sexta-feira, abril 18, 2014


Da Ideação Suicidária
ou A Degeneração do Humor


 1. Não é fácil gerar e gerir o Humor, fenómeno complexo e sério que – tal como o Riso, o Cómico, a Ironia e outras manifestações próximas dele e das suas variadas facetas e configurações – tem sido objecto de aprofundados estudos temáticos.

– De resto, para além de ser uma manifestação não só mas especialmente humana, cultural e psicossocialmente situada, de sentimentos, percepções estéticas e juízos de valor sobre factos, pessoas, tipos, situações e comportamentos reais, ficcionais, físicos ou imaginários, que são transmissíveis ou transmitidos sob múltiplas formas de representação discursiva e simbólica (verbal, literária e gestual), o Humor e as suas categorias ou circunstâncias de exercício retórico, narrativo, teatral e iconográfico foi visto em conhecidas e tão diversas abordagens como as que foram desenvolvidas pelos filósofos, escritores, dramaturgos, psicólogos e comediantes clássicos, e mais recentemente ainda, a título de exemplos que apenas saliento, Bergson (numa obra sobre “a significação do cómico”), Darwin (que o estudou na perspectiva “das emoções no homem e nos animais”), ou por Freud e Lacan que o inseriram no quadro psicanalítico e intersticial da linguagem e das suas “contaminações” por relação ao inconsciente, ao desejo, à sexualidade, ao poder, etc., como no caso dos ditos espirituosos (“mots d’esprit”), chistes, anedotas, cantigas, graças ou dichotes...
  

Por outro lado, toda a trama expressiva e crítica que o Humor e suas variantes paradigmáticas contêm e veiculam estão bem presente no folclore dos povos e culturas, disso até sendo amostra muita rica o caso dos dizeres das nossas Velhas (que abordei em Heranças da Terra – Leituras de Etnografia e Outros Textos), enquanto modalidade genericamente filiada numa tradição remontável às Cantigas de Escárnio e Maldizer.

E é assim, conforme mais salientei, serem intenção ou intencionalidade de As Velhas a sátira de casos, vivências e situações individuais ou comunitárias transpostas para uma ou várias insólitas ocorrências aonde um certo teatro de costumes, gestos e falas é sintetizado numa relação ou tendencial relacionamento entre pessoas (homens e mulheres idosas), desenhando-se aí uma dupla cena-padrão envolvendo um jogo imagético, libidinal e amoroso de absurdo e de desejo, sendo também o mesmo suportado por uma lógica de duplo sentido que efectua uma transgressão do registo normalizado das morais e das linguagens socialmente avalizadas e toleradas...

2. Vem isto também a propósito de um programa – intitulado Melhor do que Falecer – da autoria de Ricardo Araújo Pereira (RAP), figurinha estelar do nacional-humorismo em voga e alta cotação nos canais da TV que encharca o País com as suas criatividades espirituosas...


A dita peça – que é para arrastar por três meses... –, terá a duração de longos e penosos 5 minutos, sendo transmitida em horário nobre, a seguir ao Telejornal do Canal que lhe dará guarida, tal como já começou a acontecer na passada 2.ª-feira com uma inacreditável e repugnante encenação, enredada numa lengalenga barata mas insinuante e sugestiva – e assim irresponsavelmente indutora, propedêutica, quando não quase apologética! –, de uma série de transes suicidários, documentados, à laia de reportagem sensacionalista (trágica, porém!), com uma série de saltos para a morte a partir de uma varanda de um prédio citadino, de onde, acompanhados de gritos em fundo, jovens se atiravam, invocando, ou sendo-lhes subliminar ou abertamente relevados desesperos, desesperanças e outras pulsões violentas e auto-destrutivas, que os levava a projectarem-se filmicamente no vazio, para acabarem por cair, corpos mortos, no chão da rua!

– Ora aquela cena é tão destituída de qualquer réstia de sentido de humor, ou de outro qualquer sentido do que quer que seja para além da sua inconsciência, ignorância e leviandade, que é difícil encontrar adjectivos para classificá-la até ao osso da respectiva imprudência comunicacional e televisiva, menoridade racional e brutal demência ética!


 3. Já não é a primeira vez que tamanhos experimentalismos recebem acolhimento e encómios em OCS lisboetas, sendo até tidos por coqueluche e supostos modelos de criatividade humorística aplicada ao actual campo da vida sociopolítica do proverbial e ajardinado “rectângulo” do massificado Zé Povinho, podendo mesmo dizer-se de tal esterco televisivo o que aqui se dizia, há perto de cinco anos atrás, a propósito de outras façanhas de igual jaez e grupal fedorência de RAP&Cia, porquanto sempre “há humor e humores” conforme os talentos, virtudes e níveis culturais em cena ou pantalha (desde os ditos à Charlot, Cantiflas, Solnado ou Badaró, ao ordinário à Herman, ao inglês de Mr. Bean ou Yes Minister, até ao Allo! Allo!, ao Gendarme de Funès, ao brasileiro do Gordo ou às sitcoms norte-americanas, sem esquecer os Palhaços dos Circos e as nossas populares Danças e Bailinhos de Carnaval, mesmo sem Ratão em audiovisual…). 

Porém – e para já não referirmos outras exemplares e bem duvidosas graçolas antigas do tal ido “Gato Fedorento”, como as de um bolçado escarro sobre as devoções marianas em Fátima, o achincalho ao pouco alfabetizado candidato a autarca açoriano ou outros pretendidos catalisadores de risota ou gargalhada em estúdio, com chocarrices pegadas nos equívocos desses pequenos mitos untados nas vascas da mediocridade nacional aonde se manifestaram e persistem desalmadas e quiçá impiedosas lógicas de violência simbólica  e do acanalhamento cívico, moral e espiritual que a nossa burgessa e fútil classe político-partidária e seus actores económicos e agentes mediático-culturais fomentam sem apelo nem agravo!


– Agora, porém, vinha a dizer, temos essa inacreditável encenação de ideação suicida, (apologia e motivação suicidária!) que é tão mais grave e profundamente celerada quanto faz evocar no imaginário colectivo dolorosas e dramáticas cenas do quotidiano do mundo e da nossa própria Pátria, envolvendo jovens, crianças, pais e mães, toxicodependentes e outros seres humanos apenas mas fatalmente tocados pela fascinante atracção do vazio e pela tentação do nada de si e do Outro, à beira dos precipícios todos que levam à aniquilação última da Vida e da Esperança!


Por tudo isto – e pelo que ainda fica para ser dito depois – é que esse programa (talvez não por acaso guardado pela sombra estilizada da gadanha da Morte...) – seja afinal e para além do mais, sinal e prova provada não só da degenerescência do Humor dos supostos criativos e apalhaçados humoristas lusos, quanto da degeneração e falecimento total da responsabilidade de Portugal e dos Portugueses perante todos os que, de um modo ou de outro, conivente e complementarmente, lhes assassinam o Futuro, vendendo-lhes “artístico-humoristicamente” (?), sem graça nem alegria nem amor, a desgraça triste e angustiada do próprio falecimento do corpo e da alma na alienação do Presente...

Angra do Heroísmo, 17 de Abril de 2014
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Publicado em "Diário dos Açores (Ponta Delgada, 18.04.2014):





































Azores Digital:



















e "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 27.04.2014):



segunda-feira, abril 14, 2014



O Silenciamento das Torturas



1. Com lançamento anunciado para o dia 16 de Abril na Biblioteca Nacional em Lisboa, a 2.ª edição do livro de José Sócrates A Confiança no Mundo inclui um posfácio novo de Eduardo Lourenço, texto que o “Público” divulgou sob o título de “O desejo amoroso do mal” e onde o reputado professor e ensaísta – salientando fundamentalmente que esse trabalho denuncia “uma função problematizadora da própria mitologia democrática sob a qual, em princípio, assenta a ordem ideal da chamada Civilização Ocidental e não só” –, escreve subtilmente assim:

– “A questão da tortura no mundo actual é tratada pelo nosso antigo primeiro-ministro numa perspectiva assumidamente política, sociológica e cultural, não apenas como uma realidade e um escândalo ético de um passado memorial em perpétua repetição, mas como escândalo e contradição ética intolerável na perspectiva de uma ordem propriamente democrática tal como algumas das nações mais ilustres – e ilustradas – do nosso mundo contemporâneo quase miticamente a apresentam”.


E mais adiante, ao subscrever que “Cada homem é a condição humana na sua integridade”, Eduardo Lourenço salienta: “Esta é a linha vermelha que separa todo o respeito que se deve a essa ‘identidade’ universal e particular ao mesmo tempo, de todas as tentações de a converter em ‘objecto’ sobre o qual qualquer se humano creia ter direitos.

“Dessas tentações (...) a do uso da tortura é a mais inumana. Denunciar abstractamente o seu uso não é pequeno mérito. Não isentar dele os actores mesmos que ocasionalmente violaram ou violam ainda o pacto democrático que por excelência a exclui e a si mesmo se nega é mais arriscado. E por isso mesmo mais meritório. Não é um combate contra um inimigo imaginário”...


2. Esta obra, logo a quando do lançamento da sua primeira edição, provocou várias e muito díspares reacções políticas, culturais e ideológicas, às quais não foram alheias, evidentemente, as anteriores actividades pessoais e as responsabilidades partidárias e governativas de Sócrates e do PS, o mesmo sendo talvez de esperar novamente agora e apesar dos implícitos ou explícitos avales que lhe foram dando, por exemplo e entre outros, personalidades tão política e intelectualmente distintas como Lula da Silva (que a prefaciou), Mário Soares (que a apresentou), Vital Moreira (que sobre ela escreveu) e agora Eduardo Lourenço (que agora lhe dispensou um posfácio).


 Todavia, vinda de outro quadro de leitura filosófica e ética, e a partir ainda de diferenciadas categorias e tradições de pensamento, parece-me digna de ser assinalada aqui – até porque menos consensual, ou menos mediatizada... – também aquela que foi desenvolvida pelo meu colega filósofo Paulo Borges, argumentando precisamente do seguinte modo:

– «José Sócrates,  Lula da Silva e Eduardo Lourenço têm obviamente razão e a maioria de nós reconhece-se nas suas palavras e sentimentos de indignação perante um acto tão bárbaro e inumano como a tortura. Mas infelizmente, eles e muitos de nós, vítimas do preconceito antropocêntrico e especista que domina a nossa cultura, esquecemos que a tortura de que são vítimas os seres humanos tem sido e é cada vez mais nos nossos dias uma manifestação apenas da inimaginavelmente mais ampla e cruel tortura que infligimos aos animais.

«Com efeito, pense-se em como são criados, (mal)tratados e abatidos os biliões de animais que anualmente usamos para nossa alimentação, vestuário, divertimento, experiências ditas científicas e trabalho. Biliões de vidas que, como as nossas, se manifestam em corpos e mentes sensíveis e vulneráveis à dor, ao medo e à angústia. 

«Biliões de vidas que, como as nossas, aspiram à liberdade, à segurança e ao bem-estar e são arrancadas aos seus habitats naturais ou produzidas numa demência industrial para serem instrumentalizadas, violentadas, torturadas e destruídas sem a menor consideração pela sua alteridade e pelo seu estatuto de seres conscientes e sencientes. 


«Ou seja, precisamente o mesmo, mas em muito maior escala, que atrás se definiu como a quinta-essência da tortura, expressão do ‘Inumano’ e ‘acto por excelência que se assume como pura vontade do Mal, quer dizer, da negação do estatuto do Outro como outro’, que muitas vezes, como nos circos, touradas e demais espectáculos, ainda é ‘acompanhado pelo prazer do mesmo acto que anula o outro e em que nós nos anulamos suprimindo inocentemente a nossa essência humana’».

3. Por seu lado, em A Confiança no Mundo, como é sabido, sendo abordado o problema teórico e a consumação prática da Tortura em regimes democráticos, defende o seu autor que esse fenómeno constitui – claro! – não só um atentado à intrínseca e inerente dignidade dos seres humanos, quanto (ou conquanto) é um índice da profunda degenerescência e falsificação a que todos os regimes políticos – mesmo os liberais ou jurídico-formalmente estruturados como Estados de Direito – podem estar sujeitos, no que assim se instituiriam em aparelhos destituídos de legitimidade ético-política e de autoridade moral.



– Esta tese, cuja perspectiva de abordagem, embora não sendo academicamente inédita, traz alguns sugestivos contributos sintéticos para uma mais articulada questionação do fenómeno da Tortura no pensamento tradicional e na história política, securitária, colonial e militar-imperial recente das clássicas democracias europeias e norte-americana (aqui, nomeadamente após aos atentados terroristas do 11 de Setembro, com as contra-posições tácticas e estratégicas assumidas pelos EUA a nível jurisdicional, penitenciário e torcionário...), – mas reclamaria porém igualmente uma incisiva aplicação à História de Portugal, por maioria de razão agora nesta atribulada passagem e comemoração dos quarenta anos do 25 de Abril, quando, entre muitas outras coisas, conviria não esquecer a indomável resistência de tantos militantes anti-fascistas e democratas (que sofreram e de variado modo definharam ou morreram às mãos de carcereiros impiedosos e de agentes assumidamente serventuários da Ditadura), cujos testemunhos vivos e pungente memória psicofísica, moral, sociopolítica, narrativa e espiritual – a não silenciar nunca! – permanecem como outros tantos avisos e desafios à nossa incauta ou desarmada confiança no mundo e nos homens de hoje e de amanhã...

      Foto Alfredo Cunha


4. Este livro de Sócrates, sendo pois agora mais filosoficamente lido (ou legível...) de modo generoso, como o faz Eduardo Lourenço, poderia porém e justificadamente assim não só trazer à reflexão uma mais ampla e referencial evocação ética e quase metafísica do problema (e do Mistério?) do Mal – tanto no que ele absolutamente opõe, ou tenta, digo, derivadamente sub-trair, ao Bem... –, quanto mais sistemática, criteriosa e consequentemente deveria estender a sua crítica visão a tudo o que, em recorrente incidência, por entre a barbárie radical da violência universal sádica e niilista da Tortura e seus suposta ou alegadamente banais (e menores?) actos maléficos quotidianos – como a mentira, a injustiça, a opressão, a exploração e todas as outras simulações ocultantes da verdade... –, ainda permanece intencional e quase inocentemente fruto da tal invocada (e desculpabilizante?) inumanidade ou desumanidade de que (todos e em que medida?) alegadamente seríamos, ou parecemos ser, parte integrante ou interessada...


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Publicado em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 15.04.2014): 



sábado, abril 12, 2014


As Figurações do Instante

no Olhar de António Araújo

1. O retentivo olhar de António Araújo e a figuração artística das suas correlativas imagens fotográficas – representado aquele e servido estas por um amadurecido, apropriado e muito seguro manuseamento e domínio técnico de específicos equipamentos e especializados recursos –, têm vindo a afirmar e projectar este notável Fotógrafo e a sua Arte como um dos mais qualificados nomes da Nova Fotografia (chamemos-lhe assim...) feita nos Açores, porém em revelação crescente e confirmado reconhecimento em todo o País...


2. Nascido em Matosinhos (1971), António Araújo concluiu o Curso Técnico-Profissional de Artes Gráficas e Comunicação na Escola Soares dos Reis (Porto, 1991) licenciando-se depois (2000) em Design de Comunicação na Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos (onde leccionaria Fotografia e Fundamentos do Design Bidimensional).

Casado com uma terceirense, este Fotógrafo (por assim dizer já açoriano por adopção afectiva e espaço de mundo...) vive e trabalha em Angra do Heroísmo há mais de vinte anos, aqui tendo exercido docência até 2001 como Professor de Educação Visual, Expressão Plástica e Oficinas de Arte. Formador em Artes Gráficas e Fotografia na Escola Profissional da Santa Casa da Misericórdia de Angra (2001-2014) e Designer free lancer, sua actividade principal desde 1989, António Araújo colabora com o jornal “Diário Insular”, sendo responsável pela concepção gráfica e fotográfica do DI Revista.

 3. Tendo recentemente participado (com José António Rodrigues, Rui Soares e Rui Vieira) na belíssima Exposição Colectiva “4 Visões, 4 Pintores” organizada pela Câmara Municipal da Lagoa, António Araújo desde cedo viu a Fotografia surgir nos seus horizontes de interesse artístico e dedicação profissional, conforme é salientado na nota biográfica incluída no prospecto da referida mostra que dá ainda conta de vários dos seus anteriores trabalhos e bem assim da respectiva co-autoria fotográfica nas seguintes edições em livro: Graciosa, Ilha Serena (Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa), As cores do Dragão – Ilha de São Jorge (Câmaras Municipais das Velas e Calheta), Dragoeiros do Museu do Vinho (Direcção Regional da Cultura), e Angra, Cidade Transatlântica (Câmara Municipal de Angra do Heroísmo).


 4. Numa obra já clássica (Photographie et Societé), publicada em Portugal com tradução e prefácio de Pedro Frade, a autora, Gisèle Freund – famosa fotógrafa documental, ensaísta e retratista (Malraux, Joyce, Borges, Neruda, Mitterand...), discípula de Norbert Elias e Karl Manheim e socióloga próxima das abordagens críticas da Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer...) –, salientou que a Fotografia, sendo “originária da cooperação da ciência e de novas necessidades de expressões artísticas, tornou-se logo à nascença objecto de violentos litígios. Saber se a máquina fotográfica era apenas um instrumento técnico, capaz de reproduzir de modo puramente mecânico as aparências, ou se era preciso considerá-la como um verdadeiro meio de exprimir uma sensação artística individual, inflamava os espíritos dos artistas, críticos e fotógrafos”, – quando não, digo, como sempre acontece (tal o seu poder sobre a realidade e o seu fascínio sobre-real...), com políticos, propagandistas, ideólogos, estrategas e manipuladores das consciências, das vontades e das mais nobres ou dissimuladamente abjectas causas...

E é assim, da verosimilitude ao índice (perspectiva tratada por Dubois), que cada vez mais, desde a loucura fotográfica do turista (mais ou menos “voyeur” dos sítios, monumentos e exotismos de toda a ordem...), à sua mesma proliferação nas redes sociais, no fotojornalismo sério e/ou sensacionalista, ou desde a geral acessibilidade massificada e banalizada que os novos artefactos em série e facilitado formato de registo e arquivo viabilizam, até à última (agora dita patológica) moda dos selfies, que toda a Fotografia (seja pela qualidade documental, sentido artístico e espírito inventivo, ou falta deles...) faz parte natural do nosso sistema moderno e pós-moderno de leitura e inserção na realidade (e na irrealidade e na hiper-realidade, por igual e conjuntamente pela fixação, representação, codificação, função memorial, nostalgia, projecção onírica, utópica ou ucrónica da existência real ou imaginária...).


 – E todavia cabe não esquecer que no cerne e essência mesma da fotografia e do acto fotográfico está implícito todo um complexo jogo de linguagens e signos, percepções, sentimentos, pensamentos, mensagens e raciocínios, onde oscila a verdade e a falsidade do Mundo e do Homem, da Sociedade (como acentuou Barthes), da Natureza e da História, nelas, conforme precisou Sontag, coabitando sempre uma gramática do real e uma ética da visão...

5. Ora é de tudo isto que nos falam, e a tudo isto nos reconduzem esplendidamente as imagens deste Fotógrafo:


 – Figuração e captação de instantes, momentos e espaços únicos que o seu olhar prendeu na fugaz ou fugidia procissão dos seres, rostos, corpos, coisas, cores, sombras, luzes e penumbras (talvez na busca daquele instante suspenso, poeticamente cantado por Emanuel Félix...), as suas objectivas figurações, como imagens que a Objectiva trouxe e revelou – ainda recorrentemente aqui numa paradigmática fixação insular ora cativante do pormenor e do fragmento, ora suspensa sobre os abismos do mar –, fazem da arte de António Araújo a expectante visualização de uma via crucis outra, talvez afinal idêntica à da própria Vida que passa em direcção ao Mistério que o Fotógrafo, com a Humanidade inteira à janela, procura ansiosamente decifrar...
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 12. 04. 2014):






















e "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 13. 04. 2014):









As formas da Tortura

Com lançamento anunciado para o próximo dia 16, a 2.ª edição do livro de José Sócrates A Confiança no Mundo inclui um posfácio novo de Eduardo Lourenço, texto este que o “Público” divulgou no passado dia 6 sob o título de “O desejo amoroso do mal”.


– A obra, como é sabido, aborda o problema teórico e a consumação prática da Tortura em regimes democráticos, defendendo o autor que esse fenómeno constitui, claro, não só um atentado à intrínseca e inerente dignidade dos seres humanos, quanto é um índice da profunda degenerescência e falsificação a que todos os regimes políticos – mesmo os liberais ou jurídico-formalmente estruturados como Estados de Direito – podem estar sujeitos, no que assim se instituem em aparelhos destituídos de legitimidade ético-política e de autoridade moral!

A tese – cuja perspectiva crítica de abordagem, embora não sendo propriamente inédita, traz alguns sugestivos contributos sintéticos para uma mais articulada questionação do fenómeno da Tortura no pensamento tradicional e na história política, securitária, colonial e militar-imperial recente das democracias europeias e norte-americana (aqui, nomeadamente após aos atentados terroristas do 11 de Setembro, com as contra-posições tácticas e estratégicas assumidas pelos EUA a nível jurisdicional, penitenciário e torcionário...).

– Este livro de Sócrates, sendo agora mais filosoficamente lido (e legível...) de modo generoso, como o faz Eduardo Lourenço, poderia porém não só trazer à reflexão uma mais ampla e referencial evocação ética e quase metafísica do problema (e do Mistério?) do Mal – tanto no que ele absolutamente opõe, ou tenta derivadamente sub-trair, ao Bem...–, quanto deveria ainda estender a sua mesma visão criteriosa a tudo o que, por entre a barbárie radical da violência universal sádica e niilista da Tortura e seus (suposta ou alegadamente) banais (e menores?) actos maléficos quotidianos (a mentira, a injustiça, a opressão e a simulação ocultante da verdade...) ainda permanece, quase inocentemente, fruto da tal invocada (desculpabilizante?) inumanidade de que (todos?) somos, ou parecemos ser, parte integrante...
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Em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 12.04.2014):






















Azores Digital:


terça-feira, abril 08, 2014

Jornal "Diário dos Açores"
(Ponta Delgada, 08.04.2014)



domingo, abril 06, 2014


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Arquivo "Diário Insular" 
(Angra do Heroísmo, 06.04.2014)
TEXTO: HÉLIO VIEIRA
FOTOGRAFIA: ANTÓNIO ARAÚJO
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A ARTE DE EDUARDO FERRAZ DA ROSA

FORÇA DA ESCRITA


Poeta e ensaísta, Eduardo Ferraz da Rosa tem utilizado a escrita como forma de transmissão do seu pensamento humanista.

Eduardo Ferraz da Rosa viveu, desde muito novo, rodeado de livros, possuindo, atualmente, uma das maiores bibliotecas particulares dos Açores, especialmente nas suas áreas preferenciais de estudo (Filosofia, Teologia, Ciências Sociais e Literatura).

Nasceu da Praia da Vitória, em 1954, e desde a infância que tem mantido contato com diferentes vertentes da cultura por influência familiar.

"Tive a sorte de nascer e crescer no seio de uma família que me deu a possibilidade de acesso às artes, em grande parte por ação e influência da minha mãe e do meu pai. Cresci numa casa da Praia onde sempre houve muitos livros e interesse por diferentes artes e pelo pensamento. Sempre cultivámos no meio familiar um especial gosto pela literatura portuguesa e, ao longo do meu percurso escolar, tive sorte de ter bons e grandes professores que me influenciaram nas opções que fui tomando na minha vida", referiu.

Ao longo do seu percurso como estudante do ensino superior, Eduardo Ferraz da Rosa frequentou diversas universidades. Estudou, em Braga, na Universidade Católica, em Lisboa, na Universidade Nova, em Coimbra, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de novo, em Lisboa, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e completou, mais tarde, os seus estudos em Filosofia na Universidade Católica de Lisboa.

"O facto de ter estado em diversas universidades permitiu que tivesse acesso a um mundo muito vasto do pensamento, o que foi decisivo para a minha formação", afirmou.

O interesse pela escrita surgiu quando ainda frequentava a escola primária, altura em que redigiu pequenas crónicas sobre temas do quotidiano e alguns poemas, tendo, ao longo do tempo, publicado vários livros sobre diferentes temáticas.

Entre as obras editadas por Eduardo Ferraz da Rosa estão "E o Mar este Silêncio" (poemas), com carta-prefácio de Vitorino Nemésio (1980)," Vitorino Nemésio, Uma Poética da Memória", com prefácio de José Enes (1989), a coordenação de "Açorianidade e Autonomia"(1989), "Memória Bibliográfica Vieiriana" (2000), "Heranças da Terra" (2000), "Memorial da Praia da Vitória" (2002), "O Risco das Vozes", com prefácio de Carlos Reis (2006) e "Sombras - Fotomemória" (2008).

Estudioso da obra de Vitorino Nemésio, conheceu aquele que é um dos maiores vultos da cultura portuguesa, ainda muito novo e por via da ligação familiar.

"Tive a sorte de conviver com Vitorino Nemésio na Praia e em Lisboa, o que fez com que tivesse com ele alguns diálogos sobre a sua obra que ainda hoje guardo com muito agrado. Através do estudo da sua obra é possível entender a ligação à terra dos açorianas e a transcendência da alma que molda o espírito do homem das ilhas", adiantou.

O interesse pelo pensamento de Vitorino Nemésio fez com que Eduardo Ferraz da Rosa escolhesse a obra do escritor nascido na Praia da Vitória para a sua tese de licenciatura em Filosofia.

Por outro lado, tem-se destacado também como colaborador de longa data, de quase todos os jornais que se publicam nos Açores, escrevendo artigos sobre diversos temas e dirigindo vários suplementos de Cultura, Arte e Ciência.

PERCURSO PROFISSIONAL

No que se refere à sua atividade profissional, foi professor de Filosofia na Universidade dos Açores, tendo também lecionado na Escola Superior de Enfermagem de Angra do Heroísmo e no Centro Integrado de Formação de Professores do Campus de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores.

Conselheiro Nacional de Educação em representação da Região, Eduardo Ferraz da Rosa também foi consultor do Governo Regional e das câmaras de Angra e Praia da Vitória, investigador na Biblioteca e Arquivo Regional de Angra do Heroísmo e diretor da Biblioteca e Centro de Documentação do Hospital de Santo Espírito da Ilha Terceira.

Investigador associado do Serviço Especializado de Epidemiologia e Biologia Molecular do Hospital da Ilha Terceira, é doutorando em Ciências Biomédicas no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto.

di. 06.04.2014

sexta-feira, abril 04, 2014


Bibliotecários da Humanidade


Publicado em Portugal nos finais do ano passado mas já na sua 3.ª edição (Lisboa, 2014), A Bibliotecária de Auschwitz é um livro da autoria de António G. Iturbe premiado a nível mundial e que tem granjeado merecida apreciação positiva, justificando mesmo, no “DN” a qualificação de “uma das leituras mais marcantes de todo o ano [2013]”, ou não se tratasse, de facto, como a respectiva editora o apresenta, de “um romance avassalador, hipnotizante, que toca o coração dos leitores”, baseado na história verídica de Dita Dorachova/Adlerova – então uma jovem checa de 14 anos, bibliotecária do Bloco 31 de Auschwitz-Birkenau –, com quem o autor teve agora, passados tantos anos, oportunidade de falar, para poder assim justamente resgatar do esquecimento “uma das mais comoventes histórias de heroísmo cultural”.


 – A heroína do livro, de seu nome verdadeiro Dita Kraus, hoje com 84 anos, sobrevivente ao Holocausto e vivendo actualmente em Israel, esteve realmente encarcerada em Auschwitz entre 1944-45 e é viúva do escritor italiano Otto B. Kraus (1921-2000), autor de A Parede Pintada, Terra sem Deus, Vento da Montanha e outros livros que abordaram também o fenómeno do Nazismo e o Holocausto dos Judeus, na linha de Primo Levi e Eli Wiesel.


A obra – rigorosamente documentada e cuja narrativa ultrapassa a mera ficção – conta de modo muito realista e pungente a vida naquele campo de concentração e extermínio, a suprema brutalidade dos guardas SS, dos oficiais alemães e comandantes militares e do sinistro e sádico médico Josef Mengele, cujas acções são contrapostas à coragem sofredora, à esperançosa audácia e à espantosa capacidade de resistência de Dita e de Fredy Hirsh (o instrutor judeu do Bloco 31), cujas vidas passadas e infância são intercaladas na narrativa.


– A história foi inicialmente recolhida por Iturbe no livro A Biblioteca à Noite do nosso já conhecido, e aqui em Crónica anterior também abordado, Alberto Manguel, conforme ele próprio confessou em Entrevista ao jornal “Público”, revelando o percurso feito e as respectivas referências seguidas:

“Alberto Manguel escreveu um Dicionário de Lugares Imaginários, mas esta obra é sobre bibliotecas que existiram de facto. É verdade que me surpreendeu muito quando, em poucas linhas, ele explica, que num barracão de Auschwitz – o lugar mais terrível que existiu –, conseguiram criar aquela que terá sido a biblioteca pública mais pequena do mundo, com apenas oito volumes. Mas, sim, acreditei completamente, porque o dizia Alberto Manguel e porque vi na bibliografia a fonte onde ele tinha ido buscar a informação, que era outro livro. Li este livro, com artigos sobre temas variados relacionados com Auschwitz, e havia umas 15 páginas sobre o campo familiar”. E assim, logo a abrir A Bibliotecária de Auschwitz, o autor cita Manguel:


– “Enquanto durou, o Bloco 31 (no campo de extermínio de Auschwitz ) albergou quinhentas crianças, vários prisioneiros que tinham sido nomeados ‘conselheiros’ e, apesar de toda a vigilância a que estava sujeito e contra todas as probabilidades, uma biblioteca infantil clandestina. Era minúscula: consistia em apenas oito livros, entre os quais Uma Breve História do Mundo, de H.G. Wells, um livro de texto russo e outro de geometria analítica [...]. No fim de cada dia, os livros, com outros tesouros, como medicamentos ou alguma comida que houvesse, eram confiados a uma das meninas mais velhas, que tinha o encargo de escondê-los todas as noites num lugar diferente”... Porém a esses, Iturbe acrescenta ainda, real e paradigmaticamente, entre alguns outros mais que ali existiram, um livro de Freud (Novos Caminhos da Terapia Psicanalítica), As Aventuras do Bravo Soldado Svejk de Jaroslav Hasek, um Atlas Universal, o Conde de Montecristo de Dumas, todos constituindo afinal um sinal de Esperança e um ícone de Humanidade, naquele laboratório de morte e ignomínia:


– “Dita olhava os livros, mas sobretudo acariciava-os. Estavam rasgados e riscados, manuseados, com cercaduras avermelhadas de humidade, alguns deles mutilados... mas eram um tesouro. E a fragilidade tornava-os ainda mais valiosos. Apercebia-se de que tinha de cuidar daqueles livros como se fossem velhinhos sobreviventes de uma catástrofe porque tinham uma importância crucial: sem eles, podia perder-se a sabedoria de séculos de civilização. A geografia, que nos mostrava como era o mundo; a arte da literatura, que multiplicava por dezenas a visa do leitor, o progresso científico, que a matemática representava; a história, que nos recordava de onde vínhamos e talvez nos ajudasse a decidir para onde deveríamos ir; a gramática, que permitia urdir os fios da comunicação entre as pessoas... mais do que uma bibliotecária, a partir daquele dia converteu-se em enfermeira de livros”.


Entretanto, numa longa e sugestiva Entrevista recente ao jornalista brasileiro Herbert Moraes, a própria Dita Kraus pronunciou-se comovidamente sobre o romance de António Iturbe, que todavia ainda não lera, afirmando que, apesar das reservas que o mesmo lhe colocava pessoalmente (“Primeiramente, porque me qualifica como heroína”), lhe diziam ser “um bom livro. Muito bem escrito. Daqueles que não se consegue parar de ler”...


– E tinha certamente razão! Até porque, apesar daquilo que tão tragicamente escreveu Adorno, depois de Auschwitz e de todos os Holocaustos da História, ou por isso mesmo, é que embora não seja mais possível toda e qualquer forma de Poesia inocente, certamente que caberá sempre à Literatura e ao Pensamento livres e comovidos, tentar impedir que eles se repitam às mãos de todos aqueles para quem a Humanidade vale tanto como um “lodaçal de corpos onde os vivos e os mortos não se distinguem, caídos por terra...”.
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Em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 05.04.2014):






















Azores Digital:



















RTP-Açores::




















Outra versão em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 05.04.2014):