sábado, junho 14, 2014



As Agnosias Diocesanas

1. Conforme pude escrever há uma semana, na altura em que comecei a perspectivar este texto aguardava-se ainda o regresso a S. Miguel do Bispo D. António, sendo que o Prelado açoriano iria então reunir, como de facto o fez, com entidades mais directamente ligadas ao Santuário da Esperança, no expectável (mas todavia depois gorado!) sentido de procurar-se um consenso pacífico que pudesse, com uma desejável e prudente revogação da primeira decisão diocesana, impedir que o tão contestado projecto da retirada e “empréstimo” temporário do Resplendor da Imagem do Senhor Santo Cristo fosse por diante, desse modo evitando-se a deslocação do mesmo para uma controvertida Exposição em Lisboa. Porém, quando ia ultimando esta Crónica, soube-se que o Resplendor, sintomaticamente tinha já seguido de avião (http://www.diocesedeangra.pt/noticia_2166), bastante à socapa,  encontrando-se depositado no Museu de Arte Antiga, até vir a ser “estudado”, técnico-cientificamente dissecado e “exposto” numa mostra cuja data não está definida...



 – Não resta pois dúvida que tudo se consumou (por certo com intermediários governamentais regionais nunca assumidos...) com esse grande testemunho de expedita capacidade para híbridas acções: ademanes de arte fosca e tosca, artimanhas palacianas e volteios de saia eclesiástica, com inspiração sacro-securitária e sabedoria ratoneira; brilhante pérola de zelo artístico-pastoral, compreensão sociocultural e museológica da fé, sem quaisquer rebuços, tibiezas devocionais ou cedências às vozes do “retrógrado”, “anacrónico” “fundamentalista” e “fanático” Povo de Deus crente, carne para toda a obra mas adorador de “imagens de pau” (na recente e ácida oratória pseudo-esclarecida de alguns neo-conversos à nossa insular tardo-modernidade castrense, – pobres e cegos néscios na atrevida ignorância das mediações sociológicas do Sagrado e das antropologias fenomenológicas da Teologia e da Fé do Cristianismo!




E digo isto porque quem sabe se no mais humilde devoto (“retrógrado”, “primitivo” e “simplório”, não é?) não estará afinal mais autenticidade e mais esperança do que em muita corja clerical-mundana, anómala e hipocritamente apenas clericalizada para o que lhe dá jeito e sustento!? E depois, entre os olhares e os gestos dos peregrinos açorianos, os dos turistas “en bavardage” (curiosos mais ou menos basbaques, fúteis voyeurs) e os supostos “especialistas” em arte “sacra”, “liturgia” e quejandos, certamente o que a Igreja deveria era optar sempre pelos primeiros, respeitando-os com sentido evangélico, paciência histórica e memorial sentido profundo da Tradição e da piedade das gerações anteriores, porquanto foi com elas e com aqueles que rezou e viu e sentiu a vida nas horas amargas da aflição e dos pedidos de perdão, com mútuo arrependimento fundo! 

– Sim, porque esses, ao menos esses, talvez pequeninos (e tão explorados e espoliados de tudo, como historicamente sempre foram!) não são peças artístico-museológicas facilmente descartáveis, profanáveis e tornadas insignificantes, a não ser, numa sociedade pagã ou sistemicamente descristianizada, por uma instituição degradada e degenerada que, como escrevia D. Albino Cleto, servisse já somente para “promotora de museus”, conservando ainda “o património que herdou” mas para “encerrá-lo num museu”, naquilo que seria tanto “um crime contra a sociedade” (se o deixasse destruir) quanto “um pecado contra a sua própria vocação” (se o encerrasse, despido, sem missão nem carisma vivos, pragmática e “culturalmente” travestidos num local de exibição museal)...


2. Indiscutivelmente, assim, estamos agora perante um insólito e espantoso marco ético-episcopal, “de valor patrimonial, cultural e histórico que importa partilhar com toda a comunidade humana” (sic), no escandaloso e distorcido arrazoado mediático desta Diocese e para perpétua memória da sua actual cartilha de evangelização regional autónoma, no entendimento prudentíssimo e consciencioso do seu iluminado e ilustrado Prelado, da sua clerezia conselheiral e dos seus doutos co-mentores... Um feito notável, sem mácula nem nódoa (para usar o doloroso termo de Santos Narciso), nem escrúpulo, nem motivo de escândalo, de facto! Historicamente, portanto, um exemplo edificante para a Igreja que está nos Açores, no País e no Mundo...

– Por outro lado, não deixa de ser originalidade beatífica, neste cenáculo litigioso e de um cinismo atroz, propagandear-se que, no Santuário, quando constava que ia correr uma “objecção de consciência” em relação à remoção física do Resplendor da venerada Imagem (o que acentuaria simbolicamente as apregoadas divergências), vir agora uma arenga de comunicação social diocesana frisar ter contado a dita operação transitária, tutelarmente fiscalizada pelo Senhor Bispo em pessoa, com “a boa colaboração das irmãs que zelam pelo Tesouro” (sic)!


Ora neste momento, com tudo isto, ganhou este assunto contornos universais – que a mim me interessam sobremaneira e são ainda mais complexos (pelo que aqui ficam apenas sinalizados e sobre os quais certamente muito se debaterá depois com as apaixonantes questões permanentes da Arte Sacra, da Museologia Religiosa e Eclesiástica, do estatuto dos Sacramentais – e talvez até, em decorrência, dos próprios Sacramentos –, para além das pressuposições pastorais, da teologia dos objectos de culto, da teologia icónica e das imagens, e da ética da conservação e da exposição, etc., etc.) –, mas sem esquecer que tudo isso há-de ser pensado e repensado no contexto sociocultural, devocional e católico dos Açores em geral e de S. Miguel em particular, numa (una e única?) Diocese...

– Mas também, sem sombra de dúvida nem brilho de metais preciosos e incalculáveis, antes por isso mesmo, é que esta procissão diocesana, entre agnosias de bradar aos céus, talvez ainda vá no adro, até porque não consta que anéis, báculos, mitras, estatuárias de beija-pé, objectos benzidos ou alfaias bentas, custódias, cálices e píxedes, etc., etc., possam ser todos colocados no mesmo nivelado museu das religiões... Ou então, será que poderão identicamente (quem o afiançará?), a curto prazo, também vir a ficar ao lado do Resplendor, sem vínculo de devoção nem estrutura interna e integrada de representação, em indiferenciada narrativa e museologia profana, irrecuperavelmente dessacralizados numa montra-vitrine iconoclasta, perante a qual ninguém reza nem ajoelha, em piedosa devoção, crença e fé, Razão e Coração?!


3. Finalmente e para fecho deste confrangedor assunto, não podemos deixar de fazer referência aqui à iniciativa (diligentemente fundamentada, em si louvável e perfeitamente compreensível) do deputado Joaquim Machado (PSD-A) ao apresentar na ALRAA um Projecto de Decreto Legislativo Regional – subscrito pelos restantes partidos da Oposição e depois dito como eventualmente também sustentável pelo PS –, visando atribuir à Imagem e ao Tesouro do Senhor Santo Cristo a designação (e decorrente estatuto prático, evidentemente) de “Tesouro Regional”, porquanto os mesmos objectos sacro-religiosos, “propriedade da Diocese de Angra e Ilhas dos Açores”, se revestem “de valor especialmente simbólico para a Região e [tem] inequívoco valor regional”.

– Ora como se nota por este indubitavelmente bem intencionado projecto político-parlamentar, o problema da existência e do destino dos pertences do Senhor Santo Cristo (património e inalienável propriedade da Igreja nas entidades orgânicas do Convento e do Santuário da Esperança) poderá tornar-se, por via de uma sua eventual aprovação simplista, bem mais complexo do que parece, para além de poder ser uma espécie de arma de “dois gumes” que convirá temperar com apurada segurança legislativa e co-responsabilização inter-institucional, porquanto aí poderão estar implicadas matérias que envolvam vertentes jurídico-constitucionais, de Direito Canónico e da própria Concordata (verbi gratia Artigos 23 e 24), – contornos que não escaparão, por certo, às pupilas políticas e aos melhores consultores jurídicos dos deputados da ALRAA, tal como, depois, não deverão por certo escapulir-se ao minucioso escrutínio e qualificadas prerrogativas do Gabinete do Representante da República...


 E isto mesmo – para fechar este assunto –, sem falarmos de questões como as de saber qual o estatuto das futuras esmolas ou dádivas (v.g. jóias ou outros valores que venham a ser oferecidos a Santo Cristo); que implicações (técnicas, financeiras, logísticas, estruturais e físicas...) tal classificação trará aos moldes estruturais de arrumo, guarda, conservação e gestão do Tesouro, e aos meios humanos necessários e habilitados para tal; que (des)obrigações advirão para a antiga e sempre acalentada construção do Museu de Arte Sacra ou Eclesiástica (o que não é a mesma coisa), ligado ao Convento e ao Santuário; que abdicação, cedência ou compartilha de administração tal estatuto poderá implicar, no que se refere nomeadamente aos papeis da Reitoria do Santuário e da Irmandade; que reservas, ou recursos de alçada patrimonial última e sua preponderante ou primacial gestão corrente (museológica, sacra, litúrgica, festiva, etc.) caberão às partes “contratantes” (consultadas já e concordantes ambas?), e doravante “sócias” ou “associadas” em múltiplos cultural business, usufrutos possíveis, proventos monetários advenientes, etc., etc; – enfim, tudo questões que terão, ainda por cima, de ser devidamente equacionadas por relação ao enquadramento legislativo considerado e ali invocado (concretamente, o disposto no nº 2 do artigo 10º do Decreto Legislativo Regional nº 29/2004/A, de 24 de Agosto, alterado e republicado pelo Decreto Legislativo Regional nº 43/2008/A, de 8 de Outubro), e cujos potenciais alcances e constrangimentos, positivos e negativos, a prazo incerto, não poderão ser esquecidos por ninguém com inteligência histórica e prudência jurídico-institucional (quando não com mitra e anel episcopais...) na cabeça e no coração da nossa Diocese e dos nossos Açores!
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 14.06.2014):


TESOUROS E OBRIGAÇÕES

O deputado Joaquim Machado apresentou um Projecto de Decreto Legislativo visando atribuir a designação de “Tesouro Regional” à Imagem e Tesouro do Senhor Santo Cristo, sendo que tais objectos, “propriedade da Diocese”, se revestem “de valor especialmente simbólico” e “inequívoco valor regional”.

Ora como ressalta desta bem intencionada iniciativa, o problema da existência e destino desse inalienável património da Igreja poderá tornar-se mais complexo por via da eventual aprovação simplista daquele decreto, que assim – arma de “dois gumes”... – convirá temperar com segurança legislativa e co-responsabilização inter-institucional, por quanto ali constará de matéria jurídico-constitucional, de Direito Canónico e da Concordata (vide arts. 23 e 24), que não fugirá por certo aos consultores da ALRAA, tal como não escapará ao minucioso escrutínio e qualificadas prerrogativas do Representante da República.


 E isto sem falarmos de questões como:

– Que estatuto para as futuras esmolas ou dádivas; implicações que tal classificação trará aos moldes estruturais de arrumo, guarda, conservação e exposição do Tesouro, e aos meios humanos necessários e habilitados para tal; que (des)obrigações para o acalentado Museu de Arte Sacra ligado ao Convento/Santuário; que abdicação, cedência ou compartilha de administração tal categoria originaria na Reitoria do Santuário e na Irmandade; que reservas ou recursos de alçada patrimonial última e sua primacial gestão corrente (artístico-museológica, sacra, litúrgica e festiva) caberiam aos “contratantes” (futuros “sócios” ou “associados” em cultural business, usufrutos possíveis, proventos advenientes), etc.!?

Enfim, temas que terão de ser devidamente equacionados face ao enquadramento legislativo invocado (nº 2 do artigo 10º do DLR nº 29/2004/A, de 24 de Agosto, alterado e republicado pelo DLR nº 43/2008/A, de 8 de Outubro), e cujos potenciais alcances e constrangimentos não devem ser esquecidos por ninguém com inteligência histórica e prudência institucional (quando não com mitra e anel...) na cabeça e no coração dos Açores e da nossa Diocese!
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Em RTP-Açores.














Azores Digital:






















e “Diário Insular” (Angra do Heroísmo (14.06.2014):


sábado, junho 07, 2014

A Dessacralização dos Símbolos
e o Resplendor da Imagem Sacra

1. Com crescente impacto socio-religioso, pastoral, eclesial e mediático – muito embora nem sempre abordado do mais exigível, sério, fundamentado e aprofundado modo (quando não até degenerando para terrenos que extravasam a mais essencial e legítima tematização competente) –, o caso da controversa subtracção temporária do Resplendor do Senhor Santo Cristo ao conjunto das peças constituintes da integridade iconicamente sacralizada da Imagem e do respectivo Tesouro, para declarados fins de exposição artístico-museológica em Lisboa), bem que deveria merecer reflexão urgente e comprovadamente necessária na Igreja e em toda a sociedade açoriana...



 – E se dúvidas houvesse sobre as melindrosas e evidentes complexidades (teológico-pastorais, filosóficas, histórico-sociológicas, simbólicas e antropológico-culturais) deste escusado imbróglio; das conflituais reacções que tem provocado; das díspares leituras (nalguns casos despudoradas, levianas ou irresponsáveis) que suscitou, e das significativas lacunas – outrossim desejavelmente integradas, multidisciplinares e sistemáticas – de abordagem e de compreensão verificáveis nesse campo (mas que não foram ainda devidamente accionadas por quem teria esse indeclinável dever de múnus e/ou a correlativa responsabilidade de estudo, saber e conhecimento) –, logo bastaria, para avaliação integral e conscienciosa de tudo isto, auscultar as Redes Sociais, folhear a Imprensa terceirense e micaelense (com destaque para os pertinentes textos de Santos Narciso e Manuel Moniz), ou ter visto e ouvido a Rádio e a Televisão regionais, onde, por entre noticiários pontualmente atentos, entrevistas e reportagens, tiveram lugar alguns elucidativos debates (com realce para os depoimentos comoventes de Carlos Faria e Maia, e para as formulações sociológicas objectivas de Álvaro Borralho, ambas aliás em precisões e registos complementares e só aparentemente opostos...).

Ora – para além do mais que aqui não pode ser teórico-criticamente desenvolvido sobre espaços, tempos e retóricas de Museologia aplicada e de Arte Sacra e Profana –, que dizer de quanto este assunto merece ser levado a sério por tudo o que sintomaticamente revela, ou dissimula, da vida colectiva, dos imaginários espirituais (religiosos e profanos) e da hodierna configuração de valores, pensamentos e atitudes que estruturam mentalidades, práticas e discursos do povo açoriano, das suas supostas (porém decadentemente abúlicas ou medíocres) “elites”, classes e corporações, agentes e actores societários?


2. Conforme sublinhei anteriormente, de entre as várias formas expressivas da religiosidade e da fé religiosa católica nos Açores, o Culto ao Senhor Santo Cristo ocupa lugar único e absolutamente distinto, sendo mesmo que – das diversas devoções que nestas ilhas foram ganhando e perpetuando vigências espirituais, históricas, socioculturais e festivas (populares, eclesialmente integradas ou parcialmente autónomas face à hierarquia institucional da Igreja e ao Poder secular) – as venerações de cariz crístico ou representação cristológica (direccionadas à figura e à figuração iconográfica, pictórica ou escultórica de Jesus Cristo, estão presentes e são praticadas quase em todos os nossos lugares e contextos existenciais insulares e telúricos de crença, inconsciente e memória colectiva, reflectindo também conaturalmente as marcas das sucessivas e hegemónicas modelações tardo-medievais, contra-reformistas e barrocas da Evangelização no Arquipélago (especialmente por via dos Franciscanos e dos Jesuítas, com tudo o que histórico-dogmaticamente os seus carismas, variantes de espiritualidade, doutrina, formatos de prece e corporizações rituais, cultos e liturgia, determinações canónicas, etc., implicaram, a par, não negligenciável, de regimes de imposição dogmático-pastoral e de padronização normativa).


 – E foi deste modo que a proliferação cultual e votiva, reflectida sob arquetípica forma revelacional no Ecce Homo – ou seja, na feição dolorosa, passionária e sofredora de um ícone universal representativo do Homem das Dores – conseguiu, como nenhuma outra devoção portuguesa e açoriana – exceptuando as Festas do Espírito Santo! – grandes, profundas e significativas dimensões, polarizando e acumulando depois no Senhor Santo Cristo, devido à superiormente sustentada e específica acção pessoal, e à posteridade venerante de Madre Teresa da Anunciada, tudo quanto nele permanece perfeitamente identificável e ritualizado de modo ímpar e apelativo, tanto no recesso conventual do Santuário da Esperança como nas tradicionais manifestações festivas públicas, religiosas e profanas, nos Açores e nas Comunidades Açorianas, mas grandiosa e especialmente na ilha de S. Miguel, em sua cíclica honorificação.


3. Na altura em que escrevo esta Crónica, aguarda-se o regresso a S. Miguel do Bispo D. António, que deverá reunir com as entidades mais directamente ligadas ao Santuário da Esperança, no sentido de procurar-se um possível consenso pacífico que possa, com a desejável e prudente revogação da primeira decisão diocesana, impedir que o Resplendor da Imagem seja deslocado para a referida mostra (alegadamente com medidas de segurança asseguradas, conquanto constituindo estas apenas uma das muitas e justificadas razões a ter em conta numa proporcionalmente descontextualizada situação como a da planeada exposição e sua arbitrária narrativa e implantação artístico-museológica profana!).


 – Por outro lado, não deixa de ser originalidade, neste quadro litigioso, saber-se que, no Santuário, se prepara entretanto uma espécie de “objecção de consciência” em relação ao próprio gesto prático-laboral de remoção física do Resplendor da Imagem, o que acentuará simbolicamente as divergências existentes... Seja porém como for que este assunto chegue a uma próxima, já tardia e responsável decisão pastoral, socio-religiosa, canónico-jurídica e teológica, algumas considerações podem ser ainda aqui retomadas, em jeito de reflexão final e síntese do muito que sobre isto se tem dito, sem escamotear o que ainda faltará sublinhar...

4. Só uma corajosa e bem formada inteligência da fé e uma proporcional consciência real destas realidades podiam fornecer a todos, sem rodeios e falácias de argumentário indigente e servil, a devida percepção da estrutura global dos sistemas de signos e objectos, das suas lógicas e mais-valias, de uma ética da mostração diferencial nas suas múltiplas categorias de significação, e da dialéctica das apropriações e legitimações que neste campo de bens materiais e simbólicos, móveis e imóveis, sempre se articulam e amiúde digladiam!

– E é assim que vale pena recapitular já, incisiva e frontalmente, que a Imagem do Senhor Santo Cristo e os seus pertences patrimoniais identitários e sacralmente funcionais (v.g. o Resplendor) constituem um todo objectual unitário, que a Igreja, analogamente a outras instituições, para já nem falar no senso comum dos fiéis, tem “obrigação de respeitar”, com “zelo”, segundo as directrizes estipuladas pela Santa Sé e pela própria Conferência Episcopal Portuguesa quando ensinam e determinam nos Princípios e Orientações relativos à tipologia e finalidade deste género de bens, que a sua manipulação tem de olhar “à intenção do doador, de modo particular quando este tiver sido a comunidade crente”, para salvaguarda do “carácter sagrado” dos objectos religiosamente queridos e piedosamente venerados, “bem como o afecto que tem pelo valor em causa a comunidade que o utiliza e é sua proprietária”, cabendo ao Bispo “ajuizar das decisões que [os] afectem particularmente (...), sobretudo quando esteja em causa o seu valor material ou artístico, a sua natureza religiosa ou o apreço que a comunidade tem por ele”, respeitando-se ainda, para “usos em fins secundários, como exposições, (...) a maior sacralidade de alguns [desses objectos de culto ou sagrados], nomeadamente (...) imagens de grande devoção”, como é o caso do Senhor Santo Cristo, evidentemente!


Ora a este respeito creio que nada mais será preciso acrescentar hoje, embora deva relembrar, entre outros episódios historicamente tristes e didácticos, aquele que se passou nos Açores com as Irmandades do Espírito Santo (na década de 50 do século passado), salvaguardadas as diferenças que a todos deveriam fazer pensar nas semelhanças, para obviar mimeses e sequelas análogas nestas presumidas “modernidades” eclesiásticas e “dadas às artes” (e a algumas artimanhas), impantes e laicistas nos seus cosmopolitismos turisteiros (ou apenas voyeuristas) – quando não encarreirados nas academias e nas administrações públicas e estatais –, para dessacralização gratuita e primária de certos símbolos (ditos “retrógrados” ou “arcaicos”), porém apenas para (re)investimentos duvidosos, fúteis ou sinistramente iconoclastas noutros signos, mitologias e processos mais ou menos (in)conscientes e inconsistentes de substituição ou transferência “progressista”, “esclarecida” ou até – imagine-se – insensata e confusamente ditos sociopolítica, estética e secularmente “libertadores”!

* Fotos de José António Rodrigues/Latras Lavadas/Publiçor (2013).
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Em Azores Digital:






















e Jornal "Diário dos Açores"
(Ponta Delgada, 07.06.2014):
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Outra Versão do Texto:
Dessacralização de Símbolos

Nem sempre abordado do mais exigível, fundamentado e aprofundado modo (quando não até degenerando para terrenos que extravasam essencial e legítima tematização) –, a conflitual subtracção temporária do Resplendor do Senhor Santo Cristo ao conjunto constituinte da integridade iconicamente sacralizada da sua Imagem, para fins de exposição artístico-museológica, bem que merece reflexão urgente e necessária na Igreja e em toda a sociedade açoriana...

Ora para além do mais que aqui não pode ser teórico-criticamente desenvolvido sobre espaços, tempos e retóricas de Museologia aplicada e de Arte Sacra e Profana, que mais dizer de um assunto que deve ser levado a sério por tudo o que revela, ou dissimula, da vida colectiva, dos imaginários espirituais (religiosos e profanos) e da hodierna configuração de valores, pensamentos e atitudes que estruturam mentalidades, práticas e discursos do povo açoriano, das suas supostas (decadentemente abúlicas ou medíocres) “elites”, classes e corporações, agentes e actores societários?

– Pois vale ao menos recapitular já que aquela Imagem, com os seus pertences patrimoniais identitários e sacralmente funcionais, constitui um todo objectual unitário, que a Igreja, analogamente a outras instituições, para já nem falar no senso comum dos fiéis, tem “obrigação de respeitar”, com “zelo”, seguindo as directrizes da Santa Sé e da CEP quando ensinam e determinam, relativamente à tipologia e finalidade desse género de bens, que a sua manipulação tem de olhar “à intenção do doador, de modo particular quando este tiver sido a comunidade crente”, para reserva do seu “carácter sagrado”, religiosamente querido e piedosamente venerado, “bem como o afecto que tem pelo valor em causa a comunidade que o utiliza e é sua proprietária”, cabendo ao Bispo “ajuizar das decisões que [o] afectem (...), sobretudo quando esteja em causa o seu valor material ou artístico, a sua natureza religiosa ou o apreço que a comunidade tem por ele”, respeitando-se enfim e só assim para “usos em fins secundários, como exposições, (...) a maior sacralidade de alguns, nomeadamente (...) imagens de grande devoção”, como é o caso, evidentemente!
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Em "Diário Insular"
(Angra do Heroísmo, 07.06.2014):


























RTP-Açores:








sábado, maio 31, 2014



OS SALTEADORES DO PAÇO

O que se viu nas últimas eleições – e de quem para elas se marimbou (80% de abstenção nos Açores – bonito sinal de cidadania autonómica, sem dúvida, e a merecer foguetório de “vitória”!) –, foi de tal dimensão que devemos retomar o que merece ser pensado, tanto mais quanto a antes citada caixa de pesadelos e maldições de Pandora está já a deixar sair vários daqueles sintomáticos fantasmas – muitos deles previsíveis... – que a velha, cega e cínica Europa, com muitas das suas regiões, vem gerando em suicidário bojo...



– Dito e redito isto (conquanto não estando em causa a invocada e real necessidade de revisão de processos, ideários e práticas dos partidos, cá e lá obviamente, mas desde há muito!), como não pasmar das neo-patéticas cenas de perfeito desvario – despeito fratricida, ambição pessoal ou atracção pelo abismo? – que o País inteiro testemunha face à fria e calculista consumação das puras jogadas de ponta e mola nas duras hostes de Costa contra as maviosidades tácticas de Seguro (às quais por certo sucederão almejadas minagens aos trilhos para Belém...), e onde nem faltaram, em indigente coro ilhéu (41 em 20% de eleitores!), tremendas vociferações e demolhadas prosas de casticismo inócuo carpindo sobre tão (mal)dita e pirrónica “vitória bisonha” – “uma alcatra sem Jamaica, um verdelho a 10 graus” (sic) –, ali à porta desta expiatória ultra-perifericidade, hoje pseudo-democrática e pseudo-autonómica ainda, cívica e culturalmente ébria de ficções e mitos enganadores, como se tudo se resumisse (na Europa, no País, nos Açores e em todos os quadrantes político-partidários) a uma pugna de garotos armados com fisgas, ou a chusma de velhacos metralhando a frio, e desleais, aos tombos e empurrões extemporâneos, qual bando de salteadores, cada um a correr para sua banda nas escadas, salas e varandas do Paço, todos à procura de um (talvez agora mais remoto!) buraco na despensa ou na sala do trono, cujos actuais e coligados reis e xerifes, em confrangedor protectorado euro-luso, podem assim gerir na recuperação da sua derrota, como se esta fosse, ou tivesse sido, uma inesperada e dadivosa vitória à outrance...
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Em "Azores Digital":


















e "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 31.05.2014):






As Equidades e os Salteadores

1. Nem que por coincidência, nas últimas horas de 23 Maio, quando se comemorava o 91.º aniversário de Eduardo Lourenço, relia eu textos que integram A Europa Desencantada, tendo ao lado um “Diário Insular”, uma revista de Imprensa estrangeira e uma primeira página da colecção (esquecida?) de um quinzenário crítico que se publicava na Praia da Vitória lá pelos anos 80 do século passado... Na altura, recordo, estávamos à beira da suspensão da enfastiante campanha para as Europeias, que alegadamente era para “reflexão” política nossa, isto é, dos cidadãos que aos hábitos e actos democráticos do Voto nunca se deveriam esquivar, nem por absentistas artes de furtar deixar de em consciência fazê-lo cair na ranhura da “urna” (palavra que continua a soar-me fatídica e a retinir sentido de funérea caixa de Pandora)!
 
 


Ora tudo aquilo, que à primeira vista não suscitava nenhuma ligação temática, teve de repente o condão de completar uma espécie de arco reflexivo – expressão que também me fez empeçar nas voltas e reviravoltas do “arco da governação” e que logo me aproximou similarmente das declarações de um politicão da direita gaulesa, das terra-a-terra-minha-gente serventias de argumentação para montagem de pretensos auto-motores autonómicos (de um ex-secretário regional), por um lado, e (por outro) de dois bravos e embravecidos editoriais que, separados por 31 anos (“JP”: 25.03.1983 – “DI”: 21.05.2014), forte e feio batiam na mesma tecla de um “cerco” à Terceira!

E desse modo – por entre as filosóficas e heterodoxas reflexões do autor de O Fascismo Nunca Existiu, as xenófobas e radicais congeminações do Sarkozy (com propostas de suspensão do Acordo de Schegen!),  e as tentações hegemónicas intestinas de uma insólita e presumida (não historicamente inédita, porém falsa e falseada) equidade  (sic) na “repartição dos recursos postos à disposição pelos financiamentos comunitários”... –, nenhuma diferença  (a não ser de escala e despudor) detectei nos equivalentes propósitos das respectivas (in)coerências desenvolvimentistas e de coesão euro-açoriana, até porque desalmadamente construir o que quer que seja “por irresistível pressão das forças económicas (...), como sonâmbulos, não é projecto que entusiasme ninguém”...


2. Quanto às eleições foi o que se viu nos resultados – e em quem para elas se marimbou, como neste luso arquipélago autonómico (80% de abstenção – bonito sinal de cidadania, sem dúvida, a merecer foguetório de “vitória”!) –, de tal maneira que o tema merece ser pensado, tanto mais quanto a citada caixa de pesadelos e maldições parece estar já a deixar sair vários daqueles sintomáticos fantasmas – muitos deles previsíveis... – que a velha, cega e cínica Europa e as suas regiões de periferia e ultraperiferia societária vem gerando em suicidário bojo...

E depois, aos pequeninos e incautos redutos de certas mentes insulares, atendendo às suas bairristas afinidades e tentações – versão provinciana de nacionalismo serôdio, frentista e populista (à gaulesa.!?), que temos vistos irem-se desencabrestando aos poucos ao longo destas décadas de Autonomia (e sem que ninguém lhes segure a rédea a tempo e tino) –, como não continuar a aplicar-lhes aqueles juízos que, embora noutro contexto, o nosso relembrado aniversariante formulara em 1976:

– “Reunir-se para verificar que se não está de acordo, é reflexo salutar e democrático. Mas fazê-lo para mostrar que o projecto socialista pouco ou nada tem de comum na boca dos seus apoderados, mais ou menos gloriosos, é um exercício de masoquismo político-ideológico que frisa o suicídio. (...) Podia, contudo, esperar-se um mínimo  – entenda-se, um ‘mínimo positivo’ – de coerência ideológica e política (...) em termos que ultrapassassem o do oportunismo e a demagogia da tradição burguesa mais lamentável, vazia e sinistra”.


3. Finalmente, dito isto e redito (conquanto não estando em causa a invocada e real necessidade de revisão de processos, ideários e práticas dos partidos, cá e lá obviamente, mas desde há muito e não de agora!), como não pasmar das neo-patéticas cenas de perfeito desvario – despeito fratricida, ambição pessoal ou mirífica atracção pelo abismo? – a que o País inteiro assiste face à fria e calculista consumação de jogadas de ponta e mola nas duras hostes de Costa contra as maviosidades tácticas de Seguro (às quais sucederão almejadas minagens aos trilhos para Belém...), e aonde nem faltaram, em indigente coro ilhéu (41 em 20% de eleitores!), tremendas vociferações e demolhadas prosas de casticismo inócuo carpindo sobre tão (mal)dita e pirrónica “vitória bisonha”... – “uma alcatra sem Jamaica, um verdelho a 10 graus” (sic) –, ali à porta desta expiatória ultra-perifericidade, já hoje pseudo-democrática (e mais pseudo-autonómica ainda, cívica e culturalmente ébria de ficções e mitos enganadores!), como se tudo se resumisse (na Europa, no País, nos Açores e em todos os quadrantes político-partidários) a uma pugna de garotos armados com fisgas, ou a chusma de velhacos metralhando a frio, e desleais, aos tombos e empurrões extemporâneos, qual bando de salteadores, cada um a correr para sua banda nas escadas, salas e varandas do Paço, e todos à procura de um (talvez agora mais remoto!) buraco na despensa ou na sala do trono, cujos actuais e coligados reis e xerifes, em confrangedor protectorado euro-luso, podem assim gerir a recuperação da sua derrota como se esta fosse, ou tivesse sido, uma inesperada e dadivosa vitória à outrance...
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 31.05.2014):




quarta-feira, maio 28, 2014



MEMÓRIA E REGISTOS 
DE DEVOÇÃO


1. De entre as várias formas expressivas da religiosidade e das manifestações da fé religiosa católica dos Açorianos onde quer que vivam – no Arquipélago ou nas derramadas partidas e diásporas desse vasto mundo de residentes fora das ilhas, no continente português e europeu ou nas áreas de fixação da nossa população imigrada nas distantes terras das Américas –, o Culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres ocupa um lugar único, ímpar e absolutamente distinto.


 De facto – entre as diferentes devoções (Festas do Divino Espírito Santo, Culto Mariano, Culto Eucarístico, Culto a Santos, Oragos e Padroeiros...) que aqui e ali foram ganhando e perpetuando implantação e vigências espirituais, históricas, socioculturais e festivas (mais ou menos populares, eclesialmente integradas ou parcialmente autónomas face à Igreja e ao Poder secular...) –, as venerações de cariz crístico ou de representação cristológica, isto é, imediata ou mediatamente direccionadas à figura e à figuração iconográfica, pictórica ou escultórica de Jesus Cristo (Segunda Pessoa da Trindade), estão presentes e são praticadas um pouco por todas as ilhas e espaços de vida, imaginário e memória colectiva do Povo Açoriano.


Assim, dessa mesma recorrente presença devocional, são exemplos principais as festividades em honra ou preito piedoso ao Senhor da Pedra (em Vila Franca do Campo), ao Bom Jesus (em S. Mateus do Pico), ao Santo Cristo da Ribeirinha (no Faial), ao Santo Cristo da Fajã (em S. Jorge) e ao Santo Cristo da Misericórdia (na Praia da Vitória), este último que cedo se nos tornou familiar, tal qual Vitorino Nemésio o evocou analogamente num notável registo confessional e epistolográfico (que aliás retém núcleos simbólicos, mítico-narrativos e telúricos comuns a outros relatos, topografias sagradas e lugares iniciáticos da Tradição açoriana e das reminiscências cristãs da própria condição existencial específica do homo viator insular), deste paradigmático modo:


– “Uma das cenas da minha infância que me ficou gravada a fogo é a da procissão em memória da caída da Praia (...). Dobravam os sinos. (...) Atrás, fechando o préstito, ia o Crucificado que se diz arribado à ilha. Outras vezes, acordando cedo e estremunhado, ouvia defronte o coro que diz Senhor Deus, Misericórdia! E não se sabe se é humano ou se vem do mar às upas”.



Todavia, apesar desta proliferação cultual e votiva do Cristianismo ao seu Senhor Jesus Milagroso (Santo por excelência, o Cristo da Divindade Trina), enquanto e sob a forma revelacional reflectida no Ecce Homo, ou seja – em feição dolorosa, passionária e sofredora – como ícone universal do Homem das Dores), nenhuma outra devoção açoriana – com a excepção radical e essencial das Festas do Espírito Santo! – reúne tão grandes, profundas, complexas e significativas dimensões (religiosas, teológicas, existenciais, psicológicas, filosóficas, etnográficas, éticas e estéticas) quanto aquela que, em conjugação de sortilégios, se foi polarizando e acumulando no Senhor Santo Cristo dos Milagres que permanece hoje, talvez como nunca dantes, perfeitamente identificável e individualizadamente ritualizado de modo muito próprio, apelativo e espectacular no Convento-Santuário da Esperança em Ponta Delgada, de cuja clausura monacal sai anualmente para um concorrido percurso atapetado, qual réplica de desfile real que a todos apela e comove sob o Seu olhar simultaneamente sereno, melancólico e pacificador, pelas ruas labirínticas da cidade, em andor esplendoroso e florido...


  
2. Por outro lado e apesar do referencial tratado biográfico-apologético do Padre José Clemente (com primeira edição em 1763 e sucessivas reproduções contemporâneas); dos meritórios e conhecidos estudos sectoriais de Urbano de Mendonça Dias (1947), Hugo Moreira (com diligente e vastíssima produção especializada entre 1960 e 2000: 2000), J. Fernandes Mascarenhas (1971), Maria da Ascenção Carvalho Rogers (1978), Jacinto de Almeida (19922), Margarida Lalanda (2005), Maria Fernanda Enes (2010) e Daniel de Sá (2012), e dos Documentos Autobiográficos, Processos oficiais, Memoriais ou Recolhas testemunhais sobre Madre Teresa da Anunciada (1658-1738), – para além das prospectivas abordagens já produzidas sobre complementares facetas da matéria temática e da sincrética fenomenologia teológico-religiosa, historiográfica, sociocultural, iconográfica, narratológica e hagiográfica que são intrínsecas ao mesmo domínio, conforme também pude investigar sucintamente com o saudoso Padre Jacinto Monteiro num estudo conjunto sobre a Imagem do Senhor Santo Cristo Cristo”, trabalho depois publicado na Revista da Academia de S. Tomás de Aquino (Angra do Heroísmo, 1999), repertório que detectamos consultado e compulsado em minúcia, mas raramente citado (prática assaz feia mas rotineira em determinados sectores, e na qual muitos colegas académicos ou universitários amiúde caem quando, por preguiça ou comodidade, lhes dá sorrateiro jeito...).



Porém – vinha a dizer –, para além desses trabalhos e de todas as pesquisas, edições e reedições críticas, conquanto algumas infelizmente pouco acessíveis e outras talvez dependentes do andamento duvidoso do conexo e problemático “processo de beatificação” (em suspenso?) da nossa Venerável freira clarissa –, a verdade é que muitas dessas e outras subsidiárias investigações poderiam e mereceriam ser ainda desejavelmente retomadas e mais multidisciplinar e sistematicamente desenvolvidas por relação à possibilidade de cotejo com novas e alternativas intertextualidades ascético-místicas e outras universais categorias, quadros histórico-críticos, fontes e particularidades hermenêuticas (v.g. a partir de inerentes e confluentes raízes devocionais canónicas e de piedade ortodoxa e heterodoxa; de conflitos entre tipologias e carismas das congregações; de espirituais discursividades análogas; de medievais heranças franciscanas, contra-reformistas, tridentinas, jesuíticas e barrocas, para já nem apontar modelos pastorais, sociologias críticas da religião, da sociedade e da política, a interferência das elites, das ordens e das corporações, etc.)...


– E tudo isto seria tanto mais motivador quanto este Culto vivido teve no passado, e continua igualmente a ter no presente, uma particular modelação regional católica, penitencial e doutrinal, a par de específicos e múltiplos percursos e configurações de apropriação societária (nos Açores em geral, em S. Miguel em particular e nas comunidades da Diáspora,), que assim e por isso – quer como experiência prática, identitária e colectivamente mobilizadora, quer como repositório pessoal, subjectivo e íntimo de vivências subjectivamente transformadoras ou metamórficas valeria sempre a pena continuar a acompanhar, (re)pensando-o, estudando-o mais e melhor no concreto contexto da sua génese e da sua imaginável evolução, segundo os seus múltiplos legados pretéritos e segundo os actuais sinais dos tempos do Mundo, da Igreja e do Espírito...



3. Para além da primordial e preponderante dimensão religiosa que o Culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres comporta em S. Miguel (e é precisamente aqui, com prudência e percepção de legitimidades, diga-se entre parênteses, que também devia ser socio-religiosa, pastoral e teologicamente situada a exemplar polémica a decorrer por causa da subtracção provisória, para fins artístico-museológicos, do Resplendor à integridade iconicamente sacralizada da sua Imagem!), conforme está visivelmente dada em todo o aparato do cumprimento cíclico das suas ritualidades orantes e celebrações, teatros litúrgicos, parada de promessas e ostentação de votos que sistemicamente integram essa devoção –, estas festividades envolvem um sem número de outras paralelas actividades profanas (que reclamam redes logísticas, funcionais, organizacionais, técnicas, comerciais e financeiras, todas directa ou indirectamente envolvidas num enorme e indispensável circuito institucional e individual de trabalho ordenado, planeado, produtivo e criativo em manutenção e apoio ajustados, para além de promoções, marketing turístico-religioso, potenciação mediática, etc., etc.) –, factores importantes e suscitadores de apurada concertação administrativa e gestão de meios, boas vontades e empenhos públicos e privados, não só pelas naturais exigências qualitativas que todo o respectivo cenário festivo urbano exige e compromete, quanto ainda pelos especiais cuidados que uma concentração humana tão massiva e compacta sempre impõe a todos os níveis e ponderáveis estratégicos...


Finalmente e ainda a propósito evocativo desses dias de comemoração, não posso deixar de referir o modo muito belo como a dimensão memorial, visual e humana das Festas do Senhor Santo Cristo evidenciam um tempo e um espaço de Açorianidade (sempre profundamente envolvente, mesmo quando breve ou efemeramente marcado, porém ganhando sempre esplendores luminosos por sobre o peso das vidas, saudades de redenção, pedidos de cura ou perdão, dádivas do sacrifício ou medo das dores, rostos do mistério, espera da alegria ou altar das esperanças das Ilhas...), tal como tão sugestivamente os vejo espelhados no magnífico e prestigiante livro-álbum que as Edições Letras Lavadas (Publiçor, Ponta Delgada, 2013) em boa hora deram à estampa, com Textos de José Andrade e Fotos de José António Rodrigues, mostrando, “De Ponta Delgada para o Mundo”, essa realidade tão nossa e singular, em autênticos registos de devoção:


– “Dezenas de milhares de almas corporizam uma das maiores procissões do mundo católico, em cinco horas de circulação massiva pelas paróquias de S. José, S. Sebastião e S. Pedro – primeiro, o guião, as opas, as filarmónicas, os anjos, os seminaristas, o clero; depois, as religiosas, as promessas, as autoridades, as representações, os escuteiros, os bombeiros; e, entretanto, uma única Imagem. Uma Imagem única. Poderosa e cativante. Sem igual. À sua passagem ficamos sozinhos na multidão, de coração entregue ao hino (...). São festas que as palavras não conseguem descrever e que as imagens ajudam a conhecer, mas que só a fé permite compreender e viver”!
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Em "Diário dos Açores" 
(Ponta Dejgada, 29.05.2014):

















e "Diário Insular" 
(Angra do Heroísmo, 01 de Junho de 2014):