quarta-feira, junho 13, 2012

Os Estilos da Questão


O Dr. Cristóvão de Aguiar – escritor e intelectual que muito admiro e respeito, e cuja íntegra personalidade e notável obra tanto tem prestigiado a Literatura Portuguesa e o nome dos Açores –, escreveu um pequeno artigo para o “Diário Insular” (DI) do passado dia 12 de Junho [que não quero deixar de aqui paritariamente arquivar, transcrevendo-o* ao final deste], no qual, com a habitual graça, humor e talento, teceu algumas breves considerações sobre dois textos meus publicados nesse jornal terceirense e no “Diário dos Açores” (DA). Comento pois o seu texto, igualmente hoje sem acrimónia, nos termos em que o faço e aceito, com sincero gosto por ter sido ele o autor desse tão espirituoso, objectivo e afinal, para mim, lisonjeiro escrito. 

Todavia, nem a questão disputada – ainda subjacente às suas bem humoradas palavras, conforme compreendo e deduzo com igual disposição de ânimo, e tal como o Dr. Cristóvão de Aguiar na sua leitura parece também das minhas ter entendidonem a sua respectiva e controversa vertente principal são realmente nem acima de tudo um problema “de estilo” (embora não deixem de prender-se ou desprender-se dele, pelo tipo de escrita que as aborda…), como a sua própria e muito arguta ligação entre os meus dois aduzidos textos logo captou de modo insofismável e exactamente como pretendido…

– Todavia, sabendo muito bem quem era o meu principal interlocutor na dita questão, não quis deixar de dialogar com ele em terrenos de eleição mútua e naqueles outros domínios em que os nossos horizontes e formações de algum modo se podiam cruzar, como sempre aliás amigavelmente se cruzaram de diversos outros modos ao longo de uma camaradagem que já leva quarenta anos.

No que ao facto dos fatos vestidos poderem ter sido demasiado cheios “de luzes”, apenas mais próprios para certas “faenas” ou por demais domingueiros e engravatados para dias de semana ou estação calmosa, – depende –, porquanto também para outras coberturas e descomposturas poderão os mesmos ser úteis e bem adequados … – para mais numa terra, como a nossa – aonde – e como não havia de ser? – apesar dos humildes leitores comuns do DI e do DA não serem tão pouco ilustrados ou iletrados ao ponto de não perceberem ao menos alguns dos passos e passes fundamentais das ditas longas corridas discursivas em arraial jornalístico, ou no remanso dos seus lisinhos areais ilhéus aonde a contenda acabou por espraiar-se mansamente, – julgo que, apesar disso, o meu texto sobre o Dr. Caetano Tomás não deixou de ser minimamente percebido em partes e por faixas significativas, espero eu, embora tendo sido realmente dirigido em primeiro lugar ao meu (apesar de tudo) velho camarada e amigo Luiz Fagundes Duarte, e a outros tão bons, intelectualmente habilitados e linguisticamente tão entendedores quanto ele…

– Agora que o dito quase “ensaio” e a respectiva temática pudessem (e se calhar devessem mesmo) ter ido preferentemente para outra publicação (uma Revista, talvez “académica” ou de circulação mais cingida…), estamos de acordo. Mas mesmo assim, desta vez, não foi; ficará para a próxima, se Deus quiser, já que o assunto é bem mais sério e complexo e grave do que possa parecer à distância, e até ganhou foros de incontida agressão pessoal (como ainda ontem o Dr. Caetano Tomás testemunhou aqui, e que até valia a pena apurar se viola alguma lei ou cai em foro criminal vigente)!
Porém, voltando ao nosso âmbito, achei sinceramente que os leitores do DI e do DA tinham direito a ver a questão tratada de forma mais sistemática, não aligeirada (embora, na verdade, sob um discurso um pouco tecnicamente formulado…) nem arrepiantemente apenas panfletária (embora ainda um pouco farpeante, conceda-se).

De resto, estando em português escorreito – sem falsa modéstia e sem recurso a nenhum latim –, apesar de tudo, parece-me que O Complexo de Salomé se apresenta minimamente acessível ao tal leitor comum e com tempo para ler pensando, porquanto, aos outros, aos fora do comum, embora exigindo-se-lhes menos pesquisas vocabulares e exegéticas, nem por isso, com certeza, lhes faltou o entendimento devido e acrescido para a respectiva intelecção alargada, como se depreende do que o Dr. Cristóvão de Aguiar inferiu (e em parte ficcionou…) com base numa certa realidade dura e crua, salpicando-a ainda com aquela sua, felizmente desperta, crítica, tão proverbial, conhecida e criativa verve, – talentos e valores que outros açorianos, por cá e nos subterfúgios de uma apenas vagamente castiça e penosa “insularidade” intelectual literária, mental, social e política, sem estilo algum, teimam em cultivar e deixam vegetar à sombra da bananeira ou de algum paradigmático guarda-sol nas toiradas de muita da nossa cinzenta e nublada insularidade retórica, poética e cultural…, porquanto, a estilos e conteúdos às vezes mais difíceis, trabalhosos e complexos – como os dos nossos dois tão honrosos Prémios Ricardo Malheiro Dias (Vitorino Nemésio e o próprio Cristóvão de Aguiar…) – alguns os perderam e outros nunca os possuíram, como de resto o Dr. Cristóvão de Aguiar, de modo corajoso e desmistificador tem podido constatar e denunciar!

– Agora, não posso deixar de recordar que aquela imagem do toureiro veio mesmo a propósito, ou não tivesse eu invocado o “campo pequeno” (para onde alguns revolucionários, do antigamente e de alto gabarito, tanto regalo teriam tido em ver bandarilhada e enfiada a reacção, e não sei se apenas a tridentina, talvez para verem os seus julgados próceres, sem julgamento isento, de orelhas decepadas ou rabo cortado para troféus rumo a não sei que vitória democrática e emancipadora…

Por mim, quando era rapazinho novo – mas esse tempo lá vai, infelizmente – também adorei touradas, especialmente as de corda (até levar uma valente raspadela de corno nas costas e sentir o bafo quente do toiro à perna, lembro-me bem, ao dobrar a esquina do velho Império nas festas do Porto Martim…), sem (des)primor para as “eruditas”, de praça, que presentemente me amarguram bastante e nas quais o que sempre mais me apaixonou foi a fantástica e nobre plástica dos movimentos encantatórios da lide dos cavalos, que também montei e alegremente os passeei por esses caminhos e canadas da Terceira, não fosse esse o meu signo chinês (não maoista…) e a minha mais fascinante e tentadora recreação de outrora, em sela portuguesa, estribo de caixa-galocha e sem esporas, rente ao joelho o calção/rente à rédea o coração

– Mas isso já não são contas deste rosário de questões tristes, nem apenas de estilo para estas trocas de amigáveis e fraternais ideias que optei por partilhar com Cristóvão de Aguiar nestas públicas páginas de jornal... Porém assim, creio eu, ficamos agora mais entendidos quanto a este caso passageiro, evidentemente na mútua estima e em idêntico reconhecimento das verdades ditas e justamente consentidas, e sem qualquer ressentimento pessoal, como não podia deixar de ser, com toda a franqueza e frontalidade, entre nós.
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Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 13.06.2012),
"Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 14.06.2012),

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Texto de cristÓVÃO DE AGUIAR:
A PROPÓSITO DE ESCRITOS SOBRE CAETANO TOMÁS
Uma questão de estilo

O Dr. Ferraz da Rosa escreveu dois artigos para o DI de hoje, Sábado, 9 de Junho. Um deles é mais um ensaio de alto coturno (muito palavroso, ou, melhor, inçado de palavreado de alto quilate) em que se espraia em sabedoria e exegese sobre um mar imenso de problemas que um leitor comum não pode entender.
E bem bom que assim tivesse sido, porquanto esse presumível leitor nem conseguiria adivinhar que estava perante um escrito que, com certeza, abandonou, bocejando, às primeiras linhas, escrito esse que se pressupõe ser de defesa do indigno sacerdote Caetano Tomás e de ataque ao Dr. Luiz Fagundes Duarte, cujo artigo publicado no Domingo passado é arrepiantemente lúcido e no qual se debruça sobre as atoardas psicológicas de um sacerdote que ainda vive debaixo da asa do Concílio de Trento ou da Santa Inquisição.
O outro artigo do Dr. Ferraz da Rosa, publicado na última página, já se pode considerar um bom texto jornalístico, muito interessante e entendível por qualquer leitor atento. Escrever prolixa e obscuramente pouco custa. Fazê-lo, porém, com simplicidade, clareza e sem alardes de erudição (a cultura será outra coisa bem diferente), dá muito mais trabalho e requer mais tempo. Alguém, após proferir um longo discurso, terminou a sua leitura, pedindo desculpa e adiantou que não tivera tempo de o fazer mais curto...
Foi pena que o Dr. Ferraz da Rosa, intelectual de primeira água que admiro, não tivesse tido tempo para escrever o seu "ensaio" mais curto, numa linguagem mais viva e menos recamada de lantejoulas, tal qual um fato luces de toureiro...
Num periódico fica tão mal como um veraneante vestido de fato preto e gravata em plena praia. Num livro de ensaios, e após alguma poda, ficaria melhor, dir-se-ia no lugar certo. A linguagem escrita tem de se adequar à situação. Antigamente, e não sei se hoje em dia, certos fiéis gostavam tanto mais das homilias ou dos sermões quanto menos os compreendiam. "Percebeste alguma coisa?" "Não, não percebi, mas o senhor padre falou tão bem, até Latim... Consolou a ouvir..."


domingo, junho 10, 2012

As (des)construções da Região




As declarações do primeiro-ministro e líder do PSD sobre as exemplares e resignadas virtudes da paciência (ou de submissão pacífica e pacificada?) – que o povo português, segundo ele, tem vindo a demonstrar perante a crescente tortura de vida, a situação de transe (como muito bem a classificou Medeiros Ferreira) e a galopante agonia económica, social, laboral e psicológica em que o país vive –, tornaram a ultrapassar os limites do razoável e do decente, tanto mais quanto se revestem de uma hipocrisia moral e política de que não há memória tão insultuosa e cínica nos tempos da Democracia, e que até parecem realmente saídas daquela obscura, triste e opressiva era política que dominou Portugal até ao 25 de Abril!

– Revelando, mais uma vez, completa ausência de senso e tino de linguagem, no que amiúde se assemelha ao pior dos talentos e à fria desfaçatez do seu ministro Relvas (figura, de resto, a quem tem, partidária, executiva e parlamentarmente adubado com uma piedosa cobertura, só equivalente ao brilho confiante e confiado que baila agora no olhar vivaço, conquanto algo petrificante e reptilário, desse seu homem de mão…), Passos Coelho conseguiu logo reacender fogos e graus de indignação, suscitando até desejos de apelo à revolta (mansa, por enquanto, mas na rua…). 

E um Bispo católico foi até ao ponto de dizer que os nossos concidadãos estavam a ser tratados como “povo amestrado” e “tão dócil que merecia estar num jardim zoológico”…

Ora estas trocas de mimos chegam numa altura em que no PSD cresce a divisão e mais vozes desafinam da política económica, social e salarial do governo/troika, como se viu a propósito dos últimos alvitres de António Borges e Vítor Gaspar.

– Assim sendo, é fundamental que a agora emblemática vontade de construção (análoga à nacional?), pelo PSD, dos Açores como “região económica”, seja mesmo competente e efetivamente complementada e garantida, pelo e com o PS, como Região também socialmente justa!
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Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 09.06.2012): http://www.diarioinsular.com/

sábado, junho 09, 2012


Uma Diegese Discricionária
ou O Complexo de Salomé


Já depois de escrito e publicado o meu texto “As máscaras do Parlamento”, pude ler, no “Diário Insular” (03.06.2012) e no Facebook, um artigo de Luiz Fagundes Duarte (LFD), a quem eu havia nomeado devido a uma primeira apreciação crítica que ele expressara sobre o afastamento do Dr. Francisco Caetano Tomás (FCT) da lista de personalidades a serem honorificamente distinguidas pela ALRAA.
A história é bem conhecida em todos os seus momentos e torpes percursos – desde a Presidência da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA) à conferência/comité dos líderes parlamentares – e consta de um imbróglio que levou a que, do primeiro e aprovado elenco de honorificáveis, o nome de Caetano Tomás – proposto pelo PSD, partido que integra também a Comissão de Assuntos Parlamentares, Ambiente e Trabalho (CAPAT) da ALRAA e que depois viria, pusilânime e impudicamente, a retirar e deixar cair a sua própria proposta! –, acabasse assim por ser liminarmente saneado por todos os restantes partidos, devido a chantagens do BE e com argumentos baseados numa denunciada discordância doutrinal de FCT, – sendo pois e por isso que o citado ato político-parlamentar, por móbil de um tipificável delito de opinião, configurou um arbitrário julgamento condenatório, uma inadmissível punição cívica e uma censura global à pessoa, trabalho e méritos de toda uma longa vida e vasto currículo (conquanto ignorados (?) ou intencionalmente estigmatizados por alguns dos manietados, ingénuos ou ressabiados avaliadores inquisitoriais e comissários do nosso mui ilustrado e democratíssimo Parlamento…).
– Mas note-se que essa leviana censura pessoal e político-institucional assentou também, conquanto distorcidamente, em emblemáticas, fraturantes ou (até mesmo…) angulares causas e pautas eleitorais de certos círculos e tendências partidárias (verbi gratia nos complexos, duplos e parcialmente díspares fenómenos da Homossexualidade e no sempre indiscutivelmente traumático e criminoso caráter predatório de toda e qualquer forma de Pedofilia!), todavia querendo fazer-se parecer que esta última perversão (de facto e amiúde histórica, individual e institucionalmente encoberta em múltiplos setores!) não teria sido bem denunciada e repudiada, por FCT, em toda a sua coimplicada dimensão e profunda dramaticidade psicoexistencial e ontológica (efetivamente reais e que ninguém poderá negar, mas que ninguém, que se saiba, absolveu…), no aludido artigo de opinião publicado em “A União”, e isto – conceda-se aqui – devido a discutíveis, controversos e redutores delineamentos esquemáticos e categorias psicologistas que estruturam e determinam a particular conceção do aparelho psíquico, a fenomenologia do psiquismo, a sistemática diagnóstica e os modelos etiológicos, psicopatológicos, sociais, morais, terapêutico-comportamentais, e – por essa via – filosófica e cientificamente disputáveis, do quadro teórica e metodologicamente seguido pelo Dr. Caetano Tomás.
– Acontece porém, como o próprio LFD teve já oportunidade de certificar, que as suas primitivas leituras do caso mudaram e inverteram-se entretanto radicalmente, de modo que aquilo que começara por ser indignação pela reconhecida e condenada censura ao “Pai Tomás” – como ele apelida o octogenário sacerdote… – acabou por transformar-se, de repente, num espantoso disserto de encobrimento e justificação dos insólitos procedimentos dos tribunos regionais (com relevo para os do PSD e do BE) e, ainda por cima, através de uma violentíssima navalhada à idoneidade e às teorias da “cabeça do Pai Tomás”…
E é precisamente essa reviravolta e o conteúdo da novel trama argumentativa de LFD, devido ao seu mais duro e puro recorte discricionário e persecutório, que não posso deixar de repudiar vivamente, entre outras, pelas razões seguintes:
– LFD, para agora contraditar, quase retratando-se e subscrevendo (e, pelo revistos, mais supramente e em progressão geométrica até abonando) a vergonhosa atuação censória (por especial culpa do BE e do PSD) consumada pela ALRAA – que, essa, enquanto tal, não sei se continua ou não ainda (?) a ser vista segundo o mesmo antes ponderado juízo… –, foi citar uma Conferência daquele sacerdote, realizada na Praia da Vitória, mas fazendo-o a vesgo golpe de memória e com caprichosa torção do corpo diegético avocado, tanto mais quanto as frases e ideias supostamente expressas pelo Dr. Caetano Tomás constam de um texto escrito e do confluente contexto de uma exposição problematizadora, comentada à própria margem e com recurso a diversos gestos e figuras de estilo
Mas acontece ainda que essa Sessão “oficial” (como LFD fez sibilina questão em adjetivar), ocorrida em 2009 – não “há uns dois anos”, portanto – e à qual também assisti –, teve lugar no dia 1 de dezembro, na “Casa das Tias”, foi promovida pela Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP), em parceria com a Câmara da Praia da Vitória, tendo o Orador convidado – por mim (como Delegado da SHIP nos Açores) – desenvolvido o tema A Restauração de Portugal à luz dos Factos Psicológicos da Atualidade Portuguesa.
É claro que do texto de LFD, subliminarmente intitulado “A cabeça do Pai Tomás” muito haveria a dizer, tanto pelo que nele pode retinir da obra antiesclavagista de Harriet Stowe (A Cabana do Pai Tomás), quanto pelo que poderia revelar a partir da análise de um hipotético Complexo de Salomé, ali em recalcada dança pulsional e com alguma espelhante bandeja sacrificial aonde se pedia, ou recomendava, a exposição (transfer psicanalítico?) da parte mesma – metaforizada, bem entendido… – de um corpo/órgão humano mentalmente decapitado ou a decapitar
– No entanto, não deixa de ser curioso que aquela imagem (“cabeça do Pai”) tenha sido acionada e retida, vá lá saber-se se em subconsciente e equívoca paráfrase de projeção ou mimética aplicação possível a vastos campos lexicais e semânticos da Moral e da Ética, ou conforme os paradigmas subjacentes a determinadas mitologias sociopoliticamente expiatórias, a outras possíveis categorias analíticas ou noutros registos narrativos, – tais os daquela história bíblica de Herodias, Salomé e João Batista… –, para já nem chegarmos às formas, não só simbólicas quanto tragicamente reais, de alguma da nossa modernidade concentracionária (desde antigas e aterrorizantes guilhotinas revolucionárias a sevícias e assassinatos, esses sim, precisamente vigentes em regimes fascistas e hitlerianos, e também intrínsecos aos gulags soviéticos ou maoistas e a ditaduras terceiro-mundistas, tal como, em escala variável, em todas as tentações, práticas e sistemas totalitários, – alguns deles que inspiraram, ainda bem perto de nós e formalmente, idênticos campos pequenos, ameaças de terror e condenação à morte física, psíquica, cívica e societária, por meras razões de dissidência, “desvio” intelectual ou direito à diferença de opinião, ideologia, credo, sexo, raça, religião, cultura e mesmo até por simples desalinhamento partidário
Quanto a tudo isto, porém, fiquemos por aqui, até porque, como LFD também saberá muito bem, sempre devemos estar todos bem atentos à forma como as repressões e as discriminações começam, porquanto nunca sabemos até onde é que os algozes e os mandantes serão depois capazes de ir!
– Agora, que as palavras postas na boca e na cabeça do Dr. Caetano Tomás possam corresponder a uma real enunciação apologética de verdades ortopráticas, ou pertencer a qualquer prédica legitimante da Pedofilia, lá isso não!
E surpreende-me e indigna-me bastante que uma pessoa com a proverbial e justamente honrosa estatura intelectual e académica do meu amigo Fagundes Duarte tenha sido capaz de chegar a tal extremo de deturpação política e conceptual de registos e níveis de discurso, enviesando não só a respetiva intencionalidade lógico-argumentativa quanto até os seus sentidos ideográficos, ainda abusivamente tão (mal) manipulados e depois iconograficamente mimados com a cancela e a chancela de Auschwitz
– E isto para nem falarmos das omitidas questões disciplinares, histórico-curriculares, científicas e letivas que marcaram, nas Faculdades, Institutos e Laboratórios, a progressiva especialização e a autonomização da Psicologia (escolar, vocacional, clínica, etc.), nomeadamente por relação à Filosofia e à Medicina (problema que fundamentalmente nasceu e entronca, ainda hoje, também numa disputa corporativa, técnico-profissional e histórico-científica sobre as requeridas habilitações formais para os respetivos exercícios, a par das sistemáticas e bem mais profundas discorrências críticas sobre a dimensão antropológico-cognitiva (e até linguística…), – enfim – especialmente desde Freud até Lacan, mas afinal ainda e pelo menos desde Aristóteles e até Jaspers, Frankl, Dolto, Frye, Bettelheim, Kristeva ou Ricoeur… (como LFD, ao contrário talvez de alguns dos nossos deputados insulares, tinha obrigação académica e cultural de não ignorar!), a par das deliberadas e indevidas confusões feitas entre trabalho/valor/ocupação/ócio infantil e trabalho infantil “forçado” (ou explorador do mesmo como mão de obra escrava ou barata); entre uma alegada (mas falsa) deteção de retórica apologética de Pedofilias predatórias em FCT e a sua concreta e diferenciada casuística individual, psicossocial, institucional e moral – só aí então como efetiva e possível (des)culpabilização generalizada e simultânea de algozes e vítimas (e/ou das suas induzidas ou causais conjunturas e estruturas motivantes conjuntas…), – para daí chegar-se até àquele medonho, retroativo e sistemático libelo impugnatório que sobre e contra toda a carreira profissional e exercício docente, competência disciplinar e científica, capacidade e idoneidade pedagógica e pastoral de FCT é lançado, vai um grande e arriscado arco, – e de tal modo que LFD chega, sem escrúpulo, a arremessar temerariamente isto ao Padre Caetano Tomás: – “com a agravante de se tratar de uma profissão que interfere com a saúde pública” (sic)!
Pior do que isso, francamente, nada poder-se-ia ter escrito, dito ou feito, nem sequer como cantiga de escárnio! Mas foi mesmo assim que LFD – tão ativo ex-deputado na era das lojecas partidárias do José Sócrates e em cuja qualidade, aliás, na altura, se deslocou à citada cerimónia na Praia da Vitória) –, lá foi para ouvir somente o que quis, como quis e aquilo que, passados estes anos, extravasa hoje como lhe dá jeito ou gozo. Ou então, igual a isso – embora, confiemos, já sem LFD nessa confraria – só a “informação” que, num outro mas similar misto de relatório biográfico e pidesco cadastro ideológico-político, em reincidente falta de fiabilidade e transparência, alguém (anonimamente, por enquanto…) colocou, au point, na entrada (denunciadamente corporativa…) de uma ficha da Wikipédia – que só se acredita lendo! – sobre o Padre Caetano Tomás…
– Todavia e por ora fecharei mesmo aqui a porta a tanta trafulhice, continuando todavia de pena pronta para o que der e vier, neste medíocre, perigoso, incerto, cínico e opressivo tempo! E sem cabeça a prémio, espero eu, livre e inteligentemente no devido lugar, com olhar atento e sorriso sereno e aberto, mas… sem chapéus de palha à moda, tão gémea nos seus extremos, da Cuba de Fidel Castro ou do Chile de Pinochet, nas redes e enredos da loucura desencabeçada e irresponsável da politiquice caseira!
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Em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 09.06.2012): http://www.diarioinsular.com/,
“A União” (Angra do Heroísmo, 09.06.2012): http://www.auniao.com/noticias/ver.php?id=28287,


domingo, junho 03, 2012


As máscaras do Parlamento:
Ideologia, Censura e Miopia



O processo que envolveu o inicial anúncio público e a posterior exclusão liminar do Reverendo Padre Dr. Francisco Caetano Tomás da lista de personalidades agraciadas este ano com Insígnias Honoríficas Açorianas tem merecido algumas assinaláveis tomadas de posição – das quais relembro as do Prelado, do Vigário Geral da Diocese e do Clero e Ouvidoria da ilha Terceira, as reações frontais dos jornalistas Armando Mendes (“Diário Insular”) e Manuel Moniz (“Diário dos Açores”), ou a afim indignação do meu velho amigo e camarada Luiz Fagundes Duarte …–, embora, infeliz e incrivelmente, a par de muitos acobardados e sintomáticos silêncios ou cúmplices silenciamentos institucionais, mediáticos e pessoais…

Porém, a insólita história desta façanha político-parlamentar regional – que comprometeu em primeiro e patente lugar todo o elenco – visualizável em http://www.alra.pt/index.php?option=com_wrapper&view=wrapper&Itemid=255 – da Comissão de Assuntos Parlamentares, Ambiente e Trabalho (CAPAT) da ALRAA e a igualmente famosa, determinante e enjoada missiva da deputada Zuraida Soares (BE) – é já suficientemente conhecida nos seus contornos básicos, desde a preambular publicitação dos honorificáveis nomes até ao respetivo e derradeiro placet institucional, passando decisiva e formalmente pela apreciação ao conteúdo do Projeto de Resolução nº 22/2012 (entrado na ALRAA a 24 de abril último, por assinada e assinalável “iniciativa de Sua Excelência o Presidente da Assembleia Legislativa […] e dos Grupos Parlamentares do PS, PSD, CDS/PP e BE e das Representações Parlamentares do PCP e do PPM”), sendo então – como é de arquivar para memória futura – líderes desses agregados, respetivamente, os seus pares Berto Messias, Duarte Freitas, Artur Lima, Zuraida Soares, Aníbal Pires e Paulo Estêvão, enquanto que – por outra banda – integravam a CAPAT os seguintes deputados (cujas biografias e currículos muito proveito daria cotejar com os de outras agraciadas figuras e medalhadas personalidades da vida e da sociedade açorianas…). No entanto, lá os tivemos assim:

– Do PS: Hernâni Jorge (Pres.), Isabel Rodrigues (Relat.), António Parreira, Bárbara Chaves, Carlos Mendonça, Francisco Valadão Vaz e José Ávila; do PSD: Luís Garcia (Secret.), Clélio Meneses, José Francisco Fernandes e Paulo Ribeiro; do CDS/PP: Luís Silveira; do PCP: Aníbal Pires, e do BE: Zuraida Soares (participante “sem direito a voto”…).

Ora o vomitado saneamento do octogenário sacerdote, psicólogo e professor – cujas orientações e fundamentações teórico-disciplinares, epistemológicas, técnico-metodológicas, psicocomportamentais, científicas e de filosofia moral não cabe aqui sistematicamente esmiuçar nem confrontar, e que, ao que se imagina, nem ali na CAPAT terão estado em escorreita leitura e análise de contraditório (muito embora até fosse curioso vê-las discutidas pelos ditos comissários, a começar pelos provenientes da Terceira, ou por algum daqueles que eventualmente tivessem sido seus alunos no Seminário ou em outra qualquer Escola… –, foi proposto, assimilado e subscrito por todos os partidos com notória base em tendenciosos argumentos de desvio, discordância ou configurável delito de opinião, abrangendo, distorcidamente aliás, algumas das paradigmáticas causas e pautas fraturantes em certos círculos (verbi gratia os complexos, duplos e parcialmente díspares fenómenos antropológicos, bio-psico-societários, afetivos, morais e jurídico-políticos da Homossexualidade e a sempre irremissível, traumática, pecaminosa e criminosa tara patológica e predatória de toda a Pedofilia!), evidentemente porque se quis fazer aparentar – concedemos aqui – que esta última perversão violentadora de crianças até pode parecer não ter sido efetivamente bem perspetivada, em toda a sua dimensão e profunda dramaticidade psicoexistencial e ontológica, pelo algo esquemático diagnóstico psicologista do Dr. Caetano Tomás…

– Mas também digo isto por, nas rebarbativas hostes libertárias locais de alguns setores, não se vislumbrar a mais pequena estrelinha de autoridade derivada de uma, outra que fosse, anterior, reconhecida ou exemplar impugnação e resistência ideológica e prática à opressão, à violência e à exploração (ou a quaisquer outras e diferentes formas de perversão humana, antidemocrática e anticristã …), e porque foi, claramente, por um assumido e puro móbil censório que a tal bem caçada (pelo DI) cartinha do BE foi enviada, chegou e prosseguiu incontestada na presidência da ALRAA…, para embaraço de mão e face, ou a temeroso contragosto de um previsível escândalo a seguir-se àquele hipócrita e dissimulado golpe desferido à má e à falsa fé!

De resto, muitos dos ditos deputados regionais, que se armaram em juízes dos (de)méritos de Mons. Caetano Tomás, nem deste precário e contingente mundo teriam sequer visto a luz natural, ou por cá antes e ainda andariam de fralda e bibes pueris, quando já ele estudava, refletia e ensinava Filosofia, Psicologia, Teologia, Matemática, Línguas e muitas outras Ciências e Humanidades…

– Contudo, e até por nisso, a deputada bloquista foi mesmo coerente com o que o dela, desde há muito, se esperava e ideologicamente afinal tornou a revelar (embora nem ética nem, muito menos, intelectualmente esta sua rasteira atitude de denúncia e chantagem fosse de imaginar como possível agora, a frio e à socapa!). Todavia, para quem até já num Congresso do PS fez convidada oração “de sapiência”, que a “isca e a bisca” foram taticamente servidas desta feita na ponta da língua e de boca cheia, quais esquinadas e inquinadas pedras de arremesso para um pântano de sapos inchados e coaxantes rãs, como nas fábulas, lá isso verificou-se mesmo…

Quanto aos outros, novatos ou ressabiados politiqueiros, entre inocências perdidas, ademanes e ressentimentos subliminares, logros, desconhecimentos e enviesamentos de pasmar o mais estúpido dos votantes, à mistura com azedos ou toscos refluxos de ignorância e com uns salpicos de falsas, imaturas ou malsãs mentalidades, – nem sequer talvez se tenham apercebido do perigoso e imprudente precedente que estavam escancarando, e da hipoteca que, acrescida e levianamente, sobre a herdada e transmissível honorabilidade democrática e cívica do Parlamento Regional, e das suas próprias e mascaradas consciências privadas, estavam vazando!

– Todavia, dentre estes últimos, os casos do PSD e do CDS/PP ainda são mais surpreendentes e graves, porquanto sobremaneira denunciam uma indesculpável, autogerida e inusitada ausência de senso interpretativo e de memória histórica, a par de uma assustadora e repugnante subserviência moral e cultural, sem hombridade, nem gratidão, nem apreço, nem respeito de espécie alguma pela pessoa visada e pela sua inteira e longa vida de trabalho e serviço nas nossas comunidades, famílias, escolas, Igreja, e a muitas outras pessoas e instituições até bem próximas desses partidos…
Finalmente, entristecedor foi também ver alguns atores do PS terem perdido mais uma oportunidade para estarem liderante e consensualmente à discernida altura das suas exigíveis e imparciais responsabilidades, e dos seus mais nobres e autênticos ideais, separando as águas da lama, sem aquela incauta miopia suicidária, seguidista ou revanchista que primeiro ensandece a justa e equilibrada visão das coisas e depois obscurece leituras compreensivas dos factos políticos e dos sinais humanos, deixando de seguida arrastar e puxar pobres cegos e guias néscios para o mesmo escuro precipício dos seus adversários externos e dos seus próprios e não superados demónios interiores, ambos porventura psiquicamente recalcados e partidariamente reprimidos!

– E que pena tudo isto ter terminado real e simbolicamente assim e sem glória, porquanto ninguém merecia semelhantes ultrajes, tamanhas desonras e afrontas infames! E logo para o mais solene, comemorativo e irmanante Dia da Autonomia das nossas ilhas dos Açores, sob a exigente égide (ou retórica etno-política somente?) da partilha limpa e generosa dos únicos e legítimos Dons do Espírito Santo…

P.S. - Já depois de escrito e publicado este meu texto, pude ler na Revista de hoje (Domingo, 03 de Junho de 2012) do jornal angrense "Diário Insular" uma Crónica de Luiz Fagundes Duarte intitulada "A cabeça do Pai Tomás" (Folhetim 577), sendo que a mesma também já foi introduzida e divulgada por esse meu amigo na rede social do Facebook. Atendendo ao carácter muito controverso do conteúdo desse artigo - do qual discordo totalmente -, não deixarei de o comentar em posterior ocasião.
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Publicado em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 3 de Junho de 2012),
RTP-Açores:  http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?article=27244&visual=9&layout=17&tm=41,
Azores Digital: http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2231&tipo=col.
e "A União" (Angra do Heroísmo, 05.06.2012): http://www.auniao.com/noticias/ver.php?id=28235
Versão reduzida em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 2 de Junho de 2012).

sexta-feira, maio 25, 2012

As Coroações da Política


Com o aproximar do horizonte das próximas eleições regionais – conquanto estejamos mesmo ainda formalmente longe dos calendários oficiais para a respetiva pré-campanha –, é cada vez mais notório o posicionamento estratégico dos partidos políticos para esse embate que se afigura difícil e incerto para todos os principais intervenientes…

– E todavia, apesar de algumas sondagens ou auscultações (que estão, umas, na reserva dos gabinetes e, outras, nas páginas eletrónicas de muitos jornais e redes sociais) serem, como é sabido e na maioria dos casos, de autenticidade, metodologia e rigor mais do que duvidosos, manipuláveis ou lacunares, a verdade é que a elas ninguém, no pleno e desejável uso das suas capacidades políticas e no exigível desempenho das suas responsabilidades partidárias, deveria continuar a permanecer tão indiferente, ou desatento, como às vezes parece!

De resto e por isso mesmo, é que todo e qualquer passo de dança em corda bamba (e sem rede, ainda por cima, ou por baixo!) de gestos e linguagens, no atropelo de regras ou em incauta displicência, por muito que custe ouvir agora, ainda mais poderá vir a custar num futuro já não muito distante…

– E isto, como é evidente, aplica-se tanto ao único partido que sustenta o Governo Regional quanto aos vários que não o suportam, e que, antes pelo contrário, o que espreitam e ao que almejam é (re)assumir a governação do Arquipélago, em exclusivo, se possível, ou em coligação alternativa com quem mais lhes prometer ou estiver pronto a partilhar em pastas, carteiras e programas…

Ora é neste contexto que não deixará de ser útil nem despiciendo o tempo que se deveria prestar ao marketing político que já por aí corre, desde os pequenos mas bem conseguidos clips de vídeo musicado aos mais (des)mobilizadores, (des)motivadores ou (in)operantes outdoors, aonde tantas mensagens diversamente se afundam, ou elevam, na (des)qualificação dos meios humanos e iconográficos representados, e aos quais nem por obra e graça do Espírito Santo qualquer tipo de coroação irá redimir!
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Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 26.05.2012),
"Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 27.05.2012),

sábado, maio 19, 2012

Territórios de Risco



As últimas calamidade naturais, sinistros e decorrentes prejuízos que fustigaram o nosso Arquipélago não poderão deixar de continuar a suscitar e a merecer uma ampla e crítica reflexão objetiva, com vista à indeclinável e inadiável implementação de medidas práticas, apesar de alguns passos nesse sentido terem já sido dados, quer no âmbito do Governo Regional e das nossas Autarquias Locais, quer por parte dos diferentes partidos políticos da Oposição…

– Ora, apesar da violência e das características das tempestades que se abateram sobre as nossas ilhas na semana passada terem atingido dimensões imprevisíveis (?) e inusitadas, a verdade é que algumas das suas custosas consequências, ou ao menos parte delas – felizmente, desta feita, sem perdas de vidas humanas… –, talvez pudessem ter sido evitadas, ou sequer minoradas, caso tivessem sido cumpridas as leis, normas e procedimentos precaucionais que são imperativos nas áreas da governação, da administração e do acompanhamento técnico que, direta ou indiretamente, como em todo o lado, estão sempre implicados nestes domínios (que, como é sabido, envolvem logo e sobremaneira o Ambiente, o Ordenamento do Território, as Obras Públicas, a Agricultura e Florestas, o Saneamento Básico e a Proteção Civil…).

Por outro lado e bem intrinsecamente relacionada com esta exigente problemática, está toda uma vertente técnico-científica, reguladora, orientadora, pedagógica e fiscalizadora, institucional e socialmente, que entronca afinal e em cheio nas interdisciplinaridades próprias dos Estudos, Geografias, Cartografias e Gestão de Riscos, – territórios estes, há já demasiado tempo, esquecidos ou protelados, não promovidos nem devidamente fiscalizados, ou à sombra de muito do entulho e dos alheamentos, omissões, ignorâncias, incompetências, irresponsabilidades e impunidades que enxameiam alguns setores chave da nossa sociedade, com os seus agentes, atores e decisores apenas a fazer de conta que trabalham, enquanto vão contabilizando as pouco mais que mercenárias comissões de serviço para onde foram, imerecidamente, alcandorados, com evidentes e quase irreversíveis penalizações sistemáticas e recorrentes para a nossa Região, para o Governo dos Açores e para o próprio partido que também arriscadamente o suporta!
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Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 19.05.2012),
"Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 20.05.2012)

sexta-feira, maio 11, 2012

Os Labirintos da Sabedoria


Acaba de ser publicado (Círculo de Leitores/Temas e Debates, abril de 2012) um novo livro de José Mattoso, figura justa e sobejamente conhecida, respeitada e conceituada em todos os meios intelectuais, académicos, políticos, culturais e religiosos portugueses.

– Intitulada Levantar o Céu, a obra, dividida em duas partes (sintomaticamente enunciadas “Sabedoria e razão” e “Sabedoria e fé”), reúne quinze textos, “escritos [entre 1994 e 2011] ao sabor de solicitações variadas” e às quais o autor tentou responder segundo as suas “convicções pessoais”, sendo que desses temas uns são “mais ‘cívicos’, outros mais espirituais; uns inspirados no senso comum, outros na mensagem evangélica; uns recorrem à História, outros a princípios intemporais”.

Pretendendo assumidamente “contribuir em alguma coisa” para aquilo mesmo que o respetivo título indica e indicia – e que José Mattoso sugestivamente recolhe e retém tanto da denominação dada a um dos principais exercícios psicofísicos dos mestres de chi kung/tai chi, quanto “como metáfora de uma atitude de vida que dá a primazia ao Céu” (no sentido que esta palavra tem na cultura chinesa e na nossa) –, o livro, tal como também nas últimas entrevistas o historiador acrescidamente explicitou, documenta a sua filiação existencial e intelectual na mais luminosa e grande Tradição filosófica e teológica do Cristianismo, e num vasto e profundo horizonte englobante de ortopraxia espiritual e eticidade sapiencial, porém sem deixar, na mesma e implicada medida sistémica e sistemática (ontológica e cósmica), de percorrer e enfrentar – com um misto de ceticismo realista e de esperança redentora … – as cisões e as duras e decaídas realidades e contingências terrenas (morais, cívicas, sociopolíticas, ideológicas, ecológicas, culturais, etc.)!

– Ao ler este livro, cuja reflexão (casualmente no actual envolvimento do 13 de Maio em Fátima e das nossas Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres…) vivamente recomendo, não pude deixar de recordar, para além de toda a notável produção histórica, historiográfica, geo-antropológica e cultural do Prof. José Mattoso, o magnífico convívio e diálogo-debate que com ele mantivemos no Departamento Cultural do Colégio Universitário Pio XII, em Lisboa, nomeadamente sobre comummente admirados Pensamento, História e Arte Medievais (desde S. Tomás de Aquino até às mais controversas críticas nominalistas e contemporâneas de Umberto Eco…), sob a égide e o tão lúcido empenho, previdente e prospetivo labor histórico-cultural do nosso saudoso Padre Joaquim António de Aguiar, e aonde tantos dos idênticos temas e cruciais problemas, aqui ainda presentes, foram também então confluente e harmoniosamente aflorados, em linhas de vida sapiente e sabedoria vivida que continuam, hoje como sempre, exemplarmente testemunhadas e coerentemente consubstanciadas nesta, tal como em todas as outras suas obras, trabalhos, afetos, narrativas e preces…
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Publicado em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 12.05.2012),
“Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 13.05.2012),

sábado, maio 05, 2012

Amargos sinais de Maio


O 1º. de Maio deste ano – efeméride mundialmente consagrada à Comemoração do Trabalho e à evocação das históricas lutas e conquistas dos Povos da Terra em prol do universal reconhecimento da dignidade, dos direitos e dos deveres dos Trabalhadores –, ficou marcado entre nós, para além das habituais manifestações sindicais e de outras mais ou menos festivas animações de salão, praça ou rua, por três acontecimentos cujo simbolismo e conteúdo reais merecem registo; a saber:

1) Os sucessivos atos de puro vandalismo (mutilação, destruição, roubo e incêndio!) de que foi vítima uma Exposição de Maios tradicionais esmeradamente trabalhada pelos alunos e professores das turmas de Educação Tecnológica da Escola Jerónimo Emiliano de Andrade, numa cinta urbana de Angra do Heroísmo aliás já useira e vezeira em destemperos, despautérios e criminalidades que crescem e conspurcam cada noite que se abre nas imediações do Corpo Santo, EDA, DI, Avenidas e ditas “docas” e locas do Porto das Pipas, em zona para-turística da desamparada e desalmada urbe Património Mundial…

2) O espantoso e degradante cenário de quase saque a prateleiras de todos os tipos de produtos de uma cadeia de supermercados – conquanto bem concorrencial e promocionalmente vendidos a saldo, ou facultados à carenciada mas legítima e compreensível compra por pobres e médias bolsas e por conta de uns apelativos descontos de 50% –, naquilo que nacional, humilhante e pouco docemente pingou como que em traslados de miséria, pré-catástrofe socioeconómica, açambarcamento de aflições, penúrias e prenúncio de armazenamento de rações para antecipatórios medos de sítio ou cerco…

3) A divulgação de um muito atento e crítico documento (intitulado Desemprego e Confiança) da Comissão Nacional Justiça e Paz de Coimbra, onde são detetadas e denunciadas muitas das angustiantes feridas e sinais do tempo que vivemos (desemprego, violência, falta de confiança, solidão, perda da autoestima, insanidade mental, implosão e instabilidade da estrutura familiar, desinformação, agiotagem financeira, despesismo e injustiças sociais, instabilidade legislativa, legislação laboral inadequada, condicionantes e penalizações empresariais, morosidade judicial, deficientes fiscalizações, debilidade empresarial, desarticulação governamental e estratégica, etc.), – tudo isto contra o verdadeiro Bem Comum mas a favor e ao serviço da “manutenção de privilégios abjetos a uma ‘nomenklatura’ que, como sempre, situada na órbita ou dentro do poder político, se mantém incólume nos sacrifícios que são exigidos aos outros”, fazendo de Portugal um país anestesiado e adiado!

Ora todos estes fenómenos e indicadores, cada um ao seu nível de impacto e grau de gravidade local, regional e nacional, devem fundar outros tantos motivos de reflexão e um apelo também pessoal e ético a cada um dos nossos concidadãos, porquanto também e como, sem ilusões, retoma a CNJP da Carta Octogesima adveniens,  podem-se “alterar estruturas e criar novos métodos de gestão e decisão”, o que sendo “necessário nunca será suficiente, enquanto não percebermos o quanto as soluções dependem da conversão pessoal em mentalidade e nos comportamentos”. E assim então:

– “Seria bom que cada um procurasse examinar-se para ver o que é que já fez até agora e aquilo que deveria fazer. Não basta recordar os princípios, afirmar as intenções, fazer notar as injustiças gritantes e proferir denúncias proféticas; estas palavras ficarão sem efeito real se não forem acompanhadas, para cada um em particular, de uma tomada de consciência mais viva da sua própria responsabilidade e de uma ação efetiva. É por demais fácil alijar sobre os outros a responsabilidade das injustiças se se não dá conta, ao mesmo tempo, de como se tem parte nelas e de como a conversão pessoal é algo necessário, primeiro que tudo o mais”.
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Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 05.05.2012); “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 05.05.2012);

sábado, abril 28, 2012

Ruturas e Esconjuros


De entre todas as variadas e díspares figuras de retórica, laudes de cobertura tácita e rejeição ou conivência face às hipotecas e tuteladas políticas governamentais do presente e ao infeliz e opressivo estado em que a nossa Nação caiu, e aonde cada dia que passa mais se afunda… – a par de outras tantas lamúrias, demagogias fáceis ou alternativos juízos verdadeiramente realistas, críticos e responsáveis que integraram, em maior ou menor estilo, conteúdo e florido tom, os discursos oficiais saídos do seio dos partidos com assento e parlatório na Assembleia da República e dali retransmitidos para todo o País –, mereceu destaque e inusitada busca de explicitação compreensiva e mediática a afirmação do atual líder da bancada socialista sobre a possibilidade do PS fazer “uma rutura democrática com quem baixar os braços”, com “quem ousar tentar destruir numa legislatura o que levou décadas a construir”, lá se adiantando ainda que os maiores adversários do 25 de Abril são “o saudosismo, o revivalismo ou o reviralho”, a “estagnação”, o “alheamento” e tudo o que daí decorreria como "captura ideológica ou idiossincrática"!

Ora a enunciação rutura democrática – e foi precisamente essa a frase que maior impacto então gerou – faz parte, desde há muito, de um paradigmático léxico político-jurídico e institucional, constituindo mesmo uma das expressões mais consagradas no discurso da Filosofia, da Economia e da Sociologia políticas e no processo prático da transição histórica para a Democracia de algumas sociedades europeias e latino-americanas, além de ter até constado do interrogante título de um conhecido livro do velho eurocomunista espanhol Santiago Carrillo e de um antigo documento estratégico do PSOE, ambos datados de ibéricos tempos idos (e quem sabe se vindouros…) de resistência e refundação sociopolítica, cultural e partidária…

– Mas, mesmo entre nós, a expressão não é inédita, nem antiga, nem sequer exclusiva do PS, porquanto ela foi, bem recentemente, usada também pelo PCP (em 2011) e por Francisco Louçã (em 2009). E talvez até devesse ser, urgentemente, reaplicada ainda à própria vida interna do Partido Socialista e às suas últimas e pouco honrosas heranças e lideranças nacionais!

Porém assim, embora com sentidos, alcances e objetivos diferentes, todos e cada um dos nossos partidos de esquerda, a seu modo e ciclicamente, vem reclamando por reais ruturas democráticas e tempos novos, – coisas e valores aliás bem necessários para esconjurar fatalidades e favas supostamente contadas na triste e resignada vida dos portugueses, enquanto tardam, neste Maio de giestas, outras e mais justas florações (esquecidas ou apenas adiadas no nosso País…).
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Publicado em:
“Diário Insular” (28.04.2012), "Diário dos Açores" (28.04.2012),
RTP-A: http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?headline=14&visual=10

sábado, abril 21, 2012

Uma História de Respostas



Em 1975 – estudante universitário, então professor provisório de Língua Portuguesa e de História, e ainda jovem mas já militante e dirigente do Partido Socialista… –, tive a incumbência (por parte do PS em Angra do Heroísmo) e a feliz e saudosa oportunidade, durante alguns dias, de acompanhar pessoalmente António Barreto na sua primeira deslocação à ilha Terceira, sendo que esta lembrada visita daquele sociólogo e futuro ministro ao nosso Arquipélago se realizou então com vista à preparação de um subsequente trabalho destinado à elaboração de um conjunto de propostas e de um programa de ação económica para os Açores, constituindo aliás e também o primeiro, mais consistente e sistemático estudo da realidade socioeconómica açoriana preparado por um partido político a seguir ao 25 de Abril.

– Como talvez valha a pena recordar agora, para bom e mau entendedor, em vésperas de mais uma efeméride da Revolução dos Cravos, no opressivo contexto nacional e também no quase pré-eleitoral andamento em que por cá vivemos, o referido Relatório, posteriormente concluído por António Barreto (com a assinalável colaboração de Henrique Oliveira) e depois publicado com o título de Resposta Socialista ao Desafio Açoriano (1976) pelas Federações Açorianas do Partido Socialista e pelo Núcleo de Apoio em Lisboa ao PS dos Açores, começava logo por elencar “um conjunto relativamente coerente de medidas de política económica” cujos efeitos deveriam ser “estimados para a construção de um modelo de desenvolvimento em que se alicerce um plano económico para os Açores”…

Sem confundir-se com outros díspares documentos praticamente seus contemporâneos – por exemplo, o Programa de Governo Regional do PPD (1976) ou a publicação coletiva Que futuro para os Açores? (Editorial Caminho, 1978), vinda da área do PCP e da autoria de Borges Coutinho, Soares de Melo, Carlos Enes, J. Bettencourt e Victor Ávila –, talvez que as suas releituras e mútuos cotejos bem proveitosos ainda fossem para as heranças, os desafios e as respostas de hoje… 
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Publicado em:
“Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 21.04.2012),
e “Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 22.04.2012).

segunda-feira, abril 16, 2012

Os Fechos da Noite

Não é certamente novidade para ninguém que o consumo de álcool e de outras drogas representa um problema psicossocial e de saúde pública que atinge gravemente a nossa sociedade, sendo que este complexo fenómeno e compósita maleita começa a ganhar proporções epidémicas e um grau de manifestação já muito preocupante, não só entre camadas da população açoriana historicamente mais vulneráveis e atingidas por tal flagelo, quanto agora também e cada vez mais precocemente em escalões etários que chegam quase até à pré-adolescência!

– Várias são as razões para esta triste e preocupante realidade, e tanto para a sua decorrente morbi-mortalidade como para a respetiva e intrínseca força patogénica, que assentam – como é sabido – “por um lado, nos fatores socioculturais, envolvendo costumes, tradições e falsos conceitos transmitidos ao longo de gerações e determinando os hábitos, atitudes e comportamentos e, por outro, nas particularidades de um meio caracterizado por uma produção fértil e uma desmesurada e cega oferta de bebidas alcoólicas”, estando parte relevante e integrante de muito disto, como é salientado num conhecido documento da DGS, ainda compreensivelmente “na origem da elevada alcoolização geral da população do nosso país”, e tanto mais quanto é neste contexto que os indivíduos estabelecem os seus convívios precoces com o álcool, “encontro que, muitas vezes, se dá mesmo antes do nascimento”! E depois, sublinhe-se que, em termos políticos e socio-económicos, “grandes mudanças no consumo de álcool se encontram associadas às mudanças sociais”…

Ora – e mesmo sem introduzir hoje mais alguns dos últimos indicadores e fatores exponencialmente indutores ou potenciadores dos gravíssimos e interligados problemas aqui referidos –, recordemos que grande parte da impunidade civil e criminal, da permissão e da permissividade mutuamente implicadas nas suas generalizadas (quando não mesmo programadas!) facilitações, está ligada a toda uma cadeia nacional, regional e municipal de legislação conivente ou institucionalmente débil, como bem recentemente se constatou em Angra do Heroísmo, ao lado de consentidos e recorrentes cenários degradantes, pipas de negócio agiota e droguista, e quase total ausência de fiscalização, ao mesmo tempo que se continua a escancarar ou a prolongar contraproducente, mas concertada e festivaleiramente, as portas e os fechos da noite a toda uma medonha, alienante e irresponsável hipoteca global e sistémica sobre o presente das famílias e o futuro das novas gerações da nossa terra!
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Outra versão em "Diário Insular" (14.04.2012)
Publicado em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 15.04.2012),

sábado, abril 07, 2012

Restauração e Resistência




J. H. Oliveira Marques, num texto conhecido, antes de salientar que “nacionalidade não implica necessariamente independência” e que a Restauração de 1640, se justificada pelo seu enquadramento nacional, carecia de ser explicada por grande número de outros fatores, elencou justamente de entre estes os seguintes:

– A necessária e natural articulação da individualidade cultural com a independência política; a conjuntura económica dos impérios português e espanhol; o posicionamento das classes, formações e grupos socioprofissionais e sociorreligiosos; as situações político-militares da Europa (aí incluídas as revoltas regionais da Biscaia e a rebelião nacionalista da Catalunha…) balizadas pelos sucessivos reposicionamentos estratégicos da França, da Holanda e da Inglaterra, a par e no contexto conflitual dos vários pontos de vista teórico-jurídicos e diplomáticos, por sua vez ainda situados no quadro militar puro e próprio de um processo revolucionário e de renacionalização como foi o que se seguiu à insurreição restauracionista portuguesa do século XVII…

E outro historiador (Joaquim Veríssimo Serrão), ainda propósito da mesma Restauração, não deixou de acentuar que ela representa “um período bem definido da história portuguesa”, que se impôs pela “unidade temporal que define uma grande realidade histórica”, tendo constituído uma retoma da “plena consciência do sentimento nacional”, pelo que assim deveria ser encarada na sua plena “unidade de pensamento e de ação”!

Ora perspetivando criticamente hoje qual o sentido que poderia ter para nós repensar os desafios de outras tantas e tão urgentes restaurações contemporâneas, e aquilo que no nosso desditoso País histórica e simetricamente se reproduz, ou aqui contraditoriamente se opõe na geografia mental, sociopolítica e patriótica do nosso Povo em alturas de crise com a que vivemos (mutação social, usurpação de direitos e de chamadas ao dever…) –, é de lamentar tudo o que se passou com o saneamento, agora abusivamente decretado em Lisboa, do feriado comemorativo da Restauração, já que o mesmo poderia ter continuado a ajudar a sinalizar muito dessa decisiva cultura de independência, de justa resistência e de solidária mobilização nacional…

– Mas não hão de faltar, por certo, outras ocasiões, desde a mais humilde freguesia às tribunas e ruas das maiores cidades, para um libertador reajuste dos símbolos, dos ideais e dos meios de regeneração comunitária, institucional e individual, no atual contexto de quase idênticas fatalidades, decadência e injusta submissão…
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Publicado em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 06.04.2012),
“Diário dos Açores” (Ponta Delgada, 08.04.2012)


sábado, março 31, 2012

A Leitura dos Desafios



Se há vocábulo cujas significativas e sugestivas aplicações e integrações expressivas estejam muito presentes no título de muitas obras ensaísticas ou de reflexão crítica e sistemática, tal é certamente o caso da palavra desafio.

De facto, deixando de parte algumas letraduras mais ou menos baratas ou vulgares, desde a essencial e relevante pertença aos mais fundamentais domínios conceptuais da Filosofia, da Sociologia, da Historiografia, da Política, da Economia, etc., até aos mais circunscritos âmbitos do seu uso no panfletarismo partidário, no colunismo opinativo ou naquele tipo de jornalismo que Maupassant classificou como próprio de alguns “retalhistas da comédia humana” (e também da sua reversa e trágica existência…) –, não há dúvida que o emprego daquela voz pode ser encontrado em múltiplos registos discursivos e argumentativos sempre em voga e mediática cena…

– E isto para já nem falarmos das regionais cantigas ao desafio, de tão grande tradição no nosso popular cultivo de artes de improviso e disputa de razões versejadas, quando não, em versão prosaica daquelas (embora tantas vezes em mal rimadas ou menos arrimadas formas), em certos debates e bate-papos que animam, à falta de melhor, a nossa estafada atividade político-partidária, a par de pobres arranjos noticiaristas que sobre tudo isso vão sendo taticamente congeminados aqui ao lado de tantos dos mais incríveis painéis e live-talks televisivos que quotidianamente invadem as nossas pantalhas, iludindo as consciências e escamoteando a verdade nua e crua da nossa realidade vivida!

Todavia, por entre tanta literatura e doutrinação política, também produzida nos Açores de há umas décadas para cá, talvez valha a pena relembrar que alguma dela contém, tanto na intitulada fraseologia como nos seus pertinentes conteúdos, precisamente aquele termo desafio

– Talvez por isso, como ir-se-á ver por estes dias, a sua releitura atualizada seja novamente urgente, para repouso de alguns espíritos inquietos e desassossego de muitos mais!
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Publicado em "Diário Insular" (Angra do Heroísmo, 31.03.2012),
"Correio dos Açores" (Ponta Delgada, 01.04.2012),

sexta-feira, março 23, 2012

A Diplomacia dos Interesses



O anúncio, agora tornado público, de que nos já bem próximos meses de maio e junho irão prosseguir os contactos trilaterais, contratos militares e negociações diplomáticas entre Portugal, os EUA e a NATO, com vista à reperspectivação efetiva e à redefinição logística e estratégica da presença militar aliada – mas estrangeira – na Base portuguesa das Lajes, não deixou nem deverá poder deixar de continuar a merecer o conveniente, necessário e competente acompanhamento possível (e nacionalmente permitido…) por parte da Região Autónoma dos Açores e dos seus órgãos político-institucionais, sociais e constitucionalmente representativos.

– Não sendo a questão em si propriamente inédita nem sequer imprevisível – e exatamente por isso, pelo menos e desta feita de há um certo tempo para cá… – é que, uma vez mais, o posicionamento desintegrado e descoordenado açoriano tem merecido entre nós algumas críticas severas, muitas delas com evidente fundamento na realidade dos factos, atos e omissões (do País e dos Açores...) nesta importante matéria!

Porém e assim talvez conviesse relembrar que, faz agora precisamente um ano, o anterior ministro português da Defesa (Augusto Santos Silva) haveria de deslocar-se aos EUA precisamente para “discussões” sobre o comando da NATO em Oeiras, a Base das Lajes e participação de firmas lusas em concursos militares norte-americanos, estando igualmente então em agenda a forma como ia ser feito “o alargamento e reparação da pista da Base das Lajes”, e a tentativa de urdir que empresas portuguesas, “do setor de Segurança e Defesa”, conseguissem “mais informação para participar em concursos” nos Estados Unidos!

E isto acontecia quase em coincidência com os suportes logísticos de projeção, abastecimento e retroação de força envolvendo as Lajes e planeados para a intervenção aliada na Líbia, de acordo com a estratégia da Operation Unified Protector, decorrente da Resolução 1973 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, e dos quais, por exemplo, é conhecido e foi muito paradigmaticamente elogiado o apoio local (alojamento de tripulações e segurança) prestados à aeronave E-3 Sentry, sedeada na Base Aérea de Tinker (552nd Air Control Wing), em regresso a casa (no Oklahoma), via Lajes, após serviço de apoio prestado a missões da NATO…

– Ora é por estas e por outras do mesmo jaez que os Açores não podem deixar de permanecer informada e competentemente acompanhantes de todo este complexo processo negocial português da Base das Lajes, à luz do presente mas sem esquecer as experiências passadas, e também sem confundir os interesses estratégico-militares com as vertentes diplomáticas, económico-financeiras e sócio-jurídicas das diversas (e amiúde adversas…) partes aqui envolvidas!
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Publicado em "Diário dos Açores" (Ponta Delgada, 25.03.2012),
RTP-A: http://tv2.rtp.pt/acores/index.php?headline=14&visual=10,
Azores Digital: http://www.azoresdigital.com/ler.php?id=2211&tipo=col

e Os Sinais da Escrita: http://sinaisdaescrita.blogspot.pt/.
Outra versão em “Diário Insular” (Angra do Heroísmo, 24.03.2012).