domingo, março 17, 2019


ENTREVISTA
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Os Açores de Portugal:
Ditames internacionais e evasivas nacionais
cruzam-se sobre as Lajes

O Ministro dos Negócios Estrangeiros português referiu-se há dias, em termos controversos, a várias situações envolvendo a Base das Lajes. Como analisa essas afirmações?

EDUARDO FERRAZ DA ROSA (EFR) – Não é a primeira vez que Augusto Santos Silva – enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros (e recordo que foi igualmente Ministro da Defesa...) – teve ocasião de se pronunciar sobre as Lajes, “dossier” que lhe deverá ou deveria ser bem familiar por várias e compreensíveis razões, umas de ordem estritamente governativa e político-partidária (quando não solidariamente patriótica), outras de superior calibre intelectual, epistemológico, ético e social.

Porém, ainda pela proximidade indeclinável de mais exigentes razões, argumentos e discursos de fundo, outrossim subentendidos ou pressupostos, deve salientar-se que Santos Silva é um bom sociólogo, com obra apreciável, especialmente pelos seus contributos metodológico-científicos, cujas categorias críticas seriam aliás bem úteis para aplicação à desmontagem dos seus desempenhos mediáticos e retóricos como governante de Lisboa, tais aqueles que acaba de tornar a consumar...


– Quanto às suas afirmações na última audição da Comissão de Negócios Estrangeiros da AR, onde foi abordado o teor dos assuntos debatidos, a 18 de Dezembro passado, na então 40.ª reunião da Comissão Bilateral Permanente, nada de muito novo ou surpreendente há a registar, excepção feita talvez à vivacidade, um pouco arriscada e imperativa, determinante (ou dogmática?) com que assegurou (garantiu ou subscreveu?) a suposta (ou comprovada, mesmo sem o precaucionais falsificacionismo da exclusão popperiana!?) não existência de significativa relação etiológica, patogénica e epidemiológica entre a poluição/contaminação gerada (potenciada?) pela profunda implantação estrutural e pela prolongada e vasta fixação do tão inter-nacionalmente consentido rasto do antigo e desprezado complexo logístico-militar, material, orgânico, físico-químico e radiológico norte-americano na Terceira, com as respectivas influências e suspeitosas repercussões eco-ambientais na saúde pública (sobretudo no pluri-factorial e pluridimensional campo das doenças oncológicas...).

A questão da contaminação/descontaminação dos solos terceirenses tem marcado recentemente as agendas políticas locais, nacionais e internacionais. Neste domínio, como caracteriza o presente estado de coisas?

EFR – Desde logo, vale a pena salientar que aquelas afirmações de Santos Silva, em tom variável mas praticamente quase com dobrado conteúdo, haviam já sido proferidas anteriormente, tirando os lapsos sobre a inserção de verbas específicas no Orçamento americano, mas reincidindo sobre o horizonte e o andamento, alegadamente consensual e concertado, entre os governos de Lisboa e de Washington, no respeitante a mecanismos e acções saneadoras da comprovada e assente (des)contaminação ambiental!

De igual modo constata-se ali o recurso evocativo, contudo para impeditiva reserva ou omissão, porque em segredo diplomático, do enquadramento de complementares informações sobre o corrente processo da descontaminação e suas suplementares (compensatórias?) contrapartidas nacionais e regionais.


– Todavia há a registar agora uma mais detalhada referência, nos Pontos 14 a 21 da Declaração Conjunta, às contendas localizadas como alvo de estudos (do Governo Regional/LNEC) e intervenções conjuntas na limpeza radical ou (simples?) encerramento de diversos sítios poluídos ou contaminados, na expectativa de outras pendentes e “possible closures of sites”, e bem assim do curso do derrame no oleoduto do Cabrito, a ser submetido ao 65th ABG através do “previsto no Acordo sobre o Estatuto das Forças da NATO (SOFA)”. 

De seguida, a dita Declaração (44 Pontos em Acta), deixa genericamente perceptível um crescente interesse das partes, com detectável inclinação portuguesa, para ancestrais e novas áreas da Defesa e Segurança Nacional, Ciência e Tecnologia Aeroespacial, Cibersegurança, Combate a Fogos Florestais, Clima e Oceanos, Comércio, Investimentos, Energia e Combustíveis (GNL).


Ao longo de anos, em muitas intervenções públicas e em ensaios académicos, tem-se pronunciado criticamente e estudado várias das vertentes da presença norte-americana na Terceira, na Base das Lajes e no concelho da Praia da Vitória. Face ao que analisou, como encara hoje essa problemática?

EFR – Como é sabido, o que tenho procurado reflectir foi efectivamente mais conduzido a partir de uma perspectiva crítica, filosófico-política, teorética e antropológico-cultural, prendendo-se também com a chamada recepção da presença norte-americana entre nós, no que aí está presente de uma vasta problemática envolvendo representações sociais, modelos simbólicos e discursos identitários, para além naturalmente de uma atenção ao papel das elites e actores locais, no arquipélago e fora dele, face, perante e após a chegada dos contingentes militares estrangeiros e seus densos impactos no exercício do Poder nacional/regional/local, na soberania, na economia produtiva, no comércio e nos serviços, na estrutura patrimonial, laboral e fundiária (mormente na zona do Ramo Grande), enfim, nos usos, costumes, linguagens, etc.


– Assim, conferências como Estrangeiros “At Home”: Leituras de uma Recepção Histórica, apresentada no Colóquio Internacional sobre Terrorismo e Ordem Mundial (2002) ou Identidade, Diplomacia e História: Recepção, Representações e Heranças da Presença Aliada nos Açores, no Colóquio Internacional sobre Portugal e o Atlântico (Fundação Humberto Delgado/Assembleia da República, 2003) inseriram-se nessas leituras.

Finalmente, tenho procurado atender ao confronto e rupturas mundividenciais que se verificaram neste frágil e dependente microcosmos insular, com os seus cíclicos desafios e custos, mas não à margem das grandes crises portuguesas, europeias e do Ocidente no seu todo (v.g. fragmentação dos Impérios Coloniais e do próprio projecto imperial lusíada, reconfiguração dos Blocos, hegemonias e polaridades, sobretudo desde o Estado Novo ao 25 de Abril de 74 e até hoje), sendo que o que se passa neste nosso tempo e à nossa volta é ainda reflexo e mutação acelerada de tudo isso, para o bem e para o mal...

– O outro projecto, sobre o qual conversámos e cuja fase de investigação empírica foi originalmente realizado para Doutoramento em Antropologia Médica e Psicossociologia da Saúde na Universidade do Porto (ICBAS), sobre o campo oncológico (uso o conceito de campo tal como Bourdieu o tratou), de facto nunca se debruçou especificamente sobre eventuais conexões geo-etiológicas à Base das Lajes.

É sabido que tem proposto diferentes abordagens a todas estas situações. Como e em que medida lhe parece poderem as mesmas ser concretizadas?

EFR – Esta é uma complexa, conquanto muito apelativa, área multidisciplinar que vejo, com satisfação, ir merecendo renovados e inovadores contributos e horizontes de abordagem, para além de preciosos contributos, levantamentos e divulgação de fontes e pistas documentais, como é o caso da recente e notável Tese de Doutoramento de Armando Mendes.

Porém, infelizmente, o que não vejo, da parte das instâncias políticas e individuais rotinadas, é significativos empenhos sólidos, procura e aquisição de competências intelectuais, técnicas e decisórias, com afirmação de rigor institucional e formação de opinião pública esclarecida, credenciada, atendível, e só desse modo, ambas, respeitáveis e respeitadas! Tentativas censórias ou coercivas a nada ajudam! E receio mesmo que tenhamos perdido já grandes oportunidades geracionais e conjunturais, que a Autonomia poderia ter gerado e que estavam vivas na nossa esperança, quiçá utópica, de ver consolidadas nos nossos fatídicos dias...


– Mas veja-se lá, voltando à questão principal desta Entrevista, que nunca fomos capazes de organizar uma verdadeiramente grande Conferência Internacional sobre a Base das Lajes e seus impactos! Mesmo no caso do downsizing, das contaminações eco-ambientais e seus diversos antecedentes, consequências e processos alternativos de enfrentamento, resistência e tentativa de superação, bastaria olhar para a Ásia e oPacífico, para a América Latina e para a Europa (Alemanha, Espanha e Itália), para vislumbrar o que temos ignorado...

Não se trata só de uma questão envolvendo bases militares fora dos EUA (país aliado, nação amiga e sociedade livre e aberta), porquanto similares problemas tem-se colocado analogamente em comunidades locais e estaduais no próprio território interno dos USA... De resto, no coração da Europa, na Polónia, por exemplo, a questão da penosa herança neste domínio é com a Rússia (antiga URSS), onde casos como o de Borne Sulinowo, talvez sejam muitíssimo mais dramáticos do que o nosso, apesar dos OCS russos, que pressurosamente visaram Portugal, os Açores e os Estados Unidos, deles se terem inocentemente esquecido ou deliberadamente omitido as levianas mãos...

– E nisto Santos Silva terá razão, enfim, ao menos sociologicamente falando, pois como ele escreveu em “Agir na Globalização”, e cito-o parafraseando, aqui a análise sociológica  ao menos ajudaria a identificar problemas e a definir um quadro para discussão científica, longe dos sensos ou sentidos meramente comuns ou vulgares (também eles urdindo preconceitos, inócuas ideologias e falsas propagandas), porquanto, se respostas políticas “são certa e felizmente variáveis”, haveríamos, ao menos aí, de tentar entendermo-nos sobre “eixos temáticos” fundamentais, em torno dos quais poderíamos ainda reconstruir uma meta-narrativa crítica e séria, cívica, justa e democraticamente legitimada!
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(*) Entrevista concedida ao jornal "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 16.03.2019):




quinta-feira, fevereiro 21, 2019


ENTREVISTA
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VITORINO NEMÉSIO:
Evocação e Memória
de uma Obra ímpar na Cultura Europeia


Cumprem-se agora 41 anos sobre a morte de Vitorino Nemésio. Que memória evocativa tal efeméride lhe suscita?

Eduardo Ferraz da Rosa (EFR) Em 1999, intervindo numa Vídeo-Conferência nacional a partir da Praia da Vitória e justamente evocativa da passagem dos 21 anos da morte de Vitorino Nemésio, pude testemunhar uma vez mais do valor cultural, literário (poético, romanesco e contista), ensaístico, crítico, sociológico, antropológico, etnográfico e estético da sua vasta e diversificada Obra, naqueles vários géneros, estilos, conteúdos e horizontes de sentido que a integram e constituem como uma das mais ricas produções criativas e originais da Língua e da Cultura portuguesas.

– Agora, neste quadragésimo primeiro aniversário do seu falecimento, vale a pena de facto relembrar a sua vida e obra, começando pelos percursos da sua vida e carreira académica.

Nascido em 1901, na Praia da Vitória – essa terra que na sua escrita será sempre uma entidade tão real quanto imaginada –, este Açoriano passou ali a sua infância, antes de estudar nos Liceus de Angra do Heroísmo (1912) e da Horta (1918).

Partindo depois para o Continente, primeiro para cumprir serviço militar (em 1919) e depois para completar os estudos secundários e frequentar as Universidades de Coimbra e de Lisboa, licenciou-se em Filologia Românica (1931) na Faculdade de Letras da capital. Leccionando já nesta última, viria a doutorar-se (1934) com uma inovadora Tese sobre Alexandre Herculano.



A passagem de Nemésio por Coimbra foi decisiva na sua formação e também na construção de uma imagem de intervenção cultural e cívica, que tem sido acentuada por si, a partir de registos e vertentes diversas que evoluíram e em parte se diferenciaram posteriormente...

EFR – ... Pois... Como é sabido, Nemésio vai para Coimbra em 21 (com 20 anos...), ali permanecendo até 1930 E em 1931 vai para Lisboa, onde acaba a Licenciatura em Filologia Românica, como vinha a dizer. É pois assim seguramente marcante esse período, entre muitas outras acções, oscilações (e iniciações...), associações, militâncias intelectuais, sociopolíticas, literárias e ensaísticas. E também pelas mudanças de Curso, a morte do pai, idas a Espanha com o Orfeão Académico, contactos com Unamuno, Brandão, Ortega; o Paço do Milhafre, a primeira teorização hermenêutica de “O Açoriano e os Açores”, o casamento, os filhos, etc.


Vitorino Nemésio em Coimbra, com Miguel Torga, António de Sousa, Afonso Duarte e Paulo Quintela (1939)


Mas, ainda sobre as influências de Coimbra, vale a pena referir aqui o exemplo de um texto de Nemésio sobre António Nobre, figura que os antigos estudantes de Coimbra, no conhecimento da sua tradição, não tem deixado de evocar até hoje E foi mesmo sobre o poeta do Só que o nosso escritor escreveu, em palavras que a si mesmo poderiam aliás aplicar-se, que na sua poesia estava muito do “breviário da sentimentalidade portuguesa, da nossa concepção emotiva do mundo: os valores morais poetizados, a infância e a adolescência como idade de ouro do homem, a perene recordação da intimidade com coisas e seres”.

Deste modo, analogamente, como pude tematizar antes, este perfil de Homem Português – proporcionada, diferenciada mas extensivamente Açoriano (ou vice-versa...), como nosso ancestral, digo antigo, modo específico de sê-lo – que o jovem Vitorino Nemésio (estudante de Coimbra, agitador de ideias e jornais e panfletos e lutas estudantis, repita-se...) transporta consigo e ali vai aprofundar, ou criativamente redescobrir e problematizar, naqueles cruciais, atribulados, conflituais mas criativos seus anos 20. Os mesmos aliás que constituem os marcos balizadores da sua mais forte ligação inicial (e terminal!) à cidade do Choupal...

Mas, tão seguramente ainda, foi desse mesmo período e das suas vivências, afectos e pensamentos que ficaram as marcas mais fundas e as heranças coimbrãs mais salientes de Nemésio, com os seus pontos altos e as suas planuras, até àquela derradeira e compensatória morada do seu novíssimo regresso de 1978, na travessia que presenciei na velha ponte sobre um Mondego de saudade, distância e proximidade conjuntas...

A obra de Vitorino cedo granjeou projecção nacional, mas acabou por projectar-se à escala europeia e muito especialmente luso-brasileira...


Nemésio ao receber o Prémio Montaigne da Fundação F.v.S. (Freiherr von Stein/Friedrich von Schiller) de Hamburgo. Cerimónia na Fundação Gulbenkian (Lisboa, 13.03.1974): 
“Já agora morrerei na ilusão de que sou um homem de palavra, sujeito do meu pensamento. E que há palavra de honra, bem o prova a concessão que me foi feita do Prémio Montaigne”.


 EFR – Sim! Prémio Ricardo Malheiro Dias da Academia das Ciências de Lisboa pelo romance Mau Tempo no Canal (1944); Grande Prémio Nacional de Literatura (1965); Prémio Internacional Montaigne da Fundação F.v.S. de Hamburgo (para Humanistas dos países românicos da Europa); Doutor Honoris Causa pelas Universidades de Montpellier e Ceará; Professor Universitário também na França, Bélgica, Inglaterra, Holanda, Luxemburgo, Alemanha, Suíça e Espanha, – Vitorino Nemésio desenvolveu realmente, ao longo de toda a sua vida, um notável e sistemático diálogo crítico e um vasto trabalho de leitura, meditação e assimilação compreensiva, interior, académica e histórico-civilizacional da Cultura Europeia com os mais importantes parâmetros da Portugalidade em todos os Continentes, mas com especial destaque para a Cultura Luso-Brasileira.



Quais os principais núcleos temáticos que tem estudado na obra de Vitorino Nemésio e que constituíram objecto de abordagem nos seus escritos e nas suas teses académicas?

EFR – A grande riqueza literária e humana de todas as facetas de Nemésio advém bastante da ligação e da mútua pertença que nele se foi criando entre a Vida e a Obra, de tal modo que esta é mesmo a melhor revelação dos percursos daquela...


Proferindo a sua "Última Lição", na Faculdade de Letras de Lisboa (09.12.1971)


E desde logo, a vida vivida, os problemas que sentiu, as questões que pensou, as dúvidas, as crises e os mistérios existenciais que se lhe depararam, a par das esperanças mais íntimas e profundas que o moveram, e que estão bem reflectidas em tudo o que disse, escreveu e impressivamente legou ao seu tempo e ainda ao nosso!

Nesta efeméride da sua morte, que melhor homenagem ser-lhe-ia devida?

EFR – Neste mesmo dia 20 de Fevereiro de 2019, tal como naquela efeméride de há vinte anos, e com as mesmas palavras de então em plena vigência nos dias que correm, bom seria retermos ao menos um dos discursos de Nemésio e a sua metódica e sistemática atitude atencional – “Parar, reparar e admirar. Fazer isto às pessoas, como fazemos às coisas” – como norma de humanidade e testemunho do autêntico...


– “Parar, reparar e admirar. Fazer isto às pessoas, como fazemos às coisas” – como norma de humanidade e testemunho do autêntico...

Assim, a melhor homenagem que lhe poderíamos continuar a prestar seria a da releitura potenciadora de sentido e o estudo crítico das suas Obras e do Pensamento nelas plasmado, sem banalizações de linguagem e signos, antes porém no aprofundamento e no aproveitamento pleno, legítimo e fidedigno das suas insuspeitadas dimensões, em múltiplos, convergentes e complementares ramos disciplinares...


“... uma renovada, aberta e mobilizadora Açorianidade cultivada e culta, 
de consciência histórica emancipadora...”

– E naturalmente ainda, diga-se mais, nas suas conectáveis integrações de saber, aí incluída uma espécie de arte de viver e assumir uma renovada, aberta e mobilizadora Açorianidade cultivada e culta, alternativa, social, cultural e cívica, cuja falência prática em modelos de suposta auto-governação (infeliz e diariamente falida ou menorizada...) é o contemporâneo contra-testemunho diário de muito do que havíamos todos esperado em anteriores épocas e graus autónomos de consciência histórica emancipadora, quando não pós-colonial, endógena e exógena, interna e externamente presente na vida das pessoas individualmente respeitadas e na existência colectiva das suas comunidades regionais e nacionais de origem e destino!
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 Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 21.02.2019):




Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=3378,





e em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 24.02.2019):






quarta-feira, fevereiro 20, 2019


VITORINO NEMÉSIO:
Breve reflexão de Memória 
nos 41 Anos da sua Morte


Em 1999, intervindo numa Vídeo-Conferência nacional a partir da Praia da Vitória e justamente evocativa da passagem dos 21 anos da morte de Vitorino Nemésio, pude testemunhar uma vez mais do valor cultural, literário (poético, romanesco e contista), ensaístico, crítico, sociológico, antropológico, etnográfico e estético da sua vasta e diversificada Obra, naqueles vários géneros, estilos, conteúdos e horizontes de sentido que a integram e constituem como uma das mais ricas produções criativas e originais da Língua e da Cultura portuguesas.

– Hoje, 20 de Fevereiro, quadragésimo primeiro aniversário do seu falecimento, relembro novamente a sua vida e aquela obra, nesta ainda retomada memória de outros textos e reflexões anteriores:

Nascido em 1901, na Praia da Vitória – essa terra que na sua escrita será sempre tanto uma entidade real quanto uma entidade imaginada em afectos, temporalidade e pensamento, tal como, de resto, a sua própria auto-descoberta construída “peça a peça/ De saudade, vagar e reflexão”... –, este Açoriano passou ali a sua infância, antes de estudar nos Liceus de Angra do Heroísmo (1912) e da Horta (1918). 



Partindo depois para o Continente, primeiro para cumprir serviço militar (em 1919) e depois, sucessivamente, para completar os estudos secundários e frequentar as Universidades de Coimbra e de Lisboa, licenciou-se em Filologia Românica (1931) na Faculdade de Letras da capital. Leccionando já nesta última, viria a doutorar-se (1934) com uma inovadora Tese sobre Alexandre Herculano.



Prémio Ricardo Malheiro Dias da Academia das Ciências de Lisboa pelo romance Mau Tempo no Canal (1944); Grande Prémio Nacional de Literatura (1965); Prémio Internacional Montaigne da Fundação F.V.S. de Hamburgo (para Humanistas dos países românicos da Europa); Doutor Honoris Causa pelas Universidades de Montpellier e Ceará; Professor Universitário também na França, Bélgica, Inglaterra, Holanda, Luxemburgo, Alemanha, Suíça e Espanha, – Vitorino Nemésio desenvolveu, ao longo de toda a sua vida, um notável e sistemático diálogo crítico e um vasto trabalho de leitura, de meditação e de assimilação compreensiva, interior, académica e histórico-civilizacional com os mais importantes parâmetros da Portugalidade em todos os Continentes, com especial destaque para a Cultura Luso-Brasileira.



– Pelo verbo luminoso e iluminado da sua Poesia, nunca será demais reafirmá-lo – desde a sua última Sapateia Açoriana (1976) ao debutante Canto Matinal (1916); pela procura diligente e sincera das possíveis respostas às mais necessárias e eternas perguntas do Homem e da Humanidade – desde Era do Átomo/Crise do Homem (1976) até O Poeta Povo (1917); da Crónica e do Artigo de Jornal ao Ensaio Histórico; da Poesia à Crítica Literária e à Teoria da Ciência; da Antropologia Cultural à Novela, ao Conto e ao Romance; da Estética à Religião e à Teologia; enfim, do Memorialismo e da Literatura de Viagem à Filosofia e à Teoria da Cultura e da Sociedade, – de tudo isso se entreteceu o poderoso discurso nemesiano.



A grande riqueza literária e humana de todas as facetas de Nemésio advém bastante da grande ligação e da mútua pertença que nele se foi criando entre a Vida e a Obra, de tal modo que esta é mesmo a melhor revelação dos percursos daquela.

– A vida vivida, os problemas que sentiu, as questões que pensou, as dúvidas, as crises e os mistérios que se lhe depararam, a par das esperanças mais íntimas e profundas que o moveram, estão bem reflectidas em tudo o que disse, escreveu e impressivamente legou ao seu tempo e ainda ao nosso.



Neste mesmo dia 20 de Fevereiro de 2019, tal como naquela efeméride de há vinte anos, e com as mesmas palavras de então em plena vigência nos dias que correm, bom seria retermos ao menos um dos discursos de Nemésio e a sua metódica e sistemática atitude atencional – “Parar, reparar e admirar. Fazer isto às pessoas, como fazemos às coisas” – como norma de humanidade e testemunho do autêntico, como ele recomendou e o exerceu.



– Assim, a melhor homenagem que lhe podemos continuar a prestar será a da releitura potenciadora de sentido e o estudo crítico das suas obras e do seu pensamento nelas plasmado, no aprofundamento e no aproveitamento pleno das suas insuspeitadas dimensões, em múltiplos, convergentes e complementares ramos disciplinares, e nas suas conectáveis integrações de saber, aí incluída uma espécie de arte de viver e assumir uma renovada e mobilizadora Açorianidade alternativa, social, cultural e cívica, cuja falência prática em modelos de auto-governação diariamente falida é o contemporâneo contra-testemunho diário de muito do que havíamos todos esperado em anteriores épocas e graus autónomos de consciência histórica da vida nacional e regional...

Angra do Heroísmo, 20.02.2019
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Publicado em Azores Digital:
http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=3376,
e em "Correio dos Açores" (Ponta Delgada, 20.02.2019):


terça-feira, novembro 27, 2018



Entrevista
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EDUARDO FERRAZ DA ROSA

 AFINIDADES DE IDEAL:
Novas presenças da Maçonaria
manifestam-se na ilha Terceira


Do ponto de vista sociológico e filosófico, sobre a Maçonaria em geral e sobre a sua actual acção e implantação entre nós, como encara a anunciada sessão-debate entre Fernando Lima e Frei Bento Domingues na Câmara de Angra, a par da presença de António Lopes na apresentação da revista “Atlântida” do IAC, na Praia da Vitória?

Não é a primeira vez que o actual Grão-Mestre da Maçonaria (GOL), Fernando Lima, e o historiador António Lopes vêm aos Açores a fim de participarem em conferências, debates e outras acções de divulgação, estruturação e consolidação institucional, em parcerias públicas ou prováveis cerimoniais íntimos ou restritos...

O mesmo já aconteceu antes, com outros destacados dirigentes, idênticos objectivos ou similares funções, com destaque para o mais conceituado historiador e respeitável vice-Grão Mestre, Prof. António Ventura, ou ainda, em tempos mais recuados, com o distinto maçom António Arnaut, infelizmente já falecido.



– Todavia, desde a publicação da História da Maçonaria nos Açores (de António Lopes, director do Museu Maçónico), tem-se realmente vindo a acentuar a actuação, possíveis adesões e influências da Maçonaria, especialmente na Terceira, bastando recordar a propósito, entre outros, os depoimentos de António Reis (antigo Grão-Mestre); os casos e meandros que o DI publicou sobre a Loja “Vitorino Nemésio”, cuja listagem (eventualmente não completa) está hoje disponível em múltiplos acervos e bases; o grande Congresso maçónico, que reuniu na Praia da Vitória, em 2015, com a participação de representações de todas as obediências portuguesas; a homenagem da Câmara de Angra e do GOL a D. Pedro IV e Teotónio O. Bruges, em 2016 (1); a conferência de António Ventura, promovida pela Direcção Regional da Cultura, na Biblioteca de Angra, sobre Luís Ribeiro, em Dezembro de 2017; a comemoração dos 300 anos da Maçonaria, na Câmara de Angra, com palestra de António Lopes (2), há apenas seis meses, e agora os eventos anunciados (3)...



A que factores e que significado atribui a esta intensa presença activa da Maçonaria, com a realização local de parcerias?

Embora não sendo nova (como se poderia mais constatar...), na verdade não pode deixar de ter-se como evidente que tem vindo a aumentar a penetração e a real implantação da Maçonaria (mormente do GOL – Grande Oriente Lusitano) entre nós, tal como é notório o acolhimento (não sei se em idealizada iniciativa primeira ou simples colaboração subsidiária...) por parte das nossas autarquias (Angra e Praia) e dos nossos institutos (especialmente do Instituto Açoriano de Cultura, cujas direcções, nos últimos anos, são tidas e ditas e feitas como próximas da Maçonaria).


 – Como tal, parece-me, tais afinidades de ideal (ou reais irmandades accional e pessoalmente concretizadas), por si só, não terão nada de inédito e reprovável, desde que mantidas as devidas e exigíveis autonomias de decisão, sem secretismos ou cinismos de anonimatos de filiação individual, com transparência de meios e fins, declaração visível de interesses específicos e suas delimitações orgânicas, estatutárias, jurídico-institucionais, sociopolíticas e culturais...

Quanto a aceitações pessoais, por um lado, e ao incremento e partilha táctica ou estratégica de “parcerias”, por outro, sendo a situação complexa e difícil de avaliar, não quero fazer juízos sobre a consciência particular (ou ideário, crença, ideologia ou fé...) de ninguém.

– Todavia, ainda quanto às ditas parcerias institucionais, públicas ou associativas, já as mesmas, comprometendo opções, prioridades, meios, contrapartidas programáticas e simbólicas, podem, por isso mesmo, patentear evidentes consensos (ou falta deles!), em órgãos de governação e gestão cujos mandatos e decorrentes conduções, derivas e fiscalizações devem ser sempre tidas em conta, peso e atenta medida pelos respectivos eleitos, eleitores e sócios das próprias agremiações, entidades e colectividades, como é de lei e boa moral em elencos de direcção, executivos, assembleias, parlamentos, comissões, conselhos, etc.



Vê algum significado na vinda de Bento Domingues a Angra, para dialogar com o Grão-Mestre da Maçonaria?

Não vejo nesta presença do teólogo Bento Domingues (cuja obra e pensamento conheço bem), nenhum significado especial... Mas encaro-a com expectativa, nestes tempos de vazios e buscas de sentido, outras gnoses e gnoseologias, (des)crenças e (in)certezas psico-existenciais, heterodoxias e relativismos, alternativos sistemas de Poder, interesses e ordens...

De resto, frei Bento conhecerá certamente os fundamentos da posição da sua Igreja sobre a Maçonaria (e vice-versa), e bem assim as suas evoluções, responsabilidades e facetamentos histórico-doutrinais e socio-pastorais! Tanto mais quanto o tema da referida sessão é mesmo paritariamente formulado assim: "Diálogos: a Igreja e a Maçonaria ao serviço da Sociedade"!

– Todavia, independentemente de imperativos de seita ou de normativos dogmáticos, eclesiásticos ou eclesiais, para mim, o essencial destes debates é sempre, acima de tudo e antes de mais, de cariz filosófico, ético e político, nas suas diferenciadas representações, crítica e sistematicamente pensadas, bem entendido!

 

Em todo o caso, a dimensão religiosa e propriamente teológica do fenómeno maçónico, que também está aqui indeclinavelmente implicada, não poderá nunca ser escamoteada ou subtraída a esta já ancestral e simbólica querela de verdades e mitos...

Agora, a realização e as presenças em simultâneo de três eventos maçónicos nas duas câmaras municipais terceirenses, em articulação com outras organizações, não deixa de suscitar ponderação, pela sua já regular coincidência e pela notória conjugação de vários factores dinâmicos, actores e protagonismos.

Num texto que publicou em 2015 (4), por ocasião do Congresso maçónico da Praia da Vitória, pronunciou-se sobre alguns valores e desvalores da Maçonaria. Retomaria hoje essas apreciações?

Sim, certamente. Aliás não só as retomava quanto as reforçaria, à luz dos factos que vimos analisando, porquanto já aquele grande evento da Maçonaria portuguesa, então promovido e organizado pelo Centro de Estudos Maçónicos, com o suporte da Câmara Municipal e da Cooperativa Cultural da Praia, constituiu feito digno de registo por tudo o que significou e granjeou na colectividade local (de resto mais fadada e aparelhável para a tanga do que para o avental)!



– Tal certame, encenação aliás de uma verdadeira cimeira inter-pares, tendências e lojas (para doutrinação, aliança e propaganda confluentes), como fora pretendido e ficou à vista de quantos não andam de olhos vendados em noite de quarto escuro, sem lua na faixa ou na martelada de almofarizes, depois se encarregaria de assegurar em continuidades práticas, para “o bem e o progresso da humanidade”, sob o cósmico olho vigilante do Supremo Arquitecto...



De qualquer modo – devo repetir o que na altura logo também salientei – não poderá deixar de continuar a constatar-se que na Maçonaria, como em todas as instituições, haverá pessoas de bem, mérito e genuína valia, a par de outros cuja errática e oportunista carreira, mediocridade cívica e pérfidas jogatinas de poder e fortuna interligados são o intolerável contra-testemunho contínuo de quaisquer apregoados ou supostos “ideais fraternos e humanistas” (ou assim pretensamente assumidos), nas cabeças trianguladas e nas pedreiras daquelas lojas e lojecas, mais ou menos inocentemente ditas “culturais”, por entre muita roupagem de avental a servir de tanga...

P.S. - Entretanto a citada Sessão do dia 1 de Dezembro de 2018, na Câmara Municipal de Angra, sem mais comentários, pode ser integralmente vista e avaliada na cobertura da VITEC, disponível aqui:



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(1)  Cf. Reportagem-Video VITEC, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=8JA1R_uVdec


(3) Cf. Notícias em:  

(4) Cf. "Os Aventais e a Tanga", em https://sinaisdaescrita.blogspot.com/2015/11/os-aventais-e-tanga-recente-realizacao.html
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(*) Texto da Entrevista concedida ao "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 27.11.2018),  publicado em "Azores Digital" (http://www.azoresdigital.com/colunistas/ver.php?id=3368), e também no "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 30.12.2018) e no "Atlântico Expresso" (Ponta Delgada, 03.12.2018):








sexta-feira, outubro 19, 2018



Um Debate frutuoso:
Indigências políticas
destroem a Autonomia

[ Entrevista com Eduardo Ferraz da Rosa ]



Passadas duas semanas sobre a realização do Debate, promovido pelo Grupo Parlamentar do CDS-PP nos Açores, sobre “Liberdade de Expressão e Sociedade Democrática”, que balanço faz das abordagens e repercussões dessa iniciativa?

Em primeiro lugar devo renovar palavras de congratulação por esta iniciativa, conforme aliás foi unanimemente salientado pelos membros da Mesa e por todos os participantes e intervenientes no debate, tal como depois também se constatou pelas repercussões e testemunhos expressos nos jornais e nas redes sociais.

Esta sessão teve não só uma significativa adesão presencial quanto mais se revestiu de um carácter aberto, pluripartidário e livre, desde logo reconhecível pelo timbre plural dos principais intervenientes e seus depoimentos.



– O tema do debate, no presente contexto da nossa vida cívica, sociopolítica, cultural e técnico-científica, estava bem sinalizado à partida, na induzida relação universal entre intervenção e participação societária e cívica; comunicação social e sistemas censórios; mecanismos de ocultação da verdade ou de condicionamento de opinião; papel dos jornalistas e recrutamento, estatuto e desempenhos dos assessores de Imprensa; prenúncios fragilizadores e dificuldade da comunicação social privada, etc.

Ora todas estas perspectivas foram abordadas a partir de leituras sectoriais e interdisciplinares, desde o Direito Constitucional à Legislação vigente (v.g. Lei de Finanças das Regiões Autónomas) e ao Direito Autonómico, da Filosofia e da Acção Social e Política à Ética e à Deontologia da Comunicação, passando pela análise e documentação de casos concretos e actuais, manifestações reais e diariamente constatadas de problemas interligáveis...



Na abertura do Colóquio, salientou que um “pano de fundo” do actual Debate seria o conhecido caso do Prof. Félix Rodrigues. Como vê a declarada intenção da Câmara da Praia ao anunciar que iria instaurar-lhe um processo-crime?

O Debate foi pontualmente também catalisado pelo caso referido, que constituiu, como era previsível e expectável, um horizonte imediato e próximo dos temas propostos, na medida em que a dita e anunciada intenção camarária logo gerou relevo justificado, não fosse o visado, coincidentemente, um universitário activista e um militante político.

– Todavia, a questão fundamental, que ultrapassou qualquer delimitação individual ou cingidamente político-partidária (embora não devendo escamoteá-las!) prendia-se e prende-se essencialmente com o exercício público da liberdade de opinião, criação, investigação, denúncia, pronunciamento crítico e precaucional, e obviamente de manifestação técnico-científica, para mais num domínio que entronca em áreas de especialidade, estudo e habilitação que até o próprio Parlamento Regional havia antes reconhecido!

Parece-lhe que esse hipotético processo judicial tem pernas para andar?

Não sabemos! Talvez que seja mesmo e apenas um arremesso hipotético, fruto de delírios passageiros, como se diz popularmente, sem tino ou “sem cabeça para andar”, ou então com pernas e pés mas para mancar, em jeito de intimidação ou condicionamento, quiçá na continuidade de cominações anteriores...

Já a adesão ou o implícito suporte parlamentar (regional, concelhio ou paroquial) do PS a tais pulsões ziguezagueantes da banda da Praia é sintoma lamentável e preocupante, não augurando nada de positivo!

Aliás, é manifesta a reserva e prudente distanciamento de outros sectores do PS, face às reincidentes e extemporâneas investidas do novel e imaturo elenco camarário “socialista” praiense...




– Porém, não fora a dura redacção das moções do CDS-PP (que acabaram por ter a virtude de fazer cada um mostrar o que era capaz de assumir!), possivelmente as suas propostas não teriam sido totalmente inviabilizadas... Ao menos a da ALRAA talvez não tivesse sido repudiada daquele modo, no que aliás se teria evitado a tristíssima manifestação de submissão colectiva de consciência, indigência político-jurídica e até cultural, das quais aquela orante bancada, balbuciante e aplaudente do PS, deu sobejas provas, outra vez...

Ao fazer a Apresentação do tema e ao participar no Debate, teve oportunidade de formular várias das suas próprias ideias sobre a problemática em análise. Quais as principais perspectivas que expôs e que salientaria para reflexão futura?

Comecei por salientar que a Liberdade de Expressão é uma conquista histórico-civilizacional das modernas sociedades democráticas, um direito fundamental constitucionalmente garantido e integrado no âmbito de todos os outros direitos, liberdades e garantias, de tal modo que a democraticidade de uma dada sociedade e de um Estado de Direito se pode aferir pelo grau de liberdade de expressão enquanto correlativo exercício de Cidadania.




Tal direito, em Portugal, está explicitamente consagrado no artigo 37.º da Constituição, devendo porém ser articulado com outros direitos constitucionais paralelos, confluentes e complementares, como sejam os consignados nos artigos 42.º (criação técnico-científica) e 64.º (saúde), todos eles mutuamente apeláveis para cabal entendimento e discussão do grave e pendente problema da contaminação dos nossos solos e aquíferos... Estas perspectivas foram conjugadamente muito bem traduzidas por Zuraida Soares e Arnaldo Ourique!

– No que à Comunicação Social diz respeito, sinalizei ocorrências marcantes da recorrente dificuldade de coabitação dos poderes políticos hegemónicos com a Liberdade de Expressão e de Informação, antes e depois do 25 de Abril de 74, salientando que os OCS são campos mediadores do mundo social, das suas instituições e agentes públicos e privados, recordando, com Bourdieu, que “o jornalismo é uma das profissões onde encontramos mais pessoas inquietas, insatisfeitas, revoltadas ou cinicamente resignadas”, o que ajudará a compreender fragilidades e bloqueios como os que foram alvejados por Armando Mendes.

Finalmente, no que concerne a globais configurações críticas, epistemológicas, éticas, políticas e científicas, tive ensejo de abordar em síntese o que constitui um campo mais avançado e exigente do Conhecimento, da tematização filosófica e da prática situada da produção de Ciência, nas suas conaturais dimensões sociopolíticas e precaucionais, tal como tem sido reflectido e assumido por técnicos e especialistas “tout court”, cientistas e pensadores sociais, decisores político-institucionais e pelos diversos actores sociais e cívicos, em comunidades locais e de pares, para partilha de informação, resistência e emancipação...




De resto, a incontestável e comprovada contaminação dos solos e aquíferos da Terceira – de novo confirmada nas prosaicas pautas do Orçamento de Estado 2019, e para cujas quantificações e traduções executivas devemos estar atentos! – representa e materializa um paradigmático repto para estudos de caso, entendimento multidisciplinar e consequências práticas, no domínio da ciência pós-normal ou pós-moderna que corre a par e no encalço de riscos sistémicos e de alargados desafios político-jurídicos (mesmo em cenários de Direito Internacional e da Diplomacia entre Estados soberanos...), com incidência nos patrimónios ambientais, ecológicos e de saúde pública, através também de ensaios epidemiológicos sistemáticos e de outros estudos independentes, sujeitos a contraditório, revisão constante e falseabilidade...


Toda esta matéria é de urgente e superior interesse regional e nacional, pelo que não poderá continuar a ser enfrentada com indigência política, pequenez de horizontes, arrogância, irresponsabilidade, comodismo, medo, ignorâncias ou conivências cúmplices...



– Nem, menos ainda, com vergonhosa cedência a toscas tentações cuja viciosa supremacia ameaça destruir pela base os próprios fundamentos constitucionais da Autonomia, sobremaneira atingindo a dignidade presente e futura do nosso Povo e das nossas Instituições, subalternizando a vida e a morte das vítimas da História e todos os direitos fundamentais do Homem, a começar pelo direito àquela Verdade que única e genuinamente garante alguma da tão esperada e sempre adiada Justiça!
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 19.10.2018):






















Azores Digital:



















e "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 20.10.2018):