segunda-feira, abril 16, 2012

Os Fechos da Noite

Não é certamente novidade para ninguém que o consumo de álcool e de outras drogas representa um problema psicossocial e de saúde pública que atinge gravemente a nossa sociedade, sendo que este complexo fenómeno e compósita maleita começa a ganhar proporções epidémicas e um grau de manifestação já muito preocupante, não só entre camadas da população açoriana historicamente mais vulneráveis e atingidas por tal flagelo, quanto agora também e cada vez mais precocemente em escalões etários que chegam quase até à pré-adolescência!

– Várias são as razões para esta triste e preocupante realidade, e tanto para a sua decorrente morbi-mortalidade como para a respetiva e intrínseca força patogénica, que assentam – como é sabido – “por um lado, nos fatores socioculturais, envolvendo costumes, tradições e falsos conceitos transmitidos ao longo de gerações e determinando os hábitos, atitudes e comportamentos e, por outro, nas particularidades de um meio caracterizado por uma produção fértil e uma desmesurada e cega oferta de bebidas alcoólicas”, estando parte relevante e integrante de muito disto, como é salientado num conhecido documento da DGS, ainda compreensivelmente “na origem da elevada alcoolização geral da população do nosso país”, e tanto mais quanto é neste contexto que os indivíduos estabelecem os seus convívios precoces com o álcool, “encontro que, muitas vezes, se dá mesmo antes do nascimento”! E depois, sublinhe-se que, em termos políticos e socio-económicos, “grandes mudanças no consumo de álcool se encontram associadas às mudanças sociais”…

Ora – e mesmo sem introduzir hoje mais alguns dos últimos indicadores e fatores exponencialmente indutores ou potenciadores dos gravíssimos e interligados problemas aqui referidos –, recordemos que grande parte da impunidade civil e criminal, da permissão e da permissividade mutuamente implicadas nas suas generalizadas (quando não mesmo programadas!) facilitações, está ligada a toda uma cadeia nacional, regional e municipal de legislação conivente ou institucionalmente débil, como bem recentemente se constatou em Angra do Heroísmo, ao lado de consentidos e recorrentes cenários degradantes, pipas de negócio agiota e droguista, e quase total ausência de fiscalização, ao mesmo tempo que se continua a escancarar ou a prolongar contraproducente, mas concertada e festivaleiramente, as portas e os fechos da noite a toda uma medonha, alienante e irresponsável hipoteca global e sistémica sobre o presente das famílias e o futuro das novas gerações da nossa terra!
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Outra versão em "Diário Insular" (14.04.2012)
Publicado em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 15.04.2012),

sábado, abril 07, 2012

Restauração e Resistência




J. H. Oliveira Marques, num texto conhecido, antes de salientar que “nacionalidade não implica necessariamente independência” e que a Restauração de 1640, se justificada pelo seu enquadramento nacional, carecia de ser explicada por grande número de outros fatores, elencou justamente de entre estes os seguintes:

– A necessária e natural articulação da individualidade cultural com a independência política; a conjuntura económica dos impérios português e espanhol; o posicionamento das classes, formações e grupos socioprofissionais e sociorreligiosos; as situações político-militares da Europa (aí incluídas as revoltas regionais da Biscaia e a rebelião nacionalista da Catalunha…) balizadas pelos sucessivos reposicionamentos estratégicos da França, da Holanda e da Inglaterra, a par e no contexto conflitual dos vários pontos de vista teórico-jurídicos e diplomáticos, por sua vez ainda situados no quadro militar puro e próprio de um processo revolucionário e de renacionalização como foi o que se seguiu à insurreição restauracionista portuguesa do século XVII…

E outro historiador (Joaquim Veríssimo Serrão), ainda propósito da mesma Restauração, não deixou de acentuar que ela representa “um período bem definido da história portuguesa”, que se impôs pela “unidade temporal que define uma grande realidade histórica”, tendo constituído uma retoma da “plena consciência do sentimento nacional”, pelo que assim deveria ser encarada na sua plena “unidade de pensamento e de ação”!

Ora perspetivando criticamente hoje qual o sentido que poderia ter para nós repensar os desafios de outras tantas e tão urgentes restaurações contemporâneas, e aquilo que no nosso desditoso País histórica e simetricamente se reproduz, ou aqui contraditoriamente se opõe na geografia mental, sociopolítica e patriótica do nosso Povo em alturas de crise com a que vivemos (mutação social, usurpação de direitos e de chamadas ao dever…) –, é de lamentar tudo o que se passou com o saneamento, agora abusivamente decretado em Lisboa, do feriado comemorativo da Restauração, já que o mesmo poderia ter continuado a ajudar a sinalizar muito dessa decisiva cultura de independência, de justa resistência e de solidária mobilização nacional…

– Mas não hão de faltar, por certo, outras ocasiões, desde a mais humilde freguesia às tribunas e ruas das maiores cidades, para um libertador reajuste dos símbolos, dos ideais e dos meios de regeneração comunitária, institucional e individual, no atual contexto de quase idênticas fatalidades, decadência e injusta submissão…
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Publicado em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 06.04.2012),
“Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 08.04.2012)


sábado, março 31, 2012

A Leitura dos Desafios



Se há vocábulo cujas significativas e sugestivas aplicações e integrações expressivas estejam muito presentes no título de muitas obras ensaísticas ou de reflexão crítica e sistemática, tal é certamente o caso da palavra desafio.

De facto, deixando de parte algumas letraduras mais ou menos baratas ou vulgares, desde a essencial e relevante pertença aos mais fundamentais domínios conceptuais da Filosofia, da Sociologia, da Historiografia, da Política, da Economia, etc., até aos mais circunscritos âmbitos do seu uso no panfletarismo partidário, no colunismo opinativo ou naquele tipo de jornalismo que Maupassant classificou como próprio de alguns “retalhistas da comédia humana” (e também da sua reversa e trágica existência…) –, não há dúvida que o emprego daquela voz pode ser encontrado em múltiplos registos discursivos e argumentativos sempre em voga e mediática cena…

– E isto para já nem falarmos das regionais cantigas ao desafio, de tão grande tradição no nosso popular cultivo de artes de improviso e disputa de razões versejadas, quando não, em versão prosaica daquelas (embora tantas vezes em mal rimadas ou menos arrimadas formas), em certos debates e bate-papos que animam, à falta de melhor, a nossa estafada atividade político-partidária, a par de pobres arranjos noticiaristas que sobre tudo isso vão sendo taticamente congeminados aqui ao lado de tantos dos mais incríveis painéis e live-talks televisivos que quotidianamente invadem as nossas pantalhas, iludindo as consciências e escamoteando a verdade nua e crua da nossa realidade vivida!

Todavia, por entre tanta literatura e doutrinação política, também produzida nos Açores de há umas décadas para cá, talvez valha a pena relembrar que alguma dela contém, tanto na intitulada fraseologia como nos seus pertinentes conteúdos, precisamente aquele termo desafio…

– Talvez por isso, como ir-se-á ver por estes dias, a sua releitura atualizada seja novamente urgente, para repouso de alguns espíritos inquietos e desassossego de muitos mais!
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Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 31.03.2012),
"Correio dos Açores" (Ponta Delgada, 01.04.2012),

sexta-feira, março 23, 2012

A Diplomacia dos Interesses



O anúncio, agora tornado público, de que nos já bem próximos meses de maio e junho irão prosseguir os contactos trilaterais, contratos militares e negociações diplomáticas entre Portugal, os EUA e a NATO, com vista à reperspectivação efetiva e à redefinição logística e estratégica da presença militar aliada – mas estrangeira – na Base portuguesa das Lajes, não deixou nem deverá poder deixar de continuar a merecer o conveniente, necessário e competente acompanhamento possível (e nacionalmente permitido…) por parte da Região Autónoma dos Açores e dos seus órgãos político-institucionais, sociais e constitucionalmente representativos.

– Não sendo a questão em si propriamente inédita nem sequer imprevisível – e exatamente por isso, pelo menos e desta feita de há um certo tempo para cá… – é que, uma vez mais, o posicionamento desintegrado e descoordenado açoriano tem merecido entre nós algumas críticas severas, muitas delas com evidente fundamento na realidade dos factos, atos e omissões (do País e dos Açores...) nesta importante matéria!

Porém e assim talvez conviesse relembrar que, faz agora precisamente um ano, o anterior ministro português da Defesa (Augusto Santos Silva) haveria de deslocar-se aos EUA precisamente para “discussões” sobre o comando da NATO em Oeiras, a Base das Lajes e participação de firmas lusas em concursos militares norte-americanos, estando igualmente então em agenda a forma como ia ser feito “o alargamento e reparação da pista da Base das Lajes”, e a tentativa de urdir que empresas portuguesas, “do setor de Segurança e Defesa”, conseguissem “mais informação para participar em concursos” nos Estados Unidos!

E isto acontecia quase em coincidência com os suportes logísticos de projeção, abastecimento e retroação de força envolvendo as Lajes e planeados para a intervenção aliada na Líbia, de acordo com a estratégia da Operation Unified Protector, decorrente da Resolução 1973 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, e dos quais, por exemplo, é conhecido e foi muito paradigmaticamente elogiado o apoio local (alojamento de tripulações e segurança) prestados à aeronave E-3 Sentry, sedeada na Base Aérea de Tinker (552nd Air Control Wing), em regresso a casa (no Oklahoma), via Lajes, após serviço de apoio prestado a missões da NATO…

– Ora é por estas e por outras do mesmo jaez que os Açores não podem deixar de permanecer informada e competentemente acompanhantes de todo este complexo processo negocial português da Base das Lajes, à luz do presente mas sem esquecer as experiências passadas, e também sem confundir os interesses estratégico-militares com as vertentes diplomáticas, económico-financeiras e sócio-jurídicas das diversas (e amiúde adversas…) partes aqui envolvidas!
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Publicado em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 25.03.2012),
RTP-A: http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?headline=14&visual=10,
Azores Digital: http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2211&tipo=col

e Os Sinais da Escrita: http://sinaisdaescrita.blogspot.pt/.
Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 24.03.2012).

sexta-feira, março 16, 2012

Memória do Grupo de Genebra



Lançado já em diversos locais do Continente e felizmente apresentado na passada sexta-feira, dia 16 de março, nos Açores (Ponta Delgada), o livro Pátria Utópica – O grupo de Genebra revisitado, da autoria conjunta de Ana Benavente, António Barreto, José Medeiros Ferreira e Valentim Alexandre é uma sugestiva rememoração histórica, pessoal e crítica da experiência de partida e regresso a Portugal dos seus autores, naquilo que neles e com eles (então jovens socialistas revolucionários) configurou um misto de exílio político e de experiência de emigração, resistência, reflexão e formação universitária, durante a sua permanência, nas décadas de 60 e 70, na Suiça, onde – entre outros projetos e ações – também mantiveram a revista “Polémica” (cujo primeiro número sairia em 21 de setembro de 1970 e que, nas palavras de Medeiros Ferreira era “Inovadora em termos de pensamento, representava uma esquerda democrática, cortou com as análises estabelecidas e teve influência, pois era distribuída e lida clandestinamente em Portugal”) …

– Organizado sob a forma de um espécie de recolha de depoimentos – que começaram a ser elaborados, em 2009, a partir de uma propiciatória revisitação induzida através da retoma de encontros, diálogos e discussões regulares entre todos eles, e da qual resultou a passagem a escrita narrativa dos respetivos percursos de “rebeldia e irreverência”, como os classificou Eduardo Lourenço numa das sessões de apresentação da obra –, Pátria Utópica permite-nos seguir os caminhos trilhados e hoje reperspetivados por cada um dos “exilados”, dando-nos assim e em simultâneo um quadro-síntese e paradigmático de alguns dos motivos, dramas e estigmas que balizavam a vida do nosso País e os horizontes individuais de grande parte da juventude portuguesa, em especial da classe estudantil universitária, politicamente comprometida e ativista, naqueles “tempos difíceis” da Ditadura.

Por outro lado, sendo a obra um repositório do passado da Pátria (ou, diga-se, de certo modo, de uma ideia ou ideal dela para nós, Portugueses…) – vistos atualmente, “depois de décadas de apagamento da memória histórica, [em que] é de difícil inteligência pelo comum dos mortais o mal-estar da juventude portuguesa nos anos 60”, nomeadamente com a “ameaça da mobilização para a guerra colonial [que] pairava como uma ave de mau auspício sobre os destinos individuais” –, contém ainda o mesmo livro uma excecional carga utópica e crítica (ou, diga-se novamente, também aqui, de certo modo uma crítica da própria utopia passada à luz da sua sombra nos desencantos do presente…), como aliás tem sido muito percetível e bem denunciado nas subsequentes leituras e debates que os próprios autores – especialmente os meus antigos camaradas e militantes no PS, Medeiros Ferreira (historiador), António Barreto (sociólogo) e Eurico Figueiredo (psiquiatra) – sobre a sua e afinal nossa Pátria Utópica tem sempre retomado, de um ou de outro modo…

– Todavia e curiosamente, dois dos membros do agora bem lembrado Grupo de Genebra mantiveram (e mantém ainda) com os Açores uma natural ou estreita relação, a que já me referi em anteriores ocasiões, mas cuja recordação, mais pessoal, no âmbito da nossa então comum pertença ao Partido Socialista hei de saudosamente tornar a evocar em futura crónica.
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Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 17.03.2012).
Publicado em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 18.03.2012),

sábado, março 10, 2012

As (contra)partidas das Lajes


A história da Base das Lajes – desde a sua instalação e usos pelas forças aéreas inglesas e americanas, e pelas Forças Armadas Portuguesas, desde a já distante época da II Guerra Mundial, passando por alguns nucleares marcos de projeção de força militar e bélica transcontinental, até à presente conjuntura mundial, nacional e regional – tem sido feita de uma série de factos político-militares, diplomáticos, geoestratégicos e aeronáuticos; de múltiplas implicações e variáveis societárias, económicas, laborais e socioculturais, e de variadas narrativas e representações configuradoras de memórias, discursos e imaginários institucionais e pessoais que, no respetivo conjunto único, constituem parte importante da História dos Açores e da História de Portugal, no contexto, naturalmente mais amplo, da História da Europa, das Relações Transatlânticas e da Geopolítica Global do Século XX e início do corrente.


Ora nas últimas semanas a Base das Lajes voltou a estar na ribalta das notícias regionais e nacionais, como é sabido, por causa da pretensamente discreta, cabisbaixa ou sorrateira deslocação de uma delegação ministerial lisboeta aos EUA, ao que parece, entre outras coisas, para começar a discutir (?) alguns dossiers bilaterais relacionados com a continuação da presença norte-americana na ilha Terceira, nomeadamente no que diz respeito às possíveis contrapartidas (a par das pequenas e grandes partidas…) para o nosso País desse estacionamento estrangeiro (conquanto amigo e aliado) em solo insular autónomo mas integrante de Portugal (Nação com soberania própria, apesar de mitigada, e Estado, que se saiba rigorosamente e apesar de tudo, ainda não pária nem falhado, apesar de dependente…).

– E foi assim que assistimos também, sintomaticamente em leituras divergentes, a opiniões sobre a importância e/ou o desinvestimento da relevância geoestratégica, técnico-militar, político-diplomática e económica da Base das Lajes, mormente por relação às ratoeiras do famigerado Acordo de 95 e à redefinição das áreas de hegemonia mundial das potências dominantes, emergentes ou regressivas…

Porém, pena é que as mais competentes vozes e instituições açorianas nesta matéria a pouco ou nada, até hoje, tenham sido chamadas, neste baralho de intenções e interesses, camuflagem negocial e prestidigitação de armas e outros proventos…

– E tudo, em grande parte, de novo e infelizmente, por culpa nossa!
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As (contra)partidas) das Lajes:
Em “Diário Insular” Angra do Heroísmo, 10.03.2012),
“Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 11.03.2012),
http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2205&tipo=col,
http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?article=25807&visual=9&layout=17&tm=41,
e http://sinaisdaescrita.blogspot.com/

sábado, fevereiro 25, 2012

Diplomacias de Sirigaita

A notícia sobre a transferência para a Embaixada dos EUA em Paris dos serviços de concessão de Vistos para Emigrantes – com o decorrente encerramento de anteriores (e históricos!) desempenhos idênticos não só no Consulado em Ponta Delgada quanto ainda na Embaixada americana em Lisboa –, começou já a gerar grande mal-estar, indignação e justificados protestos nos Açores, nas Comunidades Açorianas imigradas nos USA e nalguns (por enquanto ainda poucos e insignificantes, impotentes ou pouco avisados…) meios diplomáticos e políticos portugueses!

Suspeições – embora não exatamente coincidentes com os factos agora consumados – haviam corrido já nos finais do ano passado, mas sendo então e antes as hipóteses alvitradas apenas e propriamente no sentido do encerramento daquele Consulado, e naquilo que foi aliás um aceno logo denunciado, contrariado e sujeito a várias diligências e petições impugnatórias, de entre as quais aquela que os Congressistas Barney Frank, Dennis Cardoza, David Cicilline, Jim Costa, James Langevin e Stephen Lynch dirigiram à Secretária de Estado Hillary Clinton, no dia 16 de setembro de 2011, e onde era afirmado constituir “um grave erro” o fecho daquele serviço diplomático, atendendo à componente luso-americana (incluindo a de proveniência açoriana) em significativas camadas populacionais e comunidades de Massachusetts, Rhode Island, Connecticut e Califórnia (Central Valley), aos respetivos laços económicos, culturais e pessoais, e bem assim – tudo isso! – reforçado pela existência de uma das mais importantes instalações militares americanas (Base das Lajes) na ilha Terceira! (*)

Porém – e a par da rigorosa e humanitária menção ao fenómeno das deportações e da alusão às implicações (mútuas vantagens…) económicas da manutenção de um serviço consular nestas ilhas muito distantes do Continente –, ainda no mesmo texto eram avisadamente relembradas outras reações da comunidade luso-americana a anteriores intenções (portuguesas essas!) de reformulação de redes consulares nos Estados Unidos…

– Mas, cá e lá, tudo mostra agora ter caído em saco roto e para muito pior do lado português continental e insular (e aqui por maioria de razões!), ao que parece perante inoperâncias nacionais, menoridade institucional, vexatória impotência ministerial e diplomática de Lisboa, ou da apenas espevitadamente feirante e caseira pesporrência de sirigaita dos nossos Estrangeiros!
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(*) - O Documento referido -- e bem assim algumas das movimentações que suscitou então --  pode ser consultado aqui:
http://myemail.constantcontact.com/Opposition-Letter-to-Closing-the-American-Consulate-in-Ponta-Delgada.html?soid=1102586872185&aid=LruqXFdY4Hs
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Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 25.02.2012),
"Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 26.02.2012),
http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2201&tipo=col
e http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?article=25527&visual=9&layout=17&tm=41

sábado, fevereiro 18, 2012

Os Barómetros do Entrudo

Com origens bem remotas na História das Civilizações e com particulares formas de manifestação no Ocidente – desde a Grécia e a Roma antigas (aí associado a desfiles navais chamados de currus navalis, de onde o nome Carnavale poderá ter derivado, e bem assim às licenciosas bacanales, lupercalia e saturnales), até à nossa dita “pós-moderna” Contemporaneidade, mas passando modelarmente por decisivas e paradigmáticas configurações várias de cariz popular ou palaciano (aqui especialmente nas sociedades de corte), mas com outras tantas formas híbridas de exteriorização folgazã ao longo da Idade Média, do Renascimento e do Barroco –, o Entrudo tem constituído ao longo dos tempos: 


 – 1) uma festa total ciclicamente comemorada (de base, génese e significação pagã e essencialmente inserida nos calendários propiciatórios e exorcizantes da primavera);

– 2) uma festividade tradicional pré e para-religiosa, intencional ou subliminarmente articulada com a assumida reversão simbólica do tempo litúrgico cristão do começo da Quaresma;

– 3) uma quadra cultural, artístico-teatral e turística, e

– 4) enfim, também pela conjugação de todas as referidas facetas e dimensões societariamente representativas, integrantes e relevantes, um legislativamente consagrado feriado (cuja novel subtração falhada e falaciosa, mesmo enquanto discutível matéria de “direito social”, tem vindo a ser contestada e parodiada como medida inócua e despicienda das zelosas, mas gravosas e abusivas, tontarias governamentais lisboetas…).

De tudo isto se poderia pois falar a propósito deste Entrudo, mas mais motivador para nós será mesmo tornar a evocar, recomendando para observação artístico-teatral, comunitária participação lúdica e estudo social o Carnaval destes dias nas nossas ilhas, enquanto e como fenómeno complexo, eclético e sincrético da vida do povo dos Açores, e em especial dos terceirenses.

– Nele genuína e primordialmente entroncando múltiplos, recriados e recreativos elementos patrimoniais dos universos expressivos, estéticos e sociais das culturas luso-afro-brasileiras e hispânicas, o nosso Carnaval constitui seguramente ainda um excecional laboratório e um barómetro indicativo daquilo que mais sensivelmente marcou o quotidiano, a memória e o imaginário da nossa gente ao longo do ano, pelo que oxalá ninguém fique alheio, ou indiferente, aos discursos e práticas da existência privada e pública que nele, conflitual ou pacificadoramente, se vão manifestar, mascarar ou transferir…
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Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 18.02.2012),
"Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 19.02.2012),




sábado, fevereiro 11, 2012

Ultimatos, Carlos César e a Kaiserin


Para quem tiver acompanhado com um mínimo de atenção, conhecimento geo-histórico ou perceção sociopolítica e económica-financeira o que nos últimos dias foi dito sobre Portugal por dois altos responsáveis da Europa atual – Herrin Merkel (Bundeskanzlerin) e Herr Schulz (presidente do parlamento da UE), ambos dignos filhos da impoluta Deutschland… –, certamente não terá deixado de sentir subir-lhe à memória (e, com decorrente certeza, também à indignação!) outros e anteriores acontecimentos pátrios e mundiais que afrontaram a consciência patriótica portuguesa e marcaram muitas das mais paradigmáticas configurações político-institucionais, ideológicas, culturais e filosóficas que as nossas respostas a idênticos estigmas e desafios assumiram ao longo de décadas e especialmente desde o ultrajante Ultimatum de 1890!

– Entretanto, a vários níveis e pela voz e pena de diversas personalidades políticas, observadores, analistas e intelectuais portugueses, algumas significativas, nobres e conhecidas reações a tais atrevimentos alemães já se fizeram notar, porém e  infelizmente a par de outras tantas ausências, fossem elas por oca magistratura “de influência”, cínica tática de miserável partidocracia, cobardia institucional ou mera preguiça na honra…

E veja-se mesmo que alguns dos enfatuados (quando não ridículos comediantes, menores ou trágicos atores) políticos que ao nosso País coube em decadente sina sustentar, foram até ao ponto de, algaraviando-se todavia um poucochinho contra Herr Schulz, praticamente encolherem os seus entrevados ombros ministeriais, dobradas cervizes de mente ou desirmanado discurso institucional português à metediça e afrontosa ingerência estrangeira no que à nossa constitucional e congénere Região Autónoma diz respeito, como se a Madeira fosse para aquela (e para estes últimos, afinal?!) somente um pequeno território suburbano de um “estado falhado” a ser tutelado pelos novos mandarins da Europa, ou então algum remanescente domínio, colónia ou zona de ocupação do que restasse (e está renascendo?) de um velho novo Reich (Paris-Berlim?), ou ainda de um outro novo velho Império boche!

– Ora é por isto mesmo, e pelo que ainda mais envolvido está neste tema (ao qual voltaremos depois), que daqui se envia uma palavra solidária para com a Madeira, e um louvor a Carlos César pela justeza da sua reação à intolerável diatribe daquela nada angélica Frau Angela!
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Publicado em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 11.02.2012),
“Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 12.02.2012),







sábado, fevereiro 04, 2012

Vasco Graça Moura ou As Desgraças da Ortografia




Para quem não conhece minimamente o temperamento e as múltiplas verves do novo director nomeado pelo Governo para o Centro Cultural de Belém (CCB), ou para quem, apesar de todo o talento e valor ensaístico, literário e cultural que Vasco Graça Moura (VGM) indiscutivelmente detém – muito embora, nas suas palavras mesmas, até ele ache que muitos “criadores”, e talvez não apenas esses como ainda possivelmente também todo o demissionário e não remunerado ex-Conselho Directivo do CCB (constituído por João Caraça, João Vieira de Almeida, António Rebelo de Sousa, Laborinho Lúcio, Clara Ferreira Alves e Lídia Jorge) –, o possa(m) encarar tal qual uma “espécie de monstro horrendo” (sic), – a verdade é que aquele distinto intelectual, (re)criador de notáveis poéticas e façanhas políticas, ainda mal se tinha sentado à sua nova escrivaninha belenense, e logo se envolveu numa previsível guerrilha de escrita e ortográficos desacordos…

– Só que, agora, tais persistências e recorrências foram exercidas segundo mais decisivos e decisórios modos, e assim para individualizada retoma de antigas causas e propostas próprias (e não só…), no que à dita matéria (de Lei?) do famigerado Acordo Ortográfico diz (des)respeito!

Porém, no que envolve o Governo, até ao momento, o Primeiro-Ministro Coelho apenas se desembrulhou da questão com informáticas cartolas de explicação para os tira-e-põe de correctores nos computadores e redes do CCB e/ou por VGM, ficando o resto por esclarecer e coerente e paradigmaticamente corrigir em acentos, consoantes e outras dissonantes articulações de Língua e fala…

– O assunto é pertinente e significativo (embora um pouco quixotesco…), mas deve ser visto em toda a implicada linha das perspectivações linguísticas, culturais e político-jurídicas que o pespontam, até porque sabe-se o que nas escolas, nos manuais, nas repartições públicas, nos OCS e até nas redacções oficiais impostas (nalguns casos com impugnação proteladora de aprovação e vigência legislativas…) se mandou fazer, para que diplomas e outros textos tivessem as respectivas e decorrentes validações e aplicabilidades normativas e gramaticais devidamente homologadas! 
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Publicado em:
"Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 04.02.2012), "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 05.02.2012),


sexta-feira, fevereiro 03, 2012

SEEBMO publica estudo sobre Epilepsia nos Açores



O Serviço Especializado de Epidemiologia e Biologia Molecular (SEEBMO) do Hospital de Santo Espírito de Angra do Heroísmo (HSEAH) acaba de editar as Actas do Seminário do Projecto RIRCE que teve lugar em Angra do Heroísmo no passado mês de Abril (2011).

O livro, intitulado Contribuição para o Conhecimento da Epidemiologia da Epilepsia Pediátrica nos Açores – Relatório e Comunicações, reúne todas as intervenções, comunicações e estudos apresentados num Simpósio temático (realizado nos dias 29 e 30 de Abril de 2011, em Angra do Heroísmo) e produzidos no âmbito do Projecto do Registo Informatizado Regional de Crianças com Epilepsia na RAA efectuado no arquipélago dos Açores, entre 2008-2011, com o apoio do Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu (EEAGrants) através da Unidade Nacional de Gestão do Ministério do Ambiente, Ordenamento do Território e Desenvolvimento Regional, e que contou com a colaboração e patrocínios locais do Governo dos Açores (Direcção Regional da Educação) e da Caixa Económica da Santa Casa da Misericórdia de Angra do Heroísmo.

Esta publicação científica – dirigida, organizada e coordenada por Jácome Bruges Armas (director do SEEBMO e responsável pelo Projecto RIRCE na RAA) e por Eduardo Ferraz da Rosa (investigador associado do SEEBMO), com recolha e revisão documental de Paula Lourenço (técnica superior do SEEBMO) e Paula Pires (neurologista) –, inclui, para além do historial do Projecto, o respectivo Relatório Técnico-Administrativo (por Lígia Poim e Marco Rendeiro), uma caracterização estatístico-patológica dos Resultados Provisórios apurados nas ilhas Terceira, Graciosa, Pico, S. Jorge, Faial e Flores (por Fernando Fagundes, Adriana Pinheiro e Rita Lopes da Silva), e estudos e ensaios epidemiológicos sobre Epilepsia Pediátrica na Ilha da Madeira (por Joana Oliveira, Paulo Sousa e Rui Vasconcelos), Importância dos Registos Nacionais e Regionais (por Daniel Virela), Síndromes Genéticos e Epilepsia (por Rui Chorão), e Gestão Integrada da Epilepsia – Recomendações de Qualidade e Desempenho Assistencial (por J.M. Lopes Lima).

Segundo salienta Jácome Armas no “Preâmbulo” desta nova publicação epidemiológica do SEEBMO, a mesma tem como “principal objectivo dar a conhecer aos técnicos de saúde, professores e educadores alguns resultados obtidos com a implementação do Projecto RIRCE”, pretendendo-se assim “consolidar o relacionamento” entre todos os que lidam com a Epilepsia Pediátrica, “no sentido de completar e uniformizar metodologias para que o registo dos casos seja o mais fidedigno possível” no âmbito do Serviço Regional de Saúde da Região Autónoma dos Açores.
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Notícia publicada em "Diário Insular", "A União", "Diário dos Açores" (06.02.2012),
http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?article=25140&visual=3&layout=10&tm=6

sábado, janeiro 28, 2012

Causas Públicas e Manipulação de Massas


Há muitas formas de manipulação, alienação e exploração, mas uma delas, que se torna cada vez mais usual, é a de, em nome de uma alegada discussão, diálogo, apresentação e debate isentos, assumidos e transparentes de causas – amiúde efetivamente opostas –, logo à partida cair-se na tentação de proceder a uma mais ou menos velada manipulação das razões mesmas que a tais móbeis e seus agentes ou atores assistem…

– Porém, entre todos os campos sociais públicos aonde tal manipulação de causas é mais escandalosa e gravosa para a formação de uma opinião livre (também pública, mas esclarecidamente culta…) releva o dos OCS, nomeadamente daqueles que se inserem na tão exigente função de Serviço Público, e tanto mais
assim quanto ele e os seus essenciais conteúdos são exercidos e veiculados através de instrumentos mediáticos e mediadores tão poderosos como a Rádio e a Televisão!

Por outro lado, nem todos os Jornalistas – tantas vezes indevidamente sujeitos a múltiplos condicionamentos de ordem técnica, deontológica, profissional e de carreira – conseguem resistir à proverbial serventia dos interesses dos poderes hegemónicos que nesses órgãos e aparelhos do Estado conjuntural e diacronicamente se instalam e entrecruzam, sendo até muito comum, lá na gíria do meio, toda uma jogatina, sempre pouco limpa, daquilo a que vulgarmente se designa “de fretes”, frequentemente a troco, como é sabido, de prebendas várias e até, por vezes, à descarada cata de miríficos (en)cargos confluentes, mesmo que provisórios e promovidos “à Peter”…

– E isto, como é evidente, a par de outras modalidades de pequenos (e grandes!) “préstimos”, jeitos e trejeitos, assentes em diversas, sub-reptícias e subliminares estratégias de manipulação de informação, mensagem, ideias e sentidos do real e dos valores (desde os ideológicos ou político-partidários aos tacitamente promocionais de nomes, lobbies, confrarias, tertúlias e figuras institucionais ou particulares…).

Neste contexto, sem dúvida, é que podem e talvez devam também ser lidas as múltiplas, complexas e controversas questões que tem girado, de novo nos últimos dias, nos arraiais e redondéis locais, desde as primárias, castiças ou patéticas arremetidas, faenas e capotazos de arribação às mais ética e epistemologicamente confusas, híbridas e abstrusas teorizações de algumas (para mais, imponderadas e contraproducentes!) etnografias e biopolíticas de chocalho, vara e estoque, histórica, filosófica e tipicamente retrógradas, quando não mesmo reacionárias!
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Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 28.01.2012), "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 29.01.2012),

sábado, janeiro 21, 2012

O prato do ministro da Economia



Estamos quase a chegar ao Entrudo e as Danças e Bailinhos, após meses de ensaio, estão praticamente já prontos para o tradicional rodopio à volta da ilha Terceira.

– Todavia, e embora não se possa desejar que Carnaval seja todos os dias (como do Natal angelicamente se diz e suspira em cândidas loas), a verdade é que algo (ou muito, conforme as máscaras…) daquela quadra de pândega e disfarces nunca deixa de afluir quotidianamente a terreiro, palco de salão ou espaço público mediático, de acordo com o interesse do enredo, a verve do letrista e o histriónico virtuosismo ou expressividade teatral dos atores (desde o mais hamletiano ou vicentino figurante ao proverbial, escangalhado e improvisado ratão…).

Ora muito daquilo que temos observado bastante faz evocar autênticas facécias burlescas, que cómicas apenas seriam se, nalguns casos, dramáticas ou confrangedoras não fossem, e se mais penosos ainda não se franqueassem já os dias que antecedem uma próxima e mais sofrida Quaresma, com jejuns, abstinências e memórias do pó histórico a que todos estamos destinados…

– Mas vem isto hoje a propósito e retentiva devido às inspiradas, doutas e convincentes sugestões de filosofia e prática mercantis – para credenciadíssima venda de produtos de excelência, com garantia de desenvolvimentismo, almejada internacionalização e imaginativo marketing, de umas ditas e (re)produtivas coisas nacionais –, tal como o titular do cardápio da Economia que temos, melosa, transpirada e odorificamente as elencou e engrolou de tribuna, adoçando-as e pincelando-as com os seus seletos e fantásticos modelos de fisganço para verosímil exportação estratégica…

A lista foi curta, mas atraente; a saber: os tão famosos pastéis de nata e o apetitoso frango de churrasco – à falta, certamente por plausível esquecimento seu, de outros dos famosos exemplos do quase mágico empreendorismo em voga por aí (e que, como tal, já constam até do livro cuja capa ilustra esta Crónica, indo lá desde a produção histórica de batinas e clerezias bracarenses até sanitas mui sexy (sic), conforme se pode ler a páginas 121-149 –, para já nem lembrar ao seu governo de pragmática ou ficcionalmente passar a internacionalizar, doravante um pouco mais, outros identicamente mundializáveis pitéus lusitanos (do género “postas de bacalhau à Simon Fraser”, “coelho à Troika” ou “ arroz chau chau com rebentos à Catroga”..., e tudo, ao final – pois então! – talvez castiçamente regadinho a genuíno garrafão de 5 do melhor tintol português…).

– Um mimo pois, em síntese, o novo, alvitrado e nobelizável Tratado de Economia Política esboçado na prédica ministerial do quase sempre sisudo, tímido e compenetrado Santos Pereira, como pode ser ainda apreciado em: http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=517711&headline=20&t=O-ministro-da-Economia-quer-exportar-os-pasteis-de-nata.rtp&tm=6&visual=9.

E assim, que belo prato aquele, o (do) nosso ministro…
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Publicado em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 22.01.2012),
 http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?headline=14&visual=10,
 http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2191&tipo=col
e http://www.auniao.com/noticias/ver.php?id=26732

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Leituras de Manuel Antunes, S.J.






Conhecido e estimado nos meios intelectuais e académicos portugueses, o pensador, professor e sacerdote jesuíta Manuel Antunes – nascido na Sertã (1918) e falecido em Lisboa a 18.01.1985 –, é uma daquelas figuras cujas dimensões humanas e espirituais (a par de uma grande erudição, prodigiosa capacidade pedagógica, notável labor de investigação e divulgação de saberes) granjearam ímpar admiração e raro e consensual reconhecimento cívico, ético, cultural, institucional e político.





Conselheiro do presidente Ramalho Eanes, viria a receber, merecidamente, a Ordem da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, em 1983.


Doutorado com uma Tese sobre a filosofia existencial (de S. Kierkegaard a Martin Heidegger), cedo porém se interessou especialmente pela História da Cultura Clássica, cuja temática disciplinar viria a ensinar (entre 1957 e 1983) na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a convite do seu amigo Vitorino Nemésio…






– Incansável colaborador (desde 1955) da Brotéria, que dirigiu depois durante vinte anos, nesta Revista, sob nome próprio (e com 124 pseudónimos…), deixou-nos uma produção ensaística imensa e diversificada (com relevo para assuntos de teor literário, filosófico, teológico, religioso e sociopolítico), em parte recolhida posteriormente na dezena e meia de notáveis livros seus e agora em merecida publicação completa pela Fundação Calouste Gulbenkian.





Ora depois do Congresso Internacional que lhe foi dedicado (2005) e da sucessiva edição de depoimentos sobre a sua Vida e admirável Obra, acaba de ser lançada uma nova e bela Antologia de diversíssimos e mutuamente iluminantes testemunhos pessoais – simultaneamente transhistóricos e intemporais (“Retratos e Memórias”) – sobre o nosso saudoso Padre Manuel Antunes como Um Pedagogo da Democracia, enquanto continuam a multiplicar-se os estudos e os testemunhos sobre  a sua obra e a sua vida.




– Do Cardeal Cerejeira a Eduardo Lourenço, de D. Manuel Clemente a Mário Soares, ou de Pinto Balsemão a Sophia de Mello Breyner, são textos que vale a pena ler ou reler, e por maioria de razão e sentido ainda mais em tempo de indigências culturais e outras assustadoras menoridades…




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Nota do Autor (12.2020)
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Sobre Manuel Antunes, veja-se ainda o Programa "Ecclesia",
Católicos, 25 de Abril e um Pedagogo da Democracia.
Emissão do dia 25 de Abril, 2018. Disponível aqui: 
https://www.youtube.com/watch?v=V44VjpXxs4w&feature=emb_logo

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sábado, janeiro 14, 2012

Os Lixos da Choldra


É conhecida e ficou famosa a qualificação – “choldra” – com que Eça, real e ficcionalmente, se referiu a um perfil “ignóbil” e “torpe” como o mais essencial traço distintivo do nosso País, naquele tempo…

E embora a implícita leitura reativa de tal dramática condição sociocultural, económica, política e histórico-civilizacional tenha assumido colorações diferenciadas nos seus personagens romanescos e discursos literários, não deixa todavia de ser essa a mais recorrente e fundada representação textual queirosiana de Portugal!

– Porém, estivesse ele vivo e observando tudo o que nos é dado padecer hoje, neste “nosso canto, com a azulada doçura do nosso céu carinhoso”, como poetiza nas Notas Contemporâneas, e muito mais pessimista e profundamente se revoltaria de termos (ainda) “ao que parece, todas as enfermidades da Europa, em proporções várias”.

E todavia, “enquanto contra as tormentas sociais nas outras naus se trabalha, na nossa rota e rasa caravela tagarela-se! Tagarela-se num desabalado fluxo labial, cuja qualidade […] não tem deixado de decair, da eloquência degenerando na loquacidade – da verbosidade descambando na verborreia”…

Ora no atual bate-papo inócuo – por escrito ou em disserto falado nos OCS, Parlamentos, Redes Sociais, etc. – já nada deixa de nos enojar, desde as últimas lavagens de aventais, maços, maçons e massas secretistas aos desnudamentos das altas correntes salariais na baixa pilosidade das vergonhas escandalosamente prebendadas nas caras e coroas da EDP e na Águas de Portugal, passando pelos abomináveis e repugnantes atentados à dignidade e à vida humana que conspurcaram as quase inacreditáveis cogitações de Manuela Ferreira Leite (PSD) sobre a Hemodiálise no SNS!

– Assim, e sempre historicamente pelo mesmo, que nos resta, neste novo tempo de velhas podridões, a não ser uma permanente e firme resistência ativa e uma exigente e profunda reflexão crítica sobre alternativos rumos patrióticos, justos e limpos, para todos os Portugueses?
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 14.01.2012), " Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 17.01.2012)

As Estrelas da Candelária

Quando um dos principais cometas políticos do actual Governo de Lisboa – tal como alguns dos seus satélites e comparsas de gémea constelação
parlamentar e mais ou menos iluminados (ou em pedra bruta?) pela novamente tão martelada e triangulada Maçonaria em Portugal… – decidiu proclamar a redução das emissões próprias da RTP-Açores a um impreciso mas imperioso postigo insular de 240 minutos diários, logo o Presidente do nosso Governo Regional proferiu uma sugestiva declaração pública na qual se interrogava exemplificativamente sobre que destino dar, em tal hipotético mas aparado relvado de grelha, a transmissões e programas televisivos açorianos como o magazine Bom Dia Açores, as reportagens sobre as Festividades do Senhor Santo Cristo, as Festas Sanjoaninas, etc.


Por mim, e a propósito, devo dizer que sou espectador regular e matinal do citado programa apresentado por Pedro Moura, no qual aliás, por diversas vezes, já fui hospitaleiramente recebido...

– E isto mesmo devo confessar aqui e logo à partida, embora não propriamente sob a forma de declaração de interesse (figura de manifestação outrossim que bem obrigatória deveria ser para titulares de cargos públicos e decisórios, como nomeadamente acontece a tantos e diversos níveis científicos, profissionais e académicos), a par – evidentemente – da legítima assumpção pessoal e voluntária de (in)compatibilidades éticas e deontológicas e de outras, então aí já mais institucionalmente exigentes e relevantes pertenças, ou comum associação, a potencialmente sobreponíveis esferas, entidades de interesse parceiro ou conflitual cerceamento da liberdade de consciência e de manifestação da mesma (que, também essas, deveriam ser democrática e transparentemente bem mais reguladas por Lei, num Estado de Direito que se prezasse!).

Todavia e por outro lado, vem isto hoje a Crónica de jornal por causa do que vi e ouvi com gosto numa recente edição do programa Bom Dia Açores, onde se deu justo e merecido destaque ao excelente trabalho desenvolvido pela Banda Lira Nossa Senhora da Estrela (http://www.liraestrela.com/) da freguesia da Candelária (ilha de S. Miguel), tal como o mesmo desempenho daquela Banda ficou exemplarmente revelado no seu Concerto de Ano Novo, executado sob a condução do maestro Pedro Alexandre Medeiros Pimentel e durante o qual igualmente actuou o Grupo Coral de Nossa Senhora das Candeias:

– Belo exemplo aquele, de empenho, esmero e qualidade musical, e de objectiva e notória promoção cultural, artística, social e cívica da nossa terra e da nossa gente (jovem, mormente)!

Porém identicamente, mas pelo reverso, triste sinal de lembrança me ficou de que alegadas “sensibilidades” (?) para a Cultura (na actual DRC – que verdadeiramente é incapaz de assumir um projecto de política cultural para e com o PS, e em algumas Autarquias, pasmosamente a tal alheias, com honrosas excepções – como Ponta Delgada e Ribeira Grande…), tantas e tão incautas vezes esquecem realmente muito do mais que importaria acarinhar, – gastando-se a diverso e esbanjando-se a trouxe-mouxe muito do que humanamente resiste e financeiramente há disponível (ou do que em dívida resta…) nas nossas comunidades e suas agremiações…

– Ora assim pouco de frutuoso fica semeado e menos ainda florescerá para o futuro sem os necessários e devidos apoios (concedidos porém alguns, e apesar de tudo, a determinados e descompassados clichés, tiques e toques em vago tom e estilo menor, amiúde para meros diletantismos delicodoces de bafiento salão, academia e confraria, ou então a efémeras artes, faenas e artimanhas em massificado palco e mero espectáculo, amiúde compadrinhadas ambas para mera e presumida “erudição” e deleite palacianos, ou para ditas expressões alternativas e chocalhadas electrónicas, ruidosas, violentas ou simplesmente vulgares (mas querendo passar por populares!), que por aí pululam em quase idêntica esterilidade festivaleira ou à base de choques, estocadas e shots para tanta da nossa atordoada e explorada juventude, ou da alienada e bandarilhada populaça eleitoral …).

– E o que aqui digo para o campo da Música, poderia igualmente, estender-se a outras áreas e artes (Teatro, Antropologia Cultural, Literatura, Pintura, Patrimónios Culturais e Históricos, Museologias e Arquivos Locais, Recolhas, Espólios e Coleccionismo Temático, Promoção Editorial e da Leitura, etc.), campos nem sempre pensados e integrados numa estratégia consistente, global e complementar de Educação, Cultura e Ciência para o nosso Arquipélago inteiro, e infelizmente às vezes sem prospectivas estrelas de sorte, sustentação projectiva ou reconhecido mérito à vista e para ouvidos atentos, ao contrário daquilo que tão digna e gratificantemente aquela Banda da Candelária paradigmaticamente bem soube incarnar, demonstrar e comprovar com mestria, dedicação e virtuosismo a todos os Açorianos!
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Publicado em "A União" (http://www.auniao.com/noticias/ver.php?id=26649), "Diário dos Açores" (15.1.2012), Azores Digital (http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2187&tipo=col)
e http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?article=24793&visual=9&layout=17&tm=41

sábado, janeiro 07, 2012

Os Fantasmas do Futuro

Nos últimos dias e em quase todos os OCS do País, três acontecimentos constituíram motivo noticioso de primeira página e análise e discussão política, económico-financeira e socioculturais generalizadas; a saber:

– A compra de parte decisiva da EDP pela China (cujos ricos olhos em bico não deverão ser em nada piores do que as sujas mãos em gancho de muita da agiota banditagem nacional que tem surripiado a Nação!); a transferência de ações, com a correspondente gestão do reenquadramento fiscal e reinvestimentos da Sociedade FMSantos (detentora de 56% da Jerónimo Martins) para a Holanda, e – finalmente – o caso dos conúbios entre as Secretas portuguesas e as diversas manigâncias político-partidárias, empresariais e parlamentares de alguns “irmãos” de determinadas lojas e tendências da Maçonaria.

Entretanto, a nível regional, vimos acentuarem-se os conflitos de interesses (e de desentendimentos…) à volta da constituição e dos projetos do pendente grupo de consulta e estudo do Serviço Público de informação e comunicação social (afinal e mais precisamente da RTP-RDP-A, pois é desse conjunto audiovisual que verdadeiramente se trata), enquanto se assistiu à patética e renitente dança de indigitações e impugnações de nomes e miúças entre comissões e com os partidos, o investigador e jornalista (independente) Armando Mendes, o jovem economista (social-democrata) Célio Teves e a advogada Maria Mesquita Gabriel (ex-consultora jurídica da PGR, ex-jurista do Tribunal de Contas e atual sócia da Sociedade Paz Ferreira e Associados).

Ora se quanto ao segundo tema haveremos de voltar mais tarde, agora quanto ao primeiro não deixará o mesmo de poder fazer recordar e refletir historicamente sobre as seculares relações comerciais e as pioneiras (e já então estratégicas) parcerias luso-chinesas (remontando ao século XVI, com o paradigmático acordo efetuado por Leonel de Sousa…), passando depois, nos séculos XVII e XVIII, face à decadência dos impérios ibéricos e à reconstituição das hegemonias europeias, pelas conhecidas concorrências bolsistas, mercantis e militares entre Lisboa e Amesterdão (e depois por Paris e Londres, porém aí em trânsito explosivo para Berlim e para as Revoluções e Guerras do século XX…), e atravessando, entre nós, os dias da ira republicana de 1910…

– De facto, embora a História realmente não se repita nem tenha terminado, a verdade é que muitas das sombras e medos do passado continuam a evocar e a convocar os fantasmas e os pesadelos do nosso próprio futuro.
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Publicado em "Diário Insular" (07.01.2012), "Diário dos Açores" (08.01.2012) e Azores Digital

sexta-feira, dezembro 30, 2011

Heterodoxia e Réveillons



O ano que agora finda termina com uma série de complexas e difíceis situações do persistente estado de crise que, tanto à escala mundial como a nível local – passando pela situação na Europa e em Portugal no seu todo (aí incluídos, evidentemente, os Açores e a Madeira) –, marcou 2011 com um paradigmático conjunto de problemas, impasses e dificuldades societárias, civilizacionais, culturais e espirituais que a ninguém – nos respectivos e diferenciados locais e tempos de existência, e nas mesmas desiguais classes e formações – deixou indiferente, porquanto a todos profundamente atingiu de um ou de outro modo e que mais ainda veremos reflectir-se e propagar-se, conforme os mesmos bastas vezes conflituais e opostos interesses, e como outros tantos desafios para as exigentes décadas que temos já pela frente, enquanto comunidades nacionais e regionais, e como cidadãos do mundo.


Não valendo a pena retomar hoje tudo aquilo que de mais significativo caracterizou os últimos doze meses, retenho porém, a título de sinal destes tempos e do quadro referencial e crítico aonde nos situamos, apenas dois motivos e projectos de leitura, cujas lógicas de conteúdo real e simbólico me parecem bem sugestivas e merecedoras de meditação:

O primeiro é a leitura integral do texto da Carta de Intenções do Governo da Madeira solicitando “assistência financeira por parte da República Portuguesa” e reconhecendo que “a violação dos limites ao [seu] endividamento (…), tal como estabelecido na Lei de Finanças das Regiões Autónomas, e a consequente deterioração da [mesma] situação financeira (…) impossibilita o pagamento de compromissos no curto e médio prazos”.

– Este fabuloso documento, que deve ser analisado por todas as instituições autonómicas e nacionais portuguesas e seus agentes e actores, está disponível no site oficial do GRM, cuja home page ostenta, em luminoso e festivo cabeçalho, uma bela panorâmica da baía do Funchal em noite (já antiga) de réveillon e fogos de artifício…

O segundo é uma renovada leitura, ou o retorno à contumaz e serena reflexão, sempre apaixonante e proveitosa, da(s) obra(s) de Eduardo Lourenço (Prémio Pessoa 2011), agora em feliz impulso de edição completa, tanto mais quanto nele e nela confluem heterodoxia e liberdade de pensamento e de acção (de e sobre Portugal e nós próprios!), desde os primórdios da Pátria até à contemporaneidade tumular em que jazemos...

– Num e noutro desses discursos, em balanço simultaneamente realista, melancólico e esperançoso, talvez residam algumas das mais essenciais perguntas e pistas para as respostas sólidas que o futuro exige de nós!
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Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 31.12.2011), "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 1.1.2012) e   http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2182&tipo=col