sábado, julho 12, 2014



A Ilha nos Sinais do Verbo


1. O livro tem título sugestivo (A Ilha e o Verbo), subtítulo impressivamente mediático (“Dos Vulcões da Atlântida à Galáxia Digital”) e apelativo Prefácio (D. Manuel Clemente), constando de uma grande Entrevista conduzida por Paulo Rocha (jornalista da área da Religião e secretário da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais) e feita ao Padre António Rego.

– Harmoniosa personalidade (onde “tudo dá bem com tudo, da terra ao mar, da família à sociedade, da escrita à fala”, na “consonância geral do tom [...], nas palavras que usa, [e] como as distribui com igual generosidade por pessoas e temas”), desta autobiográfica narrativa dialogada (Paulinas, 2014) – para além de um curioso acervo fotográfico (com rostos e situações familiares) e de uma selecção de textos reflexivos, poéticos e teológicos (desde o “Mar”, “Liberdade” e “Concílio Vaticano II” até às belas evocações e sentidas preces ao Espírito Santo e ao Senhor Santo Cristo) –, um simples olhar pelo seu índice temático dá bem conta da riqueza do conteúdo e da pertinência dos depoimentos concedidos!

E é assim que – desde a reiterada e assumida condição existencial do autor (“Incuravelmente um ilhéu” até às suas abordagens e percursos pela “Pastoral das Comunicações”, passando por uma notável rememoração socio-eclesial e histórico-cultural, onde os Açores em geral e a Terceira e Angra do Heroísmo em particular (a vida no Seminário, as paróquias da Sé e da Conceição, os programas no RCA (Rádio Clube de Angra), o saudoso jornal “A União”, os Cursos de Cristandade, etc., etc.) – todas as palavras e as vivências de António Rego ganham nestas páginas e naquilo tudo que elas documentam uma admirável dimensão e novas potencialidades de sentido, tanto como repositório de memórias como sinais de construção do futuro...

– De resto isso acontece, para além do seu intrínseco interesse como testemunhos de várias épocas históricas e de outros tantos conjugados acontecimentos sociais, políticos, religiosos, institucionais e comunicacionais, talvez porque o agora cónego António Rego tenha, como bem viu o actual Patriarca de Lisboa, “aquela maneira açoriana de ser português, homem do mar em qualquer praia a que chegue”, expressa “naquele jeito de comunicar sempre, usando os meios mais sofisticados do modo mais natural; por isso tem e terá sempre os auditórios que quiser ter, porque todos queremos ser tratados como pessoas entre pessoas, [...] multidão dos que o temos como amigo”, modelo de Padre e Jornalista para uma Igreja aberta à Humanidade, mas fiel ao Verbo do seu Senhor.


2. Natural de S. Miguel (Capelas) e hoje com 73 anos (nasceu a 16 de Maio de 1941), o Padre António Rego viu recentemente (7 de Maio) este seu livro apresentado em Lisboa pelo seu amigo e conterrâneo Mário Mesquita – ver Reportagem e Entrevista aqui: http://video.pt.msn.com/watch/video/antonio-rego-lanca-a-ilha-e-o-verbo/295rnnhqt –, numa coincidente, feliz e associada comemoração dos seus 50 anos de Ordenação Sacerdotal (recebida em Ponta Delgada a 21 de Junho e cuja primeira cerimónia comemorativa decorreu já no passado dia 15 na igreja de Nossa Senhora de Fátima em Lisboa, onde costuma celebrar missa, mas que será agora assinalada também na sua terra natal, numa festa marcando igualmente os mesmos anos de vida consagrada de sua irmã Alda Rego, freira dominicana).

– Por ocasião da presente efeméride sacerdotal do Padre António Rego e a propósito do lançamento de A Ilha e o Verbo (que agora, em boa ocasião, também ocorre em S. Miguel), muitas tem sido as referências à sua vida, actividades e múltiplas funções e responsabilidades que deteve, nomeadamente como coordenador e realizador de programas religiosos na TVI, director do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais, professor de Comunicação Televisiva na Universidade Católica Portuguesa e consultor do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais.

Entretanto, num depoimento prestado há poucas semanas ao “Voz da Verdade” – ler o respectivo texto na íntegra aqui: http://www.vozdaverdade.org/mobile/link1.php?id=4049 –, o Padre Rego salientou novamente a forte ligação às suas raízes açorianas, contando assim:

– “Todos nós temos a nossa infância ligada à terra, à família, à educação, à escola, à brincadeira. Eu não sou extraordinário em nada, mas sinto que respirei de uma forma um pouco original a vida nascendo nos Açores, numa família com oito irmãos, próximo do mar, com a escola paroquial defronte da minha casa, a igreja 15 metros acima, um jardim admirável onde fazia as minhas brincadeiras com a bicicleta. Tudo isto vulgaridades… mas, esse todo, quer familiar, quer religioso, tocou muito a minha vida”. De resto, a infância, segundo reafirmou àquele jornal, fez o pequeno António, o “Antonino” como era carinhosamente tratado entre nós, sonhar com o mundo:

“Tudo isto – a terra, a família, a escola – se passou com uma grande naturalidade, mas com uma sensibilidade muito açoriana, que nos dá outra forma de olhar, de sentir, de comunicar – por vezes imperceptivelmente, como é a pronúncia local! –, e que me fez sonhar com outros universos”. E mais confessou que não viu no facto de ser insular “um obstáculo, mas uma oportunidade” (...). “Ao contrário do que algumas pessoas me diziam, e até ainda dizem, o mar não era um muro, o mar era uma grande porta aberta, à ‘nossa altura’; assim plano, não era como as montanhas. O convívio com o mar foi muito bom”!

3. Inseparáveis neste açoriano – a quem a Diocese de Angra, infelizmente, ao longo destes anos todos, muito pouco, quase nada, soube colher e potenciar dos seus firmados talentos, préstimos e comprovadas qualidades...–  as harmonizadas condições e a profunda vocação de Sacerdote e de homem da Comunicação Social –, António Rego nunca deixou de manter uma forte ligação entre o Jornalismo e a acção pastoral da Palavra e do Espírito em todos os recantos da Terra e nas mais diversas comunidades nacionais e mundiais por onde passou, ou às quais se foi sucessivamente ligando, tal como acaba de testemunhar a um portal diocesano de Leiria-Fátima, com cujas palavras concluímos por hoje, dando-lhe o devido, reconhecido e merecido lugar, em discurso propriamente directo e pessoal:


– “Desde o ano em que me ordenei, e sem o haver pensado antes, fui enviado a trabalhar na rádio, numa rádio pequena, no jornal diocesano como chefe de redacção, em seguida na televisão e no cinema como crítico do Secretariado do Cinema e da Rádio. Quase de início, fui compreendendo, não que tinha segunda missão como jornalista, mas como padre implicado na missão das comunicações sociais. E vi entrelaçadas as duas actividades numa só, a que chamaria pastoral. Sempre estive ligado a uma paróquia e a uma comunidade sacerdotal. O Concílio tinha sido uma grande luz no caminho da Igreja e no meu caminho. E senti com naturalidade que era um padre, com carteira de jornalista, que desempenhava com naturalidade a missão para que fora enviado e que estaria na continuidade de alguns trabalhos feitos ainda no tempo de formação.

“ (...) Claro que dou muitas graças a Deus pelo que os meus olhos  viram e as câmaras e microfones captaram. Foram  experiências riquíssimas que trouxe para os media, depois de toda a operação de ser tocado pelas comunidades onde passei e revê-las exaustivamente nos programas gravados, editados, comentados e transmitidos. As coisas não me aconteceram uma vez apenas em cada recanto, mas entravam-me na alma. Entranhava, mesmo que no início estranhasse. Passei por Monte Athos, Mosteiros contemplativos, comunidades vivíssimas na África, Ásia e Brasil. Mas guardo no  coração a passagem pelas comunidades de todo o nosso país que, duma forma mais simples ou elaborada, vivem e celebram intensamente os valores das primeiras comunidades. Este é o meu jornalismo, de procura intensa de sinais de Deus para colocar sobre os telhados”...

– “ (...) Sei o muito que se fez e os desafios que temos pela frente. Creio que só continuaremos no caminho da fidelidade à missão, se estivermos atentos aos sinais que se vão abrindo e dispondo-nos de coração aberto à surpresa. Estamos em mudança de época, com novas propostas, valores e meios. Precisamos de perder o medo, pois o nosso Deus, condutor da história, continuará a revelar-nos o que já disse ao mundo pelo seu Filho e pela Igreja”.
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 12.07.2014):






Um Harakiri Universitário


A propósito da precária situação da Universidade dos Açores (UAç) na ilha Terceira, João Maria Mendes publicou na sua página pessoal do Facebook um vigoroso e pertinente testemunho cujo conteúdo, no essencial, foi depois reforçado em Entrevista concedida ao DI (Cf. Anexo 1) na passada sexta-feira (dia 11).

– Todavia, logo naquele primeiro depoimento lia-se o seguinte:

“É lamentável o que estão a fazer ao Pólo de Angra do Heroísmo da Universidade dita dos Açores. Será que a destruição do Curso de Gestão que funciona em Angra tem mesmo de acabar?

“Ou serão os mesquinhos interesses corporativos de certos luso-micaelenses que apenas têm como objectivo ganhar a vidinha aqui por estas ilhas e satisfazer um bairrismo serôdio de tudo concentrar e provocar o vazio à sua volta?

“Só há uma solução para este ataque feroz (...), que passa pela fundação de uma Universidade totalmente independente aqui na Terceira.  

“As ilhas Canárias têm duas Universidades. Porque não replicar a iniciativa aqui nos Açores?

“É claro que surgirá a velha, decrépita e sempre decantada ‘unidade açoriana’ dos ‘Velhos do Restelo’ que por aí ainda subsistem para negar este direito que a ilha Terceira tem de usufruir de uma verdadeira Universidade e não de um apêndice raquítico gerido com as migalhas que sobram do banquete...

“Já chega de atropelos, menosprezo e achincalhamento por um Reitor que foi eleito por uma ‘unha negra’ e, quem sabe, sob a alta protecção da dama dos três pontinhos.

“Libertemo-nos deste jugo pesadíssimo de uma Reitoria centralista, que tudo destrói à sua volta”.


– O assunto merece atenção crítica e deveria motivar acrescidas reflexões, tanto mais quanto outros (v.g. Álamo Meneses e Alfredo Borba) também defendem uma similar (?) “autonomização” (sic) da UAç, apesar da complexidade de tal projecto e das diferentes, díspares ou até contraditórias linhas e interesses que aí se cruzam hoje (como se cruzaram sempre, desde os tempos de Machado Pires, Vasco Garcia e Avelino Meneses até às últimas erupções na academia), embora tão magnífica sequência reitoral possa não corresponder exactamente ao declínio do lema original da casa (sicut aurora scientia lucet), de permeio com secessões, sucessões e remodelações vespertinas ou apenas proteladoras de um haraquiri político-académico prenunciado desde há muito tempo...
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  Anexo 1:

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Em "Azores Digital":























RTP-Açores:



























"Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 12.07.2014):




























e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 13.07.2014):














sábado, julho 05, 2014



A Fidelidade do Verbo



O livro tem título sugestivo (A Ilha e o Verbo); subtítulo impressivamente mediático (“Dos Vulcões da Atlântida à Galáxia Digital”); apelativo Prefácio (D. Manuel Clemente), constando de uma grande Entrevista feita ao Padre António Rego e conduzida por Paulo Rocha (jornalista da área da Religião e secretário da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais).

– Harmoniosa personalidade (onde “tudo dá bem com tudo, da terra ao mar, da família à sociedade, da escrita à fala”, na “consonância geral do tom [...], nas palavras que usa, [e] como as distribui com igual generosidade por pessoas e temas”), desta autobiográfica narrativa dialogada (Paulinas, 2014) – para além de um curioso acervo fotográfico (com rostos e situações familiares) e de uma selecção de textos reflexivos, poéticos e teológicos (desde o “Mar”, “Liberdade” e “Concílio Vaticano II” até às belas evocações e sentidas preces ao Espírito Santo e ao Senhor Santo Cristo) –, um simples olhar pelo seu índice temático dá bem conta da riqueza do conteúdo e da pertinência dos depoimentos concedidos!


E é assim que – desde a reiterada e assumida condição existencial do autor (“Incuravelmente um ilhéu” até às suas abordagens e percursos pela “Pastoral das Comunicações”, passando por uma notável rememoração socio-eclesial e histórico-cultural, onde os Açores em geral e a Terceira e Angra do Heroísmo em particular (a vida no Seminário, as paróquias da Sé e da Conceição, os programas no RCA (Rádio Clube de Angra), o saudoso jornal “A União”, os Cursos de Cristandade, etc., etc.) – todas as palavras e as vivências de António Rego ganham nestas páginas e naquilo tudo que elas documentam uma admirável dimensão e novas potencialidades de sentido, tanto como repositório de memórias como sinais de construção do futuro...

– De resto isso acontece, para além do seu intrínseco interesse como testemunhos de várias épocas históricas e de outros tantos conjugados acontecimentos sociais, políticos, religiosos, institucionais e comunicacionais, talvez porque o agora cónego António Rego tenha, como bem viu o actual Patriarca de Lisboa, “aquela maneira açoriana de ser português, homem do mar em qualquer praia a que chegue”, expressa “naquele jeito de comunicar sempre, usando os meios mais sofisticados do modo mais natural; por isso tem e terá sempre os auditórios que quiser ter, porque todos queremos ser tratados como pessoas entre pessoas, [...] multidão dos que o temos como amigo”, modelo de Padre e Jornalista para uma Igreja aberta à Humanidade, mas fiel ao Verbo do seu Senhor.
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Em RTP-Açores:



























"Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 05.07.2014):


























e Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=2676



sábado, junho 28, 2014



Os Modelos da Festa 

De entre os valiosos estudos de Etnografia que Luís Ribeiro (1882-1955) nos deixou, contam-se alguns textos sobre as festas e tradições populares do São João na Terceira, sendo ali traçada a compósita linhagem mítica, histórico-cultural, simbólica, profana, religiosa e festiva da sua provável e distante origem pagã (ligada a ritos de fecundidade solsticiais) e da suas sincréticas modalidades ao longo dos tempos. Porém, num desses textos, de 1947, onde se dizia que “as festas joaninas cada vez mais esquecidas” estavam “em risco de desaparecerem”, o nosso etnógrafo distinguiu logo “as festas populares das da nobreza de Angra”...


– Quanto às primeiras eram as mesmas caracterizadas pela realização de fogueiras, luminárias e queimas de fogo propiciatórias, muito embora também lhes estivessem associadas outras práticas e cerimoniais com água, plantas e flores, ritos medicinais ou de esconjuro, sortes casamenteiras e coscinomâncias.

 Porém, no que se refere às segundas, já o programa era distinto, e assim, “à semelhança da corte, os nobres terceirenses organizavam bandos, cavalhadas, encamisadas, touradas, iluminações e festas religiosas” (na ermida, edificada no século XVI, no canto da Rua de São João para a da Sé) que eram acompanhadas pela “nobreza a cavalo” e, por determinação do Bispo D. Jerónimo, em 1611, também pelo “cabido da Sé”!


De resto, veja-se lá, as festas de São João, sempre estiveram tão radicadas no espírito dos terceirenses que estes as não dispensaram nunca, nem sequer em 1641 durante o cerco ao Castelo (com festejos nas trincheiras, redutos e fossos, tiros de mosquete e peças de bala); e tudo sempre em louvor do nome do Santo e dos seus nominais herdeiros, à cabeça dos quais, naquelas eras de vera Restauração, estava o monarca D. João IV, que até no dito nome “o fez Deus grande”, segundo testemunho de um clérigo seu contemporâneo...

– Ora se tudo isto nos pode levar longe no tempo, também não deixa de nos devolver ao presente, onde estamos em quase idênticos festejos, conquanto ainda à procura de modelos alternativos, mas “cercados” agora nós e armados apenas... de pólvora seca!
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo", 28.06.2014),

Azores Digital:
























e RTP-Açores:


sexta-feira, junho 27, 2014


O Resplendor do Santuário
e Os Esplendores da Corte



1. Quando parecia relativamente pacificado – ou em diocesanas e irmanadas vias de silenciamento... –, o imbróglio à volta do Resplendor de Santo Cristo ganhou nos últimos dias novos desenvolvimentos com notícias sobre desaparecimentos e/ou trocas de jóias na peça; com contradições entre os calendários oficialmente anunciados para a sua famosa exposição em Lisboa; com o teor das entrevistas de D. António ao “AO” e à RDP-A (onde o essencial das questões e tudo o que se lhe vai seguir continua a ser escamoteado, ou minorado, infelizmente, sem perceptível discernimento); com a articulada multiplicação de azedumes nos OCS e nas redes sociais (onde um clérigo rústico, sem trela na língua mas com afino na aparada orelha, até julgou captar “uivos” nas vozes dos opositores à saída do Resplendor, comprovando, conquanto ignorante disso, quidquid recipitur ad modum recipientis recipitur ...); e – por último – agora com a divulgação de três textos a propósito deste tema, cada um a seu modo exemplar, chegamos a uma penúltima fase desta questão, talvez até a caminho de algum esquecimento, por entre paradigmáticos e supinos (des)interesses regionais e nacionais (antes futebol, toiros, festivais de estação calmosa, acampadas noites a toque de frasquinhos aromáticos e douradas fresquinhas, deleites e remansos turísticos...), porém com reincidências modelares já prometidas para o resto do Verão que vem tardio e em concorrência de autárquicos brios, para já nem contar do que ainda falta ver neste ano e para o próximo...



2. Em todo o caso, aqui deixamos uma chamada de atenção para três textos acessíveis: um de Sandra Saldanha (presidente do Secretariado Nacional dos Bens Culturais da Igreja), que subscreve e retoma conhecidos argumentos diocesanos; outro do Museu de Arte Antiga, onde, sintomaticamente, são nomeadas “cinco jóias de exceção que ilustram o esplendor artístico da corte de Lisboa”, “...seja pelo superlativo valor material e estético, seja pelo significado espiritual e cultural que o percorre [ao Resplendor] transversalmente...” (sic); e por fim um outro, da autoria de Maria Isabel Roque, que – depois de fazer um percurso sintético mas bem informado pela génese e história do Culto e Devoção ao Senhor Santo Cristo – termina o seu aguardado, rigoroso e pedagógico artigo, com lúcidas reflexões que em excerto vamos reproduzir e que substancialmente partilhamos (1).


 3. Maria Isabel Rocha Roque é doutorada em História com a tese “Musealização do Sagrado: Práticas museológicas em torno de objectos do culto católico”, tendo integrado os comissariados das exposições Encontro de Culturas (Lisboa, 1994; Vaticano, 1996), Fons Vitae (Pavilhão da Santa Sé na Expo'98) e 500 Anos das Misericórdias Portuguesas (Lisboa, 2000). Lecciona Museologia e Património na Universidade Católica, e História Geral da Arte, História da Arte em Portugal e História da Arte Contemporânea, na Universidade Europeia (antigo ISLA). Entre outros trabalhos, é autora dos livros referenciais Altar Cristão: Evolução até à Reforma Católica (2004) e O Sagrado no Museu: Musealização de Objectos do Culto Católico em Contexto Português (Lisboa: Universidade Católica Editora, 2011), obra a que faremos referência em Crónica posterior. 

Aqui fica pois uma séria abordagem socio-religiosa, pastoral, doutrinal, filosófica e teológica devidamente fundamentada, e à qual não faltou um prudente sentido da realidade:

– “Sou irrevogavelmente a favor da musealização do património religioso (...). A musealização proporciona inequívocas oportunidades de estudo, de restauro e de divulgação de obras que são, ordinariamente, vistas num determinado contexto e segundo uma perspetiva particular. Porém, tenho lido uma série de considerações erradas em relação a este assunto: não é verdade que a Custódia de Belém não se tenha dessacralizado pelo facto de estar num museu; e também não é verdade que o resplendor seja um objeto sagrado.

“Num processo de musealização, as alfaias sagradas perdem a sacralização: ‘Não obstante as características de sacralidade atribuídas pela consagração, actualmente e para evitar utilizações abusivas dos objectos desafectos ao culto, a execração (isto é, a perda da qualidade de ungido) é implícita logo que o objecto seja desapropriado ou danificado. […] Isto significa que os objectos desafectos do ritual se encontram destituídos, imediata e inequivocamente, do conteúdo sacro que lhes esteve intrínseco, o que os liberta para funções profanas, nomeadamente, as de ordem museológica’. Além disso, as imagens de culto e os objetos devocionais não são consagrados e, portanto, não beneficiam da reserva de interdição. Constituem um sinal exterior da devoção através dos quais o crente materializa a sua crença no divino.



 “O resplendor é um dos atributos do Senhor Santo Cristo e é, igualmente, um documento do sentido estético do barroco, do gosto pelo aparato no contexto do exacerbamento das paixões e das emoções inerente à própria imagem e ao ritual a que está associada. Porém, não se trata um adereço qualquer. Trata-se de um complemento inerente a uma imagem cujo culto continua ativo. Nesta contingência e à partida, a imagem fica truncada do resplendor; o resplendor, atributo da representação da divindade, também perde leitura sem a imagem que o justifica e o seu significado ficará necessariamente truncado, caso seja apresentado apenas em função do seu conteúdo material e estilístico. Cabe, por isso, ao museu – e aos curadores – criar as estratégias que compensem ambos os fenómenos de perda e, simultaneamente, esclareçam as tutelas e os devotos acerca das vantagens e das contrapartidas decorrentes de uma ação que, além disso, é temporária.


“A questão de fundo tem a ver com a noção de património e o sentido de pertença. Mais do que à Irmandade, a imagem e o seu resplendor pertencem a quem lhe presta culto. Pois é no uso e no zelo que está o merecimento. Enquanto houver uma função de uso, esta sobrepõe-se a outras utilizações secundárias, sejam marginais ou complementares. Se for quem se opõe ao empréstimo do resplendor para a exposição no Museu de Arte Antiga, for quem lhe presta o culto e lhe garante uma contínua devoção, a sua decisão deve ser soberana porque, neste caso, a funcionalidade se mantém ativa. A quem pede o empréstimo, se estiver convicto da consistência e da articulação do projeto museológico, resta encetar uma ação de pedagogia junto da comunidade, apresentando os argumentos que justificam a inclusão da peça no programa expositivo e oferecendo alternativas para que a imagem, sem o resplendor, não perca a integridade aos olhos de quem a procure.

“Neste processo, ao invés de extremar posições, impunha-se a procura de consensos. A resolução não deveria ter sido ao arrepio de quem efetivamente zela pela preservação de um património que considera seu e, como tal, lhe garante a autenticidade”.

(1) Cf. texto integral aqui: http://amusearte.hypotheses.org/558
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 28.06.2014):






























e  "Diário Insular"  (Angra do Heroísmo, 06.07.2014):



sábado, junho 21, 2014



O Reino e as Festas


  Como antigamente era sempre considerado no estudo da História dos séculos XVI e XVII, e de alguns dos seus antecedentes lendários e narrativos medievais que remontam ao século XI e à 1.ª Cruzada, uma das razões ali apontadas para as várias e mutuamente implicadas demandas exploratórias, missionárias, comerciais, expedicionárias e geo-imperiais portuguesas em África e no Oriente (v.g. na Etiópia e Índia) foi a procura peregrina de um imaginário ou imaginado (miticamente verdadeiro ou verdadeiramente mítico) “Reino do Preste João”, fantástico e mais ou menos fantasiado rei-sacerdote aliado da Cristandade para a defesa da Terra Santa e bloqueio aos ímpetos muçulmanos.




 Nesse contexto, notícias desse suposto imperador e seus domínios, por tentativas de achamento empírico ou simples (re)criação literário-ficcional, foram chegando ao Ocidente (nomeadamente através de Marco Polo) e assim também a Portugal através de relatos de viajantes, mercadores, aventureiros e embaixadores, com destaque para os informes recolhidos pelo infante D. Pedro, por Afonso de Paiva, por Pêro da Covilhã e pelo Padre Francisco Álvares (deixando-nos este, em 1540, a Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias).


 – Todavia, inesperadamente hoje, fomos reencontrar esse velho tema histórico num recente livro de Umberto Eco (Sobre Literatura), acabado de editar pela Relógio D’Água (Lisboa, 2014), encontrando essa referência ao Preste João precisamente no capítulo “A força da falsificação” (texto que reproduz a Lição Académica Inaugural do Ano de 1994-95 proferida pelo famoso filósofo, escritor e semiólogo italiano na Universidade de Bolonha).

Porém, sendo muito sugestiva tal evocação de Umberto Eco, sobremaneira logo a mesma nos chamou a atenção por inserir-se no âmbito de uma curiosa abordagem à Questio quodlibetalis XII de S. Tomás de Aquino (ou não fosse o autor de O Nome da Rosa um profundo conhecedor da sua obra) e onde o Angélico, respondendo a uma pergunta sobre qual dos factores – o poder do rei, a influência do vinho, o fascínio da mulher ou a força da verdade – seria o mais forte, convincente e coactivo agente para motivar os homens, e logo começando por notar que, não sendo aqueles comparáveis, porque de géneros diferentes, podiam todavia, todos eles, “mover a algumas acções o coração humano”...


– Resposta sem dúvida sensata e avisada também para estes dias angrenses de bem preste festa, entre os novos guiões municipais, as abancadas tasquinhas, as crepitantes fogueiras de S. João e esquecimento da real crise do nosso sazonal e efémero reino são-joanino, aquele último, pela pesada força da verdade que esta contém, constituindo factor inquestionavelmente mais decisivo para as tais acções de constrangimento (no coração e na bolsa) dos moradores e dos sempre bem-vindos forasteiros (apesar das penalizações saturantes da SATA e de outros despudorados e impunes “inconseguimentos”, para usarmos léxico da recriadora linguagem da nossa presidente Assunção, cujos pares, esses, já lá em Lisboa se puseram au point, auto-tabelando-se de pronto e vantajosamente, à beira da estação calmosa e sem necessidade de mais informes de quem quer que fosse...)!
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RTP-Açores:



























e "Diário dos Açores" (24.06.2014):






















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Primeira versão em"Diário Insular",
Angra do Heroísmo (21.06.2014):



domingo, junho 15, 2014


As Agnosias Diocesanas
e o Resplendor da Imagem Sacra



1. Há uma semana atrás, praticamente na urgência editorial dos prelos, publiquei neste jornal uma Crónica mais a jeito de resumo temático, ou síntese, de um tema ainda então a evoluir. Mas foi bom que assim acontecesse, porquanto o assunto, que ficou entretanto ganhando novos desenvolvimentos, permite que a ele e a essa luz voltemos hoje, ou não continuasse a merecer reflexão na Igreja e em toda a sociedade açoriana esse mesmo e tão falado caso da controversa subtracção temporária do Resplendor do Senhor Santo Cristo ao conjunto das peças constituintes da integridade iconicamente sacralizada da sua Imagem própria, para declarados fins de exposição artístico-museológica em Lisboa...


 Por outro lado – conforme pudemos ir comprovando –, com crescente impacto socio-religioso, pastoral, eclesial, mediático (e até político!) – muito embora nem sempre abordado do mais exigível, fundamentado e aprofundado modo (quando não até degenerando para terrenos que extravasam a mais essencial e legítima tematização adequada) –, este confrangedor imbróglio foi também aglutinando novas, melindrosas e evidentes complexidades, conflituais reacções, díspares leituras (nalguns casos bastante despudoradas, levianas ou apenas inscientes), a par de outras significativas lacunas de reflexão e de compreensão (que foram amiúde alienadas por muitos daqueles que, por indeclinável dever de múnus e/ou correlativa responsabilidade pessoal ou institucional, em coerência, firmeza, estudo, saber e conhecimento, a tanto tinham obrigação)!

– Todavia que mais dizer de quanto este assunto continua a merecer ser levado a sério por tudo o que sintomaticamente revela, ou dissimula, da vida colectiva, dos imaginários espirituais (religiosos e profanos) e da hodierna configuração de valores, pensamentos e atitudes que estruturam mentalidades, práticas e discursos do povo e das suas supostas “elites”, classes dirigentes e corporações, agentes e actores societários?

2. Tal como sublinhei anteriormente, de entre as formas expressivas da religiosidade e da fé religiosa católica nos Açores, o Culto ao Senhor Santo Cristo ocupa lugar único e absolutamente distinto, sendo mesmo que – das diversas devoções que nestas ilhas foram ganhando e perpetuando vigências espirituais, históricas, socioculturais e festivas (populares, eclesialmente integradas ou parcialmente autónomas face à hierarquia institucional da Igreja e ao Poder secular) – as venerações de cariz crístico ou representação cristológica (direccionadas à figura e à figuração iconográfica, pictórica ou escultórica de Jesus Cristo) estão presentes e são praticadas em quase todos os lugares e contextos existenciais insulares e telúricos de crença, inconsciente e memória colectiva, reflectindo também conaturalmente as marcas das sucessivas e hegemónicas modelações tardo-medievais, contra-reformistas e barrocas da Evangelização no Arquipélago (especialmente por via dos Franciscanos e dos Jesuítas, com tudo o que histórico-dogmaticamente os seus carismas, variantes de espiritualidade, doutrina, formatos de prece e corporizações rituais, cultos e liturgia, determinações canónicas, etc., implicaram, a par, não negligenciável, de regimes de imposição dogmático-pastoral e de padronização normativa).

– E foi deste modo que a proliferação cultual e votiva, reflectida sob arquetípica forma revelacional no Ecce Homo – ou seja, na feição dolorosa, passionária e sofredora de um ícone universal representativo do Homem das Dores – conseguiu, como nenhuma outra devoção portuguesa e açoriana – exceptuando as Festas do Espírito Santo! – grandes, profundas e significativas dimensões, polarizando e acumulando depois no Senhor Santo Cristo, devido à superiormente sustentada e específica acção pessoal, e à posteridade venerante de Madre Teresa da Anunciada, tudo quanto nesse culto permanece perfeitamente identificável e ritualizado de modo ímpar e apelativo, em sua cíclica honorificação, tanto no recesso conventual do Santuário da Esperança como nas tradicionais manifestações festivas públicas, religiosas e profanas, nos Açores e nas Comunidades Açorianas, porém de modo mais grandioso na ilha de S. Miguel.


 3. Na altura em que comecei a escrever esta Crónica, aguardava-se o regresso a S. Miguel do Bispo D. António, que iria reunir com as entidades mais directamente ligadas ao Santuário da Esperança, no sentido de procurar-se um possível consenso pacífico que pudesse, com a desejável e prudente revogação da primeira decisão diocesana, impedir que o Resplendor da Imagem fosse deslocado para a referida mostra (reiteradamente com medidas de segurança asseguradas, conquanto constituindo estas apenas uma das muitas e justificadas razões a ter em conta numa proporcionalmente descontextualizada situação como a da planeada exposição e sua arbitrária narrativa e implantação artístico-museológica profana!). Mas hoje, quando termino este texto, sabe-se já (http://www.diocesedeangra.pt/noticia_2166) que o Resplendor foi mesmo, bastante à socapa, levado para Lisboa, onde se encontra encaixotado no Museu de Arte Antiga, até ser “estudado”, técnico-cientificamente dissecado e “exposto” numa mostra cuja data não está definida...

– Não resta dúvida alguma que tudo se resolveu (por enquanto) com esse grande testemunho (uma jóia de arte, artimanhas e dignidade eclesiástica!), inspiração sacro-securitária e sabedoria teológica, uma pérola de zelo artístico-pastoral, compreensão sociocultural e museológica da fé, sem tibiezas devocionais nem cedências às vozes do Povo crente!!! 

Indiscutivelmente, assim, um verdadeiro e espantoso marco “de valor patrimonial, cultural e histórico que importa partilhar com toda a comunidade humana”, para perpétua memória simbólica da actual evangelização regional, no entendimento prudente e consciencioso do nosso iluminado e ilustrado Prelado, da sua clerezia conselheiral e dos seus doutos co-mentores diocesanos... Um feito, sem nódoa (para usar o termo de Santos Narciso), nem escrúpulo, nem motivo de escândalo; historicamente um exemplo edificante para a Igreja que está nos Açores, no País e no Mundo!

Por outro lado, não deixa de ser originalidade, neste quadro litigioso e de um cinismo atroz, saber-se que, no Santuário, quando constava correr uma espécie de “objecção de consciência” em relação à remoção física do Resplendor da Imagem (o que acentuaria simbolicamente as divergências existentes entre o Bispo e o Padre Duarte Melo, e a Irmandade, o Reitor do Santuário e as Religiosas...), vir agora um arauto diocesano frisar ter contado a dita operação transitária, fiscalizada em pessoa pelo Senhor D. António, com “a boa colaboração das irmãs que zelam pelo Tesouro”...

4. Só uma corajosa e bem formada inteligência da fé e uma proporcional consciência real destas realidades poderiam ter fornecido a todos, sem rodeios e falácias de argumentário indigente e servil, a devida percepção da estrutura global dos sistemas de signos e objectos, das suas lógicas e mais-valias, de uma ética da mostração diferencial das suas múltiplas categorias de significação, e da dialéctica das apropriações e legitimações que neste campo de bens materiais e simbólicos, móveis e imóveis, sempre se articulam e amiúde digladiam!

– E é assim que vale ainda hoje a pena recapitular que a Imagem do Senhor Santo Cristo e os seus pertences patrimoniais identitários e sacralmente activos (v.g. o Resplendor) constituem um todo objectual unitário, que a Igreja, analogamente a outra instituições, para já nem falar no senso comum dos seus fiéis, tem “obrigação de respeitar”, com “zelo”, seguindo as directrizes da Santa Sé e da Conferência Episcopal Portuguesa quando ensinam e determinam nos Princípios e Orientações relativos à tipologia e finalidade deste género de bens, que a sua manipulação tem de olhar “à intenção do doador, de modo particular quando este tiver sido a comunidade crente”, para salvaguarda do “carácter sagrado” dos objectos religiosamente queridos e piedosamente venerados, “bem como o afecto que tem pelo valor em causa a comunidade que o utiliza e é sua proprietária”, cabendo ao Bispo “ajuizar das decisões que [os] afectem particularmente (...), sobretudo quando esteja em causa o seu valor material ou artístico, a sua natureza religiosa ou o apreço que a comunidade tem por ele”, respeitando-se ainda, para “usos em fins secundários, como exposições, (...) a maior sacralidade de alguns [desses objectos de culto ou sagrados], nomeadamente (...) imagens de grande devoção”, como é o caso do Senhor Santo Cristo, evidentemente!


 Ora a este respeito creio que nada mais será preciso acrescentar hoje, embora deva relembrar, entre outros episódios historicamente tristes e didácticos, aquele que se passou nos Açores com as Irmandades do Espírito Santo (na década de 50 do século passado), salvaguardas as diferenças que a todos deveriam fazer pensar nas semelhanças, para obviar mimeses e sequelas análogas nestas presumidas “modernidades” eclesiásticas e “dadas às artes” (e a algumas artimanhas), impantes e laicistas nos seus cosmopolitismos turisteiros (ou apenas voyeuristas) – quando não encarreirados nas academias e nas administrações públicas e estatais –, para dessacralização gratuita e primária de certos símbolos (ditos “retrógrados” ou “arcaicos”), porém apenas para (re)investimentos duvidosos, fúteis ou sinistramente iconoclastas noutros signos, mitologias e processos mais ou menos (in)conscientes e inconsistentes de substituição ou transferência “progressista”, “esclarecida” ou até – imagine-se – insensata e confusamente ditos sociopolítica, estética e secularmente “libertadores”!

5. Neste momento este assunto ganhou contornos universais ainda mais complexos, que aqui ficam apenas sinalizados, e sobre os quais certamente muito se debaterá depois, para além das apaixonantes questões da Arte Sacra, da Museologia Religiosa e Eclesiástica, do estatuto dos Sacramentais (e talvez até, em decorrência, dos próprios Sacramentos...), para além das implicações pastorais, da teologia dos objectos de culto, da teologia icónica e das imagens, e da ética da conservação e da exposição, sem esquecer que tudo isso deve ser pensado e repensado no contexto sociocultural, devocional e católico dos Açores em geral e de S. Miguel em particular, numa (una?) Diocese.


– Também por isso é que esta procissão diocesana, entre agnosias de bradar aos céus, talvez ainda vá no adro, até porque não consta que anéis, báculos e mitras, estatuárias de beija-pé, objectos benzidos ou alfaias bentas, custódias, cálices, píxedes, etc., etc., possam ser todos colocados no mesmo nivelado museu das religiões... Ou então será que poderão, a curto prazo, também vir a ficar ao lado do Resplendor, sem vínculo de devoção, estrutura interna e integrada de representação, em indiferenciada e profana museologia, irrecuperavelmente dessacralizados numa montra iconoclasta perante a qual ninguém reza nem ajoelha, em piedosa devoção, crença e fé, Razão e Coração?
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 15.06.2014):