sábado, outubro 25, 2014


Desassombros e Assombrações
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O que se passou no Museu de Angra com o fatídico episódio das “danças”, e tudo o que a partir daí veio à baila político-institucional e ao conhecimento e debate públicos, revela uma série de (des)assombros e algumas renitentes e persistentes assombrações (vocábulo que lembra um talentoso livro de Fagundes Duarte...).


– Ora também a ensombrar esta trama de indícios, factos e acontecimentos (em crescente mediatização e doravante não escamoteáveis) estão sequenciais reportagens e notícias vindas a lume após a “audição” parlamentar à qual, por justificada iniciativa do PSD, foi levado Avelino Meneses.

Assim, perante esses dados – no sentido do apuramento da verdade integral e da transparência dos actos políticos e pessoais deste imbróglio, e acrescidamente na medida em que começaram a ser parcialmente divulgados o teor genérico e a nula lisura do lacunarmente admitido percurso político-administrativo e jurídico do dito Parecer (da autoria do ainda DRC!), e o assumido Despacho do ex-secretário da tutela sobre a mesma substância –, agora devem ser colocadas, ao menos, as seguintes questões:


– 1. Quais, de que tipo e envolvendo que entidades foram as aludidas prestações do director do Museu à Câmara da Madalena, no projecto das “Memórias da Casa do Canal”?

2) Em que moldes e/ou porque que (não?) foram accionados os disponíveis mecanismos político-administrativos ou inspectivos para apuramento de responsabilidades “disciplinares”, ou outras de índole alegadamente “ilegal” ou “ilícita” (porém, segundo tenta dizer-se hoje, ocultadas ou já prescritas)?

3) Foi ou não dado conhecimento superior (político-governamental) – a quem, e com que acolhimento ou inviabilização? – do constante no Parecer e no Despacho em causa?

4) Confrontando-se as ditas incriminações feitas pelo actual DRC com o dossier curricular do seu antecessor (nomeado por Carlos César...), poderão ainda existir outras actividades, estatutos ou desempenhos institucionais seus, na Região ou fora dela, (in)compatíveis e/ou entretanto não apurados?

5) Que relevância, objecto ou veracidade terão as acções, em hipotético processo, envolvendo alvitradamente a DRC e o Tribunal de Contas?

6) Que espera o PS ganhar, ou quem espera incautamente proteger a termo, tentando silenciar o seu ex-secretário Fagundes Duarte? 
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 24.10.2014):



























RTP-Açores:
























Azores Digital:


quinta-feira, outubro 23, 2014


O Ébola em Casulos Levianos
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Conforme sucintamente referimos do DI de há uma semana, acentua-se diariamente a apreensão mundial pela propagação exponencial do Ébola (num incremento dos medos descritos por Richard Preston em The Hot Zone), a par dos novos avisos das organizações nacionais e internacionais e dos maiores especialistas em Saúde Pública e Epidemiologia, na mesma altura em que a propagação viral (já epidémica em certos locais de África!) – espera-se que sem a possível mutação – começa a ameaçar outros continentes e países (até mais desenvolvidos)...


– E isto verifica-se em simultâneo com a divulgação de (im)previsões globais (também envolvendo Portugal...), que não podem deixar-nos, especialmente no caso açoriano, sem continua e devida atenção prática e decorrente avaliação crítica de todas as componentes deste importante fenómeno, e tão mais urgentemente quanto, a nível nacional, continuam a grassar divergências quer sobre a nossa preparação para lidar com o Ébola quer sobre a possibilidade de Portugal poder vir a ter contaminações desse vírus, risco aliás já admitido pelo director-geral da Saúde perante a respectiva Comissão da Assembleia da República, reconhecendo-se ali que podem verificar-se – “até ao fim do mês” –, “2, 3, 4 casos (...) importados”, muito embora Francisco George insista simultaneamente na afirmação de que o país está “preparado” para lutar com esse desafio, precisamente porém ao contrário do Colégio da Especialidade de Saúde Pública que sobre o mesmo tema se pronunciou já:


Na verdade, segundo um (entretanto já controvertido) Parecer (disponível na íntegra no respectivo Portal Oficial) desse organismo da Ordem dos Médicos, “o risco teórico de virmos a ter casos de Ébola em Portugal é alto. Se isso acontecer, a dimensão (...) que o problema poderá atingir em termos numéricos (casos e mortes) e de impacto social, depende inteiramente da capacidade dos serviços de Saúde e da sociedade em geral lidarem com o problema”, sendo que esse mesmo risco é especialmente potenciado devido “posicionamento de Portugal como país integrante” dos PALOP, ao qual, do ponto de vista geográfico, humano, estratégico, “pode ainda adicionar-se, como elemento satélite a pesar no fardo do problema, o facto de termos ébola em Espanha, país vizinho e com o qual não existem fronteiras facilmente controláveis, pelo que em termos de circulação de pessoas (do vírus) se pode considerar a península como um só país”.


– E depois de analisar, país a país, situação a situação, os contextos da Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Moçambique, o documento daquele Colégio da Ordem dos Médicos analisa bastante criticamente a (im)preparação de Portugal para lidar com o Ébola, tanto numa perspectiva teórica quanto numa perspectiva real, articuladas ambas com um suposto “Plano de contingência nacional”, no qual “o modo, confuso e cheio de pontas soltas, como a realidade geralmente se apresenta” e onde o “enfatizar que a tónica na intervenção centrada apenas em serviços hospitalares é errada e que a sua comunicação nos media, centrada em técnicas médicas de ponta e cuidados milagrosos de assistência, produz na população a tal falsa sensação de segurança já invocada”.

E por fim, o citado Parecer chega ao ponto de descrever um imaginário (hipotético, mas verosímil e realista!) panorama, cuja analogia (sem entrar em linha de conta com barcos, portos e marinas) com um similar cenário insular açoriano não é difícil de estabelecer:

– “O que será lógico esperar – como qualquer epidemiologista experimentado ou qualquer médico de saúde pública sensato sabe desde os tempos do Professor Ricardo Jorge – é que o tal caso de ébola não vai chegar com uma bandeirinha a assinalá-lo ao aeroporto da Portela [das Lajes, ou de outro qualquer aeroporto das ilhas], onde logo chegará uma ambulância [devidamente preparada?] do INEM [dos Bombeiros ou do SRPCBA], que o levará [a partir desse tal aeroporto] sem demora ao Curry Cabral [ou a outro Hospital de referência, sempre fora dos Açores], onde espera por ele um quarto [ou um casulo...] isolado e apetrechado [eventualmente (?), primeiro num helicóptero Merlin e depois num avião Falcon...].






Todavia, o que “a realidade nos tem demonstrado (designadamente nos casos ocidentais desta epidemia, mas antes disso na história de qualquer surto ou epidemia) é que um (ou mais) caso infectado chegará silenciosamente ao aeroporto num voo fora de horas, em perfeito estado aparente, onde (...) onde um carro cheio de familiares saudosos o esperará para o levar (...), onde há um almoço de celebração do regresso dele (...) marcado para o dia seguinte e onde estarão presentes cerca de cinquenta pessoas que ele, emocionado, abraçará fortemente. E no dia seguinte ao almoço sentir-se-á, pela primeira vez, febril e com dores articulares, cansado, mas irá pensar que tudo isso é fruto da viagem, das horas mal dormidas, da emoção... É isto que poderemos esperar na maioria das situações, não com uma realidade que se molda aos manuais ou aos monitores com algoritmos de uma sala de controlo de emergências”!

– Ora a auscultação de profissionais, decisores, estudiosos, especialistas e operacionais, directa ou indirectamente cientes desta exigente, complexa e pluridisciplinar situação, mais fundamenta e evidencia, também aqui nas ilhas, idêntica e proporcionada preocupação... Mas continuamos, perplexos, a assistir a orientações nacionais (e regionais!) pouco definidas, imprevidentes ou em sobreposição e atropelamento de práticas de duvidosa segurança e pouca viabilidade, como aquelas que prevêem a criação, nos Centros de Saúde, de “espaços para isolar temporariamente [“por horas” (sic)] doentes suspeitos” de Ébola, ou as outras, emanadas da Autoridade Nacional de Protecção Civil, avisando os Bombeiros – perante as questões e dúvidas da Liga sobre o papel destes profissionais no âmbito da prevenção do vírus do Ébola em Portugal – de que estes não devem transportar casos suspeitos, antes contactando o INEM ou a linha de Saúde...



Assim e para mais ainda, perante a leviandade nacional e regional, face às potenciais vulnerabilidades que a indigitação das Lajes contém como Aeroporto, e agora, como já salientámos – com a inadmissível menorização institucional açoriana atingindo o cúmulo da pura ficção (para não dizer temerária falsidade) de que se poderia “ter confiança no dispositivo montado [?] ao nível da Região”, e cujo planeamento estaria “a decorrer em estreita articulação” com a DGS e com o SRPCBA – alegando-se até que o Arquipélago possuiria um “plano de contingência regional para casos específicos, dado que a Região tem características distintas do continente, mas integra-se do plano nacional” –, comprova-se e confirma-se que “não houve [sequer!] formação” de quaisquer “equipas médicas” nos Açores, e que esta “É uma situação nova. Sabemos a teoria, mas não a prática” (sic)!



– Realmente, repita-se, tudo neste caso permanece um perigoso retrocesso se o comparamos, por exemplo, com as ameaças do H5N1, onde ao menos não esperávamos (em ambulância?!) que um Falcon de Lisboa, alertado pelo 112, viesse aterrar no nosso quintal..., até porque aqui, à semelhança do que foi feito lá no Continente para a gripe pandémica de 2006/07, “uma estrutura foi montada, circuitos foram criados de novo e a máquina de enfrentar uma epidemia (...) ficou oleada.

“ (...) Parece-nos [ao Colégio da Especialidade de Saúde Pública da Ordem dos Médicos, e também a nós, nos Açores] que essa experiência anterior pouparia – imediatamente e logo nas nossas ilhas e Região Autónoma – na ameaça de crise actual, tempo e dores de cabeça”, tanto mais quanto, “salvo melhor informação que, até agora, não chegou ao conhecimento do público ou da generalidade dos profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, profissionais de laboratório, pessoal administrativo, pessoal auxiliar de apoio a cuidados médicos) nenhuma orientação, integrada e global, que inclua desde uma estratégia nacional para lidar com o problema até à emissão de informação que responda às perguntas e ansiedades do público em geral e dos profissionais de saúde em particular”!


– E depois, com todas essas (ir)responsabilidades governamentais açorianas e lisboetas, bem à vista de todos, é um tremendo ónus que se está a fazer recair sobre toda a população regional e nacional, sem falarmos nos riscos e tremendos comprometimentos que assim sobremaneira pendem sobre a Força Aérea Portuguesa (e sobre a própria presença e logística norte-americanas...) nos Açores, quando se sabe dos paralelos empenhos em marcha, pelo mesmo Governo central português, em acudir (e bem!), no estrangeiro, ao circulatório terreno geográfico e humano africano, na Guiné e em Cabo Verde...
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 24.10.2014).


domingo, outubro 19, 2014


Ébola com Falcon no Quintal?
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Crescendo a justificada apreensão mundial (4.447 mortos, mortalidade média na ordem nos 50% e milhares de infectados ainda não apurados) pela propagação exponencial do Ébola – a par dos avisos da OMS e ONU, de especialistas em Saúde Pública e de credenciados Epidemiologistas (v.g. Paul Farmer e Laurie Garrett) –, e quando a propagação viral (gravíssima em África!) começa a alastrar com o surgimento de ocorrências, erros sistémicos, contaminações e (im)previsões globais (em Portugal, ouça-se Francisco George...), o caso açoriano (para nós imediatamente relevante, comprometedor e próximo!) não poderia deixar de merecer atenção prática, acompanhamento integrado, coordenação sistemática e avaliação crítica permanente!


 Entretanto a nível nacional continuam a grassar divergências tanto sobre a nossa preparação para lidar com o Ébola quanto sobre a possibilidade de Portugal poder vir a ter contaminações desse vírus, sendo este o maior risco e admitindo mesmo o director-geral da Saúde, perante a Comissão de Saúde da Assembleia da República, que isso pode verificar-se – “até ao fim do mês” –, em “2, 3, 4 casos (...) importados”, muito embora Francisco George insista simultaneamente na afirmação de que o país está preparado para lutar com esse desafio, precisamente ao contrário do Colégio da Especialidade de Saúde Pública:


– Na verdade, segundo um (entretanto já controvertido) Parecer deste organismo (disponível na íntegra no respectivo Portal Oficial da Ordem dos Médicos), “ o risco teórico de virmos a ter casos de Ébola em Portugal é alto. Se isso acontecer, a dimensão (...) que o problema poderá atingir em termos numéricos (casos e mortes) e de impacto social, depende inteiramente da capacidade dos serviços de Saúde e da sociedade em geral lidarem com o problema”, sendo que esse mesmo risco é especialmente potenciado devido “posicionamento de Portugal como país integrante” dos PALOP, ao qual, do ponto de vista geográfico, humano, estratégico, “pode ainda adicionar-se, como elemento satélite a pesar no fardo do problema, o facto de termos ébola em Espanha, país vizinho e com o qual não existem fronteiras facilmente controláveis, pelo que em termos de circulação de pessoas (do vírus) se pode considerar a península como um só país”.



E depois de analisar, país a país, situação a situação, os contextos da Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Moçambique, o documento do Colégio da Especialidade de Saúde Pública da Ordem dos Médicos analisa bastante criticamente a (im)preparação de Portugal para lidar com o Ébola, tanto de uma perspectiva teórica quanto de uma perspectiva real, articuladas ambas com um suposto “Plano de contingência nacional”, no qual “o modo, confuso e cheio de pontas soltas, como a realidade geralmente se apresenta” e onde o “enfatizar que a tónica na intervenção centrada apenas em serviços hospitalares é errada e que a sua comunicação nos media, centrada em técnicas médicas de ponta e cuidados milagrosos de assistência, produz na população a tal falsa sensação de segurança já invocada”.


– Finalmente este Parecer chega ao ponto de descrever um imaginário (hipotético, mas realista!) panorama, cuja analogia, sem entrar em linha de conta com os portos e as marinas, com um análogo cenário insular açoriano não é difícil de estabelecer, assim:

“O que será lógico esperar – como qualquer epidemiologista experimentado ou qualquer médico de saúde pública sensato sabe desde os tempos do Professor Ricardo Jorge – é que o tal caso de ébola não vai chegar com uma bandeirinha a assinalá-lo ao aeroporto da Portela [das Lajes, ou de outro qualquer aeroporto das ilhas], onde logo chegará uma ambulância [devidamente preparada?] do INEM [dos Bombeiros ou do SRPCBA], que o levará sem demora ao Curry Cabral [ou a outro Hospital de referência, mas fora dos Açores, a partir desse tal aeroporto], onde espera por ele [primeiro...] um quarto [um casulo, talvez...] isolado e apetrechado [eventualmente num helicóptero, e depois num avião Falcon...].



“O que a realidade nos tem demonstrado (designadamente nos casos ocidentais desta epidemia, mas antes disso na história de qualquer surto ou epidemia) é que um (ou mais) caso infectado chegará silenciosamente ao aeroporto num voo fora de horas, em perfeito estado aparente, onde (...) onde um carro cheio de familiares saudosos o esperará para o levar (...), onde há um almoço de celebração do regresso dele (...) marcado para o dia seguinte e onde estarão presentes cerca de cinquenta pessoas que ele, emocionado, abraçará fortemente. E no dia seguinte ao almoço sentir-se-á, pela primeira vez, febril e com dores articulares, cansado, mas irá pensar que tudo isso é fruto da viagem, das horas mal dormidas, da emoção... É isto que poderemos esperar na maioria das situações, não com uma realidade que se molda aos manuais ou aos monitores com algoritmos de uma sala de controlo de emergências”!

– Ora a auscultação de profissionais, decisores, estudiosos, especialistas e operacionais, directa ou indirectamente cientes desta exigente, complexa e pluridisciplinar situação, mais fundamenta e evidencia, também aqui, idêntica e proporcionada preocupação!

Por outro lado continuamos a assistir a orientações nacionais (e regionais?) pouco definidas ou em sobreposição e atropelamento de práticas de duvidosa segurança e pouca viabilidade prática, como aquelas que prevêem a criação, nos Centros de Saúde, de “espaços para isolar temporariamente [“por horas” (sic)] doentes suspeitos” de terem Ébola, ou as outras, emanadas da Autoridade Nacional de Protecção Civil, avisando os Bombeiros de que não devem transportar casos suspeitos de Ébola, mas sim contactar o INEM ou a linha de Saúde, perante as questões da Liga dos Bombeiros Portugueses que tinha manifestado dúvidas sobre o papel destes profissionais no âmbito da prevenção do vírus do Ébola em Portugal...



Assim e para mais ainda, perante a leviandade nacional, face às potenciais vulnerabilidades que a indigitação das Lajes contém como Aeroporto (apenas e só placa?!) de passagem para emergências e operações com o Ébola; e agora – com a inadmissível menorização institucional açoriana atingindo o cúmulo da pura ficção (para não dizer temerária falsidade), de que se poderia “ter confiança no dispositivo montado [?] ao nível da Região” e cujo planeamento estaria “a decorrer em estreita articulação” com a DGS e com o SRPCBA – alegando-se até que o Arquipélago possuiria um “plano de contingência regional para casos específicos, dado que a Região tem características distintas do continente, mas integra-se do plano nacional” –, vemos que se fez um investimento de “20 mil euros em equipamento de proteção e nos casulos para transporte de doentes” (quais?), sendo todavia que logo depois se confirma que “não houve [sequer!] formação das equipas médicas” nos Açores, e que esta (pasme-se!) “É uma situação nova. Sabemos a teoria, mas não a prática” (sic)!




– Realmente, tudo neste caso é um perigoso retrocesso (médico-hospitalar, e não só), comparado, por exemplo, com as ameaças do H5N1, onde ao menos não esperávamos (em ambulância?!) que um Falcon de Lisboa, chamado pelo 112, viesse aterrar no nosso quintal, porquanto, à semelhança do que foi feito no Continente para a gripe pandémica de 2006/07, “ uma estrutura foi montada, circuitos foram criados de novo e a máquina de enfrentar uma epidemia (...) ficou oleada.



“ (...) Parece-nos que essa experiência anterior pouparia – imediatamente também aqui nas nossas ilhas e Região Autónoma dos Açores... – na ameaça de crise actual, tempo e dores de cabeça”, tanto mais quanto, “salvo melhor informação que, até agora, não chegou ao conhecimento do público ou da generalidade dos profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, profissionais de laboratório, pessoal administrativo, pessoal auxiliar de apoio a cuidados médicos) nenhuma orientação, integrada e global, que inclua desde uma estratégia nacional para lidar com o problema até à emissão de informação que responda às perguntas e ansiedades do público em geral e dos profissionais de saúde em particular”!
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 21.10.2014):




Azores Digital:






























sábado, outubro 18, 2014


Um Falcon no Quintal?
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Crescendo justificada apreensão (4.447 mortos, mortalidade média na ordem nos 50% e milhares de infectados ainda não apurados) pela propagação exponencial do Ébola – a par dos avisos da OMS e ONU, de especialistas em Saúde Pública e de credenciados Epidemiologistas (v.g. Paul Farmer e Laurie Garrett) –, e quando a propagação viral (gravíssima em África!) começa a alastrar com o surgimento de ocorrências, erros sistémicos, contaminações e (im)previsões globais (em Portugal, ouça-se Francisco George...), o caso açoriano (para nós imediatamente relevante, comprometedor e próximo!) não poderia deixar de merecer atenção prática, acompanhamento integrado, coordenação sistemática e avaliação crítica permanente!



– Aliás, a auscultação de profissionais, decisores, estudiosos, especialistas e operacionais, directa ou indirectamente cientes desta exigente, complexa e pluridisciplinar situação, mais fundamenta e evidencia, também aqui, idêntica e proporcionada preocupação!


Assim, perante a leviandade nacional, face às potenciais vulnerabilidades que a indigitação das Lajes contém como Aeroporto (apenas e só placa?!) de passagem para emergências e operações com o Ébola; e agora – com a inadmissível menorização institucional açoriana atingindo o cúmulo da pura ficção (para não dizer temerária falsidade), de que se poderia “ter confiança no dispositivo montado [?] ao nível da Região” e cujo planeamento estaria “a decorrer em estreita articulação” com a DGS e com o SRPCBA – alegando-se até que o Arquipélago possuiria um “plano de contingência regional para casos específicos, dado que a Região tem características distintas do continente, mas integra-se do plano nacional” –, vemos que se fez um investimento de “20 mil euros em equipamento de proteção e nos casulos para transporte de doentes” (quais?), sendo todavia que logo depois se confirma que “não houve [sequer!] formação das equipas médicas” nos Açores, e que esta (pasme-se!) “É uma situação nova. Sabemos a teoria, mas não a prática” (sic)!




– Realmente, tudo neste caso é um perigoso retrocesso (médico-hospitalar, e não só), comparado, por exemplo, com o do H5N1, onde ao menos não esperávamos (em ambulância?) que um Falcon de Lisboa, chamado pelo 112, viesse aterrar no nosso quintal!
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Em "Diário Insular" (18.10.2014):




























Azores Digital:




RTP-Açores:























e "Diário dos Açores" (no prelo).



sábado, outubro 11, 2014



A Ternura e o Vigor de Assis
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Atendendo ao actual contexto (e com uma compreensível dose de bom humor...), pede-me um “irmão franciscano” – apesar, diz ele, com alguma razão, da minha “formação ser mais acentuadamente próxima e de predilecção pelos autores tomistas da Escola filosófica e teológica dos Jesuítas” (sic) –, que recupere hoje o tema de fundo da minha Crónica sobre S. Francisco que o DI publicou há uma semana, e que pelo seu carácter relativamente sucinto e sumariado “talvez valesse a pena retomar”!

É o que farei com gosto, desenvolvendo hoje um pouco mais o mesmo assunto .[Nota prévia inserta na publicação deste mesmo texto na edição do jornal "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 12 de outubro de 2014)].


1. Numa feliz coincidência de calendários litúrgicos, técnico-profissionais e societários, comemorámos no passado dia 4 de Outubro a Memória de S. Francisco, o Dia Mundial do Médico Veterinário e o Dia Mundial dos Animais – data (neste último caso) escolhida em Florença, em 1931, durante uma Convenção de Ecologistas, atendendo ao característico e universalmente consagrado “padroado” do poverello de Assis.

– E é assim que para além do profundo significado e alcance ético e deontológico (que naquele dia se relembra e devia traduzir-se nas práticas do quotidiano, no respeito ontologicamente proporcionado por todas as criaturas e eco-bio-sistemas, e identicamente no desempenho daquela especialidade biomédica), a todos se exortou e convidou à renovação (dir-se-ia propriamente trans-física e trans-especista, quando não mesmo metafísica) da sensibilidade racional e antropológica, da atenção afectuosa, da inteligência compassiva e do cuidado vital que à espécie humana cabe, de e para com todos os outros seres e forças da Vida e da Consciência que povoam e co-habitam o planeta Terra...


2. Todavia, no que a S. Francisco particular e referencialmente respeita – como se dizia no pórtico de uma bela Antologia organizada por Frei Adelino Pereira) com Testemunhos Contemporâneos das Letras Portuguesas (Lisboa, INCM, 1982)   sobre o autor dos Fioretti –, caberia logo recordar que “o Pobrezinho que deixou marcas indeléveis na história religiosa e cultural do mundo pós-medieval e especialmente na portuguesa [e também, acrescentemos aqui, de modo muito relevante, no Povoamento, na Evangelização e no Imaginário das Ilhas dos Açores]”, propôs-nos fundamentalmente uma “maneira singularíssima de ser homem e de viver a vida”, uma “forma original de estar no mundo, de pensar a existência e de valorar as coisas”, naquilo que constitui a exemplar visão franciscana da vida!


Ora verdadeiramente naquela obra – que reúne personalidades tão diferentes como Sophia e Urbano Tavares Rodrigues, Raul Rego e Amândio César, Jacinto do Prado Coelho e João Maia, Agostinho da Silva e Manuel Alegre, Agustina e Fernando Namora, Borges de Macedo e António Borges Coelho, Gama Caeiro e Vergílio Ferreira, Moreira das Neves e Miguel Torga, etc. –, não faltam eloquentes textos (e insuspeitas confissões em prosa e verso...) da presença interior, histórico-cultural, religiosa, humanística, simbólica e espiritual daquele filho do rico comerciante Bernardone, primeiro chamado João, lá desde os fins do século XII e daquela cidade de Assis, na antiga Úmbria, com “um pouco de sol da Provença, de terra lavrada pelo encanto trovadoresco, pela ternura delicada e fidalga, pela saudável e casta alegria das Cortes de Amor”.


– E foi mesmo desse modo que entre nós escreveu o filósofo Leonardo Coimbra, a par de tantos outros em múltiplos tempos e lugares, estilos e modos, na reminiscência colectiva popular e erudita, e nas narrativas e múltiplas representações de tudo quanto em Francisco, conforme dizia outro Leonardo [o teólogo Boff], confluiu e permanece de ternura e vigor e de um novo enraizamento afectivo, compassivo e cósmico: humilde e paciente (mas sem resignação perante o Mal e os males do mundo); pobre (mas não submisso face à exploração dos Pobres); resistente ao Sofrimento (mas sem dolorismos masoquistas nem cumplicidade com sadismos opressivos), e – enfim – simultaneamente amante (integrativo mas diferenciador) do varonil e do feminino (sem misoginia nem feminismos estéreis), tal como fascinantemente afinal podemos ver espelhado na pura e transfigurante relação enamorada de Francisco (1182-1226) e da sua tão dilecta Clara (1193-1253), ela própria que, quando jovem donzela, “desejava com frequência senti-lo e vê-lo”, tanto as palavras do seu amado lhe pareciam “chamas”, quanto as obras dele se lhe revelavam quase “sobre-humanas”...


De resto, como muito bem sinalizaram António Quadros e Jaime Cortesão, o Franciscanismo é efectivamente “uma das componentes da alma portuguesa”, sendo que – com Santo António de Lisboa – até houve uma original e primaveril contribuição portuguesa, “quase desde a origem, para a formação do ideal franciscano”, para além de ser a Língua Portuguesa natural e expressivamente “lírica, franciscana, repassada de ternura e piedade”.


– Infelizmente, com certeza por involuntário desconhecimento ou lamentável esquecimento, na excepcional galeria de nomes constantes da bela Antologia que atrás referi, dos Açores, dos nossos autores e das nossas paradigmáticas heranças franciscanas apenas consta um poema joaquimita de Natália Correia (“Tu que do Espírito em clara humanidade/ o núncio foste de melhor idade, / vem com teu óleo sarar as nossas feridas”...), porém (sem ir sequer aos mais antigos Cronistas, Diogo das Chagas, Monte Alverne...) ou, mais próximo, a Côrtes-Rodrigues, ainda restavam, para a contemporaneidade seleccionada, as evocações memoriais e os cânticos de Vitorino Nemésio, como este que sempre trago bem vivo, com a sua profundamente sentida poética confessional:

“Do Cristo ao Servo, irmão do lobo e da água, /Cinco fios de sangue tensos vão, / Alto Morse da mágoa, / [...] Teia de amor, será gemido ou uivo o ouvido/ Clamor da doce aceitação?”)...



3. Em todo o caso, e para o que aqui sobremaneira importa relevar – na visão radicalmente assumida da existência humana e da respectiva posteridade universal –, de Francisco de Assis ficou-nos até hoje uma impoluta e timbrada aura (ímpar, luminosa e transcendental...) projectada nos séculos, e para além deles, nas gestas e carismas do Alter Christus (e dos seus dolorosos estigmas...), tal como, embora a outro nível mas em confluente horizonte, a mesma germinou naquela alta expressão de Humanismo que a Civilização do Ocidente, através dos seus melhores espíritos, procurou apontar, assumir e amiúde incarnar como possíveis caminhos e valores alternativos para toda uma Humanidade decaída e dramaticamente perpetradora daqueles grandes crimes e pecados que desvirtuaram tantas vezes, por acção ou omissão, a Mensagem de Jesus, através de uma culpada e demencial violência religiosa, filosófico-teológica, sociopolítica, económica e psico-simbólica que explorou, sacrificou ou destruiu – mas também libertou! – vidas, consciências, classes, raças, espécies, culturas e povos inteiros em todos os continentes da Terra...).


– Talvez por isso, esperançosamente num Dia Novo, só a Graça, o Perdão e a Misericórdia do seu Senhor conseguirão – com as obras e a fé dos Homens... –, redimi-la e justamente salvar!
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 11.10.2014):



























e "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 12.10.2014):