segunda-feira, maio 20, 2013
sexta-feira, maio 10, 2013
A História da Rádio nos Açores
nunca foi feita de modo minimamente alargado, articulado e sistemático, pese
embora a existência de alguns projectos idealizados e de específicos trabalhos
monográficos (como o de Pedro de Merelim sobre o RCA) e a concretização de diversos
outros apontamentos dispersos e registos pontuais (conferências institucionais evocativas,
crónicas, exposições, mostras e reportagens de tipo jornalístico).
– Mas tal lacuna não assentará
certamente na falta de significativos historiais
deste importante meio de Comunicação Social no Arquipélago, nomeadamente em
S. Miguel, Santa Maria e Terceira, cujos pioneirismos remontam a 1941 e 1947
(com as instalações do Emissor Regional
dos Açores da EN, depois RDP, Asas do
Atlântico e Rádio Clube de Angra),
coincidindo assim temporalmente com os meados da chamada época de ouro radiofónica em Portugal.
Todavia – e apesar de muitos elementos
materiais, documentais e técnicos, preciosos para a realização de tal levantamento
e consequente estudo, se terem perdido, gastos pelo tempo, incúria ou
inconsciência das respectivas agremiações e ausência de políticas culturais,
patrimoniais e museológicas mais amplas e multidisciplinarmente fomentadas… –,
talvez fosse hoje ainda possível fazer uma proveitosa investigação temática e
uma metódica abordagem socio-histórica, sociológica e política sobre tão
importante sector, sendo que tal trabalho, a chegar aos nossos dias (com a relativamente
mais recente implantação das novas estações e modelos institucionais,
comerciais, associativos ou apenas locais de Rádio), não deixaria de fornecer abundante
matéria para análise crítica deste
relevante campo mediático, histórico-cultural, informativo, formativo e lúdico,
nas suas diversas etapas, qualificações e instrumentos, e tanto naquilo que aí
também se manifesta e representa de universal como de particular.
– Oxalá esta problemática, que é assim
e afinal da ordem da Cultura e da Cidadania – e que se articula com a tão mal
debatida e ainda menos bem encaminhada questão do serviço público de Radiodifusão (e da participação, ou ingerência,
do Estado, do Governo e de muitas, desreguladas e obscuras redes de interesse e teias de Poder nos OCS…) –, fosse mesmo levada a sério por toda a sociedade civil
e pela própria “classe jornalística” (tão amiúde permeável ao mais abjecto
tráfico de favores e contra-favores que as lógicas
partidárias e as propagandas
administrativas sempre tem a tentação de gerar, reclamar e impunemente
perpetuar)!
Por outro lado, é de notar que
uma observação atenta às grelhas de programação e aos conteúdos individuais de
muitos Programas de algumas Estações de Rádio nos Açores (melhor sendo nem
falar, por agora, da Televisão que nos foi impingida para desencanto,
desmobilização, des-edificação e des-identificação colectivas e individuais…),
em comparação com produções e realizações bastante anteriores e muito mais
parcas em meios técnicos e humanos, não poderá deixar de fazer constatar uma
acentuada quebra na qualidade, na capacidade criativa, na pertinência sociocultural,
na relevância artística, na correspondência às dinâmicas comunitárias regionais,
na objectividade factual e na aceitação das audiências…
– Porém, depois e no meio do
deserto nacional ou da vacuidade gerais, lá nos aparecem pequenos espaços encantadores
e muito bem conseguidos na sua simplicidade, contenção e singeleza, revestindo-se,
por isso, de uma feição bem atractiva e de verdadeira promoção cultural,
cívica, crítica, estética e intelectual. E é neste quadro que quero até referir
e salientar pela positiva o Programa “À Volta dos Livros” de Ana Daniela
Soares, transmitido na Antena 1!
Trata-se de uma conversa serena, de
um sugestivo diálogo diário com Autores portugueses e suas Obras mais recentes,
nuns breves mas ricos minutos radiofónicos por onde já passaram, entre outros e
variadamente, Eduardo Lourenço, Miguel Real, Alice Vieira, José Eduardo Franco,
Bagão Félix, Helena Matos, Pacheco Pereira, Nazaré Barros e Mendo Henriques…
– Certamente um pequeno exemplo a
seguir, para além do mais e ao seu nível próprio, por tantas estações e
frequências de afugentar os olhos e queimar os ouvidos, deste e do outro lado
do mar das ilhas…
__________________
Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 11.05.2013):
RTP-Açores:
http://sinaisdaescrita.blogspot.pt/,
Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2358&tipo=col,
e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 12.05.2013):
__________________
Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 11.05.2013):
RTP-Açores:
http://sinaisdaescrita.blogspot.pt/,
Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2358&tipo=col,
e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 12.05.2013):
sexta-feira, maio 03, 2013
Memória de um Projecto Cristão
para Desenvolvimento dos Açores
para Desenvolvimento dos Açores
Nesta efeméride da passagem de
meio século sobre a ocorrência de acontecimentos
históricos muito marcantes e decisivos na vida da sociedade açoriana de
meados do Século XX, tive já oportunidade de evocar aqui dois deles – a II Semana de Estudos dos Açores e o
início dos Cursos de Cristandade no
Arquipélago –, relacionando-os especialmente com a publicação da Encíclica Pacem in Terris, a realização e a
recepção do Concilio Vaticano II, a Doutrina Social da Igreja e o Pensamento
Humanista Cristão, – factos e factores que conjugadamente moldaram uma
ilustríssima geração de Açorianos e balizaram os seus horizontes, ideários,
projectos e comprometimentos espirituais, sociais, culturais e políticos.
1. Hoje abordarei
sucintamente mais um exemplo desses acontecimentos e recepção dessas ideias,
recordando a paradigmática confluência verificada
entre aquele que seria afinal o principal lema das Semanas de Estudos e uma sua
interpretação ortoprática tal
como foram subscritas no discurso de um distinto homem da sociedade e da
imprensa micaelenses da época, – precisamente o Dr. Manuel Carreiro, então
Director do “Diário dos Açores” (e cujo filho Manuel/“Mani” viria a falecer,
morto em combate na Guiné, durante a Guerra Colonial que o regime deposto em 25
de Abril sustentaria durante décadas de opressivos sacrifícios, injustiças,
logros, arbitrariedades e impasses nacionais, regionais e pessoais…).
– E foi assim que na Apresentação
do Livro da II Semana de Estudos (realizada
em Angra do Heroísmo entre os dias 3 e 10 de Abril de 1963) o seu genial animador
e incansável Secretário, Doutor José Enes (na pintura-retrato de Aristides Ambar
que ilustra este texto), depois de salientar o “nível das conferências e dos
debates, o interesse activo e o admirável espírito de compreensão, sinceridade
e tolerância” que haviam timbrado as respectivas sessões com “um valor cultural
e humano verdadeiramente invulgar”, acabaria por colocar aquele ímpar projecto pan-açoriano sob o programático lema de
“Mais saber para melhor viver”!
Porém aquela formulação fora
possivelmente inspirada e como que parafraseava filosoficamente uma célebre
passagem da Encíclica Mater et Magistra
(de João XXIII), por sua vez recolhida da não menos indicativa expressão – “Ver,
julgar, agir” – do método pastoral do cardeal Joseph Cardijn, fundador da Juventude
Operária Católica (JOC) e que tinha aliás desempenhado activo papel como um dos
mais empenhados e primeiros responsáveis católicos a pedir ao Papa, em
Memorando próprio, a publicação de nova Encíclica social para marcar o 70º.
Aniversário da Rerum Novarum (1891) de
Leão XIII. E de facto, na Mater et
Magistra (15 de Maio de 1961), no articulado relativo a “Sugestões
práticas”, viria depois a ler-se:
– «Para levar a realizações
concretas os princípios e as directrizes sociais, passa-se ordinariamente por
três fases: estudo da situação; apreciação da mesma à luz desses princípios e directrizes;
exame e determinação do que se pode e deve fazer para aplicar os princípios e
as directrizes à prática, segundo o modo e no grau que a situação permite ou
reclama. São os três momentos que habitualmente se exprimem com as palavras
seguintes: "ver, julgar e agir"» …
2. Ora é neste contexto
socio-histórico e teórico-prático que José Enes, citando Manuel Carreiro, depois
de afiançar que como portugueses e como
açorianos tínhamos consciência de que a hora não era “para divagações
estéreis nem para discussões bizantinas”, destacava o argumento a relevar e
subscrever com o Director do “Diário dos Açores” quando este dizia que “de mãos
dadas, olhando-nos de frente e nunca indiferentes, poderemos discutir, limar
arestas, e resolver grandes problemas açorianos, há muito aguardando solução
satisfatória. Só assim, francos e descontraídos, poderemos dar ao Arquipélago
aquela coesão e força anímica de que tanto carece, para que mais se valorize e
prestigie”!
Por seu lado e do mesmo modo, justa
e finalmente José Enes concluía, com toda a previdente lucidez da sua tão
reflectida e avisada prospectiva: – “E é desta forma que as ideias entram na
convivência humana, ao nível da consciência colectiva, transformando-se em
sistemas de dominantes teóricas e práticas. Quer dizer: é assim que se elabora
a cultura vivida.
“Com o desejo de mais saber para melhor viver, comecemos,
portanto, sob o signo da boa vontade, da sinceridade e da tolerância”…
3. Todavia, agora e aqui,
passado meio século, talvez seja urgente e proveitoso repensarmos todos e analogamente o estado de coisas a que chegámos,
e tudo aquilo que não soubemos (ou não nos deixaram…) construir como homens e como cristãos portugueses
dos Açores, no País, para a nossa Região Autónoma e com todos os Açorianos,
sendo que talvez com isso nos tornaríamos mais
dignos das esperanças e lutas do passado… Ou não permanecessem ainda vigentes e actuais as históricas
palavras da mesma Encíclica, lá pelos idos (?) anos 60, ao analisar os antecedentes
do século, assim:
–“Como é sabido de todos, o
conceito do mundo económico, então mais difundido e posto em prática, era um
conceito naturalista, negador de toda a relação entre moral e economia. (…) Juros
dos capitais, preços das mercadorias e dos serviços, benefícios e salários, são
determinados, de modo exclusivo e automático, pelas leis do mercado. (…) Num mundo económico assim concebido, a lei do mais forte
encontrava plena justificação no plano teórico e dominava no das relações
concretas entre os homens. E daí derivava uma ordem económica radicalmente
perturbada.
“ (…) Enquanto, em mãos de
poucos, se acumulavam riquezas imensas, as classes trabalhadoras iam
gradualmente caindo em condições de crescente mal-estar. (…) Sempre ameaçador o
espectro do desemprego.
“ (…) Não devemos, pois,
admirar-nos, se os católicos mais eminentes, atendendo aos apelos da Encíclica,
empreenderam iniciativas múltiplas, para traduzirem em prática os seus
princípios. De facto, nessa tarefa se empenharam, sob o impulso de exigências objectivas
da natureza, homens de boa vontade de todos os países do mundo.
“Por
isso, a Encíclica, com razão, foi e continua a ser considerada como a Magna Carta da reconstrução económica e social da
época moderna”…
________________
________________
http://www.rtp.pt/acores/index.php?article=32031&visual=9&layout=17&tm=41;
Azores Digital:
quarta-feira, maio 01, 2013
Revista “Nova Águia” publica
ensaio sobre figuras açorianas
Acabado de sair, o nº. 11 (Março
de 2013) da “Nova Águia” – Revista de
Cultura para o Século XXI (Lisboa, Edições Zéfiro) inclui um ensaio
dedicado a Agostinho da Silva e à sua ligação aos Açores e a Açorianos.
Da autoria do investigador,
ensaísta e professor universitário Eduardo Ferraz da Rosa, o texto aborda a
vida e o pensamento daquele grande pensador, filósofo e escritor português, nas
suas relações pessoais e académicas com duas outras personalidades açorianas –
os terceirenses Vitorino Nemésio e Alberto Machado da Rosa, com quem os seus
percursos históricos, existenciais e universitários, tal como a sua
plurifacetada obra, se cruzaram ao longo dos anos, em Portugal, no Brasil e nos
Estados Unidos.
Intitulado “Memórias Açorianas de
Agostinho da Silva, Vitorino Nemésio e Alberto Machado da Rosa”, o estudo de
Eduardo Ferraz da Rosa retoma, agora com novos desenvolvimentos e maior
amplitude, um anterior trabalho que fora publicado no seu livro O Risco das Vozes (editado em Lisboa,
com Prefácio de Carlos Reis, em 2006, pela Academia Internacional da Cultura
Portuguesa, presidida por Adriano Moreira).
O presente trabalho de Eduardo
Ferraz da Rosa regista o convívio intelectual e encontros pessoais com
Agostinho da Silva, traçando o seu perfil filosófico, atribulações políticas e
académicas, principais núcleos temáticos de reflexão e o seu papel na criação e
desenvolvimento de academias, universidades e centros de estudos luso-brasileiros,
analisando ainda as ligações de Agostinho da Silva à Tradição Paraclética e ao
Culto do Espírito Santo nos Açores, e bem assim os seus diálogos com aquele que
foi, até hoje, um dos mais destacados, inovadores e críticos estudiosos de Eça
de Queirós, precisamente o académico Alberto Machado da Rosa (Angra do
Heroísmo, 1924 - Monsaraz, 1974), doutor em Literaturas Hispânicas,
investigador e professor universitário nos Estados Unidos (Wisconsin e
California, Los Angeles), sendo depois todas estas referências articuladas com
a vida e o pensamento de Agostinho da Silva, cuja figura, por sua vez, é relacionada
com Vitorino Nemésio nos âmbitos culturais, filosóficos e literários referidos
e detectados neste muito curioso e pertinente ensaio, aonde, por exemplo, são
reproduzidos testemunhos únicos de outros amigos, companheiros ou colegas
comuns de Machado da Rosa, que foram pesquisados por Eduardo Ferraz da Rosa (como
o médico Hélio Flores Brasil, o livreiro José Teixeira de Borba e o escritor e
jornalista João Afonso).
Com sucessivos lançamentos a
decorrer em todo o País, este número da “Nova Águia” – herdeira da revista A Águia e do ideário do chamado
Movimento da Renascença Portuguesa
(Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, António Carneiro, António Sérgio,
Fernando Pessoa, Leonardo Coimbra e próprio Agostinho da Silva) –, actualmente
dirigida por Renato Epifânio, Miguel Real e Luísa Janeirinho, inclui vasta
lista de Colaboradores, entre os quais, para além de Eduardo Ferraz da Rosa
(que é também membro do seu Conselho de Direcção), Adriano Moreira, António
Carlos Carvalho, António Braz Teixeira, José Eduardo Franco, Manuel Ferreira
Patrício, Manuel J. Gandra, Maria Leonor Xavier e Pinharanda Gomes.
_____________
Em "Diário dos Açores (Ponta Delgada, 01.05.2013);
Azores Digital (http://www.azoresdigital.com/):
http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=17989,
RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/index.php?article=32009&visual=3&layout=10&tm=6,
e MIL:
http://mil-hafre.blogspot.pt/2013/05/destaque-nova-aguia-no-diario-dos-acores.html?spref=fb.
RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/index.php?article=32009&visual=3&layout=10&tm=6,
e MIL:
http://mil-hafre.blogspot.pt/2013/05/destaque-nova-aguia-no-diario-dos-acores.html?spref=fb.
sábado, abril 27, 2013
As Leituras dos Cursistas
Como aqui assinalei antes, está presentemente a decorrer em Angra do
Heroísmo a comemoração do quinquagésimo aniversário dos Cursos de Cristandade
nos Açores.
Para além da sua já situada
importância social – a par das Semanas
de Estudo que, embora em campos diferentes, também foram concretizações de consciencialização e elaboração do pensamento e da acção da nossa
sociedade na segunda metade do Século XX –, sinalizarei hoje algumas das sugestões doutrinárias e recomendações bibliográficas que eram
propostas e disponibilizadas para aprofundada
reflexão e contínua formação
religiosa, teológica e moral dos Cursistas, e que moldaram assim muitas das
linhas teórico-práticas orientadoras e renovadoras do sentido e projectos cristãos do seu mundo, buscas de sentido,
reflexão e vivências do quotidiano, sendo que a tanto não fora alheio o Vaticano
II, como aliás reconheceu D. Juan
Hervás, no seu Manual de Responsáveis dos
Cursilhos de Cristandade, ao referir a conciliar “incorporação plena dos
movimentos bíblico, patrístico e litúrgico, num aprofundamento da teologia das
realidades terrestres, da doutrina sobre a liberdade religiosa e das aspirações
do movimento ecuménico”, – todos que, naturalmente, teriam significativa projecção sobre os Cursilhos (nascidos anos atrás).
Ora é neste confluente horizonte
– genuína mas sincreticamente marcado por métodos, técnicas e modelos de
auto-análise evangélica, espiritual e existencial reconhecíveis nos Exercícios Espirituais dos Jesuítas, no método de Cardijn e em vivências próximas
do Opus Dei –, que também se enquadravam
as principais, mais destacadas e exigentes leituras
e livros dos Cursistas, onde, em primeiro lugar entre os recomendados, estava
o emblemático e pessoal Guia do Peregrino
(publicado pelo Secretariado Nacional e sempre usado durante e após os Cursos),
espécie de manual litúrgico e de horas, oferecimento de obras, exame de consciência,
cânticos e orações.
– Mas depois, entre o discurso
quase poético do duplo Cristo Partido de
Ramón Cué, S.J. (Porto, Editorial Perpétuo Socorro) e a minuciosamente
esquematizada axiologia dos Valores
Humanos (4 Volumes) de A. Ortega Gaisán (Braga, Editorial Franciscana), em estante
de destaque lá vinha o Caminho de Josemaría
Escrivá de Balaguer, editado pela Aster (ligada à Prumo) e cujo excepcional
catálogo, nas colecções Éfeso e Signo, em
traduções notáveis, incluía, entre outros, autores como Romano Guardini, Paul Claudel, Daniel-Rops, Jacques
Leclerq, Michael Schmaus, Antoine Sertillanges, Journet, Pieper, Charles de Foucauld,
Garrigou-Lagrange, e Jesus Urteaga (cuja obra O Valor Divino do Humano, é ainda um texto de esperança e confiança
na audácia intelectual, metafísica e ética da Fé)!
– Sendo estas as mais conhecidas leituras e reflexões da Cristandade
dos Cursos (e não só!), oxalá as assumissem e vivessem todos hoje, tal como,
naqueles (afinal sempre recorrentes) tempos
cruciais, escrevia Michel Quoist, na mesma demanda permanente da reconversão e do diálogo intemporal
“do homem com o seu Deus”…
RTP-Açores:
“Diário dos Açores” (28.04.2013) e “Diário Insular” (27.04.2013).
quarta-feira, abril 24, 2013
Igreja e Política nos Açores
durante o Século XX
Diário Insular (DI) – Tem salientado o papel da Igreja na transformação
da sociedade açoriana do Século XX. Como perspectiva essa relação?
Eduardo Ferraz da Rosa (EFR) – O período referido – precisamente
entre o final da década de 40 e a primeira metade dos anos 70 (até ao 25 de
Abril) – constituiu de facto um ciclo histórico-político,
psicossocial, cultural, intelectual e espiritual absolutamente único e decisivo
na evolução da nossa sociedade, tendo sido por isso determinante para a
construção possível da unidade do
Arquipélago e a génese de uma nova
consciência regional açoriana.
– Digo “nova consciência”, apesar
de diferentes configurações axiológicas e societárias se terem verificado em
outros períodos e contextos históricos; porém, nunca como ali se verifica tão
profundamente a tematização e consciencialização dos Açores como comunidade
dotada de personalidade colectiva e
de unidade destinal, para usar a
exemplar formulação filosófica de José Enes.
DI – Onde e como nasceram essas dinâmicas?
EFR – Os centros comuns de
geração e de encontro desse progressivo
e compósito processo reflexivo e
programático regional – onde confluem (em campos, dimensões e carismas
diferentes) várias instituições e movimentos (Seminário de Angra, IAC, Semanas
de Estudo, Cursos de Cristandade, Acção Católica, LIC, JEC e JOC…) –,
encontram-se justamente nos círculos de influência e nos quadros
teórico-práticos da Igreja, da Doutrina Social e do Humanismo próprios do Cristianismo.
– Tudo o resto, no Pensamento e
na Acção locais (inclusive nas esferas da Política, do Associativismo, da
Educação e da Comunicação Social), tanto em termos de projecto de sociedade como de vida
pessoal, assentou, directa ou indirectamente, nessa matriz, com a
subsequente redescoberta, reconfiguração e correlativo entendimento dos sinais
das “realidades terrestres” e da “ordem universal”, que o Vaticano II, a par da
nova ordem mundial nascente, trouxeram até nós…
DI – Nesse contexto, como situa o 25 de Abril de 74?
EFR – … Depois, mas já numa fase de certo declínio, desencanto ou
esgotamento daqueles ideais (em parte
devido à situação política global e à fracassada “primavera marcelista”), foi
só e apenas com algumas daquelas linhas e
categorias (conseguidas umas, frustradas outras…) que chegámos ao 25 de
Abril! Porém, tudo isso, que fora incarnado em pessoas e projectos concretos,
sofre lamentáveis e regressivos adiamentos, bloqueios, desperdícios mentais,
estruturais e institucionais, com intolerâncias, repressões e saneamentos que
provocaram desmotivação, conformismo, cedências ou revolta, apesar das
aspirações e conquistas autonómicas…
Ora com a libertação
revolucionária (e outras arrumações ideológicas, crispações, subalternizações e
enquistamentos partidários de muita gente, saberes e valores…), abriu-se também
a porta a oportunismos, impasses, rupturas e insustentabilidades, com a
agravante terminal de, contemporaneamente, ser até difícil a crença (esperança
ou utopia…) numa Pátria mais justa, livre, desenvolvida e com sentido do
futuro!
– É certo que a culpa formal e
sistémica das nossas múltiplas falências não estará essencialmente na
Democracia e na Autonomia! Todavia, os vigentes modelos, paradigmas e regimes
societários, éticos e culturais, a perpetuarem-se, não garantirão nem a
viabilidade material nem a legitimidade moral da sua (e nossa) sobrevivência,
em moldes livres e dignos, por muito mais tempo…
________________
(*) Entrevista concedida ao jornal “Diário Insular” (25
de Abril de 2013).
Idem
em “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 25.04.2013);
RTP-Açores:
sábado, abril 20, 2013
50 Anos de Ultreias
nos Açores
Cumprindo-se este ano a passagem
de meio século sobre a realização dos primeiros Cursos de Cristandade nos Açores,
tal como assinalámos aqui na nossa Crónica anterior (“Reencontros com a
História”), justo e devido é realçar esta efeméride, que aliás – e bem – vai
ser comemorada, nos próximos dias 26 a 28 do corrente, na ilha Terceira, com a
realização, no dia 27 de Abril, da VII Ultreia
Nacional (subordinada ao tema “Fé: Experiência de um Amor Recebido e
Comunicado”) do MCC (Movimento dos
Cursilhos de Cristandade) de Portugal, de acordo com o Programa estabelecido
para o efeito e que integra também diversos convívios, visitas e passeios
turísticos, para além de uma Eucaristia na Sé de Angra e de outros encontros de
reflexão, estudo e meditação.
– Idealizado e dinamizado por um
grupo de leigos e responsáveis eclesiásticos católicos espanhóis muito ligados
à Acção Católica, com destaque para Eduardo Bonnin Aguiló (1917-2008) e D. Juan
Hervás y Benet (1905-1982), estes Cursilhos tiveram início na década de 40 do
século passado, num contexto muito marcado pelo tradicionalismo católico, que
procuraram ultrapassar através de novos processos evangélicos, pastorais e
espirituais, de opções existenciais, valores e métodos de auto-análise de vida
e da sociedade circundante, segundo métodos e modelos que fundiam diversas
linhas de meditação, oração, reconversão, acção e compromisso eclesial e
comunitário, alguns deles sincreticamente, mas de modo inovador, marcados ou
reconhecíveis também nos Exercícios Espirituais
inacianos, no método de Cardijn e em
certas vivências próximas dos carismas e práticas do Opus Dei (de cujo fundador, Josemaria Escrivá de Balaguer, Juan
Hervás, aliás, foi bastante próximo…).
Nos Açores, tal como no País em geral, mas também um pouco por todo o
Mundo, os Cursos de Cristandade – num quadro especial e específico de renovação do Catolicismo na acção e na espiritualidade laicais – desenvolveram, logo de início, um
trabalho que proporcionou realmente uma dilatada partilha de vida e de
experiências cruciais cristãs, naqueles anos marcados pelo Concílio
Vaticano II e pelo aggiornamento
proposto pelo Papa João XXIII, tendo os dois primeiros Cursos para Homens tido
lugar em Angra do Heroísmo, e o 3.º Regional (Homens), 1.º em S. Miguel –
documentado na Foto que ilustra este texto – ocorrido nas Furnas, em Dezembro
do mesmo ano (1963).
– Todavia, o primeiro Curso de Cristandade que teve a presença de
açorianos, a convite e por incentivo do Prelado Diocesano de então, foi o 14.º
Curso Nacional, realizado no Porto, e que contou com a ida dos Cursistas
pioneiros regionais Hernâni Mendonça e Cunha, António Braz e Dr. Henrique Braz,
nele tendo também participado militantes empenhados e de grande projecção
católica posterior no País, como o Arq. Nuno Teotónio Pereira.
No Curso referido, que teve como Director Espiritual o então Padre
Januário dos Reis Torgal (actual Bispo das Forças Armadas), estiveram também
presentes o Cónego José Garcia e o Dr. Cunha de Oliveira (que viria depois a
ser uma das suas figuras cimeiras e dinamizadoras).
– Por seu lado, o Dr. António Rosa (da Clínica do Bom Jesus) foi, na
mesma altura, um dos primeiros animadores dos mesmos Cursos em S. Miguel,
juntamente com sua esposa, D. Maria Luísa Rosa (primeira reitora dos Cursos de
Senhoras, com a terceirense D. Aurora Braz).
Assim sendo, talvez se possa mesmo dizer que, ao seu nível de
objectivos próprios, a par das Semanas de Estudo, os Cursos de Cristandade nos
Açores foram, no seu sucesso e impacto globais, desse modo e com as suas
propostas de análise e estudo do sentido
dos casos, concretizações
privilegiadas de momentos ímpares de
consciencialização privada e de elaboração do pensamento e da vida da nossa
sociedade, umas e outros preponderante e identificadamente com declaradas
(e até complementares...) referências doutrinárias, teoréticas, axiológicas e
práticas herdeiras da tradição do Humanismo Personalista, da tensão profética
do Cristianismo e da Doutrina Social da Igreja.
– Todas estas dinâmicas, com uma feição inter-ilhas, foram – esperançosa
e felizmente naquela época… – geradoras consequentes de renovadas consciências
sociais, societárias, intelectuais e espirituais, com uma liderante e notabilíssima componente
local e regional que – apesar de divergências, concorrências e divisões nos
penhascos... – ajudaram decisivamente a pensar e a preparar o nosso Arquipélago
para a formulação de novas metas a todos os níveis, nos anos subsequentes e de
um modo simultaneamente realista,
generoso e utópico, talvez nunca mais igualado até hoje…
19.04.2013
19.04.2013
______________________
Em RTP-Açores:
Azores Digital:
e Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 21.04.2013).
Outra versão em "Diário Insular" (20.04.2013).
ESTUDO REALIZADO NA TERCEIRA
ENTRE FEVEREIRO E NOVEMBRO DE 2012
Relatório
arrasa implementação
de Cuidados Continuados
de Cuidados Continuados
O relatório "Levantamento,
Avaliação e Operacionalização da Rede de Cuidados Continuados Integrados.
Situação Atual e Perspetivas Estratégicas da Política de Saúde nos
Açores", disponibilizado ao DI pela secretaria regional da Saúde, traça um
cenário negro no que diz respeito à área dos cuidados paliativos e ao estado
atual da implementação da rede de cuidados continuados.
O estudo, assinado por Eduardo
Ferraz da Rosa, debruçou-se sobre o caso terceirense. De acordo com o
documento, após auscultadas diversas entidades, foi concluído existir
"indefinição total na conceção, organização, planeamento e coordenação de
Serviços de Cuidados Paliativos no HSEIT (Hospital de Santo Espírito da Ilha
Terceira) e entre esta principal unidade de saúde e as restantes unidades,
serviços, instituições e âmbitos sociais, familiares, domiciliários/domésticos
e individuais dos utentes necessitados desses cuidados e especializados
acompanhamentos técnicos e humanos específicos".
A Lei de Bases dos Cuidados
Paliativos, entende-os como "os cuidados ativos, coordenados e globais,
prestados por unidades e equipas específicas, em internamento ou no domicílio,
a doentes em situação de sofrimento decorrente de doença incurável ou grave, em
fase avançada e progressiva, assim como às suas famílias".
Já os cuidados continuados são os cuidados de convalescença, recuperação e
reintegração de doentes crónicos e pessoas em situação de dependência.
O relatório foi produzido entre
fevereiro e novembro do ano passado. Foram auscultadas "todas as
instituições, agentes e atores direta ou indiretamente ligados às áreas da
prestação de Cuidados de Saúde e Assistência Social na Ilha Terceira
(Hospitais, Centros de Saúde, Residências e Lares, e outros Serviços Públicos e
Privados)".
Quanto a recomendações, o
documento, no domínio dos cuidados paliativos, defende uma mais
"competente definição na conceção, organização, planeamento e coordenação
de serviços de cuidados paliativos no HSEIT", isto "procurando também
aqui promover uma crescente humanização na prestação destes cuidados e um mais
sistemático, efetivo e generoso apoio às famílias envolvidas e/ou a envolver
responsavelmente em todo tão exigente processo".
Este relatório indica ser
necessário cumprir as linhas definidas nos programas do X e XI Governos
Regionais no campo da política de Saúde, nomeadamente no que diz respeito à
"real implementação da Rede de Cuidados Integrados da Região Autónoma dos
Açores".
No domínio dos cuidados
continuados integrados, é recomendada a realização de mais estudos, que se
debrucem sobre a realidade das nove ilhas.
O autor do relatório encontrou
repetidas falhas graves no seio do Hospital de Santo Espírito.
Entre estas falhas estão a
"ausência recorrente de elaboração competente e relevante de carta de
alta", a "inoperância no sentido da programação dos seus serviços e
procedimentos internos, nomeadamente no que concerne à padronização processual,
documental e informática da informação e da história clínica pregressas dos
seus utentes", ou "falhas na circulação devolutiva da informação
clínica atualizada dos utentes atendidos e tratados na urgência" entre
esta unidade de saúde e as restantes instituições de saúde, assistência social
e de prestação de cuidados.
Havia também à data de produção
do relatório indefinição coordenadora entre os Centros de Saúde de Angra e da
Praia no âmbito das atribuições da Unidade de Saúde da Ilha Terceira e era
"praticamente nula" a cobertura no campo da assistência
domiciliária.
Foram identificadas deficiências
na assiduidade, pontualidade e práticas deontológicas de profissionais de saúde
a prestar cuidados nas freguesias.
É feita ainda a "constatação
de demoras, adiamentos injustificados e falta de coordenação e gestão dos
calendários, agendas e tempos de consultas médicas e lista de espera nos Centros
de Saúde e nos Postos de Saúde das Freguesias- situação agudizada pela falta de
um sistema integrado de marcação de consultas".
Há ainda, em termos globais,
falta de campanhas de formação e informação dirigidas aos prestadores de
cuidado, e escassa articulação entre as políticas de saúde e social e as
políticas de habitação, urbanismo e equipamentos "conforme decorre
explícita e implicitamente dos relatórios efetuados pelos serviços de
bombeiros, transporte de doentes e proteção civil".
É assinalado um fraco
envolvimento por parte de alguns agentes locais (Câmaras e Juntas de Freguesia)
em projetos, processos e procedimentos nos campos da Saúde e da Assistência
Social. Por outro lado, existe um acesso difícil dos membros das autarquias
locais às instâncias decisórias da administração regional.
Este documento identifica
"restrições, congestionamentos e protelamentos de vários procedimentos
médico-legais, administrativos e tributários nas delegações de saúde,
nomeadamente no que concerne às solicitações de associações de utentes das
áreas da Saúde Mental, das Deficiências e das Dependências".
Rever a lei
O relatório recomenda a correção
de todos estes aspetos. É apontada como necessária a revisão do decreto
legislativo regional nº13 /2008, que lançou as bases para a criação de uma rede
de Cuidados Continuados Integrados na Região (CCIRAA), de modo a adaptar esta
rede às "características, meios humanos, técnicos, materiais e
logísticos" do Serviço Regional de Saúde.
Também como medida central surge
"reconsiderar a constituição, as atribuições, a agenda e o funcionamento e
os objetivos prioritários da Coordenação Regional da Rede CCIRAA", fazendo
o mesmo face à coordenação por ilha.
É recomendada a responsabilização
dos hospitais pela elaboração competente de cartas de alta e pela existência e
disponibilização de informação sólida sobre os utentes.
Será ainda, entre outros aspetos, importante uma célere implementação da
cobertura de assistência domiciliária.
Uma recomendação final vai para
"fazer cumprir a obrigatoriedade da existência, em cada unidade ou serviço
de saúde, de um processo individual de cuidados continuados da pessoa em
situação de dependência".
Todas as unidades, serviços e
agentes que integram a rede CCIRAA deviam ainda, de acordo com este documento
que está nas mãos da secretaria regional da Saúde, ser alvo de avaliações
periódicas, independentes e objetivas, como instrumento de melhoramento de todo
o sistema.
_____________
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Em
“Diário Insular”, Angra do Heroísmo, 20.04.2013.
Texto
integral disponível aqui: http://we.tl/7HxjNO81Z2
sexta-feira, abril 12, 2013
REENCONTROS
com a História
No dia em que escrevo este texto
– 11 de Abril – comemora-se o 50º. Aniversário da ocorrência, praticamente
simultânea, de três acontecimentos cujos significados e alcances socio-históricos,
culturais e espirituais se revestem de grande relevo e são, por isso,
merecedores de uma evocação reflexiva
entre nós, por muito sucinta que a mesma seja feita aqui e hoje apenas nestas páginas
de jornal:
– Refiro-me à publicação da
Carta-Encíclica Pacem in Terris (do Papa
João XXIII, falecido dois meses depois);
- à realização da II Semana de Estudos dos Açores,
- à realização da II Semana de Estudos dos Açores,
- e ao início
do Movimento dos Cursos de Cristandade
nos Açores, factos sequenciais, estreitamente interligados e quase
temporalmente coincidentes (entre Abril e Setembro de 1963), conforme noutra
ocasião já tive oportunidade de abordar desenvolvidamente e a cuja memória mais
tarde voltarei.
Então, na dinâmica envolvência do
Concílio Vaticano II;
- na evolutiva
e progressiva tomada de consciência dos Açores como realidade regional una e em
busca de um almejado Desenvolvimento integral (estrutural, económico, social,
cultural, político, educativo e intelectual),
- e, enfim, naqueles
tempos de efervescências mundiais e civilizacionais, e de novos desafios religiosos,
ideológico-políticos, socio-institucionais e espirituais, tudo eram (e foram!) novos
e pioneiros sinais dos tempos e busca
de alternativos tempos novos, numa
dimensão talvez nem sempre agora (imerecidamente) conhecida e avaliável, quando
não até conveniente e tacitamente esquecida…
– E todavia, desde esse (ainda
nosso) meio século passado até à nossa contemporaneidade (que é também parte
dele ainda…) – apesar da contínua mudança dos tempos, das vontades, das
gerações, das realidades da Cidade e das configurações mentais, discursivas e
axiológicas dos Homens e Mulheres dos Açores, do País e do Mundo –, muitos são
os problemas, carências, atrasos, desânimos e falhanços de que identicamente
padecemos (e somos!) nos dias que correm, parecendo antes, ou sempre
ciclicamente, amiúde condenados aos mesmos, opressores e injustos valores e padrões de vida, como se nada
tivéssemos aprendido com a História, ou falhado, sem Esperança nem Coragem, o
encontro com ela e connosco mesmos!
11 de Abril de 2013
11 de Abril de 2013
___________________
Publicado em RTP-Açores:
Azores Digital:
“Diário Insular” (Angra do
Heroísmo, 13.04.2013),
e “Diário dos Açores”
(14.04.2013).
quarta-feira, abril 10, 2013
Cuidados Continuados Integrados
e Política de Saúde nos Açores
“Diário Insular” (DI) – É sabido que coordenou e executou, para o
Governo Regional, um Projecto de Investigação sobre a Rede de Cuidados
Integrados (RCCI) na Região. Confirma a elaboração desse Projecto e do
respectivo Relatório?
Eduardo Ferraz da Rosa (EFR) – Sim, confirmo a realização desse
Estudo (que envolveu praticamente, na primeira parte concretizada, todas as entidades e instituições
públicas e particulares directa e/ou indirectamente ligadas à Saúde e à
Assistência Social na ilha Terceira, para além de responsáveis institucionais e
agentes, actores socioprofissionais, técnicos e especialistas nessas áreas, e
ainda responsáveis pelas Autarquias e outros Parceiros Sociais).
Esse exaustivo (e empenhativo!) trabalho
decorreu durante o ano de 2012, a pedido diligente e esforçado do então secretário
da Saúde [Miguel Correia], tendo as respectivas Conclusões e Propostas sido entregues,
já ao novel detentor do lugar [Luís Cabral], em Dezembro último…
DI – Quais os âmbitos, conteúdos, Conclusões e Propostas desse Estudo?
EFR – O objecto do Estudo foi o levantamento e avaliação da Rede de
Cuidados Continuados Integrados na Região Autónoma dos Açores, tendo-se
procedido à caracterização actual e às perspectivas de operacionalização
subsequente e possível.
– O projecto, como referi, tomou
a Terceira como primeira amostra
científica ou modelo sociológico para investigação ou estudo de
caso e de campo.
As Conclusões e Propostas, que foram deontológica e naturalmente entregues
a título reservado, como documento interno
– para reflexão e tradução prática (espero eu…) –, não sendo propriamente
confidenciais, decorrem todavia de delineamentos programáticos assentes, dos
depoimentos e testemunhos pessoais e/ou dos memorandos sectoriais facultados pelos
múltiplos participantes e colaboradores ouvidos, sendo porém que muitas das estruturas e bloqueios analisados são do
domínio e do conhecimento públicos, embora eventualmente de modo menos
tematizado, formal e sistemático…
– Contudo e assim, esses são
problemas, situações e factos bem perceptíveis
(alguns até já denunciados!) pela sociedade, utentes, doentes, famílias,
instituições, OCS e por todo e qualquer profissional dedicado, analista sério,
observador atento, estudioso isento e rigoroso, ou político competente, bem
formado e responsável!
DI – Como explica a não operacionalização cabal da Rede de CCI nos
Açores?
EFR – Essa constatação é verdadeira, sendo todavia que o problema é
complexo, tal como a nível nacional e até internacional, porquanto envolve uma
diversidade de causas, constrangimentos, inoperâncias, faltas de planeamento,
gestão integrada de recursos materiais, técnicos, humanos e logísticos, para
além de inadmissíveis lacunas e preguiças conceptuais, protelamentos de decisão
e vontade institucional, tudo amiúde aliado a ausências de definição de
prioridades e ao esquecimento de valores essenciais para a implementação efectiva e comunitariamente partilhada de uma Política
de Saúde e Assistência sustentável e humanizada …
DI – Um seu conhecido trabalho académico anterior [Investigação para um
Projecto de Doutoramento no ICBAS/Universidade do Porto], na área das Ciências
Biomédicas, tornou-o mais sensível a esta problemática?
EFR – Sim, mais empírica e cientificamente habilitado, e mais ética
e filosoficamente crítico…
– E também mais exigente, mais refractário
a sofismas partidários e ainda mais fiel aos valores de uma política
alternativa, humanista e socialmente justa!
________
(*) Texto revisto
da Entrevista publicada nos jornais “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 10.04.2013)
e “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 11.04.2013).
_________________
Publicado
em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 10.04.2013);
Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 11.04.2013);
Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 11.04.2013);
RTP-Açores:
e Azores Digital:
sábado, abril 06, 2013
Os Lugares Naturais
Pese embora a expressão que dá
título a esta Crónica ser – talvez por arreigado hábito disciplinar – realmente
inspirada no complexo e plurifacetado discurso aristotélico, a verdade é que
aqui vamos hoje tomá-la como uma espécie de mote
ou motivo para a problematização –
conquanto intencional e parcialmente análoga… – de outros lugares (e também de alguns
não-lugares), conceitos tanto filosoficamente
apelativos quanto sociologicamente
pertinentes (como, entre outros, Marc Augé os abordou nos quadros não só
cingidamente físicos mas também simbólicos, comunicacionais, socio-institucionais
e éticos das formas da existência
moderna, especialmente da vida urbana ou cosmopolita, ou nas chamadas
Modernidade e Pós-Modernidade.
Todavia, na linguagem popular, ou
mais prosaica, das falas do quotidiano,
a tematização da profunda diferença entre lugar
e não-lugar aparece-nos também
intuída em enunciações e provérbios, seja – por exemplo – para estabelecer relações
críticas entre saber real e lugar convencional; lugares comprados e posições
do carácter vendido; mediocridades de
habilitação, talento ou competência; serventia e subidas de posto
ou na chefia ou mando das respectivas tribos; neutralidade
ética e futilidades discursivas; anonimato massificado e solidão espiritual, etc., por aí fora,
como se vê e é impossível a tanto e tais desaforos
ou patologias não reagir!
– E não se reflicta só no que se passa
por essa nação que fez de um ressabiado símile nominal do sábio ateniense um PM
(com quase todo um partido rendido, ou nele re-enroscado em peso ou vacuidade!)
e que o leva agora (sob aplausos de envergonhar!) à pantalha dos embustes como redentor e redimido sofista em
causa e interesse exclusivamente próprios (dos quais o PS, a prazo seguro aliás,
e dessa táctica desforra extemporânea, será a primeira vítima entontecida e
penalizada…);
- ou naquele PSD (o do saudoso Sá
Carneiro!?) que, adiado, arrasta um tosco Coelho governamentado pelas orelhas,
com um paradigmático Relvas já em descabelada cauda, porém também ele (para não
atirar pedras aos ecrãs do vizinho!) com idêntica trupe circense de falaciosos
comentadores mediatizados…;
- ou,
enfim, num híbrido CDS-PP (a desbaratar os trunfos que a outros tanto custou a credibilizar)
…
– Não! No que estou também a
pensar é nos não-lugares (ou não
desempenhos competentes…) que putativos candidatos e falhados executivos ocupam
já hoje nas nossas periclitantes empresazinhas e servicinhos autonómicos (quais
espécimes criados segundo um perfeito Princípio
de Peter!); e assim por diante…
O resto, tudo o resto, faz parte
natural e efectivamente remanescente dos tais (não) lugares – quais espaços análogos aos denunciados naquelas
alegóricas cavernas que a verdadeira Filosofia Política e a sua coerente e
decorrente Prática para o Bem Comum (e não apenas as retóricas e narrativas tácticas
da tal dita “Teoria” ou “Ciência Política” que um conhecido propagandista
trouxe em parisiense porta-bagagens…) sempre sinalizaram às mais legítimas e
nobres precauções democráticas historicamente alternativas … –, para onde
o Povo, qualquer dia, há-de remeter à força tantos dos nossos carreiristas
políticos agrilhoados às suas alienantes análises, néscias dívidas,
malfeitorias e aberrantes e viciosas heranças, tão injusta e impunemente
deixadas à dignidade da vida, à honra e à soberania perdidas desta e
das futuras gerações do pobre País
que tais empalhados caudilhos, políticos e comentadores alberga e sustenta!
05.04.2013
________________
Publicado em RTP-Açores:
http://www.rtp.pt/acores/index.php?article=31674&visual=9&layout=17&tm=41;
Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2344&tipo=col,
Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2344&tipo=col,
e Jornal "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 07.04.2013).
Outra versão: Jornal "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 06.04.2013).
sexta-feira, março 29, 2013
Da Narrativa dos Embustes
aos Embustes da Narrativa
Num famoso estudo sobre as
estruturas, formas, estilos, idiolectos, dinâmicas expressivas e significados
dos actos de fala individuais e linguagens comunitárias do quotidiano – tal
como vividos, estratificados e transformados por falantes da cidade de Nova
York (cf. Le parler ordinaire: La langue
dans les ghettos noirs des Etats-Unis) –, o conhecido sociolinguista
William Labov definiu narrativa como
um processo ou método de recapitulação
representativa, ou recontagem
evocativa de experiências passadas, consistindo em fazer (ou procurar fazer…)
corresponder a uma série de eventos
ou factos (supostamente reais) uma
sequência de proposições ou afirmações verbais sobre os mesmos…
– E idêntica definição de narrativa, em termos mais sintéticos, também é dada no
Dicionário da Academia das Ciências de
Lisboa como sendo a “acção de contar, de relatar oralmente ou por escrito
um ou mais acontecimentos”, tal como num texto
“em que se conta um facto ou uma sucessão de factos reais ou imaginários que
decorrem num espaço e tempo determinados e em que intervêm personagens”.
Ora, como é sabido, este termo
“narrativa” e o respectivo conceito – tal como os seus próximos “discurso”, “história”,
“estória”, “relato” e “conto”, ou apenas fala
ou conversa (às vezes fiada, confiada,
de treta ou xaxa…) – circulam hoje nos mais variados vocabulários e domínios
académicos, científicos, sociais, humanos e comunicacionais, tendo até – veja-se
agora… –, acabado de ganhar um inusitado e desinibido, conquanto quase
repetitivamente compulsivo uso, no discreteador arrazoado televisivo do nosso novel
mestre engenheiro, ex-PM do PS e fresquinho
e engatilhado “comentador” da TV tutelada por essa outra e gémea fina cabeça da
vigente governança de Portugal, que dá pelo viçoso nome de Miguel Cassola
Relvas!
– Claro que esse tal de Pinto de Sousa tinha (e tem!) o direito de falar e defender-se aonde e como bem entender, ou generosa, democrática e piedosamente lhe consentirem em palco (ou cadafalso…) adequados para tal contra-narrativa, mesmo que apenas pro bono remoendo (ou tentando retoricamente desconstruir...) os ossos (com tutanos envenenados?) que lhe atirarem à mesa, à banca ou à cara, sabe-se lá com que reais intenções próprias ou coniventes e estratégicas parcerias, a talho de foice ou retalho de setas…
Porém, caberá aos cidadãos dignos,
atentos e vacinados continuar a tentar distinguir a mais afoita e ressabiada
narrativa dos ditos embustes, de todo o mais denunciado e ainda impune embuste
daquelas narrativas…
– E certamente não deixarão de o fazer a seu devido tempo e por maioria de razão patriótica e cívica, para além da teia de injusta servidão, enganos e traficâncias sistemáticas em que o nosso País desde há muito se deixou cair, por mão de falsários de carreira, menoridades recorrentes, mediocridades político-partidárias e a mais vil, acobardada e explorada alienação das vontades e das consciências pessoais e colectivas de que há memória recente na nossa infeliz e decadente Pátria!
28.03.2013
Os Sinais da Escrita:
Azores Digital:
RTP-Açores:
Jornal “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 31.03.2013),
e Jornal “Diário Insular” (Angra do Heroísmo,
02.04.2013).
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