sábado, agosto 11, 2012

A Saúde da Nação


Embora algumas das principais abordagens até agora feitas na Comunicação Social e em certos fóruns partidários a propósito da Política de Saúde – com raras, previdentes e cautelares excepções individuais – tenham sido especialmente urdidas por força de meras argumentações tácticas, interesses conjunturais e tendenciosas, parcelares e obsessivas fixações em questões relativamente pontuais – ou apenas político-partidariamente usadas como recorrente arma de arremesso para-eleitoral –, não há dúvida que uma frontal, isenta e profunda reflexão crítica sobre esta e outras questões essenciais da nossa vida institucional e colectiva (como a Educação, a Cultura, o Trabalho e o Emprego, a Segurança Social, o Desenvolvimento Económico, o Controlo e o Equilíbrio Financeiro, a Democraticidade e a Transparência da Governação…) é cada vez mais necessária, urgente e prioritária!

Entretanto e ainda sobre a dita problemática da Saúde, novamente nos últimos dias, voltámos a assistir – e desta feita com grande destaque – na imprensa da capital, a impressivas e empolgantes notícias sobre aludidas e “catastróficas dívidas” regionais açorianas que, segundo as mesmas indistintas, pouco clarificadas e clarificantes fontes originais (e secundárias também…), teriam já atingido “montantes astronómicos”… 

E logo, como seria de esperar, o teor e as quantificações das referidas “denúncias” – na sequência aliás de outras identicamente tecidas no Arquipélago desde há algum tempo… – motivaram uma série de contraposições, cálculos alternativos e contra-fundamentações económico-financeiras, orçamentais e políticas…

– O problema, quer se queira quer não, é sério e complexo, pelo que merecia um corajoso levantamento e uma rigorosa resposta integrada, cujos perfis e contornos – enquanto os mesmos dizem integral respeito à mesma Política e Gestão da Saúde e dos respectivos sistemas e subsistemas – deveriam ir desde os financeiros e técnico-científicos aos da gestão administrativa e da formação profissional dos seus agentes, passando pelos, amiúde bem díspares, diferenciados, conflituais e até desmemoriados interesses corporativos, comerciais e deontológicos que neste terreno se digladiam (demasiadas vezes por cima dos bem sensíveis e reais corpos sociais e pessoais dos doentes e demais utentes dos serviços públicos e privados da Saúde …).

Porém, uma coisa seria a análise objectiva, serena e isenta de todas estas importantes e nucleares questões, e outra, bem diversa, é o aproveitamento e a distorção táctica das realidades quantitativas e qualitativas que também neste campo se entrecruzam, com intenções e fins de veracidade e interesse duvidosos para os Açores, para quem aqui governa e/ou pretende vir a governar (ou continuar a administrar) a nossa Região Autónoma! 

E depois, diga-se já, mesmo que de passagem apenas, que quem se mostra principalmente direccionado à destruição gradual, planeada e concertada do próprio Sistema Nacional de Saúde enquanto tal não parece muito vocacionado para a correcção das suas maleitas, desvios ou desvarios!

– Finalmente, quanto a certos OCS e a alguns infames políticos que pululam na choldra em que o País se tornou desde há muito, já sabemos do que gastam, reproduzem e vendem por lá e por cá, demasiadas vezes numa espécie de voyeurismo em marketing vicioso, impotente e irresponsável, que tanto desnuda e dá desrespeitosa e quase impúdica capa aos públicos e familiares factos e fatos de banho e toalhas do primeiro-ministro de Portugal e sua família, quanto oculta, omite ou falseia, sem dó nem piedade nem compostura solidária (ou apenas ética que fosse!) de qualquer espécie, os mais essenciais problemas, direitos, deveres, aspirações, medos, impasses e fragilidades dos nossos cidadãos e das suas vidas a arder ou imoladas nos altares do mais abjecto capitalismo neoliberal, financeiro, predatório e agiota que devora tudo e quase todos os povos e países do Globo!

A situação não é, infelizmente, nova, e já Eça, em 1871, testemunhava assim e do que via: 

O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os carácteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências”…

– E como haveria de ser de outro modo, ainda contemporaneamente, por parte de quem, externa e internamente, ao longo da História da Nação e da Autonomia, sempre nos tratou sob regimes de canga (ou “como se andássemos de tanga”…), e nos pretendeu institucional, material e simbolicamente submissos, incautamente alinhados ou politicamente coniventes com os alienantes e conhecidos ditames de controlo e exploração em múltiplos terreiros (nacionais e regionais) do Poder, sem a devida e proporcionada partilha de custos e culpas a pagar pelas afinal comuns e discriminatórias heranças, a par de outras equivalentes menoridades histórico-geográficas, político-ideológicas, mentais e morais?!
_____________________
Publicado em Azores Digital: 
"Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 12.08.2012):
 - http://jornal.diariodosacores.pt/;
Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 11.08.2012):
 - http://www.diarioinsular.com/.

sábado, agosto 04, 2012


As Espumas da Praia


Na ilha Terceira, as Festas da Cidade da Praia da Vitória tem um historial mais ou menos vasto e conhecido, apesar de reincidentes omissões e de pequenos e forjados mitos que – amiúde – rodeiam certas e (des)ajeitadas narrativas individuais e algumas protocolares e retóricas evocações institucionais (demasiadas vezes feitas conforme vai convindo aos conjunturais, variáveis e mutáveis interesses de indivíduos e grupos hegemónicos na vida política, associativa, comercial e económica dessa antiga, nobre Vila e sede do Concelho do mesmo nome).

O caso, de resto, não é exclusivo dali e bastaria aliás uma simples compaginação dos seus aproveitamentos e sucessivos programas, discursos, comissões, orçamentos, propagandas, divulgações promocionais, feiras, reportagens e imagens documentativas ou publicitárias para fazer-se uma ideia mais rigorosa e proporcionada dos seus a seus donos e donas, e das respectivas e reais aferições de custo-benefício ou contrapeso de despesa-investimento-ganho a diversos níveis de avaliação quantitativa e qualitativa

Porém seja lá como for – até porque não será esta a ocasião adequada para balanço das contas desse rosário – a verdade é que as chamadas “Festas da Praia” vem gerando uma notória e crescente expectativa, tem efectivamente granjeado uma medrante popularidade na ilha, alcançaram um significativo impacto regional e junto das nossas comunidades imigradas, e conseguiram pontuar alguma inovação e qualidade estética (especialmente nos seus Cortejos e Marchas) que é justo registar e salientar, apesar do esbatimento ou inexistência de muitas outras, desejáveis e regulares componentes que uma regrada programação festiva, sociocultural, artística e lúdica deste (digo, de outro alternativo ou, pelo menos complementar…) jaez vem reclamando desde há demasiado tempo!

Todavia, de todo e qualquer modo, estas Festas parecem mesmo conseguir avivar uma genuína e ciosa intuição de pertença memorial e de dilatada identificação espácio-temporal de e entre os Praienses, envolvendo-os a todos e àquelas num particular sentimento saudoso (embora nem sempre muito criticamente consciencializado, mas que por si só é positivo, humanamente compreensível e acaba justificado).

– E como não haveria de ser assim? – quando, para além do mais que fica para outra Crónica –, como dizia um dos seus filhos mais afectiva e intelectualmente pródigos – “bendito seja o deus do encontro, / O mar que nos criou […], Pois fica-se sabendo/ Que da espuma do mar sai gente e amor também”…
________________

Publicado em:
“Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 05.08.2012) – http://www.diariodosacores.pt/n/
Outra versão em:
“Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 04.08.2012) – http://www.diarioinsular.com/

sábado, julho 28, 2012


As Tendas da “Silly Season”



“Silly Season” é uma expressão anglo-saxónica muito usada, corrente e já globalmente tradicional para identificar a época de Verão e os respectivos tempos e ritmos calmosos, mais ou menos supostamente letárgicos e modorrentos, de pasmaceira ou torpor, como se a existência activa, as sensibilidades e as consciências ficassem então possuídas de uma espécie de sonolência lenta ou abúlica que fizesse perder a noção das realidades e dos problemas do quotidiano

E tudo isto, paradigmaticamente, sob a torreira do sol, as ondulações do mar, as mornas envolvências da areia das praias, a abençoada frescura das árvores, a pacífica e pacificante sombra das pazes campestres, ou a trepidante e frenética dança de cinturas e cabeças que longos dias e cálidas noites – entre refrescos e alguns cocktails (em salgalhada de mau gosto partidário amiúde inseridos em pepineira fanática nas redes sociais, com músicas vivaças ou cantigas ao luar e à mistura…) – vão fazer abanar e talvez cair a alguns, por entre sorrisos de conquista, assédio, pequenas e grandes tentações ou fantasias para todos os gostos, e muitas tendinhas e grandes barracas em velhos e novos acampamentos de interesse!

– Todavia, nesta altura em que todos procuram usufruir de um retemperante descanso estival ou gozar das chamadas “férias grandes”, aquela denominação (à letra: estação tonta ou imbecil…) continua a ser especialmente usada na gíria política e jornalística para significar a quadra do ano em que nada de importante e decisivo se mostra ou aparenta (não) acontecer na vida social e institucional, enquanto a chamada “classe política” vai a banhos ou a outras vilegiaturas de tipo turístico e desopilante, após um ano de pesados (mas não necessariamente forçados) trabalhos e ciclópicas canseiras executivas, parlamentares, tribunícias, autárquicas, etc.

Ora, como é sabido, essa e esta, a nossa, também cosmopolitamente assumida estação ocorre num ritual intocável e impoluto, aonde corpos e almas vão buscar urgente alento (e, às vezes, bem necessária e real inspiração) para aquele outro ciclo da vida pessoal, ou das (suas) carreiras políticas, que dá pelo outonal e suave nome francês de “rentrée”…

– E não há mesmo partido que se preze que não tenha até já planeado o seu palco de animações, ou um parque de diversão, para tão fatalmente previsto, grandioso e mobilizador desfile de actores institucionais e de exímios protagonistas da política-espectáculo que temos, enquanto o País arde e desespera com maus agoiros e ventos cruzados de todos os quadrantes, como naquela parábola do incêndio na Cidade, ao lado da autista tenda do grande Circo (como o filósofo Kierkegaard lúcida e previdentemente contava).

E todavia, a par de idênticos alheamentos nossos contemporâneos, cá temos o mesmo Povo, cada vez com menos Pão mas batendo palmas entre alienações e festarolas de Verão, já nas vésperas das pateadas e da fuga às responsabilidades, quando as contas forem tiradas a limpo, depois de tanta incauta e irresponsável brincadeira com o fogo durante sucessivas, acumuladas e arriscadas silly seasons, – bem armadas todas à tradicional moda portuguesa, desde Belém ao Caldeirão do Corvo, passando ali pelas sedes partidárias à portinhola de cujas barracas as primeiras cabecinhas a despontar não auguram nada de promissor…

– E assim parece que iremos de imaturidade em casmurrice crescentes até aos derradeiros desplantes e à derrota final, coisa aliás bem adequada ao espírito da presente quadra, e da outra que, daqui a um ano, promete trazer do mesmo ou pior, perante a cobarde claudicação dos créditos de quem deveria, sem miopia partidária ou estupidez política, ver muito mais e melhor para cada uma das nossas ilhas e para a Região no seu todo! 
_____________________
Publicado em:






sábado, julho 21, 2012


As Representações da Autonomia



Se todos os actos eleitorais, a todos os níveis, se revestem de grande importância – enquanto modos formalmente concretizadores do exercício da Democracia e meio mais ou menos eficiente de e para manifestação da vontade popular e individual, assim e por isso mesmo, em tal regime ou sistema de organização da vida social dita soberana e legitimada pelo voto dos cidadãos –, não menos decisivo para a autenticidade dos processos institucionais dessa particular forma de participação política e cívica é o próprio mecanismo integrante e decorrente de tais actos, nomeadamente naquilo que desde sempre e mais historico-filosoficamente a propósito da Democracia foi fundamentalmente pensado.

Na verdade, desde a problemática da natureza mesma da Democracia e da condição natural do Homem como um ser social e político, até às problemáticas das possíveis e várias configurações que na prática esse sistema do governo já se arrogou – ou pode ainda vir a assumir –, passando pela magna e essencial questão das delegações do Poder e das suas várias modalidades de contratualização ou contrato para a produção da Lei e da ordenação da Sociedade, estas questões continuam tão merecedores de análise e reflexão quanto o foram nos primórdios gregos da História do Pensamento Ocidental.

– Por outro lado e ao longo da própria evolução das sociedades, cada vez maior acuidade ganhou a percepção de que em todos os actos político-eleitorais livres, ou assim exponencialmente desejáveis, em jogo entra toda uma complexa série de factores que entroncam em outros tantos sistemas de entendimento filosófico, político-jurídico, social, moral e simbólico, cujas mútuas coordenadas nunca deveriam esquecidas nem escamoteadas!

No caso dos Açores, com a proximidade das eleições regionais do próximo Outono, de um ou de outro modo, embora à pequena escala da Autonomia democrática que em parte conquistámos e em parte nos foi outorgada, estas problemáticas também podem e devem ser pensadas, – para mais numa altura em que, nunca talvez como durante a última década, nada do que se passa e passará no País importará tanto à nossa Região, a começar pelo próximo Orçamento do Estado…

Ora, pelo que se ouviu dos principais partidos do regime e sistema que temos, a(s) data(s) proposta(s) ao Presidente da República para a marcação das Eleições Regionais são mesmo importantes para uma rigorosa avaliação, um mais transparente delineamento e uma mais esclarecida capacidade de escolha popular entre os vários modelos, agentes e programas em presença actual e implementação futura. E neste caso, francamente, toda a razão assiste à devidamente justificada proposta do Partido Socialista! E se mais não houvesse que escutar para reflectir, bastaria talvez apenas observar bem as fotografias das delegações partidárias do PS e do PSD que se deslocaram a Belém, levando as respectivas moções de calendarização para o aguardado, importante e exigente acto eleitoral que já está a bater à porta das ilhas…

– E foi assim que o PSD-A lá se apresentou ao PR com Berta Cabral, ao lado de dois organicamente tutelares dirigentes nacionais do partido de Passos Coelho, numa representação muito lacunarmente açoriana, com uma imagem um pouco gasta e até parcamente autónoma e autonómica, quando, desde Mota Amaral até Duarte Freitas, Joaquim Ponte, Costa Neves, Lídia Bulcão ou mesmo Patrão Neves, para referir apenas alguns nomes sociais-democratas, não lhe teriam faltado figuras de prestígio regional e nacional para a dita auscultação-propositura a Cavaco Silva. Mas, ao contrário do que o mais elementar senso político e intuição partidária recomendariam, a líder regional micaelense lá se ficou, subalternizada e sob um desnecessário e contraproducente protectorado simbólico do PSD nacional, apenas acompanhada por Jorge Moreira da Silva e José Matos Correia!

Porém, ao contrário do PSD, muito bem – na forma, no elenco e na fundamentação do conteúdo da mensagem transmitida – esteve a delegação açoriana, exemplarmente autónoma e autonómica do PS (Vasco Cordeiro, Maria João Carreiro, Berto Messias e Ana Luís), com uma atractiva imagem de frescura, segurança e representatividade real:

– Um óptimo sinal partidário e um capital simbólico altamente precioso, renovado e personalizado para os combates políticos que se avizinham, aqui nas nossas ilhas e em Lisboa, ao mesmo tempo e quem sabe se contra concertados e poderosos adversários na Lapa, em S. Bento, no Caldas, em Belém e até nalgumas conhecidas e velhas armadilhas de outros bairros da capital, à velha moda do pior que já passou pelo Rato e por outros largos e ruas semelhantes na nossa própria terra!
________________________

“Diário dos Açores” Ponta Delgada, 22.07.2012)  – http://jornal.diariodosacores.pt/;
“Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 21.07.2012) – http://www.diarioinsular.com/;


sábado, julho 14, 2012


Uma Tragédia Provinciana




Fernando Pessoa, numa parelha de textos exemplarmente polémicos sobre Portugal e os Portugueses, defendeu que, se quiséssemos, ou, como ele, “quisermos resumir numa síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo”, “igual doença [da qual] enfermam muitos outros países” e que o mesmo “consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela – em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz”.

 

Todavia, não se pense que o nosso grande poeta e pensador da Portugalidade e da própria existencialidade desassossegada do Homem – e das suas fragmentárias e fragmentadas dimensões ônticas, socio-históricas, civilizacionais e discursivas (talvez todas afinal originariamente decaídas, conquanto não sob uma redutora exegese e categorização do pecado original como alguns teólogos tentam desenhar a traços superficiais…) – se estava referindo somente a uma daquelas chamadas três camadas mentais, organicamente distintas e apenas em parte coincidentes “com a divisão em camadas sociais” em todo e qualquer País, e portanto também em Portugal.




 – Não! Aquilo que Pessoa diagnostica, caracteriza e classifica como de mais intrínseco ao caso mental português – o Provincianismo – atravessa transversalmente, como agora na gíria vigente é habitual ouvir-se dizer, todos os campos e partículas da vida e da semi-vida portuguesas, aí incluídas naturalmente as esferas políticas e as suas mais incríveis capacidades e talentos para a carambola…

 

E depois, dessas camadas, afirmava Fernando Pessoa que as mesmas constituem ou entretecem a respectiva e específica vida mental do nosso país, estando assim estruturadas:

 

– “a camada baixa, a que é uso chamar povo;


– "a camada média, a que não é uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia;


         – e "a camada alta que vulgarmente se designa por escol, ou traduzindo para estrangeiro, para melhor compreensão, por elite”.

 


Não sendo aqui o lugar apropriado para muito amplas e aprofundadas explanações críticas sobre a aludida tese pessoana, não consegui deixar de relembrar-me dela, ao ouvir, penosamente e outra vez, esse tal de Relvas, numa comissão parlamentar da República que temos em Lisboa, usando e inglesando provincianamente do termo 
adviser, para referir-se aos consultores, conselheiros, ou lá o que são da clarividente, estratégica e profética equipa do pai de todos eles e da sua governança, no que mereceu aliás um merecido e linguístico puxão de orelhas por parte de um parlamentar do PCP, pesem embora a reincidência do lusofonamente licenciado e burlesco ministro e a cobertura dos seus lances por parte de outro parlamentar, ao logo de seguida linguajar outros, não menos cosmopolitas, termos do mesmo quilate e quejando vocabulário técnico de yuppiesboys e demais managers da coisa pública que governa Portugal, pela mão férrea e pela calculadora soberana de uma qualquer estrangeira troika!

 

Mas, em muitos casos, o uso – supostamente erudito ou especializado, de certos vocábulos, expressões e acrónimos (off-shoreCEObenchmarkingrating, etc., etc.), se bem que já especialmente legitimado no universo discursivo provindo e reinante nas áreas das jovens ciências e modernos actores da economia política e da gestão da nossa actual falência e subserviência colectiva – também poderia ser detectado noutros campos aonde o seu expedito, provinciano, insólito ou enfatuado debitar ainda anda mais a par do encobrimento do sentido do que da desejável e rigorosa precisão da verdade!


 Porém isso ficará para outra Crónica, mais regionalmente (de)cifrada e  contemporaneamente actualizada…


_______________________

Publicado em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 13.07.2012),
“Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 14.07.2012),
RTP-Açores:
e Networked Blogs:

sexta-feira, julho 06, 2012

O Canudo de Relvas


Não há dúvida que um dos casos que maiores atenções chamaram à opinião pública nacional nos últimos dias – desde aquilo que foi veiculado pelos OCS e pelas redes sociais, até ao muito mais que espontânea e indignadamente tem sido dito e ouvido por tudo o que é sítio de voz popular, entre registos de indignação, repulsa ou as mais ridicularizantes e anedóticas narrativas… –, foi o da já famosa graduação universitária atribuída a Miguel Relvas, ministro-adjunto, dos assuntos parlamentares e da condicente e reiterada confiança do nosso primeiro oficiante executivo e político-partidário, Passos Coelho!

O acontecimento não é para menos, porquanto, quase a modos de uma pasmosa categoria escolar concedida de mão beijada à dita personagem de relevo na nossa queirosiana nação, e quase por analogia abstrusa com outra estrambólica, mas menor e inexistente figura de Licenciatura Honoris Causa… – conquanto apenas aqui (e bem bom…) apenas com uns 11 valorzinhos por reconhecimento de saberes e práticas “políticas” e “técnicas” (sic), imagine-se… –, lá foi finalmente publicitado agora que a prestimosa Universidade Lusófona (UL) lhe concedera, em 2007, catando e cinzelando bem, sabe-se lá com que lentes e becas científicas de aumento, alguma pedras e pepitas naquele capim de prestações empiricamente atestadas, entre outras brutas matérias-primas que legal e soberanamente se entendeu depois reconverter, quase alquimicamente e a requerimento, em outros tantos créditos incrustáveis num expedito canudinho de equivalências bolonhesas, fitas da respectiva praxe e decorrente diploma de licenciatura, para que esse prestigiante tirocínio (certamente em muito logo credibilizante para a própria UL…) pudesse emoldurar e ser exibido exibir no pano de parede dos gabinetes e folhas de serviço à Pátria e à Sabedoria, e no assim mais consentâneo currículo da tão reconhecida carreira pessoal, política e universitária daquele dito estudante e estudioso Relvas!

– Sem adiantar muito mais ao que nesta coluna já escrevi sobre o dito super-político do PSD (cujos talentos e verve os Açores já conheciam dantes e noutros campos e domínios…), somente hoje mais me ocorreu que o lema da mesma UL que o licenciou, a par do propagandeado marketing das suas várias e indiscutíveis excelências de oferta e procura docente e discente no mercado do Ensino Superior privado em Portugal, é “Humani nihil alienum”, curiosamente o mesmo ex-líbris que é usado, desde 1955 – e talvez aí mais adequadamente por via directa do ilustre Terêncio… – em idêntico lema de uma Escola Secundária presbiteriana em Trinidad e Tobago (o Hillview College), estabelecimento de ensino desse país que fica lá para as bandas das Caraíbas, onde também e ainda há muitos piratas, reais e ficcionais corsários a navegar, pestífera e impunemente, à vista grossa ou com a conivência de alguns navios-almirante sem pavilhão de honra, firmes mãos ao leme do conselho da nau capitã, bússola bem regulada e limpos óculos para abertura nas linhas do horizonte…

Porém, o caso de Relvas não será propriamente inédito no que respeita a cursos académicos e recursos políticos superiores em Portugal, pelo que se compreende muito bem alguns dos inseguros passos, silêncios, desforras ou embaraços presentes, especialmente por parte de quem antes mandou muito pó ao vento, encobriu as mazelas indignas dos seus ex-líderes e queridos chefes de fila, ou atirou pedras aos telhados de vidro fosco de vizinhos e companheiros! E desses, infelizmente, estão todos os partidos bem recheados…

– Todavia, o mal, evidentemente, é muito mais profundo (como há dias José Adelino Maltez, sem subterfúgios, apontou incisivamente e com justeza num programa-debate da SIC), estando o mesmo na raiz de todo um instalado sistema de favorecimento de mediocridades e incompetências, jogo de interesses e mercadejar de influências a todos os níveis das nossas referenciais mas decadentes ou já tetra-mundistas instituições e corporações, e assim também nas Universidades e na vida Política, aonde o poder do Dinheiro e os capitais simbólicos e financeiros do Poder, entre nós e desde há muito, demasiado tempo – embora com honrosas excepções – corromperam a única nobreza e a autonomia teórica e ética do Pensamento, do Saber, da Ciência, do Mérito e das próprias consciências pessoais e colectivas de grande parte dos Portugueses e das suas supostas ou impostas “elites”…

Numa altura em que o nosso Povo, injustiçada e angustiosamente, pena os olhos da cara e sofre aflições de morte para ganhar e pagar o pão de cada dia, arranjar emprego e ir sustentando a saúde do corpo e do espírito; quando tantas famílias e tantos verdadeiros estudantes trabalharam anos e anos a fio para conseguirem as suas habilitações, enquanto outros, em todos os escalões do Ensino, ainda permanecem hoje sem dinheiro suficiente para cantinas, transportes, propinas e livros; e – enfim – quando tantos e tantos trabalhadores qualificados, técnicos geniais e inteligências brilhantes tem de emigrar, ficam para trás ou à margem daquilo a que deveriam ter direito e justo e merecido acesso por mérito próprio, – jogadas sorrateiras ou descaradas, mesmo que cobertas por leis (iníquas e retrógradas!), como algumas das que vamos cada vez mais presenciando em Portugal – e de entre as quais a de certos pobres diabos políticos nem sequer mereceriam o custo uma palavra de reprovação ou repugnância formal –, atingem as raias do escândalo e são um ultraje científico, jurídico, político, cívico e moral ao País inteiro!


– Oxalá que, a somar a todas as outras congéneres fraudes, às quais directa ou indirectamente se assemelham, também mais esta cínica e abusiva desfaçatez político-académica não deixe de ficar, na altura certa, sem a merecida resposta correctiva, coisa da qual se duvida, tão baixo o nível a que gente sem escrúpulos atirou a credibilidade da Pátria e da Lei!

_____________
Publicado em:
- "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 07.07.2012). Versão reduzida.
- "Diário dos Açores (Ponta Delgada, 08.07.2012):



sábado, junho 30, 2012

Fogueiras e Fogaréus

Nenhum observador minimamente atento à realidade política regional e nenhum ativo participante razoavelmente dotado de preparação e senso a condizer com responsabilidades e cargos assumidos (às vezes bem levianamente…) para tomadas de posição, análise e implementação de linhas de pensamento estratégico e medidas práticas decorrentes das opções de um justo e competente entendimento daquela mesma realidade política – mormente no que diz respeito a atos da governação, ao comportamento deontológico dos seus membros e ao devido (e exigível!) acompanhamento crítico, suporte solidário e elucidação precaucional por parte dos vários agentes e atores institucionalmente ali envolvidos –, poderá deixar de encarar com muita apreensão todos aqueles, sucessivos, multiplicados e acumulados casos e temas que tem, a esses mesmos diversos mas confluentes propósitos, vindo a inundar exponencialmente (e ainda mais nas últimas semanas e dias) o inteiro panorama político-informativo da Região Autónoma dos Açores, nos OCS e nas redes sociais (locais e nacionais…).

– Não valerá a pena, creio eu, inventariar aqui o leque dos ditos temas e casos em triste vista e alcance, tão percetíveis são eles, apesar da quase inacreditável série de miopias, arritmias de coordenação e nucleares ausências de terapia firme com que as referidas úlceras (algumas de grande pressão…) tem sido padecidas e geridas por quem, assim, até parece estar deixando cavar a sua própria cárie político-partidária e, talvez, conquanto inadvertida e involuntariamente, levantando ventos para uma eventual borrasca outonal cujos sintomas de contágio, suficientemente alarmantes pelo que prenunciam (e nalguns casos comprovam!), são mesmo risco de fósforo e fumo de fogueiras que poderão vir a chamuscar muitos dos fundilhos e rodas de saia que andaram a passear-se pela ilha Terceira durante as Festas Sanjoaninas, em visitações de caravana cortesã, em varandas acolchoadas, na calçada molhada ou no improvisado palanque de muita fatuidade, conforme o valor do cicerone, a música da marcha ou o ferro do curro…

A outra hipótese para o que se vê, lê e ouve é a de, novamente, querer-se arranjar fogaréu expiatório para um mal que antes provém, acima de tudo e de todos, da falta de inteligência política, de poder decisório esclarecido e da paralela e interesseira aniquilação da democraticidade partidária interna, – formas convergentes e larvares de reincidentes desculpabilizações pessoais e político-partidárias que não deixarão, desta vez e na devida altura, de ser objetivamente acentuadas!
____________
Em “ Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 30.06.2012):
“Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 01.07.2012):
Azores Digital:

sábado, junho 23, 2012

Um Exemplo de Deontologia


Proveniente da reflexão ética desenvolvida pelo filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham (1748-1832) e nesse mesmo âmbito por ele criado, o termo deontologia – como a sua própria composição a partir do grego evidencia – reporta-se ao estudo teórico e ao exercício prático de acções realizadas em cumprimento de valores, princípios e deveres morais, nomeadamente daqueles que fundamentam, regulam e orientam o desempenho de actividades e ofícios, ministérios públicos ou responsabilidades sociais, pelo que é assim também geral e conjugadamente usado, na expressão deontologia profissional, enquanto ramo da ética, como relativo à ética profissional.

– E é neste mesmo domínio e preciso sentido que muitas profissões, ordens e organizações possuem os seus códigos deontológicos normativos ou vinculativos, conforme os casos específicos (p. ex. médicos, jornalistas, advogados, enfermeiros, psicólogos, engenheiros, economistas, etc.).

Por outro lado, não deixa de ser curioso verificar que só muito raramente existem códigos deontológicos expressamente formulados e formalizados para o desempenho de funções ou cargos político-institucionais, embora, diversamente ou a quando de certas e determinadas tomadas de posse, muitos dos seus agentes e actores até façam um solene juramento de honra, fidelidade e lealdade à Lei, à Pátria e ao Povo que lhes delega Poder e partilha ou empresta poderes limitados, sendo que, em alguns países, esse preito é simbolicamente firmado e aceite sob a invocação do espírito e da letra de Deus, de Livros Sagrados ou da Constituição Civil.

– Todavia, caso recente, honroso, pouco usual e muito louvável acaba de ser posto em prática pelos Socialistas franceses, ao criarem uma Carta Deontológica dos Membros do Governo, que foi obrigatoriamente assinada por todos eles e aonde estão consagrados os princípios, normas e interditos ético-políticos (e outras auto-limitações em prebendas, favores, serviços, espaventos e mordomias…) que devem enformar e guiar o comportamento dos seus membros temporários, no que diz justamente respeito a Solidariedade e Colegialidade, Concertação e Transparência, Imparcialidade, Disponibilidade, e Integridade e Exemplaridade! O texto está disponível no site da internet da nova e tão promissora Presidência socialista da França…

Porém o precioso e exemplar documento, que mereceu logo destaque em todos os OCS gauleses, foi significativamente quase ignorado nos esconsos corredores da secular choldra política lusitana e nas palavrosas redes mediáticas ou de interesse e vassalagem contemporânea que ocupam e gerem as palacianas paragens, capitanias gerais ou enlameadas arribanas da política terceiro-mundista à portuguesa, – embora podendo, ainda a tempo – e mais, devendo! – ser consultado e meditado, na íntegra e com futuro proveito programático, político e moral, por todos e para todos os cidadãos e líderes livres e dignos!

– Assim sendo, sobremaneira nos tempos que correm, uma análoga adopção e implementação daquela Carta em Portugal – por todas as forças políticas que entre nós andam e aonde muitas ilegitimidades, várias ilegalidades, bastas impunidades e sinistras e ridículas figuras já tresandam (desde banqueiros corruptos e lesa-pátrias venais a pequenos tiranetes e falsários que pilham povos e regiões!) – seria mesmo um imperativo de consciência social, transparência democrática e pudor individual, para um limpo, renovado e amadurecido merecimento de confiança cívica, pessoal e comunitária (solidariedade e honorabilidade partidária, jurídico-institucional, competência e até autêntico zelo económico-financeiro!), a todos os indeclináveis e responsabilizantes níveis de conta, peso e medida deontológica… E, já agora, político-eleitoral também!

_________________
Publicado em:
“Diário dos Açores” (24.06.2012):
“Diário Insular” (23.06.2012):
RTP-Açores:

sábado, junho 16, 2012

Os brasidos de Fahrenheit 451


Nascido no Illinois, em 1920, mas cedo tendo ido residir para Los Angeles, faleceu na passada semana o escritor norte-americano Ray Douglas Bradbury, autor de uma vastíssima obra – quase toda reunida em edições antológicas – e que inclui novelas, contos, peças de teatro, radiofónicas e televisivas, literatura infantil e ensaios sobre cultura, política e comunicação, além de adaptações cinematográficas nas quais participou como argumentista/guionista (nomeadamente do Moby Dick de John Huston, no Alfred Hitchcock Show ou em Twilight Zone de Rod Sterling).

Filho de uma imigrante sueca e de um guarda-fios, Ray Bradbury – que se  estreou na escrita ainda bastante novo, com a publicação de pequenos contos em revistas – manteve desde muito jovem um estreito e intenso contacto com a leitura e com a literatura, especialmente romances de aventura e ficção científica

Todavia, de entre as suas obras, maior notoriedade ganharam as famosas Crónicas Marcianas (1950) – que ele preferiu catalogar como de literatura fantástica – e a muito consagrada novela distópica Fahrenheit 451 (1953) – que o próprio entendeu classificar como sendo uma obra de ficção científica mas “baseada na realidade”, e que viria depois a ser passada ao cinema (por François Truffaut, em 1966) e encenada como ópera (em 1988).

– Apaixonado por Livros, Mitologia, História e inspiradoras Bibliotecas, mas sem nunca ter podido frequentar estudos superiores devido a dificuldades económicas, Ray Bradbury foi um escritor dotado de particular sensibilidade para as problemáticas da comunicação social, da partilha da informação e da liberdade de expressão, logo antecipando e denunciando, no que se aproxima de George Orwell e Aldous Huxley, muitas das questões críticas, ideológicas, político-militares e técnico-científicas que atravessaram a América da era McCarthy e que hoje povoam globalmente todos os universos mediáticos, virtuais, psicossociais e comportamentais do planeta.

Traduzido por Mário Henrique Leiria, com capa de Lima de Freitas, para a primeira edição portuguesa – que me recordo de ter adquirido na nossa saudosa Cooperativa “Sextante” –, Fahrenheit 451 – “the temperature at which book paper catches fire and burns” – constitui ainda agora (dir-se-ia até especialmente hoje!) uma assombrosa narrativa visionária sobre os perigos da repressão da Palavra e do Pensamento, da alienação unidimensional das Linguagens – como filosoficamente foi muito bem analisado por Herbert Marcuse –, da totalitária e violenta destruição da Memória e dos valores espirituais das grandes Civilizações, em paradigmáticas fogueiras censórias e inquisitoriais, ou na incendiária aniquilação concentracionária das consciências…
________________
Publicado em “Diário dos Açores” (17.06.2012): http://www.diariodosacores.pt/n/index.php/opiniao/1564-os-brasidos-de-fahrenheit-451;

quarta-feira, junho 13, 2012

Os Estilos da Questão


O Dr. Cristóvão de Aguiar – escritor e intelectual que muito admiro e respeito, e cuja íntegra personalidade e notável obra tanto tem prestigiado a Literatura Portuguesa e o nome dos Açores –, escreveu um pequeno artigo para o “Diário Insular” (DI) do passado dia 12 de Junho [que não quero deixar de aqui paritariamente arquivar, transcrevendo-o* ao final deste], no qual, com a habitual graça, humor e talento, teceu algumas breves considerações sobre dois textos meus publicados nesse jornal terceirense e no “Diário dos Açores” (DA). Comento pois o seu texto, igualmente hoje sem acrimónia, nos termos em que o faço e aceito, com sincero gosto por ter sido ele o autor desse tão espirituoso, objectivo e afinal, para mim, lisonjeiro escrito. 

Todavia, nem a questão disputada – ainda subjacente às suas bem humoradas palavras, conforme compreendo e deduzo com igual disposição de ânimo, e tal como o Dr. Cristóvão de Aguiar na sua leitura parece também das minhas ter entendidonem a sua respectiva e controversa vertente principal são realmente nem acima de tudo um problema “de estilo” (embora não deixem de prender-se ou desprender-se dele, pelo tipo de escrita que as aborda…), como a sua própria e muito arguta ligação entre os meus dois aduzidos textos logo captou de modo insofismável e exactamente como pretendido…

– Todavia, sabendo muito bem quem era o meu principal interlocutor na dita questão, não quis deixar de dialogar com ele em terrenos de eleição mútua e naqueles outros domínios em que os nossos horizontes e formações de algum modo se podiam cruzar, como sempre aliás amigavelmente se cruzaram de diversos outros modos ao longo de uma camaradagem que já leva quarenta anos.

No que ao facto dos fatos vestidos poderem ter sido demasiado cheios “de luzes”, apenas mais próprios para certas “faenas” ou por demais domingueiros e engravatados para dias de semana ou estação calmosa, – depende –, porquanto também para outras coberturas e descomposturas poderão os mesmos ser úteis e bem adequados … – para mais numa terra, como a nossa – aonde – e como não havia de ser? – apesar dos humildes leitores comuns do DI e do DA não serem tão pouco ilustrados ou iletrados ao ponto de não perceberem ao menos alguns dos passos e passes fundamentais das ditas longas corridas discursivas em arraial jornalístico, ou no remanso dos seus lisinhos areais ilhéus aonde a contenda acabou por espraiar-se mansamente, – julgo que, apesar disso, o meu texto sobre o Dr. Caetano Tomás não deixou de ser minimamente percebido em partes e por faixas significativas, espero eu, embora tendo sido realmente dirigido em primeiro lugar ao meu (apesar de tudo) velho camarada e amigo Luiz Fagundes Duarte, e a outros tão bons, intelectualmente habilitados e linguisticamente tão entendedores quanto ele…

– Agora que o dito quase “ensaio” e a respectiva temática pudessem (e se calhar devessem mesmo) ter ido preferentemente para outra publicação (uma Revista, talvez “académica” ou de circulação mais cingida…), estamos de acordo. Mas mesmo assim, desta vez, não foi; ficará para a próxima, se Deus quiser, já que o assunto é bem mais sério e complexo e grave do que possa parecer à distância, e até ganhou foros de incontida agressão pessoal (como ainda ontem o Dr. Caetano Tomás testemunhou aqui, e que até valia a pena apurar se viola alguma lei ou cai em foro criminal vigente)!
Porém, voltando ao nosso âmbito, achei sinceramente que os leitores do DI e do DA tinham direito a ver a questão tratada de forma mais sistemática, não aligeirada (embora, na verdade, sob um discurso um pouco tecnicamente formulado…) nem arrepiantemente apenas panfletária (embora ainda um pouco farpeante, conceda-se).

De resto, estando em português escorreito – sem falsa modéstia e sem recurso a nenhum latim –, apesar de tudo, parece-me que O Complexo de Salomé se apresenta minimamente acessível ao tal leitor comum e com tempo para ler pensando, porquanto, aos outros, aos fora do comum, embora exigindo-se-lhes menos pesquisas vocabulares e exegéticas, nem por isso, com certeza, lhes faltou o entendimento devido e acrescido para a respectiva intelecção alargada, como se depreende do que o Dr. Cristóvão de Aguiar inferiu (e em parte ficcionou…) com base numa certa realidade dura e crua, salpicando-a ainda com aquela sua, felizmente desperta, crítica, tão proverbial, conhecida e criativa verve, – talentos e valores que outros açorianos, por cá e nos subterfúgios de uma apenas vagamente castiça e penosa “insularidade” intelectual literária, mental, social e política, sem estilo algum, teimam em cultivar e deixam vegetar à sombra da bananeira ou de algum paradigmático guarda-sol nas toiradas de muita da nossa cinzenta e nublada insularidade retórica, poética e cultural…, porquanto, a estilos e conteúdos às vezes mais difíceis, trabalhosos e complexos – como os dos nossos dois tão honrosos Prémios Ricardo Malheiro Dias (Vitorino Nemésio e o próprio Cristóvão de Aguiar…) – alguns os perderam e outros nunca os possuíram, como de resto o Dr. Cristóvão de Aguiar, de modo corajoso e desmistificador tem podido constatar e denunciar!

– Agora, não posso deixar de recordar que aquela imagem do toureiro veio mesmo a propósito, ou não tivesse eu invocado o “campo pequeno” (para onde alguns revolucionários, do antigamente e de alto gabarito, tanto regalo teriam tido em ver bandarilhada e enfiada a reacção, e não sei se apenas a tridentina, talvez para verem os seus julgados próceres, sem julgamento isento, de orelhas decepadas ou rabo cortado para troféus rumo a não sei que vitória democrática e emancipadora…

Por mim, quando era rapazinho novo – mas esse tempo lá vai, infelizmente – também adorei touradas, especialmente as de corda (até levar uma valente raspadela de corno nas costas e sentir o bafo quente do toiro à perna, lembro-me bem, ao dobrar a esquina do velho Império nas festas do Porto Martim…), sem (des)primor para as “eruditas”, de praça, que presentemente me amarguram bastante e nas quais o que sempre mais me apaixonou foi a fantástica e nobre plástica dos movimentos encantatórios da lide dos cavalos, que também montei e alegremente os passeei por esses caminhos e canadas da Terceira, não fosse esse o meu signo chinês (não maoista…) e a minha mais fascinante e tentadora recreação de outrora, em sela portuguesa, estribo de caixa-galocha e sem esporas, rente ao joelho o calção/rente à rédea o coração

– Mas isso já não são contas deste rosário de questões tristes, nem apenas de estilo para estas trocas de amigáveis e fraternais ideias que optei por partilhar com Cristóvão de Aguiar nestas públicas páginas de jornal... Porém assim, creio eu, ficamos agora mais entendidos quanto a este caso passageiro, evidentemente na mútua estima e em idêntico reconhecimento das verdades ditas e justamente consentidas, e sem qualquer ressentimento pessoal, como não podia deixar de ser, com toda a franqueza e frontalidade, entre nós.
___________

Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 13.06.2012),
"Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 14.06.2012),

·

Texto de cristÓVÃO DE AGUIAR:
A PROPÓSITO DE ESCRITOS SOBRE CAETANO TOMÁS
Uma questão de estilo

O Dr. Ferraz da Rosa escreveu dois artigos para o DI de hoje, Sábado, 9 de Junho. Um deles é mais um ensaio de alto coturno (muito palavroso, ou, melhor, inçado de palavreado de alto quilate) em que se espraia em sabedoria e exegese sobre um mar imenso de problemas que um leitor comum não pode entender.
E bem bom que assim tivesse sido, porquanto esse presumível leitor nem conseguiria adivinhar que estava perante um escrito que, com certeza, abandonou, bocejando, às primeiras linhas, escrito esse que se pressupõe ser de defesa do indigno sacerdote Caetano Tomás e de ataque ao Dr. Luiz Fagundes Duarte, cujo artigo publicado no Domingo passado é arrepiantemente lúcido e no qual se debruça sobre as atoardas psicológicas de um sacerdote que ainda vive debaixo da asa do Concílio de Trento ou da Santa Inquisição.
O outro artigo do Dr. Ferraz da Rosa, publicado na última página, já se pode considerar um bom texto jornalístico, muito interessante e entendível por qualquer leitor atento. Escrever prolixa e obscuramente pouco custa. Fazê-lo, porém, com simplicidade, clareza e sem alardes de erudição (a cultura será outra coisa bem diferente), dá muito mais trabalho e requer mais tempo. Alguém, após proferir um longo discurso, terminou a sua leitura, pedindo desculpa e adiantou que não tivera tempo de o fazer mais curto...
Foi pena que o Dr. Ferraz da Rosa, intelectual de primeira água que admiro, não tivesse tido tempo para escrever o seu "ensaio" mais curto, numa linguagem mais viva e menos recamada de lantejoulas, tal qual um fato luces de toureiro...
Num periódico fica tão mal como um veraneante vestido de fato preto e gravata em plena praia. Num livro de ensaios, e após alguma poda, ficaria melhor, dir-se-ia no lugar certo. A linguagem escrita tem de se adequar à situação. Antigamente, e não sei se hoje em dia, certos fiéis gostavam tanto mais das homilias ou dos sermões quanto menos os compreendiam. "Percebeste alguma coisa?" "Não, não percebi, mas o senhor padre falou tão bem, até Latim... Consolou a ouvir..."


domingo, junho 10, 2012

As (des)construções da Região




As declarações do primeiro-ministro e líder do PSD sobre as exemplares e resignadas virtudes da paciência (ou de submissão pacífica e pacificada?) – que o povo português, segundo ele, tem vindo a demonstrar perante a crescente tortura de vida, a situação de transe (como muito bem a classificou Medeiros Ferreira) e a galopante agonia económica, social, laboral e psicológica em que o país vive –, tornaram a ultrapassar os limites do razoável e do decente, tanto mais quanto se revestem de uma hipocrisia moral e política de que não há memória tão insultuosa e cínica nos tempos da Democracia, e que até parecem realmente saídas daquela obscura, triste e opressiva era política que dominou Portugal até ao 25 de Abril!

– Revelando, mais uma vez, completa ausência de senso e tino de linguagem, no que amiúde se assemelha ao pior dos talentos e à fria desfaçatez do seu ministro Relvas (figura, de resto, a quem tem, partidária, executiva e parlamentarmente adubado com uma piedosa cobertura, só equivalente ao brilho confiante e confiado que baila agora no olhar vivaço, conquanto algo petrificante e reptilário, desse seu homem de mão…), Passos Coelho conseguiu logo reacender fogos e graus de indignação, suscitando até desejos de apelo à revolta (mansa, por enquanto, mas na rua…). 

E um Bispo católico foi até ao ponto de dizer que os nossos concidadãos estavam a ser tratados como “povo amestrado” e “tão dócil que merecia estar num jardim zoológico”…

Ora estas trocas de mimos chegam numa altura em que no PSD cresce a divisão e mais vozes desafinam da política económica, social e salarial do governo/troika, como se viu a propósito dos últimos alvitres de António Borges e Vítor Gaspar.

– Assim sendo, é fundamental que a agora emblemática vontade de construção (análoga à nacional?), pelo PSD, dos Açores como “região económica”, seja mesmo competente e efetivamente complementada e garantida, pelo e com o PS, como Região também socialmente justa!
_____________
Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 09.06.2012): http://www.diarioinsular.com/

sábado, junho 09, 2012


Uma Diegese Discricionária
ou O Complexo de Salomé


Já depois de escrito e publicado o meu texto “As máscaras do Parlamento”, pude ler, no “Diário Insular” (03.06.2012) e no Facebook, um artigo de Luiz Fagundes Duarte (LFD), a quem eu havia nomeado devido a uma primeira apreciação crítica que ele expressara sobre o afastamento do Dr. Francisco Caetano Tomás (FCT) da lista de personalidades a serem honorificamente distinguidas pela ALRAA.
A história é bem conhecida em todos os seus momentos e torpes percursos – desde a Presidência da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA) à conferência/comité dos líderes parlamentares – e consta de um imbróglio que levou a que, do primeiro e aprovado elenco de honorificáveis, o nome de Caetano Tomás – proposto pelo PSD, partido que integra também a Comissão de Assuntos Parlamentares, Ambiente e Trabalho (CAPAT) da ALRAA e que depois viria, pusilânime e impudicamente, a retirar e deixar cair a sua própria proposta! –, acabasse assim por ser liminarmente saneado por todos os restantes partidos, devido a chantagens do BE e com argumentos baseados numa denunciada discordância doutrinal de FCT, – sendo pois e por isso que o citado ato político-parlamentar, por móbil de um tipificável delito de opinião, configurou um arbitrário julgamento condenatório, uma inadmissível punição cívica e uma censura global à pessoa, trabalho e méritos de toda uma longa vida e vasto currículo (conquanto ignorados (?) ou intencionalmente estigmatizados por alguns dos manietados, ingénuos ou ressabiados avaliadores inquisitoriais e comissários do nosso mui ilustrado e democratíssimo Parlamento…).
– Mas note-se que essa leviana censura pessoal e político-institucional assentou também, conquanto distorcidamente, em emblemáticas, fraturantes ou (até mesmo…) angulares causas e pautas eleitorais de certos círculos e tendências partidárias (verbi gratia nos complexos, duplos e parcialmente díspares fenómenos da Homossexualidade e no sempre indiscutivelmente traumático e criminoso caráter predatório de toda e qualquer forma de Pedofilia!), todavia querendo fazer-se parecer que esta última perversão (de facto e amiúde histórica, individual e institucionalmente encoberta em múltiplos setores!) não teria sido bem denunciada e repudiada, por FCT, em toda a sua coimplicada dimensão e profunda dramaticidade psicoexistencial e ontológica (efetivamente reais e que ninguém poderá negar, mas que ninguém, que se saiba, absolveu…), no aludido artigo de opinião publicado em “A União”, e isto – conceda-se aqui – devido a discutíveis, controversos e redutores delineamentos esquemáticos e categorias psicologistas que estruturam e determinam a particular conceção do aparelho psíquico, a fenomenologia do psiquismo, a sistemática diagnóstica e os modelos etiológicos, psicopatológicos, sociais, morais, terapêutico-comportamentais, e – por essa via – filosófica e cientificamente disputáveis, do quadro teórica e metodologicamente seguido pelo Dr. Caetano Tomás.
– Acontece porém, como o próprio LFD teve já oportunidade de certificar, que as suas primitivas leituras do caso mudaram e inverteram-se entretanto radicalmente, de modo que aquilo que começara por ser indignação pela reconhecida e condenada censura ao “Pai Tomás” – como ele apelida o octogenário sacerdote… – acabou por transformar-se, de repente, num espantoso disserto de encobrimento e justificação dos insólitos procedimentos dos tribunos regionais (com relevo para os do PSD e do BE) e, ainda por cima, através de uma violentíssima navalhada à idoneidade e às teorias da “cabeça do Pai Tomás”…
E é precisamente essa reviravolta e o conteúdo da novel trama argumentativa de LFD, devido ao seu mais duro e puro recorte discricionário e persecutório, que não posso deixar de repudiar vivamente, entre outras, pelas razões seguintes:
– LFD, para agora contraditar, quase retratando-se e subscrevendo (e, pelo revistos, mais supramente e em progressão geométrica até abonando) a vergonhosa atuação censória (por especial culpa do BE e do PSD) consumada pela ALRAA – que, essa, enquanto tal, não sei se continua ou não ainda (?) a ser vista segundo o mesmo antes ponderado juízo… –, foi citar uma Conferência daquele sacerdote, realizada na Praia da Vitória, mas fazendo-o a vesgo golpe de memória e com caprichosa torção do corpo diegético avocado, tanto mais quanto as frases e ideias supostamente expressas pelo Dr. Caetano Tomás constam de um texto escrito e do confluente contexto de uma exposição problematizadora, comentada à própria margem e com recurso a diversos gestos e figuras de estilo
Mas acontece ainda que essa Sessão “oficial” (como LFD fez sibilina questão em adjetivar), ocorrida em 2009 – não “há uns dois anos”, portanto – e à qual também assisti –, teve lugar no dia 1 de dezembro, na “Casa das Tias”, foi promovida pela Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP), em parceria com a Câmara da Praia da Vitória, tendo o Orador convidado – por mim (como Delegado da SHIP nos Açores) – desenvolvido o tema A Restauração de Portugal à luz dos Factos Psicológicos da Atualidade Portuguesa.
É claro que do texto de LFD, subliminarmente intitulado “A cabeça do Pai Tomás” muito haveria a dizer, tanto pelo que nele pode retinir da obra antiesclavagista de Harriet Stowe (A Cabana do Pai Tomás), quanto pelo que poderia revelar a partir da análise de um hipotético Complexo de Salomé, ali em recalcada dança pulsional e com alguma espelhante bandeja sacrificial aonde se pedia, ou recomendava, a exposição (transfer psicanalítico?) da parte mesma – metaforizada, bem entendido… – de um corpo/órgão humano mentalmente decapitado ou a decapitar
– No entanto, não deixa de ser curioso que aquela imagem (“cabeça do Pai”) tenha sido acionada e retida, vá lá saber-se se em subconsciente e equívoca paráfrase de projeção ou mimética aplicação possível a vastos campos lexicais e semânticos da Moral e da Ética, ou conforme os paradigmas subjacentes a determinadas mitologias sociopoliticamente expiatórias, a outras possíveis categorias analíticas ou noutros registos narrativos, – tais os daquela história bíblica de Herodias, Salomé e João Batista… –, para já nem chegarmos às formas, não só simbólicas quanto tragicamente reais, de alguma da nossa modernidade concentracionária (desde antigas e aterrorizantes guilhotinas revolucionárias a sevícias e assassinatos, esses sim, precisamente vigentes em regimes fascistas e hitlerianos, e também intrínsecos aos gulags soviéticos ou maoistas e a ditaduras terceiro-mundistas, tal como, em escala variável, em todas as tentações, práticas e sistemas totalitários, – alguns deles que inspiraram, ainda bem perto de nós e formalmente, idênticos campos pequenos, ameaças de terror e condenação à morte física, psíquica, cívica e societária, por meras razões de dissidência, “desvio” intelectual ou direito à diferença de opinião, ideologia, credo, sexo, raça, religião, cultura e mesmo até por simples desalinhamento partidário
Quanto a tudo isto, porém, fiquemos por aqui, até porque, como LFD também saberá muito bem, sempre devemos estar todos bem atentos à forma como as repressões e as discriminações começam, porquanto nunca sabemos até onde é que os algozes e os mandantes serão depois capazes de ir!
– Agora, que as palavras postas na boca e na cabeça do Dr. Caetano Tomás possam corresponder a uma real enunciação apologética de verdades ortopráticas, ou pertencer a qualquer prédica legitimante da Pedofilia, lá isso não!
E surpreende-me e indigna-me bastante que uma pessoa com a proverbial e justamente honrosa estatura intelectual e académica do meu amigo Fagundes Duarte tenha sido capaz de chegar a tal extremo de deturpação política e conceptual de registos e níveis de discurso, enviesando não só a respetiva intencionalidade lógico-argumentativa quanto até os seus sentidos ideográficos, ainda abusivamente tão (mal) manipulados e depois iconograficamente mimados com a cancela e a chancela de Auschwitz
– E isto para nem falarmos das omitidas questões disciplinares, histórico-curriculares, científicas e letivas que marcaram, nas Faculdades, Institutos e Laboratórios, a progressiva especialização e a autonomização da Psicologia (escolar, vocacional, clínica, etc.), nomeadamente por relação à Filosofia e à Medicina (problema que fundamentalmente nasceu e entronca, ainda hoje, também numa disputa corporativa, técnico-profissional e histórico-científica sobre as requeridas habilitações formais para os respetivos exercícios, a par das sistemáticas e bem mais profundas discorrências críticas sobre a dimensão antropológico-cognitiva (e até linguística…), – enfim – especialmente desde Freud até Lacan, mas afinal ainda e pelo menos desde Aristóteles e até Jaspers, Frankl, Dolto, Frye, Bettelheim, Kristeva ou Ricoeur… (como LFD, ao contrário talvez de alguns dos nossos deputados insulares, tinha obrigação académica e cultural de não ignorar!), a par das deliberadas e indevidas confusões feitas entre trabalho/valor/ocupação/ócio infantil e trabalho infantil “forçado” (ou explorador do mesmo como mão de obra escrava ou barata); entre uma alegada (mas falsa) deteção de retórica apologética de Pedofilias predatórias em FCT e a sua concreta e diferenciada casuística individual, psicossocial, institucional e moral – só aí então como efetiva e possível (des)culpabilização generalizada e simultânea de algozes e vítimas (e/ou das suas induzidas ou causais conjunturas e estruturas motivantes conjuntas…), – para daí chegar-se até àquele medonho, retroativo e sistemático libelo impugnatório que sobre e contra toda a carreira profissional e exercício docente, competência disciplinar e científica, capacidade e idoneidade pedagógica e pastoral de FCT é lançado, vai um grande e arriscado arco, – e de tal modo que LFD chega, sem escrúpulo, a arremessar temerariamente isto ao Padre Caetano Tomás: – “com a agravante de se tratar de uma profissão que interfere com a saúde pública” (sic)!
Pior do que isso, francamente, nada poder-se-ia ter escrito, dito ou feito, nem sequer como cantiga de escárnio! Mas foi mesmo assim que LFD – tão ativo ex-deputado na era das lojecas partidárias do José Sócrates e em cuja qualidade, aliás, na altura, se deslocou à citada cerimónia na Praia da Vitória) –, lá foi para ouvir somente o que quis, como quis e aquilo que, passados estes anos, extravasa hoje como lhe dá jeito ou gozo. Ou então, igual a isso – embora, confiemos, já sem LFD nessa confraria – só a “informação” que, num outro mas similar misto de relatório biográfico e pidesco cadastro ideológico-político, em reincidente falta de fiabilidade e transparência, alguém (anonimamente, por enquanto…) colocou, au point, na entrada (denunciadamente corporativa…) de uma ficha da Wikipédia – que só se acredita lendo! – sobre o Padre Caetano Tomás…
– Todavia e por ora fecharei mesmo aqui a porta a tanta trafulhice, continuando todavia de pena pronta para o que der e vier, neste medíocre, perigoso, incerto, cínico e opressivo tempo! E sem cabeça a prémio, espero eu, livre e inteligentemente no devido lugar, com olhar atento e sorriso sereno e aberto, mas… sem chapéus de palha à moda, tão gémea nos seus extremos, da Cuba de Fidel Castro ou do Chile de Pinochet, nas redes e enredos da loucura desencabeçada e irresponsável da politiquice caseira!
_______________

Em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 09.06.2012): http://www.diarioinsular.com/,
“A União” (Angra do Heroísmo, 09.06.2012): http://www.auniao.com/noticias/ver.php?id=28287,