As Heranças Hebraicas
Com brilho e projecção, acaba de
ser inaugurada a histórica Sinagoga de Ponta Delgada – Sahar
Hassamain (“Força dos Céus”) –, assim coroando-se velhas aspirações e
assegurando-se também, com dignidade civilizacional e sentido patrimonial, uma
acrescida preservação da memória religiosa, socioeconómica e cultural do Povo
Judeu nos Açores.
Fundado em 1836 por Abraão
Bensaúde, mas abandonado e degradado durante bastante tempo, este templo e
moradia de rabino é o mais antigo do género em Portugal, tendo sido construído
por judeus vindos de Marrocos e estabelecidos ou regressados ao arquipélago (S.
Miguel, Terceira e Faial) na segunda década do séc. XIX (na sequência de
anteriores diásporas que remontam a Quatrocentos).
– Tais factos foram aliás agora justamente salientados pelo principal, competente e incansável coordenador executivo deste projecto, o investigador e historiador José de Almeida Mello (por parte da Câmara de Ponta Delgada, instituição à qual o edifício fora cedido pela Comunidade Israelita de Lisboa).
De resto, como Almeida Mello tem
relevado, a recuperação desta Sinagoga vinha envolvendo entidades portuguesas e
estrangeiras (v.g. associações judaicas norte-americanas), a par de empenhadas
personalidades micaelenses, numa articulada e complementar série de diligências
cívicas, estudos, campanhas e patrocínios financeiros e técnicos (Alfredo
Alves, Paula Raposo, a saudosa amiga e colega Fátima Sequeira Dias, António
Valdemar, Santos Narciso, Igor França, Susana Goulart Costa, etc.), todos
compelidos no conhecimento e reafirmação das múltiplas heranças e símbolos
histórico-sociais judaicos nas nossas ilhas.
« ‘emeq chawah le’am beney ichra’el lahuzat liquebor
me’at ‘anachim hahem ‘anechey haqa’mera’ hayan ‘amen ».
“Campo da igualdade para o povo dos filhos de Israel,
comprado para sepultar cem pessoas.
Foi graça dos varões da Câmara. Amen”.
– Na Terceira a presença hebraica foi diligente e minuciosamente estudada por Pedro de Merelim (Cf. Os Hebraicos na Ilha Terceira, Angra do Heroísmo,1966, com edição posterior em 1995)..., mas o Cemitério Judaico (de 1832), que está agora em vias de prometidos cuidados pela Câmara de Angra e de leitura de campas pelo IHIT, tem caído em lastimáveis abandonos, como pude constatar in loco com o Embaixador de Israel, há anos!
E isto para não falarmos da
triste ignorância e do desleixo terceirenses em relação ao resto deste bíblico tema e de todos os
respectivos alcances retrospectivos e prospectivos...
Angra do Heroísmo, 24.04.2015
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Publicado em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 28.04.2015):
"Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 25.04.2015):
"Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 25.04.2015):