesmo desempenho daquela Banda ficou exemplarmente revelado no seu Concerto de Ano Novo, executado sob a condução do maestro Pedro Alexandre Medeiros Pimentel e durante o qual igualmente actuou o Grupo Coral de Nossa Senhora das Candeias:

– Belo exemplo aquele, de empenho, esmero e qualidade musical, e de objectiva e notória promoção cultural, artística, social e cívica da nossa terra e da nossa gente (jovem, mormente)!

Porém identicamente, mas pelo reverso, triste sinal de lembrança me ficou de que alegadas “sensibilidades” (?) para a Cultura (na actual DRC – que verdadeiramente é incapaz de assumir um projecto de política cultural para e com o PS, e em algumas Autarquias, pasmosamente a tal alheias, com honrosas excepções – como Ponta Delgada e Ribeira Grande…), tantas e tão incautas vezes esquecem realmente muito do mais que importaria acarinhar, – gastando-se a diverso e esbanjando-se a trouxe-mouxe muito do que humanamente resiste e financeiramente há disponível (ou do que em dívida resta…) nas nossas comunidades e suas agremiações…

– Ora assim pouco de frutuoso fica semeado e menos ainda florescerá para o futuro sem os necessários e devidos apoios (concedidos porém alguns, e apesar de tudo, a determinados e descompassados clichés, tiques e toques em vago tom e estilo menor, amiúde para meros diletantismos delicodoces de bafiento salão, academia e confraria, ou então a efémeras artes, faenas e artimanhas em massificado palco e mero espectáculo, amiúde compadrinhadas ambas para mera e presumida “erudição” e deleite palacianos, ou para ditas expressões alternativas e chocalhadas electrónicas, ruidosas, violentas ou simplesmente vulgares (mas querendo passar por populares!), que por aí pululam em quase idêntica esterilidade festivaleira ou à base de choques, estocadas e shots para tanta da nossa atordoada e explorada juventude, ou da alienada e bandarilhada populaça eleitoral …).

– E o que aqui digo para o campo da Música, poderia igualmente, estender-se a outras áreas e artes (Teatro, Antropologia Cultural, Literatura, Pintura, Patrimónios Culturais e Históricos, Museologias e Arquivos Locais, Recolhas, Espólios e Coleccionismo Temático, Promoção Editorial e da Leitura, etc.), campos nem sempre pensados e integrados numa estratégia consistente, global e complementar de Educação, Cultura e Ciência para o nosso Arquipélago inteiro, e infelizmente às vezes sem prospectivas estrelas de sorte, sustentação projectiva ou reconhecido mérito à vista e para ouvidos atentos, ao contrário daquilo que tão digna e gratificantemente aquela Banda da Candelária paradigmaticamente bem soube incarnar, demonstrar e comprovar com mestria, dedicação e virtuosismo a todos os Açorianos!
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Publicado em "A União" (http://www.auniao.com/noticias/ver.php?id=26649), "Diário dos Açores" (15.1.2012), Azores Digital (http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2187&tipo=col)
e http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?article=24793&visual=9&layout=17&tm=41

sábado, janeiro 07, 2012

Os Fantasmas do Futuro

Nos últimos dias e em quase todos os OCS do País, três acontecimentos constituíram motivo noticioso de primeira página e análise e discussão política, económico-financeira e socioculturais generalizadas; a saber:

– A compra de parte decisiva da EDP pela China (cujos ricos olhos em bico não deverão ser em nada piores do que as sujas mãos em gancho de muita da agiota banditagem nacional que tem surripiado a Nação!); a transferência de ações, com a correspondente gestão do reenquadramento fiscal e reinvestimentos da Sociedade FMSantos (detentora de 56% da Jerónimo Martins) para a Holanda, e – finalmente – o caso dos conúbios entre as Secretas portuguesas e as diversas manigâncias político-partidárias, empresariais e parlamentares de alguns “irmãos” de determinadas lojas e tendências da Maçonaria.

Entretanto, a nível regional, vimos acentuarem-se os conflitos de interesses (e de desentendimentos…) à volta da constituição e dos projetos do pendente grupo de consulta e estudo do Serviço Público de informação e comunicação social (afinal e mais precisamente da RTP-RDP-A, pois é desse conjunto audiovisual que verdadeiramente se trata), enquanto se assistiu à patética e renitente dança de indigitações e impugnações de nomes e miúças entre comissões e com os partidos, o investigador e jornalista (independente) Armando Mendes, o jovem economista (social-democrata) Célio Teves e a advogada Maria Mesquita Gabriel (ex-consultora jurídica da PGR, ex-jurista do Tribunal de Contas e atual sócia da Sociedade Paz Ferreira e Associados).

Ora se quanto ao segundo tema haveremos de voltar mais tarde, agora quanto ao primeiro não deixará o mesmo de poder fazer recordar e refletir historicamente sobre as seculares relações comerciais e as pioneiras (e já então estratégicas) parcerias luso-chinesas (remontando ao século XVI, com o paradigmático acordo efetuado por Leonel de Sousa…), passando depois, nos séculos XVII e XVIII, face à decadência dos impérios ibéricos e à reconstituição das hegemonias europeias, pelas conhecidas concorrências bolsistas, mercantis e militares entre Lisboa e Amesterdão (e depois por Paris e Londres, porém aí em trânsito explosivo para Berlim e para as Revoluções e Guerras do século XX…), e atravessando, entre nós, os dias da ira republicana de 1910…

– De facto, embora a História realmente não se repita nem tenha terminado, a verdade é que muitas das sombras e medos do passado continuam a evocar e a convocar os fantasmas e os pesadelos do nosso próprio futuro.
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Publicado em "Diário Insular" (07.01.2012), "Diário dos Açores" (08.01.2012) e Azores Digital

sexta-feira, dezembro 30, 2011

Heterodoxia e Réveillons



O ano que agora finda termina com uma série de complexas e difíceis situações do persistente estado de crise que, tanto à escala mundial como a nível local – passando pela situação na Europa e em Portugal no seu todo (aí incluídos, evidentemente, os Açores e a Madeira) –, marcou 2011 com um paradigmático conjunto de problemas, impasses e dificuldades societárias, civilizacionais, culturais e espirituais que a ninguém – nos respectivos e diferenciados locais e tempos de existência, e nas mesmas desiguais classes e formações – deixou indiferente, porquanto a todos profundamente atingiu de um ou de outro modo e que mais ainda veremos reflectir-se e propagar-se, conforme os mesmos bastas vezes conflituais e opostos interesses, e como outros tantos desafios para as exigentes décadas que temos já pela frente, enquanto comunidades nacionais e regionais, e como cidadãos do mundo.


Não valendo a pena retomar hoje tudo aquilo que de mais significativo caracterizou os últimos doze meses, retenho porém, a título de sinal destes tempos e do quadro referencial e crítico aonde nos situamos, apenas dois motivos e projectos de leitura, cujas lógicas de conteúdo real e simbólico me parecem bem sugestivas e merecedoras de meditação:

O primeiro é a leitura integral do texto da Carta de Intenções do Governo da Madeira solicitando “assistência financeira por parte da República Portuguesa” e reconhecendo que “a violação dos limites ao [seu] endividamento (…), tal como estabelecido na Lei de Finanças das Regiões Autónomas, e a consequente deterioração da [mesma] situação financeira (…) impossibilita o pagamento de compromissos no curto e médio prazos”.

– Este fabuloso documento, que deve ser analisado por todas as instituições autonómicas e nacionais portuguesas e seus agentes e actores, está disponível no site oficial do GRM, cuja home page ostenta, em luminoso e festivo cabeçalho, uma bela panorâmica da baía do Funchal em noite (já antiga) de réveillon e fogos de artifício…

O segundo é uma renovada leitura, ou o retorno à contumaz e serena reflexão, sempre apaixonante e proveitosa, da(s) obra(s) de Eduardo Lourenço (Prémio Pessoa 2011), agora em feliz impulso de edição completa, tanto mais quanto nele e nela confluem heterodoxia e liberdade de pensamento e de acção (de e sobre Portugal e nós próprios!), desde os primórdios da Pátria até à contemporaneidade tumular em que jazemos...

– Num e noutro desses discursos, em balanço simultaneamente realista, melancólico e esperançoso, talvez residam algumas das mais essenciais perguntas e pistas para as respostas sólidas que o futuro exige de nós!
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Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 31.12.2011), "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 1.1.2012) e   http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2182&tipo=col

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Redenção, Pobreza e Indigência



As recentes declarações do novato primeiro-ministro do Governo de Lisboa, com arzinho de yuppie neoliberal, a propósito de partidas para a Estranja – qual desajeitado gajeiro aliviando carga em barco a meter água na casa das máquinas e nos circuitos da sensatez discursiva, ou qual abussolado piloto sem prudencial apuro nos rodopios do leme – ao sugerir e recomendar que, neste dramático contexto de crise, como lhe ditaram brisas conceptuais de fraco estadista, levas de Emigração portuguesa fossem exportadas para destino europeu e sul-americano, ou para vazadoiros de mercado de trabalho nas nossas auríferas antigas colónias africanas, – e que assim jovens Professores e quadros técnicos supostamente excedentários no nosso pobre Ensino (na Educação, na Cultura, na Investigação e na Ciência, áreas desde sempre interligadas) para ali fossem de trouxa e PC portátil às costas –, causou, como se viu, na sociedade portuguesa, na opinião pública, nos OCS, nas redes sociais e de uma ponta a outra do espectro político e partidário, embora com esteios e objetivos distintos, a mais profunda estupefação e a mais legítima indignação!

– Ora depois dos cabotinismos “académicos” e irresponsáveis idiotias da pseudo-filosofia económica de um atrevido e ignorante caloiro universitário na Gália – persistente e reincidente nódoa na inteligência e na honra de Portugal, na ainda impune hipoteca imposta ao nosso Povo e no que resta da histórica honorabilidade do PS! –, só nos faltava esta pérola de governança!

Mas, como se tal não bastasse, outra luminária do PSD (esse partido tão nobremente fundado por Francisco Sá Carneiro, porém que presentemente já nem o seu antigo dirigente e dileto atual Presidente da República poupa!), arribada lá dos fofos e rotundos cadeirões europeus, logo veio ofertar grácil conserto e concerto terceiro-mundista para tão desalmada inspiração, propondo a queirosiana criação de um órgão (quem sabe, um “ministério”!?), para batucar a dita sangria e as boutades do seu primeiro…

– Realmente, nesta quadra de Natal, enquanto a Pobreza cresce e brada aos Céus, há mesmo maiores e descaradas indigências, sem Redenção possível, neste degradante regime e sistema de exploração e alienação do Homem!
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Em: http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2177&tipo=col, “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 24.12.2011) e “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 27.12.2011).

sábado, dezembro 17, 2011

Do Fascínio dos Arquivos Secretos do Vaticano


para o Conhecimento da História dos Açores


Recentemente publicada pela Esfera do Caos Editores (Lisboa, Junho de 2011) e ainda felizmente disponível em Angra do Heroísmo na Livraria In Folio, onde pudemos apreciá-la, a obra Arquivo Secreto do Vaticano, Expansão Portuguesa – Documentação, como o seu título propriamente indica, reúne documentação, inventariada, descrita e sumariada, do Fundo da Nunciatura de Lisboa patente no Arquivo Secreto do Vaticano e relativa ao período da Expansão Portuguesa – que promoveu, como se escreve na Introdução ao primeiro dos três volumes que integram esta bela edição encadernada e guardada em caixa-arquivo – “aquela que podemos chamar a primeira globalização do Cristianismo na sua forma confessional católica desde a modernidade”.

Prefaciada por Roberto Carneiro (Presidente do Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa Universidade Católica Portuguesa) – que no seu texto explica em pormenor os diferentes faseamentos e as sucessivas fases de trabalho, financiamento e coordenação da obra finalmente agora organizada e editada sob a Coordenação Geral de José Eduardo Franco – este excepcional Repertório documental constitui já e mais constituirá doravante um indispensável instrumento-guia de trabalho para quem queira estudar o Catolicismo em Portugal e no Mundo, enquanto e como “experiência de implantação e afirmação da Fé Cristã confessionalizada numa estrutura modeladora com uma história que não é desligável da história dos países, das culturas e das derivas internacionais da religião e da política.

“Ler estas fontes documentais – salienta precisamente José Eduardo Franco – é encetar, de facto, uma aventura de compreensão que deve ser, em primeiro lugar, a missão da construção da história como revisitação do passado, guiada por uma insistente interrogação”.

O Plano dos 3 Volumes está organizado por relação aos referenciais espaços geográficos da Costa Ocidental de África e Ilhas Atlânticas (Tomo I, com coordenação científica de Arnaldo do Espírito Santo e Manuel Saturino Gomes), do Oriente (Tomo II, com coordenação científica de João Francisco Marques e José Carlos Lopes de Miranda), e do Brasil (III Tomo, com coordenação científica Luís Machado de Abreu e José Carlos Lopes de Miranda), sendo que a primeira fase de elaboração do respectivo propósito iniciou-se, sob a coordenação do Professor Doutor Artur Teodoro de Matos, em 1998, com um projecto então financiado pela Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (CNCDP) sob o título Inventariação da Documentação relativa a Portugal existente nos Arquivos do Vaticano, ao qual se seguiram uma segunda (2005) e terceira (2008) fases, mas sendo porém que, ao final, “o seu Investigador Responsável, o Doutor José Eduardo Franco, entendeu por bem reunir os intervenientes das equipas de ambas as fases do projecto que se disponibilizaram para o efeito. Devido à sua dimensão ainda era necessário muito trabalho adicional para tornar o resultado capaz de publicação com coerência e rigor de critérios, pelo que os membros das referidas equipas das duas fases aceitaram apoiar e, alguns deles, colaborar em conjunto na preparação da versão final na forma que aqui se publica, da qual todos eles são, na verdade, autores e colaboradores”.

“Este empenho conjunto – ainda segundo Roberto Carneiro – pretendeu [assim] fazer justiça ao trabalho efectivamente desenvolvido por todos os intervenientes nas diferentes etapas e garantir que o produto científico do considerável investimento em recursos humanos e materiais, feito por prestigiadas instituições de financiamento do Estado Português e da União Europeia, se tornasse acessível a um público interessado e o mais alargado possível”.

Entretanto, em Outubro passado, já apresentada em Lisboa, na ocasião, D. Manuel Clemente, Bispo do Porto – ele próprio historiador de mérito – logo teve também oportunidade de mais salientar a importância, os recursos e as potencialidades que uma obra desta natureza contém, com a particularidade – para nós indicativa… –, de, na altura, se ter precisamente debruçado com alguma atenção, sobre a problemática conflitual, para si dilecta e da qual é um reputado especialista, como é sabido, do liberalismo, do primeiro republicanismo, do movimento católico português e das suas paradigmáticas configurações, ecos e ilustrações nas ilhas, para tanto respigando, por exemplo e de entre outros do 1º volume, um documento de “sete anos antes da revolução liberal”, onde um prelado já dava notas doutro tempo que [então] chegava, ao referir “apreciar a religiosidade das pessoas do campo em oposição à cidade, onde diz que residem os libertinos e os maçons”, e bem assim muitas outras e preciosas informações e pistas que sobre os Açores, a Igreja, a Monarquia, etc. ali variada e abundantemente constam.

Isto mesmo é ainda salientado por Arnaldo Espírito Santo, ao escrever, por exemplo, o seguinte:

– “Tomemos como caso notável a história regional e local das comunidades açorianas. Das centenas de pedidos de dispensa de impedimentos canónicos do matrimónio entre familiares, consanguíneos e afins, ressalta a verificação de que era restrito, no século XVII, o número de famílias do arquipélago, em grande parte descendentes daquelas que iniciaram o povoamento das ilhas. A prática religiosa é intensa. A enquadrar as comunidades urbanas e com uma grande inserção entre elas, exercem o seu fascínio os conventos e os institutos de várias famílias religiosas. Muitos e muitas acorrem a engrossar as suas fileiras. Seja por inadaptação ou por insatisfação, chovem os pedidos de mudança de lugar, uns alegando desejo de maior austeridade, outros denunciando dificuldades pontuais de convivência e conflitos pessoais. Uma abadessa solicita a exoneração do cargo; uma freira, já idosa, pretende licença para ter uma criada. A autoridade eclesiástica competente vai despachando conforme os casos, ora acedendo aos pedidos, ora recusando para não criar precedentes.

“Há matéria abundante que roça o romanesco. Uma freira foge do convento para Inglaterra com um marinheiro inglês. Outra salta o muro, dizem que com conivência do confessor. Um escândalo que fez correr rios de tinta e de documentos”…, e assim por diante, para encantadoras incursões e revisitações socio-históricas, institucionais, privadas, culturais e mesmo existenciais, pelos caminhos do passado da nossa vida nos Açores, no entrecruzamento de gentes, mentalidades e destinos do Mundo:

– Uma obra fascinante e plena de atractivos inter e pluridisciplinares, indispensável portanto nas nossas estantes, bibliotecas a arquivos regionais, para estudo, investigação e reprodutivo conhecimento daquilo que fomos, e do muito que, de algum modo, ainda nos molda e condiciona contemporaneamente…
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Publicado em " A União", Angra do Heroísmo (17.12.2011):
http://www.auniao.com/noticias/ver.php?id=26362

e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 18.12.2011):


sábado, dezembro 10, 2011

Danças e corridas de Angra



Qualquer cidadão açoriano e terceirense, minimamente atento a afectado pelos rumos e pisos que marcam a história e o quotidiano de Angra do Heroísmo, logo se apercebe que há todo um conjunto de passos e impasses, (in)definições, (in)competências e (in)compatibilidades que – há já demasiado tempo! – vem atingindo esta nobre cidade, a sua gente e o seu futuro comum.

Para já nem falarmos hoje na controversa modelação incauta, inculta e esbanjadora de créditos e débitos que tem marcado, ao longo dos anos, as heranças e os brasões reais – à mistura com brasonarias, atoardas e peregrinas ficções pouco amadurecidas que sobre o seu estatuto de Património Mundial confusa ou larvarmente tem pesado –, aquilo que vem acontecendo agora na principal autarquia da ilha Terceira é bem revelador de uma quase incrível, vergonhosa e inadmissível situação político-institucional!

Na verdade, entregues à tragicomédia político-partidária e fulanizada, e à patética exibição burlesca, auto-convencida, autista e presumida de toda uma espécie de companhia de circo – ou, talvez melhor, de uma ensandecida trupe de marionetas em desarticulação táctica e estratégica, e (ainda por cima…) sem ventriloquia escorreita e na ausência, outrossim desejável, de personalidades bem formadas, mentes e vozes próprias, e com quase tudo isso num ridículo símile de para-enredo carnavalesco a que todos vimos adiantadamente assistindo no tempo –, o que se pede e merece mesmo é uma firme e profunda vassourada para limpeza geral dos Paços, das ruas e dos ares empestados deste infeliz concelho!

– Culpas de todo este humilhante cenário (que não tardará, como veremos a curto prazo, a propagar-se a outros sítios, paragens, balanços e deserções, mandatos e tesourarias já corroídas e à beira de idas a vidinhas mais lucrativas, safas ou safadas…) não valerá a pena, para já, perspectivar, porquanto, de parte a partes, vários as terão (embora em doses e alcances diferentes)!

Todavia, ao PS (se é que tal entidade genuína e autenticamente existe ainda, com vida, corpo, espírito, pensamento político coerente e ideais práticos próprios, para um outro qualquer projecto de Sociedade Democrática, livre, participativa e organizada com Justiça…) caberá, talvez mais do que a todos os outros juntos, divididos ou divisíveis, uma maior e última responsabilidade na gestão desta crise e na procura, ou viabilização humilde (e mesmo cabisbaixa!), de uma saída para ela, com dignidade e sentido sociopolítico e institucional, – se é que, porventura, ao Partido Socialista (ou ao que ficou dele) lhe resta alguma migalha dessas coisas e valores que talvez já pertençam definitivamente à história das utopias portuguesas e aos remanescentes daquele realismo político que nos últimos dias tornou a ser realçado e recordado por, ou de Mário Soares, Sá Carneiro, António Barreto, Freitas do Amaral, Gonçalo Ribeiro Telles, Guilherme d’Oliveira Martins e Eduardo Lourenço!

Porém, regressando mais aos Açores, à Terceira e a Angra:

– Soluções como as que já por aí minusculamente se perfilham e apregoam à boca pequena entre os “camaradas” e a camarilha do costume – tais as da possível (re)candidatura de Sérgio Ávila ou de Ricardo Barros, de Cláudia Cardoso ou de Francisco Coelho, ou até (imagine-se!) a de Álamo Meneses (também recandidato este, que afinal o seria, não pelo CDS/PP, como já foi, em 93, na altura para a Assembleia Municipal de Angra, mas agora para a dita Câmara…), não auguram nada de bom e parecem, todas, apontar para uma galopante fuga e desagregação dos socialistas e para um adiamento da cada vez mais urgente renovação partidária, com a necessária e conveniente chamada de pessoas e ideias fiáveis, inovadoras e viáveis, serenas e transparentes (se é que alguém, sem cepticismo justificado, ainda irá nessa cantiga para embalar meninos de fralda!).

– Todavia, só daquele outro modo regenerador, poder-se-á estar à altura da hora presente e dos desafios regionais e nacionais imediatos e próximos, servindo a nossa terra e a nossa gente, e desenvolvendo os Açores!

No caso concreto de Angra trata-se, enfim, de procurar restituir-lhe um pouco (ao menos isso!) do seu carácter cívico-institucional, do seu peso específico no contexto regional e da sua histórica dignidade cultural, libertando-a de impasses toscos, de grilhetas imaturas e de carreiristas sem escrúpulos, unicamente afeitos ao passe-de-capote, ao jogo do disfarce e à mascarada alegrete e mais ou menos alienada da festança política que por aí vai correndo e gastando nos arraiais da nossa política caseira e provinciana, sem rei, nem roque, nem pastores à altura do peso e do comprimento da corda que nos vai atirando ao chão vezes e vezes seguidas…
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Publicado em "A União" (Angra do Heroísmo, 10.12.2011):

Roteiros, Cidades e Memória



Da autoria de Marina Tavares Dias, acaba a Objectiva de publicar (em edição bilingue, Português/Inglês) Lisboa nos passos de Fernando Pessoa, sugestiva recolha de textos e imagens (muitas inéditas) da capital portuguesa, da Baixa pombalina e de vários dos seus bairros residenciais, habitantes e sítios pitorescos, assim mostrando, revelando e dando a ver e a pensar, como numa espécie de memorial urbano em escrita visualizante e visualizada, muitos dos cenários que o poeta habitou e justamente “como ele os conheceu” (soi-même e com os seus heterónimos).

– Escritora, fotógrafa e olisipógrafa, nascida em 1962 e desde cedo escrevendo em jornais (“Diário Popular”, “Expresso” e “Diário de Lisboa”), Marina Dias publicou o seu primeiro livro em 1987 (Lisboa Desaparecida), que lhe valeu o Prémio Júlio de Castilho, dando logo início a uma série de oito pioneiros volumes sobre Lisboa, a par de outras edições com temática fotográfica, iconográfica e literária olisiponense, que – todos juntos – nos fornecem um modelar roteiro pela memória e pelo imaginário de Lisboa, com os seus espaços, cafés e tertúlias, hábitos e vivências do quotidiano, tipos humanos e cruzamento de culturas e linguagens.

Além desses livros, a mesma autora, especialista no Primeiro Modernismo e na chamada Geração d’Orpheu (Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Amadeo de Souza-Cardoso, Santa Rita Pintor…), editou outros sobre Sá-Carneiro (1890-1916) e Pessoa (1888-1935), tendo sido ainda responsável em Paris, na sede da UNESCO, pela Exposição Comemorativa do Nascimento do autor de A Confissão de Lúcio, Memórias de Paris e Indícios de Oiro.

– Trata-se de um pequeno mas belo Álbum de geografia urbana e poético-simbólica, feito com grande rigor científico, biográfico e cultural.

E assim sendo, nada que se compare com um tipo turístico de panfletos-mapa (pomposamente ditos “roteiros”…) que a PGR/DRC para aí tem dado à (d)obra, coitados!
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Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 10.12.2011).

sábado, dezembro 03, 2011

Obsessões, depressão e escândalos



Na passada quarta-feira, dia em que foi votado o Orçamento do Estado 2012, de obsessões governamentais, contradições penalizantes, tributações totalitárias e desumanas, e de imaturidades e prepotências parlamentares de novos actores e jovens turcos da política portuguesa – cedo de mais e alguns apenas como meros verbos e números de encher agora e ali alcandorados à função de co-decisores e co-orientadores de complexos e difíceis rumos pátrios que somente avistam e aviam de longe… – foram as referências e pesarosas acusações de um antigo ministro e distinto dirigente do CDS-PP (Bagão Félix), ao comentar parte das medidas propostas e aprovadas, pelo seu partido e pelo PSD, na Assembleia da República, conforme constava desse tão importante documento-guia da governança, para ser implemento (até mais ver…) na condução técnico-política do País!

– Todavia e também no mesmo dia e lugar radiofónico (RDP-1), prática e analogamente em idênticas linhas de juízo eram divulgadas as opiniões de outro alto dirigente dos centristas (o empresário nortenho Pires de Lima) e as de um conhecido economista e ex-deputado do PCP (Octávio Teixeira), explicando, uns e outros, as razões técnicas e as suas respectivas reservas e reticências sociopolíticas, especialmente sobre determinados conjuntos de medidas-pacote afixadas naquele OE.

Ora de entre essas directrizes governativas constava a tão contestada subida do IVA para o sector da restauração – homónima e linguisticamente pouco saborosa denominação esta, mas já correntemente adoptada para denominar as áreas de comércio e serviço dos restaurantes, casas de pasto e similares estabelecimentos, que não àquela outra, ao presente bem distante e apenas quase histórica e sebasticamente dita Restauração, com maiúscula, da Independência Nacional e da Autonomia dos Arquipélagos Insulares, projectos estes bem dignos de evocação e tanto mais assim quanto as suas implicadas determinações objectuais cada vez mais comprometidas estão no dramático contexto do País e da União Europeia com as suas bicéfalas (franco-alemãs) hegemonias sobre os Estados que a integram (conquanto cada vez mais dela e da sua moeda única desintegrados…).

Tudo isto tem, aliás, vindo a ser reconhecido à evidência mas submissamente suportado por quase todos os restantes países e nações do velho Continente e também, embora de modo vacilante e oscilante, pelos Estados Unidos da América – estes, por seu lado e para mais engolfados em persistentes problemas, contestações, dramas internos e perigosos jogos e precárias tentativas de gestão e equilíbrio de jogos de guerra e de paz, das ameaças do terrorismo e das manobras da segurança geoestratégica actualmente talvez à beira de novas explosões nos voláteis cenários do Oriente (Síria, Israel, Palestina e Irão).

Por outro lado, a par desta situação tensa, ainda se apresentam muito pouco clarificadas as últimas refrontalizações intestinas no Egipto, na Líbia ou no Iémen (sem crescentes de lua ainda definidos na chamada primavera e nas outras estações do ano árabe e/ou muçulmano, tal como em outras instáveis geografias político-religiosas do planeta), aonde não se percebe ainda muito bem se o que virá a seguir são Democracias (quais e com que modelos?) ou novas e praticamente incontornáveis e imprevisíveis Revoluções.

– Mas, voltando à nossa realidade mais próxima, o que parece cada vez mais ser certo e inquietante é que as condições de vida dos portugueses vão piorar de modo imparável, enquanto vão crescendo os sinais de protesto, revolta, indignação, violência escapista ou simultaneamente criminal, sem que o Povo de Portugal consiga convictamente assumir como coisa sua um outro projecto justo, equitativo e partilhado de solidária reconstrução do País, só então aí relançando-se a economia, garantindo-se a valorização do trabalho e do mérito, assegurando-se o desenvolvimento integral e integrado, harmonioso e complementar de todas as classes e formações sociais, parcelas do território e sectores produtivos!

É claro que as declarações de Bagão Félix, Pires de Lima e Octávio Teixeira visavam o OE 2012 do Governo central e a situação global do país, tal como as também recentes declarações e análises de Cavaco Silva, Mário Soares, Jorge Miranda, Boaventura de Sousa Santos, Manuela Ferreira Leite, Marcelo Rebelo de Sousa ou Freitas do Amaral (entre as de outros, que valeria ainda a pena escutar criticamente) o fizeram, mas tendo como horizonte mais vasto o estado da Europa e do Mundo.

Porém, com certeza, nem umas nem outras a ninguém deixaram desapercebidos os concretos e bem directos sinais referenciais de um quotidiano que a todos causa tanta desilusão, desconforto e mesma náusea, como se depreende, por exemplo, do texto de uma das últimas crónicas de Daniel Oliveira, no “Expresso”:

– “Quando vi Pedro Mota Soares chegar de Vespa a um Conselho de Ministros achei graça. Não pelo exemplo de desapego, que me pareceria fazer pouco sentido. Mas pela falta de pompa, que me agrada. Não acho que os ministros tenham de andar de transportes públicos para serem bons ministros. Tenho pouca paciência para esse moralismo. Mas acho que daria jeito que os ministros soubessem o que são os transportes públicos e espanta-me que seja tão difícil encontrar responsáveis políticos em lugares públicos. Assim como me espanta que o estatuto das pessoas seja avaliado, neste país (e não apenas no Estado), pela cilindrada do carro que têm.

“Acontece que, afinal, a Vespa de Pedro Mota Soares era, como quase tudo neste Governo, fogo de vista. Ficámos a saber que, no seu trabalho, usa um carro de 86 mil euros. Alugado por quatro anos. Não esperaria que o ministro da Solidariedade se deslocasse pelo país, com uma agenda que seguramente é carregada, numa scooter. Não me incomodaria que ele se fizesse transportar num carro confortável onde pudesse ir trabalhando enquanto viaja. Mas é indispensável que o faça num carro tão caro? Quando o seu sensível ministério levou um corte brutal, quando se tiram prestações sociais a tanta gente que passa dificuldades inimagináveis, não seria de bom tom manter alguma parcimónia nos seus próprios gastos?”…

– Mas por falar em carros do Estado, dizendo os dísticos ou chapas, que entre nós lá se encontram colados, que os mesmos são apenas para “uso oficial”, o que é que continuam fazendo desse conceito e usufruto muitos dos responsáveis regionais nas suas certamente muito preenchidas e concorridas agendas, corridinhas executivas e tarefas públicas? E o que justificará tanta viatura, com combustível e à espera na porta, com ou sem motorista, a toda e qualquer hora do dia e da noite, a todo e para qualquer percurso diário, até mesmo para a mera, pronta e curta ida para o local de trabalho, ou nas gigantescas vias rápidas, avenidas, ruas, ruelas e canadas ilhoas, para tanto autarca e dirigente e sub-dirigente da administração e serviços públicos da RAA, Autarquias, Serviços, Centros, EPEs, EMs, etc?

 
Sem cair em contendas mesquinhas ou em descabidos zelos de poupança, todavia, quem vê o que a nossa gente diz e sente, e cada vez mais vocifera ou depressivamente padece por aí, não pode deixar de admitir que há mesmo coisas obsessivas e escandalosas, – desde a perigosa e desapiedada tirania financeira dos agiotas bolsistas e dos usurários capitalistas europeus, até aos impiedosos ditames do Orçamento do Estado 2012 (conquanto aqui alguns deles possam decorrer efectivamente da famigerada herança da desgovernação socratista e dos seus apaniguados fautores ou símiles internos e externos), passando por muitos e variados tipos de viaturas, carruagens e vagões de interesses (de pequenas, médias e altas cilindradas) usados ou implementados por grande parte de toda uma classe política pindérica, parasita e cínica, aí incluída muita da ridícula corte dos poderes e aparelhos político-partidários e tecnocráticos que nos cercam, mentem e enganam, com os seus enfatuados amanuenses conjunturais, na maior e mais impune regência do sistema e com o mais retinto dos descaramentos pessoais e orgânicos!
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Publicado em http://www.auniao.com/noticias/ver.php?id=26200
e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 04.12.2011)